AS ILUSES ARMADAS
A Ditadura Escancarada
ELIO GASPARI
A Ditadura
Escancarada
1- reimpresso
COMPANHIA DAS LETRAS
Copyright  2002 by Elio Gaspari
PROJETO GRFICO E CAPA        ASSISTNCIA EDITORIAL
Raul Louceiro        Rosangela de Souza Mainente
Cristina Yamazaki
FOTOS DA CAPA        Miguel Said Vieira
Capa: Barreira militar, Rio de Janeiro, 1969        Danilo Nicolaidis
(Iconographia)        Clarice Cohn
Lombada: Cartaz de pessoas procuradas pelo        Adriana Alves 
Loche
governo. Os dois de cima so Carlos Lamarca        Luiz Alberto 
Couceiro
e lara Iavelberg (Iconographia)        Claudia Agnelli
Quarta capa: D. Helder em Paris (Abril Imagens)
NDICE REMISSIVO
EDIO DE TEXTO        Silvia Penteado
Mrcia Copola
REVISO
PESQUISA ICONOGRFICA        Beatriz de Freitas Moreira
Companhia da Memria        Maysa Mono
Coordenao: Vladimir Sacchetta
Pesquisa: Ricardo Braule Pereira
Apoio: Dedoc  Departamento de Documentao
da Editora Abril
Reprodues fotogrficas: J. S. Rangel
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (c
(Cmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)
Gaspari, Ruo
A ditadura escancarada / Elio Gaspari.        So
Paulo Companhia das Letras, 2002.
Bibliografia.
SBN 85-359-0299-6
1. Brasil - Histria - 1968-19732. Ditadura. Ttulo.
02-5686        eo
ndice para catlogo sistemtico:
1. Brasil: Regime militar: 1968-1973: Histria 98 1.08
2002
Todos os direitos desta edio reservados 
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Rua Bandeira Paulista 702 cj. 32
04532-002  So Paulo  SP
Telefone (11) 3167-0801
FaX (11) 3167-0814
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Para Dorrit
9        Abreviaturas e siglas
13        Explicao
PARTE 1        15        O choque
17 A praga
Ador
A tigrada d o bote
A Operao Bandeirante, Oban
69 O bartono se cala
87 O grande golpe
105 Caos de estrelas
125 Milito, Medice, Medici
PARTE        139        A derrota
141        Marighella, incio e fim
159        A histria dos mortos
175        DOI
191        A ratoeira
207        O Milagre e a mordaa
SUMRIO
PARTE III        223        A vitria
225        Uma elite aniquilada
243        A soberba de Lcifer
271        O Brasil difamado
293        Pra trs, Brasil
311        Nada a fazer
A marcha de Cirilo
PARTE IV 359 A gangrena
361 A gangrena
377 A matana
A floresta dos homens sem alma
AP        465        Breve nomenclatura militar
469        Cronologia
477        Fontes e bibliografia citadas
489        ndice remissivo
ABREVIATURAS E SIGLAS
Abreviaturas utilizadas
AA        Arquivo do Autor
AACM/CPDOC Arquivo do General Antonio Carlos Muricy
APGCS/HF        Arquivo Privado de Golbery do Couto e Silva/Heitor 
Ferreira
APRPCF        Arquivo Privado de Romualdo Pessoa Campos Filho
BLBJ        Biblioteca Lyndon B. Johnson
DEEUA        Departamento de Estado dos Estados Unidos da 
Amrica
Siglas gerais
ALN        Ao Libertadora Nacional
AP        Ao Popular
APML        Ao Popular Marxista-Leninista
Arena        Aliana Renovadora Nacional
Bovespa        Bolsa de Valores de So Paulo
ccc        Comando de Caa aos Comunistas
CNBB        Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil
Colina        Comando de Libertao Nacional
Comintern        Comit Internacional Comunista (uRss)
CPDOC        Centro de Pesquisa e Documentao de Histria
Contempornea do Brasil da Fundao Getulio Vargas
Embraer        Empresa Brasileira de Aeronutica S.A.
Embrafilme        Empresa Brasileira de Filmes S.A.
Embratel        Empresa Brasileira de Telecomunicaes S.A.
FAL        fuzil automtico leve
FALN        Foras Armadas de Libertao Nacional
FIESP        Federao das Indstrias do Estado de So Paulo
FLN        Frente de Libertao Nacional (Arglia)
10        A DITADURA ESCANCARADA
GMT Greenwich Mean Time
GTA Grupo Ttico Armado
Ibrades        Instituto Brasileiro de Desenvolvimento
IBV ndice da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro
ips Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais
JB Jornal do Brasil
JEC Juventude Estudantil Catlica
juc Juventude Universitria Catlica
LEC Liga Eleitoral Catlica
MAR Movimento de Ao Revolucionria
MASP Museu de Arte de So Paulo Assis Chateaubriand
MDB Movimento Democrtico Brasileiro
Molipo        Movimento de Libertao Popular
MR-8 Movimento Revolucionrio 8 de Outubro
M RT Movimento Revolucionrio Tiradentes
OES Organizao do Exrcito Secreto (Arglia)
c do B        Partido Comunista do Brasil
PCB Partido Comunista Brasileiro
PCBR Partido Comunista Brasileiro Revolucionrio
PCR Partido Comunista Revolucionrio
PNB produto nacional bruto
Polop Organizao Revolucionria Marxista  Poltica Operria
PTB Partido Trabalhista Brasileiro
puc Pontifcia Universidade Catlica
REDE Resistncia Nacional Democrtica Popular
UDN Unio Democrtica Nacional
UNE Unio Nacional de Estudantes
VAR Vanguarda Armada Revolucionria
VPR Vanguarda Popular Revolucionria
Siglas governamentais
AC        Ato Complementar
AI        Ato Institucional
CDDPH        Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana
CIA        Central Intelligence Agency (EUA)
Detran        Departamento de Trnsito
DOPS        Delegacia de Ordem Poltica e Social
EBI        Federal Bureau of Investigation (EUA)
Geipot        Grupos de Estudos para a Integrao da Poltica de 
Transportes
IBGE        Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica
IML        Instituto Mdico Legal
ABREVIATURAS E SIGLAS        11
INCRA        Instituto Nacional de Colonizao e Reforma Agrria
Prorural        Programa de Assistncia ao Trabalhador Rural
PIS        Plano de Integrao Social
SNI        Servio Nacional de Informaes
STF        Supremo Tribunal Federal
Sudene        Superintendncia do Desenvolvimento Econmico do 
Nordeste
UFRJ        Universidade Federal do Rio de Janeiro
us        Universidade de So Paulo
Siglas militares
AMAN        Academia Militar das Agulhas Negras
BIB        Batalho de Infantaria Blindada
BIS        Batalho de Infantaria da Selva
Cenimar        Centro de Informaes da Marinha
CEP        Centro de Estudos de Pessoal
GTE        Centro de Informaes do Exrcito
CISA        Centro de Informaes e Segurana da Aeronutica
CODI        Centro de Operaes de Defesa Interna
CPOR        Centro de Preparao de Oficiais da Reserva
DOI        Destacamento de Operaes Internas
DPG        Departamento de Proviso Geral
EME        Estado-Maior do Exrcito
EMFA        Estado-Maior das Foras Armadas
ESAO        Escola de Aperfeioamento de Oficiais
ESCEME        Escola de Comando e Estado-Maior do Exrcito
FAB        Fora Area Brasileira
FEB        Fora Expedicionria Brasileira
HCE        Hospital Central do Exrcito
IPM        Inqurito Policial-Militar
Oban        Operao Bandeirante
Para-Sar        Esquadro Aeroterrestre de Salvamento
da Fora Area Brasileira
PE        Polcia do Exrcito
PM        Polcia Militar
QG        quartel-general
RI        Regimento de Infantaria
STM        Superior Tribunal Militar
ZDI        Zona de Defesa Interna
EXPLICAO
Escancarada, a ditadura firmou-se. A tortura foi o seu 
instrumento extremo de coero e o extermnio, o ltimo 
recurso da represso poltica que o Ato Institucional n 5 
libertou das amarras da legalidade. A ditadura envergonhada 
foi substituda por um regime a um s tempo anrquico nos 
quartis e violento nas prises. Foram os Anos de Chumbo.
Este livro trata do perodo que vai de 1969, logo depois da 
edio do AI-5, ao extermnio da guerrilha do Partido 
Comunista do Brasil, nas matas do Araguaia, em 74. Foi o mais 
duro perodo da mais duradoura das ditaduras nacionais. Ao 
mesmo tempo, foi a poca das alegrias da Copa do Mundo de 
1970, do aparecimento da TV em cores, das inditas taxas de 
crescimento econmico e de um regime de pleno emprego. Foi o 
Milagre Brasileiro.
O Milagre Brasileiro e os Anos de Chumbo foram simultneos. 
Am bos reais, coexistiram negando-se. Passados mais de trinta 
anos, continuam negando-se. Quem acha que houve um, no 
acredita (ou no gosta de admitir) que houve o outro.
Nas pginas que vo adiante, esto os dois. Se nelas h mais 
do chumbo que do milagre, isso se deve  convico do autor 
de que a tortura e a coero poltica dominaram o perodo. A 
tortura envenenou a conduta dos encarregados da segurana 
pblica, desvirtuou a atividade dos militares da poca, e 
imps constrangimentos, limites e fantasias aos prprios 
governos ditatoriais.
PARTE i O choque
1
A praga
Os oficiais-generais que ordenaram, estimularam e defenderam 
a tortura levaram as Foras Armadas brasileiras ao maior 
desastre de sua histria. A tortura tornou-se matria de 
ensino e prtica rotineira dentro da mqui na militar de 
represso poltica da ditadura por conta de uma antiga 
associao de dois conceitos. O primeiro, genrico, 
relaciona-se com a concepo absolutista da segurana da 
sociedade. Vindo da Roma antiga (A segurana pblica  a lei 
suprema), ele desemboca nos pores: Contra a Ptria no h 
direitos informava uma placa pendurada no saguo dos 
elevadores da polcia paulista. Sua lgica  elementar: o 
pas est acima de tudo, portanto tudo vale contra aqueles 
que o ameaam. O segundo conceito associa-se  funcionalidade 
do suplcio. A retrica dos vencedores sugere uma equao 
simples: havendo terroristas, os militares entram em cena, o 
pau canta, os presos falam, e o terrorismo acaba. Como se 
vangloriou o general Emilio Garrastaz Medici, mais de dez 
anos depois de ter deixado o poder: Era uma guerra, depois 
da qual foi possvel devolver a paz ao Brasil. Eu acabei com 
o terrorismo neste pas. Se no aceitssemos a guerra, se no 
agssemos drasticamente, at hoje teramos o terrorismo
A ao policial da ditadura foi rotineiramente defendida como 
resposta adequada e necessria  ameaa terrorista. O general 
Ernesto Geisel,
 1 Percival de Souza, Autpsia do medo, p. 183.
2 Entrevista do ex-presidente Emilio Garrastaz Medici ao 
jornalista Antonio Carlos Scartezini,
em Scartezini, Segredos de Medici, p. 36.
18        A DITADURA ESCANCARADA
num depoimento aos historiadores Maria Celina dAraujo e 
Celso Castro, desenvolveu esse raciocnio justificativo: Era 
essencial reprimir. No posso discutir o mtodo de represso, 
se foi adequado, se foi o melhor que se podia adotar. O fato 
 que a subverso acabou. Esse raciocnio ampara-se na 
exacerbao da ameaa. Tratando-a como algo excepcional, 
justifica a excepcionalidade da reao.
No caso brasileiro, faltou ao surto terrorista a dimenso que 
lhe foi atribuda. S no segundo semestre de 1970 explodiram 
140 bombas nos Estados Unidos, nmero superior, de longe, a 
todas as exploses ocorridas no Brasil. Em 1971, na Irlanda, 
detonaram-se mais de mil bombas, e as foras de segurana 
perderam 59 homens em combate. Em nenhum dos dois pases a 
tortura foi transformada em poltica de Estado. Ademais, essa 
argumentao confunde mtodo com resultado. Apresenta o 
desfecho (o fim do terrorismo) como justificativa do meio que 
o regime no explicitava (a tortura). Arma um silogismo:  
preciso acabar com o terrorismo, a tortura acabou com o 
terrorismo, logo fez-se o que era preciso.
 comum condenar a tortura com juzos ticos e morais. De 
todas as linhas de resistncia a essa praga, a corrente moral 
 provavelmente a que exerce maior atrao, mas tambm a de 
influncia menos mensurvel. Ela enobrece a militncia da 
denncia, mas se tem a capacidade de mobilizar sentimentos,  
ineficaz quando se trata de conter o presidente, ministro ou 
general que j atravessou a linha divisria da moralidade. 
Dado esse passo, a questo tica torna-se irrelevante. Para a 
maioria das pessoas a tortura  condenvel por imoral, mas  
a minoria que despreza esse aspecto quem a pe em 
funcionamento.
No centro da questo, est a medida dos direitos dos presos. 
Em 1969,
o comandante da Academia Militar das Agulhas Negras, general 
Carlos
de Meira Mattos, informava: Em nenhum lugar do mundo o 
terrorista
 considerado um combatente. [ A ao do combatente ainda se 
emtende.
 3 Maria Celina dAraujo e Celso Castro (orgs.), Ernesto 
Geisel, pp. 223-4.
4 Para as bombas americanas, John B. Judis, Theparadox 
ofAmerican democracy, p. 95.
5 Tony Geraghty, The Irish War, p. 41.
6 Edward Peters, Torture, p. 81.
A PRAGA        19
 Para ele pode-se admitir um tratamento diferente. Mas para o 
que
incendeia e seqestra, no
H na argumentao de Meira Mattos um eco da experincia da 
Batalha de Argel, onde os pra-quedistas do exrcito francs, 
comandados pelo general Jacques Massu, instalaram a tortura 
como poltica de Estado na represso ao terrorismo da Frente 
de Libertao Nacional. Desde 1957 um documento do estado-
maior de Massu negava aos combatentes argelinos a proteo 
das leis de guerra e recomendava que todo indivduo 
pertencente a uma organizao terrorista que venha a cair nas 
mos das foras da ordem ser interrogado imediatamente, sem 
contem plao, pela mesma tropa que o tiver capturado O 
general informou anos depois que o mtodo de tortura mais 
comum nas suas unidades era a eletricidade, atravs do uso 
de geradores de equipamentos de comunicaes Eu a 
experimentei, no incio de 1957, em meu gabinete de Hydra, e 
a maioria dos meus oficiais fez a mesma coisa, escreveu 
Massu, retrato do pra-quedista valente, sentimental e mal-
encarado, veterano da Se gunda Guerra e da reconquista da 
Indochina, em 1945.
A tortura  filha do poder, no da malvadeza. Como argumentou 
Jean Paul Sartre: A tortura no  desumana;  simplesmente 
um crime ignbil, crapuloso, cometido por homens [ O desumano 
no existe, salvo nos pesadelos que o medo engendra A 
natureza imoral dos suplcios desaparece aos olhos daqueles 
que os fazem funcionar, confundindo-se primeiro com razes de 
Estado e depois com a qualidade do desempenho
 7 Entrevista do general Carlos de Meira Mattos a Raimundo 
Rodrigues Pereira, Veja, 1 de outubro de 1969.
8 Nota do estado-maior da 1O Diviso de Pra-Quedistas 
Coloniais, em Jacques Massu, La vraie Batailie dAlger, p. 
49.
9 Jacques Massu, La vraie Batailie dAlger, pp. 165 e 82. O 
general Paul Aussaresses, em suas me mrias, menosprezou a 
descarga que Massu recebeu e disse que ela lhe foi aplicada 
por cortesos Se fosse eu a tortur-lo, teria aplicado 
exatamente o mesmo tratamento que dava aos suspeitos, 
Services spciaux, p. 156. Como major, Paul Aussaresses foi 
um pioneiro da tortura francesa na Arglia. Intitulou-se 
maestro da orquestra do contraterror Veio a ser adido 
militar da Frana no Brasil entre 1973 e 1975, com a patente 
de general. Para o ttulo, Aussaresses, Services spci aux, 
p. 124. Para o cargo, Folha de S.Paulo, 15 de junho de 2001.
10 Jean-Paul Sartre, Uma vitria, prefcio  edio 
brasileira de A tortura, de Henri Alleg. Citado em Alfredo 
Naffah Neto, Poder, vida e morte na situao de tortura, pp. 
9-10.
20        A DITADURA ESCANCARADA
que d s investigaes. O fenmeno ocorre em dois planos. 
Num est a narrativa da vtima, com seus sofrimentos. No 
outro, a do poder, com sua rotina e a convico da 
infalibilidade do mtodo. Para presidentes, ministros, 
generais e torcionrios, o crime no est na tortura, mas na 
conduta do prisioneiro.  o silncio, acreditam, que lhe 
causa os sofrimentos inteis que podem ser instantaneamente 
suspensos atravs da confisso. Como argumentava o bispo de 
Diamantina, d. Geraldo de Proena Sigaud, confisses no se 
conseguem com bombons
No exame dessa praga deve-se ter sempre presente que nela 
esto envolvidos tipos distintos de agentes. H o torturador, 
que no montou a mquina. Sartre insiste:  a tortura que 
faz o torturador O tenente Ailton jamais daria sua aula de 
tortura num salo do quartel da PE da Vila Militar se temesse 
a reao dos seus comandantes. Acima dele est o agente, 
decisivo e beneficirio direto da questo do poder. Ele 
sanciona a mquina, mas no toca nos presos. Quando um 
oficial lecionava tc nicas de tortura na Vila para uma 
platia de cem oficiais e sargentos das trs Foras Armadas, 
o ministro do Exrcito, general Lyra Tavares, j estava em 
campanha para tomar uma cadeira na Academia Brasileira de 
Letras, ascendendo assim  glria da imortalidade Na mesma 
poca em que o tenente demonstrava, num quartel, durante o 
expediente, o que se faz clandestinamente no pas, o 
general assinava um manifesto admitindo que eram praticados 
abusos, por mais que os condenem e reprimam as autoridades 
responsveis pela ordem pblica)
A convivncia desses dois personagens d-se atravs de um 
processo desgastante para a hierarquia. Salvo na Alemanha 
hitlerista e na Unio Sovitica dos expurgos de Stalin, todas 
as ditaduras que sancionaram a tortura negaram sua 
existncia. Disso resulta uma ambigidade que vai dos 
palanques das autoridades s cafuas.
11 Entrevista de d. Geraldo de Proena Sigaud ao La Croix, em 
Ralph delia Cava (org.), A Igreja
em flagrante  Catolicismo e sociedade na imprensa 
brasileira, 1%4-1 980, p. 149. D. Sigaud disse
essa mesma frase em Roma, no dia 13 de julho de 1970. 
Telegrama da agncia France Presse, de
14 de julho.
12 Jean-Paul Sartre, prefcio  edio americana de The 
question, de Henri Alleg, p. 22.
13 Comunicado dos ministros militares de 6 de setembro de 
1969, em Aurelio de Lyra Tavares, O
Brasil de minha gerao, vol. 2, pp. 254 e 219.
A PRAGA        21
O Centro de Informaes do Exrcito produziu uma apostila 
intitulada Interrogatrio. Suas 49 pginas permitem o exame 
dessa ambigi dade no seu nvel mais baixo, o operacional. 
Ela informava que a liber dade de atuao dos interrogadores 
dever estar subordinada ao prescrito em leis e regulamentos, 
e delimitada por diretrizes emanadas das auto ridades 
responsveis pela Segurana Interna: Se os interrogadores 
deviam respeitar as leis, pouca importncia teriam as 
diretrizes, O trabalho do dE  um dilogo da ambigidade:
No cravo: Uma agncia de contra-informaes no  um 
Tribunal de Justia. [ 1 Deve ser decidido pelo governo qual 
a prioridade a ser da da  utilizao dos elementos 
capturados ou presos, isto , se dirigida ao processamento 
judicial, ouse voltada para os interesses das informaes:
Na ferradura: Os princpios bsicos para o tratamento de 
pessoas sob priso ou deteno, durante as operaes de 
segurana interna, esto contidos no artigo 3 da Conveno de 
Genebra. Estes princpios devem ser observados:  O uso da 
tortura  uma tcnica de interrogatrio ineficiente.
E no cravo: Ser necessrio, freqentemente, recorrer a 
mtodos de interrogatrio que, legalmente, constituem 
violncia. [ Se o prisioneiro tiver de ser apresentado a um 
tribunal para julgamento, tem de ser tratado de forma a no 
apresentar evidncias de ter sofrido coao em suas 
confisses:
A ambigidade obriga o governo a manter ao mesmo tempo uma 
situao mentirosa e um mundo clandestino.  comum que 
presidentes ou ministros neguem a existncia de delitos 
usualmente praticados em suas administraes. Assim sucede 
com as propinas, o contrabando e o trfico de influncia. Em 
todos esses casos, porm, o agente da ilegalidade tira 
proveito pessoal imediato da prpria delinqncia e aceita 
correr
14 Interrogatrio, apostila, marcada confidencial do Centro 
de Informaes do Exrcito, de 1971,
p. 7. . Cedida ao autor pelo jornalista Lus Nassif, que a 
divulgou na Folha de S.Paulo de 23 de
abril de 1995, pp. 1-8.
15 Idem,pp. 18e8.
16 Idem, pp. 9 e 22.
17 Idem, p. 8.
22        A DITADURA ESCANCARADA
o risco de transformar-se em bode expiatrio num surto 
moralizador da administrao. No caso da tortura, como a 
remunerao direta no exis te, o governo  obrigado a 
recompensar o funcionrio dentro dos critrios de mrito da 
burocracia. Enquanto um policial metido em contra bando 
jamais  promovido em funo do volume de suas muambas, o 
torturador  publicamente recompensado por conta de suas 
investigaes bem-sucedidas.
Uma das moedas postas em circulao pelo CIE foi a concesso 
aos torturadores da Medalha do Pacificador, condecorao 
meritria, cobiada por oficiais, polticos e empresrios, 
pois registrava o reconhecimento de atos de bravura ou de 
servios relevantes prestados ao Exrcito. O tenente Ailton 
Joaquim, chefe da seo de informaes da 18 Companhia do 
Batalho de Polcia do Exrcito da Vila Militar, recebeu a 
sua em 1970. S em So Paulo a tigrada ganhou noventa 
medalhas em trs anos. No se tratava de crach fcil: em 
1975 apenas 42 dos 769 capites da infantaria podiam coloc-
la na tnica. Deles, catorze a tinham no seu grau mais 
honroso, com palma, como Ailton Joaquim. Destes, seis 
haviam enfrentado a esquerda armada, e dois deles haviam sido 
feridos em combate.
A negao da tortura pela retrica do regime catapulta a 
tigrada
da condio de infratora  de intocvel. Quando ela mostra 
que pode fazer
 18 Para se ter uma idia da mgica do crach, quando um 
ajudante-de-ordens de Medici perguntou a Orlando Geisel por 
que a medalha ainda no havia sido dada aos dois filhos do 
presidente, que trabalhavam no Planalto, ele respondeu: E o 
que  que eles fizeram pelo Exrcito para merecer? Em 
Roberto Nogueira Mdici, Medici  O depoimento, p. 55. Para a 
relao entre a ao policial e a concesso da medalha, 
depoimento do general Rubens Bayma Denys, em Maria Celi na 
dAraujo e Celso Castro (orgs.), Militares e poltica na Nova 
Repblica, p. 83.
19 Sistema de Segurana Interna Sissegin, p. 41. Marcado 
secreto. A.
20 A concesso da palma destina-se, geralmente, a reconhecer 
atos de bravura, e na maioria dos casos ela foi concedida por 
motivos inteiramente estranhos s atividades do poro. 
Segundo a edio de 1975 do Almanaque do pessoal militar do 
Exrcito, os seguintes capites, entre outros, ti nham a 
medalha com palma: Alvaro de Souza Pinheiro, Sebastio 
Rodrigues de Moura (feridos em combate), Aluisio Madruga (do 
dE), Ailton Joaquim, Andr Leite Pereira Filho (do dE), Cel 
50 Seixas Marques e Eduardo de Oliveira Fonseca. Salvo Ailton 
Joaquim, todos estiveram no com bate  guerrilha do Araguaia.
A PRAGA 23
algo que o governo nega e condena, no se pode mais saber por 
onde passa a linha que separa o que lhe  permitido daquilo 
que lhe  proibido. O poro ganha o privilgio de uma 
legitimidade excepcional. A mentira oficial  o reverso da 
covardia da tortura. Atravs dela os hierarcas sinalizam um 
medo de assumir a responsabilidade por atos que apiam e 
recompensam. Caso clssico dessa fuga est na resposta do 
presidente uruguaio Juan Mara Bordaberry, em 1973, a trs 
professores que lhe enviaram denncias de torturas nos 
quartis: Caso existam, no esto autorizadas, pelo que as 
autoridades, incluindo-se o Presidente, no podem dispor 
sobre o fim do que no se ordenou
Ainda assim, h uma estranha fragilidade no embuste. De um 
lado,
 certo que se trata de uma mentira, pois o governo condena a 
tortura,
nega sua existncia, mas no aceita investigar as denncias 
que saem dos
pores. De outro  o lado pelo qual ela entra no mundo do 
torturador
  possvel que a prpria mentira seja mentirosa. Ou seja, a 
qualquer
momento a condenao dos torturadores pode se tornar verdade. 
Para
o torturador, o hierarca de discurso humanitrio  um 
mentiroso que poder frit-lo numa eventual mudana do clima 
poltico. Isso faz com que
a conduta da tigrada se torne potencialmente adversria do 
governo.
Ela suspeita que a vem como um bando de bobos descartveis, 
metidos
num servio sujo.
Um exemplo da dissimulao dos hierarcas pode ser encontrado 
numa explicao do ex-presidente Joo Baptista Figueiredo, em 
1996: Se houve a tortura no regime militar, ela foi feita 
pelo pessoal de baixo, por que no acredito que um general 
fosse capaz de uma coisa to suja, no aceito isso.
 Ou ainda nas memrias do ministro Jarbas Passarinho: 
Praticaram-na clandestinamente
A zanga da tigrada pode ser ouvida no depoimento do ex-
tenente do Exrcito Marcelo Paixo de Arajo, que torturou 
presos de 1968
21 Jos Luiz Baumgartner e outros, Os desaparecidos A 
histria da represso no Uruguai, p. 72.
22 Entrevista de Joo Baptista Figueiredo a Claudio Renato, O 
Estado de S. Paulo, 23 de dezem bro de 1996.
23 Jarbas Passarinho, Um hbrido frtil, p. 393.
24        A DITADURA ESCANCARADA
a 1971 nos pores do 122 RI, em Belo Horizonte: As altas 
autoridades do pas foram as primeiras a tirar o seu da reta. 
[ 1 Todos os agentes do governo que escreveram sobre a poca 
do regime militar foram muito comedidos. Farisaicos, at. No 
sabiam de nada, eram santos, achavam a tortura um absurdo. 
Quem assinou o AI-5? No fui eu. Ao suspender garantias 
constitucionais, permitiu-se tudo o que aconteceu nos pores
Na medida em que a responsabilidade desliza da sala de jantar 
para o poro, d-se a construo do esteretipo do torturador 
indisciplinado, emocionalmente desequilibrado. A realidade  
bem outra, pois a mquina, com suas recompensas, cria 
torturadores competentes, capazes de demonstrar as virtudes 
de seus mtodos atravs da qualidade do desempenho de suas 
investigaes. Quando a tortura  levada para dentro de 
instituies hierarquizadas e fortemente disciplinadas, 
produz-se uma burocracia da violncia. Uma de suas 
caractersticas foi percebida pela filsofa Hannah Arendt na 
personalidade de Adolf Eichmann: O problema com Eichmann era 
exatamente que muitos eram como ele, e muitos no eram nem 
pervertidos, nem sdicos, mas eram e ainda so terrvel e 
assustadoramente normais
O torturador maluco, vtima de uma perverso,  em geral um 
produto de fantasia poltica. Para a ditadura, funciona como 
um libi. Permite-lhe ter  mo a tese da insanidade do 
agente para salvar a honra do regime se algum dia a oposio 
conseguir provar os suplcios e identifi car os torcionrios. 
Essa construo acrobtica pode ser apreciada nas palavras do 
general Adyr Fiza de Castro, fundador do dE: Eu no admi to 
a tortura por sadismo ou vingana. Para obter informaes, 
acho vlida. Os hipcritas dizem que no, mas todo mundo usa. 
[ Isso  uma contingncia natural da humanidade. Nunca 
permiti [ 
Para aqueles que combatem a tortura sancionada pelo governo  
conveniente criar o caso com um tenente ou delegado, 
preservando-se de um
24 Entrevista de Marcelo Paixo de Arajo a Alexandre 
Oltramari, Veja, 9 de dezembro de 1998.
25 Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalm, p. 299.
26 Entrevista do general Adyr Fiza de Castro a Hlio 
Contreiras e Chico Otvio, O Estado de S.
Paulo, 31 de maio de 1993.
A PRAGA        25
choque com um general ou com um ministro. Em ambas as 
construes escala-se o torturador para um papel expiatrio 
que ele percebe desde o primeiro instante. Em resposta, 
articula-se nos pores uma rede de lealdades e 
comprometimentos que se infiltra na estrutura da mquina 
repressiva. Numa cartilha preparada pelo DOPS paulista em 
1973, o verbete Torturadores tinha a seguinte definio: 
Expresso utilizada pela subverso para designar todos 
aqueles que se empenham ou colaboram na priso de 
subversivosxxx
 terroristas Documento de circulao interna, a cartilha 
preocupava-se em insinuar que os torturadores no seriam s 
aqueles que espancavam presos, mas todos os que colaboravam 
no combate  subverso.
 falsa a suposio segundo a qual a tortura  praticada em 
defesa da sociedade. Ela  instrumento do Estado, no da lei. 
Pertence ao episdio fugaz do poder dos governantes e da 
noo que eles tm do mundo, e sobretudo de seus povos. 
Oficiais-generais, ministros e presidentes recorrem  tortura 
como medida de defesa do Estado enquanto podem se confundir 
com ele. Valem-se dela, em determinados momentos, contra 
determinadas ameaas, para atingir objetivos especficos.
Tanto os hierarcas como os torturadores pensam que esto de 
acor do num ponto: cessada a ameaa, cessar a violncia. Os 
presidentes, mi nistros e generais acreditam ser prerrogativa 
sua decidir quando a amea a acabou. Os torturadores tambm. 
Para desgraa de ambos e dos pases onde eles se juntam, 
raramente esses dois grupos se pem de acordo sobre a hora 
dexxx desligar a mquina. No porque haja entre eles uma 
insolvel divergncia doutrinria, ou at vises diversas do 
perigo, mas por que enquanto o fim da tortura pode ser uma 
renovada fonte de poder para a hierarquia, para os 
torturadores ele significa, no mnimo, a perda desse mesmo 
poder.
Ao materializar-se nos crceres, a tortura obedece a uma 
lgica que novamente nada tem a ver com a defesa da 
sociedade. A condio neces sria para a eficcia da 
burocracia da violncia  a recompensa funcio nal, tanto 
atravs das promoes convencionais como das gratificaes
27 Para a cartilha, de autoria do delegado Edsel Magnotti, 
Fabricio Marques, em Jornal do Brasil,
16 de janeiro de 1995, Caderno Brasil, p. 4.
26        A DITADURA ESCANCARADA
que esse mundo policial engendra. No aparelho de represso 
poltica montado pela ditadura brasileira, um oficial 
classificado no dE, por exemplo, ficava burocraticamente 
lotado no gabinete do ministro do Exrcito. Outro, no SNI, 
tornava-se parte do quadro de pessoal da Presi dncia da 
Repblica. Isso assegurava-lhes uma pequena gratificao sa 
larial e uma boa quantidade de pontos no sistema de avaliao 
funcio nal que orienta promoes e remanejamentos. Um oficial 
que entrasse como capito no circuito SNI-CIE-DOI tinha duas 
vezes mais chances de vir a servir como adido no exterior do 
que outro mantido na rotina dos quartis. Os delegados e 
investigadores eram geralmente promovidos to logo 
preenchessem as exigncias formais da burocracia. O delega do 
paulista Srgio Fleury levara quatro anos para subir o 
primeiro de grau da hierarquia. Subiria trs outros em apenas 
dois anos. Enquan to essa recompensa existe, o torturador age 
a favor do governo ou at mesmo contra ele. Quando ele 
percebe que ela cessou, pra de torturar, ainda que persistam 
os elementos de tenso poltica.
H casos em que o combate ao terrorismo provoca a suspenso 
de algumas garantias constitucionais em regimes democrticos. 
Assim su cedeu na Itlia. Na Irlanda, alm dessas restries, 
chegou-se  virtual legalizao do emprego da brutalidade em 
interrogatrios, bem como ao uso de tcnicas destinadas a 
desestruturar a personalidade dos pre sos. Mesmo nesse caso a 
sociedade foi informada do que se fazia nas prises, e os 
governos responsabilizaram-se publicamente pela dureza
28 Para as gratificaes e promoes de militares e civis do 
DO!, Carlos Alberto Brilhante Ustra, Rompendo o silncio, p. 
135. Ver tambm o depoimento do general Octavio Costa, em 
Maria de una dAraujo, Glucio Ary Dilion Soares e Celso 
Castro (orgs.), Os Anos de Chumbo, pp. 261-2. 29 Percival de 
Souza, Autpsia do medo, p. 296.
30 Em 1972 uma comisso de inqurito presidida por lord 
Parker, ex-presidente da Corte de Justi a da Gr-Bretanha, 
para apurar a brutalidade em interrogatrios de terroristas 
presos na Irlanda, concluiu que no h razo para proibir 
essas tcnicas com base na moral pois  possvel operar com 
elas de acordo com os altos padres da nossa sociedade. 
Entendia-se por brutalidade nas in vestigaes conduzidas 
pela comisso a privao do sono, alimentao a po e gua, 
deteno em lugares onde o preso ouvia barulhos 
ensurdecedores e, finalmente, a obrigao do suspeito de 
ficar encapuzado e horas de p, com os braos levantados, 
apoiados numa parede. Essa questo foi dis cutida 
publicamente, e o governo ingls proibiu o barulho nas celas, 
os capuzes, a privao do sono e os longos perodos de p, 
alm de ter mudado a dieta dos presos. Em Brian Crozier, A 
theory ofcon flict, p. 157. Para uma narrativa do caso 
irlands, ver tambm Tony Geraghty, The Irish War, pp. 47-51.
A PRAGA        27
dos interrogatrios. Num e noutro caso a represso coexistiu 
com a or dem constitucional e destinou-se a mant-la. As 
foras especiais ingle sas e os carabineiros italianos no se 
relacionavam com um projeto di tatorial.
No Brasil, os rgos de segurana provinham da desordem e do 
ter rorismo, eram parte de um complexo projeto subversivo, 
derivado da anarquia militar. A tortura sancionada pelos 
oficiais-generais a partir de 1968 tornou-se inseparvel da 
ditadura. No h como entender os me canismos de uma 
esquecendo-se a outra. De um lado a tortura d efi ccia  
ordem ditatorial, mas de outro condiciona-a, impondo-lhe ad 
versrios e estreitando-lhe o campo de ao poltica. Quando 
a hierarquia se d conta de que o custo dos pores  maior 
que seus benefcios, ela vai ao manual e decide desativar a 
engrenagem. Recebe de volta a con ta do seu erro.
Entrando no cenrio poltico ao lado da supresso das 
liberdades pblicas, a tortura embaralha-se com a ditadura e 
torna-se o elo final de uma corrente repressiva radicalizada 
em todos os nveis, violentan do a prpria base da sociedade. 
Essa circunstncia transforma a tor tura, no seu conjunto, 
muito mais num elemento do jogo poltico do que num 
instrumento de processo investigativo. Quando tortura e di 
tadura se juntam, todos os cidados perdem uma parte de suas 
prerro gativas, e, no poro, uma parte dos cidados perde 
todas as garantias. Nesse processo a tortura assume a funo 
de derradeiro sinal de peri go, alterando a prpria percepo 
da cidadania. Desenvolve-se um es tratagema ameaador atravs 
do qual a violncia protege o regime ali mentando um 
mecanismo de compensaes. Se um cidado  preso sem motivo e 
logo a seguir  solto, v-se no caso uma certa moderao das 
autoridades por terem-no libertado. Se a imprensa  posta sob 
censu ra, vse parcimnia na providncia, pois as publicaes 
no foram apreendidas nem fechadas. Finalmente, se um 
militante de organiza o clandestina  encarcerado, posto 
incomunicvel, d-se  sua fam lia uma grande notcia: ele 
no est apanhando. No fundo do poo, aos
31 Lawrence Weschler, Um milagre, um universo, p. 245.
28        A DITADURA ESCANCARADA
parentes daquele que est sendo supliciado, tambm oferece-se 
uma es perana:  possvel que nos prximos dias seja 
conseguida sua transfe rncia para outra priso, onde no se 
bate. Impe-se s vtimas uma l gica degradada.
Mascarada pelo horror, a tortura esconde-se atrs de seus 
efeitos e tende a girar em torno do sofrimento das vtimas. 
Por trs da mscara, porm, ela mostra mtodos, objetivos e 
conseqncias bastante diferen tes do mundo de aparncias 
construdo nos calabouos. Mesmo clandes tina, a tortura no 
pode viver enclausurada. Ainda que os torturadores respeitem 
a hierarquia, sem roubar nem extorquir, o fenmeno transbor 
da naturalmente para outras reas da atividade pblica.
Ela vaza primeiro para o aparelho judicirio, cuja 
cumplicidade passa a ser essencial para prevenir denncias e 
at mesmo a anulao de confisses. Essa cumplicidade, muitas 
vezes tensa, pode ser total em de terminados perodos, mas 
nunca consegue tornar-se permanente. Du rante o suplcio, em 
troca de alguns instantes de sossego, o preso no se importa 
em admitir crimes que lhe custaro anos de cadeia. Livre 
dele, na fase de instruo judicial, no tem mais compromisso 
com a confis so. Em muitos casos a renega. Os promotores e 
juzes do regime vivem fora dos pores, num mundo onde esto 
os seus pares e, sobretudo, os advogados de defesa das 
vtimas. Por mais que estejam dispostos a am parar a 
ditadura, e por mais que ela lhes agradea os servios 
prestados, juzes e promotores acabam presos numa armadilha. 
Os torturadores ra ramente so mencionados nos inquritos, e 
em certos casos nem sequer suas identidades so conhecidas. 
Seus crimes, porm, entram nos autos pela narrativa das 
vtimas ou mesmo pelas anlises periciais. s vezes, a ponta 
da verdade emerge da mentira encoberta por histrias 
inveross meis. Casos como o do preso que morreu num tiroteio 
numa determi nada esquina enquanto os moradores do lugar 
testemunham que nela jamais se disparou um tiro. Ou ainda o 
do cidado de mais de 1,80 m de altura, pesando quase cem 
quilos, que teria conseguido fugir do ban co traseiro de um 
Volkswagen enquanto era escoltado por trs soldados da PE. Os 
interrogadores do ii Exrcito, em So Paulo, chegaram a esque 
cer dentro de um inqurito uma nota avulsa em cuja margem 
havia uma anotao manuscrita recomendando forar a barra, 
porm sem deixar
A PRAGA 29
marcas. Por mais que haja cumplicidade na mquina 
judiciria,  co mum que surjam constrangimentos entre 
promotores e juzes quando eles so obrigados a associar seus 
nomes a processos absurdos, sabendo que os verdadeiros 
responsveis esto fora dos autos.
Para funcionar, o poro expande-se alm das fronteiras da sua 
clan destinidade. Ele precisa de diretores de hospitais, 
mdicos e legistas dis postos a receber presos fisicamente 
destrudos, fraudar autos de corpo de delito e autpsias. 
Outro vnculo natural surge nas fimbrias da plutocra cia, 
junto  qual a mquina de represso vai buscar dotaes 
extra-ora mentrias. Por mais que esse servio seja 
conduzido com discrio, sua mecnica acaba fazendo que 
apaream tanto o empresrio prestigiado na sua comunidade em 
funo das conexes que montou no poro, como o torturador 
que pretende se transformar em homem de negcios.
Quanto mais duro o regime, mais prestgio tem o promotor, 
mdi co ou empresrio que colabora com o poro. Ao menor 
sinal de libera lizao toda a teia  duplamente ameaada. 
Primeiro pela perda do po der. Depois  e a reside o risco 
temvel  pela exposio dos crimes. A rede, assim como o 
torturador, vale-se da ditadura para amealhar suas 
recompensas, mas precisa que ela persista, quer para encobrir 
delitos, quer para disfarar o rastro de ligaes perigosas.
De todas as manifestaes da gangrena, a mais severa  a que 
ocor re no meio militar. A experincia brasileira vinha do 
Estado Novo, quan do a represso poltica foi montada atravs 
da remessa de oficiais a de legacias. Conseguiu-se assim que, 
depois do desabamento do regime, o entulho de seus crimes 
fosse posto na conta de delegados, investigado res e 
meganhas, ou, quando muito, na biografia do chefe de polcia, 
o ca pito Filinto Mller. A partir de 1969, a ditadura 
militar tomou um ca minho diverso, e a meganha foi para os 
quartis.A aula do tenente Ailton deu-se num batalho da 
PE, no numa delegacia.
32 Brasil: nunca mais, p. 223.
33 O termo gangrena foi usado pela primeira vez em 1959 no 
ttulo de um dossi, publicado pela
ditions de Minuit, reunindo denncias de torturas sofridas 
por estudantes argelinos. Em Pierre
Vidal-Naquet, Face  la raison dtat, p. 134.
30        A DITADURA ESCANCARADA
A atividade policial torna-se tambm um embarao  estrutura 
mili tar. Ela cria uma situao em que coexistem dois tipos 
de oficiais. Um vive dentro das normas do profissionalismo, 
cumprindo a jornada dos pacfi cos expedientes da corporao. 
Outro, combatente, campanando aparelhos, estourando pontos 
e torturando presos. Foi a ao de uma pequena par te da 
oficialidade, trabalhando nos rgos de segurana, que 
permitiu  maioria ficar em paz, tomando suas aulas de 
ttica, registrava o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, 
comandante do DOI paulista.
A tenso entre o combatente e o burocrata  velha como a 
guerra, mas o que a tortura leva para dentro da caserna  bem 
outra coisa. Du rante um conflito armado toda a organizao 
est engajada nele, conhe cendo-lhe as normas. A montagem de 
pores nos quartis faz que os com portamentos dos dois 
personagens sejam diferenciados  luz de regras bsicas da 
mquina militar. O combatente do aparelho repressivo vive num 
mundo funcionalmente diverso, regido por normas peculiares de 
sigilo, disciplina e hierarquia. Exatamente o contrrio do 
que aprendeu desde que entrou para a academia militar. Est 
classificado numa guar nio, mas seu trabalho no  
coordenado pela estrutura de comando da unidade. Cultiva 
afinidades produzidas pela partilha do risco que apro ximam o 
tenente do sargento que lhe d cobertura num tiroteio, ao 
mesmo tempo que o distanciam do general que finge ignorar o 
que acontece nos calabouos de sua unidade. Torna-se 
excntrico para a tropa, mas igualitrio para seus pares. 
Isso ocorre at em detalhes da vida social, pois no trabalha 
fardado, nem usa o corte de cabelo militar. Veste-se como os 
comandados. Manda muito, faz sua lei, dispe da vida dos 
presos e da infelicidade dos familiares que batem s portas 
dos crceres mendigando uma visita ou a entrega de um pacote 
de roupas. De um lado, sente-se superior aos colegas. De 
outro, sente-se discriminado e incompreendido. Como explicou 
o general Carlos Alberto da Fontoura, chefe do SNI no governo 
Medici, houve muita coisa, muita preveno, muito 
aborrecimento, mas era um caso delicado, porque no se pode 
cortar de pblico o estmulo do combatente, seno ele no 
volta a
34 Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, maro de 1988.
35 General Gustavo Moraes Rego, novembro de 1984.
A PRAGA 31
combater O GTE pedia compreenso para que o interrogador 
no venha a ser inquietado para observar as regras estritas 
do direito. Em So Paulo, foi necessrio que o comandante do 
ii Exrcito distribusse uma circular condenando episdios de 
m vontade contra esses agentes e recomendando que se crie 
um ambiente de reconhecimento e admira o por aqueles que, 
diuturnamente, arriscam suas vidas na manuteno da segurana 
interna e salvaguarda de nosso estilo de vida
Nada havia de novo debaixo do firmamento quando a hierarquia 
militar brasileira associou as Foras Armadas  tortura. Ela 
dispunha dos exemplos de dois casos clssicos de ao 
antiinsurrecional. Um deles, o Vietn, estava diariamente no 
noticirio. No convinha. As foras americanas, mesmo 
envolvendo-se em crimes e recorrendo  tortura contra a 
guerrilha vietcongue, achavam-se indiscutivelmente debaixo do 
primado do poder constitucional. O presidente Richard Nixon 
buscava um fim honroso para a guerra perdida, e a tigrada 
americana estava contida. O tenente William Calley, cujo 
peloto executou 175 civis no vilarejo de My Lai, no era 
candidato a nenhuma medalha. Estava no banco dos rus, de 
onde sairia desonrado e condenado. O segundo exemplo, a ao 
francesa na Arglia, encontrava-se nas estantes das 
bibliotecas militares.
L o general Massu vencera a Batalha de Argel. Seus pra-
quedistas sobrepuseram-se ao poder civil, o pau cantou, e o 
terrorismo sumiu. Entre janeiro e maro de 1957, foram 
capturados 55 chefes de clulas e 73
36 Depoimento do general Carlos Alberto da Fontoura, em Maria 
Celina dAraujo, Glucio Ary
Dilion Soares e Celso Castro (orgs.), Os Anos de Chumbo, p. 
97.
37 Interrogatrio, apostila, marcada confidencial, do 
Centro de Informaes do Exrcito, de 1971,
p. 18.
38 Circular 35-E2, reservado, do general Humberto de Souza 
Mello, comandante do ii Exrcito, sem data, em Carlos Alberto 
Brilhante Ustra, Rompendo o silncio, p. 136.
39 Calley foi condenado  priso perptua com trabalhos 
forados, teve a sentena reduzida para dez anos de recluso 
e foi solto em 1972, depois de cumprir trs. Comeou uma nova 
vida diri gindo a joalheria do sogro na cidade de Columbus, 
na Gergia. Revista Time, 1968, A pictorial his tory, 
primavera de 1989, p. 21.
32        A DITADURA ESCANCARADA
quadros da Frente de Libertao Nacional responsveis por 
centenas de atentados ocorridos na cidade, que iam do 
assassinato de personalidades a bombas em restaurantes e 
estdios, matando pelo menos vinte pessoas e ferindo mais de 
cem. Na sua conta, prendeu 1800 argelinos, duzentos dos quais 
desapareceram. Na conta de seus crticos, os desaparecidos 
teriam sido 4 mil. As baixas da tropa ficaram em dois mortos 
e quatro feridos. Nos trs meses de durao, a Batalha de 
Argel foi o maior triunfo de uma unidade antiinsurrecional 
nos tempos modernos. Examinada no conjunto da vida poltica 
francesa, foi erro militar, provocou um desastre poltico e 
terminou como comeou: em terrorismo.
A discusso da entrada da tortura nos quartis do exrcito 
francs na Arglia comeou pouco depois do incio da ofensiva 
de Massu. En quanto o pau cantava em Argel, o general Jacques 
Paris de Bollardire, tenente da Legio Estrangeira, 
maquisard das Ardenas, pra-quedista da Indochina e 
comandante na regio dos montes Atlas do deserto argelino, 
resolveu comprar a briga. Numa diretriz s suas tropas 
advertiu: A tentao em que caram os pases totalitrios, 
de considerar certos procedimentos como um mtodo normal para 
obter informaes, deve ser inequivocamente rejeitada. Esses 
mtodos devem ser formalmente condenados Duas semanas mais 
tarde Bollardire e Massu encontraram- se em Argel. 
Bollardire acusou-o de perseguir uma vitria que levaria  
mais desesperadora das derrotas, aquela do homem que renuncia 
 sua humanidade Deixou o gabinete de Massu dizendo-lhe: Eu 
desprezo tuas aes. Renunciou ao comando, retornou a Paris, 
e voltou a atacar. Numa carta  revista LExpress, advertiu 
do perigo terrvel de se perder de vista, sob o pretexto 
falacioso de uma eficcia imediata, os valores mo
 40 Para a estimativa de 4 mil desaparecidos, Yves Courrire, 
La Guerre dAlgrie, tomo i, p. 841.
Para a conta oficial, Jacques Massu, La vraie Batailie 
dAlger, p. 173. Nas suas memrias, Massu fala em duzentos 
argelinos mortos no cumprimento de suas misses, em 
combates, perseguies, fugas e acidentes diversos. Na 
poca, quando apresentou sua contabilidade e lhe foi mostrado 
que, comparando-se o nmero de pessoas detidas com o de 
presos, faltavam 220, ele respondeu: Su miram. Em 
Courrire, La Guerre dAlgrie, tomo i, p. 824.
41 Diretriz n 391, do general Jacques Paris de Bollardire, 
em Jacques Massu, La vraie Batailie dAlger, p. 222.
42 Jacques Massu, La vraie Batailie dAlger, p. 225, e 
Jacques Paris de Bollardire, Batailie dAlger, batailie de 
lhomme, p. 93.
A PRAGA 33
rais que fizeram a grandeza da nossa civilizao e do nosso 
Exrcito A hierarquia, que j sinalizara a sua solidariedade 
a Massu aceitando o pedido de demisso de Bollardire, 
respondeu com dureza e deu-lhe dois meses de cadeia numa 
fortaleza. A tortura vencera na casb e no Minis trio da 
Guerra. Sua batalha continuaria.
Em maio de 1958 as tropas francesas na Arglia deram um golpe 
mi litar e depuseram a administrao civil da colnia. Duas 
semanas depois, Charles de Gaulle retornou  chefia do 
governo francs. Era o fim da Quar ta Repblica. Levado de 
volta ao poder na ponta das baionetas, em pou co tempo 
surpreendeu seus aliados pronunciando a palavra maldita da 
questo argelina: autodeterminao. O velho general chegara 
ao poder con vencido de que era preciso restabelecer, sem 
demora, a obedincia do Exrcito Quanto  Arglia, a batalha 
havia sido ganha, mas a guerra, que fazia sangrar a unidade 
interna e o prestgio internacional da Fran a, poderia estar 
perdida.
Para a rede que resultara da gangrena, comeava uma nova 
campa nha, contra a poltica de De Gaulle, que oferecia aos 
argelinos a paz dos bravos. Nesse combate o general Massu 
deu uma entrevista desafiado ra: O Exrcito tem a fora, e 
ela ainda no foi mostrada porque a oca sio ainda no 
apareceu. [ Ns no entendemos mais a poltica do pre sidente 
De Gaulle. O Exrcito no poderia prever que ele faria uma 
poltica dessas. [ Nossa maior decepo foi verificar que o 
general De Gaulle se tornou um homem de esquerda Chamado a 
Paris, perdeu o comando.
A indisciplina militar no se rendeu. No dia 22 de abril de 
1961 uma parte da hierarquia que quatro anos antes se 
solidarizara com Massu contra Bollardire lanou-se num golpe 
militar contra De Gaulle. Der rotada, refluiu para a 
clandestinidade, incorporando-se  Organizao do Exrcito 
Secreto, milcia terrorista que deixou um rastro de explo
43 Jacques Paris de Bollardire, Batailie dAlger, batailie 
de lhomme, p. 97.
44 Charles de Gaulle, Mmoires despoir, tomo 1: Le Renouveau 
 1958-1962, p. 30.
45 Alistair Horne, Histoire de la Guerre dAlgrie, p. 319.
46 Jacques Massu, Le torrentet la digue, p. 299.
34 A DITADURA ESCANCARADA
ses, assaltos e extorses, com mais de 5 mil vtimas. Num s 
dia, na Operao RocknRoll, ela explodiu 120 bombas em 
Argel e noutro, du rante a Noite Azul, detonou dezoito em 
Paris. Explodiram o aparta mento do ministro da Cultura 
francs Andr Malraux, incendiaram a biblioteca da 
Universidade de Argel. Mataram um general, um coro nel e dois 
chefes da represso ao terrorismo. Como se tudo isso fosse 
pouco, planejaram mais de vinte atentados contra De Gaulle. 
Num, ex plodiram um pedao de estrada quando o general, num 
Citron blin dado, voltava de sua casa de campo. O motorista 
Francis Marroux ace lerou e atravessou uma cortina de fogo. 
Noutro, que mais tarde resultaria  fantasiado  no filme O 
dia do chacal, o pistoleiro em bolsou 20 milhes de francos 
e, em vez de matar o presidente, chamou a polcia. 
Finalmente, em agosto de 1963, quando o carro do general pas 
sava pelo Petit Clamart, em Paris, ele e sua mulher escaparam 
de um peloto composto por quatro carros e doze pistoleiros. 
Dos 187 tiros disparados, catorze tinham atingido o carro, e 
um passara a poucos cen tmetros do general. De Gaulle e a 
Quinta Repblica foram novamen te salvos pelo motorista 
Marroux, que, ao primeiro tiro, enfiou o p no acelerador.
No comando do atentado de Petit Clamart estava um coronel do 
exr cito francs, Jean-Marie Bastien-Thiry. Era a sua 188 
tentativa, a segun da em que falhava por pouco. Dois anos 
antes pusera trinta quilos de dinamite e napalm debaixo de 
uma ponte por onde passou o general. Ele considerava De 
Gaulle a vergonha da Frana J um de seus colegas de 
fuzilaria, Alain de la Tocnaye, dizia que o gaullismo nos 
levar pri meiro a uma amlgama de capitalismo e marxismo, 
para depois atirar-
47 Pierre Montagnon, La Guerre dAlgrie, p. 405, e Yves 
Courrire, La Guerre dAlgrie, tomo o,
p. 949.
48 QAS parle pp. 337 e segs.
49 Alistair Horne, Histoire de la Guerre dAlgrie, pp. 520 e 
549.
50 Jean Lacouture, De Gaulle  The ruler  1945-1970, pp. 
299-300 e 326.
51 Idem, pp. 326 e segs. Sete anos depois Francis Marroux 
estava na casa de campo de De Gaul le quando ele morreu, 
vtima de um rompimento da aorta abdominal. Idem, p. 591.
52 Idem, p. 326.
53 Alistair Horne, Histoire dela Guerre dAlgrie, p. 517.
A PRAGA 35
nos ao bo1chevismo Na Organizao do Exrcito Secreto estava 
uma
parte da mesma hierarquia militar que mandara Massu baixar o 
pau e trancaflara Bollardire. Fechara-se um crculo. Uma 
parte do exrcito fran cs foi do combate ao terrorismo  
tortura, dela  rebelio e, finaimen
te, ao seu prprio terror.
De 560 terroristas presos, 252 eram militares. Entre eles 
havia trs generais e 46 oficiais. Soleil, chefe supremo da 
Organizao, era Raoui Salan, comandante das tropas francesas 
na Arglia entre 1957 e 1958, um dos oficiais mais 
condecorados do exrcito francs. Seu substituto foi Soleil 
Bis, o general Edmond Jouhaud. Albatroz vinha a ser o coro-
nei Antoine Argoud, que abria a tiro de tanque lojas fechadas 
em dia de greve. Franoise, o organizador de toda a estrutura 
da OES, era o co ronel Yves Godard, chefe do estado-maior de 
Massu, que o considera va um precioso brao direito. 
Danielle, comandante dos quinhentos homens que formavam os 
sanguinrios comandos Deita, verdadeiro che fe das operaes 
terroristas na Arglia, era o tenente Roger Degueidre.
54 Edgar S. Furniss Jr., De Gaulle and the French Army, pp. 
62-3.
55 OASparle p. 310.
56 Alistair Horne, Histoire de la Guerre dAlgrie, p. 99.
57 Idem, p. 499, e Jacques Massu, La vraie Bataille dAlger, 
p. 108.
58 Salan foi capturado e, para desgosto de De Gaulle, que 
desejava fuzil-lo, condenado  priso perptua. Argoud, 
seqestrado na Alemanha e deixado grogue num carro em frente 
 chefatura de polcia de Paris, foi condenado  morte e teve 
a sua pena comutada em priso perptua. Godard, condenado  
morte, refugiou-se na Blgica. Degueldre, com sua farda de 
pra-quedista e cantando a Marselhesa, foi executado no forte 
de Ivry. O coronel Bastien-Thiry tambm foi fuzilado. De Gaul 
le recusou-se a comutar sua pena porque no atentado de Petit 
Clamart sua mulher, Yvonne, estava no carro, O fato de 
Bastien-Thiry no ter empunhado armas durante o atentado, 
ficando numa po sio em que no corria riscos, tambm 
influenciou a deciso de De Gaulle de fuzil-lo, O sucessor 
de Salan no comando da OES foi o professor Georges Bidault, 
chefe da Resistncia em solo francs de 1943 a 1945. Ele 
fugiu para a Alemanha e, em 1963, asilou-se no Brasil, 
vivendo em Campinas at 68. Massu manteve-se fiel a De 
Gaulle. Em maio de 1968, quando o general enfrentou a 
rebelio de Paris, Massu comandava as tropas francesas 
estacionadas na Alemanha. De Gaulle voou a Baden Baden para 
conseguir dele a certeza de que em caso de necessidade elas 
marchariam sobre a capi tal. Acredita-se que nessa reunio 
Massu conseguiu do presidente o compromisso de anistiar todos 
os presos em razo da guerra da Arglia. A complexa relao 
entre esses dois militares pode ser ilus trada por um dilogo 
que teriam mantido em 1958, quando De Gaulle voltou ao poder:
 Como vais, Massu, sempre idiota?
 Sempre idiota, meu general. E sempre gaullista. (Alistair 
Horne, Histoire de la Guerre dAlgrie,
p. 196.)
36        A DITADURA ESCANCARADA
S em fevereiro de 1962 ele coordenara 302 atentados, nos 
quais mor reram 553 pessoas.
De Gaulle, na parcimnia de suas memrias em relao ao 
desastre militar argelino, apontou a raiz do problema do 
envolvimento do Exr cito em funes policiais: Trata-se de 
uma espcie de cruzada, em que, num meio isolado, cultivam-se 
e afirmam-se valores prprios ao risco e  ao. Por mais 
sensvel e simptico que eu seja a essa concentrao de 
qualidades militares, devo perceber quo tentadora ela pode 
se tornar para a ambio tortuosa de um chefe que a queira 
usar como instrumento de aventuras
A partir de 1968 a tigrada brasileira construiu seu ninho 
dentro da mquina militar. Em pouco mais de dois anos o CIE 
triplicou seu quadro de oficiais. Com dez anos de atraso, 
seguiam a trilha dos combatentes de Massu. Cada passo foi 
dado em nome do combate ao terrorismo, mas a cada passo 
correspondeu tambm a expanso do sistema de recompensas e da 
autonomia dos torturadores. O Exrcito prevaleceu sobre as 
outras for as. Nele, o GTE prevaleceu sobre as linhas de 
comando convencionais.
59 Charles de Gaulle, Mmoires despoir, tomo i: Le Renouveau 
 1958-1962, p. 79.
60 Depoimento do general Jos Luiz Coelho Netto, 
subcomandante do CIE de 1969 a 1974, em
Maria Celina dAraujo, Glucio Ary Dilion Soares e Celso 
Castro (orgs.), Os Anos de Chumbo, p.
235. Sua estimativa para o nmero de oficiais foi de cem, 
cento e poucos
Ador
O que torna a tortura atraente  o fato de que ela funciona. 
O preso no quer falar, apanha e fala.  sobre essa simples 
constatao que se edifica a complexa justificativa da 
tortura pela funcionalidade. O que h de terrvel nela  sua 
verdade, O que h de perverso nessa verdade  o sistema 
lgico que nela se apia valendo-se da compresso, num juzo 
aparentemente neu tro, do conflito entre dois mundos: o do 
torturador e o de sua vtima. Tudo se reduz  problemtica da 
confisso. Quem melhor explicitou esse redu cionismo, na 
viso da hierarquia, foi Ernesto Geisel: Acho que a tortura, 
em certos casos, torna-se necessria, para obter confisses 
Na viso do torturador, a eficcia chega a surpreender. Um 
jovem tenente, mal iniciado nas prticas do regime, haveria 
de reconhecer: A coisa complicou quando descobri que o 
mtodo era rpido. Bastava levar para o poro, e pronto
Como explicou o coronel Roger Trinquier, comandante do 3Q 
Regi mento de Pra-Quedistas francs na Arglia, que terminou 
sua carreira comandando mercenrios no Congo: Ao ser preso, 
o terrorista sabe que ser interrogado, que no ter 
escapatria. Para ele, chegou a hora da ver dade. O 
secretrio de Segurana do Rio Grande do Sul, coronel Jayme 
Mariath, descreveu a tenso dessa hora: O interrogatrio em 
si, em qual 1 Maria Celina dAraujo e Celso Castro (orgs.), 
Ernesto Geisel, p. 225.
2 Entrevista de Marcelo Paixo de Ara a Alexandre Oltramari, 
Veja, 9 de dezembro de 1998,
pp. 44-9.
3 Roger Trinquier, La guerre, p. 176.
38        A DITADURA ESCANCARADA
quer nao do mundo, no  um ato cordial. Atentados fisicos 
contra eles [ presosi, se houve ...j  porque houve reao, 
uma resistncia obsti nada  confisso Ou, na argumentao 
de Jarbas Passarinho: Os mi litantes so treinados para 
resistir aos interrogatrios, para dar tempo a que seus 
companheiros se ponham em segurana. A delao, para eles,  
o supremo oprbrio, como o  para todos os que tm carter
Assim, a tortura pressiona a confisso e triunfa em toda a 
sua fun cionalidade quando submete a vtima. Essa  a 
hiprbole virtuosa do tor turador. Assemelha-se ao ato 
cirrgico, extraindo da vtima algo malig no que ela no 
expeliria sem agresso. O militante do exemplo de Passarinho 
 torturado porque tem carter, pois se no o tivesse, aceita 
ria o supremo oprbrio antes de apanhar, e ficaria tudo 
mais barato. Por conta de toda uma mitologia herica, essa 
viso do interrogatrio  freqentemente compartilhada por 
vtimas e algozes. Jacob Gorender, fun dador do Partido 
Comunista Brasileiro Revolucionrio e vtima dos tor 
turadores do Exrcito em So Paulo, sustenta que so mais 
aptos a re sistir  tortura os militantes que interiorizaram 
a ideologia socialista e fizeram dela sua norma mora1 O PCB 
vangloriara-se do comportamen to de Harry Berger, 
representante do Comintern que caiu nas mos dos torturado 
res de Getulio Vargas e foi  demncia sem passar pela submis 
so. Carlos Marighella, que passou pelas torturas do Estado 
Novo e nos anos 50 redigiu um folheto romntico intitulado Se 
fores preso, camara da..., fechou um soneto Liberdade  com 
versos tpicos dessa vi so propagandstica do prisioneiro:
E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente  dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome.
4 O Estado de S. Paulo, 28 de julho de 1970, p. 6.
5 Antonio Carlos Scartezini, Segredos de Medici, p. 8.
6 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 261. Para uma 
detalhada sustentao da posio assu mida pelo PCB at o 
final dos anos 70, ver Renato Guimares, Travessia.
7 Carlos Marighella, Poemas, p. 21. A informao de que 
Marighella  o autor do folheto Se fores preso, camarada.., 
est em Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 245.
A DOR
39
O PCB expulsou diversos dirigentes que, uma vez capturados, 
conta ram aos seus torturadores segredos da organizao. 
Nessa sua atitude houve sempre uma certa teatralidade, em que 
se varriam para debaixo do tapete casos de submisso que no 
convinham  mitologia partidria. Em todos os grupos 
esquerdistas vigorou um eufemismo para estigmatizar a conduta 
dos presos que produziram confisses: Portou-se mal Em 1995 
uma ex-dirigente da ALN chamou de covardes os simpatizantes 
dessa or ganizao envolvidos na cilada em que o chefe 
terrorista foi assassinado. Esse julgamento subverte o 
problema moral da tortura, transferindo-se  vtima a 
responsabilidade pela conduta do algoz. Elaine Scarry, em ma 
gistral estudo sobre a tortura, argumenta que existe um 
dissimulado des dm pela confisso Esse desdm  uma das 
muitas manifestaes de quo inacessvel  a realidade da dor 
fsica para quem no a est sofrendo
A teoria da funcionalidade da tortura baseia-se numa confuso 
entre interrogatrio e suplcio. Num interrogatrio h 
perguntas e respostas. No suplcio, o que se busca  a 
submisso. O supremo oprbrio  cometido pelo torturador, 
no pelo preso. Quando a vtima fala, suas respostas so 
produto de sua dolorosa submisso  vontade do torturador, e 
no das perguntas que ele lhe fez. Prova disso est no fato 
de que nos crceres soviticos milhares de presos confessaram 
coisas que jamais lhes haviam passado pela cabea, permitindo 
ao stalinismo construir suas catedrais conspiratrias. Um ex-
cabo do Exrcito brasileiro, preso e torturado por oficiais 
da Marinha em 1969, confessou que vendera uma submetralhado 
ra a um grupo terrorista ligado ao ex-presidente Juscelino 
Kubitschek e le vou uma patrulha  mata da Tijuca, onde 
estaria escondido um arsenal. No meio do mato sua histria 
desabou. Trocara a submetralhadora por ma conha, nada mais. A 
conspirao fora montada na sesso de tortura, na qual 
fabricava respostas que contentassem seus algozes.
8 Entrevista de Zilda Xavier Pereira a Jos Mitchell, Jornal 
do Brasil, 12 de janeiro de 1995, Cader no Brasil, p. 5.
9 Elaine Scarry, The body ia pain, p. 29.
10 Testemunho ouvido pelo autor.
40        A DITADURA ESCANCARADA
Usada como instrumento de investigao, a tortura transforma-
se para a vtima num tormento maior que a prpria pena. Ela 
extrai a con fisso atravs da aplicao do sofrimento ao 
preso, mas no  a dor pu ra e simples que o leva a falar.  
possvel que um prisioneiro confesse ao receber descargas 
eltricas bem inferiores quelas a que o general Mas su se 
submeteu. No Brasil, um oficial do Exrcito experimentou o 
supl cio:  ruim, mas no  um horror. D para agentar. 
No  de se tirar de letra, mas no  o horror
A tortura manobra a dor de forma diversa, O sofrimento comea 
ou pra, aumenta ou diminui, pela exclusiva vontade do 
torturador. Ele tan to pode suspender uma sesso para dar a 
impresso de que teve pena do preso, como pode avisar que vai 
iniciar outra, sem motivo algum, para mostrar-lhe a extenso 
do seu poder. Meu maior medo no era do pau, mas da 
possibilidade de tomar um pau lembra Ariston Lucena, militan 
te da VPR, preso do DOI paulista. O meu pavor atingiu tal 
limite que s de ouvir um abrir de portas j comeava a 
tremer, eu no pensava em mais nada deps Manoel Henrique 
Ferreira, militante da VPR e prisio neiro da Fora Area 
Brasileira.
O poder absoluto que o torturador tem de infligir sofrimento 
 sua vtima transforma-se em elemento de controle sobre seu 
corpo. No meio da selva amaznica, espancando um caboclo 
analfabeto que pedia ajuda divina para sustar os 
padecimentos, um torturador resumiria sua onipo tncia 
embutida: Que Deus que nada, porque Deus aqui  ns mesmo A 
mente insubmissa torna-se vtima de sua carcaa, que , a um 
s tem po, repasto do sofrimento e presa do inimigo. O preso 
s lastima uma coisa: o diabo do corpo continua agentando 
lembraria o dirigente co 11 Michel Foucault, Vigiar e punir  
Histria da violncia nas prises, pp. 33 e segs.
12 Informao dada ao autor por um oficial cujo nome fica 
preservado.
13 Ariston Lucena, agosto de 1988.
14 Depoimento de Manoel Henrique Ferreira, em Luzimar 
Nogueira Dias (seleo), Esquerda ar mada  Testemunho dos 
presos polticos do presdio Milton Dias Moreira, no Rio de 
Janeiro, pp. 32
e segs., citado em Brasil: nunca mais, pp. 22 1-2.
15 Entrevista de Pedro Marivetti, morador de So Domingos do 
Araguaia, a Romualdo Pessoa
Campos Filho, 21 de janeiro de 1994. APRPCF.
ADOR        41
munista Marco Antnio Coelho. Ainda que a certa altura a 
mente pre fira a morte  confisso, aquele corpo dolorido se 
mantm vivo, permi tindo o suplcio. A dor destri o mundo do 
torturado ao mesmo tempo que lhe mostra outro, o do 
torturador, no qual no h sofrimento, mas o poder de cri-
lo. Quando a vtima se submete, conclui-se um processo em que 
a confisso  um aspecto irrelevante. O preso, na sala de 
suplcios, tro ca seu mundo pelo do torturador. A vtima 
faz mais do que dar uma informao ao carrasco, ela passa a 
reconhecer nele o senhor da sua voz, ou seja, de sua 
humanidade ensina o professor Pierre Vidal-Naquet.
Dentro da mquina do poder, a linguagem dos torturadores  
bastan te distinta da de seus exegetas. O Centro de 
Informaes do Exrcito, numa referncia elptica aos 
suplcios, qualificou-os como aes que qualquer justia do 
mundo qualificaria de crime Oficiais do DOI do Rio atendiam 
ao telefone em nome da Funerria Boa Morte, e nele um 
torturador dis se a uma jovem, durante uma Sexta-Feira Santa, 
que sofreria como Jesus Cristo. Em So Paulo, o agente Campo 
(cften da boca-do-lixo) infor mava: Meu nome  Lcifer Um 
torturador disse no Cear: Aqui no  o exrcito, nem 
marinha, nem aeronutica. Aqui  o inferno Na PE da Vila 
Militar, um sargento mostrava a cancela do quartel e dizia: 
Dali pra dentro Deus no entra. Se entrar, a gente dependura 
no pau-de-arara
A metamorfose provocada pela dor d aos torturadores de todo 
o mundo muito mais que uma confisso. Pode-se estimar que bem 
mais da metade dos prisioneiros brutalizados nos pores, alm 
de terem con tado aquilo que seus algozes quiseram saber, 
prestaram-lhes algum tipo de colaborao durante o perodo em 
que estiveram nos centros de tor 16 Marco Antnio Tavares 
Coelho, Herana de um sonho, p. 374.
17 Elaine Scarry, The body in pain, p. 37.
18 Pierre Vidal-Naquet, La torture dans la rpublique, p. 9.
19 Estudo e Apreciao sobre a Revoluo de 1964. Informe 
209/S-102-A3-cIE, de 16 de junho de
1976. AA.
20 Para o caso da moa, depoimento de Vera Slvia Magalhes  
jornalista Helena Salem, em V rios Autores, Verses e 
fices, p. 68.
21 Percival de Souza, Autpsia do medo, pp. 12 e 444.
22 Depoimento de Jos Elpdio Cavalcante, em Brasil: nunca 
mais, p. 240.
23 Mauricio Paiva, O sonho exilado, p. 45.
42        A DITADURA ESCANCARADA
tura. Foram raros os que nada disseram. Muitos resistiram s 
48 ou 72 horas crticas, dando tempo para que se 
desconectassem as ligaes que conheciam. Outros preservaram 
segredos que sobreviveram ao poro. Pou cos, contudo, 
conseguiram resistir quela rotina em que a perspectiva da 
continuao dos suplcios pode se prolongar por semanas, at 
meses. Hou ve casos em que presos torturaram companheiros, ou 
ainda de detentos que percorriam as ruas de So Paulo dentro 
de automveis dos rgos de informaes, farejando pontos e 
apontando suspeitos. Foram in meros os prisioneiros que, 
depois de terem concludo seus depoimentos, ajudaram a 
estruturar interrogatrios alheios. Na maioria esmagadora dos 
casos esses presos, uma vez condenados e colocados sob a 
guarda da Jus tia, fora do alcance dos torturadores, 
denunciaram as violncias por que passaram. Poucos foram os 
que efetivamente se transformaram em qua dros da mquina de 
represso poltica.
A justificativa funcional da tortura como recurso conveniente 
na bus ca da confisso  mistificadora tanto no que se refere 
ao mtodo como s suas conseqncias. O encontro do 
torturador com sua vtima no tem a banalidade implcita no 
raciocnio do eu-pergunto-ele-no-fala-eu- bato-ele-confessa. 
O que sucede nesse encontro, quando a proximidade dos dois 
sinaliza tambm a maior distncia que pode separar dois seres 
humanos, nada tem a ver com a importncia que um presidente, 
um se nador, um coronel ou um torturador do a uma confisso. 
Relaciona- se com a opinio que tm do gnero humano.
A tortura raramente  reconhecida e nunca  abertamente 
defendi da. Toda a arquitetura de sua defesa se d atravs de 
raciocnios contor cidos. Ora se diz que o preso no pode ser 
amparado pelas leis que pro tegem os direitos humanos, ora se 
relaciona o suplcio  circunstancialidade da confisso. De 
todas as defesas, uma das mais convincentes tem sido a 
parbola do avio cheio de crianas. Com pequenas variaes 
ela j foi re 24 Aton Fon Filho, da vpi preso em 1970, foi 
torturado por seu ex-companheiro Hans Rudolf
Manz no carro em que era transportado do Rio para So Paulo 
(Ariston Lucena, agosto de 1988).
25 Elaine Scarry, The body in pain, p. 36.
ADOR        43
petida em diversos idiomas. Em portugus, assim foi enunciada 
por Gei sei: No justifico a tortura, mas reconheo que h 
circunstncias em que o indivduo  compelido a praticar a 
tortura, para obter determinadas con fisses e, assim, evitar 
um mal maior. Essa projeo destina-se a demons trar no s 
que o torturador est certo, mas tambm que, numa situao 
excepcional, todo ser humano pode ser um torturador.
A proposio  curta: imagine-se um avio cheio de crianas 
no qual se sabe que h uma bomba. Ela explodir dentro de 
duas horas, e acaba de ser preso o terrorista que com quase 
toda a certeza sabe onde ela foi escondida. Ele se recusa a 
falar.
Baixa o pau?
Se no se sabe onde est a bomba,  possvel que no exista 
bomba alguma. Alm disso, nada garante que o preso saiba onde 
ela est. Acei tando-se que a bomba existe e que o preso sabe 
onde est, parece prefe rvel tortur-lo.
Pela maneira como est enunciada, a proposio se destina a 
levar a mais pia das almas a sancionar a tortura do preso 
para no assumir a responsabilidade pela morte das crianas. 
Contudo, h nela um truque de lgica: finge demonstrar a 
necessidade da tortura quando, na realida de, o que busca  a 
sua inimputabilidade. No se trata de autorizar a tor tura 
para salvar as crianas, mas um entendimento de que, uma vez 
au torizada, ela deve ficar impune. Alm disso, atravs da 
particularidade do exemplo do avio das crianas, ela busca 
uma generalizao por meio da qual se d ao torturador o 
direito de decidir quando as circunstncias re querem o 
suplcio.
26 Maria Celina dAraujo e Celso Castro (orgs.), Ernesto 
Geisel, p. 225.
27 Algumas verses da parbola. Em francs: Roger Trinquier, 
La guerre, p. 174. Do padre Dela- rue, capelo militar da 10 
Diviso de Pra-Quedistas em Argel: Entre dois males, o de 
fazer um bandido sofrer momentaneamente, e o de deixar que 
inocentes sejam massacrados, deve-se esco lher, sem 
hesitao, o menor: um interrogatrio sem sadismo, porm 
eficaz (em Pierre Montag non, La Guerre dAlgrie, p. 207). 
Em espanhol: O que se tem de perguntar, em termos maquia 
vlicos,  at que ponto os fins justificam os meios. Um 
preso sabe onde est colocada uma bomba que vai matar 
centenas de pessoas. O senhor poderia ter de carregar a 
responsabilidade da explo so de uma bomba num colgio de 
crianas, matando centenas de meninos, por no ter tortura 
do Vicente Massot, secretrio de Assuntos Militares do 
presidente argentino Carlos Menem, ci tado em Horacio 
Verbitsky, El vuelo, p. 19.
44        A DITADURA ESCANCARADA
Se os torturadores de todo o mundo aceitassem o risco de ir 
s bar ras dos tribunais sempre que brutalizassem um inocente 
ou matassem um suspeito, a humanidade jamais teria conhecido 
essa praga que o ju rista Ulpiano, na Roma antiga, chamava de 
coisa frgil e perigosa Qua se todos os pais das crianas a 
bordo do avio, se no todos, seriam ca pazes de infligir ao 
preso os mais cruis suplcios, aceitando com naturalidade 
qualquer pena que a sociedade quisesse lhes impor. Admi 
tindo-se que houvesse a bomba, que o preso soubesse onde ela 
estava e que da tortura tivesse resultado a salvao das 
crianas, poucos seriam os tribunais do mundo capazes de 
condenar o torturador.
 grande a freqncia com que a charada do avio de crianas 
 re petida na literatura antiinsurrecional e a parcimnia 
com que se mencio na um caso semelhante, ocorrido na vida 
real. Em novembro de 1956 a polcia de Argel prendeu em 
flagrante um terrorista que acabara de co locar uma bomba no 
gasmetro da cidade. Sabia-se que ele montara ou tro artefato 
e que, se este explodisse, poderia matar milhares de pessoas. 
O terrorista recusava-se a falar, e o chefe de polcia levou 
o problema ao secretrio-geral da prefeitura, Paul Teitgen. 
Catlico fervoroso, comba tente da Resistncia, Teitgen sabia 
o que estava em questo, pois fora pri sioneiro e vtima de 
torturas da polcia alem no campo de Dachau. Ele conta: Eu 
me recusei a deixar que o torturassem. Tremi a tarde toda. Fi 
nalmente, a bomba foi achada e desarmada. Graas a Deus eu 
tive razo. Porque se voc se mete nesse negcio de tortura, 
acaba perdido
Passado quase meio sculo de sua vitria na Batalha de Argel, 
aos 92 anos, o general Massu ratificou a opinio de Teitgen: 
A tortura no  in dispensvel num tempo de guerra. Ns 
poderamos ter passado sem ela. Quando penso na Arglia, fico 
desolado. Ns poderamos ter feito as coi sas de maneira 
diferente
28 Alistair Horne, Histoire de la Guerre dAlgrie, p. 211. O 
prisioneiro era o comunista francs
FernandYveton. Foi preso no dia 14 de novembro de 1958, na 
usina Hamma Gaz. Em Pierre Mon tagnon, La Guerre dAlgrie, 
p. 204.
29 Entrevista do general Jacques Massu a Florence Beaug, Le 
Monde, 21 de junho de 2000: Tor ture en Algrie: le remords 
du gnral Jacques Massu
A tigrada d o bote
Augusto (Onofre Pinto, ex-sargento, veterano das articulaes 
de Capa ra, ps-graduado em Cuba) era o senhor da Vanguarda 
Popular Revo lucionria, a VPR. Em janeiro de 1969 via boas 
razes para que ela tentas se um lance de audcia. 
Praticamente intocada, a organizao completa va um ano com 
duzentos quadros, cinqenta dos quais militantes de tempo 
integral. Atacara o QG do ii Exrcito em junho de 1968, 
matara o capito americano Charles Chandler em outubro, 
assaltara pelo menos seis bancos, depenara um paiol de 
pedreira e limpara uma loja de armas a pou cos metros do DOPS 
paulista. Na casa de um de seus militantes, dinheiro mofara 
num saco e um estoque de bananas de dinamite suava no forro. 
Inifitrara-se com algum sucesso entre os metalrgicos de 
Osasco, no quar tel-general do Ibirapuera e dispunha de uma 
razovel base de apoio nos meios universitrio e artstico de 
So Paulo. Um de seus assaltos fora pla nejado no teatro 
Maria Deila Costa. Em dezembro a maioria dos dirigen tes da 
organizao havia-se inclinado a um refluxo das aes 
armadas, mas Onofre recorreu s bases de militantes, deps a 
direo e estabeleceu a supremacia dos do gatilho sobre 
os da pena.
1 Para o nmero de militantes, Jacob Gorender, Combate nas 
trevas, p. 144.
2 Depoimento de Hermes Camargo Batista, publicado em O Estado 
de S. Paulo de 9 de abril de
1980 sob o ttulo Confisses de um ex-guerri1heiro Para a 
infiltrao no quartel, Luiz Maklouf
Carvalho, Mulheres que foram  luta armada, pp. 54-5.
3 Marco Aurlio Garcia, A VPR e a crtica das armas, Em 
Tempo, n 100, 21 de fevereiro a 5 de
maro de 1980, So Paulo.
46        A DITADURA ESCANCARADA
Para quem gostava de gatilhos, a VPR virara o ano com a maior 
de suas vitrias. Recrutara um capito do Exrcito, bom de 
tiro, comandante de uma companhia do 42 Regimento de 
Infantaria, em Quitana, nas cercanias de So Paulo. Chamava-
se Carlos Lamarca. Tinha 32 anos, nascera nas fraldas do 
morro de So Carlos, no Estcio, bero de alguns dos maiores 
sambas do Carnaval carioca. Seu pai era sapateiro na praa 
Saens Pefia, na Tijuca, e entre seus fregueses estava a nora 
de Costa e Silva, cujo marido comandara o segundo-tenente 
Lamarca no Batalho das Naes Unidas enviado ao canal de 
Suez em 1962. Magro, alto e taciturno, fora o 46 numa turma 
de 57 aspirantes da AMAN. Servira de instrutor de tiro num 
curso de defesa contra assaltantes oferecido pelo Bradesco 
aos funcionrios de suas agncias. Em dezembro de 1964, como 
tenente, servia no Rio Grande do Sul e dera fuga a um capito 
brizolista que estava sob sua guarda na 6 Companhia de 
Polcia do Exrcito, em Porto Alegre.
Disposto a desertar para se juntar  guerrilha, costurava o 
pulo havia meses. Com um sargento, um cabo e um soldado, 
formara uma clula dentro do 42 RI. Surrupiavam armas leves e 
granadas. Certa vez transformara o tambor da mquina de lavar 
roupa de sua casa em depsito de armas. Em setembro de 1968 
Lamarca encontrou-se com Carlos Marighella e, com sua ajuda, 
ps a mulher e dois filhos a salvo, embarcando-os para Cuba. 
Desde dezembro, quando formalizou sua ligao com o que viria 
a ser a VPR, ele e Onofre Pinto discutiam a abertura de um 
foco rural. O ex-sargento falava numa rea do Par com 2 mil 
camponeses, devidamente preparada, esperando a fasca. Era 
sonho, inas Onofre tinha fantasia melhor.
Estava tudo imaginado. No dia 26 de janeiro, Lamarca e seus 
camaradas roubariam o que pudessem do arsenal do quartel e 
levariam algo
4 Para uma biografia de Lamarca, Emiliano Jos e Oldack 
Miranda, Lamarca, o capito da guer rilha. Dicionrio 
histrico-biogrfico brasileiro ps-1930, coord. de Alzira 
Alves de Abreu e outros, vol. 3, pp. 3010-2. Jacob Gorender, 
Combate nas trevas, p. 145. Judith Lieblich Patarra, lara, 
pp. 305-6, informa que Lamarca militara no PCB.
5 Informao dada por Maria Lamarca ao cineasta Srgio 
Rezende, em Havana. Em Judith Lie blich Patarra, lora, p. 
263.
6 Depoimento do ex-sargento Darcy Rodrigues, em Judith 
Lieblich Patarra, lara, p. 262.
A TIGRADA D O BOTE        47
em torno de 560 fuzis, alm de dois morteiros de 60 mm. As 
armas sairiam do 49 RI num caminho pintado com o verde-
escuro dos veculos militares. A VPR bombardearia o palcio 
dos Bandeirantes, sede do governo de So Paulo, o QG do II 
Exrcito e a Academia de Polcia. Um comando tomaria a torre 
de controle do Campo de Marte e embaralharia as comunicaes 
areas da cidade. O pas ficaria com a sensao de viver uma 
guerra civil.
Faltavam trs dias. Na chcara Ibiti, em Itapecerica da 
Serra, a trinta quilmetros de So Paulo, terminava-se a 
pintura do caminho. Um menino da vizinhana saiu do mato e 
acercou-se. Foi maltratado e posto a correr pelos pintores. 
Queixou-se aos pais, eles chamaram a polcia, e ela levou 
quatro dos cinco misteriosos ocupantes da chcara. Durante 
trs dias sustentaram na Polcia do Exrcito que eram 
contrabandistas. Desde a priso dos guerrilheiros de Capara 
no se aprisionava grupo to qualificado. Capturaram o ex-
sargento Pedro Lobo de Oliveira, veterano da base de 
treinamento cubana do Punto Gero, que participara do ataque 
ao hospital militar do Gambuci e da execuo de Ghandler. 
Junto veio o ex-soldado pra-quedista Hermes Camargo Batista, 
um dos responsveis pelo setor de logstica da organizao. 
Conheciam boa parte da estrutura da VPR e sobretudo o grande 
segredo do capito do 42 RI.
Pela maneira como os combatentes foram descobertos, 
dificilmente a VPR conseguiria realizar sua jornada de 
pirotecnia. Nem antes nem depois, nem ela nem nenhum outro 
grupo terrorista brasileiro lograriam ativar plano to 
ambicioso. Exigia um refinamento operacional muito superior 
ao nvel de organizao dos assaltos a bancos ou exploses 
como a do QG do ii Exrcito, mas a histria do terrorismo 
registra casos de improvisaes medocres que acabaram em 
sucessos surpreendentes. O seqestro de onze ministros da 
Organizao dos Pases Exportadores de Petrleo, em Viena, em 
1975, foi feito sem nenhum ensaio e quase no aconteceu, 
porque as armas chegaram atrasadas. Mesmo visto
7 Depoimento do ex-sargento Darcy Rodrigues, em Antonio Caso, 
A esquerda armada no Brasil
 1967/1971, pp. 103 e segs. Jacob Gorender, Combate nas 
trevas, p. 145. Emiliano Jos e Oldack
Miranda, Lamarca, pp. 36 e segs.
8 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 145.
48 A DITADURA ESCANCARADA
como um simples plano, o bombardeio de So Paulo foi no s o 
mais audacioso, como tambm o ltimo projeto de ao complexa 
e ex clusivamente ofensiva de todo o surto terrorista.
As prises de Itapecerica obrigaram a VPR a jogar na defesa. 
Lamarca desertou no dia seguinte e foi para a clandestinidade 
como Csar. Levou consigo a roupa do corpo, os militantes de 
sua clula e uma Kombi com 63 fuzis FAL e trs 
submetralhadoras INA. O bombardeio foi cancelado, e a 
organizao, assustada, pediu socorro  ALN para colocar o 
comandante e seu arsenal em lugares seguros. A tigrada 
achara uma ponta do fio, e como sucede com freqncia na 
primeira fase da represso a organizaes clandestinas 
intocadas, os resultados foram encorajadores. Com as 
informaes obtidas nos interrogatrios, compreendeu-se a 
estrutura da VPR, e identificou-se uma parte de seus 
militantes. Desvendaram-se tambm alguns mistrios, como o 
assassinato de Chandler, o atentado ao QG do ii Exrcito e 
diversas expropriaes de bancos.
O fator surpresa, grande arma do terrorismo, passara 
momentaneamente para as mos do governo. Apesar de a VPR ter 
sido avisada das prises de Itapecerica por um sargento que 
servia na PE, sua rede com partimentalizada foi surpreendida. 
A polcia trabalhou  vontade por toda uma semana. Teve  sua 
disposio os conhecimentos de Hermes Camargo Batista, o 
Xavier, cuja submisso resultara em efetiva e dura- doura 
colaborao com seus interrogadores. 1
A VPR desarticulara-se. Desabrigado, Lamarca estivera 
enlatado por
quase doze horas num minsculo Gordini, enquanto seus colegas 
buscavam um refgio. Onofre Pinto acabara capturado, metade 
das ar-
9 Mao de catorze folhas encontrado pelos agentes do DOI de 
So Paulo num aparelho. Trata-se de uma tentativa de 
reconstituio da sucesso de prises de militantes das 
organizaes arma das. Esse documento foi concludo no 
segundo semestre de 1973, pelos presos que estavam no 
presdio Tiradentes. Sua autenticidade foi reconhecida por 
diversos militantes da ALN e da VPR. Isso no significa que 
seu contedo esteja livre de equvocos. Tornou-se conhecido 
como Que dograma, nome pelo qual ser referido. .
10 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 146.
11 Judith Lieblich Patarra, lara, pp. 279-80.
Ii
A TIGRADA D O BOTE        49
mas roubadas ao 42 RI foram recuperadas, e o ncleo dirigente 
da orga nizao pulverizara-se.
A partir de uma priso feita na VPR, furou-se em poucos dias 
a capa da ALN, e chegou-se ao aparelho de um membro do seu 
Grupo Ttico Armado. O GTA tinha em torno de quarenta 
integrantes e era a artilha ria da organizao. Chefiava-o 
Marco Antnio Brs de Carvalho, Pedri nho, experimentado 
manipulador de armas e explosivos, veterano de quase todas as 
aes armadas da organizao. Tinha mais de trinta anos, 
diferenciando-se da militncia juvenil do grupo. Dizia que 
no era marxista, mas invocado, e que estava numa guerra, 
no num crculo de debates No dia 28 de janeiro, depois de 
ir a um ponto onde deve ria encontrar um colega, resolveu 
procur-lo no aparelho. Virou a cha ve na fechadura, e a 
polcia caiu-lhe em cima. Foi morto a tiros.
Prises feitas em Braslia derrubaram mais uma fatia da ALN. 
Em Belo Horizonte, o coronel Octavio Medeiros destroara o 
Colina. O pi que do final de 1968 estava contido. Os 
combatentes refluram para lamber as feridas.
Um ex-militante do PCB que se tornara colaborador da polcia 
reve lou a estrutura de uma nova organizao, baseada no Rio 
de Janeiro, sa da da dissidncia estudantil do Partido em 
Niteri. Era o Movimento Revolucionrio 8 de Outubro, MR-8, 
assim batizado por conta do dia da captura do Che Guevara. O 
8, como era chamado, tinha menos de trin ta militantes e, 
num s golpe, foi liquidado pela Marinha. Entre janeiro e 
julho descobriram-se todos os seus quadros, a fazenda no 
Paran onde se pretendia abrir um foco rural e a 
surpreendente figura de Jorge Me deiros Valle, o corpulento 
Bom Burgus. Funcionrio da agncia do Ban co do Brasil no 
Leblon, manipulava um engenhoso sistema de desfalques atravs 
do qual juntara mais de 2 milhes de dlares. Dera 100 mil  
or ganizao e dela ganhara o apelido. Ao PCBR, passara 150 
mil dlares.
12 Jacob Gorender, Combate nas trevas, pp. 108-9. Para esse 
caso, ver tambm o depoimento de
Dulce de Souza Maia, em Luiz Maklouf Carvalho, Mulheres que 
foram  luta armada, p. 59.
13 Quedograma, item 4.
14 Entrevista de Jorge Medeiros Valie a O Globo de 28 de 
julho de 1969.
50        A DITADURA ESCANCARADA
A Marinha montara um presdio no antigo centro de triagem de 
imigrantes da ilha das Flores, no fundo da baa de Guanabara. 
Nele rei nava o comandante Clemente Jos Monteiro Filho, um 
fuzileiro naval que nos anos 40 freqentara o Partido 
Comunista e sobrevivera a trs inquritos e uma crise 
nervosa. Do ponto de vista administrativo, es tava 
subordinado ao comando geral do Corpo de Fuzileiros, mas, na 
hierarquia do poro, respondia ao Cenimar e  seo de 
operaes do 1 Distrito Naval, chefiada pelo capito-de-
fragata Francisco Srgio Be zerra Marinho. A inverso de 
comando era to profunda que durante o inverno de 1969, 
quando o comandante dos fuzileiros, almirante Heitor Lopes de 
Souza, mencionou a Marinho a existncia de uma queixa con tra 
a escassez de cobertores nas celas, ouviu de volta: O senhor 
fica aqui cuidando do frio desses comunistas, mas quem vai 
para a rua arriscar a vida para captur-los nos pontos sou 
eu.
A funcionalidade da tortura dava seus dividendos. Em Minas Ge 
rais e no Rio de Janeiro o Colina e o MR-8 caram como um 
castelo de cartas. Do primeiro, sobraram alguns quadros que 
deslizaram para a VPR. Do 8 nem isso. Numa das celas da 
ilha das Flores, um operrio, veterano militante do PCB, 
submetido a um intil aliciamento por um dos guerrilheiros, 
observava: Eu prefiro ficar na minha. Pelo menos tem algum 
l fora. A deles est toda aqui.
A sede da ofensiva estava em So Paulo, no quartel da Polcia 
do Exrcito da rua Ablio Soares, a poucos minutos do QG. L 
se puxavam com sucesso os fios das duas principais 
organizaes, a VPR e a ALN. O co mandante das operaes era 
o major Waldyr Coelho, chefe da seo de informaes do 
estado-maior da 2 Diviso de Exrcito. Tinha 41 anos e uma 
aparncia comum, salvo pela calva precoce. Vinha da arma da 
en genharia. Centralizador, autoritrio e vaidoso, trabalhava 
dezesseis horas
15 Correio da Manh, 2 de dezembro de 1964. A ilha das Flores 
fora usada como presdio po ltico em 1935, quando guardou os 
revoltosos capturados no levante do 32 Regimento de In 
fantaria.
16 Silvio Ferraz, testemunha do dilogo, ocorrido no gabinete 
do almirante Heitor Lopes de Souza. Setembro de 1969.
17 Djalma, operrio da Forja Tijolos, agosto de 1969.
A TIGRADA D O BOTE        51
por dia. Era de rara severidade com os comandados. Devolvera 
como in competentes dois oficiais sados da Escola de Estado-
Maior que no se adaptaram aos seus mtodos. s vezes 
participava de interrogatrios no papel de magnnimo. Meu 
filho, o que esto fazendo com voc? J dei ordens aos meus 
subordinados para que no faam isso disse a um pre so que 
estava numa sesso de tortura para, logo depois, s suas 
costas, fa zer um sinal para que voltassem a espanc-lo. 
Mantinha-se fora da po ltica e estivera ao largo das 
traquinagens da linha dura.
Os reveses provocaram uma alterao no metabolismo da ALN e 
da VPR. Obrigadas a manter na clandestinidade os quadros 
identificados pela polcia, incharam o seu efetivo de quadros 
profissionais. Com o au mento dos custos, foram caar 
recursos. Aos poucos, a sobrevivncia tornava-se o eixo das 
atividades do militante enredado em normas de segurana cada 
vez mais rgidas. A prpria organizao via-se levada a 
equilibrar o oramento com aes destitudas de significado 
poltico.
Deixando-se de lado os custos de manuteno dos quadros diri 
gentes e as despesas essenciais da organizao, cada 
clandestino viven do em condies modestas custava pelo menos 
o equivalente a duzen tos dlares mensais. Pode-se estimar 
que cada roubo a banco rendia em mdia 6,5 mil dlares. A 
subsistncia dos quadros custava um assalto mensal para cada 
32 clandestinos. Cada assalto a banco mobilizava em torno de 
dez pessoas e demandava o furto de cinco automveis. Cada um 
desses furtos exigia a participao de pelo menos quatro 
militantes. Em abril de 1969, quando a VPR se fundiu aos 
fugitivos do Colina, ado tando o nome de Vanguarda Armada 
Revolucionria  VAR  Palma-
18 Ariston Lucena, agosto de 1988.
19 Segundo um levantamento produzido pelos rgos de 
segurana e divulgado no Jornal do Brasil de 14 de dezembro 
de 1970, entre 1 de agosto de 1969 e 31 de julho de 1970 (pp. 
44-6) fo ram assaltados 343 bancos, dos quais se retiraram 
9,6 milhes de cruzeiros em dinheiro. Disso resulta um valor 
mdio de 28 mil cruzeiros para cada assalto, ou cerca de 6,5 
mil dlares. Essas cifras devem ser tomadas com cautela, pois 
foram muitos os casos em que os assaltantes se vi ram com 
muito menos dinheiro nas sacolas do que diziam tanto a 
polcia como os bancos, O prprio levantamento carece dos 
detalhes necessrios para se afirmar que todos os assaltos fo 
ram praticados por terroristas. Para a relao custo-
benefcio das expropriaes, ver Herbert Daniel, Passagem 
para o prximo sonho, p. 20.
52        A DITADURA ESCANCARADA
res, o capital da nova sigla somava entre 6 mil e 14 mil 
dlares. Um lance de audcia haveria de inundar as finanas 
da VAR e irrigar uma parte da economia da luta armada.
A velha VPR e a ALN souberam da existncia de um tesouro. 
Parecia lenda de pirata. O primeiro a ser avisado foi 
Marighella. Um militante falou-lhe de um cofre escondido no 
apartamento paulista de Ana Ben chimol Capriglioni, 
mitolgica amante e depositria de propinas guar dadas pelo 
ex-governador Adhemar de Barros. Conhecido pelo siogan Rouba 
mas faz governara o estado de So Paulo por trs vezes e rou 
bara como poucos. O cofre, que se supunha pesar duzentos 
quilos, es tava no 14 andar de um edificio da avenida So 
Lus. Em poucas sema nas a ALN estocou quatro 
submetralhadoras, trs fuzis FAL, revlveres, pistolas e 
granadas, e o plano marchava quando Adhemar morreu em Paris e 
Marighella suspendeu a operao.
No se sabe precisamente quantos cofres teve Adhemar, mas um 
deles estava na casa do irmo de Ana Capriglioni, no morro de 
Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Sorte da VAR-Palmares. Um 
militante da orga nizao, sobrinho da poderosa senhora, 
tinha o mapa: a caixinha do Adhemar estava no fundo de um 
armrio embutido do segundo andar. Comeou assim A Grande 
Ao Vendedores de enciclopdias e pes quisadores de 
audincia de televiso visitaram o palacete, enquanto o 
sobrinho caiu na clandestinidade.
Na tarde de 18 de julho um comando da VAR subiu as ladeiras 
de
Santa Teresa. Eram onze homens e duas moas. Chegaram 
dizendo-se
20 1PM  VAR-Palmares na rea do 1 Exrcito. Concluses, p. 
2. Segundo o documento A Ao
Grande ou O Roubo do Cofre do Adhemar, colocado em outubro 
de 2000 no stio Terrorismo
nunca mais, Ternuma, <http://www.ternuma.com.br/adhemar.htm>, 
a VPR trouxe um dote de 55
milhes de cruzeiros, equivalentes a cerca de 14 mil dlares.
21 O Estado de S. Paulo, 16 de julho de 1989, O sumio do 
cofre do Adhemar, p. 4, e Marco Au rlio Garcia, A 
preparao  Sobrinho subversivo abre a boca, Em Tempo, n 
99, 7 a 21 de fe vereiro de 1980, So Paulo.
22 Marco Aurlio Garcia, A preparao  Sobrinho 
subversivo abre a boca, Em Tempo, n 99,
7 a 21 de fevereiro de 1980, So Paulo. O Estado de S. Paulo, 
23 de julho de 1989.
A TIGRADA D O BOTE        53
agentes da Polcia Federal em busca de material subversivo, 
a mando do general Entraram na casa nove federais e duas 
camionetes. Na rua ficaram um Aero-Willys e os encarregados 
da cobertura, um dos quais montado numa metralhadora 
Schmeisser ponto 30. Um grupo subiu ao segundo andar para 
procurar o esconderijo da caixinha enquanto ou tro furava 
os pneus dos carros guardados na garagem, desligava os tele 
fones e amarrava os criados e moradores. Os contratempos 
foram pou cos. A cozinheira no se intimidou e se recusou a 
sair de perto do fogo, porque se eu deixo essa carne 
estragar, a patroa me mata A copeira se negou a apressar o 
banho. De acordo com o plano o cofre deveria des cer num 
carrinho, mas rolou pela escadaria de mrmore. Colocado numa 
das camionetes, foi levado para um aparelho em Jacarepagu. A 
operao durou 28 minutos.
Um mecnico trazido de Porto Alegre acendeu o maarico de uma
solda de acetileno e comeou a cortar a caixinha Feito o 
primeiro bu raco, inundou-se o cofre para que o dinheiro no 
se queimasse.
Voc acha que tem um milho a dentro?, perguntou Juarez 
Gui mares de Brito, economista que vinha do Colina e dividia 
seu tempo entre a VAR e servios de pesquisa para a 
Pontificia Universidade Cat lica. Era o Juvenal e fora o 
organizador da Grande Ao
Se tiver cem mil j est bom demais, respondeu Alberto 
(Jos de
Arajo Nbrega, um ex-sargento que num lance de sorte 
escapara da
polcia em Itapecerica da Serra).
Havia sete pessoas em torno do cofre quando se rasgou uma 
fatia de sua blindagem. Juarez riu. Era uma botija de 
dlares. Notas peque nas, grandes, soltas ou em pacotinhos de 
um banco suo. Estenderam- se varais pela casa, ligaram-se 
ventiladores, e ps-se o tesouro a secar.
23 A Grande Ao ou o roubo do cofre do Adhemar, reportagem 
de Jos Roberto de Alencar,
em O Estado de S. Paulo, 23 de julho de 1989, p. 9. Para o 
peso do cofre, documento intitulado
A Ao Grande ou O Roubo do Cofre do Adhemar, colocado em 
outubro de 2000 no stio
Terrorismo nunca mais, Tem uma, 
<http://www.ternuma.com.br/adhemar.htm>.
24 Para os 28 minutos, depoimento de Wellington Moreira Diniz 
a Isto de 21 de julho de 1999.
25 A Grande Ao ou o roubo do cofre do Adhemar, reportagem 
de Jos Roberto de Alencar,
em O Estado de S. Paulo, 23 de julho de 1989, p. 9.
54        A DITADURA ESCANCARADA
Contaram 2,6 milhes de dlares. Tinham acabado de dar o 
maior golpe da histria do terrorismo mundial. Os principais 
grupos de com batentes surgidos desde o final do sculo x 
haviam arrecadado, em conjunto, algo como 17 milhes de 
dlares. A VAR, de uma s tacada, fa turou o equivalente a 
15% do centenrio esforo internacional. Como dizia a modinha 
ademarista dos anos 50:
Quem no conhece?
Quem nunca ouviu falar?
Na famosa caixinha do Adhemar
Que deu livros, deu remdios, deu estradas
Caixinha abenoada!
Assim como no se sabe quem colocou tamanha fortuna no bolso 
de Adhemar de Barros, tambm  dificil saber onde ela foi 
parar. H duas verses para o destino desse butim. Uma 
resulta das diversas narrativas dos militantes da VAR e das 
faces em que ela viria a se subdividir. Ou tra, das contas 
do dE. Partem de totais diferentes, mas so semelhantes. Um 
pedao, que pode ter variado entre 800 mil e 1 milho de 
dlares, foi entregue a um diplomata argelino. Outro, 
estimado entre 250 mil e meio
26 Para a cifra, A verdadeira histria do cofre do dr. Rui 
reportagem de Luiza Villama, em Isto de 21 de julho de 
1999. Segundo A Ao Grande ou O Roubo do Cofre do Adhemar, 
do cumento colocado em outubro de 2000 no stio Terrorismo 
nunca mais, Ternuma, <http://www. 
ternuma.com.br/adhemar.htm>, havia no cofre 2,8 milhes de 
dlares.
27 Walter Laqueur, The age of terrorism, p. 102. Laqueur 
estima que entre 1880 e 1947 as organi zaes terroristas 
arrecadaram de 10 a 17 milhes de dlares em dinheiro de 
1976. Laqueur no computou o saque do Banco da Arglia, 
ocorrido em 1960 e praticado pela Organizao do Exr cito 
Secreto, que rendeu cerca de 5 milhes de dlares. A 
colaborao dos funcionrios foi tama nha que  arriscado 
dizer que houve um assalto. Yves Courrire, La Guerre 
dAlgrie, tomo ii, pp. 949 e 1054. O recorde da VPR durou 
pouco. No dia 12 de novembro os Tupamaros uruguaios sa 
quearam o Banco da Repblica e levaram o equivalente a 6 
milhes de dlares, quase tudo em jias. Laqueur, The age of 
terrorism, p. 97. Em 1974 todos os recordes foram 
pulverizados na Ar gentina pelo Exrcito Revolucionrio do 
Povo. Ele arrecadou 60 milhes de dlares no seqes tro dos 
irmos Jorge e Juan Bom.
28 A verdadeira histria do cofre do dr. Rui reportagem de 
Luiza Villama, em Isto de 21 de julho de 1999.
A TIGRADA D O BOTE        55
milho, foi depositado na Sua. Assim, algo entre 1 e 1,6 
milho de dla res ficou no Brasil.  certo que um 
espertalho francs embolsou parte da poupana externa do 
grupo. Segundo o CIE, em 1974 restavam na Europa 120 mil 
dlares. Em 1998, Maria do Carmo Brito, a Lia, dirigente da 
VPR e viva de Juarez, o comandante da ao, informou ao 
jornalista Luiz Ma klouf Carvalho que s ela sabe o nome da 
pessoa a quem repassou o con trole do dinheiro entregue aos 
argelinos, mas no o revelou.
A surpreendente conexo argelina ia alm da VAR. Enquanto os 
cubanos carregavam toda a fama, o embaixador Hafid Keramane, 
vete rano militante da FLN e autor de um livro sobre as 
torturas francesas em Argel, operava uma representao 
diplomtica acreditada tanto junto ao governo como aos 
terroristas. A embaixada americana suspeitava da existncia 
de contatos dos argelinos com o Colina e supunha que tives 
sem ligaes com o MR-8. Semanas antes de ser preso, em julho 
de 1969, o Bom Burgus estivera em Paris buscando veteranos 
da rede da Guerra da Arglia, pois pretendia multiplicar sua 
verba revolucionria atravs de operaes de comrcio 
internacional que poderiam render, a seu juzo, 300 mil 
dlares anuais. Depositara uma pequena fortuna no Handels 
Bank, na Sua, e instalara sua famlia num apartamento do 
elegante xvime parisiense. Tentara sem sucesso um encontro 
com Marighella. Sua idia era impulsionar uma vertente da 
luta armada li vre das influncias cubana e chinesa.
29 Para duas verses da diviso do butim, A Ao Grande ou O 
Roubo do Cofre do Adhemar, documento colocado em outubro de 
2000 no stio Terrorismo nunca mais, Ternuma, <http:// 
www.ternuma.com.br/adhemar.htm>; A Grande Ao ou o roubo do 
cofre do Adhemar, re portagem de Jos Roberto de Alencar, em 
O Estado de S. Paulo, 23 de julho de 1989, e A verda deira 
histria do cofre do dr. Rui reportagem de Luiza Villama, 
em Isto de 21 de julho de 1999. 30 Luiz Maklouf Carvalho, 
Mulheres que foram  luta armada, p. 130. Juarez Guimares de 
Brito morru nove meses depois do assalto. Encurralado por 
agentes do DOI, deu-se um tiro na cabea. 31 Telegramas da 
embaixada americana no Rio para o Departamento de Estado, de 
31 de janei ro de 1969, para o Colina, e de 29 de julho de 
1969, para o MR-8. DEEUA. Keramane escreveu La pacification, 
publicado pela editora La Cit, de Lausanne, em 1960.
32 Reportagem de Reali Junior, em O Estado de S. Paulo, 11 de 
maro de 1979, p. 45.
33 Entrevista de Jorge Medeiros Vaile, o Bom Burgus, a O 
Globo de 28 de julho de 1969. Medei ros Vaile fez um acordo 
com o Cenimar, foi levado  Sua, devolveu pelo menos 1 
milho de d lares e ficou com o que sobrou. Capito-de-mar-
e-guerra Joo Batista Torrens Gomes Pereira, fevereiro de 
2001.
56 A DITADURA ESCANCARADA
A VAR-Palmares embolsou o butim, mas Ana Capriglioni e os her 
deiros do governador no reclamaram  polcia um s centavo. 
Susten taram que o cofre estava vazio. O governo, 
supostamente empenhado no combate  corrupo (que enchera o 
cofre) e  subverso (que o es vaziara), no se interessou em 
descobrir como os 2,6 milhes de dla res chegaram  cafua de 
Santa Teresa. Era dinheiro roubado, tomado a empreiteiros e 
bancas de bicho, mas o ministro da Justia, Gama e Sil va, j 
fornecera um atestado de bons antecedentes a Adhemar, fazendo 
circular a informao de que nada havia contra ele na 
Comisso Geral de Investigaes. Jamais um larpio pilhado 
disps de tanta proteo.
A rapina do cofre foi um sucesso financeiro e poltico. Pelo 
racioc nio segundo o qual era preciso reunir uma base 
material para permitir que a luta armada desse um salto 
qualitativo, os 2,6 milhes de dlares deveriam queimar a 
etapa de acumulao capitalista, ampliando o re crutamento de 
quadros e antecipando o comeo da sonhada guerrilha rural. 
Afinal, num s golpe, coletou-se o equivalente a cinco vezes 
a ren da de todos os 41 assaltos feitos no pas desde o 
incio das expropriaes, em dezembro de 1967. Parte da 
cpula da organizao deixou de vagar por pequenas casas de 
subrbio e se instalou numa chcara em Jacare pagu, equipada 
com carro estrangeiro e falso motorista. Se o proble ma fosse 
dinheiro, o caminho para o socialismo encurtara. Como obser 
vou Marco Aurlio Garcia, em trabalho pioneiro que h dcadas 
ilumi na a histria do perodo, o dinheiro no trouxe a 
felicidade s organi zaes de esquerda revolucionria A 
VAR-Palmares se estilhaou de pois de alguns meses, e, salvo 
a montagem de duas bases de treinamen to de guerrilhas, uma 
das quais sob o comando de Lamarca, as aes
34 Defesa de Gustavo Buarque Schiller, feita pelo advogado 
Evaristo de Moraes Filho junto ao
STM, p. 3. Evaristo sustentou que Gustavo Schiller no podia 
ser acusado de ter infringido a Lei
de Segurana Nacional porque ela no capitula de crime o 
roubo de cofres vazios, O irmo de
Ana Capriglioni, comandante Jos Burlamaqui Benchimol, 
testemunhou ser a nica pessoa a co nhecer o segredo do cofre 
supostamente vazio.
35 Telegrama da agncia Reuters de Buenos Aires para Londres, 
de 15 de maio de 1969. Os 41
assaltos de 1968 a maio de 69 teriam rendido o equivalente a 
450 mil dlares, segundo a polcia.
36 Judith Lieblich Patarra, lara, p. 334.
37 Marco Aurlio Garcia, Contribuio  histria da esquerda 
brasileira, 1960-1979, Em Tempo,
n 102, 20 de maro a 2 de abril de 1980, So Paulo, p. 17.
A TIGRADA D O BOTE        57
subseqentes mantiveram-se naquilo que Herbert Eustquio de 
Carva lho, o Daniel, dirigente da VPR, chamou de dinmica da 
sobrevivncia
Ao longo de 1969 as organizaes esquerdistas brasileiras que 
se lanaram em atos terroristas foram submetidas ao primeiro 
grande tes te que a existncia lhes reservava. Na infncia de 
sua formao, qualquer grupo revolucionrio beneficia-se da 
falta de informaes da polcia, da capacidade de surpreender 
seus alvos e do apoio de uma rede de mili tantes cuja 
fidelidade  proporcional  segurana que lhe faculta a ms 
tica de segredo da organizao.  uma fase de esplendor, na 
qual o ro mantismo dos primeiros tiros se confunde com a 
sensao de onipotn cia oferecida pela perplexidade do 
inimigo. Parece ser a prova factual da clarividncia da opo 
poltica. Na fase seguinte, quando o governo consegue prender 
combatentes, prevenir aes e intimidar o grande cr culo da 
militncia desarmada, d-se um teste de madureza para o gru 
po. Alguns no vivem alm dele, como o Colina e o MR-8. Quase 
todos os outros, mesmo sobrevivendo, j no se organizam como 
a revoluo precisa, mas como a represso condiciona, 
produzindo uma rotina de gato-e-rato.
38 Herbert Daniel (Herbert Eustquio de Carvalho), Passagem 
para o prximo sonho, p. 21.
39 Meses depois da captura do MR-8, a Dissidncia 
Universitria da Guanabara adotou a sua
sigla.
A Operao Bandeirante, Oban
Apesar dos sucessos conseguidos pela represso, o governo se 
assustara com a fuga de Lamarca, sobretudo pelo toque 
romanesco do capito do Exrcito que deixa a fortaleza e se 
junta aos guerrilheiros. O general Jay me Porteila, na 
qualidade de secretrio-geral do Conselho de Segurana 
Nacional, escreveu a Costa e Silva que a persistir tal 
situao  de pre ver-se: a ecloso de guerrilhas urbanas e 
rurais; a atuao mais violenta em atos de terrorismo; a 
criao de bases e zonas liberadas Havia nes se cenrio 
um condimento catastrofista, resultante da instrumentaliza 
o da ameaa, pois quanto maior ela fosse, mais estariam 
justificados o AI-5 e todas as suas seqelas. Ainda assim, 
Portella tinha razo quando sustentava: Os organismos 
policiais nas reas estaduais mostram-se des preparados e 
insuficientes. A falta de coordenao e de uma ao maci a 
de represso  onda de violncia parece constituir o 
principal fator de xito do plano subversivo Propunha uma 
Comisso Geral de Inquri to Policial-Militar, vinculada  
Presidncia da Repblica.  possvel que o general 
pretendesse colocar sob sua jurisdio uma central de repres 
so poltica, mas, de qualquer forma, a idia no prosperou.
A novidade viria de So Pau1o onde o general Jos Canavarro 
Pe reira assumira em maio de 1968 o comando do ii Exrcito. 
Ele levara co mo chefe do estado-maior o general Ernani 
Ayrosa da Silva, condecora do duas vezes por bravura na Fora 
Expedicionria Brasileira. Solteiro,
1 Veja, 19 de fevereiro de 1969, p. 16.
6o
A DITADURA ESCANCARADA
fora mutilado quando o jipe em que viajava explodiu depois de 
um cho que com uma patrulha alem. Devia a vida  Conveno 
de Genebra, ins trumento de proteo internacional dos 
prisioneiros de guerra. Captu rado no mesmo dia em que os 
comunistas italianos metralhavam Benito Mussolini, Ayrosa 
fora superficialmente assistido por um mdico alemo e 
deixado em paz num depsito de cereais. L ficou por quase 
duas se manas, at que a guerra acabou e os Aliados o levaram 
para um hospi tal. Era um homem de fina educao, general que 
tocava piano.
O estmulo de Ayrosa ao major Waidyr Coelho e a seus tigres 
pau listas cristalizou-se na Operao Bandeirante, a Oban. 
Ela foi lapidada por meio de uma Diretriz para a Poltica de 
Segurana Interna, expedida pela Presidncia da Repblica em 
julho de 1969, que resultou no surgimento de estruturas 
semelhantes em outros estados. Estabelecia as normas que 
centralizavam o sistema de segurana, colocando-o sob as 
ordens de um oficial do Exrcito classificado na seo de 
informaes do comando mi litar. Ele requisitaria efetivos  
PM, delegados e escreventes  polcia. Man teria algo 
parecido com um cartrio para tomada de depoimentos e te ria 
sua prpria carceragem. Buscava-se a centralizao das 
atividades repressivas nas grandes cidades. As delegacias 
policiais, inclusive o DOPS, estavam obrigadas a mandar  
Oban todos os suspeitos de atividades ter roristas. A 
providncia fazia sentido, tanto pelas energias e tempo perdi 
dos nas rivalidades entre o aparelho militar e o civil, como 
pelas quiz lias que separavam ora os comandantes das 
diversas unidades ora os delegados dos diversos servios 
especializados da polcia. Criava-se as sim um corpo de 
polcia poltica dentro do Exrcito, funcionando na zona 
militar do parque do Ibirapuera.
Subordinada  2 Seo do estado-maior das grandes unidades, 
es sa clula repressiva era uma anomalia na estrutura militar 
convencional. Na originalidade e na autonomia, assemelhava-se 
ao dispositivo monta do pelo general Massu em Argel. Num 
desvio doutrinrio, essa unida 2 Ernani Ayrosa da Silva, 
Memrias de um soldado, pp. 79-80. O episdio est narrado 
por outro
passageiro do jipe, pio de Freitas, em Ricardo Bonalume 
Neto, A nossa segunda guerra, p. 213.
3 Sistema de Segurana Interna  Sissegin, p. 6. AA.
4 Paul Aussaresses, Services spciaux, pp. 99-102.
A OPERAO BANDEIRANTE, OBAN        6i
de de centralizao das atividades repressivas operava sob a 
coordena o do Centro de Informaes do Exrcito, rgo do 
gabinete do minis tro. Em julho de 1969, quando o governador 
Roberto de Abreu Sodr com pareceu  cerimnia de lanamento 
da Operao Bandeirante, essa questo parecia ser uma dvida 
arcana, irrelevante para quem precisava  e r pido  de 
comando, ao e eficincia.
Em termos prticos, o major Coelho fazia tempo pensava em 
trans ferir o seu poro para outra sede, onde tivesse mais 
segurana e, sobre tudo, discrio. Uma das inconvenincias 
do quartel estava na inevitvel convivncia dos recrutas com 
a tortura. Alm disso, o general Canavar ro achava necessrio 
quintuplicar o efetivo da sua tropa de Polcia do Exr cito. 
Tinha uma companhia com duzentos homens e queria um batalho, 
com 960. A burocracia de Braslia dissera-lhe que nada havia 
contra a idia, desde que ele conseguisse equipar o quartel 
sem pedir dinheiro  caixa do ministro. Para satisfao da 
plutocracia paulista, o comandante do ii Exrcito aceitou o 
desafio.
O prefeito da cidade, Paulo Maluf, asfaltou a rea do 
quartel, tro cou-lhe a rede eltrica e iluminou-o com 
lmpadas de mercrio. O go vernador Roberto de Abreu Sodr 
cedeu-lhe espao numa delegacia na esquina das ruas Toms 
Carvalhal e Tutia, a cinco minutos do QG do Ibirapuera, para 
que nela fosse instalada a Oban. O prdio ficava numa 
vizinhana de apartamentos de classe mdia. Outras 
necessidades foram supridas graas  coordenao de Luiz 
Macedo Quentel, sbria figura das rodas da gr-finagem 
paulistana. Ayrosa via nele um homem tra dicional por 
famlia, religioso por formao, afetivo por sentimento, ca 
rinhoso por bondade, compreensivo e tolerante pela 
intelignciaY Ma gro, elegante, casado numa das antigas 
famlias do estado, fora assessor de Jnio Quadros. 
Trabalhava causas da Light e de empreiteiras. Ele man dou  
desmandou nesta cidade, falava em nome da espada de Caxias, 
relembrou Delfim Netto.
5 Ana Laga, SNI, p. 69, e Antonio Carlos Fon, Tortura, p. 
15.
6 Ernani Ayrosa da Silva, Memrias de um soldado, p. 118.
7 Idem.
8 Antonio Delfim Netto, janeiro de 1986 e janeiro de 1990.
62        A DITADURA ESCANCARADA
A reestruturao da PE paulista e a Operao Bandeirante 
foram so corridas por uma caixinha a que compareceu o 
empresariado paulista. A banca achegou-se no segundo semestre 
de 1969, reunida com Delfim num almoo no palacete do clube 
So Paulo, velha casa de dona Vendia- na Prado. O encontro 
foi organizado por Gasto Vidigal, dono do Mer cantil de So 
Paulo e uma espcie de paradigma do gnero. Sentaram-se  
mesa cerca de quinze pessoas. Representavam os grandes bancos 
brasi leiros. Delfim explicou que as Foras Armadas no 
tinham equipamento nem verbas para enfrentar a subverso. 
Precisava de bastante dinheiro. Vi digal fixou a contribuio 
em algo como 500 mil cruzeiros da poca, equi valentes a 110 
mil dlares. Para evitar pechinchas, passou a palavra aos co 
legas lembrando que cobriria qualquer diferena. No foi 
necessrio. Sacou parte semelhante  dos demais. Dei 
dinheiro para o combate ao terrorismo. ramos ns ou eles, 
argumentaria Vidigal, anos mais tarde.
Na Federao das Indstrias de So Paulo, convidavam-se 
empres rios para reunies em cujo trmino se passava o 
quepe. A Ford e a Volks wagen forneciam carros, a Ultrags 
emprestava caminhes, e a Supergel abastecia a carceragem da 
rua Tutia com refeies congeladas. Segun do Paulo Egydio 
Martins, que em 1974 assumiria o governo de So Pau lo, 
quela poca, levando-se em conta o clima, pode-se afirmar 
que to dos os grandes grupos comerciais e industriais do 
estado contriburam para o incio da Oban
Os donativos eram levados ao general Ayrosa. As empresas 
nacio nais pagaram de acordo com a vontade de seus diretores. 
J as multina 9 Gasto Vidigal, novembro de 1995. Vidigal 
mencionou a cifra (500 milhes), mas no se mos trou seguro 
a seu respeito. Lembrava-se, contudo, que era muito 
dinheiro.
10 Declarao feita por Gasto Vidigal ao jornalista Silvio 
Ferraz em 1981.
11 Para os carros da Ford e da Volkswagen, entrevista do ex-
sargento Marival Chaves Dias do Can to ao Jornal do Brasil de 
17 de novembro de 1992. Para os caminhes da Ultrags, 
Venceremos, r go da ALN, n 1, abril de 1970. Para as 
refeies da Supergel, Francisco Carlos de Andrade, 14 de 
agosto de 1988.
12 Paulo Egydio Martins, junho de 1988.
13 Paulo Sawaya, janeiro de 1990.
A OPERAO BANDEIRANTE, OBAN        63
cionais americanas procuraram conselhos no consulado dos 
Estados Unidos. Se a consulta era telefnica, o funcionrio 
encarregado do assun to respondia que ficava a critrio de 
cada um, mas pelo menos um ho mem de negcios recebeu uma 
visita complementar de um funcionrio do consulado que, 
satisfeito, enumerou as empresas que j haviam deci dido 
ajudar o combate  subverso.
A associao entre interesses empresariais e os da segurana 
estava semeada desde 1964, mas floresceu em julho de 69, 
depois de quatro in cndios que em menos de 72 horas torraram 
as instalaes de quatro emis soras de televiso paulistas. 
O dono da TV Record e um diretor da TV Globo disseram-se 
certos de que o fogo foi ateado por terroristas O jornal 
Folha de S.Paulo reagiu com um editorial intitulado Unio 
con tra a violncia
A violncia estava envenenando a vida nacional. Em Belo 
Horizon te, 38 padres haviam assinado dias antes uma carta 
endereada  Confe rncia Nacional dos Bispos do Brasil 
denunciando a prtica e as sedes da tortura de que temos 
certeza Enquanto o editorial da Folha estava nas bancas, 
comeava no Recife o suplcio do advogado Lus Antonio Medei 
ros de Oliveira, em cujo trmino, com duas vrtebras 
fraturadas, ele saiu paraltico. A violncia de que falava o 
editorial era outra: esse terroris mo que nada tem a ver com 
nossas tradies de luta poltica e se confun de pura e 
simplesmente com o banditismo [ contra o qual  preciso 
lutar, custe o que custar
A FIESP atirou com um manifesto em que denunciou o 
vandalismo das falanges da subverso e do genocdio O 
presidente da Federao do Comrcio, Jos Papa Jr., garantiu 
sua solidariedade s Foras Armadas, que se cobriram de 
glrias nas trincheiras e nos cus da Europa Chegou o
14 A. J. Langguth, A face oculta do terror, p. 108.
15 Houve incndios nas seguintes emissoras: Globo, Record, 
Bandeirantes e Excelsior (duas ve zes). Entre 1966 e 1969 
deram-se oito incndios em emissoras paulistas. Em 1968 o 
comandante
do Corpo de Bombeiros responsabilizara as empresas, por 
ineptas, e previra que eles poderiam
vir a se repetir. O Estado de S. Paulo, 18 de julho de 1970.
16 Jornal do Brasil, 15 de julho de 1969.
17 Folha de S.Paulo, 16 de julho de 1969, edio extra, p. 1. 
Para a tortura de Lus Antonio Medeiros
de Oliveira, Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 2: As 
torturas, p. 841.
64        A DITADURA ESCANCARADA
momento de dizer basta! acrescentou o presidente da 
Confederao Na cional do Comrcio, Jess Pinto Freire. O 
governador Abreu Sodr ad vertiu: No h lugar para fracos 
ou covardes na presente situao: ou se est a favor da ordem 
que constri ou pela desordem que destri
Os responsveis pelos incndios das emissoras de televiso 
nunca fo ram identificados. Desvendaram-se todos os assaltos 
e atentados de vul to cometidos em 1969 pelas organizaes de 
esquerda, mas os incndios das quatro emissoras ficaram na 
pasta dos crimes insolveis. Um telegra ma do cnsul 
americano em So Paulo lanou a suspeita de que se des 
tinavam a tomar o dinheiro do seguro. Houve sem dvida uma 
relao fraudulenta entre a denncia das falanges, a 
materialidade dos incn dios, as emissoras e as companhias de 
seguro. Nenhuma televiso se con siderou formalmente vtima 
de um atentado, pois como seus contratos no cobriam 
sinistros provocados por sabotadores, elas preferiram ficar 
com a verso bem mais lgica dos acidentes. A TV Record j 
pegara fogo em 1966, e aquele fora o segundo incndio do ano. 
A Globo, onde o in cndio teria comeado pela exploso de um 
frasco de gasolina gelatino sa (explosivo jamais usado pelos 
grupos de esquerda, quer antes, quer de pois de 1969), fez um 
grande negcio: Para ns, isso foi simplesmente o melhor que 
podia acontecer. Com o incndio, nos livramos de uma s vez 
de toda a velharia tcnica que atrapalhava a nossa produo. 
Com o dinheiro do seguro  uma bolada de quase sete milhes 
de dlares  pudemos comprar tudo o que precisvamos, do 
jeito que queramos, no vo em folha, relembrou anos mais 
tarde Walter Clark, o diretor-geral da emissora. A maior das 
mobilizaes antiterroristas da plutocracia gi rara em torno 
de uma contrafao.
18 Folha de S.Paulo, 20, 23 e 26 de julho de 1969, 12 
caderno, p. 5, p. 3 e p 3
19 Telegrama de Robert Corrigan, cnsul-geral dos Estados 
Unidos em So Paulo, a Washington,
de 25 de julho de 1969. DEEUA.
20 Telegrama de Robert Corrigan ao Departamento de Estado, de 
24 de julho de 1969. Corrigan
fala em trs incndios DEEUA.
21 A TV Record pegou fogo em 29 de julho de 1966,28 de maro 
e 13 de julho de 1969. Em janei ro de 1969 houve tambm um 
pequeno incndio no prdio onde estava sua antena, com preju 
zos irrelevantes. O Estado de S. Paulo, 18 de julho de 1970.
22 Walter Clark, com Gabriel Prolli, O campeo de audincia, 
pp. 203-10.
A OPERAO BANDEIRANTE, OBAN        65
Como sucedera no Rio de Janeiro, o poro paulista se 
associara  escumalha da Polcia Civil. O DOPS abasteceu-se 
recrutando quadros na Delegacia de Roubos, smbolo da 
violncia e da corrupo. Um dos ases dessa migrao tornara-
se pea importante na mquina do major Waidyr. Srgio 
Fernando Paranhos Fleury tinha 35 anos. Passara a vida na 
polcia. Era menino quando seu pai, mdico-legista, morreu 
conta minado por um cadver, O governo pagara seus estudos, e 
desde os de zessete anos ele trabalhava em delegacias, 
engordando o oramento com bicos. Em 1967 fazia parte do 
grupo de policiais que cuidava da segu rana do cantor 
Roberto Carlos, o Rei do I-I-I.  sua volta gravi tava uma 
turma de investigadores audaciosa e violenta. Produto da po 
lcia paulista, com sua tradio de torturas e assassinatos, 
encarnaria o combate ao terrorismo. Vulgar e corrupto, 
projetava a imagem do ma cho valente, quando na realidade 
sua fama derivava da bestialidade do meio em que vivera e sua 
ascenso ao posto de chefe dos janzaros da ditadura, do 
declnio dos padres ticos dos comandantes militares da 
ocasio. Nunca na histria brasileira um delinqente adquiriu 
sua pro eminncia.
Tinha o p direito na represso aos movimentos de esquerda e 
o es querdo na briga entre quadrilhas de trfico de drogas. 
Dividia sua jorna da defendendo o regime no poro e os 
interesses do traficante Juca na zona. Nos ltimos meses de 
1968 Juca (Jos Iglesias) brigara com seu s cio Miroca 
(Waidemiro Maia), e Fleury, no comando dos policiais que lhe 
vendiam proteo, foi  luta com um objetivo imediato: 
capturar uma caderneta onde estava a contabilidade das 
propinas pagas a detetives, co missrios e delegados, 
guardada pelo traficante Luciano (Domiciano An tunes Filho), 
que ficara no bando de Miroca.
23 Para uma descrio do ambiente ria Delegacia de Roubos, 
ver Percival de Souza, Autpsia do
medo, pp. 29-32.
24 Percival de Souza, Autpsia do medo, p. 17.
25 Ofcio do procurador Hlio Bicudo, de 12 de fevereiro de 
1971, em Hlio Bicudo, Meu depoi mento sobre o Esquadro da 
Morte, pp. 177-80.
66        A DITADURA ESCANCARADA
Na madrugada de 3 de dezembro, Fleury, acompanhado por qua 
tro policiais e um alcagete, achou Luciano em companhia de 
outro mar ginal. Levaram-nos para o quilmetro 32 da rodovia 
Casteilo Branco e metralharam-nos. Em seguida, abriram a mala 
do carro e desfizeram- se de outro cadver. Seriam mais trs 
presuntos sem histria, se no tivessem soltado o alcagete 
Carioca (Odilon Marcheroni de Queirz). Tentando se proteger, 
contou em juzo e  televiso no s o que vira, mas tambm o 
que sabia da relao da polcia com a guerra das quadri lhas 
de txicos.
Duas semanas depois, quando o pas estava debaixo do choque 
da edio do AI-5, Carioca foi preso. Entregaram-no a Fleury 
e levaram-no para a casa do investigador Fininho (Adhemar 
Augusto de O1iveir No dia seguinte os jornais paulistas 
publicavam uma entrevista do alcage te renegando tudo o que 
denunciara. Nunca mais se ouviu falar dele at que Fininho 
contou a um jornalista que o estrangulou passando-lhe no 
pescoo uma corda de nilon. Carregava sua lngua no 
chaveiro, co mo amuleto.
Os comandantes militares que incorporaram Fleury  tigrada 
sa biam que tinham colocado um delinqente na engrenagem 
policial do regime. Nos anos seguintes o delegado tornou-se 
um paradigma da efi ccia da criminalidade na represso 
poltica. Um raciocnio que come ara com a idia de que a 
tortura pode ser o melhor remdio para obter uma confisso, 
transbordava para o reconhecimento de que um fora-da- lei 
pode ser o melhor agente para a defesa do Estado. 
Recompensando o e protegendo-o, em 1971,por sugesto do dE, o 
governo passou-lhe no pescoo a fita verde-amarela com a 
Medalha do Pacificador.
A associao de oficiais das Foras Armadas com a bandidagem 
da polcia na construo de um sistema de represso baseado 
na tortura foi produto da incompetncia. No era inevitvel. 
A bibliografia do com bate ao terrorismo mostra que muitas 
vezes as foras policiais so insu 26 Hlio Bicudo, Meu 
depoimento sobre o Esquadro da Morte, pp. 177-80.
27 Idem, p. 179.
28 Hlio Bicudo, Do Esquadro da Morte aos justiceiros, p. 
66.
A OPERAO BANDEIRANTE, OBAN        67
ficientes para conduzi-lo, mas o que se montou no Brasil foi 
uma tra palhada onde se juntaram os vcios da meganha aos 
males da milita rizao das operaes.
Na poca em que subiam as estrelas de Waidyr Coelho e Fleury, 
o Centro de Informaes do Exrcito enviou  Gr-Bretanha uma 
turma de oficiais para um estgio nos servios 
antiinsurrecionais ingleses. L, num quartel do 
Herefordshire, funcionava o Special Air Service, unida de que 
serviu de modelo para toda uma gerao de similares, da Delta 
Force americana ao Police Tactical Team de Cingapura. 
Tratava-se de uma tropa adestrada, rpida e bem equipada. Em 
seis semanas de trei namento de tiro seus soldados disparavam 
de 1200 a 1500 cartuchos, e a unidade vivia num regime de 
alerta pelo qual era capaz de formar em trs minutos. Essa 
tropa nada tinha a ver com interrogatrios. Destina va-se a 
vencer os terroristas sempre que dessem oportunidade para um 
choque armado. Os inquisidores, bem como os analistas de 
informa es, ficavam longe dela. Nenhum desses setores se 
metia com a carce ragem. No Brasil, mesmo utilizando-se 
unidades de elite de pra-quedis tas e fuzileiros em 
operaes antiinsurrecionais, no se administrou o 
treinamento especfico indispensvel. As unidades 
operacionais mistu raram-se aos ncleos de informaes, e 
todos se meteram na carceragem. Exemplo disso era a prpria 
atividade do prdio da rua Tutia. Nela con viviam equipes de 
busca, torturadores, analistas e carcereiros, como em 
qualquer delegacia de subrbio.
O que se apresentava como uma militarizao das operaes 
poli ciais tornou-se uma policializao das operaes 
militares, O delegado Srgio Fleury no ficou parecido com um 
oficial do Exrcito. Eram ofi ciais do Exrcito que ficavam 
parecidos com ele.
29 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
30 Leroy Thompson, The rescuers, p. 142.
O bartono se cala
Castelio Branco, que se julgara capaz de articular uma 
eventual resistn cia ao deslizamento do governo Costa e 
Silva na direo de uma ditadu ra, estava no cemitrio. Seu 
grupo dividira-se entre o canil e a adeso. As vinganas do 
presidente, por intermdio do general Portella, tinham sido 
cruis. O coronel Moraes Rego, assistente de Castello, fora 
parar no comando de Tabatinga, na fronteira com o Peru, e o 
capito Heitor Fer reira, secretrio de Golbery, caiu num 
regimento de cavalaria em Ponta Por. Protegidos pelo 
presidente nas ltimas semanas de seu mandato, Geisel e 
Golbery haviam sido colocados em cargos semivitalcios quan 
to  pompa e incuos quanto ao poder. Um no Superior Tribunal 
Mili tar, outro no Tribunal de Contas da Unio.
As duas grandes vivas de Castello nas Foras Armadas mantive 
ram-se fora do jogo mido da anarquia. Ao contrrio do que 
ensina a regra dos sinais matemticos, segundo a qual o 
inimigo do meu inimi go  meu amigo, no se aproximaram dos 
cacos da linha dura transfor mados em dissidncias do 
governo. Geisel isolara-se por temperamen to e, desde maio de 
1969, por imperativo mdico. Penara uma pancreatite que quase 
o matou e uma hepatite renitente que o deixara na cama. Gol 
bery retrara-se por prtico, pois detestavam-no na exata 
proporo em que ele detestava tanto os militares protegidos 
pelo governo como a li nha dura perseguida.
Como acontece com os fsforos riscados, eles s podiam voltar 
a bri lhar se houvesse fogo por perto. O incndio comeou em 
maio de 1969,
70        A DITADURA ESCANCARADA
com a reabertura da crise militar encoberta pelo AI-5. O 
coronel Fiza de Castro, chefe do dE, vencera finalmente uma 
grande batalha. Costa e Sil va mandara para a reserva o 
coronel Francisco Boaventura Cavalcanti Jr. Era uma suprema 
demonstrao de fora.
Pela linhagem, Boaventura era irmo do ministro do Interior, 
Jos Costa Cavalcanti. Pela biografia, fora primeiro aluno de 
sua turma. Em 1963, valendo-se apenas de sua decncia 
profissional, abortara o seqes tro de Carlos Lacerda, 
concebido no gabinete do ministro da Guerra. Pelo pronturio 
era um dos xams da linha dura. Em 1965 tomara uma ca deia 
por ter divulgado um manifesto desafiando Castello. Durante a 
cri se do AI-5 reunira-se em Braslia com dois deputados do 
MDB e no Rio de Janeiro com pequenas assemblias de oficiais. 
Acusaram-no de ter con cebido um plano pelo qual depois da 
negativa da licena do processo con tra Marcio Moreira Alves 
o Congresso, amparado num dispositivo mili tar, emparedaria 
Costa e Silva.
Documentado pelo dE, o caso de Boaventura foi levado  Comis 
so de Investigaes do Exrcito, formada por trs generais. 
As provas de sua indisciplina eram abundantes. Seu prprio 
irmo, depois de ler o pro cesso, lavou as mos e tentou  
sem sucesso  convenc-lo a sair  fran cesa, pedindo 
passagem para a reserva.
Haviam sido cassados coronis comunistas e oficiais ladres, 
mas ne nhum deles fora submetido  execrao pblica. 
Boaventura, punido em ato isolado, foi acusado formalmente de 
ter assumido uma posio in compatvel com a sua condio de 
oficial superior do Exrcito e com os padres bsicos da 
organizao das Foras Armadas Com esse lance Por tella e 
Lyra Tavares destrancaram a porta da crise dentro do 
Exrcito. Em defesa do coronel saltou o general Augusto Cezar 
de Castro Moniz de Ara go, pra-quedista, temperamental, 
brigo e dado s letras. Chegara a ge neral-de-exrcito em 
maro porque Costa e Silva no quis arriscar uma
1 Para o seqestro de Lacerda, John W. E Dulies, Carlos 
Lacerda  A vida de um lutador, vol. 2:
1960-1977, p. 176.
2 John W. F. Dulies, Castello Branco, o presidente 
reformador, p. 157.
3 Jayme Portelia de Melio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 721.
4 Transmisso da agncia Nacional, de 20 de maio de 1969. 
Texto recolhido em ingls.
O BARTONO SB CALA 71
manobra que impedisse o Alto-Comando de coloc-lo como 
primeiro na lista de promoes. O presidente tinha outro 
interesse na fornada. Que ria dar a quarta estrela ao seu 
amigo Emilio Garrastaz Medici, pois se este no a ganhasse 
logo, seria atingido pelos mecanismos de aposenta doria 
compulsria destinados a assegurar a renovao do quadro de 
ge nerais. Pensaram que Arago poderia ser neutralizado numa 
funo bu rocrtica e atiraram-no ao Departamento de Proviso 
Geral.
Trs dias depois da punio de Boaventura, o general mandou 
uma astuciosa carta a Lyra, na qual aceitava em tese o 
desfecho do caso do co ronel mas se agarrava  humilhao 
adicional: O nimo do Exrcito ex citou-se soprado de 
generoso repdio  publicidade que acompanhou a sano 
imposta Lyra fez que no ouviu e engavetou a carta, 
consideran do-a um assunto pessoal, apesar de estar dirigida 
ao Senhor Ministro Um ms depois tomaria outra. Pespegou-
lhe um carimbo de secreto e arquivou-a. No h registro de 
que tenha falado do assunto com Costa e Silva ou com o chefe 
do Gabinete Militar, general Jayme Portelia.
Arago, que estava a fim de criar um caso, deu um passo  
frente. No
dia 17 de junho reuniu-se com os generais sob seu comando e 
acusou o
presidente de favorecer parentes e amigos na administrao 
pblica.
Duas das denncias eram claras: a nomeao de um irmo de Cos 
ta e Silva para o Tribunal de Contas do estado do Rio Grande 
do Sul e a reviso da reforma do general Severo Barbosa, seu 
sogro. Na mosca. Emanuel da Costa e Silva, um ignoto 
funcionrio pblico aposentado, no tinha qualificao formal 
para o cargo. Faltava-lhe saber jurdico ou financeiro, e mal 
esquentaria a cadeira, pois estava prximo de comple tar 
setenta anos. O pai da mulher do presidente, por sua vez, 
embolsa ra 80 mil cruzeiros (perto de 20 mil dlares) por 
conta de uma reviso do seu processo de transferncia para a 
reserva. A pretenso fora indefe 3 Jayme Portelia de Melio, A 
Revoluo e o governo Costa e Silva, p. 723.
6 Carta do general Moniz de Arago ao ministro Lyra Tavares, 
de 22 de maio de 1969, em Car los Chagas, 113 dias de 
angstia, pp. 241-2.
7 Carta do general Moniz de Arago ao ministro Lyra Tavares, 
de 30 de junho de 1969, em Car los Chagas, 113 dias de 
angstia, pp. 247-50.
8 O Estado de S. Paulo, 23 de maio de 1969.
72        A DITADURA ESCANCARADA
rida, mas depois que o genro disps dos poderes do AI-5, seu 
direito foi
percebido.
Esse favorecimento refletia o poder de Yolanda Costa e Silva 
sobre o marido e at mesmo sobre o governo. Em 1967, numa 
cena indita na histria nacional, ela se fizera fotografar 
num dos sales do Laran jeiras, sem o marechal, ladeada pelo 
seu ministrio. A embaixada americana j a definira como 
charmosa brunette, com grande influn cia sobre o 
marechal nove anos mais velho e um particular interesse por 
roupas. (Numa visita a Washington, pedira tempo livre e compa 
nhia para as compras.)
Arago fez outras duas denncias. Acusava um cunhado de Costa 
e Silva de traficar influncia  sem dizer que interesses 
defendia  e in sinuava que o filho do presidente se 
beneficiava de negcios na iniciativa privada. 12
Um dos generais da platia de Arago denunciou-o ao chefe-de-
ga binete de Lyra Tavares, e em menos de 48 horas o GTE 
reconstruiu a pe rorao. Estava criado o caso. A primeira 
resposta do governo veio por baixo da mesa. O SNI fez 
circular a informao de que o general empre gara uma filha 
no Grupo Executivo da Poltica de Transportes, o Geipot, e um 
genro na estrada de ferro Leopoldina. Mais: teria dado um 
cartei rao no secretrio de Segurana do Rio de Janeiro, 
libertando dois ci dados detidos numa delegacia da cidade, 
por fraude contra terceiros Um deles seria namorado de sua 
filha.
No jogo aberto, faltou iniciativa ao governo. Na manh do dia 
19 de junho  uma sexta-feira  Lyra entregou ao general 
Jayme Porteila um relatrio sobre a reunio.  tarde teve seu 
despacho rotineiro com o pre sidente. Costa e Silva, 
aborrecido, pediu-lhe que tomasse providncias.
9 Resistncia, 25 de junho de 1969. AA. Ver tambm o 
depoimento do general Antonio Carlos
Muricy ao CPDOC, vol. 4, fita 5T, p. 5.
TO A fotografia est em Hernani dAguiar, Ato 5, p. 55.
1T Duas folhas marcadas confidencial, que circularam na 
Casa Branca por ocasio da visita de
Gosta e Silva a Washington, em janeiro de 1967. DEEUA.
12 Jayme Portelia de Meio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, pp. 765-6.
13 Idem, p. 778. Para as trs informaes divulgadas pelo 
SNI, Hernani dAguiar, Ato 5, p. 269.
O BARTONO SE CALA 73
Quais, no disse. O ministro garantiu-lhe que resolveria o 
assunto indo ao Departamento de Proviso Geral responder s 
crticas diante de Ara go e seus generais. O presidente 
achou que a manobra no ia dar certo, mas decidiu esperar. 
Sabia que seu ministro do Exrcito era ruim de ga tilho. 
Chegara a convid-lo para uma cadeira no STM, sinal 
indiscutvel de que o queria fora do ministrio, mas ele 
refugara.
O que houve na reunio do DPG, no se sabe, pois apesar de 
Lyra e Arago terem descrito o encontro de mais de duas 
horas, suas narrativas
so opostas.
Fala Jayme Porteila, a quem Lyra narrou o encontro: O 
ministro in formou que destrura todos os argumentos que o 
general Arago havia tratado na reunio com os seus generais, 
no havendo ele contestado ou confirmado qualquer aspecto 
Segundo o ministro, o general Arago no esboou qualquer 
reao, apenas ouvindo
Fala Arago: Repeti um a um, todos os fatos, argumentos e 
conclu ses por mim apresentados aos generais
Tranqilizado pela verso de Lyra Tavares, o chefe do 
Gabinete Mi litar comunicou o resultado da conversa ao 
presidente, e todos deram- se por satisfeitos. Eram trs 
homens que gostavam de se mostrar rigo rosos em questes de 
disciplina e reputao. Basta dizer que havia pouco tempo 
Lyra mandara encarcerar o jornalista Zzimo Barroso do Ama 
ra!, do Jornal do Brasil, porque ele escrevera que o ministro 
do Exrcito fora empurrado por seguranas paraguaios durante 
um encontro de Cos ta e Silva com o general Alfredo 
Stroessner. Para ensinar a Zzimo que ningum empurra um 
ministro do Exrcito ou, se empurra, ningum deve noticiar o 
fato, meteu-o numa cela da PE por quase uma semana. Prender 
jornalista era coisa fcil. Enquadrar um quatro-estrelas, 
outra conversa. No caso de Arago, acharam que o incidente 
tinha chegado a bom termo.
14 Costa e Silva convidou Lyra para o STM no dia 30 de 
dezembro de 1968. Jayme Porteila de
Melio, A Revoluo e o governo Costa e Silva, p. 689.
15 Jayme Portelia de Meilo, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 768.
16 Carta do general Moniz de Arago ao ministro Lyra Tavares, 
de 10 de julho de 1969, APGCS/HF.
Ver tambm Carlos Chagas, 113 dias de angstia, p. 252.
74        A DITADURA ESCANCARADA
Dera-se a humilhao do ministro do Exrcito, mas faziam de 
con ta que no viam. Lyra foi ao DPG em vez de chamar Arago 
e seus gene rais  sua sala. Aceitara a lorota de que a 
reunio em que haviam sido dis cutidas as acusaes fora 
informal, como se a questo central fosse a coreografia do 
encontro e no o texto da pea, com um general chaman do o 
presidente de paj, seu irmo de apaniguado, o sogro de 
aproveitador e o filho de desenvolto. Passara adiante a 
balela de ter destrudo as acusa es quando todos os trs 
sabiam que o general-sogro tinha o dinheiro no bolso e o 
irmo-aposentado estava na folha do Tribunal de Contas.
Pior. Falharia tambm a prpria manobra de fingir que ia tudo 
bem. Arago, sempre a fim de criar o caso, reapareceu dias 
depois no gabine te de Lyra e enfiou-lhe a terceira carta. 
Era uma reprise de todas as acu saes, arrematada pela 
advertncia emblemtica da anarquia de que Costa e Silva e 
Lyra se haviam servido: Os oficiais das Foras Armadas, 
porque se julgam responsveis pelo regime revolucionrio, 
entendem que tm o direito e o dever no s de fiscalizar e 
apreciar os atos do go verno, que imaginam sua criatura, como 
at de afast-lo, se dele discor darem. Dessa vez o 
ministro teve de pass-la adiante. Remeteu-a a Por tella, que 
passou a noite sem dormir. Costa e Silva estava sorridente 
quando comeou a l-la, mas ficou plido quando terminou, a 
ponto de o chefe do Gabinete Militar ter pedido ao mdico do 
palcio que viesse ao gabinete do presidente. Era uma crise 
de hipertenso. Em dezembro de 1968 a CIA vira-o com a sade 
relativamente dbil Durante o ve ro trabalhara meia 
jornada, sentira dores nas costas antes da Semana San ta e 
descansara nos feriados. A resposta a Arago veio em 48 
horas. De acordo com uma sugesto de Portella, ele foi 
demitido do DPG e manda do para o corredor dos generais sem 
funo.
Duas semanas depois, nova carta. Dessa vez Arago jogou na 
defesa
em relao a Costa e Silva, mantendo-se no ataque a Lyra. 
Escondeu-se em
17 Carta do general Moniz de Arago ao ministro Lyra Tavares, 
de 17 de junho de 1969, em Car los Chagas, 113 dias de 
angstia, pp. 243-6.
18 Jayme Portelia de Melio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, pp. 770-1.
19 Brazil, The Road to Dictatorship, Inteiligence 
Memorandum da CIA, com onze folhas, de 23 de dezembro de 
1968.
O BARTONO SE CALA 75
raciocnios to ambguos quanto primrios. Apesar de ter 
listado locuple taes de familiares de Costa e Silva, 
assegurou que no fiz crtica pes soal ou funcional ao 
presidente da Repblica Quanto s denncias em si, 
justificou-as dizendo que os fatos argidos eram pblicos  
notcia  cabendo por isso ao governo o nus do 
esclarecimento Era um racioc nio torpe, pois se de fato a 
aura do presidente ajudara o sogro e o irmo com vantagens 
publicamente conhecidas, as acusaes de Arago ao filho do 
marechal estavam desacompanhadas de provas. Como dissera o 
minis tro Jarbas Passarinho durante a celebrao da missa 
negra do AI-5, era me lhor atribuir ao acusado o nus da 
prova de honestidade. Naquela noite de 13 de dezembro de 
1968, esse raciocnio, como a pimenta em olho alheio, 
parecera refresco. Agora, menos de um ano depois, ardia no 
marechal.
Costa e Silva planejava outorgar uma nova Constituio, 
baseada num trabalho coordenado por Pedro Aleixo. Em julho 
reunira-se em Braslia uma das menores e mais apressadas 
constituintes da histria nacional. Foi composta pelo 
presidente, pelo vice, trs ministros e trs sbios do 
regime. Trabalhou durante quatro dias, em sete sesses que 
duraram cerca de 21 horas. Produziu uma verso radicalizada 
da Carta de 1967. Expandiu os poderes do Executivo, reduziu 
os do Legislativo e incorpo rou as extravagncias que o poder 
militar impusera ao direito brasileiro nos dez meses 
anteriores. Tornou indiretas as eleies dos governadores 
marcadas para 1970.22 O texto chegou a ser enviado  Imprensa 
Nacio nal, e l foram impressas algumas cpias.
No essencial, a nova Carta mantinha o AI-5, mas seu artigo 
182 per mitia ao presidente suspender, por decreto, quaisquer 
de seus disposi 20 Carta do general Moniz de Arago ao 
ministro Lyra Tavares, de 10 de julho de 1969, APGCS/HF.
Ver tambm Carlos Chagas, 113 dias de angstia, pp. 251-4.
21 Eram o ministro da Justia, Gama e Silva, o chefe do 
Gabinete Civil, Rondon Pacheco, o mi nistro do Planejamento, 
Hlio Beltro, e os juristas Carlos Medeiros Silva, 
Themstocles Caval canti e Miguel Reale. A Constituio que 
no foi, pp. 13-8.
22 Artigo 187. Emenda n 1, de ... de ... de 1969, em A 
Constituio que no foi, p. 296. A data
foi deixada em branco,  espera da assinatura de Costa e 
Silva.
76        A DITADURA ESCANCARADA
tiVOs.23 Segundo trs de seus colaboradores, Costa e Silva 
pretendia va ler-se desse poder para decretar o fim do 
recesso do Parlamento, rea brindo-o no incio de setembro. 
Essa providncia, ainda que superficial em relao ao 
conjunto do AI-5, era condio necessria para qualquer 
iniciativa de restabelecimento da ordem institucional.
No dia 26 de agosto o presidente reuniu-se no Laranjeiras com 
os ministros militares e ouviu que eles se opunham  
providncia. O Lyra tambm falou que  contra. Eu queria v-
lo afirmando isso na Associa o Brasileira de Imprensa, na 
frente daqueles jornalistas todos comen tara Costa e Silva. 
O general Garrastaz Medici, feito comandante do iii Exrcito 
depois da promoo de maro, tambm achava que o Con gresso 
devia continuar fechado.
Costa e Silva tivera um abalo nervoso enquanto visitava sua 
cidade na tal, no Rio Grande do Sul. Emocionado, no 
conseguira responder a um discurso de reminiscncias infantis 
feito por um orador local. Padecera uma sucesso de 
resfriados, continuava hipertenso, e ouviam-no caminhar pelo 
quarto durante a madrugada. No dia 15 de agosto, despachando 
com o ministro Costa Cavalcanti, do Interior, o presidente 
mostrara-se baqueado.
 Tens muitos papis para examinarmos?  perguntou.
 No, nenhum. Vim apenas conversar com o senhor  respondeu 
o ministro.
 timo. No estou bem. Daqui a pouco vou-me embora para o Al 
vorada, descansar.
23 O artigo 182 do projeto diz: O Presidente da Repblica, 
quando considerar de interesse nacio nal, far cessar, 
mediante decreto, a vigncia de qualquer ou de todos os 
dispositivos constantes
do Ato Institucional n 5, de 13 de dezembro de 1968, e dos 
demais atos posteriormente baixados
A Constituio que no foi, p. 295. Para a discusso do tema 
na Comisso, idem, pp. 188-9.
24 Carlos Chagas, 113 dias de angstia, p. 60; Jayme Porteila 
de Meilo, A Revoluo e o governo
Costa e Silva, p. 781, e Hernani dAguiar, Ato 5, p. 300.
25 Hernani dAguiar, Ato 5, p. 299.
26 Carlos Chagas, 113 dias de angstia, pp. 25-6.
27 Jayme Portella de Mello, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 783.
28 Hernani dAguiar, AtoS, p. 304.
29 Carlos Chagas, 113 dias de angstia, pp. 32-3.
O BARTONO SE CALA 77
Uma semana depois, Costa Cavalcanti voltou ao despacho. Costa 
e Silva disse-lhe que estava bom: Creio que era gripe No 
parecia. Na tar de de 25 de agosto, depois de despachar no 
palcio da Alvorada, o minis tro das Relaes Exteriores, 
Magalhes Pinto, estava no carro com seu che fe-de-gabinete, 
o diplomata Italo Zappa, e disse-lhe: O presidente se queixa 
de uma gripe, mas eu acho que no  gripe.  algo pior
s dezessete horas da quarta-feira, 27 de agosto de 1969, um 
dia de pois da reunio com os ministros militares, a anarquia 
que por cinco anos tivera seus altos e baixos entrou no 
perodo mais catico de sua trajet ria. Costa e Silva estava 
em seu gabinete com o governador Otvio Lage, de Gois.  do 
jornalista Carlos Chagas, secretrio de Imprensa do Pla 
nalto, a narrativa do que sucedeu:
O presidente ouvia o governador, mas j sem falar. Olhar 
atento, indicou com a mo o andar de cima, onde se localizava 
o gabinete do ministro Ron don Pacheco [ do Gabinete Civil], 
com quem ele deveria discutir o problema de natureza 
poltica. Otvio Lage fez mais uma pergunta: Qual o rumo a 
ser seguido pelos governos estaduais no caso das revises das 
apo sentadorias em que se constatasse contagem do tempo em 
dobro relativo ao exerccio de mandatos eletivos?
Ao final da indagao, segundo suas prprias palavras, notou 
que o presidente sofria algo estranho. No conseguia atinar 
para o sentido do assunto que lhe era apresentado. [ Menos de 
um minuto se pas sou assim.
O marechal, consciente do que acontecia, mostrou grande 
constran gimento. Conseguindo articular algumas palavras, 
pediu que o governa dor tratasse da matria com o ministro da 
Justia.
Levou-o  porta e, pouco depois, disse ao seu ajudante-de-
ordens:
O Dr. Otvio Lage vai pensar que eu fiquei maluco. Durante 
algum
30 Italo Zappa, fevereiro de 1988.
31 Carlos Chagas, 113 dias de angstia, pp. 37-8.


78        A DITADURA ESCANCARADA
tempo no consegui dizer coisa com coisa e houve at um certo 
momen to em que nem sequer consegui falar.
Lage, na realidade, j estava no quarto andar, avisando a 
Rondon Pa checo que o presidente no ia bem, O marechal 
autodiagnosticou-se (falta de acar), pediu uma bala de 
mel e despachou doze processos. Desceu  garagem e foi para o 
Alvorada. Decidiu descansar e foi ver um faroeste italiano, 
mas sentiu-se tonto e saiu no meio.
O presidente da Repblica, homem de 67 anos, perdera momenta 
neamente a fala. Um governador percebera seu descontrole e 
avisara ao chefe do Gabinete Civil. Ele prprio dissera ao 
ajudante-de-ordens e ao consultor-geral da Repblica que no 
estivera falando coisa com coisa. Tudo isso resultou no 
seguinte esforo mdico: o capito Helcio Simes, do servio 
de sade da Presidncia, foi mandado ao Alvorada e l 
submeteu o marechal a um eletrocardiograma, tirou-lhe a 
presso (14 por 9) e concluiu que se tratava de um processo 
de estafa. A perda da fala, comunicada pelo presidente a 
Simes,  indicativa  em qualquer ida de  de alguma 
complicao neurolgica. Depois do jantar o marechal voltou a 
sentir-se mal. Faltou-lhe novamente o controle da voz. 
Fizeram- lhe outro eletro, tomaram-lhe de novo a presso, e, 
pela segunda vez, diagnosticou-se estafa.
Na manh seguinte Costa e Silva disse ao general Portella que 
estava fatigado, com a cabea pesada. Combinaram que ficaria 
em repouso no Alvorada. Fez-se o terceiro eletrocardiograma, 
e pela terceira vez a presso do marechal foi considerada 
satisfatria. Exames neurolgicos preli minares fortaleceram 
no capito a idia da estafa, mas o presidente estava 
inquieto: Mesmo assim, no estou satisfeito. Imagine, eu que 
sempre chamo os outros de pessimistas, hoje sou a prpria 
encarnao do pessimismo. A imprensa foi informada de que o 
presidente estava gripado.
32 Hernani dAguiar, Ato 5, p. 306.
33 Para a bala e para a tonteira no meio do filme, Hernani 
dAguiar, Ato 5, pp. 306-7. Para o
filme, Carlos Chagas, 113 dias de angstia, p. 40.
34 Hernani dAguiar, Ato 5, p. 307.
35 Carlos Chagas, 113 dias de angstia, p. 42.
O BARTONO SE CALA 79
Magalhes Pinto acertara. Era coisa mais grave. O organismo 
de Costa e Silva acusava uma isquemia cerebral. Ao contrrio 
do derrame, no qual a irrigao do crebro  prejudicada pelo 
rompimento de um vaso, e que pode ocorrer em qualquer idade, 
na isquemia a circulao  interrompida por uma obstruo 
resultante do processo de arteriosclerose. Esse tipo de 
acidente neurolgico  conseqncia de um processo 
degenerativo. A conduta mdica decidida no palcio era apenas 
temerria. Iniciada a complicao neurolgica, com os 
recursos da poca ela haveria de cumprir seu ciclo mesmo que 
o marechal tivesse sido levado a um hospital. Resolveram 
mant-lo no Alvorada, onde estava vulnervel a presses 
emocionais.
O prprio repouso tornou-se falso. Portella foi ao palcio, 
tratou de assuntos administrativos com o presidente, e, mais 
uma vez, ele se quei xou do general Arago. Passaram-se 24 
horas, nenhum neurologista o exa minou, nenhuma providncia 
mdica foi sugerida. Costa e Silva conta ra ao capito Simes 
tudo o que sentira. O mdico fizera seu relato ao general 
Portella, e o chefe do Gabinete Militar, em copas, disse-lhe 
que ficasse de planto.
Se a sade do presidente exigia que o capito ficasse ao seu 
lado, por que no foi tomada nenhuma providncia adicional? 
Nas suas mem rias o general Portelia diz dez vezes em cinco 
pginas que entre a noite de quarta-feira e o fim da tarde de 
quinta o mdico Helcio Simes lhe as segurou que o caso de 
Costa e Silva no era grave. S  noite ocorreu a Portella a 
idia de discutir o caso com o ministro da Sade, o neuropsi 
quiatra Leonel Miranda, dono de um prspero hospital carioca. 
Essa conversa, segundo revelou mais tarde, levou-o a mexer na 
rotina da vi da do palcio, antecipando a viagem do 
presidente ao Rio de Janeiro, pro gramada para o dia 
seguinte, O que assustou o general foi a observao do 
ministro de que, dada a idade do doente, poderia tratar-se 
de algo mais grave A idade do marechal no era nova nem seu 
conhecimento
36 Jayme Portelia de Melio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, pp. 803-7.
8o        A DITADURA ESCANCARADA
era exclusivo do ministro. O que havia de ameaador na 
isquemia era a
clareza com que ela sinalizava a arteriosclerose do 
presidente.
Depois do jantar  passadas pelo menos 27 horas do primeiro 
avi so  Costa e Silva estava diante da televiso do Alvorada 
quando se vol tou para o capito-mdico e, espantado, apontou 
para a prpria gargan ta. Era a segunda vez que perdia a 
fala. Deram-lhe remdios, aplicaram-lhe uma injeo, e 
minutos depois estava restabelecido.
 No ser derrame o que estou sentindo?  perguntou o 
presidente.
 No, senhor. Derrame no . Mas vamos apurar tudo 
direitinho
 respondeu o mdico.
Costa e Silva foi dormir, e Helcio Simes ficou na 
antecmara. s 3h45 da sexta-feira, 29, o capito teve um 
sobressalto. A luz do quarto acende ra-se. O presidente 
estava mudo, de vez. No houve regresso alguma ra biscou 
num bilhete. Voltou para a cama e adormeceu. Haviam-se passa 
do 35 horas desde o primeiro acidente neurolgico quando se 
acionou o dispositivo de emergncia do Planalto, a fim de que 
Costa e Silva pudesse decolar para o Rio de Janeiro o mais 
depressa possvel, ainda pela manh.
A partir desse momento o general Jayme Porteila de Melio 
assumiu a direo da maior farsa registrada at ento na 
histria do Brasil. Ela se deu em dois sentidos. Primeiro 
pelo ludbrio, escondendo-se ao pas o que sucedia no 
palcio. A sociedade podia no merecer ateno, mas es 
conderam-se os fatos tambm ao governo, que deveria merecer 
confian a. Ainda que no se confiasse no governo, escondeu-
se a verdade at mes mo  famlia, que merecia piedade. 
Quando o filho do presidente foi informado de que algo ia mal 
com seu pai, j se tinham passado mais de 37 horas do 
primeiro aviso neurolgico.
37 Carlos Chagas, 113 dias de angstia, p. 44.
38 Pela narrativa de Carlos Chagas, lcio Costa e Silva foi 
chamado ao Laranjeiras, a pedido de
sua me, em torno das nove horas da manh de sexta-feira. 
Chagas, 113 dias de angstia, pp. 55-
6. Yolanda, que estava no Rio, pode ter sido informada 
algumas horas antes. At as onze horas
da noite anterior, nada lhe haviam dito. Idem, p. 56.
O BARTONO SE CALA 8i
Mudo e plido, o marechal chorou quando o carro se afastou do 
Alvorada. Perdera boa parte da mobilidade do brao direito. 
Haviam- lhe enrolado um cachecol que cobria at a ponta do 
nariz, ocultando a deformao provocada pela paralisia de sua 
face direita e sugerindo a afonia gripal. Nesse simulacro, 
fizeram papel de bobos o vice-presiden te Pedro Aleixo, o 
ministro Jarbas Passarinho, o general Orlando Gei sel e os 
comandantes militares que foram despedir-se dele no aeropor 
to. Costa e Silva viajou deitado na sua cabine do BAC One-
Eleven, tomando oxignio. No outro lado do avio, Portella 
informava ao seu colega Rondon Pacheco, do Gabinete Civil, 
que a gripe tinha piorado. No aeroporto, Rondon dissera a 
Pedro Aleixo que o presidente ligara um ventilador perto das 
costas, tomara um golpe de ar e sofrera um es pasmo. Ambos 
mentiam, mas,  diferena de Rondon, Portella tinha um 
propsito.
Seu segundo movimento deu-se no sentido da usurpao. Comple 
taram-se 48 horas do primeiro insulto, j estava claro que o 
presidente sofria as conseqncias da isquemia, e uma junta 
mdica o esperava no Rio de Janeiro. No num hospital, mas no 
palcio Laranjeiras. Abraham Ackerman, o mais renomado 
neurologista do pas, examinou Costa e Sil va e comunicou a 
Portella que o caso era grave. Dentro de algumas ho ras o 
acidente neurolgico haveria de chegar ao clmax, paralisando 
to do o seu lado direito. Recomendou que o removessem para 
uma casa de sade. Leonel Miranda estimou que a recuperao 
do presidente levaria, na melhor das hipteses, de um a dois 
meses. Portella decidiu que o ma rechal deveria permanecer no 
palcio.
Ele prprio explica: Havia uma razo maior para no se tirar 
o Pre sidente do Palcio, porque ali, alm de ser seu posto, 
a Nao saberia que ele estava vivo. Quem fosse substitu-lo 
seria apenas um governante tran sitrio, e aquele Palcio 
estaria sendo a sede do Governo Federal. E mes mo que o prazo 
de recuperao demandasse mais tempo, ningum teria a audcia 
de afast-lo do Palcio
39 Jayme Porteila de Meilo, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 813.
82        A DITADURA ESCANCARADA
Quando amarrou a trombose poltica que paralisaria o pas  
per manncia de Costa e Silva no palcio, Portella tinha 
perfeita compreen so da incapacidade do marechal. Perseguia 
dois objetivos. Primeiro, queria impedir que o vice-
presidente Pedro Aleixo assumisse o cargo. De pois, pretendia 
que a substituio do presidente fosse declaradamente tran 
sitria. Manobra complicada, pois a melhor maneira de manter 
a provi soriedade da substituio era cumprir a lei e 
empossar Pedro Aleixo. Portelia teve a idia de proclamar uma 
junta, composta pelos trs minis tros militares.
Para discutir to arrojada manobra, chamou ao Laranjeiras 
preci samente os trs cidados que sorteara. Eles acharam a 
idia boa. Por tella lembrou-lhes o precedente histrico da 
Regncia Trina Provisria de 1831, instalada depois da 
abdicao de d. Pedro 1.40 No se sabe se os trs aceitaram o 
paralelo histrico, mas  certo que eles no estavam ali para 
mostrar que tinham aprendido suas lies do curso primrio. 
Afinal, a Regncia Trina se denominava provisria porque 
seria subs tituda por outra, permanente. Destinara-se ao 
oposto do que os qua tro oficiais-generais maquinavam. 
Enquanto no Imprio se tratava de dirigir o pas  espera de 
que o prncipe Pedro de Alcntara, uma crian a de cinco 
anos, atingisse a maioridade, na ditadura de 1969 trata va-se 
de proclamar a minoridade do vice-presidente Pedro Aleixo, de 
68 anos.
A encenao da normalidade prosseguia. A mulher de Costa e 
Sil va,Yolanda, foi a um jantar na casa do pediatra Rinaldo 
De Lamare, e Por tella foi comer na casa do empresrio Carl 
Marcondes Ferraz. Uma ca ma de hospital entrou despercebida 
pela porta dos fundos do Laranjeiras. s quatro da manh de 
sbado, 57 horas depois do primeiro aviso, a is quemia 
cerebral devastou o presidente. Ele no conseguia mais se 
levan tar. Tinha todo o lado direito paralisado e perdera a 
capacidade de co municao, no s pela voz, como tambm por 
expedientes como o uso
40 Jayme Portelia de Meilo, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 815.
O BARTONO SE CALA 83
do teclado de uma mquina de escrever ou a escolha de letras 
numa fo lha de papel.
Porteila reuniu-se novamente com os trs ministros militares. 
J ha viam combinado duas trapalhadas  impedir a posse do 
vice-presiden te e substituir Costa e Silva por uma trinca  
quando se decidiram por uma terceira: ir buscar numa reunio 
do Alto-Comando das Foras Ar madas a legitimidade do 
mandato. Composto pelos ministros fardados, pelo chefe do 
EMFA e pelos chefes de estado-maior de cada Fora, esse Alto- 
Comando s se reunira uma vez. Como a Constituio, existia 
s no pa pel. Os sete oficiais-generais encontraram-se  
noite no palacete Laguna, que no Imprio hospedava o mordomo 
de d. Pedro II, a meio caminho entre o Maracan e a praa da 
Bandeira. Era uma assemblia bizarra, pois cada ministro, 
alm de beneficirio da deliberao, era superior hierr 
quico do seu chefe de estado-maior. O nico sem chefe nem 
cargo  vis ta era Orlando Geisel, do EMFA. Feita a proposta, 
combateu-a. No queria a posse de Pedro Aleixo, mas no 
concordava com a trindade, pois a His tria lhe ensinara que 
os triunviratos se esvaem em crises e acabam com o poder 
empalmado por uma s pessoa. Portanto, sugeria que houvesse 
um s substituto, fosse quem fosse. Rademaker contestou, o 
chefe do EMFA insistiu, e foi-se  votao: 6 x 1. Estavam 
eleitos os trs regentes: Augus to Rademaker, Aurelio de Lyra 
Tavares e Mrcio de Souza e Mello.
Na manh de domingo tocou o telefone guardado numa casinho la 
do fundo do corredor do apartamento de Ernesto Geisel. Era 
seu ir mo Orlando avisando que Costa e Silva tivera um 
troo Horas de pois estava providenciado um fio de extenso, 
e o 247-8912 foi transferido do nicho em que estivera por 
quase vinte anos para a mesa-de-cabecei ra do general. Assim, 
ele poderia falar sem sair da cama, onde penava sua hepatite.
41 Carlos Chagas, 113 dias de angstia, p. 67.
42 Jayme Porteila de Mello, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 824.
43 Amlia Lucy Geisel, julho de 1991. A filha de Geisel no 
tem certeza a respeito da data do te lefonema. Poderia ter 
sido um dia antes, no sbado. Por falta de outra indicao de 
que Orlan do Geisel tenha sabido da isquemia antes da reunio 
do palcio Laguna, achei mais provvel que
o telefonema tenha sido dado no domingo.
84        A DITADURA ESCANCARADA
Logo depois do caf-da-manh o general Jayme Porteila chegou 
 casa do ex-ministro da Justia, Carlos Medeiros Silva, a 
poucos quarteires de distncia de Geisel. A essa altura o 
boato da morte de Costa e Silva j pas sara pelo palcio do 
Planalto, pela embaixada americana e at pela qua dra de 
tnis da Associao Atltica do Banco do Brasil. Medeiros, 
redator do AI-1, no sabia de nada. Na noite anterior um 
oficial do Gabinete Mi litar havia-lhe telefonado, 
perguntando se estaria em casa no dia seguin te, nada mais. A 
conversa foi rpida. Portelia pediu a Medeiros que redi gisse 
uma justificativa e um ato institucional, o 1 2 para empossar 
ajunta. Deixou uma folha de papel com vrias recomendaes. 
Uma delas dizia:
No tocar no restabelecimento constitucional Em menos de 
meia ho ra, Medeiros redigiu a lpis, com sua letra mida, 
arrazoado e ato.
Levado ao quartel-general, o ex-ministro tirou a encomenda de 
sua pasta preta e entregou-a a Lyra Tavares. Deu-se uma 
rpida conversa, e Medeiros ponderou: Esta  a parte fcil. 
Depois  que vir a dificil, pois poder ser necessrio 
escolher um substituto definitivo O ministro do Exrcito, de 
charuto em punho, rebateu: Est tudo muito bem equacio nado 
Desde 1937, quando datilografara em segredo o texto da Consti 
tuio do golpe de 10 de novembro, Medeiros tinha experincia 
com quar teladas. Achou preocupante a calma de Lyra e 
ridculo o charuto.
Horas antes o general Affonso de Albuquerque Lima dera ao seu 
aju dante-de-ordens um texto para ser datilografado, com 
muitas cpias. Era o primeiro panfleto da crise. Nele o ex-
ministro do Interior, lder da linha dura, encarnao da 
crtica militar  decadncia do governo de Costa e Silva, e 
candidato  sua sucesso, argumentava que os trs ministros 
mi litares, se forem integrar o Comando Revolucionrio ou a 
Junta Militar, devero ser substitudos em suas pastas 
Albuquerque Lima era o gene ral com maior liderana sobre a 
parte politicamente ativa da oficialidade. Isso no fazia 
dele o general com maior prestgio na tropa, mas lhe dava a 
primazia na capacidade de criar problemas nos quartis. Em 
poucas ho 44 Uma folha de papel manuscrita pelo general Jayme 
Portelia em papel timbrado do Gabinete
Militar. .
45 Cinco folhas manuscritas de Carlos Medeiros Silva. AA.
46 Carlos Medeiros Silva, 31 de agosto de 1969.
O BARTONO SE CALA 85
ras a idia segundo a qual deveriam ser escolhidos novos 
ministros mili tares j tinha o apoio de dois membros do 
Alto-Comando do Exrcito:
Syseno Sarmento (comandando a guarnio do Rio) e Moniz de 
Arago (comandando sua mquina de escrever). Arago foi ao 
chefe do Estado- Maior do Exrcito e recitou seu discurso 
contra a Junta, mas o extrover tido general Muricy cortou-o: 
Arago, devemos estar preparados para en golir sapos, 
Arago, e em posio de sentido!
A crise comeava a corroer a manobra de Porteila precisamente 
no seu ponto mais dbil: a legitimidade militar dos 
ministros. O impedimen to de Pedro Aleixo era fava contada. 
Portella j grampeara seu telefone, vigiara sua casa e 
remetera a Braslia o avio presidencial com a tarefa de 
traz-lo ao Rio, onde poderia escolher entre a resignao em 
seu aparta mento ou o protesto na cadeia. Pedro Aleixo foi 
levado para o Arsenal de Marinha. L, os trs ministros 
militares disseram-lhe que assumiriam o governo no seu lugar. 
Lamento respondeu o vice-presidente, no pe lo que me 
causar de mal, mas pelo mal que causar ao pas. Pediu para 
voltar a Braslia, os ministros responderam que iam pensar e 
depois men tiram afirmando que o avio estava em pane. Ele 
chegou a dizer que po deria tomar um vo comercial, mas 
acabou ficando no seu apartamen to de Copacabana, cuja 
portaria estava ocupada por agentes do GTE. Portella, temendo 
que Pedro Aleixo quisesse ir para a capital, onde sus peitava 
que poderia ser montada uma cerimnia de posse, mandou vi 
giar os aeroportos e as estradas, pondo de sobreaviso o 
comandante mi litar de Braslia.
Aquele domingo de sol j tinha programao farta.  tarde a 
com panhia do San Carlo de Npoles cantava a pera Na bu co 
no teatro Mu nicipal enquanto no Jockey Club corria o Grande 
Prmio Brasil. No Ma racan, um gol de Pel (o 9799) derrotou 
a seleo do Paraguai e garantiu a ida d Brasil  Copa do 
Mxico, no ano seguinte. No quartel-general,
47 Carlos Chagas, 113 dias de angstia, pp. 83 e 94.
48 Jayme Porteila de Mello, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, pp. 825-6. Para o grampo, Car los Chagas, 113 dias de 
angstia, p. 91.
49 Carlos Chagas, 113 dias de angstia, p. 92.
50 Jayme Portelia de Melio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 832.
86        A DITADURA ESCANCARADA
o comandante do i Exrcito, Syseno Sarmento, presidia uma 
assemblia de oficiais. Ao saber disso, o general Muricy 
tomou o elevador e foi  to ca da ona. Exps a situao, 
respondeu a perguntas e ouviu um veredic to de Syseno: 
Aceitamos a deciso porque no desejamos criar proble mas 
maiores. [ no entanto, fica uma palavra: outros fatos 
consumados no sero aceitos de forma alguma
 noite o ucasse dos ministros militares foi lido para uma 
cadeia de rdio e televiso. Nove meses e sete atos depois do 
AI-5, o bartono saa de cena, deixando o Brasil sob o 
governo da mais folclrica das figuras do golpismo latino-
americano: uma junta militar.
51 Carlos Chagas, 113 dias de angstia, p. 94.
Vamos agarrar esse cara! disse Valdir.
O grande golpe
Foi a mais original e bem-sucedida de todas as idias da 
esquerda brasileira nos anos 60.
Valdire Vitor caminhavam numa manh do incio de agosto pela 
pe quena rua Marques, em Botafogo. Outrora ela fora Marx, mas 
na caa s bruxas do Estado Novo mudou-se a grafia, mantendo-
se a fontica. Eram da Dissidncia Universitria da 
Guanabara. Valdir vinha a ser Franklin Martins, filho do 
senador Mrio Martins, um respeitado udenista que se 
mantivera ao largo da ditadura. Vitor era Cid de Queiroz 
Benjamin. Am bos estavam nos seus vinte anos e tinham sado 
da militncia radical de uma das melhores escolas do Rio de 
Janeiro, o colgio de Aplicao, na lagoa Rodrigo de Freitas.
Os dois jovens tinham uma idia fixa: soltar Vladimir 
Palmeira, cap turado em Ibina e condenado a trinta meses de 
priso. Haviam pensa do num golpe de mo, mesmo num atentado, 
mas at o incio daquela caminhada colecionavam apenas 
sonhos. Foi quando Vjtor comentou que todos s dias o cara 
saa de sua manso tropical a poucos quarteires, passava 
pela rua Marques e ia para o centro da cidade.
1 Entrevista de Franklin Martins e Vera Slvia Magalhes ao 
Jornal do Brasil de 3 de setembro de
1989, pp. 8-9, reportagem de Roni Lima.
2 Segundo Vera Slvia Magalhes, em entrevista  jornalista 
Helena Salem, a Dissidncia tinha
quarenta militantes e trinta simpatizantes. Em Vrios 
Autores, Verses efices, p. 62.
88        A DITADURA ESCANCARADA
O cara era o embaixador americano Charles Burke Elbrick, um 
di plomata de 61 anos a caminho da aposentadoria depois de 
uma carrei ra modesta. Com seus cabelos gomalinados parecia 
um mdico de filme argentino. Servira em Lisboa no incio da 
dcada e estimulara um golpe militar fracassado contra a 
ditadura do professor Antnio de Oliveira Sa lazar. Falava 
bem o portugus e chegara ao Brasil havia dois meses. Pro 
curava costurar uma reaproximao com Costa e Silva, que 
maltratara o seu antecessor desde o dia em que ele ousara 
almoar com Carlos Lacer da. Tinha uma mulher que assombrava 
festas com seus turbantes colo ridos e uma filha que as 
encantava com blusas difanas.
A idia do seqestro foi levada a Viadimir Palmeira, na 
priso, por Vera Slvia Magalhes, a Marta, estudante de 
economia, 21 anos, more na de traos to belos quanto 
serenos. Ele se assustou: Seria um geno cdio. Vo morrer 
todos Ela prpria, porm, verificaria que a operao parecia 
mais fcil do que se supunha. Foi ao porto da casa dizendo-
se empregada domstica  procura de emprego e teve a sorte de 
achar um Don Juan na chefia da vigilncia. De olho na jovem, 
por trs vezes mos trou-lhe os jardins, os carros e os 
hbitos de Elbrick. O carro do embai xador no tinha escolta 
nem blindagem. Com as portas destravadas, fa zia sempre o 
mesmo percurso,  mesma hora.
A Dissidncia ofereceu parceria  ALN, e uma ficou com o 
trabalho logstico ao passo que  outra coube o comando da 
ao em si. No dia 2 de setembro, enquanto a Junta Militar 
divulgava um boletim mdico in formando que o estado de sade 
de Costa e Silva conservava as perspec tivas favorveis 
ontem anunciadas (no dia anterior no havia sido anun ciada 
perspectiva favorvel alguma), trs quadros da ALN seguiram 
de So Paulo para o Rio. No dia seguinte chegou o lder do 
grupo, Joaquim C mara Ferreira, o Velho, segundo homem do 
marighelismo, histrico mi litante do PCB. O seqestro seria 
comandado por lonas (Virglio Gomes da Silva), 36 anos, um 
operrio com o nariz amarrotado de ex-boxeador,
3 Para a relao de Elbrick com o golpe fracassado de 1961, 
Kenneth Maxwell, The making of Por tuguese democracy, p. 51.
4 Entrevista de Vera Silvia Magalhes ao Jornal do Brasil de 
3 de setembro de 1989, p. 8.
5 Entrevista de Vera Slvia Magalhes a Helena Saiem, em 
Vrios Autores, Verses e fices, p. 66.
O GRANDE GOLPE 89
veterano da primeira leva enviada a Cuba, chefe do Grupo 
Ttico Arma do, o GTA, e instrutor das turmas que a ALN 
treinava num stio em Ribei ro Preto.
Na manh de 4 de setembro, uma quinta-feira, os dez 
integrantes do comando estavam nos seus postos quando um 
olheiro percebeu a apro ximao de uma limusine preta com 
placa do corpo diplomtico. Fez o gesto combinado e pouco 
depois, desesperado, sinalizou a sua anulao. No carro ia o 
embaixador portugus, quindim da gr-finagem carioca e 
vizinho do americano. Elbrick sara mais cedo. Esperaram que 
reapare cesse na volta do almoo, em torno das 14h30. Uma 
senhora da vizinhan a desconfiou daqueles rapazes rondando a 
rua e telefonou para a pol cia, temendo que fossem ladres 
de automvel. No foi levada a srio.
Quando o Cadillac de Elbrick entrou na ratoeira, Vitor 
manobrou seu Volkswagen, como se o estivesse tirando da vaga, 
O motorista do em baixador parou. Quatro integrantes do GTA 
da ALN saltaram sobre o car ro. Espremeram o chofer no banco 
da frente e Elbrick no de trs. Foram at uma pequena rua 
prxima, onde trocaram o carro por uma Kom bi. O embaixador 
tentou fugir durante a baldeao, mas lonas deu-lhe uma 
coronhada na testa, e enfiaram-no debaixo de uma lona. No 
Cadil lac ficaram o motorista e um manifesto, redigido por 
Valdir. Ele infor mava: A vida e a morte do Sr. Embaixador 
esto nas mos da ditadura. Se ela atender a duas exigncias 
o Sr. Burke Elbrick ser libertado. Caso contrrio, seremos 
obrigados a cumprir a justia revolucionriaY
Pediam a libertao de quinze presos e a divulgao do 
panfleto pe las principais emissoras e jornais. Davam 48 
horas de prazo ao governo para abrir as negociaes e 
permitiam-se uma ironia: Os quinze com panheiros devem ser 
libertados, estejam ou no condenados. Esta  uma situao 
excepcionaL E nas situaes excepcionais os juristas da 
dita dura sempre arranjam uma frmula para resolver as 
coisas, como se viu agora na subida da junta militar
6 Trata-se de Elba Nizia Cardoso Souto-Maior, mulher de um 
oficial de Marinha. O Estado de S.
Paulo, 6 de fevereiro de 1992.
7 Aurelio de Lyra Tavares, O Brasil de minha gerao, vol. 2, 
p. 282.
90        A DITADURA ESCANCARADA
Italo Zappa dividia um bife com o chanceler Magalhes Pinto 
no Ita maraty quando foi chamado ao telefone. Era o ministro-
conselheiro da embaixada americana, William Belton, dizendo 
que Elbrick fora rouba do Zappa chegou a pensar que ele 
estivesse brincando. A essa altura o embaixador continuava 
debaixo da lona, e a Kombi j fora guardada na garagem de uma 
casa da rua Baro de Petrpolis, do outro lado dos qua tro 
quilmetros do tnel Rebouas. Menos de um ms depois da 
idia de Valdir, sem maiores preparativos e numa temerria 
operao que con sumiu vinte minutos entre a hora em que o 
Cadillac foi invadido e o mo mento em que a Kombi chegou ao 
aparelho, o cara estava agarrado.
Meu Deus, seqestramos o embaixador dos Estados Unidos, dis 
se Honrio, o suposto inquilino da casa. Era o jornalista 
Fernando Ga beira, 26 anos, redator do Jornal do Brasil, que 
havia alguns meses desa parecera do servio, dos bares e dos 
cinemas da moda.
A Junta, o governo e o pas estavam perpiexos. A Polcia do 
Exrci to viu-se diante do que parecia um lance de sorte. 
Pelo menos um dia an tes do seqestro, havia sido preso, nas 
proximidades da casa do embai xador, um suspeito de 28 anos 
com impressionante pronturio. Era Roberto Cieto, ladro, 
viciado em drogas, fugido da penitenciria Lemos de Brito com 
seis marinheiros, numa operao apoiada por ex-sargen tos. 
Deveria separar-se do grupo, mas preferira acompanhar a 
aventu ra dos colegas de fuga. Vivera algum tempo como 
Pancho, num projeto de base guerrilheira nas matas prximas a 
Angra dos Reis. A sorte o aju dara a sair do mato antes da 
chegada dos fuzileiros navais que desbara taram o dispositivo 
do MAR, mas subitamente lhe faltou. Estava na car ceragem da 
PE quando comeou a mobilizao policial para descobrir a 
cafua do embaixador e a identidade de seus seqestradores.
8 Italo Zappa, maro de 1990.
9 Fernando Gabeira, O que  isso, companheiro?, p. 108.
10 Doss dos mortos e desaparecidos, p. 31, e Branca Eloysa 
(org.), Seminrio do Grupo Tortura Nun ca Mais, p. 171. Ver 
tambm Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio, Dos filhos deste 
solo, pp. 470-3.
O GRANDE GOLPE 91
Interrogaram-no durante trs horas, no mximo. s 18h40 ele 
mor reu de pancada. O cadver tinha o olho direito roxo, com 
um corte na plpebra, e ferimentos na testa, no trax, num 
brao e numa perna. Foi sepultado como suicida. De acordo com 
as verses oficiais, era o 17 do regime, o stimo a se 
enforcar numa cela, o sexto a faz-lo num quartel. Segundo o 
laudo da percia, asfixiou-se sentado.
Cieto nada tinha a ver com o seqestro. E se tivesse? E se 
dissesse onde
estava o embaixador?
No dia seguinte ao seqestro o governo j sabia que Elbrick 
estava guardado no casaro de nmero 1026 da rua Baro de 
Petrpolis, no Rio Comprido, Os servios de informaes da 
Marinha e do Exrcito rece beram a pista de uma vizinha que 
estranhara o movimento na casa. Quando o GTE chegou, o 
Cenimar j estava nos arredores. No podia ha ver sorte 
maior: tinham-se passado pouco mais de 24 horas, e o escon 
derijo dos seqestradores fora localizado.
Na noite do dia 5, dois agentes bateram  porta da casa. L 
dentro ouviu-se um assobio. Elbrick, trancafiado num quarto, 
de cuecas e ca miseta, viu um revlver apontado para o seu 
peito. Trs seqestradores alinharam-se com as armas voltadas 
para a porta, e outro atendeu os vi sitantes, ambos 
corpulentos, cabelos curtos.
 Boa noite  disse um deles , o senhor mora aqui?
 Boa noite. Moro sim.
  que nos convidaram para jantar e nos deram este endereo. 
O senhor mora sozinho?
 Deve ser engano [ 1
 O senhor tem telefone?
11 Folha de S.Paulo, 27 de maro de 1994. O laudo informa que 
Cieto foi encontrado no banhei ro de uma cela da PE, em 
suspenso parcial, sentado no piso Segundo as verses 
oficiais, des de 1964 haviam-se enforcado em celas de 
quartis os seguintes presos: Elvaristo Alves da Silva, Se 
verino Elias de Meio, Milton Soares de Castro, Higino Joo 
Pio e Severino Viana Colon. Numa ceia do DOPS mineiro teria 
se enforcado Joo Lucas Alves. Nilmrio Miranda e Carlos 
Tibrcio, Dos filhos deste solo, pp. 462, 572, 467, 573, 297 
e 296.
92 A DITADURA ESCANCARADA
 No.
 Ento est bem. At a prxima. Desculpe o incmodo...
Descontadas as simulaes, esse dilogo entre Honrio e os 
visitan tes poderia ser refraseado assim:
 Boa noite, ns somos do CIE. Tenente-coronel Iris e major 
Boscar dini. O embaixador dos Estados Unidos est a?
Est. Sou o Fernando Gabeira, podem me chamar de Honrio.
 Podemos telefonar?
(As chances de um casaro como aquele no ter telefone eram 
as
mesmas de no ter gua.)
 No. Aparelho no tem telefone.
 Ento est bem. Vamos esperar aqui por perto.
O tenente-coronel Iris Lustosa telefonara para o chefe do dE, 
coro nel Adyr Fiza de Castro, avisando: A casa  quente 
Fiza foi ao gene ral Lyra Tavares e informou: Posso vigiar, 
posso invadir, posso estourar, posso fazer o que o senhor 
quiser. Agora, o embaixador vai morrer nes sa. Vou prender os 
caras, mas o embaixador vai morrer. Mas o Cenimar j est l. 
O senhor no quer se entender com o ministro da Marinha? 
Lyra foi tpico: No, deixe com o Cenimar Fiza tirou o GTE 
da raia.
Que os seqestradores tenham levado o embaixador para uma 
casa recm-alugada sem habituar os vizinhos a uma rotina de 
movimento, vai por conta da temeridade do grupo. Que a Kombi 
em que Elbrick foi le vado para a Baro de Petrpolis tivesse 
sido vista pelo chofer do embai xador durante o seu 
transbordo, vai por conta de um planejamento des cuidado. 
Essas foram as imprevidncias dos seqestradores, mas foram 
bem
12 Fernando Gabeira, O que  isso, companheiro?, p. 120.
13 Para a identificao dos dois oficiais e para o telefonema 
do tenente-coronel, depoimento do
general Adyr Fiza de Castro, em Maria Celina dAraujo, 
Glucio Ary Dillon Soares e Celso Cas tro (orgs.), Os Anos de 
Chumbo, p. 53.
O GRANDE GOLPE 93
maiores os erros de seus perseguidores, que agora estavam 
diante de um
caso profissionalmente complexo no qual bater em preso no 
bastava.
O cerco ao esconderijo mobilizou agentes do Cenimar e uma 
tropa da Companhia de Polcia do Batalho de Comando do Corpo 
de Fuzi leiros Navais. Planejou-se um estouro do aparelho com 
duzentos homens, bazucas, bombas de gs e dois helicpteros, 
mas essa operao nunca saiu do papel. A passagem do CIE pelo 
aparelho servira apenas para alertar os seqestradores de que 
estavam localizados.
A Junta dispunha de 48 horas para abrir as negociaes, mas 
na noi te da quinta-feira, quando mal se esgotara a quinta 
parte do prazo, au torizou a leitura do manifesto nas rdios 
e televises. Antes que o prazo chegasse  metade, o governo 
anunciou que cedia na troca dos presos.  Junta convinha 
livrar-se do problema to rpido quanto lhe fosse poss vel, 
pois alm do embaixador seqestrado tinha outra panela 
queiman do no fogo: Costa e Silva, paraltico e mudo, 
continuava no palcio, diversas guarnies exigiam que o 
poder fosse passado a um novo man datrio, e os generais 
estavam metidos num conclave papalino para sua escolha. Alm 
disso, no final da tarde, o ministro-conselheiro William Bel 
ton foi ao chanceler Magalhes Pinto com um telegrama do 
Departamen to de Estado em que o governo americano instrua-o 
a solicitar que fos sem tomadas todas as medidas, repito, 
todas as medidas para libertar Elbrick.
O que a Marinha podia fazer? Segundo Cid de Queiroz Benjamin, 
o Vitor, se a casa fosse invadida, assassinar Elbrick teria 
sido um gran de constrangimento Ainda assim ele se convenceu 
de que lonas, o co mandante do seqestro, mataria o 
embaixador. Essa suposio tem amparo estatstico: de 1970 a 
1982, de cada cem pessoas seqestradas, nove
14 Brian Jenkins, julho de 1990. Jenkins, ex-diretor do 
Centro de Estudos sobre Terrorismo e Vio lncia Poltica da 
Rand Corporation, recebeu essa informao do prprio Belton. 
Ele se entrevis tou com todos os diplomatas seqestrados por 
terroristas brasileiros.
15 Entrevista de Cid de Queiroz Benjamin ao Jornal do Brasil 
de 3 de setembro de 1989, pp. 8-9, reportagem de Roni Lima. 
Em agosto de 1994 Franklin Martins revelou ao autor sua 
convico de que numa situao-limite o embaixador seria 
executado. Fernando Gabeira, em maro de 1994, disse ao autor 
que lonas procurara evitar quaisquer contatos pessoais com 
Elbrick. Com base nes sa observao, acreditava que ele 
mataria o embaixador.
94        A DITADURA ESCANCARADA
morreram, a maioria delas durante as operaes de resgate. 
Nos anos seguintes, as foras especiais de diversos pases 
desenvolveram uma tc nica de negociao que encerrou 
inmeros seqestros com a libertao dos refns e a priso 
dos criminosos sem um s tiro ou tapa.
O comandante do i Exrcito, general Syseno Sarmento, que 48 
horas antes reunia oficiais para discutir a legitimidade da 
Junta, reapareceu no papel de porta-voz da anarquia, indo ao 
Laranjeiras para informar aos mi nistros militares que seus 
oficiais no admitiam a troca dos prisioneiros. O comandante 
da Vila, Joo Dutra de Castilho, dizia que o governo no 
deve ceder s exigncias dos raptores. [ O endurecimento deve 
ser des dej executado, mesmo com o sacrificio do 
representante dos Estados Uni dos. Na Brigada Pra-
Quedista, praticamente rebelada desde o nasci mento da Junta, 
houve quem defendesse a execuo dos quinze presos, na 
Cinelndia, um a cada hora. O adido do exrcito americano, 
coronel Ar thur Moura, procurou o comandante do Grupo de 
Artilharia da brigada. Era o coronel Dickson Grael, um 
voluntarioso veterano da linha dura, e se manteve na posio, 
argumentando que Elbrick j vivera 61 anos.
A rebelio dos pra-quedistas foi uma amostra do metabolismo 
da anarquia militar. A inconformidade de generais como Syseno 
e Dutra de Castilho era produto da indisciplina instalada nas 
bases de seus coman dos. Para no ser ultrapassados, levavam 
as presses  Junta, como se de las fossem porta-vozes, 
quando na realidade eram corretores.  provvel que os 
oficiais descontentes no soubessem que o aparelho de Elbrick 
fo 16 Arthur J. Alexander, An economic analysis of security, 
recovery, and compensation in terro rist kidnapping, em 
Brian M. Jenkins (ed.), Terrorism and personal protection, p. 
298.
17 Paul Wilkinson, Terrorism and the Liberal State, p. 135.
18 Jayme Porteila de Meilo, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 844.
19 Informao 769/69, do comandante da i Diviso de 
Infantaria, general Joo Dutra de Castilho. Jornal do Brasil, 
17 de setembro de 1989.
20 Jornal do Brasil, 3 de setembro de 1989. Quando essa 
informao foi publicada, Grael estava morto. Moura, vivo, 
no a desmentiu, O The New York Times de 0 de setembro de 
1969 publicou uma narrativa de uma discusso havida com um 
dos defensores da execuo (por enforcamen to) dos presos. O 
oficial brasileiro, no identificado, teria dito que se o 
governo brasileiro devia ceder para salvar a vida de um 
americano, os Estados Unidos deviam sair do Vietn para 
salvar a vida de duzentos a cada dia. A execuo de 
prisioneiros foi defendida publicamente no ano se guinte pelo 
ex-chanceler Vasco Leito da Cunha. Veja, 15 de abril de 
1970.
O GRANDE GOLPE 95
ra localizado, mas  dificil que um hierarca como Syseno 
Sarmento tam bm estivesse no escuro, quer pelo acesso que 
tinha  Junta, quer pelas conexes existentes entre o seu 
estado-maior e o Centro de Informaes do Exrcito. 
Descontados os oficiais e sargentos da Marinha que ronda vam 
a casa fotografando seus ocupantes, ningum se aventurou no 
ves peiro da Baro de Petrpolis.
Os oficiais indisciplinados orientavam astuciosamente sua 
valentia. Na Aeronutica, o brigadeiro Burnier chamou ao seu 
gabinete o major Murillo Santos, comandante do 12 Esquadro 
do 12 Grupo de Transpor te, da base area do Galeo. Disse-
lhe que temia um acidente com os pre sos durante o vo que 
deveria lev-los ao Mxico. O major fez que no ouviu. Ex-
ajudante-de-ordens do presidente Castelio Branco, Murilio 
selecionou uma tripulao de sua confiana e improvisou um 
cdigo ba seado em nomes de equipamentos de vo. Se o rdio 
do Hercules C-130 recebesse ordens de qualquer fonte que no 
fosse a central de comuni caes da base do Galeo, seu 
comandante abriria o envelope com as no vas instrues: 
deveria comunicar a interferncia ao comando do esqua dro e 
navegar pelo cdigo do major. Se algum o mandasse mudar a 
rota, deveria seguir em frente.
Os pra-quedistas que ameaaram tomar a base area do Galeo 
aca baram tomando um objetivo militarmente mais modesto: a 
estao trans missora da rdio Nacional, em Parada de Lucas, 
onde a guarda no so mava dois faxineiros. Interferiram na 
transmisso e leram um comunicado  nao brasileira em 
nome da tropa pra-quedista e outras tropas re beladas 
chamando a libertao dos quinze presos de medida impa 
tritica e dizendo-se dispostos a fazer o maior dos 
sacrifcios, em nome de Deus e do Brasil, acima de tudo Puro 
teatro. Nem insurretos esti veram, visto que no dia seguinte 
todos foram ao quartel.
O mau humor dos pra-quedistas resultou numa reunio em cujo 
trmino, por unanimidade, os oficiais da infantaria 
aeroterrestre resol veram que no dia seguinte no desfilariam 
na parada de Sete de Setem 21 Brigadeiro Murilio Santos, maio 
de 1991.
22 Carlos Chagas, 113 dias de angstia, p. 131. Para o texto 
do comunicado, transmisso da rdio
Nacional, de 7 de setembro de t969. Texto recolhido em 
ingls.
96        A DITADURA ESCANCARADA
bro. Dickson, com o apoio dos oficiais da artilharia, 
solidarizou-se com a indisciplina e manteve seus soldados no 
quartel. Foi de l que assistiu ao desfile onde viu a tropa 
da infantaria pra-quedista, unnime e gar bosa, marchando 
pela avenida Presidente Vargas em continncia  Jun ta. A 
invaso de um prprio federal, a transmisso pirata, o descum 
primento de ordens e o desacato s autoridades custaram ao 
coronel quinze dias de priso e uma transferncia para o Rio 
Grande do Sul. Saiu bara to, sobretudo sabendo-se que um ms 
antes o Superior Tribunal Militar condenara a um ano de 
priso um frei capuchinho acusado de ter insul tado as Foras 
Armadas durante um sermo na sua pequena igreja do in terior 
nordestino.
Haviam-se passado dois dias da captura de Elbrick, e faltavam 
quin ze minutos para o final do Fluminense x Amrica. Os 
seqestradores ti nham visto as fotografias dos quinze presos 
depois de seu desembarque na Cidade do Mxico. Haviam 
vencido. Faltava apenas o ltimo lance da aventura, que, 
pelas circunstncias, tornara-se o mais arriscado. Trata va-
se de cumprir o compromisso, libertando o embaixador, mas 
sabiam que estavam cercados. O prisioneiro barbeou-se, 
Honrio deu-lhe uma gravata nova porque a sua se manchara com 
o s da coronhada, e vendaram-no. Desceu a escadaria da casa e 
sentou-se no banco de trs de um Volkswagen. Nele iam dois 
seqestradores. Atrs, no Volks de es colta, mais trs, uma 
submetralhadora e uma granada. O terceiro carro, que deveria 
se desligar do cortejo logo que lhe fosse possvel, levava 
uma tripulao que se espalharia pela cidade.
A Baro de Petrpolis estava esquisita, com diversas 
camionetes Ru ral Willys estacionadas. O comboio saiu, e as 
camionetes tambm. O trnsito ia lento, e ainda no havia 
sido percorrido o primeiro quilme tro quando uma Rural fez a 
manobra perfeita e se interps entre o car ro onde ia Elbrick 
e aquele que lhe dava cobertura, seccionando o corte jo. Os 
seqestradores que iam atrs estavam isolados, com a Marinha 
de
23 Jornal do Brasil, 17 de setembro de 1989.
24 Telegrama da agncia France Presse, de 5 de agosto de 
1969. Para o caso, Fernando Prandini,
Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, O. P. (orgs.), As 
relaes Igreja-Estado no Brasil, vol. 2, p. 125.
O GRANDE GOLPE 97
Guerra  frente e s costas. Tentando recuperar a posio 
perdida, os ocu pantes do segundo Volks prepararam suas 
armas.
H duas verses para a cena em que se resolveu esse pastelo. 
Segun do Valdir, que estava na escolta, o lder do grupo 
ordenou que abrissem caminho a bala: A eu pensei que ia 
morrer. A granada ia destruir o car ro deles, o nosso e 
metade do quarteiro. No houve, porm, o confron to armado. 
Era dia de grande jogo e o trnsito na Tijuca estava tumultua 
do. Na confuso a Rural perdeu o carro do embaixador e [ 
escolta] se perdeu do carro dos agentes. [ Estvamos todos 
salvos. A segunda verso, fornecida por dois oficiais de 
Marinha,  de que a Rural sofreu uma avaria mecnica ou teve 
um pneu furado. As duas verses conver gem numa s realidade. 
O carro do embaixador seguiu em paz, at o lo cal onde viriam 
a desov-lo. Os demais, que se separaram do cortejo, se 
guiram seus cursos sem ser molestados.
 razovel supor que a Marinha tenha campanado o aparelho de 
El brick durante cerca de 24 horas sem varej-lo por acato  
deciso do go verno. Isso explicaria por que a casa no foi 
invadida e at mesmo por que o comboio no foi atacado antes 
que a Rural cortasse o caminho da escolta. A partir desse 
momento qualquer patrulha da PM seria capaz de perseguir os 
outros dois veculos, ou pelo menos um (aquele que logo se 
separou do grupo), sem ameaar o carro que libertaria o 
embaixador nu ma rua escura da Tijuca. Mas na noite de 
sbado, 6 de setembro de 1969, durante aqueles quinze minutos 
em que os seqestradores e o Cenimar dividiram a pista da 
Baro de Petrpolis, a tigrada miou.
O seqestro de Elbrick foi a mais espetacular das aes 
praticadas pela luta armada brasileira. Seu efeito poltico 
foi desmoralizante para o regime, tanto pela publicidade que 
a audcia do lance atraiu como pela humilhao imposta aos 
chefes militares, que, tendo atropelado a Cons
25 Depoimento de Franklin Martins ao Jornal do Brasil de 3 de 
setembro de 1989.
26 Comandante Francisco Srgio Bezerra Marinho, chefe da 
seo de operaes do 12 Distrito
Naval, 1975. Capito-de-mar-e-guerra Joo Batista Torrens 
Gomes Pereira, 1970 e maro de 2001.
98        A DITADURA ESCANCARADA
tituio, viram-se encurralados por alguns jovens de trabuco 
na mo. Para a Junta, porm, o episdio foi um blsamo. 
Pusera em plano secundrio a discusso da sua origem 
mambembe. Olhada de fora, ela parecia to forte que s uma 
ao audaciosa e atrevida como o seqestro a abalaria. Olhada 
por dentro, ela estava to fraca que o seqestro lhe deu 
foras e at mesmo o mandato para presidir a troca. Mais: 
ofereceu-lhe o papel maternal de mediadora entre a ameaa 
terrorista e a intransigncia tea tral dos pra-quedistas. 
Transformou-a na nica fonte legtima de poder num pas 
perplexo, sem presidente nem Congresso.
A vitria dos seqestradores  um divisor na histria do 
surto ter rorista brasileiro. De um lado, marca o seu pice. 
De outro, revela na sua prpria finalidade os ingredientes do 
desgaste que o corroa. Manobra ofensiva bem-sucedida em 
relao ao efeito externo, a ao foi concebi da como 
instrumento de defesa, destinada a libertar militantes 
presos. A audcia dos seqestradores indicava o desassombro 
do grupo, mas a ra zo que os moveu estava ligada  luta pela 
sobrevivncia.
Tanto Marighella como Lamarca acenavam aos seus militantes 
com a prxima abertura dos focos rurais, mas seus grupos 
estavam a cada dia mais presos nos estratagemas da luta 
urbana. Suas aes dividiam-se em duas grandes categorias. 
Numa, ofensiva, geradora de publicidade, esta vam os 
atentados pessoais (dois), seqestros de avies (dois), 
atentados a bomba, depredaes e atos de sabotagem. Outra, 
logstica, destinava- se a prover as organizaes com 
dinheiro e armas.
Do atentado do aeroporto dos Guararapes, em 1966, ao 
seqestro de Elbrick, em 69, quatro em cada dez aes da 
esquerda armada tiveram uma natureza ofensiva. Algumas foram 
espetaculares, como o atentado a Costa e Silva, o desmanche 
do comcio de Abreu Sdr, o ataque ao QG do ii Exrcito e a 
prpria captura do embaixador. Outras foram banais, como a 
colocao de bombas em reparties do governo americano. Num 
caso, o do cofre de Adhemar de Barros, uma operao destinada 
a cole tar fundos revelou-se prodigiosamente eficaz tanto no 
aspecto ofensivo (pela publicidade) como no logstico (pelo 
faturamento). Quando El-
27 Levantamento do autor.
O GRANDE GOLPE
99
brick foi apanhado, as aes ofensivas e os assaltos tinham 
passado a mar ca da centena, levando para a esquerda armada 
algo em torno de 3,8 mi lhes de dlares (2,6 dos quais 
estavam no cofre de Adhemar).
A ALN beneficiara-se com o retorno da primeira turma que 
enviara a Havana. Reconstrura o seu GTA, subdividindo-o em 
dois grupos. Logo depois, organizou um segundo grupo de fogo. 
Assaltara bancos, casas de armas e farmcias, estocando 
dinheiro, armas e remdios. O grupo de Lamarca adquirira 
desenvoltura com seu quinho do cofre. Tivera cin co baixas, 
mas praticara perto de vinte expropriaes e contava com 
tre zentos militantes. O ex-capito alvejara a cabea de um 
guarda-civil du rante um assalto simultneo a dois bancos na 
rua Piratininga, em So Paulo. A operao rendeu muita 
publicidade, sobretudo para a mitologia do re negado, mas 
acabou em prejuzo. Um dos bancos tinha o cofre trancado e o 
outro, a caixa vazia. Fechada a conta, arrecadaram-se menos 
de du zentos dlares. Lamarca fizera uma plstica da qual 
sara com o nariz menor. Entrevistado pela revista chilena 
Punto Final, anunciava: Esta mos dando os primeiros passos 
numa guerra que ser longa e dolorosa Conclua repetindo o 
mote da organizao: Ousar lutar, ousar vencer.
A Dissidncia Universitria limpara bancos, um carro-forte e 
um bar em Ipanema. Em pequena escala, reproduzira o ataque ao 
cofre de Adhe mar, mandando  casa do ex-deputado Edgar de 
Almeida um crtico de arte e uma equipe de supostos 
fotgrafos da revista Realidade. Fariam uma
28 Segundo Veja de 13 de agosto de 1969, nos primeiros sete 
meses do ano j teriam ocorrido 53 assaltos. Em outubro de 
1969 a Secretaria de Imprensa da Presidncia da Repblica 
divulgou uma nota oficial informando que de 1968 a setembro 
de 69 os assaltos a bancos e casas comerciais ti nham rendido 
4,9 milhes de cruzeiros, equivalentes a 1,2 milho de 
dlares. Omitiu o assalto ao cofre do ex-governador.
29 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 167.
30 Panfleto com balano das atividades da VAR-VPR, cpia 
existente em 1987 no Departamento de Documentao (Dedoc) da 
Editora Abril. Nesse documento Lamarca diz que a organizao 
pra ticou 21 expropriaes no ano de 1969. Para o nmero de 
militantes, Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 148.
31 Veja, 14 de maio de 1969, e Ariston Lucena, agosto de 
1988.
32 Punto Final de 30 de setembro de 1969, citada em despacho 
da agncia Prensa Latina de 3 de outubro de 1969. Ousar 
vencer era tambm o mote do Special Air Services, esquadro 
antiter rorista da Fora Area Inglesa.
100        A DITADURA ESCANCARADA
reportagem com a sua coleo de quadros. Havia perto de vinte 
pessoas em casa, e foram todas alinhadas para uma foto quando 
das caixas de equi pamento saram revlveres. O ex-deputado 
passou mal, e um dos visitan tes, acadmico de medicina, teve 
a gentileza de chamar o Prontocor i tes de ir-se embora. O 
novo cofre, mais magro, valeu 78 mil dlares.
O governo tambm tivera seus sucessos. Recapturara 350 quilos 
de dinamite, duzentos de munio e 46 armas. Em agosto j 
identificara 370 pessoas ligadas de uma maneira ou outra a 
organizaes armadas, 112 es tavam sendo processadas (s 
cinco tinham mais de trinta anos), e perto de duzentas haviam 
sido presas. As notcias trazidas dos crceres deter minaram 
uma nova conduta para a esquerda armada. A guerrilha, a to 
mada do poder e a construo do socialismo passaram para 
segundo pla no, ofuscadas pela tortura. O manifesto dos 
seqestradores de Elbrick refletia essa ansiedade: Queremos 
advertir a todos aqueles que torturam, espan cam e matam 
nossos companheiros que no vamos aceitar a continuao dessa 
prtica odiosa. Quem prosseguir torturando, espancando e 
matan do, ponha as barbas de molho. Agora  olho por olho, 
dente por dente
A tortura amedrontava quem estava de fora, inibindo o recruta 
mento e os simpatizantes. Ao mesmo tempo, impunha um 
sentimento de covardia aos quadros que, mesmo tendo decidido 
sambar, comeavam a pensar em ir embora. Afinal de contas, 
uma coisa seria saltar de uma organizao em colapso, outra 
mudar de vida enquanto o companheiro de aparelho estava 
pendurado num pau-de-arara. Vingar esses crimes, eliminar os 
torturadores. A sua maldade no pode ficar impune, pensa va 
Alfredo Sirkis, o Felipe da VPR
Acabara-se o tempo em que assaltar um banco era quase to 
fcil quan to descontar um cheque. Terminara tambm a poca 
em que se captu
33 Entrevista de Cid de Queiroz Benjamin ao Jornal do Brasil 
de 3 de setembro de 1989.
34 Veja, 13 de agosto de 1969, pp. 17-8.
35 Aurelio de Lyra Tavares, O Brasil de minha gerao, vol. 
2, p. 283.
36 Alfredo Sirkis, Os carbonrios, p. 169.
O GRANDE GOLPE
101
rava esquerdista com voz de priso, O resultado dessas duas 
inverses re fletiu-se no nmero de mortos produzido pela 
violncia poltica. Em 1968, o governo matara onze pessoas 
desarmadas na represso s passeatas, en quanto a esquerda 
fizera oito cadveres, seis fardados, dois dos quais em 
atentados pessoais. O ano de 1969 haveria de ser o nico de 
todo o pe rodo ditatorial em que o nmero de mortos da 
esquerda empataria com o de policiais e guardas privados. 
Morreram dezenove de cada lado. Isso nunca havia acontecido, 
nem voltaria a acontecer.
As circunstncias das mortes de 1969 tinham a marca da 
ferocida de dos choques. Dos dezessete mortos no ano 
anterior, catorze foram as sassinados sem perceber que 
corriam risco de vida. Em 1968, nem a es tudante Maria ngela 
Ribeiro poderia supor que seria morta quando entrou numa 
passeata, no centro do Rio, nem o capito Chandler julga va-
se em perigo ao sair de sua casa, em So Paulo. Em 1969, esse 
quadro mudara: 29 das 38 vtimas viram-se em situaes 
violentas antes de ser assassinadas. Tanto Marco Antnio Brs 
de Carvalho, o comandante do GTA da ALN, sabia que arriscava 
a vida ao ir procurar seu colega num apa relho, como os 
guardas bancrios sabiam que corriam riscos quando tentavam 
impedir os assaltos.
O manifesto dos seqestradores de Elbrick pretendera 
amedrontar a tigrada, mas o efeito da vitria dos 
terroristas foi um previsvel forta lecimento do aparelho de 
segurana do regime. Os descuidos passaram a custar mais 
caro. Em menos de uma semana caram trs raios.
37 Foram vtimas de atentados pessoais o capito Charles 
Chandier e o major Von Westernha gen. O soldado Mrio Kozel 
morreu no atentado ao QG do ii Exrcito. Dois soldados da PM 
pau lista (Antonio Carlos Jeffery e Eduardo Custdio de 
Souza) morreram em furtos de armas, e um sargento da PM 
carioca (Nelson de Barros) foi atingido por um objeto atirado 
do alto de um edi fcio durante uma passeata. Agostinho 
Ferreira Lima morreu no Amazonas, num roubo de lan cha. 
Estanislau Incio Correa, quando lhe roubavam o carro.
38 Para esse clculo vali-me do Dossi dos mortos e 
desaparecidox do livro de Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio, 
Dos filhos deste solo, para as vtimas do governo, e de 
Rompendo o silncio, de Carlos Alberto Brilhante Ustra, para 
as vtimas do terrorismo. Aos dezenove policiais e guardas 
somaram-se outros dez mortos. Eram pessoas que no 
trabalhavam na segurana do Estado ou de empresas. A 
incluem-se trs Comerciantes, trs bancrios e um cobrador de 
nibus. Da lista de Ustra exclu uma policial, Estela Borges 
Morato, e um prottico, que morreram num tiroteio durante o 
qual s a polcia atirou, bem como uma parente de terrorista 
que inadvertidamente de tonou uma bomba.
102
A DITADURA ESCANCARADA
O primeiro bateu na trave. J na manh de 7 de setembro 
apareceu um encanador no aparelho de um dos seqestradores, 
uma kitchenette na Glria. L estava hospedado lonas, o 
comandante da captura de El brick. Desconfiado, passou o dia 
na rua. Na mosca. Ningum foi preso. Varejou-se o 
apartamento, e apreenderam-se os documentos tirados da pasta 
do embaixador, as gravaes de suas conversas com os 
seqestra- dores e os dlares roubados ao ex-deputado Edgar 
de Almeida.
Os dois outros raios foram certeiros. Antonio Freitas Silva, 
o Baiano, falso jardineiro da Baro de Petrpolis, recortara 
um anncio de quarto de aluguel da edio do lornal do 
Brasil. A Marinha vasculhou o apare lho, achou o jornal 
velho, viu o buraco, descobriu o anncio cortado, foi  
penso onde ele se abrigara e apanhou-o. Claudio Torres da 
Silva, o Pedro, que participara do seqestro e dirigira o 
carro na operao de desova do embaixador, deixara um palet 
no aparelho. Era roupa feita, com etique ta. O alfaiate tinha 
registro de sua clientela, e no dia 9 Pedro estava pre so. Em 
menos de uma semana outros sete (seis dos quais da 
Dissidncia) haviam sido identificados. O lonas da ALN ainda 
era um mistrio.
Ele estava em So Paulo, envolvido no planejamento de um novo 
golpe. Reuniria os dois subgrupos do GTA da ALN numa s 
operao, em que depenaria simultaneamente quatro bancos da 
avenida Alfonso Bo vero. Tarefa para trinta atiradores, 
quarenta militantes na rede de apoio e dez automveis. Feito 
isso, terminaria a fase urbana daquele grupo de combatentes. 
Embarcariam para o sul do Par, onde comeariam a tra balhar 
o foco rural. Receberiam o reforo de 28 quadros treinados em 
Cuba e, logo que possvel, tomariam a cidade maranhense de 
Impera triz. Marighella preparava a remessa de uma terceira 
turma de estagi rios a Havana.
Ia tudo muito bem at que dois militantes da ALN, cada um por 
sua
conta, roubaram uma placa e um carro. Um tirou uma placa de 
um
Volkswagen branco. Outro roubou um Volkswagen branco e jogou 
a sua
39 Jacob Gorender, Combate nas trevas, pp. 184-5. Jornal do 
Brasil, 3 de setembro de 1989.
40 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 185. Jornal do 
Brasil, 14 de setembro de 1969.
41 Do depoimento de Washington Mastrocinque Martins, em Lus 
Mir, A revoluo impossvel,
p. 408.
O GRANDE GOLPE 103
placa fora, colocando no lugar a nova. A troca, destinada a 
impedir a iden tificao do veculo, transformara um Volks 
branco em outro Volks bran co. No dia 24 de setembro o carro 
estava estacionado na alameda Cam pinas quando algum 
desconfiou e a sorte faltou  ALN. A alguns passos,  mesma 
hora, achou-se outro veculo roubado. Dezenas de policiais, 
en tre eles o delegado Fleury, espalharam-se pela vizinhana, 
e quatro mili tantes da ALN caram na arapuca. Manoel Cirilo 
de Oliveira Neto, o Srgio da equipe do seqestro de Elbrick, 
abriu caminho a bala. Luiz Fogaa Bal boni, 24 anos, 
estudante da puc, morreu com um tiro no pulmo. Ter minado o 
tiroteio, a polcia limpou a cena e horas depois capturou 
mais dois combatentes.
Pela primeira vez a ALN levava um golpe do tamanho daquele 
sofri do pela VPR em janeiro, quando foram capturados os 
pintores do cami nho do stio de Itapecerica da Serra. Os 
resultados seriam semelhantes. A ofensiva da Oban rendeu 26 
prises, treze aparelhos e o esclarecimen to de trinta aes 
ocorridas em So Paulo. Em pouco mais de uma se mana o GTA 
estava desestruturado.
A Oban chegou a lonas em trs dias e trs lances. Ele entrou 
na rua Tutia no dia 27 de setembro e l desapareceu. 
Virglio Gomes da Silva foi o primeiro preso a sumir aps a 
edio do AI-5. A partir dele alterou- se no lxico do idioma 
o significado da palavra desaparecido. Deixou de designar 
algo que se perde de vista para qualificar os cidados 
assassina dos em guarnies e valhacoutos militares cujos 
cadveres sumiam. Do que lhe aconteceu na Tutia restam os 
depoimentos de dois presos.
Seu irmo, Francisco Gomes da Silva, capturado dois dias 
antes, contou em juzo que viu Virglio com as mos 
algemadas para trs, en frentando cerca de quinze pessoas, 
dando-lhes pontaps e cuspindo ne les ao mesmo tempo em que 
era cuspido e agredido por todas aquelas pessoas, at que uma 
delas lhe deu um pontap na cabea, produzindo um ferimento 
bastante grave Outro preso revelou que estava numa sala da 
Oban quando Virglio foi trazido, arrastado, sangrando. 
Descreveu a
42 Francisco Carlos de Andrade, agosto de 1988.
43 O Globo, 24 de maro de 1970.
44 Quedograma, item 11.
1
104        A DITADURA ESCANCARADA
cena: Viu baterem com a cabea de lonas no cho diversas 
vezes, presu mindo que quando lonas saiu daquela sala 
estivesse morto
Horas depois o major Benoni de Arruda Albernaz, chefe da 
equipe A de interrogadores da Oban, disse na carceragem que 
Virglio fugira. Al bernaz tinha 36 anos, sara aspirante no 
ltimo tero de sua turma e fi zera toda a carreira em So 
Paulo. Na tarde de 31 de maro de 1964 ser via no CPOR e 
declarou-se fiel  legalidade. No dia seguinte, e por muito 
tempo, mudou de idia. Divertia-se dizendo aos presos que, 
por ser mui to burro, precisava ouvir deles respostas muito 
claras. Tinha na sala um telefone de magneto que era usado 
para falar com Fidel Castro, met fora para a aplicao de 
choques eltricos. Quando venho para a Oban, deixo o corao 
em casa, explicava s vtimas.
Na manh de 29 de setembro, quando os assassinos de lonas 
sumi ram com o seu cadver, o Alto-Comando do Exrcito 
reuniu-se no Rio de Janeiro. Depois de um ms de anarquia, os 
generais de quatro estre las acabaram com a Presidncia de 
Costa e Silva. Seu Arthur, paraltico e mudo, continuava 
recluso nos seus aposentos do Laranjeiras. De seu po der nada 
sobrara. Os colegas mandaram que o Tesouro lhe garantisse um 
salrio de ministro do Superior Tribunal Militar e pagasse as 
contas m dicas. Teria o palcio por mnage e honras de chefe 
de Estado. Termina ra o segundo governo da Revoluo.
45 Declaraes em juzo de Francisco Gomes da Silva e Celso 
Antunes Horta. Projeto Brasil: nun ca mais, tomo v, vol. 4: 
Os mortos, p. 351.
46 General Rubens Resstel, setembro de 1988.
47 Fernando Gabeira, O que  isso, companheiro?, pp. 156-7.
48 Depoimento de frei Tito de Alencar Lima, em Frei Betto, 
Batismo de sangue, p. 261.
Caos de estrelas
Na segunda-feira, 12 de setembro de 1969, houve duas estrias 
no Brasil.  tarde, no palcio Laranjeiras, comeou o 
espetculo da rotina de despachos dos ministros militares no 
exerccio temporrio da Presidncia da Rep blica (A 
imprensa estava proibida de usar a expresso junta militar 
 noite, foi ao ar a primeira edio do Jornal Nacional, da 
Rede Globo.
Eram 19h56 quando o locutor Hilton Gomes anunciou: O Jornal 
Nacional da Rede Globo, um servio de notcias integrando o 
Brasil
Novo, inaugura-se, neste momento: imagem e som de todo o 
pas
O Brasil Novo tinha a informar que Costa e Silva 
apresentara o primeiro sinal da crise circulatria [ quinta-
feira da semana anterior. (Foi na quarta.) Sentiu dor de 
cabea e tonteira. (Perdeu a voz.) Na sexta, chegou ao Rio 
passando mal. (Chegou com um quadro clssico de isquemia 
cerebral.) Passou bem a noite e est em recuperao. (Es 
tava prostrado na cama, to paraltico e mudo quanto no 
sbado. Escon dia o brao debaixo do travesseiro quando via 
que iam lhe aplicar mais injees. Alimentava-se de lquidos 
e papas.)
Script da primeira edio do Jornal Nacional, transcrito na 
revista Imprensa, em reportagem de Gabriel Prioiii, agosto de 
1989, p. 53. Para a situao de Costa e Silva, Jayme Portelia 
de Melio, A Revoluo e o governo Costa e Silva, pp. 839 e 
841. Para a alimentao e para a reao s injees, Carlos 
Chagas, 113 dias de angstia, pp. ti -2. Registre-se aqui o 
valor histrico do trabalho des se jornalista que na poca 
servia como secretrio de Imprensa da Presidncia da 
Repblica. Pu blicado pouco depois dos acontecimentos, passou 
anos proibido pela Censura. A narrativa de Cha gas, depois de 
superar as dificuldades criadas pelos mistrios da poca, 
sobreviveu tambm ao tempo.
io6
A DITADURA ESCANCARADA
O general Jayme Portelia, instalado no palcio Laranjeiras, 
manipu lava a rigorosa censura imposta aos meios de 
comunicao para cons truir duas fantasias. Numa, Costa e 
Silva melhorava. Tentara obter dos neu rologistas Paulo 
Niemeyer e Abraham Ackerman um boletim anunciando que o 
marechal ficaria bom em uma semaim, mas fora mandado passear. 
Noutra, a Junta deveria ser aceita como soluo perfeita e 
acabada. O che fe do Gabinete Militar impressionara-se com os 
boatos em circulao, aci ma de tudo com um deles: o 
presidente tinha morrido, havia sido embal samado, e se 
queria fazer crer ao pblico que ele ainda vivia. Entre o 
boato da rua e o noticirio da imprensa, sedada pelo governo, 
a mumificao de Costa e Silva estava mais prxima da verdade 
do que sua recuperao.
O embuste fazia nexo para Porteila, com sua teoria da 
regncia tri na, e para a Junta, que dela se beneficiava. A 
presena dos ministros mi litares no palcio s se 
justificava enquanto Costa e Silva estivesse em re 
cuperao Seele ficasse bom, tinham de ir embora. Caso seu 
quadro fosse irreversvel, teriam de dar o lugar a um 
substituto. O general Porteila, de cujo audacioso 
comportamento resultara a prpria usurpao, era o vir tual 
governante do pas. Os trs ministros comportavam-se como 
figu ras eventuais e transitrias, e ele, amigo do presidente 
entrevado, nico estranho  famlia que ia diariamente ao p 
de sua cama, era a ponte que os ligava  continuidade 
administrativa. Acompanhava pessoalmente os despachos de 
todos os outros ministros.
Fizera a mgica de tirar uma junta do quepe, mas sua 
capacidade de iniciativa se reduzira. J no dia 2 comearam a 
chegar ms notcias ao La ranjeiras. O chefe do Estado-Maior 
do Exrcito, general Antonio Carlos Muricy, defendia a 
escolha de um novo vice-presidente e propunha a reabertura do 
Congresso para sacrament-lo.  verdade que comanda va uma 
mesa, mas o Capito Muricy, alm de popular entre os colegas, 
tinha abertas as portas dos canis onde Costa e Silva 
atirara os generais
2 Para rigorosa censura telegrama do ministro Lyra Tavares 
aos comandos do Exrcito, de 31
de agosto de 1969. AACM/CPDOC.
3 Informao prestada ao autor por um dos mdicos que 
atendiam Costa e Silva.
4 Jayme Portella de Meilo, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 841.
5 Idem, p. 842.
CAOS DE ESTRELAS 107
mais ligados a Castello Branco. Era dos poucos que tratavam 
Ernesto Geisel por Alemo. Tropa, quem tinha era Syseno 
Sarmento, comandante do i Exrcito. Brigara com Portella nas 
horas seguintes  edio do AI-5 e chegara a proibir que 
unidades sob seu comando recebessem presos mandados pelo 
Gabinete Militar. Articulava a redao de um manifesto de 
parlamentares pedindo a eleio imediata de um vice-
presidente, O texto estava pronto quando o seqestro de 
Elbrick deu flego  Junta.
No dia 5 de setembro, enquanto o chanceler Magalhes Pinto 
anunciava no Itamaraty que o governo aceitara as condies 
dos seqestra- dores, o Alto-Comando do Exrcito estava 
reunido do outro lado da rua, no antigo Ministrio da Guerra, 
no Rio. Lyra dominou a pauta. A doena de Costa e Silva, bem 
como sua eventual substituio, foi tratada de forma 
inconclusiva. No se decidiu se o novo presidente receberia 
um mandato integral, de quatro anos, ou se cumpriria apenas 
os dezessete meses que restavam ao marechal. Ficou entendido 
que a escolha seria feita pelo Alto-Comando das Foras 
Armadas, mas nessa reunio s o general Canavarro Pereira 
defendeu a reabertura do Congresso para normalizar a 
situao institucional Os boletins mdicos e os comunicados 
do palcio eram rseos. Na vspera o Laranjeiras informara 
que a recuperao do presidente est ultrapassando as 
expectativas Discutiram-se o terrorismo em So Paulo e o 
seqestro. Um item, porm, mostrava a verdadeira crise: 
Documento que trata da articulao da candidatura do general 
Affonso de Albuquerque Lima  Presidncia da Repblica 
(trepidao e clima de agitao existentes no meio militar)
Ex-ministro do Interior de Costa e Silva, o general-de-
diviso Affonso Augusto de Albuquerque Lima tinha biografia 
exemplar. Revoltoso
6 Jayme Portella de Melio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 661, e Carlos Lacerda,
Depoimento, p. 366.
7 Ata da 43S reunio do Alto-Comando do Exrcito. AACM/CPDOC.
8 A Voz do Brasil, 4 de setembro.
9 Aspectos Histricos do Alto Comando do Exrcito, de 26 de 
julho de 1979. Smula da 43S reunio.
APGCS/HF.
108        A DITADURA ESCANCARADA
em 1930, reprimira o levante comunista de 35 no Recife e 
fizera a Segunda Guerra no 92 Batalho de Engenharia de 
Combate, primeira unidade brasileira a trocar tiros com as 
tropas alems. Aos 21 anos, como tenente, comandara a 
abertura da estrada MacapClevelndia, na Amaznia. Aos 
trinta, como capito, abrira a JoinvilleCuritiba. Metera-se 
em todas as conspiraes dos ltimos vinte anos, masguardava 
uma caracterstica freqente entre os oficiais da arma de 
engenharia: era a um s tempo radical nas questes polticas 
e nacionalista nos assuntos econmicos. Participara da 
criao da Sudene, dirigira o Departamento Nacional de Obras 
Contra as Secas e chefiara a Diviso de As suntos Econmicos 
da Escola Superior de Guerra. Colocado como interventor na 
Rede Ferroviria Federal por Castello Branco, abandonara o 
cargo denunciando a corrupo impune e retornara  tropa. Por 
conta de seus hbitos frugais e de uma enorme pacincia para 
receber oficiais dispostos a discutir poltica em clima de 
assemblia permanente, erigira-se em cone da linha dura. 
Exercia considervel influncia sobre majores e capites. 
Fora o mais destacado corretor do apoio dos radicais a Costa 
e Silva, de quem recebeu o Ministrio do Interior como 
plataforma de lanamento para a sucesso presidencial. Um de 
seus principais colaboradores civis participara do 
metralhamento do Congresso da UNE no hotel Quitandinha, em 
1963.
Expresso do voluntarismo militarista, quase sempre falava em 
nome de um ente vago denominado nosso grupo. Era exacerbado 
e, muitas vezes, desconexo. Propagava aquele palavrrio 
pomposo que, na anarquia militar, confunde-se com enunciado 
de propsitos. Em 1967, numa conferncia na Pontifcia 
Universidade Catlica do Rio de Janeiro, anunciou que a 
Revoluo  responsvel pela criao de um modelo brasileiro 
de democracia, que deve ser calcada no Nacionalismo, que 
reprime o comunismo internacional e as ideologias fascistas, 
colocando o interesse na cional acima de tudo Dias antes da 
edio do AI-5, atacara padres e bispos da esquerda festiva 
que incutem determinados problemas sexuais
 10 Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro ps- 1930, 
coord. de Alzira Alves de Abreu e outros, vol.
3, pp. 3125 e segs.
11 Recorte de jornal, sem data, encontrado em APGCS/HF.
CAOS DE ESTRELAS 109
nos jovens para acabar com a famlia e os estudantes que 
fazem o jogo dos grandes grupos econmicos. Enaltecia o AI-5 
como instrumento para promover a reforma das estruturas 
superadas que resistiam aos esforos de atualizao pelos 
caminhos normais. Sugeria o aprofundamento da ditadura, 
sustentando que as duas sucesses presidenciais se guintes  
em 1970 e 74  deveriam ser travadas fora do setor poltico 
tradicional ou convencional. Esse enunciado grandiloqente 
era um jogo de palavras a servio de sua prpria candidatura. 
Em 1970, no fim do mandato de Costa e Silva, Albuquerque Lima 
j teria ganho a quarta estrela, habilitando-se a disputar a 
Presidncia, de acordo com a tradio militar de remeter ao 
Planalto oficiais do ltimo grau da hierarquia. A isquemia do 
marechal, antecipando a sucesso, apanhara-o no contra- p, 
com uma estrela a menos no ombro.
Deixara o governo brigando com o ministro da Fazenda, Delfim 
Netto, e despedira-se denunciando a existncia de um clima 
poltico que propicia e coonesta uma verdadeira escalada dos 
grupos econmicos poderosos, em detrimento mesmo das empresas 
nacionais sobre as reas de influncia e deciso na formao 
da poltica econmico-financeira do pas. Remeteram-no  
diretoria geral do Material Blico, posio influente, mas 
sem tropa. Sua retrica nacionalista chegara a empolgar 
alguns pedaos da velha esquerda, encantados com a fantasia 
de aprovei tar a forma da ditadura para trocar-lhe o 
contedo. O jornal clandestino Resistncia chegou a 
proclamar: O general Albuquerque Lima  um patriota e um 
homem honrado.
Costa e Silva via-o  sua maneira. Sabedor das divergncias 
que o separavam de Delfim, aproveitou um despacho com o 
ministro da Fazenda e aconselhou-o: Olha, ele no  to 
difcil assim. Voc pode em purrar. Empurra que ele vai. 
Delfim aceitou a receita: Da em diante dei
12 Veja, 4 de dezembro de 1968.
13 Idem, 25 de dezembro de 1968, pp. 14 e 18-21, e O Globo, 6 
de janeiro de 1969. Para declara es semelhantes, ver 
Hernani dAguiar, Ato 5, pp. 235-6.
14 Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro ps- 1930, 
coord. de Alzira Alves de Abreu e outros, vol.
3, p. 3127.
15 Resistncia, 9 de fevereiro de 1969. AA.
110        A DITADURA ESCANCARADA
uns cotovelaos no Albuquerque Lima, e ele sempre se retraiu. 
Sempre Para o Alto-Comando, a questo era saber se o general 
podia ou no ser empurrado.
Na noite de 6 de setembro, enquanto Elbrick era libertado 
pelos seus seqestradores e os pra-quedistas faziam sua 
transmisso pirata atra vs da rdio Nacional, a trepidao 
era tamanha que o Laranjeiras foi mais uma vez aterrorizado 
pela idia de um golpe de mo. O coronel encar regado da 
segurana do palcio distribuiu submetralhadoras e espalhou 
sua guarda no meio dos arbustos dos jardins com ordem para 
abrir fogo ao primeiro movimento suspeito.  meia-noite o cu 
da Zona Sul do Rio de Janeiro foi tomado por um foguetrio. 
Avies faziam manobras rasantes sobre Botafogo, Flamengo e 
Laranjeiras. Era o jbilo pirotcni co pelos primeiros 
minutos do Sete de Setembro, e o palcio s teve paz quando 
um telefonema ao Ministrio da Aeronutica determinou a 
aterrissagem dos avies, pertencentes  Esquadrilha da 
Fumaa. Mesmo as sim, o general Portella dormiu com um 
revlver debaixo do travesseiro.
No Alto-Comando falara-se em trepidao e o palcio se 
defendia como se fora uma fortaleza de bicho, mas a Junta 
dirigia-se  nao informando que dispunha do apoio 
patritico das Foras Armadas, unidas e coesas. Cumpria-se 
assim a escrita da desordem militar. Em todos os idiomas, 
pases e tempos, sempre que os quartis proclamam sua unidade 
e coeso, isso significa que carecem de ambas. Pode parecer 
que esse ardil seja produto da falta de imaginao de 
generais assombrados, mas h nele uma recndita sutileza. 
Quando a hierarquia reitera uma unidade militar que no 
existe, est enviando um sinal de paz queles que a desafiam, 
oferecendo-lhes a impunidade em troca de uma trgua.
O Grupo de Artilharia dos Pra-Quedistas mantinha-se em 
ordem de marcha e o Estado-Maior do Exrcito distribua 
envelopes lacrados
para que os comandantes de unidades indiscutivelmente fiis 
se puses
16 Antonio Delfim Netto, maio de 1988.
17 Carlos Chagas, 113 dias de angstia, pp. 132 e 173.
CAOS DE ESTRELAS 111
sem em movimento na hiptese de uma tentativa de golpe. O 
prprio Lyra Tavares procurara costurar um acordo com 
Albuquerque Lima. Mandou-lhe uma carta amvel, pedindo-lhe 
que a amizade dos dois fos se preservada das intrigas da 
crise. No dia seguinte veio a resposta, res peitosa no tom, 
devastadora no contedo. Albuquerque Lima lastimava que o 
general Moniz de Arago (que insultara o ministro) 
continuasse sem comisso e defendia a reabilitao do 
coronel Francisco Boaven tura (a quem o ministro insultara). 
At a o dilogo de Lyra com um trs- estrelas refletia as 
grandes linhas do caos militar presidido pela Junta. Nos 
demais tpicos a carta indicava o clima de lavanderia a que 
se havia che gado. Albuquerque Lima denunciava que diversos 
generais vinham sen do xeretados pela escuta telefnica e 
vigiados por policiais. Protestava con tra a censura  
imprensa em geral e em particular contra a supresso do seu 
nome no noticirio. Sem a reformulao desses pontos, dizia, 
dificil mente se conseguir a unidade do Exrcito.
Todos os grupos metidos na disputa eram a favor de alguma 
forma de censura  imprensa. Tanto para que fossem publicadas 
as mentiras que lhes convinham, como para que fossem 
suprimidas as verdades que os incomodavam, O problema estava 
no fato de que as mentiras eram con flitantes. A maior de 
todas, nutrida pela Junta e pelo general Portella, con 
tinuava a ser o estado de sade de Costa e Silva. No dia 10, 
os ministros militares divulgaram uma nota informando ao pas 
que o restabeleci mento da sade do Excelentssimo Senhor 
Presidente [ 1 ser definido em curto prazo O ministro da 
Agricultura, Ivo Arzua, anunciava que Costa e Silva estaria 
apto para reassumir o governo em sessenta dias.
A teoria da regncia trina, pela qual a Junta poderia ficar 
no poder por vrios meses, precisava de duas condies. Numa, 
Costa e Silva de veria dar sinais progressivos de melhora. 
Noutra, era necessrio que no progredisse no Exrcito uma 
forte candidatura  sucesso do marechal. No aconteceu nem 
uma coisa nem a outra. O estado de Costa e Silva manteve-se 
estacionrio. Albuquerque Lima avanava. Diante disso, a so
18 Carlos Chagas, 113 dias de angstia, pp. 134-5.
19 Aurelio de Lyra Tavares, O Brasil de minha gerao, vol. 
2, p. 222.
20 Transmisso da agncia Efe, de 13 de setembro.
112        A DITADURA ESCANCARADA
brevivncia da Junta passou a ter um custo adicional: 
paralisava os ge nerais ligados ao palcio e deixava espao 
para as articulaes do ex-mi nistro do Interior. Aos poucos 
o Alto-Comando percebeu que para man ter o poder, e cortar o 
caminho de Albuquerque Lima, era necessrio jogar na gua os 
trs ministros militares.
O secretrio de Imprensa do governo, jornalista Carlos 
Chagas, ou viu um pedao de conversa entre os ministros Mrio 
Andreazza e Del fim Netto nos corredores do Laranjeiras. 
Dizia Andreazza:
 No tenho dvidas de que ele no poder reassumir. Mas 
devemos lu tar para que dentro de algum tempo possa 
participar das decises suces srias. Ele no merece ver 
instalado  sua revelia um governo que comece contestando o 
seu.
 As repercusses econmico-financeiras de um governo desses 
se riam as piores possveis. O pas iria  garra, para no 
falarmos nas reper cusses internacionais  respondeu Delfim.
 garra talvez no fosse, mas sem dvida Andreazza seria 
manda do  rede de vlei de praia dos coronis da reserva e 
Delfim, devolvido  sua ctedra na Universidade de So Paulo. 
Circulavam at mesmo al guns nomes do novo governo: Syseno 
Sarmento, o comandante do i Exr cito, ficaria com o 
Ministrio do Exrcito que Costa e Silva lhe negara; Carlos 
Lacerda seria anistiado e receberia o Planejamento; o coronel 
Bo aventura, reabilitado, ganharia o do Interior. A campanha 
de Albuquer que Lima ameaava desbordar a ditadura. O general 
Rodrigo Octavio Jordo Ramos (cotado para ministro dos 
Transportes) escreveu a Lyra Tavares pedindo a 
reconstitucionalizao integral do pas e o resta 
belecimento das franquias democrticas R. O., como era 
conhecido, que ria que fosse rapidamente indicado um vice-
presidente. Propunha que os generais de quatro estrelas e o 
comandante militar da Amaznia (ele prprio) encaminhassem 
uma lista trplice  Junta. Ela, com a partici 21 Carlos 
Chagas, 113 dias de angstia, p. 140.
22 Idem, p. 156.
CAOS DE ESTRELAS        113
pao do chefe do Estado-Maior das Foras Armadas, 
selecionaria um
dos trs e submeteria o seu nome aos Altos-Comandos.
A essa altura o general Porteila j havia abandonado os 
regentes e articulava a substituio da Junta por um vice-
presidente com mandato at 15 de maro de 1971, dia do fim do 
governo de Costa e Silva. O pes soal do Laranjeiras queria 
ficar. Para isso defendiam o mandato-tampo, porque nesse 
caso eles continuariam mandando indiretamente e usu fruindo 
as mordomias. Ele garantiria a sobrevivncia do pessoal do pa 
lcio, explicaria o general Muricy. O candidato era o 
general Emilio Gar rastaz Medici, ex-chefe do SNI, 
comandante do iii Exrcito. De todos os quatro-estrelas 
Medici era o que se ligava a Costa e Silva pelos mais 
afetuosos laos de amizade.
A manobra do palcio para produzir o vice de dezessete meses 
nau fragou na manh de 15 de setembro, durante nova reunio 
do Alto-Co mando do Exrcito. Tinham-se passado dez dias 
desde o ltimo conclave. O debate duraria cinco horas. Lyra 
Tavares, que havia pedido aos generais opinies escritas, 
entrou atirando. Ops-se ao impedimento de Costa e Sil va 
sustentando que ele mesmo, que  o chefe da nao, decidir 
se ter con dies de exercer plenamente os rduos e 
complexos encargos Como is so poderia ser feito por um 
ancio mudo, neurologicamente destitudo da capacidade de 
expresso, o ministro no explicou. No cabe ao Exrcito nem 
s Foras Armadas, por si ss, tomarem, imediatamente, 
decises so bre um assunto naturalmente sujeito a 
especulaes e objeto da ansieda de geral. Nem  para esse 
fim que estamos reunidos, arrematou Lyra.
Deu-se mal. Todos os generais mostraram-se favorveis ao 
impedi mento. Os mais cautelosos, como Medici, queriam que 
essa deciso fos 23 Carta do general Rodrigo Octavio Jordo 
Ramos ao ministro Lyra Tavares, de 12 de setembro
de 1969, transcrita em Aspectos Histricos do Alto Comando do 
Exrcito, de 26 de julho de 1979.
Anexo 2, referente  ata da 44 reunio, de 15 de setembro de 
1969. APGCS/HF.
24 General Antonio Carlos Muricy agosto de 1988.
25 Jayme Portella de Mello, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 868.
26 Aspectos Histricos do Alto Comando do Exrcito, de 26 de 
julho de 1979. Anexo  ata da 44
reunio, de 15 de setembro de 1969. APGCS/HF.
114 A DITADURA ESCANCARADA
se tomada com base num parecer da junta mdica. Outros foram 
mais explcitos. Syseno Sarmento atirou a seco: O presidente 
Costa e Silva no poder reassumir suas funes Dava um ms 
de prazo para que a subs tituio do marechal estivesse 
concluda. Canavarro Pereira, do ii Exr cito, foi mais 
didtico: Ser menos prejudicial e muito mais honesto con 
siderar-se o marechal Costa e Silva incapacitado para exercer 
suas funes do que tentar aguardar o seu restabelecimento, 
arriscando o futuro da nao Muricy pediu pressa: H 
necessidade de se considerar vago, no mais curto prazo, tanto 
o cargo de presidente como o de vice-presiden te. Tambm foi 
a pique a idia do mandato-tampo amparado na es colha de um 
vice-presidente. Todos os generais mostraram-se favorveis a 
um mandato novo, de quatro anos.
Faltava o principal: quem e como. Dos oito generais s trs  
Mu ricy, Syseno e Isaac Nahon  apresentaram propostas 
especficas para o processo de escolha. Nahon, obscuro chefe 
do Departamento-Geral do Pes soal, trouxe a que mais convinha 
a Albuquerque Lima: cada um dos 239 oficiais-generais do 
Exrcito, Marinha e Aeronutica votaria em trs no mes, e 
aquele que tivesse recebido mais indicaes levaria a 
Presidncia. Syseno e Muricy propuseram que o eleitorado 
ficasse restrito aos onze qua tro-estrelas e, com algumas 
diferenas, fixaram-se num ritual papalino de votaes 
sucessivas at que um nome conseguisse 51% das preferncias.
Quatro anos antes, os generais haviam retirado aos 
brasileiros o di reito de escolher o presidente da Repblica. 
Ora se dizia que isso era con veniente para evitar processos 
eleitorais em que a escolha acaba limita da a dois demagogos, 
ora se sustentava que o brasileiro no tinha o discernimento 
poltico necessrio para decidir coisa to importante. No 
fundo, a questo era bem mais simples: os brasileiros no 
votavam nos candidatos dos generais. Transformado em colgio 
eleitoral para a es colha de um presidente da Repblica, o 
Alto-Comando do Exrcito fi zera uma surpreendente 
descoberta. Pelos seus critrios, os generais tambm no 
sabiam votar, e se uma proposta como a de Nahon fosse
27 Aspectos Histricos do Alto Comando do Exrcito, de 26 de 
julho de 1979. Votos dos generais
Syseno Sarmento, Canavarro Pereira e Antonio Carlos Muricy. 
APGCS/HF.
28 Idem. Votos dos generais Isaac Nahon, Syseno Sarmento e 
Antonio Carlos Muricy. APGCS/HF.
CAOS DE ESTRELAS 115
aceita, corria-se o risco de que Albuquerque Lima levasse a 
Presidncia
da Repblica.
Eram poucos os oficiais das Foras Armadas capazes de aceitar 
a idia de que o voto de um mendigo vale a mesma coisa que o 
de um general. Da mesma forma, eram poucos os generais em 
comando de tropa dis postos a admitir que o seu voto valesse 
a mesma coisa que o de um co lega sem comisso que dividia o 
cio entre manhs na praia e dedos de prosa nas ante-salas do 
quartel-general. Esse conflito era agravado pela hipertrofia 
da mquina militar baseada no Rio de Janeiro. L viviam 79 
dos 118 generais, cinqenta dos sessenta almirantes e 49 dos 
61 brigadei ros. Muitos deles comandavam mesas. Como havia 
mais comandantes de mesas que de tropas, o Alto-Comando 
percebia que seria temerrio entregar a escolha do presidente 
da Repblica a um cenculo de gene rais. A sesso terminou 
com uma deciso:  escolha ser feita pelos Oficiais-Generais 
das Fras Armadas Como? Isso no resolveram. Li mitaram-se 
a nomear uma comisso para tratar do assunto. Integravam- na 
os generais Muricy, Medici e Mamede. Tornou-se conhecida como 
3M.
Quando chegou ao Laranjeiras a informao de que o Alto-Coman 
do do Exrcito se decidira pelo impedimento de Costa e Silva, 
bem co mo pela sua substituio por um presidente com mandato 
de quatro anos, o general Porteila enfureceu-se. Para sua 
surpresa, o general Medici, a quem vinha oferecendo a Vice-
Presidncia, votara pelo mandato integral. Per cebera que a 
Junta era insustentvel, que Lyra Tavares perdera o contro le 
do Alto-Comando e que a idia do vice se carbonizara, mas 
combatia com o que tinha  mo. No meio da tarde os 
jornalistas credenciados no Laranjeiras foram surpreendidos 
pelo aparecimento da mulher do pre sidente, Yolanda. Ela 
informava que nos ltimos trs dias o marido me lhorara 
muito. Diria a mesma coisa ao jornalista Heron Domingues, 
principal locutor do noticirio noturno da TV Tupi. Em 
seguida o mi nistro Mrio Andreazza divulgou uma nota  
imprensa dizendo que qualquer soluo precipitada, sem se 
ouvir o presidente, ser simples trai o. Acrescentava: O 
Brasil no poder passar  Histria como um pas
29 Veja, 8 de outubro de 1969, pp. 25-6, na reportagem Um 
clima de outubro
30 Para Heron Domingues, Carlos Chagas, 113 dias de angstia, 
p. 154.
ii6
A DITADURA ESCANCARADA
que deps o seu presidente porque ficou doente.  preciso 
aguardar a pos sibilidade do seu restabelecimento. A ele 
caber a oportunidade de defi nir. Ele dir sobre poder ou 
no continuar
O general Syseno atirou de volta. Atravs do comando da 1 
Regio Militar, expediu uma rajada de ordens  imprensa. 
Nada sobre Costa e Silva, sua recuperao e as 
possibilidades de seu retorno ao governo. Ne nhuma 
declarao de D. Yolanda sobre o marido. Andreazza s pode 
falar sobre pontes, estradas e portos. Nada sobre poltica. 
Heron Domin gues queria ir ao ar com sua entrevista e 
telefonou ao i Exrcito:
 Mas no tem nada de mais no que vou ler! E eu estou coberto 
pelo ge neral Jayme Porteila, que me autoriza a dar estas 
notcias na televiso!
 O general Porteila no manda nada, nem aqui nem na...  res 
pondeu o oficial encarregado da censura.
Heron insistiu. Telefonou ao Laranjeiras e contou o caso a 
Yolanda. Ela falou com Syseno Sarmento, ficou com a impresso 
de que sua en trevista estava liberada, e o jornalista foi ao 
ar. Mal o programa termi nou, o sinal da TV Tupi extinguiu-
se. O i Exrcito desligara sua chave ge ral. O general Joo 
Dutra de Castilho, comandante da poderosa Vila Militar, 
associara-se  candidatura de Albuquerque Lima. Acabara o 
vice- reinado do general Portella.
No dia seguinte, preparando-se para uma nova deliberao do 
Alto- Comando, reuniram-se na residncia oficial de Lyra 
Tavares as juntas mi litar e mdica. (O Laranjeiras no 
servia porque no se desejava ter Por teila por perto.) Os 
ministros traziam trs perguntas e tiveram trs respostas:
 H relao de causa e efeito entre os encargos do 
presidente da Rep blica e o mal que o acometeu?
31 Jayme Porteila de Meilo, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 884.
32 Carlos Chagas, 113 dias de angstia, p. 154.
33 Idem, p. 195.
CAOS DE ESTRELAS 117
A tenso nervosa, o trabalho exaustivo e as fortes emoes 
que an tecederam ao acidente vascular foram, sem dvida, uma 
das causas desen cadeantes do acidente agudo  responderam os 
mdicos.
 Qual o prognstico para uma recuperao completa? Em que
prazo?
 Ela poder ocorrer, mas no  possvel, no momento, com 
base cientfica, prev-la nem avaliar o tempo em que a mesma 
se processar.
 O presidente poder reassumir plenamente as 
responsabilidades do governo at 15 de maro de 1971 sem 
comprometer a consolidao da
sua sade?
 Se eventualmente, lcido como est, ele vier a atingir a 
recupera o completa, poder reassumir suas funes, 
ficando, porm, novamente ex-
posto a situaes de stress que contriburam para sua 
enfermidade atual.
No dia 17 de setembro, pela segunda vez em 72 horas, reuniu-
se de novo o Alto-Comando. Apesar de ser um rgo colegiado 
de composi o legalmente definida, Lyra Tavares teve de 
acrescentar trs cadeiras  mesa, para generais que nele no 
tinham assento. Um, Arthur Candal Fon seca, ainda no 
assumira o comando do iv Exrcito. Outro, Rodrigo Oc tavio, 
nem sequer tinha a quarta estrela. O terceiro, Moniz de 
Arago, fo ra enxotado da sala havia menos de trs meses. Com 
base nas respostas dos mdicos, o impedimento de Costa e 
Silva tornou-se matria pacfi ca. As questes centrais, 
porm, persistiam: quem? como?
Quem, j se sabia. Duas semanas de concilibulos permitiram 
que a poeira assentasse. O candidato do Alto-Comando seria um 
dos onze generais de quatro estrelas. No podia ser to 
ligado a Costa e Silva a pon to de perder o apoio dos 
generais descontentes com o governo, nem to ligado aos 
descontentes a ponto de parecer um candidato de oposio ao 
marechal. At porque candidato de oposio j havia, e forte. 
Era Albu querque Lima.
34 Carta de Lyra Tavares anexa  ata da reunio do Alto-
Comando do Exrcito de 17 de setem bro de 1969. Em Aspectos 
Histricos do Alto Comando do Exrcito, de 26 de julho de 
1979. APGCS/HF.
n8 A DITADURA ESCANCARADA
Descontando-se Lyra Tavares por desgastado, Candal Fonseca 
por calouro e Alfredo Souto Malan por estar com um p na 
compulsria e
outro na candidatura oposicionista, restavam oito.
Moniz de Arago e Syseno Sarmento brigaram com o governo. So 
bravam seis.
Isaac Nahon e Canavarro Pereira eram inexpressivos. Ficavam 
quatro.
Jurandyr de Bizarria Mamede, Muricy e Orlando Geisel, com 
suas razes castelistas, estavam longe do palcio.
Como o general Portelia percebera havia mais de uma semana, 
res tava s um: Garrastaz Medici, comandante do iii 
Exrcito.
Desde o incio do ano, quando o presidente facilitara sua 
promoo e o transferira da chefia do SNI, havia sinais de 
que ele era a escolha mi litar do marechal. Cerca de trs 
meses antes o colunista Ibrahim Sued, amigo de Costa e Silva, 
indicara numa entrevista que Medici seria o pr ximo 
presidente da Repblica.
Como? A questo continuava do mesmo tamanho. A comisso dos 
3M concebeu um expediente eleitoral. Cada membro do Alto-
Coman do deveria recolher trs nomes entre seus subordinados 
atravs de um processo de auscultao No se definiram 
quais oficiais seriam auscul tados, muito menos a metodologia 
pela qual se faria isso. Nem sequer se esclareceu o que se 
faria com a lista trplice. Segundo a exposio feita na 
reunio do dia 17 pelo general Muricy, relator da comisso, 
uma vez con seguidos os trs nomes,  alto-comando do 
Exrcito decidiria quan to  indicao ao alto-comando das 
foras armadas, ficando claro que no se trataria de uma 
eleio.
Os registros dessa eleio presidencial resumem-se a pouco 
mais de uma dezena de folhas, a maioria manuscritas com os 
garranchos do ge neral Muricy, todas guardadas por ele e 
posteriormente doadas ao Cen tro de Pesquisa e Documentao 
Contempornea da Histria do Bra
35 Entrevista de Ibrahim Sued a O Pasquim, n 1,26 de junho de 
1969.
36 Exposio do general Antonio Carlos Muricy na reunio do 
Alto-Comando do Exrcito de 17
de setembro de 1969. Em Aspectos Histricas do Alto Comando 
do Exrcito, de 26 de julho de 1979.
APGCS/HF.
CAOS DE ESTRELAS 119
sil, o CPDOC da Fundao Getulio Vargas. Permitem apenas uma 
viso incompleta do processo. No Exrcito funcionou um 
bizarro mecanis mo de escolha. Os 118 generais foram 
divididos em onze distritos elei torais capazes de assombrar 
os polticos ingleses do sculo x O Co mando Militar da 
Amaznia (onde o general Rodrigo Octavio apoiava Albuquerque 
Lima) ficou na cota de votos do gabinete do ministro. Os 
dezesseis generais do i Exrcito foram agrupados num s 
distrito. J os catorze do Estado-Maior das Foras Armadas 
produziram duas urnas, pois a Escola Superior de Guerra, que 
fazia parte de sua estrutura, tor nou-se autnoma. Houve 
generais que votaram em trs nomes e ou tros que votaram num 
s. O Departamento de Proviso Geral, com de zessete generais 
auscultados, teve mais eleitores que qualquer dos quatro 
Exrcitos. Somando-se os seus votantes aos do Departamento de 
Pro duo e Obras, esses dois arsenais de mveis tiveram mais 
peso (32 aus cultados) que todas as tropas do Rio de Janeiro, 
So Paulo e Rio Gran de do Sul combinadas (27).38 No III 
Exrcito Medici deixou que seus generais votassem. No Rio, 
Syseno Sarmento tomou o voto dos generais e ainda permitiu 
que os comandantes reunissem seus oficiais em car ter 
consultivo. Muricy espantou-se com o voto dos coronis: 
Nesse ca so vamos acabar no cabo. Vamos ouvir o cabo. Uma 
tabela deixada pelo general Muricy, na qual faltam os dados 
referentes a dois distritos eleitorais (o gabinete do 
ministro e o IV Exrcito), informa que Medici obteve 77 
referncias na oitiva de 102 generais. Albuquerque Lima ficou 
com 38 eleitores renitentes.
O sacro colgio do Exrcito encontrou-se no dia 29. A reunio 
ia pela metade. Muricy narrou alguns episdios da trepidao 
militar da ltima
semana e advertiu da possibilidade de insubordinaes entre 
os capites
37 Carlos Chagas, 113 dias de angstia, p. 182, e A guerra 
das estrelas (1964/1984), p. 170.
38 Uma folha manuscrita, com a tabela de resultados da 
auscultao dos generais. AACM/CPDOC.
39 Depoimento do general Antonio Carlos Muricy ao cpuoc, vol. 
4, fita 53, p. 5.
40 Uma folha manuscrita, com a tabela de resultados da 
auscultao dos generais. AACM/CPDOC.
120 A DITADURA ESCANCARADA
e majores partidrios de Albuquerque Lima. Os quatro-estrelas 
tomaram mais uma deciso eleitoral: os nomes seriam recebidos 
a seco, sem in dicao de prioridade ou preferncia entre 
eles.
Depois de duas horas e meia o Exrcito produziu seu 
candidato: Emi lio Garrastaz Medici. Havia vrias semanas o 
comandante do iii Exr cito avisava que no aceitaria o 
cargo. Voltou a insistir. Segundo a ata, o Sr. General 
Medici solicitou que se transmitisse ao Alto-Comando das For 
as Armadas que, por sua vontade, no desejaria aceitar essa 
indicao Pela narrativa de Muricy, a cena no teve tanta 
solenidade: O Medici dis se que s aceitaria como o 
embaixador americano, cloroformizado e amarrado Ento, a 
certa altura, interrompi os debates e disse-lhe: Milito:
 voc o presidente, nem que para isso eu tenha que amarr-lo 
e cloro formiz-lo
Na Marinha e na Aeronutica estabeleceu-se o critrio de dar 
voto a todos os oficiais-generais. O ministro Rademaker 
assegurava aos seus colegas de junta que levaria o 
almirantado para o candidato do Alto-Co mando do Exrcito. 
Garantia precipitada. Ofendida desde o incio da Re pblica 
pelo advento da superioridade poltica do Exrcito, a velha 
Ma rinha Imperial estava aborrecida com a idia do ministro. 
Uma parte de sua cpula preferia Albuquerque Lima. Um 
almirante de quatro estrelas convocara  sua sala o 
comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, Hei tor Lopes de 
Souza, que tinha apenas trs, e comunicara-lhe que a Ar mada 
apoiaria o ex-ministro.
 S se voc quiser apoiar. Os fuzileiros ficam com Medici 
respondeu Heitor.
 Isso no  uma consulta.  uma ordem  insistiu o 
almirante.
Ordem coisa nenhuma. Voc comanda uma mesa, e eu comando
quinze mil homens.
 Nesse caso, mando prend-lo.
41 Ata da 461 reunio do Alto-Comando do Exrcito, de 29 de 
setembro de 1969. Em Aspectos His tricos do Alto Comando do 
Exrcito, de 26 de julho de 1979. APGCS/HF.
42 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
CAOS DE ESTRELAS 121
Estava na sala o almirante Azambuja, chefe do estado-maior de 
Hei tor. Era gago, mas foi breve:
 E eu dou-...lhe u...ma...ma ra...rajada de de me...metra. . 
.lha
dora.
Reunido o almirantado, Rademaker viu a extenso do seu erro. 
Ai buquerque Lima teve o voto de 37 dos 65 presentes. O 
impasse foi rom pido quando o comandante dos fuzileiros 
repetiu seu argumento dian te de todos os colegas. Fez-se 
entender, pois numa nova votao, por dois votos de 
diferena, Rademaker recebeu carta-branca para tratar do 
caso. Na Aeronutica, Medici ganhou por pequena vantagem.
Costa e Silva tinha razo. Albuquerque Lima podia ser 
empurrado. Ao longo de trs semanas vagara de reunio em 
reunio tentando o im possvel: sair candidato da anarquia, 
dentro da disciplina. S reagiu de pois que a escolha tornou-
se matria vencida. Escreveu a Lyra Tavares di zendo que 
observei um sentimento de repdio profundo e generalizado de 
contestao aos mtodos adotados e [ s irregularidades que 
se ca racterizaram Ameaava: Caso os responsveis pela 
deciso final no se disponham a ouvir e atender, com 
realismo e patriotismo, os anseios da maioria das Foras 
Armadas, no saberemos avaliar os riscos em que a Nao 
estar incorrendo, quando outros lderes, talvez mais 
audaciosos e menos precavidos contra as tentaes do poder, 
ousarem ultrapassar os chefes militares
A malcia de Albuquerque Lima resumiu-se aos truques das 
vivan deiras do radicalismo militar, por meio dos quais o 
coronel, general ou ministro vai  tropa, insufla a anarquia, 
toma o carro e sobe ao palcio pedindo que se faa isso ou 
aquilo para pacificar os granadeiros. O cor-
43 Episdio contado ao autor pelo almirante Heitor Lopes de 
Souza em novembro de 1969, na
presena do almirante Azambuja.
44 Para o resultado numrico, Carlos Chagas, A guerra das 
estrelas (1964/1984), p. 180. Para a in terferncia do 
almirante Heitor, Jayme Porteila de Meilo, A Revoluo e o 
governo Costa e Silva,
p. 903.
45 Carta de Albuquerque Lima a Lyra Tavares, de 2 de outubro 
de 1969, em Carlos Chagas, 113
dias de angstia, pp. 189-9 1.
122 A DITADURA ESCANCARADA
retor da indisciplina raramente pede ao governo tudo o que 
ensinou a tropa a exigir. Busca uma parte, volta aos 
bivaques, pede compreen so, esfria os nimos e fatura a 
crise sem ter corrido nenhum risco, pois, afinal, subiu ao 
palcio como amigo, para preservar a unidade do Exrcito.
Esse metabolismo bondoso existiu para consumo interno daquele 
pedao da corporao cujas transgresses se davam dentro das 
disputas da ditadura, mas no vigorou para quem atacava seus 
crimes. No dia 30 de setembro, a caminho da porta de sada, a 
Junta liquidou a conta do caso Para-Sar e expulsou da 
Aeronutica o capito Srgio Miranda de Car valho. Srgio 
Macaco no aceitara as sugestes para aquietar-se em nome da 
unidade da FAB.
Uma semana depois de ameaar o Alto-Comando com uma rebe 
lio, Albuquerque Lima anunciou seu apoio a Medici, pois 
dizia-se con vencido de que seu programa coincidia com 
trechos dos documentos pro postos por ele e outros oficiais 
nacionalistas. Estava fechado o crculo, faltavam s os 
arremates.
Muricy recebeu um apelo da famlia de Costa e Silva e passou 
a noi te de 5 de outubro em claro. No incio da manh do dia 
6 ele chegou ao palcio Laranjeiras. Conforme combinara, ia 
contar ao marechal que seu governo acabara. Ele relata:
O Alcio, filho do presidente, estava me esperando na entrada. 
Subimos aos
aposentos. Na ante-sala estava a mulher, Yolanda, e o irmo, 
Riograndino.
A certa altura a Yolanda disse que era preciso fazer um 
mandato-tampo.
Eu respondi: Yolanda, voc esquece que se vier o tampo, 
vir o Affonso,
e voc vai ver. [ A tua vida ficar infernal No quarto ao 
lado estavam
o mdico com dois enfermeiros e injees, prontos para 
acudirem caso o Costa e Silva passasse mal. O meu medo era 
que ele tivesse uma coisa en quanto conversava comigo e 
morresse. Iam dizer que eu o tinha matado. Ele estava sentado 
na poltrona. O seu olhar mostrava que compreendia o que lhe 
era dito. Eu entrei dizendo: O, cabo-de-guerra. Ns queremos 
ver
Veja, 15 de outubro de 1969, pp. 18-25.
46
CAOS DE ESTRELAS 123
voc recuperado, e para se recuperar, no pode ter 
preocupaes. Conti nuando presidente, voc no se recupera. 
Estamos pensando muito em pou
par voc com algum que seja seu amigo, que seja a sua 
continuao. Um amigo seu: Milito. Ele comeou a chorar. As 
lgrimas corriam do seu ros to. Pegou minha mo e me fez sair 
do quarto. Voltei para a ante-sala at que o mdico 
reapareceu e disse para eu entrar de novo. Entrei, falei-lhe 
umas coisas da Revoluo de 32 e disse que precisava sair 
para ir  missa. Quando sa do quarto, disse ao Alcio: Est 
feito, vocs agora me dispen sem porque eu no agento mais 
isso.
O general Golbery escrevia ao seu amigo Heitor Ferreira: O 
homem  o Medici mesmo. E...] Com Joo a bordo, o que  uma 
garantia enor me. Joo era o general-de-brigada Joo 
Baptista de Oliveira Figueiredo, o Figa, ex-chefe da Agncia 
Central do sNI, velho colaborador de Golbery. Chefiava o 
estado-maior de Medici no iii Exrcito e viria com ele para a 
chefia do Gabinete Militar, arrastando consigo parte do 
ncleo de ofi ciais com que trabalhara no Servio. 
Convenhamos que isso d um gos to tamanho..., orgulhava-se 
o Satnico Dr. Gol. Arrematava com a gran de notcia da 
temporada: Alemo de p no estribo. O general Ernesto 
Geisel tinha sido tirado do STM e nomeado presidente da 
Petrobrs, a maior empresa do pas.
Os dois fsforos riscados estavam novamente acesos, e Golbery 
pre venia Heitor:  bom no espalhar que h muita gente da 
antiga turma
por l (Braslia) e por c. J no agento de pedidos a 
encaminhar.
O Alto-Comando das Foras Armadas indicou o general Emilio
Garrastaz Medici para ocupar a Presidncia da Repblica. 
Terminara a
mais longa crise de anarquia militar da histria do pas. Na 
hora do jan tar do dia 7 de outubro os brasileiros, que mal 
conheciam aquele rosto,
ouviram-no por vinte minutos nas rdios e televises: Quem 
semear a
violncia colher fatalmente a violncia.
47 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
48 Cartas de Golbery a Heitor Ferreira, de 7 de outubro, 10 e 
25 de novembro de 1969. APGCS/HF.
49 Emilio Garrastaz Medici, O jogo da verdade, p. 17.
124        A DITADURA ESCANCARADA
Na tarde do dia seguinte, na 1 Companhia do Batalho da PE, 
na Vila Militar, os rapazes do Colina foram tirados das 
celas, postos em fila e escoltados at um auditrio. No 
caminho ouviram uma piada de um cabo:
So esses a os astros do show?. Era a aula do tenente 
Ailton
Milito, Medice, Medici
Todos os presidentes da ditadura militar repetiram que 
chegaram ao pa lcio sem terem desejado o cargo. Em todos os 
casos, em graus variveis, isso foi uma falsidade. Deles, o 
que menos se mexeu para vestir a faixa foi Emilio Garrastaz 
Medici. Quando seu amigo Costa e Silva perdeu a fala, ele 
estava no comando do iii Exrcito. Apesar de ser visto desde 
al guns meses como uma ntida alternativa militar para a 
sucesso de 1971, era improvvel que se impusesse num quadro 
normal. Na anarquia de setembro de 1969, pareceu talhado para 
o cargo.
Retrado por temperamento, era um completo desconhecido. Assi 
nava-se Medici, mas o Almanaque do Exrcito listava-o como 
Medice ha via mais de trinta anos. At chegar  Presidncia, 
era o general Garrasta z, Emilio para os amigos e Milito 
para um punhado de ntimos. Alto e um pouco curvado, nele 
combinavam-se um rosto sem expresso, olhar atento e voz 
grave, segura. Tinha 65 anos e a biografia tpica de militar 
do chamado exrcito do Rio Grande, turma formada por 
oficiais que raramente deixam aquele estado e com freqncia 
servem na cidade em que nasceram e se casaram. A vida desse 
grupo nada tem a ver com a agi tao da Vila e as futricas de 
Braslia. Desde o Imprio, a quem deu ge nerais como o 
marqus do Herval e o visconde de Pelotas, o exrcito do Rio 
Grande  aquele pedao da corporao onde o oficial melhor 
se in tegra na sociedade civil. No fica na cobertura, como 
em alguns estados do Nordeste, nem no trreo, como em So 
Paulo.
i..
126 A DITADURA ESCANCARADA
Medici nascera em Bag em dezembro de 1905, filho de um comer 
ciante de origem italiana e de uma rica herdeira de famlia 
basca. Era um gacho abastado de hbitos simples, caso raro 
de militar rico. Passa ra metade de sua carreira no Rio 
Grande e servira duas vezes em Bag. Enquanto seus colegas 
tinham a biografia marcada pelas crises dos anos 50 e pela 
grande fratura de 1961, Garrastaz era o silncio da 
orquestra. Sua nica atribulao foi burocrtica. Como 
capito, respondera a um processo por falta de zelo no 
cumprimento do dever e sara limpo por conta de um habeas 
corpus.
Ainda que taciturno, era estimado por calmo e solcito. Bom 
de bo la, falava muito de futebol, nada de poltica. Tinha a 
seu favor o contra ponto com um primo detestado, o general 
Rafael Danton Garrastazu. Levava uma vida modesta e, com sua 
mulher Scylla (ela tambm filha de prsperos estancieiros), 
mantinha uma famlia exemplar. Chegara a general-de-brigada 
em 1961. Na tumultuada diviso de 1964 prenun ciava-se o fim 
de sua carreira. Difidilmente receberia a quarta estrela. Cum 
prira uma escrita regular e desembocaria em breve na paz do 
varando da querncia. No h um s relato de conspirador dos 
anos 60 que men cione envolvimento de Medici na fermentao 
antijanguista. De um la do, estava na Lista de Distribuio 
Especial de Material de Esclarecimen to que Golbery mantinha 
no IPS. De outro, ganhara do dispositivo o prestigioso 
comando da Academia Militar das Agulhas Negras. L es tava na 
manh de 31 de maro de 1964, quando Mouro Filho resolveu 
descer a tropa.
No se aproximara dos conspiradores, nem os conspiradores, 
dele.
Desde 1922, quando o comandante da Escola de Cadetes permitiu 
que
1 Segundo o embaixador Pio Corra, Medici nasceu do lado 
uruguaio da fronteira. Corra, O
mundo em que vivi, p. 984.
2 Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro ps-1930, coord. 
de Alzira Alves de Abreu e outros, vol.
3, pp. 3678-80.
3 Voz Operria, maro de 1970.
4 Lista manuscrita, de Heitor Ferreira, datada de outubro de 
1963. APGCS/HF.
5 Hernani dAguiar, A Revoluo por dentro, p. 102. Em seu 
depoimento a Maria Celina dArau jo, Glucio Ary Dillon 
Soares e Celso Castro (orgs.), A volta aos quartis, p. 211,0 
brigadeiro Joo
Paulo. Burnier classifica o general Medici como 
revolucionrio de ltima hora
MILITO, MEDICE, MEDICI 127
os alunos se rebelassem e provocou uma expulso em massa que 
resul tou em grossa confuso burocrtica depois da anistia de 
30, o planeja mento das sublevaes passou a excluir a 
garotada. O coronel que coman dava o corpo de cadetes tinha 
um plano para levantar a academia, mas at as altas horas da 
noite do dia 31 Medici manteve as Agulhas Negras longe do 
tumulto. Geograficamente a meio caminho entre o Rio e So 
Paulo, politicamente l permaneceu. Perto da meia-noite, 
quando as r dios transmitiam o manifesto de Kruel, Medici 
conversara com ele por telefone. Um queria saber a posio da 
AMAN. O outro perguntava pela autenticidade do que se lia nas 
rdios. Kruel confirmou o texto do ma nifesto: D as ordens, 
chefe respondeu Medici. Por volta dessa hora veio um chamado 
de Costa e Silva. Medici lhe disse que no estava en tendendo 
nada, pois se falava de uma sublevao, mas nada sabia de 
real. (O manifesto de Mouro Filho pedindo a deposio de 
Jango j fora ao ar havia mais de seis horas.) Seu amigo e 
comandante anunciou-lhe que participava de um movimento para 
depor o presidente. D as suas or dens, chefe respondeu 
Medici.
Alm de telefonemas, o comandante da AMAN disparou no dia 1 
de abril um manifesto de veia potica  que a bandeira do 
Brasil nos cubra a todos  e essncia cautelosa. Se Kruel 
atacava o cerco do comunis mo Medici nem isso. Defendeu a 
validade eterna dos princpios da dis ciplina e da 
hierarquia advertiu do risco de um enfrentamento no vale do 
Paraba e anunciou que nossa atitude significa, tambm, a 
tentativa de evitar o desperdcio de energias Era um 
manifesto capaz de sobre viver a um acordo. No fim da tarde a 
posio de Medici no deixava d vidas. Tinha cadetes com 
roupas de combate entrincheirados na direo do Rio e em 
uniforme de gala para receber Kruel, que vinha de So Pau lo. 
O comandante da Academia cedeu a sua sala para que o comandan 
te do i Exrcito conferenciasse com Kruel e nos dias 
seguintes retomou
6 Depoimento de Amaury Kruel a John W. F. Duiles, em Dulies, 
Castello Branco  O caminho
para a Presidncia, p. 347, e discurso do deputado Amaury 
Kruel na Cmara dos Deputados, 12
de dezembro de 1968.
7 Jayme Portelia de Melio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 128.
8 Hernani dAguiar, A Revoluo por dentro, p. 141.
128 A DITADURA ESCANCARADA
a rotina da escola. Enquanto a imprensa transbordava de 
depoimentos de generais que se atribuam o triunfo do 
levante, Medici, no alto da ser ra fluminense, voltou a ser o 
silncio da orquestra.
A nova ordem remeteu-o a Washington como adido militar junto 
 embaixada. Lastimava-se do salrio, sofria da coluna e, por 
monoglota, mantinha-se retrado. Voltou ao Brasil antes de 
completar dois anos no posto. Costa e Silva levou-o de uma 
subchefia do Estado-Maior do Exr cito para a direo do 
Servio Nacional de Informaes. Sempre de ter no escuro, 
carregando uma pasta preta e com um cigarro Minister pen 
durado na boca, Medici foi um chefe do SNI mais reservado que 
Golbery, pois enquanto este dizia que era o ministro do 
silncio e conversava  esquerda e  direita, seu sucessor 
limitava-se a ouvir. S um tema o esti mulava e descontraa: 
futebol, Flamengo e Grmio. Raramente saa de casa, onde 
consumia o cio jogando biriba. Sua nica atividade social 
regular era a ida aos estdios, sempre com um rdio colado ao 
ouvido. Era to reservado que a simples posse do seu carto 
de visita  indicativo de uma audincia concedida ou at 
mesmo de um encontro social  era um tro fu para os 
polticos. O ex-ministro Armando Falco, que conseguira um, 
carregava-o na carteira dentro de uma capa de plstico.
No ministrio, Medici foi um duro. Na noite de 13 de 
dezembro, quan do Costa e Silva reuniu o Conselho de 
Segurana Nacional para assinar
o Ato Institucional n 5, seu voto fora claro:
Senhor presidente, senhores conselheiros. Eu me sinto 
perfeitamente  vontade [ 1 e, por que no dizer?, com 
bastante satisfao, em dar o meu aprovo ao documento que me 
foi apresentado. Isto porque, senhor presi dente, em uma 
reunio do Conselho de Segurana Nacional, no desem penho das 
funes que vossa excelncia me atribuiu, como chefe do SNI, 
tive oportunidade de fazer minucioso relato da situao 
nacional brasilei
9 Para a queixa sobre o salrio, carta de Medici a Geisel, de 
24 de julho de 1964. APGCS/HF. Para as
dores da coluna e para a dificuldade com o ingls, Roberto 
Nogueira Mdici, Medici  O depoi mento,p. 18.
10 Armando Falco mostrou seu carto ao autor em 1973.
MILITO, MEDICE, MEDICI 129
ra e demonstrar aos conselheiros que por fatos e por aes o 
que estava na rua era a contra-revoluo. Acredito, senhor 
presidente, que com a sua for mao democrtica, foi vossa 
excelncia tolerante demais, porque naque la oportunidade eu 
j solicitava [ que fossem tomadas medidas excep cionais para 
combater a contra-revoluo que estava na rua. Era s o que 
eu tinha a dizer.
Havia na sua natureza reservada uma surpreendente vocao 
para a fora. Quando os estudantes tomaram as ruas do Rio de 
Janeiro, ele de fendeu a pronta adoo do estado de stio. 
Quando o general Moniz de Arago atacou as ligeirezas da 
famlia do presidente e o ministro Lyra Ta vares levou o caso 
ao Alto-Comando, defendeu o amigo. Semanas depois, ao ver que 
a punio do general ficara apenas na perda da comisso, foi 
a Costa e Silva reclamar. Queria mais. Quando o Alto-Comando 
do Exr cito se transformou em consistrio, foi o ltimo 
quatro-estrelas a admi tir a reabertura do Congresso para a 
sagrao do novo presidente. Sua proposta era mais simples: 
Proceder  escolha de um presidente da Re pblica, ouvido o 
Alto-Comando das Foras Armadas e das Foras Sin gulares, 
nomeando-o e empossando-o pela edio de um Ato Institucio 
nal Admitiu que o recesso parlamentar fosse suspenso, se 
for o caso e no momento oportuno, para ratificar a votao 
dos generais, mas ad vertiu: Caso o Congresso no referende 
as decises que lhe foram sub metidas, djssolv-lo
A Casteilo Branco a ditadura parecera um mal. Para Costa e 
Silva, fora uma convenincia. Para Medici, um fator neutro, 
instrumento de ao burocrtica, fonte de poder e depsito de 
fora. No s se orgulhou de ter namorado o AI-5 desde antes 
de sua edio, como sempre viu nele um verdadeiro elixir: Eu 
posso. Eu tenho o AI-5 nas mos e, com ele, posso
11 Registro da sesso do Conselho de Segurana Nacional de 13 
de dezembro de 1968. APGCS/HF.
12 Jayme Portella de Melio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 782. Para a posio de Medi-
ci no Alto-Comando, resumo da ata da 42 reunio do Alto-
Comando, em Aspectos Histricos do
Alto Comando do Exrcito, de 26 de julho de 1979. APGCS/HF.
13 Voto do general Medici, anexo  ata da 44S reunio do 
Alto-Comando do Exrcito, em Aspectos
Histricos do Alto Comando do Exrcito, de 26 de julho de 
1979. APGCS/HF.
130 A DITADURA ESCANCARADA
tudo, disse certa vez a um de seus ministros. Eu tinha o 
AI-5, podia tu do rememorou na nica entrevista que 
concedeu. Teve uma relao natural com a ditadura, como se 
ela fizesse parte de um manual de ins truo. Nos dias 
inquietos do conclave militar, apresentou-se ao pas com um 
discurso suave, anunciando que chegou a hora de fazermos o 
jogo da verdade e prometendo que, ao trmino do meu perodo 
admi nistrativo, espero deixar definitivamente instaurada a 
democracia em nosso pas. Menos de dois meses depois, numa 
reunio secreta do mi nistrio, explicou-se: Para fazermos o 
jogo da verdade dispomos de r gos especializados: o 
presidente da Repblica, de seu SNI, e os senhores ministros, 
de suas divises de segurana e informaes
Tinha tudo para virar general de piada. O Conselho de 
Segurana Na cional americano estimava que os atributos de 
Medici e sua imagem re lativamente boa no lhe garantem o 
sucesso Suas limitaes conheci das e a debilidade da 
situao que herdou podem muito bem impedi-lo de cumprir suas 
promessas iniciais e, talvez, de terminar o seu mandato
Faltavam-lhe a liderana de Albuquerque Lima, a audcia de Mu 
ricy e a militncia poltica de Mamede. Sua biografia no 
oferecia atra tivo. Ningum o conhecia por preparado ou 
audacioso, nem sequer por trabalhador. Em compensao no 
tinha inimigos a cham-lo de politi queiro, pavio-curto ou 
pernstico. Era um perfeito mnimo mltiplo comum, numa 
corporao onde a linha mdia demarca a virtude. Fir mou-se 
como favorito do Alto-Comando quando sua candidatura se 
tornou barreira eficaz contra Albuquerque Lima, esturio das 
esperan as dos hierarcas de Costa e Silva, que desejavam 
continuar no poder, e dos castelistas, que a ele pretendiam 
voltar.
Medici sabia o tamanho da anarquia que o gerara. Conhecia a 
de sordem vinda de baixo e sempre se referiu  ausncia dos 
pra-quedis
14 Antonio Carlos Scartezini, Segredos de Medci, p. 61.
15 Emilio Garrastaz Medici, O jogo da verdade, p. 11.
16 Discurso de Medici na reunio ministerial de 6 de janeiro 
de 1970. APGCS/HF.
17 Precis of Brazil Program Analysis, marcado secret do 
National Security Council, anexo ao
memorando encaminhado em 18 de maro de 1970 por Laurence E. 
Lynn Jr. a Henry Kissinger,
p. 7. DEEUA.
MILITO, MEDICE, MEDICI        131
tas no desfile de Sete de Setembro de 1969 como greve de 
militares
Conhecia tambm a que vinha de cima. Ele mesmo contou:
Quando me convidaram, eu apontei o dedo para cada um deles e 
fui per guntando: Muricy, voc aceita qualquer misso que eu 
lhe der? Lyra, voc aceita qualquer misso que eu lhe der? 
Fiz a pergunta com o dedo apon tado, a cada um. Todos 
concordaram. Ento aceitei. Ento o Lyra o Lyra  meio 
falante  perguntou: Medici, voc j pensou no vice?.
 J  respondi. [  o Rademaker. [
 Ah, no pode...  disse o Lyra.
 O problema  de vocs  respondi. {...]
 No pode porque ns fizemos um acordo para ningum aceitar 
nada  disse o Lyra.
Peguei o meu quepe, me despedi e sa:
 O problema  de vocs. Eu vou embora para mostrar a vocs 
co mo escolheram o homem errado. [ Na primeira misso que eu 
dei, vo cs recusaram. 19
Dias depois Rademaker ficou com a Vice-Presidncia. Em 
seguida o brigadeiro Mrcio de Souza e Mello aceitou 
continuar como ministro da Aeronutica, e, finalmente, o 
general Lyra Tavares recebeu a embai xada do Brasil em Paris. 
Medici teve exata compreenso daquela cena onde se contraps 
no papel de temperamental a uma cpula militar que reci tava 
o papel de desprendida: Se eu no fizesse aquilo, no 
nomearia nem o meu ajudante-de-ordens.
A Junta despediu-se outorgando uma nova Constituio, que se 
tor nou conhecida pelo nome de Emenda n 1. Produto de um 
poder usur pado, viveu at 1988, sob a maldio da origem 
militar.  verdade que ela resultou de um momento de 
radicalizao institucional da ditadura na qual
18 Antonio Carlos Scartezini, Segredos de Medici, p. 25.
19 Idem, p. 60.
20 Idem.
132 A DITADURA ESCANCARADA
os militares se atriburam a prerrogativa de desenhar (sem 
consegui-lo) o Colgio Eleitoral que escolheria o presidente 
da Repblica. Apesar dis so, a comparao entre o texto da 
Carta que Costa e Silva pretendeu assi nar em setembro e 
aquele que os trs ministros baixaram quarenta dias depois 
informa que foram seis as mudanas relevantes feitas ao 
projeto original da comisso coordenada por Pedro Aleixo, 
composta apenas por civis. Todas as mudanas foram para pior, 
avanando sobre as liberda des pblicas. Mesmo assim, 
comparados os conjuntos, a Emenda n 1, as sinada pela Junta, 
tornou-se um caso de atribuio exagerada de autoria.
O dispositivo que permitia a revogao total ou parcial do 
AI-5 por decreto foi mudado. Com a nova redao do artigo 182 
a providncia demandaria a audincia do Conselho de Segurana 
Nacional, composto por ministros e oficiais-generais 
demissveis ad nutum pelo presidente da Repblica. O 
Congresso acabou reaberto no final de outubro de 1969, para 
sacramentar a escolha de Medici, sem que ningum se lembrasse 
de reu nir formalmente o Conselho de Segurana.
 natureza ditatorial do regime, Medici acrescentou a 
blindagem da
mquina de comando da Presidncia. J na primeira reunio do 
minist
21 Caetano Ernesto Pereira de Arajo e Eliane Cruxn Barros 
de Almeida Maciel, A Comisso
de Alto Nvel: histria da Emenda Constitucional n 1, de 
1969 em A Constituio que no foi,
pp. 41-7. A comparao dos dois textos revela as seguintes 
diferenas relevantes:
1) O projeto dos juristas vedava publicaes contrrias  
moral e aos bons costumes. A Junta
ampliou o conceito: publicaes e exteriorizaes e 
restringiu genericamente o direito de asso ciao.
2) Permitiu a prorrogao por tempo indeterminado do estado 
de stio, que estava limitado a ses senta dias (artigo 156).
3) Transformou em prerrogativa exclusiva do presidente da 
Repblica a iniciativa de leis que con cedessem anistia 
relativa a crimes polticos (artigo 57, inciso v).
4) Restringiu fortemente as imunidades parlamentares (artigos 
32 e 119, inciso i).
5) Tornou mais rigoroso o mecanismo da fidelidade partidria. 
No projeto perderia o mandato
o parlamentar que reiteradamente se opusesse s decises 
dos partidos. A emenda suprimiu o
advrbio (artigo 152, pargrafo nico).
6) Estabeleceu a pena de morte e a priso perptua para casos 
de guerra psicolgica adversa, ou
revolucionria ou subversiva (artigo 153, pargrafo 11).
22 Ficou com a seguinte redao: Continuam em vigor o Ato 
Institucional n 5, de 13 de dezem bro e os demais Atos 
posteriormente baixados. Pargrafo nico: O Presidente da 
Repblica, ou vido o Conselho de Segurana Nacional, poder 
decretar a cessao da vigncia de qualquer des ses Atos ou 
de seus dispositivos que forem considerados desnecessrios
MILITO, MEDICE, MEDICI        133
rio informou aos seus colaboradores que o SNI funcionaria 
como super- visor ostensivo da administrao. Todas as 
nomeaes tinham de passar primeiro pelo seu crivo, e todas 
as denncias encaminhadas ao Planalto seriam antes remetidas 
ao Servio. S depois, j analisadas, chegariam ao 
conhecimento dos ministros. Nenhum ato administrativo podia 
ser leva do diretamente ao presidente. Tinha que passar 
primeiro pelo Gabinete Civil, a quem o general atribuiu 
tambm funes de arbitragem e coor denao de quaisquer 
assuntos que envolvessem mais de uma pasta. Nos
despachos com Medici os ministros deviam tratar apenas de 
questes de suas reas e estavam dispensados de apresentar-
lhe atos de rotina. Dava pouco tempo aos papis e economizava 
as prprias idias. Desprezava os parlamentares e os manteve 
longe do palcio. Guardava consigo poucos papis histricos, 
mas entre eles estavam dois telegramas recebidos por Costa e 
Silva. Um contra o AI-5, assinado por dezesseis senadores. 
Outro, a favor, assinado por 33. Seis senadores assinaram os 
dois.
Presidiu o pas em silncio, lendo discursos escritos pelos 
outros, sem confraternizaes sociais, implacvel com 
mexericos. Passou pela vida p blica com escrupulosa 
honorabilidade pessoal. Da Presidncia tirou o sa lrio de 
Cr$ 3439,98 lquidos por ms (equivalentes a 724 dlares) e 
nada mais. Adiou um aumento da carne para vender na baixa os 
bois de sua estncia e desviou o traado de uma estrada para 
que ela no lhe valori zasse as terras. Sua mulher decorou a 
granja oficial do Riacho Fundo com mveis usados recolhidos 
nos depsitos do funcionalismo de Braslia.
Antes e depois de Medici os presidentes brasileiros chegaram 
ao go verno com planos perfeitos e acabados para nortear suas 
administraes. Em todos os casos, moldaram-se s 
circunstncias e mudaram mtodos e rotinas. S ele, com suas 
normas to simples quanto o cotidiano de um
23 Discurso de Medici na reunio do ministrio de 6 de 
janeiro de 1970. APGCS/HF.
24 Para as duas listas de signatrios, Jayme Portelia de 
Meilo, A Revoluo e o governo Costa e Silva,
pp. 664 e 682.
25 Contracheque de Medici relativo ao ms de maro de 1970. 
APGCS/HF.
26 Antonio Delfim Netto, outubro de 1990. Ver tambm Antonio 
Carlos Scartezini, Segredos de
Medici,p.39.
27 Informao dada a Heitor Ferreira por Clvis Magalhes 
Teixeira, ajudante-de-ordens de Me dici, em 15 de dezembro de 
1973.
134        A DITADURA ESCANCARADA
esquadro de cavalaria, governou at o ltimo dia exatamente 
como
anunciou que faria na primeira semana.
No dia 21 de outubro de 1969, j eleito, Medici sentou-se  
mesa do almoo com Jayme Porteila. Ofereceu-lhe continuar ao 
lado de Costa e Silva, como seu secretrio. O general, que 
vivia o ocaso do seu vice-rei nado, recusou a sugesto 
humilhante e, entendendo o recado nela em butido, demitiu-se 
da chefia do Gabinete Militar. Horas antes, Medici es tivera 
reunido com o general Orlando Geisel. O comandante da 1 
Diviso de Infantaria exonerado no dia 2 de abril de 1964, 
quando Costa e Silva se imps como chefe militar da nova 
ordem, acabava de ser convidado para o Ministrio do 
Exrcito. Orlando merecera 44 referncias na aus cultao que 
elegera Medici, ficando em segundo lugar. Refletindo a di 
ferena de estilos de cada um, tivera 39 indicaes nos 
distritos sem tro pa e apenas cinco nos trs Exrcitos cuja 
voz foi preservada por Muricy. J Medici tivera 34 indicaes 
nessa mesma tropa.
Pela primeira vez um presidente militar escolhia para 
ministro um oficial da ativa de quem fora subordinado. Trs 
meses mais moo, Me dici batera continncia para Orlando 
durante 34 anos, at maro de 1967, quando saiu da subchefia 
do Estado-Maior e foi para o SNI. Orlando Gei sei tinha 64 
anos e as feies de uma coruja depauperada. Embora tives se 
1,86 m, era fisicamente irrelevante. Os ombros pequenos, 
atirados para trs, ressaltavam-lhe a barriga no corpo magro. 
Vaidoso, consumia o tempo nos palanques de desfiles alisando 
a tnica, corrigindo a posi o do punho da camisa e 
ajeitando o n da gravata. Alzira, sua mulher, fora Miss 
Cachoeira do Sul nos anos 30.29 A passagem de Orlando Gei sel 
pela E5AO e pela E5CEME dera-lhe o conceito de grande 
instrutor de ofi ciais. Tinha fama de inteligente e 
preguioso.  uma inteligncia privi legiada, dizia dele o 
presidente Castelio Branco. Orlando  malandro,
28 Uma folha manuscrita, com a tabela de resultados da 
auscultao dos generais. cM/cPDoc.
29 Para Alzira Geisel, Amlia Lucy Geisel, julho de 1991.
30 Dirio de Heitor Ferreira, 26 de janeiro de 1971, citando 
o coronel Gustavo Moraes Rego. APGCS/HF.
MILITO, MEDICE, MEDICI 135
no estuda acrescentava o marechal Cordeiro de Farias. Ainda 
na ju ventude, seu irmo Ernesto apelidara-o Baro.
Estivera ao lado do golpe na grande diviso militar de 
novembro de 1955, quando o ministro da Guerra, general 
Henrique Lott, deps dois presidentes, defenestrando Carlos 
Luz e impedindo o retorno de Caf Fi lho ao palcio do 
Catete. Nessa crise, combateu como auxiliar do coman dante da 
censura  imprensa. Na de 1961, como chefe-de-gabinete do 
ministro Odylio Denys, adquirira notoriedade nacional 
mandando ao co mandante do iii Exrcito uma ordem para 
bombardear o palcio Pirati ni, onde o governador Leonel 
Brizola dirigia as transmisses radiofni cas da Rede da 
Legalidade, que defendia a posse de Joo Goulart na 
Presidncia da Repblica. O bombardeio nunca foi alm do 
disparo te legrfico, e Jango promoveu-o a general-de-diviso 
no dia 25 de maro de 1964, depois de obrig-lo a amargar 
onze caronas. Trs meses antes, quando Muricy, seu colega de 
turma, contou-lhe que Mouro o convi dara para comandar a 
vanguarda das tropas com que pretendia descer de Juiz de Fora 
para depor Jango, Orlando advertiu-o: Voc  louco, Mu ricy. 
Amanh o Jango sabe que voc est conspirando Chegou ao le 
vante no incio da madrugada de 12 de abril. Como chefe do 
Estado- Maior do Exrcito, opusera-se  criao do GTE, 
brigara com Lyra Tavares e vira-se remetido para a pomposa 
desimportncia poltica do EMFA.
No dia 2 de abril de 1964, quando se recusou a trocar o 
comandan te do 12 Grupo de Obuses 105, Orlando Geisel pareceu 
acreditar que o le vante seria digerido como uma quartelada 
convencional. Pagou caro, mas aprendeu a lio. Em fevereiro 
de 1969 o Conselho de Segurana Nacio nal estava reunido num 
salo do palcio Rio Negro, em Petrpolis, cele brando uma 
sesso de sacrificios. Um coronel do Gabinete Militar lia em 
voz alta os nomes dos cidados que teriam seus direitos 
polticos suspen
31 Dirio de Heitor Ferreira, 25 de janeiro de 1972. 
APGCS/HF.
32 Maria Gelina dAraujo e Gelso Gastro (orgs.), Ernesto 
Geisel, p. 122.
33 Amir Labaki, 1961 A crise da renncia e a soluo 
parlamentarista, p. 91.
34 General Antonio Garlos Muricy, agosto de 1988.
35 Hernani dAguiar, A Revoluo por dentro, p. 149.
36 Para a oposio de Orlando Geisel  criao do dE, 
Histria do Estado-Maior do Exrcito, p. 171.
136 A DITADURA ESCANCARADA
sos ou seus mandatos cassados. Depois que esse meirinho fazia 
um su mrio das culpas da vtima, os ministros votavam, 
rpido e em aberto. Cada cassao tomava apenas alguns 
minutos, mas dada a teatralidade da si tuao, visto que 
ningum conseguia escapar ileso, a leitura do prontu rio 
acabava tornando-se enfadonha. Chegou a vez de Simo da 
Cunha, um deputado federal da direita moderada que comeara a 
fazer poltica na resistncia estudantil ao Estado Novo. O 
coronel ainda no tinha dito do que ele era acusado, ia 
terminando a leitura dos seus dados pessoais:
 Mineiro, bacharel...
 Basta  cortou Orlando Geisel.
O Conselho de Segurana caiu numa grande gargalhada.
Detestava jornalistas, falava pouco, mas expressava-se com 
uma cla reza chocante. Em 1966, ao assumir o comando do iii 
Exrcito, voltou-se para os reprteres que acompanhavam a 
cerimnia e informou: Tenho apenas duas declaraes a fazer: 
primeiro  fiz boa viagem; segundo  no me procurem nunca 
mais para fazer declaraes, pois no as fao. Se quiserem 
viver bem comigo, ter que ser assim
Ao presidir sua primeira reunio do Alto-Comando, tendo  
frente o cu de estrelas que nos ltimos meses havia 
defenestrado Pedro Alei xo, dispensado Costa e Silva e 
celebrado uma eleio presidencial, Orlan do demarcou as 
linhas de atuao dos granadeiros:
Queiramos ou no, estamos metidos na poltica. O general 
muitas vezes  obrigado a aparentar que no est metido em 
coisa alguma, que cuida ape nas da parte profissional, mas o 
general, evidentemente, tem que se meter na parte poltica; 
mete-se pelos bastidores. Em princpio, desejo que seja nos 
bastidores. O presidente j disse, euj disse, o general 
Muricy j disse:
a nossa gente precisa se dedicar  profisso. Capito, major, 
coronel e o pr prio general-de-brigada devem deixar de fazer 
poltica; poltica  s nos
37 Antonio Delfim Netto, maio de 1988. Nessa reunio, segundo 
Jayme Porteila de Meilo, A Re voluo e o governo Costa e 
Silva, p. 707, foram cassados trs senadores e dezoito 
deputados fe derais. O nico bacharel mineiro era o deputado 
Simo da Cunha.
38 Jornal da Tarde, 15 de outubro de 1969.
MILITO, MEDICE, MEDICI        137
altos escales. Comandante de Exrcito faz poltica; faz 
menos que eu, mi nistro, fao; e eu, menos que o presidente, 
mas faz poltica.  preciso dar a impresso de que ns no 
estamos cogitando da poltica.
Com o patrimnio de uma antiga amizade e diante da runa da 
uni dade militar, Medici e Orlando se juntaram para 
restabelecer a ordem nas Foras Armadas. Conseguiram 
enquadrar os quartis. A astcia desres peitosa de Costa e 
Silva e a abulia marota de Lyra Tavares foram substi tudas 
por uma indita relao de lealdade e confiana entre o 
presiden te e seu ministro do Exrcito. Tratavam-se pelo 
primeiro nome, mas respeitavam-se como estranhos. Nem sequer 
mexericos de divergncias entre os dois se conseguiu 
fabricar. Passaram cinco anos sem um s dia de prontido 
militar, uma s pgina de manifesto ou carta pblica de 
general. Diversos na origem, na formao e no desempenho 
profissional, Medici e Orlando Geisel tiveram a uni-los a 
paixo pela fora, a naturalidade no arbtrio e a confiana 
na ditadura como forma de governo. Ordenaram o regime de 1964 
em torno da anomalia institucional do AI-5.
39 Fala do ministro Orlando Geisel na 48 reunio do Alto-
Comando do Exrcito, em Aspectos
Histricos do Alto Comando do Exrcito, de 26 de julho de 
1979. APGCS/HF.
40 Para um caso em que Orlando Geisel chama Medici de Emilio 
na presena de terceiros, ver
Mano Gibson Barboza, Na diplomacia, o trao todo da vida, p. 
164.
II


PARTE II A derrota

Marighella, incio e fim
Enquanto o Brasil ainda chamava o presidente Medici de 
general Garrastaz, o regime parecia inerte diante de sua 
nmesis: ela era Carlos Marighella, o Menezes. Tinha-se a 
impresso de que ele estava em todos os lugares, na capa da 
revista Veja, nos cartazes amarelos espalhados pelo governo 
com os retratos dos terroristas mais procurados, nas pginas 
do Les Temps Modernes, a mais prestigiosa publicao da 
esquerda francesa. Fora ouvido nas ondas curtas da rdio 
Havana e nas mdias da rdio Nacional de So Paulo, tomada 
por um comando de doze homens da ALN que o ps no ar com 
protofonia do Hino nacional e da Internacional comunista. 
Era procurado em todo o pas. Em agosto uma rdio de Floria 
npolis dera-o por morto, vtima de um ataque cardaco, 
enquanto o co ronel Erasmo Dias, comandante do 6 Grupo de 
Artilharia de Costa Motorizado, em Santos, desafiava-o para 
um duelo numa luta de homem para homem, em campo aberto 
Atribuam-lhe quase todos os assaltos por dinheiro, armas ou 
munies e at mesmo o comando do seqestro de Elbrick, do 
qual nem sequer soubera o dia. Desde junho circulavam cpias 
mimeografadas do seu Manual do guerrilheiro urbano, em que 
avi
1 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 178. O episdio da 
tomada do transmissor da rdio Na cional de So Paulo, em 
Piraporinha, est em Antonio Caso, A esquerda armada no 
Brasil  1967/1971, p. 324.
2 Foi a rdio Dirio da Manh de Florianpolis, em 23 de 
agosto de 1969. Para o desafio, telegra ma da agncia France 
Presse, de 16 de agosto de 1969.
3 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 186.
142        A DITADURA ESCANCARADA
sava: A acusao de terrorista j no tem o sentido 
pejorativo que se lhe dava antes. O veterano agitador 
conseguira seu primeiro objetivo: fir mara-se a idia de que 
havia uma guerra revolucionria no Brasil e que Carlos 
Marighella era o seu comandante.
Por mais que a ALN estivesse ativa, com algumas dezenas de 
assaltos e exploses de bombas, nem ela nem Marighella eram 
do tamanho da fama que se lhes dava. A organizao tinha 
perto de trezentos militan tes. Salvo o assalto ao trem 
pagador da ferrovia SantosJundia, cuja au toria fora 
atribuda a delinqentes comuns, nenhuma ao espetacular do 
surto terrorista sara de sua iniciativa. No assassinato do 
capito Chan dler, fora caudatria dos sargentos e estudantes 
que mais tarde criariam a VPR. No seqestro de Elbrick, mesmo 
tendo fornecido o comando da operao, entrara a reboque da 
idia audaciosa e da logstica precria da Dissidncia 
Universitria. Tivera a chance de atacar o cofre de Adhemar 
de Barros, mas retrara-se.
O Manual, um opsculo de cinqenta pginas dividido em 
catorze captulos, era um trabalho voltado mais para a 
propaganda de um novo mito herico do que para a didtica 
sugerida no ttulo. Seu sucesso foi espetacular. Tornou-se o 
texto poltico brasileiro mais citado na literatu ra 
internacional da poca e deu a Marighella, nas dcadas 
seguintes, a qua lificao de idelogo, terico, patrono 
da guerrilha urbana e estra tegista do terror O Manual 
cumpriu uma singular trajetria no mundo da propaganda 
poltica. Circulou na esquerda pretendendo ser uma obra 
didtica que no era e, na direita, como se tivesse sido 
aquilo que no foi:
um tratado de terrorismo.
Era um documento triunfalista, desordenado. Sua 
grandiloqncia
escondia uma concepo primria de organizao. Propunha a 
formao
4 Carlos Marighella, Manual do guerrilheiro urbano e outros 
textos, p. 54.
5 Em maro de 1970 o cops paulista viria a atribuir-lhe trs 
assassinatos de policiais, trs bom bas e uma sucesso de 
assaltos que renderam meia tonelada de dinamite e 270 mil 
cruzeiros, equi valentes a 60 mil dlares. Relatrio do 
delegado Valter Fernandes, do DOPS, em Percival de Souza, 
Autpsia do medo, pp. 136-45.
6 Walter Laqueur, The age of terrorism, p. 185, e Carlos 
Alberto Brilhante Ustra, Rompendo o si lncio, p. 40. Paul 
Wilkinson, Terrorism and the Liberal State, pp. 62 e 112. 
Masud Ansari, Interna tional terrorsm, p. 105. Claire 
Sterling, The terror network, pp. 8 e 21.
MARIGI-IELLA, INCIO E FIM
143
de grupos de cinco pessoas, capazes de atuar como unidades 
autnomas, recebendo da direo s as grandes linhas 
polticas ou a coordenao para lances de maior envergadura. 
Na feliz definio de Jacob Gorender, era o 
anarcomiitarismo! O guerrilheiro urbano de Marighella  
algo mais que um super-homem. Ei-lo, em sua estaturia moral: 
Revolucionrio poltico e ardente patriota, ele luta para a 
libertao do seu pas,  um ami go do Povo, e da Liberdade. 
[ Deve ser um grande ttico e um bom ati rador. Deve possuir 
iniciativa, mobilidade e desembarao
Mais, nas caractersticas de seu vigor de combatente:
Ser capaz de longas marchas, suportar a fadiga, a fome, a 
chuva, o calor. Saber esconder-se e saber ser vigilante. 
Conhecer a fundo a arte de se dis farar. No ter nunca medo 
do perigo. Agir to bem de noite como de dia. [ 1 Tambm deve 
aprender a praticar as diferentes espcies de luta de ata que 
e de defesa pessoal. Outras formas de preparao fisica til 
so as ex curses a p, o campismo e os exerccios de 
perseguio na floresta, esca lar montanhas, o remo, a 
natao, mergulhar, o treino de homem-r, a pesca, a caa 
submarina, a caa s aves e aos animais grandes e pequenos.  
mui to importante aprender a conduzir um automvel, pilotar 
um avio, di rigir um barco a motor ou a vela, compreender a 
mecnica, o rdio, o te lefone, a eletricidade e possuir 
conhecimento de tcnicas eletrnicas.  igualmente muito 
importante ter conhecimento de topografia, saber orien tar-se 
por intermdio de meios prticos e de instrumentos, saber 
calcular segundo uma escala, cronometrar, trabalhar com um 
aparelho de medida
de ngulos e arcos, com uma bssola, etc. Conhecimentos de 
qumica e de combinao de cores, fabricao de carimbos, o 
perfeito conhecimento de caligrafia e de imitao das 
escritas e outras tcnicas, fazem parte da pre parao 
tcnica do guerrilheiro urbano, que  obrigado a falsificar 
do cumentos para viver numa sociedade que ele pretende 
destruir.
7 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 107.
8 Carlos Marighella, Manual do guerrilheiro urbano e outros 
textos, pp. 55-6.
9 Idem, pp. 57 e 61.
144
A DITADURA ESCANCARADA
A construo desse personagem radical, mistura de escoteiro e 
agen te secreto, era um adereo propagandstico, mas ainda 
assim Marighella cometeu no Manual erros e omisses 
incompreensveis num coman dante de operaes paramilitares. 
Ensinou que os helicpteros so in teis para perseguir a 
guerrilha, pois tm dificuldades em pousar na ma lha urbana, 
como se a sua misso fosse de captura e no de observao. 
Sugeriu que as perseguies policiais poderiam ser 
paralisadas com en garrafamentos, minas, sinais de trnsito 
trocados e metralhamento de pneus, quando cada uma dessas 
operaes exigiria uma mobilizao logstica prpria, s 
vezes mais complexa que a atividade-padro de seu grupo: o 
assalto. No h em todo o Manual uma s lio sobre escon 
derijos. Quando a apostila comeou a circular, a ALN j 
perdera dois co mandantes de seu Grupo Ttico Armado  a 
maior patente na hierar quia militar da organizao  por 
conta da temeridade e de aparelhos inseguros. 1
Na concepo de Marighella, o terrorismo urbano destinava-se 
an tes de tudo a produzir tenso poltica, levando a 
insegurana e a incer teza s classes dominantes, desgastando 
e desmoralizando as foras mi litares dos gori1as Na segunda 
metade de 1969, os militares estavam desgastados e, sob 
certos aspectos, desmoralizados, da mesma forma que os 
polticos, banqueiros e empresrios brasileiros viveram um de 
seus pi ores perodos de incerteza. Disso, porm, no 
resultaram beneficios para a guerrilha urbana. Pelo 
contrrio, fechadas em si prprias, numa blin dagem onde se 
auto-alimentavam exigncias de segurana e radicaliza es 
ideolgicas, as organizaes armadas isolavam-se.
O Partido Comunista, irredutvel na sua reao  guerrilha, 
contri bua para conter at mesmo os gestos de simpatia que 
velhas camarada gens poderiam estimular. A ALN fizera um 
aceno de cortesia ao Partido,
10 Marco Antnio Brs de Carvalho foi morto depois de ter 
cometido a imprudncia de ir procu rar em casa um militante 
que faltara a um ponto. Virglio Gomes da Silva, que o 
sucedeu, foi pre so quando estava escondido na casa de 
familiares de um militante que estivera em Cuba, cujo en 
dereo era conhecido por pelo menos outros dois membros da 
ALN. Quedograma, itens 3 e 11. 11 Carlos Marighella, O papel 
da ao revolucionria na organizao em Manual doguerrilhei 
ro urbano e Outros textos, p. 38.
MARIGHELLA, INCIO E FIM 145
incluindo no resgate de Elbrick o nome de Gregrio Bezerra, o 
mais famoso e sofrido dos seus presos polticos. Levou de 
volta uma nova con denao. Ao partir para o exlio, o 
prprio Gregrio informou: Discor do das aes isoladas que 
nada adiantaro ao desenvolvimento do pro cesso 
revolucionrio e somente serviro para agravar, ainda mais, a 
vida do povo brasileiro e de motivao para maiores crimes 
contra todos os patriotas S acredito na violncia da 
massa concluiu o septuagen rio militante comunista, cuja 
primeira cadeia remontava ao fracassado levante de 1935.12
Ao lado da guerrilha urbana, Marighella tentava plantar bases 
ru rais para sua organizao. Na pior das hipteses, 
serviriam tambm de refgio para quadros queimados, 
mantendo-os em atividade e econo mizando os custos das fugas 
para o exterior. Depois dos momentos f ceis de 1968 e das 
perdas dos primeiros meses de 69, a ALN ia para o tes te da 
adolescncia dos grupos armados. Mesmo sem comear uma 
guerrilha, caso conseguisse botar o p no campo, teria pelo 
menos am pliado sua base de manobra. Do contrrio, 
continuaria no cotidiano do gato-e-rato.
Envolto na mstica de combatente audacioso e invisvel, 
Carlos Ma righella transformara-se no prprio foco 
revolucionrio. Atraa a es querda europia, sempre 
disponvel para construir mais um mito revo lucionrio 
latino-americano. O cineasta Jean-Luc Godard chegou a 
destinar  ALN uma parte do dinheiro que ganhou com o filme 
Vento do leste. O pintor catalo Joan Mir vendeu alguns 
desenhos para custear a movimentao de um guerrilheiro que 
passava por Roma. Em mea dos de 1969, numa entrevista  
publicao francesa Action, Marighella anun ciou que a luta 
armada provocaria uma interveno americana no pas e 
ofereceu uma concluso retumbante: O Brasil ser um novo 
Vietn
12 Resistncia, 13 de setembro de 1969.
13 Marcelo Paiva, em Folha de S.Paulo de 5 de maio de 1996, 
mais!, pp. 5-6.
14 Denise Rollemberg, O apoio de Cuba  luta armada no 
Brasil, p. 46.
15 A entrevista de Marighella  Action foi transmitida pela 
rdio Havana no dia 29 de novembro
de 1969. Seu contedo indica que ela foi concedida em torno 
do ms de agosto, provavelmente
antes da isquemia de Costa e Silva e certamente antes do 
seqestro de Elbrick.
146
A DITADURA ESCANCARADA
Via pela frente o futuro que lhe convinha, quando tinha 
consigo um
agrupamento de passado precrio e presente arriscado.
Desde o assassinato do capito Chandier, em outubro de 1968, 
era elementar que, alm do aparelho policial brasileiro, os 
terroristas tinham no seu encalo a mquina de informaes 
americana. Por conta da mor te do capito, trs meses depois 
desembarcou em So Paulo o subchefe do programa de segurana 
pblica da Agency for International Develop ment para o 
Brasil. Chamava-se Peter Ellena, e sua misso era acompa nhar 
as investigaes policiais do caso de Chandler.
Na segunda metade de 1968, o consulado americano em So Paulo 
teve dois contatos que lhe permitiram estabelecer uma conexo 
entre Ma righella e os dominicanos. Cada contato resultou num 
telegrama. Seus textos so ainda desconhecidos. Sabe-se 
apenas que o primeiro  de 14 de agosto e se refere a uma 
conversa com.. . Na cpia liberada pelo De partamento de 
Estado, a identidade desse interlocutor est protegida por um 
trecho censurado que equivale a vinte batidas de telex. O 
segundo, de 30 de dezembro, trata de um contato com um frei 
Seguem-se de zoito ou dezenove batidas censuradas. Esse 
telegrama, o Memcom 68-12- 30, foi redigido por John Blacken, 
responsvel pela seo poltica do con sulado. Passados 21 
anos, ele recordou:
Em 1968, creio que depois do AI-5, o consulado recebeu a 
indicao de que Marighella passara trs ou quatro dias 
escondido pelos dominicanos no con vento de Perdizes. Afora 
essa informao, que foi considerada boa na oca sio, no 
lembro de termos recebido informaes de boa qualidade a res 
peito das ligaes de Marighella com os dominicanos. Em 
geral, porm,
16 Depoimento de Richard Helms, diretor da Central 
Intelligence Agency,  Subcomisso de As suntos Hemisfricos 
da Comisso de Relaes Exteriores do Senado dos Estados 
Unidos, 5 de maio de 1971, p. 7. Transcrio, parcialmente 
liberada pela Comisso em fevereiro de 1987.
17 Telegrama do consulado americano em So Paulo ao 
Departamento de Estado, de 6 de novem bro de 1969, onde se 
l:  (para maiores detalhes sobre as atitudes dos 
dominicanos, ver So Paulo Memcom 68-08-14 com (censurado) e 
Memcom de 68-12-30, com frei (censurado) DEECA.
MARIGHELLA, INCIO E FIM 147
falava-se de uma ligao entre eles. Tnhamos alguns contatos 
com gente da AP. Na poca em que se caava Marighela, um 
deles nos disse que ele es tivera escondido debaixo do nariz 
da polcia, no convento.
Debaixo do nariz da polcia estava o convento dos 
dominicanos da rua Caiubi, no bairro de Perdizes. Fazendo-se 
chamar Professor Menezes, Ma righella estivera em contato com 
alguns de seus frades desde meados de 1967.19 Um ano depois 
dera a cinco deles a tarefa de organizar um levantamento na 
regio da estrada BelmBraslia. Outro frade cuidava de 
conseguir casas onde o professor pudesse se hospedar e, em 
pelo menos um caso, chegou ao convento com uma mala de 
dinheiro tomado num assalto.
Os cem religiosos e seminaristas da Ordem dos Dominicanos 
espa lhados pelo Brasil tinham uma conhecida relao com os 
movimentos clan destinos. A CIA identificara neles uma base 
de apoio da AP, tanto com di nheiro como com locais para 
reunies clandestinas Por duas vezes a polcia invadira o 
convento de Belo Horizonte. Em So Paulo, o prior fora preso 
em agosto de 1967, no rastro de capturas por conta da 
realizao de um congresso da UNE num mosteiro de Vinhedo. 
Soltaram-no em quatro ho ras, depois que todos os seus 
frades, vestindo os hbitos brancos, desfilaram em frente ao 
DOPS e ao quartel da PM onde o haviam encarcerado. O jor nal 
O Estado de S. Paulo, porta-voz do integrismo catlico, pediu 
em edi torial que a Ordem dos Dominicanos fosse expulsa do 
pas. Na Sexta-Fei ra Santa de 1968 os frades de Perdizes 
encenaram um ato litrgico intitulado
18 John Blacken, janeiro de 1990. Apesar da referncia a um 
frei no Memcom 68-12-30, Blacken
sustentou nessa conversa com o autor que o militante da AP 
com quem o consulado conversara
era laico.
19 Frei Betto, Batismo de sangue, p. 57.
20 Atividade Delituosa dos Dominicanos na Ao Libertadora 
Nacional, denncia do Ministrio
Pblico da 2 Auditoria do Exrcito, em Mano Simas, Gritos de 
justia  Brasil 1963-1979, p. 90.
21 Para o caso da mala de dinheiro, narrativa de Frei Betto, 
em Lus Mir, A revoluo impossvel,
p. 289.
22 The Cat/solic Church in Brazil, Special Report da Central 
Intelligence Agency, de 13 de setem bro de 1968. DEEUA.
23 O Estado de S. Paulo, 3 de agosto de 1967, citado em 
Charles Antoine, Lglise et le pouvoir au Brsil, p. 106.
148 A DITADURA ESCANCARADA
A Paixo segundo Cristino em que Edson Luis de Lima Souto, 
o estu dante assassinado no Calabouo, era comparado a Jesus 
Cristo. O escritor Gustavo Coro, um convertido ultramontano 
para quem o mundo esta va tomado por uma onda de violncia 
que parece promovida e coman dada pelo Inimigo do gnero 
humano denunciara a imbecilidade para- litrgica e 
reclamara da falta de reao contra esse crime mais grave e 
mais odioso do que o tiro que, na confuso produzida pelos 
provocadores, atin giu um estudante Apesar de a idia de 
convento sugerir uma aura de in suspeio e silncio, 
Perdizes no era propriamente um lugar discreto.
Por baixo da militncia retumbante, os dominicanos amparavam 
clan destinos de todas as denominaes, tanto da ALN como da 
VPR e do MR 8. Nos primeiros dias de fevereiro de 1969, a 
priso de um quadro da VPR permitiu  polcia descobrir que 
um de seus militantes, ferido pelas tor turas do DOPS, fora 
escondido e medicado no convento. Por volta des sa poca dois 
misteriosos vendedores de produtos farmacuticos bateram num 
prdio da Boca do Luxo, zona decadente do centro de So Paulo 
onde se misturavam pequenos apartamentos e grandes bordis. 
Procuravam Carlos Alberto Libnio Christo, chefe de 
reportagem na Folha da Tarde, o novio Betto no convento de 
Perdizes e o Vitor na ALN. Era a polcia, e ele passou para a 
clandestinidade, onde se tornou tambm Ronaldo Mattos e Olavo 
Borges. A meada dominicana j tivera pelo menos trs fios pu 
xados: o consulado americano sabia que Marighella freqentava 
o con vento, a polcia sabia que um de seus seguidores havia 
sido abrigado pe los frades, e um novio desaparecera.
Entre janeiro e maro de 1969 a ALN levara sobras da ofensiva 
con tra a VPR. Em abril, depois de um assalto a um carro 
pagador, a organi zao sofreu um novo golpe, e dezoito 
pessoas foram presas. Por pouco no capturaram o prprio 
Marighella, em maio, quando um dirigente do grupo foi 
apanhado enquanto o esperava num ponto. Salvou-o um
24 Gustavo Coro, O Globo, 25 de abril de 1968.
25 Quedograma, item 3, e nota oficial do secretrio de 
Segurana de So Paulo, de 10 de dezem bro de 1969, em Frei 
Betto, Batismo de sangue, pp. 19 1-2.
26 Frei Betto, Batismo de sangue, pp. 66,75 e 137. Ver tambm 
entrevista a Playboy de junho de 1992.
27 Quedograma, item 4.
MARIGFIELLA, INCIO E FIM        149
pequeno atraso. Circulava por So Paulo com uma peruca mal 
aparada que lhe dava uma curiosa aparncia de ndio. Era um 
disfarce que cha mava ateno. Numa noite do inverno de 1969, 
Salomo Malina, o diri gente do PCB responsvel pelos 
servios mais secretos da organizao, ca minhava pelo jardim 
do Trianon para cobrir um ponto, quando reconheceu Digenes 
Arruda, o segundo homem do ic do B. Ao lado de Arruda ia um 
estranho personagem que, ao cruzar com o velho amigo, piscou 
o olho. Malina reconheceu Marighella mais pela piscadela do 
que pela estampa. Desde esse encontro, por muitos anos, 
recusou-se a mar car pontos na rea do Jardim Paulista, 
pois por l encontrara comunis tas de mais e escurido de 
menos.
Quando a Dissidncia Universitria do Rio mandou  ALN a 
propos ta de parceria no seqestro de Elbrick, Marighella 
dedicava-se  monta gem de cinco colunas guerrilheiras e 
esperava unir-se a uma delas antes do fim do ano. Pelo seu 
projeto, partiriam do Paran, So Paulo, Mato Grosso e Bahia, 
destruindo cartrios, saqueando latifEindios e distribuin do 
comida aos pobres, at juntarem-se no sul do Par, onde 
procurariam assentar-se num pedao da mata amaznica. Mesmo 
que no conse guisse as cinco, bastaria pr de p uma ou duas 
para que a ALN chegasse  adolescncia. Faltavam apenas 
alguns assaltos.
No incio de outubro, menos de um ms depois do seqestro de 
El brick, estava quebrada a estrutura com que a ALN 
sobrevivera desde 1968. Num novo arrasto, as prises foram 
perto de trinta e devastaram sobre tudo a cpula e o brao 
armado da organizao, lonas, o chefe da ope rao de 
seqestro do embaixador, estava morto. Os dois subcomandan 
tes do seu GTA, presos, junto com os demais marighelistas que 
capturaram Elbrick. A trs militantes mortos pela polcia, 
somavam-se outros dois, carbonizados numa avenida de So 
Paulo quando explodiu a carga de di namite que transportavam 
em seu automvel.
28 Salomo Malina, 1989.
29 Entrevista de Clara Charf, em Rememria  Entrevistas 
sobre o Brasil do sculo XX, p. 147. Charf
informou que Marighella pretendia viajar para o Norte no dia 
9 de novembro.
30 Jacob Gorender, Combate nas trevas, pp. 169-70.
150        A DITADURA ESCANCARADA
Marighella entendera que ns no vamos agentar a represso 
que vem pela frente Semanas depois, quando a situao 
piorara, apareceu armado com o otimismo dos agitadores 
experimentados, dizendo ao jornalista belga Conrad Detrez que 
a ALN praticamente no foi tocada Numa longa entrevista, 
apresentava a futura frente rural como um salto qualitativo 
da guerra revolucionria. No dia seguinte os contatos clan 
destinos de Detrez em So Paulo aconselharam-no a deixar o 
pas to lo go lhe fosse possvel.
A ALN pareceria forte em Paris, para onde seguiu Detrez, mas 
outro personagem, sentado a uma mesa do refeitrio 
comunitrio do semin rio jesuta Cristo Rei, na cidade 
gacha de So Leopoldo, mostrava-se pre ocupado. Era o 
Professor Cavalcanti. Vestia um clergyman cinza-escuro e 
tinha uma pequena cruz na lapela. Cabelos grisalhos cortados 
rentes, ex presso alegre e gestos suaves. Ele disse a frei 
Betto: A represso apren deu a lidar com a guerrilha urbana 
Aquele professor no correspon dia s descries que se 
faziam do Velho, ou Joaquim Cmara Ferreira, regente do 
seqestro de Elbrick. Estava a caminho do Uruguai, de onde 
seguiria para a Europa. Betto vivia semi-recluso no 
seminrio, operan do a pedido de Marighella uma rede de 
proteo a militantes clandesti nos e fugitivos do regime. O 
professor explicou-lhe que a ofensiva do governo exigia uma 
rpida transferncia de quadros para o campo, onde se poderia 
trabalhar com mais calma.
O convento paulista continuava pipocando nos interrogatrios. 
Um preso contou que recebera a tarefa de procurar um frade de 
nome Fernan do na livraria Duas Cidades, no centro de So 
Paulo. Outro, membro da direo regional da ALN e do seu GTA, 
teve capturado um talo de cheques onde anotara o telefone de 
Perdizes. Pior: a Oban e o DOPS tinham em
31 Emiliano Jos, Carlos Marighella, p. 61.
32 Carlos Marighella, Pour la libration du Brsil, p. 75.
33 Segundo Frei Betto em seu O Paraso perdido, p. 78, Detrez 
entrevistou Marighella na ltima
semana de outubro.
34 Frei Betto, Batismo de sangue, pp. 75-6.
35 Para o preso, Quedograma, item 7. Para o caso do talo de 
cheques, Jacob Gorender, Combate
nas trevas, pp. 198-9. Ver tambm a nota da Secretaria de 
Segurana de So Paulo, de 10 de de zembro de 1969, em Frei 
Betto, Batismo de sangue, pp. 19 1-2.
MARIGHELLA, INCIO E FIM 151
suas celas trs testemunhas da ligao entre a ALN e os 
dominicanos: o mi litante do setor logstico da VPR, medicado 
no convento; o ex-prisioneiro que levara o recado a frei 
Fernando, e o membro do GTA, que conhecia as relaes 
orgnicas com o grupo. No final de uma das muitas sesses de 
tortura a que um deles foi submetido, na ltima semana de 
outubro, Fleury sabia da conexo direta dos dominicanos com 
Marighella.  pos svel que isso tenha acontecido nas 
primeiras horas do dia 29 de outubro.
Na noite de 1 de novembro dois frades  Ivo e Fernando  toma 
ram um nibus para o Rio, onde tratariam do esquema de apoio 
para a chegada dos militantes que haviam sado de Cuba e cujo 
destino era o foco do Par. Ivo acabava de voltar de Porto 
Alegre, para onde transpor tara Cmara Ferreira. Na manh 
seguinte, estavam no Catete quando fo ram agarrados, metidos 
numa camionete e levados para o quinto andar do edificio do 
Ministrio da Marinha, onde o Cenimar tinha a sua cen tral de 
torturas. L, eram esperados pelo delegado Fleury. Ele os 
separou.
De cuecas, frei Fernando foi pendurado no pau-de-arara. 
Deram- lhe choques nas mos e nos ps, molharam-lhe o corpo 
para aumentar a intensidade das descargas. Deslocaram-lhe o 
maxilar. Enfiaram-lhe um fio na uretra.  noite, quando ele 
perdeu a conscincia, Fleury sabia co mo Marighella marcava 
seus encontros com os frades. Telefonava para a livraria Duas 
Cidades, identificava-se como Ernesto e anunciava que vi 
sitaria a grfica. Isso significava que eles se encontrariam 
s vinte horas daquela mesma noite, na altura do nmero 800 
da alameda Casa Bran ca, no Jardim Paulista.
Nu, frei Ivo foi pendurado no pau-de-arara. Deram-lhe choques 
no corpo e na uretra. Lanharam-no com um cano de borracha, 
socos e chu tes.  noite, quando o mandaram tomar banho, 
Fleury sabia que o lti mo encontro fora duas semanas antes. 
Depois de confrontar os dois de-
36 Para a tortura de frei Fernando, Frei Betto, Batismo de 
sangue, pp. 171-2.
37 Frei Betto, Batismo de sangue, pp. 143 e segs.
38 Idem.
152 A DITADURA ESCANCARADA
poimentos, Fleury sabia tambm que Marighella deveria 
telefonar na tera-feira seguinte, dia 4 de novembro.
Os frades foram levados para outra sala, onde os obrigaram a 
recitar uma confisso para uma cmera de tv. O servio estava 
completo. Na ma nh seguinte Fleury levou os dois dominicanos 
para o DOPS de So Pau lo. s trs da madrugada de 4 de 
novembro, invadiu espalhafatosamente o convento de Perdizes e 
prendeu mais cinco religiosos. Congestionaram- se as salas de 
tortura da delegacia.
Marighella estava em So Paulo. Entre o incio da tarde e a 
hora em que tomou o rumo da alameda Casa Branca, soube por 
duas fontes di ferentes que alguns padres tinham sido presos. 
Uma informao vinha de Porto Alegre e sinalizava prises no 
Rio e talvez em So Paulo A ou tra vinha de So Paulo e 
mencionava a priso de dominicanos no Rio. Ele foi em frente. 
Afinal de contas, s 16h30 um emissrio seu telefona ra para 
a livraria Duas Cidades e dera o recado: Aqui  o Ernesto 
(ou da parte do Ernesto). Esteja hoje na grfica
s vinte horas, conforme o combinado, Marighella caminhava 
pela alameda Casa Branca. Carregava uma pequena pasta preta. 
Fora antece dido por um olheiro que nada notara de anormal. 
Um Volkswagen azul, com os freis Ivo e Fernando a bordo, 
estava estacionado em frente ao n mero 806. No quarteiro da 
alameda Casa Branca que vai da Lorena  rua Tatu havia 29 
policiais e um co, distribudos em sete automveis.
O delegado Fleury saiu da noite, atirando. Comeou uma 
fuzilaria, estimulada pela certeza dos outros policiais de 
que a guarda do chefe ter rorista estava respondendo ao fogo.
Marighella levou cinco tiros. Um, disparado  queima-roupa, 
seccio nou-lhe a aorta. Sua peruca ficou no cho. Na pasta, 
que no chegou a
39 Jacob Gorender, Combate nas trevas, pp. 192-4.
40 Folha de S.Paulo, 20 de maio de 1996, Caderno Brasil, p. 
7, reportagem de Cristina Grilio, com
base no relatrio do delegado Ivair Freitas Garcia, do nops, 
de novembro de 1969.
41 Para os ferimentos, Laudo Mdico-Legal n 36229, de 11 de 
novembro de 1969, assinado pelos
mdicos Harry Shibata e Abeylard de Queiroz Orsini. Para a 
distncia do tiro fatal, Concluso Fi nal do Parecer Mdico-
Legal do legista Nelson Massini, de 8 de maio de 1996, 
encaminhado  Co misso Especial da Cmara dos Deputados que 
estudou os casos dos desaparecidos polticos.
MARIGHELLA, INCIO E FIM
153
abrir, havia um revlver Taurus calibre 32 com cinco balas e 
duas cpsu las de cianeto de potssio. Quando acabaram os 
disparos, a polcia ma tara tambm um dentista alemo que 
passava num Buick, ferira mortal mente uma investigadora que 
fingia namorar num carro prximo e baleara um delegado.
Menos de uma hora depois, as emissoras que transmitiam o jogo 
Corinthians x Santos deram a notcia. No intervalo, o servio 
de alto- falantes do estdio do Pacaembu pediu a ateno das 
torcidas e infor mou: Foi morto pela polcia o lder 
terrorista Carlos Marighe1la Num aparelho de Vila Formosa, 
Carlos Lamarca chorava diante da te leviso. Como na cena 
final de Deus e o diabo na terra do sol, morria Corisco, e 
surgia Antonio das Mortes, matador de cangaceiros  figu ra 
mtica do chefe guerrilheiro, morto numa trama banal, 
impunha-se a fora de Fleury, seu assassino. A esquerda 
perdera o patrono da luta armada, elo entre o pensamento 
radical do PCB e a iluso armada do final dos anos 60. A 
ditadura ganhara no delegado um smbolo para a represso.
Como o suicdio de Getulio Vargas em 1954 e a agonia de 
Tancredo Neves em 85, o assassinato de Marighella est entre 
as mortes espetacu lares da histria brasileira. Por mais que 
sejam estudadas,  comum apa recer um novo detalhe sugerindo 
a hiptese de que as coisas se passaram de outra maneira. 
Isso deriva de uma saudvel curiosidade, mas tambm de 
emoes que remexem os acontecimentos na esperana de alterar 
aquilo que parece ser pouco mais que uma seqncia de fatos 
insuficien tes para conter o episdio histrico.
A principal pea revisionista da narrativa oficial da morte 
de Ma righella  de autoria de frei Betto, o Vitor. Em 1982 
ele publicou o seu
Batismo de sangue. Sua tese central  a de que na ALN se 
infiltrara ai-
42 Jacob Gorender, Combate nas trevas, pp. 190 e segs.
43 Frei Betto, Batismo de sangue, p. 4.
44 Judith Lieblich Patarra, lara, p. 344.
154        A DITADURA ESCANCARADA
gum que, em conluio com a polcia, produziu a arapuca da 
alameda Casa Branca de forma a incriminar os dominicanos. Sua 
suposio am parou-se na revelao feita em 1974 por Victor 
Marchetti e John Marks, ex-funcionrios da Central 
Inteiligence Agency e do Departamento de Estado. Eles 
informaram, no livro A CiA e o culto da inteligncia, que no 
incio de outubro de 1969 a espionagem americana soube que um 
grupo de radicais brasileiros pretendia seqestrar um 
avio, levando o para Cuba. Ao contrrio do que determinava a 
poltica do governo dos Estados Unidos, a agncia no tentou 
impedir a ao. Depois da mor te de Marighella a CIA 
justificou a sua conduta, comunicando ao De partamento de 
Estado que ficara de fora para proteger sua infiltrao e o 
cerco  ALN. A CIA estava certa na previso. Os seqestros 
foram dois. No dia 8 de outubro o MR-8 capturou um Caraveile 
da Cruzeiro do Sul, e no dia 4 de novembro, quando Marighella 
estava a caminho da armadilha, a ALN seqestrou um avio da 
Varig que partira do Rio com destino a Santiago.
Colocada no campo das conjecturas, a verso apresentada por 
frei Betto ganha densidade quando se juntam informaes que o 
tempo tor nou pblicas. Desde 1964, um acordo oral entre a 
CIA e o SNI estabelecia que o servio americano passaria ao 
seu similar nacional inforrna, disponveis a respeito de 
atividades subversivas no Brasil A colabor o entre os 
dois servios est documentada na vigilncia, pela CIA, a exi 
lados brasileiros e nos seus freqentes contatos com Golbery. 
Funcion rios do governo americano deram ao DOPS paulista os 
nomes e as fotografias de quadros do PC do B que faziam 
cursos de capacitao militar na Chi na. Peter Eliena, o 
funcionrio americano enviado a So Paulo em no vembro de 
1968 para acompanhar as investigaes do assassinato do ca 
pito Chandier, estivera numa turma de policiais americanos 
que nos
45 Frei Betto, Batismo de sangue, pp. 206-7, transcreve o 
trecho de Marchetti e Marks.
46 Jornal da Tarde, 13 de dezembro de 1969.
47 Uma folha sem data nem assinatura, carimbada secret, de 
1964, intitulada Suggestions for Oral
Agreernent. Liaison Relationship between the Brazilian 
National Intelligence Service and theAmeri can Inteiligence 
Service. APGCSIHF.
48 Depoimento de Renato dAndrea a Percival de Souza, em 
Souza, Autpsia do medo, p. 384.
MARIGHELLA, INCIO E FIM        155
primeiros tempos do regime ensinara tcnicas de combate  
subverso
aos calouros do DOPS paulista.
Alm disso, no dia 6 de novembro, Robert Corrigan, o refinado 
cn sul americano em So Paulo que no final dos anos 30 
vivera no Rio de Janeiro as delcias da gr-finagem do Estado 
Novo, telegrafou a Wash ington:
Embora algumas pessoas possam se mostrar chocadas e 
incrdulas ante o fato de que padres estivessem envolvidos em 
atividades terroristas, essa des coberta no foi surpresa 
para observadores polticos de So Paulo. O con sulado geral 
tinha recebido numerosas informaes de que esse fenme no 
estava ocorrendo (ver Memcom Igreja e Estado de 12 de maio, 
e A- 154, de 9 de julho de 1969). A explicao bsica do 
envolvimento dos pa dres  a convico, proclamada em 
declaraes de militares, de que existe um estado de guerra 
e, portanto, a violncia  necessria. Embora essa jus 
tificativa seja simplista e infeliz, ela parece suficiente 
para aqueles que acre ditam estar vivendo sob uma ditadura 
brutal
Prisioneiro do DOPS no dia 4 de novembro de 1969, o 
historiador Ja cob Gorender escreveu oito pginas sobre o 
episdio em seu livro Combate nas trevas. Elas formam o 
captulo Assim mataram Marighella, basea do em dezesseis 
entrevistas com militantes da ALN encarcerados a partir da 
ofensiva de setembro. Gorender demonstra que Fleury chegou a 
Ma righela naquele dia e naquele lugar ao cabo da diligncia 
que comeou com a priso dos frades, no Rio.
Na tica do regime, provocando conseqncias que haveriam de
influenci-lo nos anos seguintes, a tortura dos dois frades 
foi um triun fo da sua funcionalidade, mas debaixo do triunfo 
de Fleury estava a de-
49 Depoimento do delegado Paulo Bonchristiano a Percival de 
Souza, em Souza, Autpsia do me do, p. 40L Nesse depoimento 
Bonchristiano refere-se a Richard Helena. Posteriormente, 
corrigiu o equvoco. Paulo Bonchristiano, dezembro de 2000.
50 Telegrama do consulado geral dos Estados Unidos em So 
Paulo ao Departamento de Estado, de 6 de novembro de 1969. 
DEEUA.
156 A DITADURA ESCANCARADA
monstrao do primitivismo de seus mtodos. A atividade dos 
frades era quase temerria. Dois deles haviam sido presos e 
fichados na captura do Congresso da UNE, em Ibina. 
Levantavam rotas para a guerrilha, remetiam documentos ao 
exterior, cobriam fugas, providenciavam re fgios e chegavam 
a abrigar foragidos na casa da rua Caiubi. Em mea dos de 
outubro frei Ivo encontrara-se com Marighella em So Paulo, 
transportara Cmara Ferreira a So Leopoldo e voltara ao 
convento a tempo de cobrir o ponto marcado do dia 4. Frei 
Fernando dava plan to na livraria Duas Cidades e dela saa 
para seus contatos com Ernes to. Os arranjos eram simplrios. 
A senha, sempre a mesma, falava nu ma grfica. Fixava o 
encontro para o mesmo dia, no mesmo lugar, numa regio que 
anos antes, quando o veterano capa-preta ainda fazia parte do 
PCB, era conhecida como o escritrio do Marighella O dis 
positivo de segurana da relao da ALN com os dominicanos 
estava abai xo da qualificao mdia do aparelho policial 
paulista. Qualquer fora gido que se movesse em semelhantes 
condies teria fortes chances de ser capturado.
As organizaes de esquerda e a mquina repressiva do governo 
ti nham um interesse comum: assegurar a continuidade da 
ameaa terr rista negando que a morte de Marighella fosse 
resultado do abalo da es trutura da ALN. Seno, uns ficariam 
sem revoluo e os outros, ser ocupao. O debate obsessivo 
sobre as circunstncias que cercaram o fim de Menezes desviou 
a ateno do fenmeno mais amplo  o impacto que atingiu 
primeiro o marighelismo e a seguir se espalhou pelas outras 
si glas. Antes do ponto da alameda Casa Branca a ALN 
perdera algo em tor no de trinta quadros. Um ms depois, 
outros tantos. De cada dez de seus militantes dois haviam 
sido capturados. De seus combatentes vindos de Cuba um 
morrera, quatro estavam presos, e um deles trabalhava osten 
sivamente para a polcia. Faltavam-lhe aparelhos, meios de 
transporte e dinheiro.
51 Frei Betto, Batismo de sangue, p. 63.
52 Armnio Guedes, outubro de 1991.
53 Estava morto Virglio Gomes da Silva. Estavam presos Aton 
Fon Filho, Otvio ngelo e Jos
Nonato Mendes. Trabalhava para a polcia Hans Rudolf Manz. 
Restava Adilson Ferreira da Silva.
MARIGHELLA, INCIO E FIM        157
s seis horas da tarde de 6 de dezembro de 1969, Marighella 
voltou
a ser ouvido no Brasil:
A primeira fase da guerra revolucionria, que est quase 
concluda, no deve significar o fim ou o amortecimento do 
ritmo da guerra psicolgica. [ Quando a insurreio no campo 
chegar ao apogeu, partiremos para a gerra de guerrilhas. A 
partir dela formaremos o Exrcito Revolucionrio de 
Libertao Nacional. O ncleo fundamental desse exrcito ser 
a alian a armada dos camponeses, trabalhadores e estudantes. 
O ltimo perodo da guerra de guerrilhas ser a fase de 
manobras operacionais; a ditadura militar ser derrubada; os 
americanos sero expulsos do pas; ser instala do um governo 
popular e revolucionrio; a mquina burocrtico-militar do 
Estado brasileiro ser destruda.
Pelas ondas curtas da rdio Havana, Carlos Marighella, o 
mestre da
propaganda, continuava seu combate.
54 Rdio Havana, transmisso de 6 de dezembro de 1969.
A histria dos mortos
A tortura quebrou o terror. A destruio das organizaes 
armadas co meou em julho de 1969, a partir da centralizao 
das atividades de po lcia poltica dentro do Exrcito. 
Enquanto em So Paulo o general Ay rosa polia as engrenagens 
da Operao Bandeirante, no Rio de Janeiro o general Joo 
Dutra de Castilho reestruturava a mquina de informaes da 
Vila Militar. Formou combinados que trabalhavam sob a 
coordena o do GTE. Suas equipes tinham tropas das mais 
diversas unidades, da Po lcia do Exrcito ao Batalho Escola 
de Engenharia. No dia 16 de outu bro de 1969, uma semana 
depois da aula de tortura na 1 Companhia da PE, ele 
anunciava: Passamos  ofensiva
No final de junho de 1970 estavam desestruturadas todas as 
organi zaes que algum dia chegaram a ter mais de cem 
militantes. A unifica o de esforos colaborou para o 
trabalho da tigrada mas foi o poro que lhe garantiu o 
sucesso. Entre 1964 e 1968 foram 308 as denncias de torturas 
apresentadas por presos polticos s cortes militares. 
Durante o ano de 1969 elas somaram 1027 e em 70, 1206.2 De 
1964 a 1968 instaura ram-se sessenta IPMS contra organizaes 
de esquerda; s em 69 abriram-
1 Boletim da J5 Diviso de Infantaria, 16 de outubro de 1969, 
Processo n 4896, STM, vol. 3, p. 1383. Nas operaes de 
outubro de 1969 entraram equipes das sees de operaes da 1 
Gompanhia da PE, Batalho Escola de Engenharia, Regimento 
Escola de Gavalaria, 1 e 2 Regimentos de In fantaria, 1 
Regimento de Obuses 105 e do Esquadro Tenente Amaro.
2 Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 1: A tortura, p. 
114.
160 A DITADURA ESCANCARADA
se 83 novos inquritos. O da ALN formou doze volumes, com 3 
mil p ginas e 143 indiciados. Em apenas cinco meses, de 
setembro de 1969 a janeiro de 70, foram estourados 66 
aparelhos, encarceradas 320 pessoas e apreendidas mais de 
trezentas armas.
Num discurso feito na Escola Superior de Guerra, Medici 
festejava:
Estamos vencendo o terrorismo da minoria enganada pela 
falcia de sis temas de vida incompatveis com a ndole de 
nossa gente Falando  ofi cialidade da Vila Militar, foi 
mais didtico e reiterou seu compromisso de aprimorar a 
prtica dos princpios democrticos consagrados na cons 
tituio brasileira, sobretudo os referentes  dignidade da 
pessoa huma na  no bom sentido do humano  aos direitos, 
deveres e liberdade do homem brasileiro; mas no do 
pseudobrasileiro, isto , daquele que es t a servio de 
outra ptriaY Haver represso, sim. E dura, e implac vel 
arrematou em maro de 1970.8 No podia ser mais claro.
No comando do ii Exrcito, o general Canavarro Pereira 
garantia:
No esmoreceremos na nossa luta contra a subverso e a 
corrupo no pas A verdade  que, no combate  corrupo, 
as coisas no iam to bem. O general Oscar Luiz da Silva, 
presidente da Comisso Geral de In vestigaes (organismo 
sobre o qual tambm pairara a esperana da efi ccia pela 
centralizao), admitia que em cinco anos ela s conclura 
seis dos 1500 processos que abrira. Justificava a produo 
minguada: A mo rosidade se deve ao cuidado com que so 
feitas as investigaes. O sigi lo, cuidado que temos para 
no comprometer antes do tempo, e s vezes indevidamente, a 
pessoa fsica ou jurdica processada. Quando iniciamos uma 
investigao, j o fazemos com quase total segurana de que 
esta mos numa pista real de enriquecimento ilcito. Mas 
podemos nos enga nar No podia ser mais claro.
3 Brasil: nunca mais, pp. 114-6.
4 Jornal da Tarde, i de maro de 1970.
5 Veja, 4 de fevereiro de 1970, p. 25.
6 Emilio Garrastaz Medici, Nova conscincia de Brasil, pp. 
80-1. Discurso de 10 de maro de 1970.
7 Idem, p. 29.
8 Idem, p. 91. Mensagem pelo 6 aniversrio da Revoluo.
9 Telegrama da agncia France Presse, de 26 de agosto de 
1970.
10 Veja, 4 de fevereiro de 1970.
A HISTRIA DOS MORTOS        161
Em maio de 1970, a Central Intelligence Agency registrou que 
dois dos quatro membros do comando nacional da VPR foram 
capturados, e outro matou-se. S o capito renegado Carlos 
Lamarca, lder do grupo, continua foragido A organizao 
perdera trs dos cinco dirigentes que a controlavam no ano 
anterior. Herbert Eustquio de Carvalho, o Daniel, um dos 
poucos chefes a escapar, registraria: Os mais experimen 
tados quadros urbanos foram presos ou mortos. E...] O 
desastre. Do que sobrara no Rio: uma dezena de militantes 
E...] Estavam todos perdi dos entre si, descontatados, 
clandestinos e sem dinheiro. Matando cachor ro a grito, 
acrescentou Alfredo Sirkis, o Felipe, Gabriel ou Vitor. Tal 
vez no chegassem a trinta, O temido grupo de ao, 
responsvel pelos principais atentados de todo o surto, 
dissolvera-se, quase todo preso. Um de seus integrantes, sem 
contato com a organizao, dormia na rua e vi via a mdias e 
po com manteiga. Na ALN a situao era ligeiramente melhor. 
Numa contagem feita durante uma reunio na Pedra de Guara 
tiba, a malha da organizao no Rio de Janeiro reduzira-se a 
catorze pes soas. Somando-se a ela a militncia paulista,  
provvel que tivesse pou co mais de cinqenta. Um de seus 
militantes recordaria:  partir de maio de 1970 ficou-nos 
cada vez mais difcil sobreviver. Os poucos tambore tes que 
fazamos rendiam um milho, um milho e meio [ mal davam para 
o sustento
Pode-se ter uma viso do que aconteceu ao terrorismo 
brasileiro nos 23 meses que vo de agosto de 1968 ao fim do 
primeiro semestre de 70 buscando-se o paradeiro dos 
militantes envolvidos nas cinco principais aes terroristas 
do perodo, a saber:
11 Weekly Summary, Central Inteiligence Agency, 8 de maio de 
1970. DEEUA.
12 Antonio Roberto Espinosa, Mrio lapa e Fernando Mesquita 
Sampaio. Sobraram Lamarca e
Cludio de Souza Ribeiro.
13 Herbert Daniel, Passagem para o prximo sonho, pp. 53 e 
55.
14 Alfredo Sirkis, Os carbonrios, pp. 198-9.
15 Entrevista de Massafumi Yoshinaga a Veja de 15 de julho de 
1970, p. 18.
16 Reinaldo Guarany, A fuga, p. 10. Athos Magno Pereira, em 
sua entrevista a Lus Mir, A revolu o impossvel, p. 537, 
estima que fossem menos de trinta.
17 Essa estimativa baseia-se no fato de que entre o incio do 
segundo semestre de 1970 e maio de
75 foram assassinados 37 quadros da organizao.
18 Reinaldo Guarany, A fuga, p. 28.
162        A DITADURA ESCANCARADA
1. o assalto ao trem pagador da ferrovia SantosJundia (10 
de agosto de 1968), pela ALN;
2. o ataque ao QG do ii Exrcito (26 de junho de 1968), pela 
vr
3. o assassinato do capito Chandier (12 de outubro de 1968), 
pela v
4.o roubo do cofre de Adhemar de Barros (11 de maio de 1969), 
pela VAR-Palmares, derivada da VPR e do Colina, e
5. o seqestro de Elbrick (4 de setembro de 1969), pelo 
condomnio da Dissidncia Universitria com a ALN.
Essas cinco aes foram organizadas por quatro grupos, e 
delas par ticiparam 46 militantes. Um levantamento do destino 
de 44 deles mos tra que no final de junho de 1970, menos de 
um ano depois do seqes tro de Elbrick, seis estavam mortos, 
21 presos e dez haviam deixado o pas. Dos sete restantes, 
dois morreriam e um seria capturado antes do final de 1970. 
Sobravam quatro. Dois estavam desconectados das organiza es 
e outro exilou-se em 1971. Vivo e atuante, s um, que seguira 
para Cuba. Retornou ao Brasil e foi assassinado em 1972.19
Da exploso da bomba no aeroporto dos Guararapes ao seqestro 
de Elbrick as organizaes armadas tm uma narrativa de 
aes. Depois da morte de Marighella, comeou uma crnica de 
cadveres. Nela, escre veram-se duas histrias: a dos 
vencedores e a dos vencidos. Uma no exis te sem a outra, e a 
forma como elas se encontraram retrata ao mesmo tempo o fim 
de uma aventura poltica e a ferocidade de uma ditadura.
Aqui vo contadas duas mortes.
1. As 53 marcas de Chael
Chael Charles Schreier, estudante da Faculdade de Cincias 
Mdi cas da Santa Casa de Misericrdia, em So Paulo, 
abandonara o curso em
1968 e tornara-se o Joaquim, da VAR-Palmares. Tinha 23 anos e 
partici
19 Levantamento do autor.
A HISTRIA DOS MORTOS        163
para de pelo menos um assalto a banco. Era um homem gordo e 
cor pulento, com 120 quilos, vistoso demais para circular 
pelas ruas saben do que a polcia o procurava. Vivia 
trancado.
s nove horas da noite da sexta-feira, 21 de novembro de 
1969, es tava num aparelho da rua Aquidab, 1053, no bairro 
do Lins de Vascon celos, no Rio. Na casa de dois andares, 
sala e trs quartos, fazia alguns me ses morava o casal Mauro 
Cabral e Maria Carolina Montenegro (e Chael, que chegara no 
cho de um carro). Pagavam quatrocentos cruzeiros de aluguel 
e fingiam viver a rotina dos casais jovens do bairro, mas 
alguma coisa neles chamava ateno. Alugaram a casa, 
oferecendo um depsito de trs meses (preferncia genrica 
das pessoas que no conseguem fia dor e especfica dos 
locatrios de aparelhos, dos contraventores e dos ca 
loteiros). Na poca, a VAR tinha grandes planos; o maior 
deles era o se qestro do ministro da Fazenda, Delfim Netto. 
No aparelho havia uma submetralhadora, uma espingarda, 
diversas pistolas e 3 mil cartuchos. A casa estava sendo 
observada. quela hora onze policiais do DOPS a rodeavam.
Mauro foi logo capturado, mas Chael e a jovem enfrentaram a 
po lcia a bala e bombas feitas com canos de ferro recheados 
de pregos. Quando o aparelho estava tomado de gs 
lacrimogneo, renderam-se e saram da casa com os braos para 
cima. Mauro no teve tempo de abrir a tampa de caneta onde 
guardava uma cpsula de veneno. Chegaram ao DOPS com as 
roupas em frangalhos e algumas escoriaes. Apanharam at o 
incio da madrugada, quando os mandaram para a 1 Companhia da 
PE, base operacional do GTE na Vila Militar. Com 23 anos, 
Mauro era Antonio Roberto Espinosa, o Bento, um dos seis 
comandantes nacionais da VAR, veterano dos primeiros 
assaltos. Maria Carolina era Maria Auxi 20 Informao 1 7/69-
IPM-OPM, do tenente-coronel Ary Pereira de Carvalho  seo 
de informa es da i Diviso de Infantaria, 10 de dezembro de 
1969. AA. Veja, 10 de dezembro de 1969, pp.
20-7. The Tragic Death of Chael Charles Schreier, em Terror 
in Brazil, a Dossier.
21 Alfredo Sirkis, Os carbonrios, p. 180.
22 Correio da Manh, 23 de novembro de 1969.
23 Luiz Maklouf Carvalho, Mulheres que foram  luta armada, 
p. 126.
24 Depoimento de Antonio Roberto Espinosa, em Judith Lieblich 
Patarra, lara, p. 244.
164        A DITADURA ESCANCARADA
liadora Lara Barcelos, a Francisca. Linda mulher, de olhos 
imensos, quin tanista de medicina, tinha 25 anos.
No quartel, foram entregues a dois capites, um tenente, dois 
sar gentos e um cabo. Era um combinado do CIE com a 2 Seo 
da Com panhia da PE. Os capites Joo Luiz de Souza Fernandes 
e Celso Lauria eram do dE. O tenente Ailton Joaquim e os 
sargentos Paulo Roberto de Andrade e Atilio Rossoni serviam 
na 1 Companhia da PE. Fazia pouco mais de um ms nela se 
realizara a aula de tortura para a tigrada Dos seis, trs 
tinham a Medalha do Pacificador. Ailton e o sargento Andrade 
haviam-na recebido oito dias antes, com palma, por servios 
 manu teno da ordem, da lei e das Instituies 
Democrticas brasileiras
Despiram-nos, e a primeira sesso de tortura foi coletiva. 
Chael foi obrigado a beijar o corpo de Maria Auxiliadora. 
Espinosa teve a cabea empurrada entre os seus seios. Levaram 
os dois rapazes para outra sala. Francisca foi deitada no 
cho molhado, e assim aplicaram-lhe os primei ros choques 
eltricos. Tinha comeado aquilo que anos depois ela re 
lembraria como os interminveis dias de Sodoma Recebia 
golpes de palmatria nos seios, e uma pancada abriu-lhe um 
ferimento na cabe a. Espinosa tomou choques com fios ligados 
 corrente eltrica de uma tomada de parede, amarraram-lhe a 
genitlia numa corda e fizeram- no correr pela sala. A 
pancadaria cessou no fim da madrugada, quan 25 Antonio 
Roberto Espinosa, em Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 
1: A tortura, p. 407, lis ta na recepo os capites Joo 
Luiz (de Souza Fernandes) e (Celso) Lauria, o tenente Ailton 
(Joa quim), os sargentos (Paulo Roberto de) Andrade e 
(Atilio) Rossoni, alm do cabo (Edson Anto nio) Mendona. 
Tanto Espinosa como Maria Auxiliadora se referem  
participao do capito Ailton Guimares Jorge nas sesses de 
tortura por que passaram.
26 Certido de Assentamentos do Terceiro-Sargento Paulo 
Roberto de Andrade, fi. 11, vol. 5, p. 1907 do Processo n 
4896, STM. Para o capito Celso Lauria, Almanaque do pessoal 
militar do Exrcito, 1972.
27 Declaraes de Maria Auxiliadora Lara Barcelos  Justia 
Militar, em Projeto Brasil: nunca mais,
tomo v, vol. 4: Os mortos, p. 85.
28 Maria Auxiliadora Lara Barcelos, Continuo sonhando em 
Memrias do exlio  Brasil
1964/19??, de Pedro Celso Ucha Cavalcanti e Jovelino Ramos, 
p. 317.
29 Segundo uma carta manuscrita de Adail Ivan de Lemos, preso 
em 8 de agosto de 1969, na Pr
denominavam Carinhosa e Vem C Meu Bem  palmatria furada. 
Luciana,  lisa. Projeto Brasil:
nunca mais, tomo v, vol. 1: A tortura, p. 142.
30 Depoimento de Antonio Roberto Espinosa, em Projeto Brasil: 
nunca mais, tomo v, vol. 1: A
tortura, pp. 404 e 407.
A HISTRIA DOS MORTOS
165
do Chael parou de gritar. Lauria mandou que Maria Auxiliadora 
vestis se sua roupa e acompanhou-a  enfermaria, onde lhe 
deram um ponto no ferimento da cabea. O soldado que tomava 
conta de Espinosa dis se-lhe: Mataram seu amigo
Amanhecia o sbado quando tocou o telefone do oficial de 
planto do dE, no quartel-general. Era o tenente-coronel Luiz 
Helvecio da Sil veira Leite. Havia um cadver na 1 Companhia 
da PE. Em casos ante riores esse tipo de problema fora 
resolvido com um procedimento roti neiro. Fechava-se o 
caixo, proclamava-se o suicdio e sepultava-se o morto. O 
mtodo j dera certo duas vezes, naquele mesmo quartel. Em 
maio, com Severino Viana Colon, e em setembro, com Roberto 
Cieto. Tra tava-se de seguir o manual, e Helvecio despachou 
para a PE de Deodoro o tenente-coronel Murilo Fernando 
Alexander, do CIE.
O cadver de Chael foi levado por Alexander para o Hospital 
Central do Exrcito. No concordaram em aceit-lo como se 
tivesse entrado vi vo contou o tenente-coronel Helvecio. A 
deciso fora tomada pelo pr prio diretor do hospital, 
general Galeno da Penha Franco. Pior: o gene ral reteve o 
morto e determinou que se procedesse  autpsia. O CIE tinha 
dois problemas. O tiroteio e as prises da rua Aquidab eram 
pblicos, pois haviam sido noticiados pelas rdios. Ademais, 
os presos foram trs, e dois estavam vivos. Isso exclua a 
frmula do sumio do corpo, usa da dois meses antes na 
Operao Bandeirante, depois do assassinato de Virglio Gomes 
da Silva. O atestado de bito exclua a verso do suicdio. A 
origem social de Chael, um ex-estudante de medicina sado de 
uma fa mlia judia da classe mdia paulista, cortava o 
caminho ao funeral de in digente que ajudara a abafar a morte 
de Severino Colon.
31 Depoimento de Maria Auxiliadora Lara Barcelos, em Projeto 
Brasil: nunca mais, tomo v, vol.
3: As torturas, p. 70.
32 Judith Lieblich Patarra, lara, p. 351. Ver tambm Nilmrio 
Mjranda e Carlos Tibrcio, Dosfi lhos deste solo, pp. 447-8.
33 Coronel Luiz Helvecio da Silveira Leite, maio de 1985.
34 Para a identificao de Alexander, coronel Luiz Helvecio 
da Silveira Leite, maio de 1985.
35 Coronel Luiz Helvecio da Silveira Leite, maio de 1985.
36 A agncia de notcias espanhola Efe transmitiu de Madri, 
s 12h30 GMT, a informao segun do a qual haviam sido presos 
Joaquim Mauro e Carolina Montenegro.
166        A DITADURA ESCANCARADA
Restava um s caminho, e antes do meio-dia foi posta a 
circular sua verso: um dos presos fora ferido durante o 
tiroteio. No domingo, o Jornal do Brasil informou que os trs 
terroristas da rua Aquidab estavam sen do interrogados na 
PE. Na segunda-feira, o ii Exrcito informou ao DOPS paulista 
que Chael morrera de ataque cardaco no HCE, quando era me 
dicado. Na tera, o cadver foi entregue  famlia. Na 
quarta, enquan to o Correio da Manh publicava que os trs 
presos continuam sendo interrogados finalmente a notcia de 
sua morte foi liberada pelos ofi ciais encarregados da 
represso  VAR-Palmares. O DOPS anunciou que ele morrera por 
conta de dois tiros recebidos durante o cerco ao apare lho. 
Como essa verso estava desamparada pelo atestado de bito e 
pela necropsia, firmou-se a lorota que o tenente coronel Ary 
Pereira de Car valho, com sua torturada gramtica, faria 
circular no Exrcito: Dos trs
terroristas o que mais violentamente reagiu foi Chael Charles 
Schreier, que mais tarde, apesar dos curativos recebidos, 
veio a falecer em conse qncia de ferimentos internos, por 
ele mesmo praticados durante sua priso
Faltara calar a autpsia e o atestado de bito. O major-
mdico Os waido Caymmi Ferreira, chefe do servio legista do 
HCE, e o capito Gui lherme Achilles de Faria Melio, 
amparados na autoridade do taciturno professor de medicina 
legal da Faculdade de Medicina da UFRJ Rubens Pedro Macuco 
Janini, assinaram a mais detalhada necropsia do regime. 
Contando-se apenas dois ferimentos para cada vez que os 
legistas usa ram o plural na descrio das leses existentes 
no cadver, Chael Char les Schreier tinha 53 marcas de 
pancada. Bastava olh-lo. Estava todo la nhado, com um corte 
no queixo suturado por cinco pontos. Examinado, tinha uma 
hemorragia na cabea e sangue em todos os espaos do ab 37 
Jornal do Brasil, 23 de novembro de 1969, p. 42.
38 Relatrio do ii Exrcito, de 24 de novembro de 1969, em 
Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio,
Dos filhos deste solo, p. 433.
39 Correio da Manh, 26 e 23 de novembro de 1969.
40 Informao 17/69-IPM-OPM, do tenente-coronel Ary Pereira 
de Carvalho  seo de informa es da i Diviso de 
Infantaria, 10 de dezembro de 1969. Sintaxe do tenente-
coronel Ary Perei ra de Carvalho. .
A HISTRIA DOS MORTOS
167
dmen. O intestino fora extensamente rompido. O trax estava 
depri mido, dez costelas quebradas.
No final de novembro, o jornalista Luiz Gutemberg encontrou-
se no Rio de Janeiro com o coronel Octavio Costa, chefe da 
Assessoria de Re laes Pblicas da Presidncia da Repblica. 
Ambos alagoanos, conhe ciam-se havia tempo. O coronel, 
veterano da FEB, tinha um fraco pelas letras. Colaborava 
eventualmente no Jornal do Brasil e escrevera o dis curso de 
posse de Medici. Tinha um estilo de compota: Homens do meu 
pas! Neste momento eu sou a oferta e a aceitao, mas tinha 
tambm uma idia prpria do que deveria ser o governo: Creio 
necessrio con solidar e dignificar o sistema representativo, 
baseado na pluralidade dos partidos e na garantia dos 
direitos fundamentais do homem. O resul tado da conversa de 
Gutemberg com o coronel chegou s bancas na se gunda-feira, 
dia 8 de dezembro. Em sua capa, Veja anunciava: O presi 
dente no admite torturas.
A reportagem atribua a um porta-voz da Presidncia a 
grande no tcia do ano: Medici determinou aos rgos 
responsveis pela seguran a pblica e combate  subverso  
vrios deles acusados de torturar pre sos polticos e at 
simples suspeitos depois inocentados  que devem rever 
imediatamente seus esquemas de represso e pr fim ao uso de 
mtodos violentos. O ministro da Justia, Alfredo Buzaid, 
foi alm: Nesse pe rodo [ um ms de governol eu no tive 
conhecimento de nenhum fato inequvoco que reclamasse a 
imediata interveno do ministrio. To davia, o pensamento do 
ministrio  o de intervir dentro de seus limites para 
preservar a ordem jurdica interna e a segurana nacional. 
Dois dias depois, foi mais claro: Se tivermos conhecimento  
o que ainda
41 Necropsia de Chael Charles Schreier, em Projeto Brasil: 
nunca mais, tomo v, vol. 4: Os mortos,
p. 81. {...] encontra-se fratura com infiltrao hemorrgica 
na juno das terceira, quarta, quin ta e sexta costelas 
direitas com a respectiva cartilagem costal, e fratura da 
segunda, terceira, quar ta, sexta, stima e oitava costelas 
esquerdas com infiltrao hemorrgica, percebe-se infiltrado 
he morrgico no tecido subcutneo da metade superior da 
regio esternal na altura da regio
epigstrica? Esse documento no foi divulgado na ocasio.
42 Emilio Garrastaz Medici, O jogo da verdade, pp. 33 e 39.
43 Veja, 3 de dezembro de 1969.
44 Entrevista de Alfredo Buzaid a Dirceu Brisola, Veja, 3 de 
dezembro de 1969, p. 21.
i68        A DITADURA ESCANCARADA
no aconteceu  da execuo de atos de tortura em qualquer 
regio do pas, o ministrio da Justia saber aplicar as 
medidas tendentes  puni o dos responsveis
Na segunda-feira seguinte a revista Veja publicou a certido 
de bito de Chael, na qual se registrava uma contuso 
abdominal com rupturas do mesoclon transverso e mesentrio, 
com hemorragia interna Para quem queria saber, o caso era 
perfeito e acabado. Chael fora preso vivo e chega ra ao HCE 
morto. O coronel Ary Pereira de Carvalho difidilmente conse 
guiria explicar como ele teria sido capaz de autofiagelar-se 
a ponto de rom per seu intestino, O atestado de bito 
conduzia  necropsia, mas ela estava guardada no arquivo do 
HCE. A descrio dos ferimentos de Chael e a ex plicao do 
coronel tinham uma coisa em comum: em ambas estavam apos tas 
as assinaturas de oficiais do Exrcito. Poucos dias depois, o 
tenente-co ronel Helvecio mandou uma carta a Buzaid. Era 
parte do contra-ataque do poro. Dele conhece-se o desfecho, 
mas no a manobra. Quando o mi nistro voltou a tratar do 
tema, soou diferente, ecoando sua militncia in tegralista da 
mocidade, em Jaboticabal, no interior de So Paulo: Aqueles 
que matam guardas e agentes de segurana, que roubam 
metralhadoras para guerrilhas escondendo-se atrs de uma 
ideologia comunista, devem sofrer punio exemplar O 
tenente-coronel prevalecera.
Na galeria aberta em 1966 pelo sargento Manoel Raimundo 
Soares com suas mos amarradas, Chael tornou-se mais uma 
daquelas vtimas do regime que morreram diversas vezes. Na 
primeira, quando o mata ram. Nas demais, quando a toda 
iniciativa no sentido de elucidar o cri me e levar os 
acusados ao processo legal, correspondeu uma resposta do 
regime, calando-a. No dia 6 de dezembro de 1969, o comando do 
i Exr cito informou aos proprietrios de rgos de 
comunicao que deveriam esquecer o noticirio relacionado 
com as torturas. Quanto  revista Veja,
45 O Globo, 3 de dezembro de 1969.
46 Certido de bito de Chael Charles Schreier, de 26 de 
novembro de 1969.
47 Coronel Luiz Helvecio da Silveira Leite, dezembro de 1969.
48 Noticirio Diplomtico Brasileiro, 10 de dezembro de 1969. 
Para a militncia integralista, Hl gio Trindade, O 
radicalismo militar em 64 e a nova tentao fascista, em 21 
anos de regime mi litar, organizado por Glucio Ary Dilion 
Soares e Maria Celina dAraujo, p. 134.
A HISTRIA DOS MORTOS 169
com sede em So Paulo, concebeu-se um plano cruel. A cada fim 
de se mana um exemplar deveria ser levado ao Rio de Janeiro 
antes que a edi o chegasse s bancas. Seria examinado pelo 
general Carlos Alberto Ca bral Ribeiro, chefe do estado-maior 
da 1 Regio Militar. Se ele no gostasse, a circulao 
daquele nmero poderia ser suspensa. Medici no tentou sequer 
o acordo obtido por Geisel durante sua visita aos quartis do 
Nordeste, em 1964, quando se firmou no governo Castelio a 
doutri na segundo a qual as torturas praticadas nos primeiros 
meses do regime seriam esquecidas em troca de um futuro bem-
comportado. Houvera um engano: o presidente admitia torturas. 
E de onde o coronel Octavio Cos ta tirou a idia de dizer que 
ele no admitia? O coronel conta: Quando eu disse ao 
Gutemberg que o presidente no admitia torturas, no esta va 
mentindo. Eu realmente achava que o presidente no admitia 
tortu ras. No sabia de nada. Eu vinha do Centro de 
Aperfeioamento, no Leme, a imprensa estava censurada. Do 
lado de l os presos falavam mui to. Do lado de c o pessoal 
no falava
2. O ltimo ponto de Mrio Alves
Passava pouco das cinco da tarde de 16 de janeiro de 1970 
quando Mrio Alves, o Vilas, secretrio-geral do Partido 
Comunista Brasileiro Re volucionrio, saiu de sua casa no 
bairro da Abolio, no Rio de Janeiro, para um ponto em 
Cascadura. Sua biografia parecia-se com a de Ma righella. Era 
baiano, militara no PCB desde os tempos do Estado Novo, fora 
preso e torturado em 1964. Expulso do Partido em 1967, 
buscara apoio cubano e dirigia uma organizao disposta a 
derrubar o regime atra vs de uma insurreio armada. Apesar 
dessas semelhanas, Vilas pouco tinha em comum com Menezes. 
Retrado e atencioso, impressionava mais por ouvir do que por 
falar. Aos 56 anos, vivia como um asceta. S as suas maneiras 
polidas traam a origem abastada de filho de fazendeiros. Cul 
tivando sua prpria lenda, Marighella fazia um gnero que o 
transfor
49 General Octavio Costa, maio de 1985.
170        A DITADURA ESCANCARADA
mava naquilo que os seus simpatizantes gostariam que fosse: 
um guer rilheiro carismtico. Mrio Alves raramente falava 
de si, encarnava o t pico capa-preta da hierarquia do 
Partido.
Era a quarta vez que Vilas saa em busca do contato que 
haveria de lev-lo a uma reunio do comit central. Nas trs 
sadas anteriores espe rara em vo. O PCBR estava sendo 
implodido. Uma fuga desastrada de pois do assalto a uma 
agncia do banco Sotto Mayor, na Vila da Penha, tivera como 
conseqncia uma fieira de prises que desarticulara a base 
da organizao no Rio de Janeiro. Os militantes ainda estavam 
num res taurante festejando o butim (79 mil cruzeiros, 
equivalentes a 17 mil d- lares) quando seus aparelhos 
comearam a ser varejados. O golpe mais
fundo resultou da priso de um veterano militante comunista. 
Chama va-se Salatiel Teixeira Rolim. Fazia parte da direo 
nacional da organiza o, mas afastara-se havia vrios meses 
para meter-se na ALN. Sabia mui to, inclusive a localizao 
de inmeros esconderijos. Transgredindo as normas da 
segurana, a direo do PCBR no os desativou.
Preso, Mrio Alves foi levado para o quartel do 1 Batalho de 
Po lcia do Exrcito, aquele que em 1964 a Diviso de 
Relaes Pblicas do gabinete do ministro da Guerra dissera 
no ter masmorras, pois seu presdio, relativamente novo, 
 limpo e seco e dispe de luz direta Era um prdio branco, 
enfeitado, na rua Baro de Mesquita, 425. Nos anos 30 
abrigara a elite do Exrcito, servindo de sede  Escola de 
Estado-Maior. No fundo do ptio ficava uma edificao de dois 
andares. Modesta no tamanho, equivalia a um distrito 
policial.  esquerda de quem entrava, havia uma sala grande, 
iluminada. Era a central de operaes. Num pai nel, 
registravam-se as informaes de pontos e aparelhos 
recebidas pe los interrogadores. L decidiam-se as sadas das 
equipes de busca.  di reita havia um corredor, e nele ficava 
a Sala Roxa, ou ainda a Boate. Tinha
50 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 201.
51 Para esse episdio, com alguns aspectos rocambolescos, 
Avelino Bioen Capitani, A rebelio dos
marinheiros, pp. 152-7.
52 Alvaro Caldas, Tirando o capuz, pp. 117 e segs.
53 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 202.
54 Correio da Manh, 8 de julho de 1964.
A HISTRIA DOS MORTOS 171
um globo de luz azulada colocado acima de sua porta de 
entrada. Quan do estava aceso, s podia entrar quem estivesse 
relacionado com a inves tigao. Um vidro espelhado permitia 
que da sala ao lado se acompanhas se a movimentao da Boate.
No fundo do corredor havia cinco pequenas celas, cada uma com 
um colcho de palha no cho, um buraco sanitrio no fundo e 
uma ja nela gradeada perto do teto. Nelas ficavam os presos 
que a qualquer mo mento poderiam ser levados para a Sala 
Roxa. No porque houvesse tan ta pressa em traz-los, mas 
para que ouvissem o que acontecia ao lado. Numa dessas 
masmorras estava Antnio Carlos de Carvalho. Noutra, Rai 
mundo Teixeira Mendes. Eles ouviram:
 Teu nome completo  Mrio Alves de Souza Vieira?
 Vocs j sabem.
 Voc  o secretrio-geral do comit central do PCBR?
 Vocs j sabem.
 Ser que voc vai dar uma de heri?
Mrio Alves ficou oito horas na Sala Roxa. No incio da manh 
se guinte o cabo da guarda chamou quatro prisioneiros para 
limp-la. Num canto, havia um homem ferido. Sangrava pelo 
nariz e pela boca. Tinha sido empalado com um cassetete. Dois 
outros presos, militantes do PCBR, reconheceram-no, deram-lhe 
de beber e limparam-lhe o rosto.
55 Alvaro Caldas, Tirando o capuz, p. 71. Alcir Henrique da 
Costa, novembro de 1990.
56 Alvaro Caldas, Tirando o capuz, p. 74.
57 Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa (orgs.), Desaparecidos 
polticos, pp. 95 e segs. Raimundo Teixei ra Mendes revelou a 
O Globo de 21 de dezembro de 1996 que entre os primeiros 
torturadores de M rio Alves estavam os tenentes Armando 
Avlio Filho, Correia Lima, Magalhes e Duque Estrada.
58 Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa (orgs.), Desaparecidos 
polticos, p. 96, e Jacob Gorender, Com bate nas trevas, p. 
203.
59 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 203. Declaraes de 
Ren de Carvalho e Salatiel Rolim,
em Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 4: Os mortos, pp. 
279-80.
60 Mrio Alves foi reconhecido pelo ex-tenente Augusto 
Henrique Maria Olivier, membro do co mit central do PCBR, e 
pelo ferrovirio Manoel Joo da Silva, caseiro de um aparelho 
onde se reu nira a cpula do partido. Em Maria Helena Malta, 
Brasil, um sonho intenso, p. 148.
172        A DITADURA ESCANCARADA
Vilas no voltou a ser visto. Tornou-se um desaparecido, o 
primei ro a colocar no cenrio poltico brasileiro o 
personagem da viva que co bra o cadver do marido. Sua 
mulher, Dilma, com quem se casara fazia trinta anos, viveria 
outros vinte lembrando ao governo e s Foras Ar madas o 
assassinato de Mrio Alves, mas em 1970 parecia fcil enxot 
la: Escrevi uma carta ao comandante do i Exrcito e fui 
entregar pes soalmente. Era o Syseno Sarmento. Voltei para 
saber a resposta e me submeteram a um interrogatrio, me 
ameaaram alegando que eu esta va caluniando o Exrcito. Onde 
esto as testemunhas?  diziam
Tanto o caso de Chael como o de Mrio Alves eram, na origem, 
pro duto de um acontecimento perturbador do mundo da tortura 
funcio nal: a morte do prisioneiro. A racionalidade que 
associava a imposio da dor  extorso de informaes no 
tinha alcance para admitir a mor te de um acusado indefeso.
Dentro do raciocnio funcional, a morte do preso chegava a 
ser um inconveniente para as investigaes. O prprio Medici 
narrou ao repr ter Antonio Carlos Scartezini um dilogo que 
teve com o general Orlan do Geisel depois que um oficial foi 
assassinado num tiroteio: Tive uma conversa com o ministro 
do Exrcito e falei: S os nossos esto morren do Ele 
respondeu: Ns no podemos matar, precisamos desfazer a ca 
deia Quando Medici concluiu sua lembrana, o coronel Clvis 
Maga lhes Teixeira, que fora seu ajudante-de-ordens, 
esclareceu: Desfazer a cadeia  romper a ligao entre os 
terroristas. [ Por isso surgiu a tor tura, pela necessidade 
de arrancar informaes rapidamente
O cadver expunha a relao farsesca do governo, que negava a 
tor tura nos sales e condecorava a tigrada no poro. Um 
preso com dez costelas quebradas poderia ser mantido 
incomunicvel num hospital at que se recuperasse. Podia 
ainda ser ameaado, tanto com novas torturas
61 Depoimento de Duma BorgesAlves, em Reinaldo Cabra! e 
Ronaldo Lapa (orgs.), Desaparecidos
polticos, p. 100.
62 Antonio Carlos Scartezini, Segredos de Medici, p. 36.
A HISTRIA DOS MORTOS 173
como com desconfortos carcerrios. Alm disso, para efeitos 
de propa ganda, um terrorista vivo sempre poderia ver 
expostos os seus prprios crimes. O cadver, porm, tolhia a 
onipotncia dos torturadores, obri gando-os a buscar 
cumplicidades que, se em certos momentos poderiam ser tomadas 
como favas contadas, em outros poderiam faltar, como fal tou 
a do general Galeno da Penha Franco no caso de Chael.
A inimputabiidade dos militares envolvidos na represso 
poltica pas sava a exigir mais que silncio ou tolerncia. 
Tratava-se de encobrir ho micdios por meio de verses 
insustentveis, pondo em funcionamento uma nova engrenagem. 
De um lado o poro demonstrava sua fora im pondo sua mordaa 
 oficialidade e ao aparelho judicirio. De outro, am pliava 
seu contencioso com a sociedade e transformava a tortura numa 
linha demarcatria entre o repdio e o apoio ao regime.
Aos olhos dos oficiais da mquina de represso, o desfecho do 
assas sinato de Chael tornou-se um problema, mas o de Mrio 
Alves, uma so luo. O seu desaparecimento encerrava a 
discusso acerca do que lhe fi zeram na Sala Roxa. Os presos 
que o ouviram durante a madrugada e o reconheceram pela 
manh, juraram contar o que acontecera, mas em 1970 nem 
sequer a viva julgou prudente expor a identidade do jovem 
que lhe fez as revelaes logo depois de sair da rua Baro de 
Mesquita. An tes que o ano de 1970 acabasse, quatro outros 
cidados desapareceriam. Todos foram vistos vivos em 
dependncias do Exrcito. Trs na Sala Roxa.
63 Depoimento de Duma Borges Alves, em Reinaldo Cabra! e 
Ronaldo Lapa (orgs.), Desaparecidos polticos, p. 100.
64 So eles: Joel Vasconcelos Santos, do pc do B, preso em 
fevereiro, foi levado para a rua Baro de Mesquita, de onde 
sumiu em maio (Reinaldo Cabra! e Ronaldo Lapa (orgs.), 
Desaparecidos polti cos, p. 109); Jorge Leal Gonalves 
Pereira, da Ao Popular Marxista-Leninista, a APML, preso no 
dia 20 de outubro, levado para a PE, foi acareado com Outro 
militante da organizao (idem, p. 156); Celso Gilberto de 
Oliveira, da VPR, preso no dia 10 de dezembro, foi acareado 
com outro mi litante no quartel da PE (Dossi dos mortos e 
desaparecidos, p. 95); Jos Maria Ferreira Arajo, da VPR, 
foi preso no dia 23 de setembro e levado para So Paulo, onde 
o viram quando era interro gado pelo capito Benoni Albernaz 
(idem, p. 99).
DOI
Seria muita ingenuidade acreditar que os generais Emilio 
Medici e Or lando Geisel criaram os DOIS (destacamentos de 
operaes de informa es) sem terem percebido que a sigla se 
confundia com a terceira pes soa do singular do presente do 
indicativo do verbo doer. Por mais de dez anos essas trs 
letras foram smbolo da truculncia, criminalidade e anar 
quia do regime militar.
H um enigma no nascimento do monstro. Antes de chegar ao Mi 
nistrio do Exrcito, o general Orlando Geisel fora um franco 
adversrio da criao do GTE. Nessa e nutras questes, 
jamais deixara sua opinio sair do crculo de 
confidencialidade dos debates da cpula militar. Mal sentou- 
se na cadeira, surgiram informaes de que Medici decidira 
entregar-lhe a coordenao do aparelho repressivo. Em 
novembro de 1969 Orlando Gei sei queria manter algum tipo de 
distncia entre o Exrcito e a represso. Ainda no 
completara um ms no cargo quando presidiu pela primeira vez 
uma reunio do Alto-Comando. Cada general falou de sua rea. 
Na sua vez, o comandante interino do III Exrcito, Jos 
Campos de Arago, informou que havia um capito acompanhando 
os depoimentos de frei Betto na Se cretaria de Segurana do 
Rio Grande do Sul. Orlando esperou o trmino
Segundo o general Adyr Fiza de Castro, primeiro chefe do dE, 
batizando-se assim o destaca mento, ficou uma sigla muito 
interessante para ele, porque di Em Maria Celina dAraujo, 
Glu cio Ary Dillon Soares e Gelso Castro (orgs.), Os Anos de 
Chumbo, p. 52.
2 O Estado de S. Paulo, 7 de novembro de T969, A Orlando 
Geisel caber o setor segurana e Fo lha de S.Paulo, 12 de 
novembro de 1969, Geisel coordena segurana primeira 
pgina.
176
A! ESCANCARADA
7
da rodada de relatrios verbais e foi ao tema: Capito no 
tem que saber nada disso. A secretaria de segurana  
subordinada ao governador. Seno, daqui a pouco ningum mais 
segura este exrcito
No dia seguinte, dois capites participaram do assassinato de 
Chael, numa unidade a pouco mais de meia hora de distncia do 
salo onde es tivera reunido o Alto-Comando. Orlando Geisel 
morreu em 1979 sem dei xar reminiscncias. Se em algum 
momento o novo ministro do Exrcito pretendeu afastar a sua 
tropa das tarefas de represso poltica ou, pelo me nos, 
mant-la fora da rotina policial, isso jamais resultou em 
medidas con cretas. As providncias que tomou nos meses 
seguintes foram na direo oposta, trazendo o radicalismo 
para dentro da hierarquia.
Durante o governo de Casteilo a linha dura pressionava o 
presiden te pedindo-lhe liberdade de ao para combater os 
subversivos. Era uma reivindicao mistificadora, pois o que 
se pretendia era mutilar as liber dades pblicas em beneficio 
dos projetos polticos de oficiais indiscipli nados. O novo 
ministro do Exrcito liberou a fria repressiva, demarcan do 
na ao policial o limite de sua atuao poltica. Na reunio 
seguinte do Alto-Comando, em maro de 1970, Orlando Geisel 
ps em movimen to a codificao da militncia policial do 
Exrcito. Era mais uma crista lizao do que formulao, 
mais um respaldo que doutrina. Ela se ex pressou num 
documento intitulado Diretriz de Segurana Interna. Em julho 
de 1970, comunicou aos seus generais que, por determinao do 
presidente da Repblica, o Exrcito assumiria o comando das 
atividades de segurana, prevalecendo sobre a administrao 
civil e tambm sobre a Marinha e Aeronutica. Dois meses 
depois estavam criados os DOIS.
Medici consolidou esse arcabouo centralizador por meio de 
uma
Diretriz Presidencial e de um expediente secreto denominado 
Planeja-
3 Aspectos Histricos do Alto Comando do Exrcito, de 26 de 
julho de 1979, ata da 48 reunio. APGCS/HF.
4 Para os dois termos, depoimento do general Ivan de Souza 
Mendes, em Maria Celina dArau jo, Glucio Ary Dilion Soares 
e Celso Castro (orgs.), Os Anos de Chumbo, p. 170.
5 Essa diretriz foi baixada em 17 de maro de 1970, segundo a 
Informao n 01 7/70/A C/76, de 20
de fevereiro de 1976, da Agncia Central do SNI. APGCS/HF.
6 Aspectos Histricos do Alto Comando do Exrcito, de 26 de 
julho de 1979, ata da 50 reunio. APGCS/HF.
7 Carlos Alberto Brilhante Ustra, Rompendo o silncio, p. 
125.
DOI        177
mento de Segurana Interna, criando o Sistema de Segurana 
Interna, Sis segin, na gria burocrtica, o Sistema, no 
jargo do regime. Nele, todos os rgos da administrao 
pblica nacional ficavam sujeitos s medi das de 
coordenao do comando unificado da represso poltica.
Armara-se a moldura administrativa que ratificava a 
multiplicao de centrais repressivas semelhantes  Operao 
Bandeirante. Estabeleceu- se que o CIE era o rgo central do 
Exrcitp raassuntos de informaes, e arquivaram-se dcadas 
de discusses doutrinrias em torno da utilida de do Estado-
Maior. A onipotncia do Sistema traa os conflitos produ 
zidos pela policializao das Foras Armadas.
O primeiro conflito resultava da primazia concedida ao 
Exrcito no s sobre os poderes da Repblica, mas tambm 
sobre as outras duas Foras Armadas. Esse predomnio foi 
legalizado atravs de um engenho so ardil burocrtico. 
Nenhuma lei poderia permitir que um comandan te militar 
dirigisse operaes policiais dentro de um estado sem que lhe 
tivesse sido imposta interveno federal.
Os governadores, nomeados pessoalmente por Medici, aceitavam 
a interferncia como parte do pacto poltico a que se haviam 
vinculado. O carioca Chagas Freitas, amigo de Orlando Geisel 
e nico governador fi liado ao partido oposicionista, 
patrocinou a aprovao, pela Assemblia Legislativa, de um 
projeto que autorizou o governo do estado da Guana bara a 
financiar a construo de uma sede para a nova central de 
repres so poltica. Em So Paulo, o governador Laudo Natel 
pagou a obra de um prdio de dois andares (onde estavam as 
novas salas de interrogat rio) e a reforma da delegacia que 
a Oban recebera em 1968.10
J os comandantes militares estavam em situao diversa. Se o 
co mandante de um distrito naval ou zona area tivesse 
patente superior  do general da guarnio local, teria sobre 
ele indiscutida precedncia, tan to para comandar uma 
operao conjunta como para sentar-se mais
8 Planejamento de Segurana InternaExtrato, de 29 de outubro 
de 1970. AA.
9 O Globo, 13 de agosto de 1970. O governo da Guanabara 
construiu e equipou parcialmente a
sede do DO!, vizinho lindeiro do quartel da PE da Baro de 
Mesquita, com entrada pela avenida
Maracan.
10 Carlos Alberto Brilhante Ustra, Rompendo o silncio, p. 
139.
178 A DITADURA ESCANCARADA
prximo ao anfitrio num jantar de lugares marcados. A 
precedncia vi gora at mesmo para dois oficiais com a mesma 
patente. Se um coronel foi promovido em maro e o outro em 
agosto do mesmo ano, o primei ro  mais antigo e o outro, 
mais moderno
Para contornar essa dificuldade, elaborou-se um novo mapa 
polti co para o Brasil, baseado em Zonas de Defesa Interna, 
ou ZDIs. Dividiam o pas em quatro, fixando limites de 
jurisdio idnticos aos que separa vam o 1, ii, i e iv 
Exrcitos. Dessa maneira, o Rio de Janeiro, Minas Ge rais e o 
Esprito Santo constituam uma ZDI entregue ao general-coman 
dante do 1 Exrcito. Ele podia ser mais moderno que o 
comandante do 1 Distrito Naval e poderia at ser um general 
de trs estrelas no exerc cio temporrio da funo. Nada 
tiraria a sua autoridade sobre a ZDI. As segurada a primazia 
do Exrcito nas formalidades hierrquicas, criou-se um 
organismo colegiado, o Centro de Operaes de Defesa Interna, 
CODI. Cada ZDI tinha o seu, sempre chefiado pelo comandante 
do Exrcito. Nele tinham assento representantes dos governos 
estaduais, da Marinha e da Aeronutica, mas sua importncia 
operacional era nula.
A entrega da represso poltica ao Exrcito, objetivo desse 
minueto burocrtico, ocorrera de fato em meados de 1969, mas 
um ano de traba lho fora tempo suficiente para expor 
fraturas. A maior delas sucedera na prpria instituio 
modelar de represso, a Oban. O major Waldyr Coe lho, 
artfice da central de operaes e da doutrina do esforo 
unificado, desentendera-se com o delegado Fleury, chefe das 
operaes da Polcia Civil no DOPS. Waldyr inquietava-se com 
a existncia do que denomina va de duplo comando. 
Descobrira uma rede de extorses articulada por policiais que 
vendiam segurana a empresrios paulistas.
Dava-se tambm um choque de personalidades, no qual o 
exibicio nismo do delegado ofendia o egocentrismo napolenico 
do major. Esta beleceu-se entre eles uma competio cujos 
resultados favoreciam Fleury. A Oban do major conseguira 
desbaratar um pedao da VPR no incio de 1969 e meses depois 
tirara um naco da ALN. O delegado, contudo, no s matara 
Marighella, como o fizera passando ao largo da mquina do 
Exr
11 Paulo Sawaya, janeiro e outubro de 1990.
001
179
cito. Conduzira as investigaes com a ajuda do Cenimar, 
torturara os dominicanos no prdio do Ministrio da Marinha e 
levara-os para o DOPS. No havia um s agente da Oban na 
alameda Casa Branca quando Menezes foi fuzilado. Pior: o 
delegado fizera circular a informao de que descobrira a 
conexo da ALN com os frades explorando uma pista despre zada 
pela Oban. O major Waldyr Coelho tivera nos seus calabouos 
um preso em cujo talo de cheques estava anotado um nmero de 
telefone. Torturaram-no a ponto de deix-lo em coma, mas nada 
lhe perguntaram do nmero. Era o telefone do convento de 
Perdizes.
Perseguindo terroristas, o major e o delegado perseguiam-se. 
Na noite de 28 de fevereiro de 1970 um policial fazia ronda 
na avenida das Lgrimas e correu em socorro de um nissei cujo 
carro capotara. Era Chizuo Osava, o Mrio lapa do comando da 
VPR. Tinha 25 anos e curso em Cuba. Estava desacordado e 
transportava no carro armas e documentos polticos. Entregue 
a Fleury, ficou no DOPS, a despeito das ordens de Waidyr 
Coelho para que o recambiassem  Oban. Suspeitava-se  e era 
certo  que ele soubesse onde estava o capito Carlos 
Lamarca. Sabia tambm das ligaes da VPR com os argelinos. 
Fleury foi obrigado a entregar Mrio Japa a uma patrulha 
comandada pelo major, disposta a lev-lo  fora. O delegado 
passara da conta. Dias depois, Fleury foi posto para fora do 
DOPS, transferido para o humilhante 41 Distrito, na Vila 
Rica, um bairro perdido da Zona Leste de So Paulo.
A nova ordem de ZDI5 e CODI5 criava um arcabouo 
administrativo capaz de conjurar alianas como a que Fleury 
fizera com a Marinha. Fal tava, contudo, o brao operacional. 
Ele viria com os DOIs. Os destacamentos de operaes de 
informaes surgiram ainda em 1970 no Rio de Janeiro, So 
Paulo, Recife e Braslia. Um ano depois, em Curitiba, Belo
12 Quedograma, item 11. Sobre a rivalidade, ver tambm 
Antonio Carlos Fon, Tortura, pp. 51 e
segs. Para a tortura de Paulo de Tarso Venceslau, reportagem 
de Fabrcio Marques, Jornal do Brasil,
11 de janeiro de 1995, Caderno Brasil, p. 5.
13 Chizuo Osava foi banido para o Mxico trs semanas depois, 
junto com outros quatro presos,
depois que a VPR organizou s pressas o seqestro do cnsul 
japons em So Paulo, Nobuo Okuchi.


180 A DITADURA ESCANCARADA
Horizonte, Salvador, Belm e Fortaleza. Tinham por 
comandantes tenentes-coronis ou majores. Seus efetivos 
militares eram recrutados quase sempre nas fileiras dos 
soldados profissionais e nas Polcias Militares, at mesmo no 
corpo de bombeiros. Os DOIS de So Paulo e do Rio de Janeiro 
foram, de longe, os mais ativos. Produziram 697 denncias de 
torturas. O de So Paulo herdou a estrutura da Oban com 112 
homens. Deles, dezoito vinham do Exrcito: quatro oficiais, 
doze sargentos e dois cabos. O do Rio, de tamanho 
semelhante, instalou-se no quartel da PE da Baro de 
Mesquita.
Repetia-se no DOI o defeito gentico da Oban, misturando-se 
informaes, operaes, carceragem e servios jurdicos. O 
destacamento for mava uma unidade policial autrquica, 
concebida de forma a preencher todas as necessidades da ao 
repressiva sem depender de outros servios pblicos. 
Funcionou com diversas estruturas e na sua derradeira verso 
tinha quatro sees: investigao, informaes e anlise, 
busca e apreenso, e administrao. Dispunha ainda de uma 
assessoria jurdica e policial.
Na seo de investigao trabalhavam agentes que deveriam 
seguir suspeitos, observar esconderijos e farejar pistas. Em 
princpio, no se meteriam em capturas e estouros de 
aparelhos. Baseava-se numa estrutura celular, formada por 
turmas de duas pessoas. Cada uma delas tinha direito a um 
automvel, em geral um Volkswagen, equipado com radio 
transmissor. O nmero de duplas variava segundo o tamanho do 
DOI, e num deles chegou a haver doze.
As prises e o trabalho pesado de rua cabiam  seo de busca 
e apreenso, dividida em trs grupamentos, formados por 
quatro turmas
de trs a cinco agentes cada uma. Moviam-se em camionetes ou 
carros
14 Carlos Alberto Brilhante Ustra, Rompendo o silncio, p. 
126.
15 Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 1: A tortura, pp. 
76 e segs. Somando-se s denncias as
344 existentes contra a Oban, o prdio da rua Tutia fica com 
726. J o quartel da PE da rua Ba ro de Mesquita, onde em 
1970 se instalou o DOI do Rio, teve 735 denncias.
16 Carlos Alberto Brilhante Ustra, Rompendo o silncio, p. 
131.
17 A mais detalhada descrio da estrutura de um Dol 
encontra-se num documento intitulado
Sistema de Segurana Interna  Sissegin. Classificado como 
secreto, foi produzido no CIE nos
primeiros meses de 1974. AA. H ainda um organograma do DOI 
do ii Exrcito em Carlos Alberto
Brilhante Ustra, Rompendo o silncio, p. 140.
DOI
181
de quatro portas. Essa seo abrigava ainda quatro equipes de 
coleta de dados, cada uma com trs pessoas: um oficial da 
Polcia Militar, um de legado e um motorista. Tinham por 
tarefa vigiar universidades, colgios e rgos do governo. 
Era a maior das sees e em geral agrupava mais de cinqenta 
funcionrios.
Dentro do poro, estava a razo de sua existncia: a seo de 
in formaes e anlise. Esta tinha dois braos. Um, de 
anlise, recebia infor maes, mantinha fichrios, estudava 
interrogatrios e documentos. Cada organizao perseguida 
transformava-se numa pasta onde se cole cionavam dados 
histricos, arrolavam-se as aes por ela praticadas, e 
atualizavam-se listas de nomes de militantes. A subseo de 
anlise cui dava tambm de lbuns com fotografias e dados 
biogrficos de cada sus peito. Ela alimentava o corao do 
DOI: a subseo de interrogatrios, que era composta por 36 
pessoas, divididas em seis turmas. Trs chamavam- se turma de 
interrogatrio preliminar. A cada uma delas estava apensa uma 
turma auxiliar, encarregada das minudncias burocrticas do 
cotidiano da priso, cuidando da carceragem e da verso 
datilografada dos interrogatrios. Cada turma tinha seis 
pessoas. Portanto, nos DOIS de So Paulo e do Rio de Janeiro 
havia, a qualquer momento, pelo menos seis funcionrios 
prontos para interrogar um preso.
Os critrios de preenchimento das chefias de sees e 
subsees dos DOIs indicavam as prioridades atribudas pelos 
comandantes militares da poca aos diversos servios do 
poro. Salvo no caso da seo administra tiva, todas as 
chefias e subchefias tinham de ser ocupadas por oficiais das 
Foras Armadas. Da para baixo, no terceiro nvel hierrquico 
do destacamento, onde estavam tanto os grupamentos de busca 
como o setor de anlise, a origem do chefe era indiferente. 
Numa s subseo, a de interrogatrios preliminares, exigia-
se que os chefes de turma fossem oficiais. Alm de oficial, 
devia ser capito, de preferncia com o curso de 
aperfeioamento e, se possvel, diploma de administrao de 
empresas ou economia.
O chefe da equipe de interrogadores devia ser um oficial 
qualificado. Nos anos 70 tornou-se obrigatrio o uso de 
codinome. Alguns des
18 A estrutura do DOI est em Sistema de Segurana Interna  
Sissegin, pp. 30 e segs. AA.
182 A DITADURA ESCANCARADA
ses militares foram identificados, O Nagib do DOI carioca de 
1970 era o capito Freddie Perdigo Pereira, que na manh de 
12 de abril de 1964 guarnecera o palcio de Jango e  tarde 
se passara ao de Carlos Lacerda. Wagner era o sargento 
Guilherme Pereira do Rosrio, especialista em explosivos. O 
Apoio da PE do Rio era o tenente Armando Avlio Filho. No DOI 
paulista, chamava-se Tibiri o major Carlos Alberto 
Brilhante Ustra, seu comandante. O Capito Lisboa era civil, 
o delegado David dos Santos Arajo. Os interrogatrios 
preliminares seguiam uma metodo logia. Era velha para a 
meganha mas nova para os oficiais do Exrcito nela metidos. 
Marcelo Paixo de Arajo, tenente e torturador do 122 RI de 
Belo Horizonte de 1968 a 1971, descreve o mtodo:
A primeira coisa era jogar o sujeito no meio de uma sala, 
tirar a roupa dele e comear a gritar para ele entregar o 
ponto (lugar marcado para encontros), os militantes do grupo. 
Era o primeiro estgio. Se ele resistisse, tinha um segundo 
estgio, que era, vamos dizer assim, mais porrada. Um dava 
tapa na cara. Outro, soco na boca do estmago. Um terceiro, 
soco no rim. Tudo para ver se ele falava. Se no falava, 
tinha dois caminhos. Dependia muito de quem aplicava a 
tortura. Eu gostava muito de aplicar a palmatria.  muito 
doloroso, mas faz o sujeito falar. Eu era muito bom na 
palmatria. [ Voc manda o sujeito abrir a mo. O pior  que, 
de to desmoralizado, ele abre. A se aplicam dez, quinze 
bolos na mo dele com fora. A mo fica roxa. Ele fala. A 
etapa seguinte era o famoso telefone das For as Armadas. 
{...I  uma corrente de baixa amperagem e alta voltagem. [ 1 
No tem perigo de fazer mal. Eu gostava muito de ligar nas 
duas pontas dos dedos. Pode ligar numa mo e na orelha, mas 
sempre do mesmo lado do corpo. O sujeito fica arrasado. O que 
no se pode fazer  deixar a corrente passar pelo corao. A 
mata. [ O ltimo estgio em que che
19 Lista dos funcionrios do Projeto Brasil: nunca mais, tomo 
I vol. 3: Os funcionrios, p. 43.
20 Para a identificao do sargento Rosrio, Termo de 
Inquirio de Testemunha Wilson Luiz Cha ves Machado no 1PM n 
28/81, presidido pelo coronel Job Lorena de SantAnna, vol. 
2, p. 221. 21 Em 1995, j coronel, Avlio foi retirado do 
posto de adido militar do Brasil na Gr-Bretanha quando 
organizaes de direitos humanos o identificaram.
22 Projeto Brasil: nunca mais, tomo ii, vol. 3: Os 
funcionrios, lista de torturadores, p. 14.
DOI 183
guei foi o pau-de-arara com choque. Isso era para o queixo-
duro, o cara que no abria nas etapas anteriores. Mas pau-de-
arara  um negcio meio complicado. [ O pau-de-arara no  
vantagem. Primeiro, porque deixa marca. Depois, porque  
trabalhoso. Tem de montar a estrutura. Em ter ceiro,  
necessrio tomar conta do indivduo porque ele pode passar 
mal.
As escolas de oficiais haviam absorvido profundas mudanas de 
cur rculo. Na EsCEME, para cada hora de aula relacionada com 
os aspectos pro fissionais clssicos de defesa territorial 
davam-se dezesseis de segurana interna e guerra 
insurrecional. Para polir a mo-de-obra dos DOIs, sur giu em 
1970 uma escola de represso. Nasceu da mudana de comando e 
da reforma do currculo do Centro de Estudos de Pessoal, no 
forte do Leme. Seu antigo comandante, o coronel Octavio 
Costa, transferira-se para o pa lcio do Planalto, onde 
supunha que Medici no admitia torturas. Seu su cessor, o 
coronel Manoel Moreira Paes, ensinava como interrogar.
Era um cavalariano polido, tpico representante da ala dos 
cavalhei ros que, com a dos grosseires, produzem o folclore 
da arma. Tinha algu ma fortuna e era figura fcil no 
Hipdromo da Gvea. A fraternidade da cavalaria impulsionara-
lhe a carreira, e, no final do governo Castelo, tor nara-se 
chefe do estado-maior da Fora Pblica de So Paulo, comanda 
da pelo coronel Joo Baptista Figueiredo. De volta ao Rio de 
Janeiro, subi ra  posio de chefe da Assessoria de Relaes 
Pblicas do ministro Lyra Tavares. Orlando Geisel entregou-
lhe o Centro de Estudos de Pessoal.
Sob influncia doutrinria e funcional do GTE, o CEP oferecia 
um car dpio de currculos e recebia as mais diversas levas 
de alunos. Em alguns casos, as matrculas eram compulsrias. 
Havia cursos para oficiais, pro gramas de extenso para 
sargentos, bem como estgios para quadros das polcias 
militares. De maneira geral, duravam um semestre. No curso de
23 Entrevista de Marcelo Paixo de Arajo a Alexandre 
Oltramari, Veja, 9 de dezembro de 1998,
pp. 42-53.
24 A]fred Stepan, The military in politics, p. 181. Em 1968 
davam-se na E5CEME 222 horas de aulas de
segurana interna, 129 de guerra insurrecional e 21 de defesa 
territorial clssica. Em 19560 currcu lo no tinha uma s 
hora de aula relacionada com segurana interna, guerrilha ou 
comunismo.
25 Para o cavalheirismo, a fortuna e a paixo pelo prado, 
Octavio Costa, junho de 1991.
184        A DITADURA ESCANCARADA
informaes lecionavam-se, entre outras, as seguintes 
cadeiras: tcnica de interrogatrio, vigilncia, tcnica de 
abordagem de aparelhos, tcni ca de transporte de presos, 
operaes especiais, criptologia e produo de informaes.
Pobre em quadros, transformava em professores oficiais que no 
se mestre anterior haviam sido alunos. No fim do perodo 
letivo, Moreira Paes emitia minidiplomas onde lembrava que 
seu discpulo estava em muito boas condies para 
desempenhar as funes de oficial de infor maes Surgia uma 
nova arma dentro do Exrcito.  diviso tradicio nal, em que 
se destacam a infantaria, cavalaria e artilharia, juntava-se, 
po derosa, a arma de informaes. Era razovel que um oficial 
sado da AMAN como infante corrigisse sua qualificao em 
documentos oficiais, intitulando-se oficial de informaes
A comunidade dava a alguns de seus quadros militares uma 
espcie de carreira suplementar, com sobreposio de 
rendimentos. No Dr. Nagib do DO! carioca fixa-se um exemplo. 
Oficial combatente do CIE, ferido nu ma perna e militante da 
rede terrorista da tigrada Freddie Perdigo Pe reira migrou 
para o SNI e chegou a coronel nos anos 80. Para ser promo 
vido a general-de-brigada, ganhando quase a mesma coisa, 
deveria comandar tropa. Ofereceram-lhe um comando de 
primeira, em So Pau lo. Como no queria sair do Rio, pediu 
transferncia para a reserva. Re contratado como celetista 
pelo Servio, continuou onde estava, na seo de operaes. 
Ficou perto da praia e acumulou os proventos de coronel 
aposentado, compondo, com o salrio do SNI, uma receita 
superior  de general-de-exrcito. Havia ainda o pagamento de 
dirias de alimenta o sempre que o militar saa em tarefas 
sigiosas e prolongadas. Em mui tos casos essas misses 
envolviam riscos e desconfortos. Em outras, sig nificavam um 
reforo salarial. Em maio de 1973, as dirias dos capites
26 Processo 2 17/74, da 2! Auditoria do Exrcito, vol. 3, pp. 
1311, 1313, 1386, 1388, 1392 e 1199.
Diz o capito Ailton Joaquim: {... quando ingressei Desta 
unidade da Polcia do Exrcito, como
Oficial de Infantaria, digo, como Oficial de informaes 
1...] (p. 1199).
27 Jos Amaral Argolo e outros, A direita explosiva no 
Brasil, p. 249.
DOI 185
mandados ao Araguaia numa operao de combate sigilosa 
rendiam 6960 cruzeiros mensais  pouco mais de mil dlares. 
Somando-se a is so 1500 cruzeiros que recebiam a ttulo de 
manuteno pessoal, acrescen tavam aos seus contracheques o 
equivalente a 50% do salrio de um ge neral-de-diviso.
A tigrada desenvolveu gria prpria, com termos tomados s 
or ganizaes de esquerda e  meganha Os encontros 
chamavam-se pon tos, as prises, quedas A tortura era 
conhecida por pau; o magneto dos choques eltricos, por 
maricota e os alcagetes, por cachorros
No papel, tratava-se de uma estrutura assptica, 
moralizadora, at mesmo enxuta. O total de oficiais do 
Exrcito lotados numa mesma po ca nos DOIs e no GTE talvez 
tenha ultrapassado de pouco a centena. O nmero de militares 
das trs Foras e de todas as patentes classificados nesses 
destacamentos girava em torno do milhar, o que no vinha a 
ser muita coisa, levando-se em conta que o efetivo militar 
brasileiro era de 220 mil homens.
Na vida real, aquilo que parecia idia simples, quase bvia, 
era um fator de perturbao nas linhas de comando militares. 
Tratava-se da l tima e consagradora fase de um processo 
iniciado em 1967, com a cria o do GTE. O metabolismo dessa 
anarquia deu-se em duas etapas.
At 1967, quando Costa e Silva conseguiu criar o GTE, as 
linhas de co mando da tradio militar buscavam um ponto de 
equilbrio entre a na tureza poltica do cargo de ministro e 
a essncia profissional da chefia do
28 Nos quatro primeiros meses de 1971 o capito Luiz 
Fernandes de Brito, do DOI-RJ, recebeu 27 dirias de 
aTimentao por movimentaes em carter sigiloso Processo 
n 17/74, da 2 Audito ria do Exrcito, vol. 2, p. 1309. O DOI 
de So Paulo pagava regularmente cinco dirias por ms ao seu 
pessoaldo Exrcito. Equivaliam a 1641 cruzeiros em moeda de 
dezembro de 1986. Para as di rias do Araguaia, Plano de 
Informaes Sucuri, n 1, de abril de 1973, fi. 12.
29 Um documento numerado como 06/GAB, da chefia de gabinete 
do SNI, de 1975, informa que na poca havia nos DOIS doze 
tenentes-coronis, 24 majores e 46 capites. A tropa do 
Exrcito ne les lotada somava 708 homens. O Estado de S. 
Paulo, 6 de dezembro de 1987, em reportagem de Ayrton Baffa. 
Garlos Alberto Brilhante Ustra, Rompendo o silncio, p. 126, 
calculou em quatrocen tos o total de militares lotados nos 
DOIS e em cinqenta os do dE.
30 Em 1968 o efetivo militar era de 217 300 homens: 150 mil 
no Exrcito, 39 200 na Marinha e
28 100 na Fora Area. The military in Brazl, Special Report 
da Weekly Review da Gentral Tntelli gence Agency, de 29 de 
novembro de 1968. DEEUA.
186
A DITADURA ESCANCARADA
Estado-Maior do Exrcito. Nunca houve um perodo em que o 
Estado- Maior, como instituio, prevalecesse sobre o 
gabinete do ministro, nem mesmo em questes essencialmente 
militares, mas a mudana fez que, embora subalterno, perdesse 
a pouca importncia que tinha.
O relacionamento direto do GTE com as sees de informaes 
dos estados-maiores das grandes unidades produziu diversas 
anomalias. Alm do esvaziamento do EME, iniciou tambm um 
processo de hipertrofia das 2 Sees dentro das diferentes 
unidades. Em tese, eram iguais s outras. Na prtica, 
enquanto o coronel que chefiava a seo de operaes do es 
tado-maior do II Exrcito poderia levar meses para fazer 
chegar ao gabi nete do ministro uma opinio (ou um pleito), 
seu colega da 2 Seo, por sua linha direta com o GIE, tinha 
um p no centro do poder. Dependen do da personalidade do 
comandante do Exrcito e das relaes que com ele cultivasse, 
o chefe da seo de informaes dispunha de uma auto nomia 
dificilmente concedida a oficiais em situao semelhante.
Com a criao dos DOIS, O GTE passou a coordenar as questes 
de se gurana dentro das grandes unidades. A subordinao dos 
DOIs aos co ronis que chefiavam as sees de informaes era 
pouco mais que uma recomendao. Ou esse coronel estava de 
tal forma envolvido nas ativi dades de represso a ponto de 
ser o virtual comandante do DOT, ou o che fe do destacamento 
operava diretamente com o GIE.
A fora da mquina repressiva distorceu a estrutura da 
corporao. Virou-a de cabea para baixo. O general-de-
brigada que comandava o GTE estava acima dos quatro-estrelas 
que chefiavam departamentos. Ade mais, o chefe do GTE de 
Orlando Geisel acumulava essa funo com a de chefe de seu 
gabinete. O major do DOI reinava no aparelho repressivo. s 
vezes, trabalhava em condomnio com o coronel da 2 Seo, e 
ambos vi viam num ambiente de confraternizao com os 
generais. Em outros ca sos, a tigrada fazia seu servio, e 
os generais fingiam que no viam. Hou ve DOIS que converteram 
generais  causa do poro. No se conhece registro formal de 
uma s queixa de general contrafeito com as tcnicas de 
interrogatrio dos DOIs durante o governo Medici.
Em So Paulo, a autonomia obtida por Waldyr Coelho levara-o a 
su cessivos desentendimentos com o general Ayrosa, que 
concedia discreta
DOI 187
proteo a Fleury. O major jogou tudo: Ou Fleury ou eu. 
Parada du ra. Em seu desterro burocrtico, o delegado 
mantivera uma dupla mili tncia. Articulara-se com o Cenimar, 
fizera uma priso espetacular no Rio e torturava presos num 
aparelho montado por oficiais de Marinha, em So Conrado. 
Tinha a ajuda do chefe do Esquadro da Morte carioca. Waidyr 
Coelho perdeu o jogo e foi para a chefia da seo de inf da 
28 Diviso de Infantaria. Srgio Fleury voltou ao DOPS.
O DOI paulista foi entregue ao major Carlos Alberto Brilhante 
Us tra, um gacho de 38 anos. Desde a tarde de 31 de maro de 
1964, quan do subira a serra do Rio de Janeiro com os obuses 
de seu grupamento, Ustra tivera uma carreira banal. Promovido 
havia menos de dois anos, tinha a vida tpica do jovem 
oficial: mulher professora pblica, duas fi lhas, oramento 
apertado, quarto-e-sala e um Volkswagen. Mandado para o QG do 
I Exrcito, viu-se na seo de informaes, apesar de su 
gesto contrria do resultado de seu exame psicotcnico. No 
primeiro se mestre de 1970 cobriu trinta dias de frias do 
major Waidyr, que o de volveu ao QG com a qualificao de 
oficial incompetente Homem calmo, de hbitos simples, 
raramente elevava a voz. Sara da Escola de Estado- Maior 
convencido de que havia uma guerra e jamais mudaria de idia. 
Recebeu o comando do DOI no dia 28 de setembro de 1970. Achou 
que trocara um Exrcito em que o major Ustra nunca combatera 
de verda de por outro onde, como Major Tibiri, teria sua 
guerra sem unifor mes. Na sua tropa estavam Peludo, P-de-
Porco, Chico Farinhada, Ca tatau, Cabeo, Turco e El Cid. 
At dezembro de 1974, quando foi transferido para Braslia, 
Ustra teve em seu DOI cerca de 2 mil presos.
31 Paulo Sawaya, outubro de 1990.
32 Em agosto de 1970 a equipe de Fleury capturou Eduardo 
Leite, o Bacuri, um dos quadros mais
procurados da vpit. Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 
218. Para o aparelho de So Conrado,
Auto de Qualificao de Ottoni Fernandes Jr., em Projeto 
Brasil: nunca mais, tomo v, voi. 3: As tor turas, p. 405.
33 Era o policial Euclides Nascimento. Ver Percival de Souza, 
Autpsia do medo, p. 71.
34 Carlos Alberto Brilhante Ustra, Rompendo o silncio, p. 
70.
35 Idem, pp. 130 e 71. Coronel Carlos Alberto Brilhante 
Ustra, setembro de 1988.
36 Carlos Alberto Brilhante Ustra, Rompendo o silncio, p. 
177.
37 Relatrio Peridico de Informaes do DOI de So Paulo, de 
junho de 1975. Entre setembro de
1970 e junho de 75 o DOI paulista teve 2335 presos. Folha de 
S.Paulo, 15 de outubro de 2000.
188 A DITADURA ESCANCARADA
Levadas a srio, coisas como as Diretrizes de Segurana 
Interna, o Sis segin, as ZDI5 e os DOIS seriam parte de um 
conjunto de idias e aes que se afunilavam numa doutrina. 
Eram apenas grandiloqncias burocrti cas do policialismo. 
Poucos pensadores captaram a essncia mistificadora desse 
aparato com a argcia do jesuta francs Michel de Certeau. 
Conhe cedor superficial da poltica brasileira, Certeau 
classificou a chamada Po ltica de Segurana Nacional de 
pensamento extraordinariamente po bre:  uma ttica sem 
estratgia [ uma concepo destinada a transformar-se em 
vtima dos seus pressupostos impensados e de sua pr pria 
lgica Para ele, o regime tentava criar uma ordem sem 
poltica Via na tigrada um agrupamento de interesses que 
se tornam difceis de con trolar [ seja porque esse corpo 
to bem montado segue a lei do seu pr prio crescimento, seja 
sobretudo porque faltam critrios para aes mais polticas 
Conclua com uma indagao: Ser que a mquina militar atrai 
oar seus criadores, revelando o que lhes falta?2 Escreveu 
isso em 1970.
 falta de um sentido poltico que inibisse as prticas 
ilegais e as ope raes semiclandestinas da mquina de 
represso, os militares que nela caram aproximaram-Se 
daquela rea cinzenta onde a meganha e o cri me se 
confundem em personagens que vivem da delinqncia num mun do 
de folclore cafajeste.  pobreza do pensamento poltico do 
regime vi ria a se somar a vulgaridade de sua guarda 
pretoriana.
No Rio de Janeiro, a superposio da tortura  delinqncia 
deu seus primeiros sinais de vida atravs da Escuderie Jason, 
cabala onde oficiais, sargentos e cabos da 1 Companhia de PE 
se juntavam a contraventores e policiais das delegacias da 
Zona Norte. Tinha entre seus membros algu mas estrelas do 
combate ao terrorismo, como o capito Luiz Fernandes de 
Brito, da seo de informaes do DOI, treinador do time de 
futebol de sa
38 Politique dAujourdhui, n 11. Esse trabalho foi publicado 
tambm na revista Mensaje, rgo
mensal dos jesutas chilenos, em seu nmero 186, de janeiro-
fevereiro de 1970, pp. 11-2.
39 Para a presena de contraventores, Termo de Perguntas a 
Jos Renato da Silva, Processo n 17/74,
da 2 Auditoria do Exrcito, vol. 1, p. 506.
DOI        189
lo do i Exrcito. Ou ainda o tenente Ailton Joaquim, chefe 
da seo de informaes da 1 Companhia da PE, que seguiria 
depois para O DOI de Bra silia. Tambm fazia parte da 
escuderia o capito Ailton Guimares Jorge, do DOI carioca, 
primeiro oficial do Exrcito ferido em combate com 
terroristas.
Os mtodos da meganha prevaleceram at mesmo quando foram 
confrontados com novas modalidades de suplcios. Em 1968 
viera ao Brasil uma equipe britnica especializada em 
tcnicas de interrogatrio. Dois anos depois oficiais do i 
Exrcito viajaram a Londres para estudar aquilo que o 
comandante da Brigada Aeroterrestre, general Hugo Abreu, 
denominava de o sistema ingls. Buscava-se a tortura 
limpa
Em 1971 o tenente Amilcar Lobo, psiquiatra por formao, foi 
cha mado ao quartel-general para uma reunio com dois 
especialistas em in terrogatrios. Falavam portugus com 
sotaque e explicaram-lhe o pro jeto: Salas refrigeradas, 
totalmente escuras, sem janelas e com um rudo sonoro de alta 
freqncia O andar trreo do Peloto de Investigao 
Criminal (pic) da Baro de Mesquita entrou em obras. 
Caminhes mi litares descarregaram caixas misteriosas. 
Construram-se quatro novos cubculos. Um, forrado de isopor 
e amianto, era uma geladeira. Outro, uma cmara de rudos. O 
terceiro era todo branco e o ltimo, preto. Cada cubculo era 
vigiado por meio de um sistema de escuta capaz de
40 As Alteraes de Brito informam que ele foi para o DOI em 
abril de 1970, Processo n 17/74, da
2 Auditoria do Exrcito, vol. 3, p. 1305; mesma pgina para a 
condio de tcnico do time de fu tebol de salo.
41 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
42 Antonio Carlos Fon, Tortura, p. 72. Para o sistema de 
interrogatrio que mais tarde o gover no ingls condenaria, 
Report of the Enquiry into Aliegations aganst the Security 
Forces ofPhysical Brutality in Northern Ireland, HM 
Stationery Office, Londres, 1971, tambm conhecido como 
Compton Report. A colaborao dos servios de informaes 
militares ingleses com o Exrcito bra sileiro comeou no 
governo Kubitschek, quando o coronel Humberto de Souza Mello, 
servindo no Conselho de Segurana Nacional, viajou a Londres 
para uma visita de intercmbio. Ernesto Geisel, maio de 1994.
43 Amilcar Lobo, A hora do lobo, a hora do carneiro, p. 41. 
H uma descrio superficial dessas ce las no artigo Grim 
torture tales emerging in Brazil, de Leonard Greenwood, 
publicado no Los An geles Times de 24 de abril de 1973 e 
transcrito no Brazilian Information Builetin de junho de 
1973. 44 Entrevista de Marco Aurlio Magalhes  Folha de 
S.Paulo de 19 de setembro de 1986. Para a descrio de uma 
dessas celas, ver o depoimento de Aldo Arantes, em Pedro 
Estevam da Rocha
Pomar, Massacre na Lapa, p. 50. Para uma descrio da cela 
negra, ver o depoimento de Marco
190        A DITADURA ESCANCARADA
registrar alteraes no ritmo respiratrio do prisioneiro. 
Eram variantes das tcnicas usadas pelo exrcito ingls 
contra os terroristas irlandeses. Destinavam-se a 
desestruturar a personalidade dos presos sem que fos se 
necessrio toc-los. Um manual de interrogatrios da CIA 
ensinava, des de 1963, que, privadas dos estmulos 
sensoriais, as pessoas passavam por alucinaes, desenvolviam 
supersties e afeioavam-se a qualquer coi sa viva. A 
tortura que no tocava o prisioneiro humilhou a Coroa bri 
tnica, obrigada publicamente a aboli-la.
Destinadas a transmitir uma idia de civilizao do suplcio, 
as ce las serviram como um anexo, no como substituto s 
prticas da Sala Roxa. Desestruturavam prisioneiros que no 
havia pressa em submeter, mas no cotidiano prevaleceram o 
pau-de-arara e os choques eltricos. Eram uma modalidade 
assptica de suplcio capaz de quebrar a vontade das vtimas 
mantendo-lhes a incolumidade fsica. Contrariavam a cultura 
da me ganha privavam os torturadores da sensao de poder 
fisico sobre suas vtimas, diluam o terror sobre o qual se 
edificara a mquina repressiva do governo. Foram um luxo, 
nada mais. Nem sequer se cogitou instal las fora do Rio de 
Janeiro.
A centralizao das atividades de polcia poltica pelo GTE e 
pelos DOIS feriu a estrutura da Foras Armadas e subverteu a 
hierarquia no Exrci to. As conexes com o submundo 
corromperam alguns de seus quadros e obrigaram ministros, 
generais e juizes a acumpliciar-se com bandidos. A adorao 
da funcionalidade da tortura envolveu a mquina repressiva 
num mito de eficincia, escondendo fracassos e inpcias, ao 
mesmo tem po que se passou a exagerar o tamanho da ameaa 
para adapt-la ao ta manho da cobia liberticida. Ao nascer, 
o DOI apropriava-Se do mote marighelista: A ao faz a 
vanguarda
Antnio Coelho, Memrias de um comunista, na revista 
Estudos Avanados, da usp, n 37, se tembro-dezembro de 1999, 
So Paulo, p. 48.
45 Para o uso do capuz, privao do sono, rudos e 
alimentao errtica aplicados aos presos ir landeses, J. 
Bowyer Beli, The Irish troubles, pp. 2 12-26.
46 Manual de treinamento, KUBARK Counterintelligence 
Interrogation, da Central Intelligence Agency, julho de 1963, 
pp. 87-8.
47 Para uma observao de um torturador mineiro a respeito 
dessas celas, entrevista do ex-te nente Marcelo Paixo de 
Arajo a Andr Petry, Veja, 7 de dezembro de 1998.
Nota do scaneador
As pginas a seguir so fotos. Aqui apenas as legendas.
Fim da nota
Setembro de 1969. A nica cena fotografada de Costa e Silva 
depois da isquemia cerebral. Ele est em seu quarto do 
palcio Laranjeiras, com o mdico da Presidncia. Apesar de a 
fotografia sugerir alguma normalidade, o marechal est mudo e 
com o lado direito do corpo paralisado.
A Junta Militar pattica: general Lyra Tavares, almirante 
Augusto
Rademaker e brigadeiro Mrcio de Souza e Mello.
Diante do ministrio e sob o olhar do general Jayme Portella 
(fardado), os ministros militares assumem o exerccio da 
presidncia. Costa e Silva, entrevado, est no andar de cima 
do palcio. Afora a famlia, s Portella o v. O general 
acompanhar todos os despachos da Junta.
O fim do seqestro do embaixador americano: treze dos quinze 
presos que iriam para o Mxico, na base area do Galeo. 
Agachado, no centro, est Vladimir Palmeira. Com os punhos 
levantados, mostrando as algemas, Jos Dirceu.
Charles Burke Elbrick e sua mulher, Elvira (Elfie).
Setembro de 1969. O Alto-Comando do Exrcito tornou-se um 
sacro colgio de generais. Reuniu-se quatro vezes para 
discutir a crise e escolher o sucessor de Costa e Silva.
Este manuscrito do general Antonio Carlos Muricy  um dos 
poucos documentos da votao que escolheu o sucessor de Costa 
e Silva. Trata-se de tabela incompleta, mas indica que Medici 
teve 77 votos entre 102 generais.
Medici (de culos escuros) e Orlando Geisel, seu ministro do 
Exrcito, tiveram a uni-los a paixo
pela fora, a naturalidade no arbtrio e a confiana na 
ditadura como forma de governo.
O delegado Srgio Fleury, da polcia paulista, tornou-se o 
smbolo da represso poltica da ditadura.
Rua Toms Carvalhal, esquina com Tutia, em So Paulo:
a sede da Oban e, depois, do DOI.
Brasil: 1970.
4 de novembro de 1969. O delegado Fleury saiu de noite, 
disparando. Marighella levou cinco tiros. Um,  queima-roupa, 
seccionou-lhe a aorta. Sua peruca ficou no cho. Na pasta, 
que no chegou a abrir, havia um revlver Taurus calibre 32 
com cinco balas e duas cpsulas de cianeto de potssio.
Os dominicanos de Marighella. Da esquerda para a direita, 
frei Fernando, frei Betto e frei Ivo.
Medici comemorou o tri batendo bola no palcio da Alvorada. 
Esta  uma das poucas fotografias do general numa cena 
informal.
Charges de Jaguar e Henfil para O Pasquim, riscadas e vetadas 
pela Censura.
Na outra pgina, lances da propaganda oficial. O siogan 
Brasil, ame-o ou deixe-o foi propagado pelo dE.
O empresariado costumava associar-se s campanhas patriticas 
do governo, e o ufanismo chegou aos sapatos.
Dois momentos na vida de Niomar Moniz Sodr Bittencourt, dona 
do matutino carioca Correio da Manh, entre 1968 e 1969. 
Novembro. A bordo do iate real Britannia, acompanhada pelo 
advogado Luiz Gonzaga do Nascimento e Silva, ex-ministro do 
Trabalho de Castelio Branco, ela cumprimenta a rainha 
Elisabeth. Poucos meses depois, Niomar foi levada para um 
depsito de presas, mantida em regime de priso domiciliar e 
interrogada pela Justia Militar.
O ministro da Fazenda, Antonio Delfim Netto, era pouco mais 
que um desconhecido quando assumiu o cargo. Com as altas 
taxas de crescimento da economia, passou a encarnar o Milagre 
Brasileiro. Atrs dele vai o presidente da FIESP, Theobaldo 
de Nigris.
D. Helder Cmara discursa em Paris: A tortura  um crime que 
deve ser abolido. Os culpados de traio ao povo brasileiro 
no so os que falam, mas sim os que persistem no emprego da 
tortura. Quero pedir-lhes que digam ao mundo todo que no 
Brasil se tortura. Peo-lhes porque amo profundamente a minha 
ptria e a tortura a desonra.
D. Eugnio Sales
D. Jaime Cmara
D. Agnello Rossi
D. Geraldo Sigaud: Confisses no
se conseguem com bombons.
D. Paulo Evaristo Arns: Padre Giulio e a Sra. Yara Spadini 
foram torturados de uma maneira ignominiosa pela polcia 
poltica (Deops) da nossa capital, como o vigrio episcopal 
da regio sul e ns prprios pudemos verificar pessoalmente.
Indisciplina no dE no havia. Seu chefe era o general Milton 
Tavares de Souza, o Miltinho. Vivia como um monge, sem frias 
nem vida social. Fisicamente frgil, nem sequer fazia o tipo 
do general bulioso. Como chefe do CIE foi um mudo.  dele a 
marca de ferocidade da represso.
Nota do scaneador
Fim das fotos
Fim da nota

xxx
A ratoeira
O poro respondeu  crise da esquerda armada transformando-se 
em seu empresrio. A mquina montada pelos generais atacava 
duas frentes: nu ma, o que restava do inimigo. Na outra, 
combatia quem dizia que desse ini migo restava pouco. Assim 
como  esquerda se desenvolvera a idia segun do a qual o 
dever do revolucionrio era fazer a revoluo, criou-se  
direita o entendimento de que os revolucionrios de 1964 
tinham o dever de er radicar o terrorismo, a subverso e at 
mesmo aquilo que denominavam (sem terem conseguido jamais 
definir) de contestao ao regime
As organizaes envolvidas na luta armada, com suas teorias 
de fo cos, guerrilhas urbanas e vanguardas combatentes, 
entraram em colap so porque tinham a represso atrs e nada 
pela frente. At o incio do se gundo semestre de 1970 
assaltaram cerca de trezentos bancos, carros-fortes e 
empresas. Conseguiram graus variveis de prosperidade. As 
expropria es renderam-lhes por volta de 1,7 milho de 
dlares, e a vAR-Palma res ficou milionria com os 2,6 
milhes do cofre de Adhemar de Barros. Valiam-se de conexes 
externas, ora em Cuba, ora na Arglia, e tambm na China. A 
ALN mandou a Havana o equivalente a um tero de seus qua 
dros. Tiveram o dinheiro, o suporte e o sonho comum do foco 
rural.
Discurso do deputado Clovis Stenzel na Cmara dos Deputados, 
11 de agosto de 1970. Stenzel
no se referiu ao cofre de Adhemar.
2 Denise Rollemberg, O apoio de Cuba  luta armada no Brasi4 
p. 40, informa que a ALN mandou
a Cuba 92 quadros. Minha estimativa  de que tivesse 
trezentos militantes na linha de ao.
192        A DITADURA ESCANCARADA
Enquanto chineses e cubanos estabeleceram suas bases rurais 
to mando a terra em combates, as siglas brasileiras 
estabeleceram-se no cam po pela via legtima da propriedade 
fundiria, comprando fazendas com o dinheiro arrecadado nos 
assaltos. Fora desse padro, ficaram apenas o brizolismo, em 
Capara, e o pc do B, no Araguaia. Nele ficaram o MR-8 no 
Paran, a VAR no vale do Ribeira, e a ALN no sul do Par, 
Gois e Ma ranho. Chegou a haver um engarrafamento de 
projetos guerrilheiros na regio do Bico do Papagaio, para 
onde confluram o pc do B, a ALN e a VAR Palmares. Essa 
coincidncia, com todos os tumultos e dificuldades que pro 
duziu, levou o c do B a atravessar o rio Araguaia, afastando-
se da sua mar gem goiana e do entroncamento rodovirio de 
Imperatriz, no Maranho. Por essa cidade passaram pelo menos 
quatro organizaes com seus pro jetos de foco rural. Com 
exceo de algo como setenta quadros que o pc do B manteve 
espalhados na regio, todas as outras bases foram desbara 
tadas ou neutralizadas pela simples chegada das tropas. Entre 
maio de 1970 e agosto de 71, sem um tiro, trs expedies 
dissolveram pelo menos seis bases da ALN e da VAR, prendendo, 
por baixo, 39 pessoas.
Seria exagero atribuir exclusivamente aos torturadores o 
fechamen to do caminho rural. Pelo medo que espalhou, a 
tortura seccionou a so lidariedade que o radicalismo chique 
do Rio de Janeiro e So Paulo ofe recera ao movimento 
estudantil em 1968 e aos primeiros ativistas armados, mas ele 
 insuficiente para explicar por que todo o movimento armado 
caiu prisioneiro da rotina do gato-e-rato. Como escreveu 
Renato Tapa js, da Ala Vermelha do c do : O gesto ficou 
congelado
3 Os quadros do Pc do B compravam pequenas posses, levando a 
vida dos moradores do lugar.
4 O PC do B estava na regio desde 1966. A VAR tinha terras 
em Imperatriz (MA) e Iguaratins (Go,
na poca). A ALN, em Marab e Conceio do Araguaia (PA), 
Imperatriz (MA) e So Geraldo (Go).
(O Globo, 5 de abril de 1998.) O MNR de Brizola projetou um 
foco em Imperatriz em 1965. (Ver
Flvio Tavares, Memrias do esquecimento, pp. 191 e segs.) A 
ALN de Marighella, em 1968. O Pc do
B manteve seu projeto at 1969. A VAR-Palmares estava na 
regio em 1971. (Ver O Globo de 5 de
abril de 1998.) Para o Bico do Papagaio, entrevista de Elza 
de Lima Monnerat a Romualdo Pessoa
Campos Filho. APRPCF. O Colina planejou estabelecer-se no 
eixo Imperatriz-Araguaia. Ver Agnal do del Nero Augusto, A 
grande mentira, p. 254.
5 O Globo, 5 de abril de 1998.
6 Renato Tapajs, Em cmara lenta, p. 56.
A RATOEIRA        193
O obstculo que barrou o progresso das organizaes armadas 
foi poltico. A violncia do aparelho do Estado pode 
destroar seus adversrios, mas no destroa necessariamente 
seus objetivos. Os pra-quedis tas do general Massu venceram 
a Batalha de Argel, mas a Frana perdeu a Guerra da Arglia, 
entregando o poder aos combatentes que encarcerara. A 
tigrada brasileira ganhou tanto as batalhas do Rio de 
Janeiro e So Paulo como a guerra. Primeiro, porque os 
trabalhadores no se alistaram na revoluo popular. Marcelo 
Ridenti mostrou que mais da me tade das 2592 pessoas com 
ocupao conhecida processadas judicialmente por quaisquer 
tipos de relao com organizaes armadas vinham das camadas 
mdias intelectualizadas da sociedade. Na ALN, para 237 
estudantes, professores e cidados com diplomas de curso 
superior, havia apenas 68 trabalhadores manuais urbanos. Na 
VPR havia catorze professores para treze trabalhadores 
manuais urbanos.
A luta armada fracassou porque o objetivo final das 
organizaes que a promoveram era transformar o Brasil numa 
ditadura, talvez socialista, certamente revolucionria. Seu 
projeto no passava pelo restabelecimento das liberdades 
democrticas. Como informou o PCBR: Ao lutarmos contra a 
ditadura devemos colocar como objetivo a conquista de um 
Governo Popular Revolucionrio e no a chamada 
redemocratizao. Documentos de dez organizaes armadas, 
coletados por Daniel Aaro Reis Filho e Jair Ferreira de S, 
mostram que quatro propunham a substituio da ditadura 
militar por um governo popular revolucionrio (pc do B, 
Colina, PCBR e ALN). Outras quatro (Ala Vermelha, PCR, VAR e 
Polop) usavam sinnimos ou demarcavam etapas para chegar qui 
lo que, em ltima instncia, seria uma ditadura da vanguarda 
revolucio 7 Marcelo Ridenti, O fantasma da revoluo 
brasileira, pp. 68-70. Subtra do total de Ridenti os
processados do pcn, Grupos dos Onze e AP.
8 A esse respeito, ver Daniel Aaro Reis Filho, Ditadura 
militar, esquerdas e sociedade, pp. 53-4 e
70, bem como A revoluo faltou ao encontro, pp. 109-10. Ver 
tambm entrevista de Aaro Reis,
Folha de S.Paulo e O Globo, 23 de setembro de 2001.
9 Daniel Aaro Reis Filho e Jair Ferreira de S (orgs.), 
Imagens da revoluo, p. 175.

194 A DITADURA ESCANCARADA
nria. Variavam nas proposies intermedirias, mas, no 
final, de seu projeto resultaria um Cubo
Ao contrrio do que sucedeu nas resistncias francesa e 
italiana ao nazismo e at mesmo na Revoluo Cubana, onde 
conservadores e an ticomunistas se integraram na luta contra 
a tirania, as organizaes armadas brasileiras no tiveram, 
nem buscaram, adeses fora da esquerda. A sociedade podia no 
estar interessada em sustentar a ditadura militar, mas 
interessava-se muito menos pela chegada  ditadura do 
proletariado ou de qualquer grupo poltico ou social que se 
auto-intitulasse sua vanguarda. A natureza intrinsecamente 
revolucionria das organizaes armadas retirou-lhes o apoio, 
ainda que tnue, do grosso das foras que se opunham ao 
regime. Elas viam na estrutura da Igreja catlica e na 
militncia oposicionista de civis como Tancredo Neves e 
Ulysses Guimares um estorvo no caminho da revoluo. Eles, 
por seu lado, viam na luta armada um estorvo para a 
redemocratizao.
Ainda em 1969 produziram-se na constelao do radicalismo 
esquer dista os primeiros sinais de um processo de reviso 
poltica. Na VPR, dois veteranos do ataque ao quartel-general 
do ii Exrcito e um dos membros do tribunal que condenou  
morte o capito Chandler deram baixa por discordarem da 
nfase nas aes militares. Dois meses depois do seqestro de 
Elbrick, a Ala Vermelha, cujos assaltos remontavam ao 
amanhecerdo surto, j iniciava a rediscusso do terrorismo: 
Partindo da afirmao justa de que a principal forma de luta 
estratgica  a armada, no plano da ttica muitos camaradas 
quiseram reduzir tudo  luta armada. [ Da o desejo de 
transformar o Partido em exrcito, em unidades de 
combate No incio de 1970, quando foi implodido, o PCBR 
achava-se s vsperas de uma ciso. Na defesa do refluxo 
estava a legendria figura de Apolonio de Carvalho, oficial 
republicano na Guerra Civil Espanhola,
10 Termo usado pelo general Leonidas Pires Gonalves em seu 
depoimento, no livro Histrias do
poder, de Alberto Dines, Florestan Fernandes Jr. e Nelma 
Salomo (orgs.), vol. 1: Militares, Igreja
e sociedade civil, p. 353.
11 Daniel Aaro Reis Filho, As organizaes comunistas e a 
luta de classes  1961-68, vol. 1, p.
278. Esse trabalho foi posteriormente publicado, numa verso 
resumida, em forma de livro: A revoluo faltou ao encontro  
Os comunistas no Brasil (So Paulo: Brasiliense, 1990).
A RATOEIRA        195
cavaleiro da Legio de Honra da Frana pelo seu desempenho de
maquisard durante a Segunda Guerra.
As cises que marcaram a histria da esquerda armada 
funcionaram como um processo de separao de graus de 
radicalismo. A cada diviso correspondia o nascimento de uma 
nova sigla, quase sempre composta por um grupo extremado de 
vinte a trinta pessoas. Ao se isolarem, esses grupos 
beneficiavam-se das facilidades de sobrevivncia inerentes ao 
na nismo. Foram muitos os casos de militantes que nos cinco 
anos de du rao do surto terrorista atuaram em mais de uma 
das dezoito organi zaes que pegaram em armas. Lamarca 
esteve em trs (VPR, VAR-Palmares e MR-8). A proliferao de 
siglas deu ao Brasil o recorde mundial de or ganizaes 
envolvidas em atos terroristas contra estrangeiros. Um estu 
do publicado pela Rand Corporation calculou em trinta as 
siglas em operao no mundo. S no Brasil, houve sete.
Enquanto a mobilidade concedida pelo raquitismo mascarava a 
cri se  esquerda, a eficcia da tortura escondia a inpcia 
operacional da mquina repressiva sempre que o antagonismo se 
dava fora dos pores. Isso se verificou tanto em casos em que 
foi testada a qualidade profis sional dos comandos militares, 
como em episdios onde se requereu o adequado planejamento de 
medidas de informaes e segurana. As sim como Marighella 
mobilizava sua mquina de propaganda para co brir o 
encurralamento da ALN, os comandantes militares reciclavam 
fracassos, transformando-os em ameaas. Em agosto de 1969 uma 
tro pa do Corpo de Fuzileiros Navais, estimada em 2 mil 
homens (com se guro exagero), cercou sete ex-marinheiros 
escondidos nas matas da serra do Mar, nas vizinhanas de 
Angra dos Reis. Em uma semana de operaes, prenderam dois e 
perderam cinco.14 O melhor exemplo des 12 Jacob Gorender, 
Combate nas trevas, p. 202.
13 Para as organizaes existentes no mundo, Brian Jenkins e 
Janera Jobnson, International Ter rorism: a Chronology, 1968-
1974, Rand Corporation, maro de 1975, Santa Mnica, p. 5. 
Dessa lis ta constam quatro grupos brasileiros (ALN, VAR, VPR 
e MR-8). Devem-se acrescentar outros trs: Co una (pela morte 
de Von Westernhagen), MRT (pelo seqestro de Hoileben) e a 
REDE (pelos seqestros
de Holieben e do cnsul japons em So Paulo).
14 Avelino Bioen Capitani,A rebelio dos marinheiros pp. 139-
47. Segundo Agnaldo del Nero Augusto,
A grande mentira, p. 304, prenderam s um.
196        A DITADURA ESCANCARADA
sa manipulao da incompetncia deu-se em 1970, quando se 
desco briu a existncia de uma base de treinamento de 
guerrilheiros da VPR nas matas de Jacupiranga, na zona 
montanhosa e miservel do vale do Ribeira, em So Paulo.
Em abril fora capturado no Rio de Janeiro um militante da VPR 
que tinha uma surpresa para o dE: Carlos Lamarca estava em 
algum lugar nas proximidades do quilmetro 250 da BR-116, 
ensinando ttica, tiro ao al vo, desenhando uniformes e 
construindo armadilhas. Onde, precisamen te, no sabia. (O 
capito estava numa pirambeira de oitenta alqueires, cer rada 
e longnqua.) O ii Exrcito finalmente tinha uma guerra nas 
mos. Os generais Canavarro Pereira e Ernani Ayrosa armaram-
se para um grande combate. A partir do dia 21 de abril 
lanaram 1500 homens so bre o vale. Com velhos polgrafos 
americanos, mobilizaram tropas de dez unidades diferentes. 
Eram quase todos recrutas com trs meses de ins truo, sem 
prtica de tiro, muitos carregando mosquetes. Fecharam- se 
estradas, prenderam-se 120 pessoas, varreu-se a serra com 
helicpte ros, e bombardeou-se a floresta. Os guerrilheiros 
eram dezessete, e Lamarca, j informado do perigo, desativara 
as duas bases. Oito foram embora de nibus, misturados  
populao. Para a guerra, restavam nove. Dois foram 
capturados na estrada.
Restavam sete. Marcharam pela mata por trs semanas, at que 
no dia 8 de maio, dizendo-se caadores, entraram num vilarejo 
para alugar o cami nho de um comerciante. Ele fechou 
negcio, ofereceu-lhes comida e des pachou um cavaleiro para 
avisar a polcia. Alertado, o dispositivo militar montou uma 
barreira de PM5 na praa central de Eldorado Paulista. s 
sete
15 Jacob Gorender, Combate nas trevas, pp. 210-1.
16 General Jos Canavarro Pereira, Relatrio da Operao 
Registro, fi. 2. AA.
17 Carlos Alberto Brilhante Ustra, Rompendo o silncio, p. 
83. Jacob Gorender, Combate nas trevas,
p. 213. Coojornal de fevereiro de 1980. Relatrio da Operao 
Registro, fis. 14 e 20.
18 Coojornal de fevereiro de 1980, Os relatrios do Exrcito 
sobre a guerrilha, por Osmar Trin dade e Elmar Bones.
19 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 211, e Ariston 
Lucena, agosto de 1988.
A RATOEIRA 197
da noite, quando o caminho da VPR parou, um policial pediu 
aos seus sete passageiros que descessem com os documentos na 
mo. Eles desceram ati rando, dispersaram a barreira, feriram 
dois policiais e foram em frente.
s dez e meia da noite, a pouco mais de um quilmetro da 
cidade de Sete Barras, os fugitivos foram interceptados por 
uma nova tropa da PM. Eram cerca de trinta homens, divididos 
entre um caminho e uma camionete. Antes que os comboios se 
cruzassem, Lamarca parou o seu e abriu fogo. Quando o 
tiroteio acabou, oito PMS tinham-se enfiado na ma ta, catorze 
estavam feridos, e dezoito renderam-se. O peloto era co 
mandado por um tenente disfarado de soldado. Acertou-se uma 
trgua, e Lamarca conduziu os feridos at um ponto da estrada 
onde pudessem ser resgatados. O tenente da PM, Alberto Mendes 
Junior, de 23 anos, sem nenhuma experincia de combate, 
depois de alojar os seus comandados feridos, voltou ao 
encontro dos prisioneiros. Temia que os tivessem ma tado. No 
revelou que no grupo havia outro oficial. Transformaram- no 
em refm e fizeram-no marchar  frente da coluna. Num corte 
da es trada os guerrilheiros viram-se diante de um comboio, 
abandonaram o caminho e meteram-se no mato. Dali, assistiram 
a uma fuzilaria resul tante de um choque acidental das tropas 
do 62 RI e do Destacamento Lo gstico, que se tomaram por 
inimigas. Saram feridos um tenente-coro nel e um soldado. Na 
confuso, dois guerrilheiros perderam-se. Buscaram ajuda, 
foram delatados e capturados.
Restavam cinco e o tenente Mendes. No dia 10 selou-se a sua 
sorte. Resolveram mat-lo. Nada lhe foi dito, e talvez ele 
nem sequer tenha per cebido que, s suas costas, Yoshitane 
Fujimori, o bel, segurava um fuzil pe lo cano. Com uma 
coronhada na cabea, o tenente caiu como um fardo.
20 Para o rompimento do cerco, Ariston Lucena, agosto de 
1988. Para o nmero de feridos, Re latrio da Operao 
Registro, general Canavarro Pereira, fi. 5.
21 Para o nmero de feridos, Relatrio da Operao Registro, 
general Canavarro Pereira, fi. 5. Para o nmero de 
prisioneiros, Ariston Lucena, outubro de 1988.
22 Para a inexperincia do tenente Alberto Mendes Junior, 
Relatrio Sucinto da Operao Regis tro, fi. 6.
23 Relatrio Sucinto da Operao Registro, fi. 6.
24 Ariston Lucena, outubro de 1988.
198        A DITADURA ESCANCARADA
Morreu a pauladas, com o crnio esfacelado, porque os seus 
assassinos te miam que tiros revelassem o esconderijo. 
Sepultaram-no na mata.
O assassnio do tenente foi um crime. Tropas combatentes no 
ma tam seus prisioneiros. Tropas guerrilheiras tambm no. O 
argumento segundo o qual Mendes devia ser executado para 
evitar-se que revelasse a posio do grupo no tem 
consistncia. Ao lev-lo consigo, em vez de deix-lo com a 
tropa desarmada, Lamarca cruzou a linha que separa o 
guerrilheiro do bandido, transformando o prisioneiro num 
refm. Para ficar dentro da historiografia dos rebeldes, um 
exemplo  a captura pela guerrilha do Che Guevara, em duas 
ocasies diferentes, de um total de trinta militares 
bolivianos. O Che interrogou dois oficiais que falaram como 
papagaios e deixou todos os prisioneiros no mato. Seis meses 
de pois, feito prisioneiro, foi assassinado. Disso derivou em 
boa parte sua lenda herica.
Os cinco fugitivos passaram os quatro dias seguintes 
escondidos de baixo de uma rocha, abrigados da chuva, 
aproveitando a noite para rou bar abacaxis e bananas de um 
pomar. Famintos, maltrapilhos e com as armas enferrujadas, 
vagavam pelas cercanias de Sete Barras.
Fora das matas do Ribeira a guerrilha era outra. Em Braslia 
o lder do governo na Cmara dos Deputados, Raimundo Padilha, 
falava de sete soldados mortos e um oficial aprisionado. A TV 
Globo informava que fora descoberto outro campo de 
treinamento na fronteira com a Argen tina. De Havana a 
agncia Prensa Latina descrevia a vida miservel dos 
bananeiros da regio e arriscava: Os dois mil soldados e 
oficiais que es to no vale do Ribeira talvez tenham de 
combater tambm drntra esses homens
Trs vezes os guerrilheiros tentaram comprar comida, trs 
vezes fo ram delatados. Um sitiante informou  tropa que 
tinha um encontro
25 Che Guevara, Dirio, pp. 77 e 87-8.
26 Jornal do Brasi4 22 de maio de 1970, p. 3.
27 Telegrama da agncia Prensa Latina, de 8 de maio de 1970.
28 Telegrama da agncia Prensa Latina, de 15 de maio de 1970.
29 Segundo o Relatrio Sucinto da Operao Registro essas 
tentativas deram-se no dia 23, num s tio perto da estrada do 
Banco, no dia 25, na Xiboca, e no dia 31, num laranjal.
A RATOEIRA        199
marcado com Lamarca. Tudo certinho. O dia: 26 de abril. A 
hora: sete da manh. O lugar: um coqueiro  margem do rio 
Dois Irmos. A in formao viera rica como o ponto de 
Marighella com os padres. O co ronel Erasmo Dias, que montou 
a emboscada, no foi para o mato. Mandou uma patrulha 
comandada por um tenente, que, por sua vez, man dou na frente 
um mateiro e um soldado vestido de campons. S o te nente 
sabia que estavam atrs de Lamarca. Apareceu um guerrilheiro, 
suspeitou da cilada e gritou: Olha a fora O soldado 
correu, e o tenen te escondeu-se num arrozal. O coronel 
haveria de encontr-lo, branco que nem cera, gaguejando:  
ele, o Lamarca Ao contrrio de Fleury, que foi pessoalmente 
 caa de Marighella, Erasmo no foi para a em boscada. Ao 
contrrio dos policiais que foram para a armadilha da ala 
meda Casa Branca, os soldados enviados pelo coronel no 
sabiam o que estavam fazendo no mato. O tenente que fugiu foi 
acusado de covardia, mas viu-se absolvido pela Justia 
Militar, que concluiu pela covardia do mateiro.
Os cinco fugitivos escapuliam havia 41 dias, tinham os ps 
feridos, e a fome os debilitara. Decidiram que um deles 
arriscaria a estrada. Es colheram o mais jovem, sem ficha na 
polcia. Ele fez sinal para um ni bus da linha Sete Barras
So Miguel e foi-se embora. Deveria voltar no dia seguinte, 
com uma equipe de resgate de So Paulo. No apareceu. Na 
noite de 31 de maio os quatro mosqueteiros resolveram 
arriscar tudo num s lance. Desceram  estrada dispostos a 
atacar o primeiro carro que pas sasse. Pois veio um caminho 
do Regimento de Obuses de Itu. Sara para buscar a gua do 
rancho numa fonte prxima. Pararam-no, renderam a tropa e 
mandaram que seus cinco ocupantes ficassem de cuecas. Joel
30 Marcelo Paiva, No s tu, Brasil, pp. 182 e segs. Trata-se 
de um romance em que Paiva inseriu documentos oficiais, entre 
eles, o Relatrio do Comandante do 22 RO 105, sobre a 
patrulha do rio Dois Irmos, e a sentena do Conselho 
Permanente da 2 Auditoria de Guerra de So Paulo, de julho de 
1981. Para a emboscada e o encontro de Erasmo Dias com o 
tenente, Como a guerrilha, cercada, escapou do vale do 
Ribeira, reportagem de Lus Padovani, Folha de S.Paulo, 27 
de agos to de 1979, e Folha de S.Paulo, 28 de agosto de 1979.
31 Relatrio Sucinto da Operao Registro, fi. 13, e Episdio 
do Seqestro da Viatura em que se Eva diram Lamarca e Outros, 
Anexo n 3 da Operao Registro, assinado pelo general Jos 
Canavarro Pereira, fi. 1.
200 A DITADURA ESCANCARADA
foi na bolia, vestido de sargento, e Ariston Lucena, o 
Rogrio, tomou o volante, como soldado. Poucos quilmetros  
frente, perto de Taquaral, havia uma barreira do Exrcito. Os 
guerrilheiros tinham descoberto a se nha de trfego da tropa, 
mas ela era intil: no se podia passar. Bastaria que o 
caminho permanecesse alguns minutos ali para que se 
descobris se debaixo de sua lona uma tripulao vestindo 
cuecas, mas Rogrio teve uma idia:  ordem do coronel A 
barreira abriu-se.
s 22h30 Lamarca e os trs fugitivos dispersaram-se na 
Marginal do Tiet. A notcia do sumio do caminho com um 
cabo e quatro solda dos s chegaria ao posto de comando  uma 
da madrugada do dia se guinte, oito horas depois da partida 
do grupo para um percurso de oito quilmetros. Ainda fardado, 
Rogrio resolveu realizar um desejo que o perseguia nas 
jornadas de fome enganada com palmitos e foi atrs do san 
duche e do suco de abacaxi da lanchonete Rex, numa esquina 
da aveni da So Joo. Vagou alguns quarteires e deteve-se na 
praa da S, onde um sistema de som transmitia o incio da 
Copa do Mundo de futebol. Jogavam Mxico e Unio Sovitica; 
Ariston Lucena continuou seu com bate torcendo pelos russos.
Terminara a maior mobilizao da histria do ii Exrcito. 
Iniciada numa situao vantajosa, com algum conhecimento das 
posi adver srias, acabou em fiasco. Numa campanha em que os 
fugitivos jamais ti veram a solidariedade da populao, a 
tropa, inexperiente, desmotivada, malvestida e mal calada, 
chegou tarde e saiu cedo. Faltou-lhe comida, serviram-lhe 
raes vencidas, os uniformes descosturaram-se, os cotur nos 
no prestavam. Faltaram gasolina, munio e at cdigos de 
comu nicaes. Abundaram binculos, pois atendeu-se a um 
pedido de cin qenta deles, sem que se tenha sabido a quem 
deveriam ser entregues.
32 Ariston Lucena, outubro de 1988.
33 Para a hora da partida do caminho, Episdio do Seqestro 
da Viatura em que se Evadiram La-
marca e Outros, fi. 1. Para a hora da chegada da notcia ao 
posto de comando, Relat6rio Sucinto da
Opera o Registro, p. 13, e Relatrio da Operao Registro, 
do general Canavarro Pereira, ti. 10.
34 Ariston Lucena, agosto de 1988.
35 Relatrio do general Jos Canavarro Pereira, em Coojornal, 
fevereiro de 1980, pp. 15-26, ou Rela trio da Operao 
Registro, fis. 12-3.
36 Anlise do general Dale Coutinho, em Percival de Souza, 
Autpsia do medo, p. 371.
A RATOEIRA 201
O coronel Erasmo Dias registrou mais tarde que o grupo de 
Lamarca, bem armado, disposto a no aceitar o confronto, teve 
sempre como ob jetivo capital a fuga. A cada guerrilheiro 
correspondiam oitenta solda dos. Mesmo assim Lamarca aceitou 
o combate em duas ocasies e em am bas levou a melhor. 
Enfrentava uma tropa to mal adestrada que pedia documentos a 
suspeitos numa zona de operaes antiguerrilha e dava pas 
sagem a motoristas que se diziam autorizados pelo coronel
Lamarca vagou por So Paulo procurando esconderijos, com a or 
ganizao desmantelada, enquanto o general Orlando Geisel 
reciclava o desastre, convertendo-o em ameaa: 
Continuaremos, com redobrada efi cincia e firme deciso, a 
aperfeioar nosso treinamento para combater os ataques dos 
inimigos de nosso pas
Excludas as aulas de tcnica de interrogatrio do Centro de 
Estu dos de Pessoal, o treinamento de pouco servia. Em abril 
de 1970, de pois de um tiroteio, o GTE capturou com uma 
militante da VAR- Palma res o cronograma do seqestro de uma 
personalidade que passava diariamente pela rua Cndido 
Mendes, nas fraldas do morro de Santa Teresa, no Rio. 
Descobriu-se at mesmo a localizao de um stio em 
Jacarepagu, pronto para receber o hspede. Trs embaixadores 
viviam em Santa Teresa: o nncio apostlico, o argelino e o 
alemo. Ehrenfried von Holleben, 61 anos, veterano da Segunda 
Guerra, alto, magro e re servado, era a bola da vez.
s 19h55 da quinta-feira, 11 de junho, as selees de futebol 
da In glaterr e Tchecoslovquia tinham empatado em O x 0. A 
seleo brasi leira j se classificara para as oitavas-de-
final da Copa de 70. Batera os in gleses por 1 x O (gol de 
Jairzinho) e, na vspera, passara pela Romnia por 3 x 2. O 
Brasil estava com o corao no Mxico. Na Baro de Mes
37 Erasmo Dias, Reflexes de uma vida, p. 41.
38 Telegrama da agncia France Presse, de 25 de agosto de 
1970.
39 O cronograma estava com Maria do Carmo Brito, presa no 
tiroteio que resultou na morte de
seu marido, Juarez Guimares de Brito. Judith Lieblich 
Patarra, lara, pp. 382-3. Veja, 15 de julho
de 1970, e Alfredo Sirkis, Os carbonrios, p. 213.
202 A DITADURA ESCANCARADA
quita, um torturador avisava: Se no falar em dez minutos, 
vai morrer hoje. Eu no quero perder o jogo Daniel, 
dirigente da VPR, encontra va-se numa camionete, numa curva 
da rua Cndido Mendes. Eduardo Coilen Leite, o Bacuri, 
veterano do ataque ao hospital do Cambuci, pos- tara-se a 
poucos metros de distncia. Sonia Lafoz, veterana do assalto 
ao cofre de Adhemar de Barros, era a moa que parecia estar 
namorando. Tinha consigo uma pistola Luger. Von Holieben 
vinha num Mercedes. Seu dispositivo de segurana compunha-se 
de dois agentes da Polcia Fe deral num carro de cobertura e 
de um terceiro, que viajava no banco da frente do automvel 
do embaixador.
Nessa poca, o cnsul americano no Rio de Janeiro, Clarence 
Boons tra, j circulava num carro blindado, com escolta do 
FBI. Os generais dis punham de segurana da Polcia do 
Exrcito e os almirantes, de fuzilei ros navais. Apesar de se 
saber havia dois meses que a VAR planejav um ataque na rua 
Cndido Mendes, o reforo da segurana de Holieben li mitara-
se a uma escolta de agentes federais, quase todos sados anos 
an tes dos quadros da polcia e da falecida companhia de 
bondes.
A camionete abalroou o Mercedes, e os terroristas 
identificaram-se atirando. Varridos por uma rajada de 
submetralhadora INA, os agentes do carro de cobertura no 
responderam ao fogo. Chega, chega gritou um deles antes de 
abrir a porta, rendido. O guarda-costas de 54 anos que 
viajava com o embaixador tentou sacar a arma, e mataram-no 
com um tiro no peito. Holleben, que se deitara no cho do 
carro, foi levado para uma rua do Rio Comprido. L, puseram-
no dentro de uma caixa e em barcaram-no numa Kombi. A viagem 
terminou numa casa de subrbio, onde Helga, uma guerrilheira 
encapuzada, serviu-lhe ch, salgadinhos e Valium 542
O seqestro do embaixador alemo recolocou o terrorismo na ri 
balta, sugerindo, como sucedera menos de um ano antes com a 
captura
de Elbrick, a existncia de uma forte estrutura clandestina. 
Era o contr
40 Maria Helena Malta, Brasil, um sonho intenso, p. 144.
41 Luiz Maklouf Carvalho, Mulheres que foram  luta armada, 
p. 380.
42 Alfredo Sirkis, Os carbonrios, p. 221.
A RATOEIRA 203
rio. A direo da VPR fora dissolvida, e o comando das 
operaes ficara com Danie4 um mineiro de 23 anos que 
escapara do vale do Ribeira, em cuja mata marchava com um 
exemplar de Grande serto, veredas na mo chila. Ele prprio 
explicaria aos comandados: Eu sou um cara despre parado 
demais da conta, pra esse negcio de comando. Mas sobrei, eu 
A base da organizao passava pouco de uma dezena de pessoas, 
mobi lizada em torno de uma nica idia: um seqestro para 
soltar presos. Sem estrutura, a VPR abandonara um plano 
grandioso em que seqestraria um ministro, um embaixador e um 
milionrio em troca de duzentos presos, e se associara a uma 
pequena confederao de siglas para objetivo mais modesto.
Para o seqestro de Holieben, o comando dispunha de uma ca 
mionete (para abalroar o Mercedes), um Opala (para 
transportar o em baixador) e uma Kombi (para lev-lo, dentro 
do caixote, ao esconderi jo). Nada mais. A camionete e o 
Opala seriam queimados na operao. Restava a Kombi para a 
cena final da dispensa do embaixador. Os seqes tradores 
exigiram a libertao de quarenta presos, o governo aceitou e 
embarcou-os para a Arglia. Entre o tiroteio da rua Cndido 
Mendes e o desembarque do Boeing da Varig no aeroporto de 
Argel passaram-se quatro dias. A seleo vencera as quartas-
de-final na Copa do Mxico:
Brasil 4, Peru 2. Faltava s libertar o embaixador, mas a 
Kombi fora dei xada num local de estacionamento proibido e, 
rebocada, estava no de psito do Detran. Durante o cativeiro 
de Holieben, a maior preocupa o de seus seqestradores foi 
conseguir um automvel para tir-lo do esconderijo. Bacuri 
pensou em trazer um carro de So Paulo. Os poucos contatos do 
Rio de Janeiro negaram fogo.
Na segunda-feira, dia 16, o embaixador j sabia que os presos 
esta vam na Arglia. Vestiu o terno, gravata de seda, sentou-
se na cama e es perou o fim do expediente. Houve uma 
tentativa pela manh, outra  tar de e uma terceira  noite, 
mas nada de carro. A Kombi prometida por Bacuri podia demorar 
ainda alguns dias. Chegou-se a admitir a hiptese de os
43 Herbert Daniel, Passagem para o prximo sonho, p. 55.
44 Para o triplo seqestro, Judith Lieblich Patarra, lara, p. 
406.
45 Alfredo Sirkis, Os carbonrios, pp. 23 1-2.
204        A DITADURA ESCANCARADA
terroristas abandonarem o esconderijo com o prisioneiro 
dentro, mas a idia foi descartada, por desmoralizante. 
Somos uns guerrilheiros de mer da reclamava Alfredo Sirkis, 
o Felipe. No houve jeito, e a desova ficou para o dia 
seguinte, anunciando-se ao mundo que, devido a problemas 
tcnicos, o embaixador continuava preso. Holieben mantivera 
a compos tura durante o cativeiro, recusando-se a autografar 
manifestos dos cap tores, e agora exigia que o soltassem. O 
embaixador saiu do aparelho num Volkswagen azul de codinome 
Natlia. O carro no tinha documentao, e era to perigoso 
utiliz-lo que na vspera do seqestro decidiram in cendi-
lo, mas no havia nada melhor  mo. Libertado 23 horas 
depois da chegada dos presos a Argel, Hoileben despediu-se 
com uma consta tao: Pensei que vocs estivessem melhor 
organizados
O regime tinha cerca de quinhentas pessoas nos seus crceres. 
Mais da metade delas eram estudantes, com idade mdia de 23 
anos. Havia mais militantes presos do que soltos. Alm disso, 
mudara a natureza das aes. Do atentado de Guararapes, em 
julho de 1966, a setembro de 69, para cada seis assaltos a 
bancos, casas de armas e garagens, pode-se es timar que se 
deram outras quatro aes ofensivas, sem propsitos finan 
ceiros ou logsticos. Da captura de Elbrick, em setembro de 
1969,  de Holleben, em junho de 70, o percentual de 
operaes ofensivas caiu  metade. De cada dez aes pelo 
menos oito buscavam dinheiro, armas, papis de identidade ou 
mesmo perucas. As aes ofensivas mais es petaculares, trs 
seqestros de diplomatas e de oito avies, tiveram lu 
minosidade publicitria, mas, na essncia, destinavam-se a 
tirar gente da cadeia ou do pas.
Mesmo na caa aos fundos a safra ia mal, pois o reforo da 
guarda
dos bancos dificultara as expropriaes De maro a abril de 
1970 as-
46 Alfredo Sirkis, Os carbonrios, p. 239.
47 Idem,p.241.
48 Para o total de quinhentas e a percentagem de jovens, 
entrevista do general Antonio Carlos
Muricy ao Jornal do Brasil de 19 de julho de 1970.
49 Levantamento do autor.
1
A RATOEIRA        205
saltaram-se 36 deles, mas entre junho e julho esse nmero 
caiu para onze. O mesmo sucedeu com os ataques a carros 
pagadores, doze entre janeiro e maro e seis entre abril e 
julho. Para contornar os obstculos, os roubos foram 
redirecionados para casas comerciais (trs de janeiro a maro 
e dezenove de abril a julho). Em maio a preferncia foi para 
os su permercados, e em julho dez deles haviam sido 
expropriados, com um rendimento geralmente pouco superior a 
mil dlares. Roubavam-se in clusive depsitos de sorvetes e 
postos telefnicos.
Contidas, as falanges da luta armada entraram numa fase de 
regres so tpica do metabolismo do gnero. Nela, as 
organizaes fecham-se em torno de poucas dezenas de quadros 
e trocam grandes idias polti cas por audaciosos lances 
armados. Seus militantes resistem, unidos pela perseguio, 
graas  leveza do grupo,  experincia militar e a uma no va 
forma de compromisso poltico: a ratoeira do traidor. Trata-
se de uma situao em que cada tentativa de moderao  
confundida com deser o e covardia. Disso resulta o 
predomnio da militncia extremada, ini bindo e expulsando as 
concepes mais moderadas. As tinturas romn ticas que 
acompanhavam a idia de luta armada em 1968 estavam 
substitudas por cores apocalpticas.
Numa reunio em Pedra de Guaratiba, em maio de 1970, quando a 
ALN se resumira a catorze militantes no Rio de Janeiro, um de 
seus diri gentes pediu aos companheiros um juramento: Como 
disse o Manga, temos de continuar at o fim, at o ltimo 
homem, mesmo sabendo que isso pode no dar em nada. A idia 
era lutar at o fim Que fim?, es creveria mais tarde o 
Daniel da VPR.
Havia duas ratoeiras no Brasil do presidente Medici. Numa 
cara a
esquerda. Na outra, a direita. Em ambos os casos a pergunta 
era a mes ma: que fim?
50 Jornal do Brasil, 14 de dezembro de 1970, p. 15.
51 Expresso cunhada por Brian Jenkins, ex-diretor do Centro 
de Estudos sobre Terrorismo e Vio lncia Poltica da Rand 
Corporation. Brian Jenkins, dezembro de 1989.
52 Reinaldo Guarany, A fuga, p. 37.
53 Herbert Daniel, Passagem para o prximo sonho, p. 75.
O Milagre e a mordaa
Grson passou a Pel pelo alto, e o Rei cabeceou para 
Jairzinho. Ele en fiou a bola na rede, correu para a lateral, 
saudou a torcida, ajoelhou-se e fez o sinal-da-cruz. Faltavam 
nove minutos para o fim do segundo tem po, mas com o placar 
de 3 x 1 no estdio Azteca da Cidade do Mxico a parada 
estava decidida. A Copa do Mundo era brasileira. O caneco de 
ouro macio que vinte anos antes, em 1950,0 uruguaio Obdulio 
Varela ergue ra no Maracan diante de 200 mil brasileiros 
acabrunhados, acabava de ser literalmente conquistado pelos 
canarinhos. Trs vezes campeo mun dial de futebol, o Brasil 
ficara com a taa. O pas cantava:
Noventa milhes em ao,
pra frente, Brasil
do meu corao. [
Salve a seleo.
Nunca se vira algo igual. Fora a primeira Copa transmitida ao 
vi vo, e as multides vitoriosas iam s ruas com os versinhos 
patriticos que empanturravam as transmisses dos jogos. 
Medici abriu os jardins do palcio da Alvorada e saiu em 
mangas de camisa, com uma bandei ra na mo e uma bola no p. 
Militantes da ALN atiravam de Winches
1 Veja, 19 de julho de 1970, A imagem do sucesso p. 20.
208        A DITADURA ESCANCARADA
ter das janelas de um aparelho em Copacabana, confundindo os 
dispa ros com os estouros de rojes. Falava-se de um Brasil 
Grande, Bra sil Potncia Distribuam-se adesivos com a 
inscrio Brasil, ame-o ou deixe-o Pas, futebol, Copa, 
seleo e governo misturavam-se num gran de Carnaval de 
junho.
Vivia-se um ciclo de crescimento indito na histria 
nacional. Des de 1968 a economia mostrara-se no s 
revigorada, mas tambm reorien tada. O ano de 1969 fechara 
sem deixar margem a dvidas: 9,5% de cres cimento do Produto 
Interno Bruto, 11% de expanso do setor industrial e inflao 
estabilizada pouco abaixo dos 20% anuais. Depois de quinze 
anos de virtual estagnao, as exportaes chegaram a 1,8 
bilho de d lares, com um crescimento de 23% em relao ao 
ano anterior. A taxa de poupana bruta ficara em 2 1,3%, 
ndice jamais atingido e jamais iguala do. A indstria 
automobilstica estava a pleno vapor, e a construo ci vil 
entrara em tal atividade que faltou cimento. Os nmeros do 
primei ro semestre de 1970 indicavam que a prosperidade 
prosseguiria (fechou o ano com um crescimento de 10,4%). O 
Brasil tornara-se a dcima eco nomia do mundo, oitava do 
Ocidente, primeira do hemisfrio sul.
A oposio, que fora s passeatas de 1968 com faixas pedindo 
De mocracia e desenvolvimento, o que sugeria que sem uma 
no haveria o outro, vira-se diante de um governo que 
oferecia ditadura e progresso. A consistncia da exploso 
econmica podia ser aferida tambm por in dicadores como o 
aumento das importaes de mquinas e equipamen tos (23%) e 
do consumo de energia eltrica (10%). As montadoras do ABC 
paulista haviam posto na rua 307 mil carros de passeio, quase 
o tri plo de sua marca em 1964.6 Os trabalhadores tinham em 
suas casas 4,58 milhes de aparelhos de televiso, contra 
1,66 milho em 1964. Um em
2 Reinaldo Guarany, A fuga, p. 15.
3 Estatsticas histricas do Brasil.
4 Para uma viso desses resultados, Jos Pedro Macarini, Um 
estudo da poltica econmica do
Milagre Brasileiro (1969-1973), pp. 38-42.
5 Anurio estatstico do Brasil  1971.
6 Helen Shapiro, A primeira migrao das montadoras: 1956-
1968, em DeJKa FHC A rein veno dos carros, organizado por 
Glauco Arbix e Mauro Zilbovicius, p. 66.
7 Srgio Mattos, A televiso no Brasil: 50 anos de histria 
(1950-2000), p. 95.
O MILAGRE E A MORDAA 209
cada dois brasileiros achava que o seu nvel de vida estava 
melhorando, e sete em cada dez achavam que 1971 seria um ano 
de prosperidade eco nmica superior a 70.8 Era o Milagre 
Brasileiro. O sculo xx terminaria sem que o pas passasse 
por semelhante perodo de prosperidade.
O governo festejava o progresso associando-o ao imaginrio do 
im pvido colosso, gigante pela prpria natureza. Potncia 
nuclear? O Mi nistrio de Minas e Energia revelara a 
descoberta de excepcionais jazidas de urnio no Nordeste e 
anunciara a compra de uma usina atmica, a ser montada em 
Angra dos Reis. Integrao nacional? Medici determi nara a 
construo da rodovia Transamaznica, que rasgaria 2280 quil 
metros de mata tropical, ligando o Maranho ao Acre. Gigante 
sobera no? Estendeu-se a duzentas milhas da costa o limite 
das guas territoriais brasileiras. Tecnologia nacional? A 
Embraer recebera 230 milhes de d lares para fabricar o 
primeiro jato brasileiro. Obras histricas? Acelerou- se a 
abertura dos metrs do Rio de Janeiro e de So Paulo, e 
anunciou- se o incio da construo da ponte que atravessaria 
a baa de Guanabara, ligando a praia do Caju a Niteri.
Beneficiadas por uma sucesso de estmulos fiscais e 
tributrios, as bolsas de valores pareciam fbricas de 
dinheiro. Num s ms de 1970 as transaes feitas no prego 
do Rio  cerca de 2 bilhes de cruzeiros  foram dez vezes 
superiores a todo o movimento do ano de 68. O ndice Bovespa 
triplicou em apenas dez meses e fechou o ano de 1971 com um 
incremento real de 124,7%.b0 Havia aes cujo valor dobrava 
num s dia. Cotas de fundos de investimento chegavam a render 
50% ao ms. Um ci dado que tivesse aplicado 1600 cruzeiros 
novos em aes do Banco do Brasil no ms de agosto de 1968, 
chegara a setembro de 69 com uma car teira cotada a 5 mil 
cruzeiros novos.
8 Veja, 6 de janeiro de 1971, p. 20, pesquisa do Instituto 
Gailup. Nessa pesquisa, s 7% dos entre vistados diziam que 
seu nvel de vida estava caindo.
9 Para o movimento de 1968, Veja de 22 de julho de 1970, pp. 
30-7. Para o movimento de junho de 1970, Veja de 22 de julho 
de 1970. Ver tambm Anurio estatstico do Brasil  1971, p. 
447.
10 Em 1971 o crescimento real do IBV (bolsa do Rio) foi de 
180,9%, e o do Bovespa (bolsa de So Paulo) ficou em 124,7%. 
John H. Welch, Capital markets in the development process  
The case of Brazil, pp. 93-4.
11 Veja, 20 de agosto de 1969, p. 16, e 22 de julho de 1970, 
pp. 30 e 70.
210 A DITADURA ESCANCARADA
Os dados do censo de 1970, que acabavam de ser coletados, 
informa riam que a renda nacional passara por uma profunda 
modificao nos l timos dez anos. A faixa dos 5% mais ricos 
aumentara sua participao na renda em 9% e detinha em suas 
mos 36,3% da renda nacional. J a fai xa dos 80% mais pobres 
diminura sua participao em 8,7% em relao ao que tinha em 
1960 e ficara com 36,8% da renda. Dada a expanso da 
economia, isso indicava que os ricos ficaram mais ricos, mas 
no signifi cava que os pobres ficaram mais pobres. Depois de 
uma queda vertigino sa ocorrida entre 1964 e 1967,0 salrio 
mnimo declinara suavemente, en quanto a renda dos 
trabalhadores na indstria se mantivera em alta sensvel e 
contnua. Alm disso, em 1971 Medici criara o Prorural, 
estruturando o sistema de aposentadoria dos trabalhadores no 
campo. Concedia meio salrio mnimo mensal a todo lavrador ou 
pequeno proprietrio que completasse 65 anos. Ampliado nos 
governos seguintes, haveria de se trans formar no maior 
programa de renda mnima do pas, um dos maiores do mundo. 
Tudo isso num regime de pleno emprego.
Ao xito econmico no correspondeu progresso poltico algum. 
Pelo contrrio, entendeu-se que a ditadura era, se no a 
causa, indiscutivel mente a garantia da prosperidade. O 
controle da imprensa desempenhou um papel essencial na 
cantata desse Brasil Grande e na supresso dos conflitos 
que abrigava. Quando Pel cabeceou para Jairzinho, esse pro 
cesso de controle j estava concludo, depois de seis anos de 
truculncias, manhas e sedues.
Desde 1964, a imprensa fora o nico setor de atividade 
econmica contra o qual o regime praticou e permitiu 
agresses patrimoniais. O jor nal ltima Hora (110 mil 
exemplares de tiragem, no Grande Rio, onde concentrava sua 
circulao), nico dirio a defender o governo Goulart na 
edio de 12 de abril, teve as suas sedes do Rio e do Recife 
invadidas
12 Paul Singer, 0 Milagre Brasileiro  Causas e 
conseqncias, Cadernos Cebrap, n 6, 1972,
So Paulo.
13 Donald V. Coes, Macroeconomic crises, policies, and growth 
in Brazil  1964 -90, p. 134.
14 Lei Complementar n 11, de 25 de maio de 1971, artigo 42
O MILAGRE E A MORDAA 211
e depredadas. Seu fundador, o jornalista Samuel Wainer, ainda 
estava asi lado na embaixada do Chile quando recebeu a 
primeira proposta de compra do jornal, vinda de um grupo de 
empreiteiros de obras pbli cas. Todos os semanrios 
esquerdistas foram fechados, e em 1966 fra cassou at a 
costumeira ttica do Partido Comunista de reaparecer com um 
novo ttulo e diretores notveis. A Folha da Semana, seu 
semanrio de fachada liberal, foi fechada pela Marinha.
Durante o governo Casteilo Branco a coero do regime teve a 
mar ca da ambigidade do marechal. Atravs dos instrumentos 
da ditadura, jornalistas foram cassados e perseguidos em 
inquritos intimidadores. Ain da assim, a soma de todas as 
presses que exerceu sobre jornais e emis soras  
insuficiente para eliminar o fato de que preservou uma 
liberda de de imprensa seletiva, graas  qual o Correio da 
Manh conduziu a campanha contra a tortura. O mesmo se pode 
dizer do marechal Costa e Silva, em cujo governo Carlos 
Marighella publicara o texto Algumas questes sobre as 
guerrilhas na solene edio dominical do Jornal do Brasil. 
A ambigidade terminou na noite de 12 de dezembro de 1968, 
quando o general Jayme Portella de Meilo determinou  Polcia 
Federal que se preparasse para calar as emissoras de rdio e 
televiso e enviar cen sores aos jornais do Rio e de So 
Paulo. Era o preldio da missa negra que decretaria o AI-5.
Em Braslia, a blitz do general Portella resultou na priso 
de jorna listas, como Carlos Castello Branco, do Jornal do 
Brasil, o maior cronis ta poltico do pas. No Rio a 
meganha do DOPS invadiu a redao do Correio da Manh e 
levou, algemado, seu diretor. Foram atos de vio lncia 
destinados muito mais a garantir o sucesso do golpe do que a 
as segurar a permanncia do regime. No dia seguinte, no Rio 
de Janeiro e em So Paulo, os oficiais e delegados remetidos 
s redaes carregavam consigo pequenos manuais de servio 
nos quais se podia ler o que o re
15 Samuel Wainer, Minha razo de viver, p. 262.
16 Jornal do Brasil, 15 de setembro de 1968.
17 Jayme Porteila de Melio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 644 para a censura s emis soras e p. 647 para os 
censores nas redaes.
18 Pery Cotta, Calandra, p. 22.
212        A DITADURA ESCANCARADA
gime queria da imprensa. O manual carioca, assinado pelo 
general Ce sar Montagna de Souza, da 1 Regio Militar, 
informava que o objetivo da censura era obter da imprensa 
falada, escrita e televisada o total res peito  Revoluo de 
Maro de 1964, que  irreversvel e visa a consoli dao da 
democracia Para isso, determinava:
No devero ser divulgadas notcias que possam:
 propiciar o incitamento  luta de classes [ 1
 comprometer no exterior a imagem ordeira e econmica do 
Brasil,
 tumultuar os setores comerciais, financeiro e de produo [
 veicular atividades subversivas, greves ou movimentos 
operrios.
O manual paulista informava:  as notcias devem ser 
precisas, versando apenas sobre fatos consumados [ publicar 
notcias so bre atos terroristas, exploso de bombas, 
assaltos a bancos, roubos de dinamite, roubos de armas, 
existncia, formao ou preparao de guerrilhas em qualquer 
ponto do territrio nacional, ou sobre movi mentos 
subversivos, mesmo quando se trate de fato consumado e pro 
vado.
A primeira vtima da censura fora O Estado de S. Paulo. Quase 
vin te horas antes da assinatura do AI-5, o chefe da Polcia 
Federal, general Silvio Correia de Andrade, entrou nas 
oficinas do velho matutino e, de pois de ler o seu editorial, 
intitulado Instituies em frangalhos, man dou parar as 
mquinas. Era um texto fatalista, indignado. Punha um de do 
na ferida e outro na direo de Costa e Silva. Constatava a 
caducidade do artificialismo institucional que pela presso 
das armas foi o Pais obrigado a aceitar e lastimava que as 
coisas fossem piorar, no porque elas se tenham em si mesmas 
deteriorado, mas em conseqncia dos er ros praticados por 5. 
Exa? Acusava o marechal de ter tentado governar o pas como 
se comandasse um quartel, vivendo num mundo irreal, de
19 Resistncia, 21 de janeiro de 1969, p. 3.
20 Idem.
O MILAGRE E A MORDAA 213
falsa euforia. Seu texto sara da pena de Julio de Mesquita 
Filho. Tpi co representante do conservadorismo paulista, o 
Dr. Julinho dirigia o jor nal de sua famlia desde 1927. 
Estivera na Revoluo de 1930 (ganhan do) e na de 32 
(perdendo). A ditadura de Vargas o levara ao presdio da ilha 
Grande e ao exlio. Em 1964, repassara aos militares o 
primeiro pro jeto de supresso das liberdades pblicas, com o 
ttulo de Ato Institucio nal. Conspirara contra Joo Goulart 
tomando mais riscos pessoais e pa trimoniais que todos os 
generais de 1968. Vendo-se calado, decidiu no escrever mais. 
Morreria sete meses depois, aos 77 anos, sem se reencon trar 
com a liberdade de imprensa.
No Jornal do Brasil os censores  oficiais inexperientes da 
ESAO  viram-se ludibriados por um estratagema concebido pelo 
editor-chefe Al berto Dines. O noticirio informava que 
ontem foi o dia dos cegos e a previso meteorolgica, no 
canto superior esquerdo da primeira pgina, dizia: Tempo 
negro. Temperatura sufocante, o ar est irrespirvel, o pas 
est sendo varrido por fortes ventos Toda a edio do jornal 
refletia um clima de regresso, de absurdo. O governo 
respondeu no dia seguin te. Evitou brincadeiras com o tempo 
proibindo que as agncias interna cionais transmitissem 
boletins meteorolgicos para o exterior. Pressio nou o Jornal 
do Brasil prendendo um de seus diretores, o embaixador Jos 
Sette Cmara, ex-governador do estado da Guanabara, que nada 
tinha a ver com a histria. Em sinal de protesto a condessa 
Pereira Carneiro, uma catlica fervorosa que raramente se 
envolvia com o cotidiano poltico do jornal, decidiu 
suspender a sua circulao enquanto durasse a priso do 
embaixador. Sette foi solto, e o JB foi s bancas. Na 
primeira semana de janeiro os censores comearam a se retirar 
das redaes.
21 O Estado de S. Paulo, 13 de dezembro de 1968, em O Estado 
de S. Paulo, 12 de dezembro de 1998.
22 Jos Stacchini, Maro 64, pp. 22-4.
23 Zuenir Ventura, 1968 O ano que no terminou, pp. 288-9. A 
esse respeito, ver os depoimen tos de Alberto Dines, Carlos 
Lemos e M. E do Nascimento Brito, em Jornal do Brasil de 13 
de dezem bro de 1998, Caderno Especial.
24 Claude Erbsen, diretor do escritrio da Associated Press 
no Brasil, dezembro de 1992.
25 Heleno Cludio Fragoso, Advocacia da liberdade, p. 62, 
para a retirada dos censores do Correio
da Manh.
214 A DITADURA ESCANCARADA
Melhor notcia no havia, e no prdio do velho centro da 
cidade onde funcionava o Correio da Manh, Niomar Moniz Sodr 
Bittencourt, sua proprietria, determinou que a edio do dia 
7 de janeiro de 1969 sasse com a manchete Abolida a censura 
 imprensa Tinham-se rodado 20 mil jornais quando foram 
apreendidos a tiragem, Niomar e, novamen te, o redator-chefe 
Osvaldo Peralva. Enquanto o governo prendeu jor nalistas como 
Peralva, Carlos Casteilo Branco e Alberto Dines (detido ao 
paraninfar uma turma de jornalistas da puc), funcionaram 
mecanismos de presso inslitos, porm lgicos: havendo um 
conflito entre um po der ditatorial e um jornal, usava-se 
fora sobre aqueles que o escreviam ou o editavam. A priso 
de Niomar sinalizava uma mudana de compor tamento do 
governo: a intimidao fisica dos proprietrios.
Niomar fora a criadora do Museu de Arte Moderna do Rio de 
Janei ro. O romancista Guimares Rosa chamava-o de 
niomarium, e o poe ta Manuel Bandeira, apelidara-a de 
Niomartemoderna At 1963, pas sara a maior parte do tempo 
em Paris, onde vivia com o marido. Aos 52 anos, era uma 
mulher temperamental e inexperiente. Pagava melhor  
cozinheira de sua casa do que ao poeta Carlos Drummond de 
Andrade. Administradora inepta, colheu na luta pelas 
liberdades pblicas amar guras pessoais que lhe deram 
grandeza poltica. Em novembro de 1968, acompanhada por um 
ministro do governo Castelio, estivera na recep o que a 
rainha Elisabeth da Inglaterra oferecera a bordo do iate 
Britannia, ancorado na baa de Guanabara. Vestia um longo 
bordado, sem cintura, como a poca pedia. No dia seguinte  
sua priso, Niomar foi levada para o depsito So Judas 
Tadeu, crcere de ladras, toxicmanas e prostitutas. L, 
quiseram obrig-la a vestir o uniforme de presidiria. 
Tomaram-lhe
26 Heleno Cludio Fragoso, Advocacia da liberdade, p. 62, e 
Resistncia, 21 de janeiro de 1969.
27 Para Guimares Rosa, Jeferson de Andrade e Joel Silveira, 
Um jornal assassinado, p. 51. Para
Bandeira, Mafu do malungo Manuel Bandeira  Poesia e 
prosa, p. 438.
28 Ruy Castro, O Anjo Pornogrfico, p. 362.
29 Dois ex-redatores-chefes do Correio deram suas opinies 
sobre Niomar a Jeferson de Andra de e Joel Silveira, Um 
jornal assassinado, pp. 108 e 118. Luiz Alberto Bahia: E...] 
Niomar no ti nha capacidade para dirigir o jornal. Janio de 
Freitas: No sou adepto da teoria segundo a qual
foi o regime militar que fechou o Correio da Manh. [ Foi m 
administrao mesmo
30 Jeferson de Andrade e Joel Silveira, Um jornal 
assassinado, pp. 46 e 283.
O MILAGRE E A MORDAA
215
os direitos polticos, cortaram-lhe a propaganda oficial 
(equivalente a mais de um tero do conjunto do mercado 
publicitrio) e suspenderam a cir culao do Correio por 
cinco dias. Colocada em regime de priso do miciliar, foi 
libertada em maro, um dia depois de a empresa ter pedido 
concordata preventiva. Niomar cedeu o controle do jornal, 
arrendan do-o a um empreiteiro, e despediu-se com um artigo 
em que dizia: Con denada ou posta em liberdade, no tenho, 
no momento, mais lugar nes te pas para continuar a minha 
misso. Viramos todos mquinas  que pensam?  mas s podendo 
transmitir o que nos  permitido. Do con trrio,  expor-se a 
todas as torturas fsicas e morais, como as que pas sei. 
Estava quebrada a espinha do Correio, o jornal que por 
cinqenta anos confundira-se com a elite liberal do Rio de 
Janeiro.
A mo que apedrejava tambm afagava. Em maro o ministro Del 
fim Netto levara ao presidente Costa e Silva um decreto 
isentando as em presas de rdio e televiso do pagamento de 
impostos sobre equipamen tos importados. Essa franquia foi 
concedida ao mesmo tempo que se renovava o parque de 
telecomunicaes do pas. Havia sido inaugura da a estao 
receptora de sinais de satlites de Itabora, e em fevereiro 
de 1970 o pas praticamente interligava-se por um sistema de 
transmis so por microondas. O beneficio estava ao alcance de 
todas as emisso ras, mas para a TV Globo, surgida em 1965, 
foi um duplo incentivo. Tec nicamente, significou um pulo-do-
gato, pois permitiu que ela se modernizasse, transformando-se 
na primeira rede nacional de televiso. Financeiramente, alm 
de reequip-la ao dlar oficial, permitiu que a diferena 
cambial atenuasse o custo da liquidao de um contrato com o 
grupo americano Time-Life.
No mesmo dia da concesso da graa fiscal s emissoras de 
rdio e
televiso, a polcia deteve no aeroporto do Galeo o 
proprietrio do Jor
31 PErE o valor do corte da publicidade oficial, Retirada, 
editorial do Correio da Manh de 11
de setembro de 1969.
32 Jeferson de Andrade e Joel Silveira, Um jornal 
assassinado, pp. 284 e 287
33 Correio da Manh, 11 de setembro de 1969, em Paolo 
Marconi, A censura poltica na impren sa brasileira  
1968/1978, p. 41.
34 Jos Bonifcio de Oliveira Sobrinho, janeiro de 1991. Para 
essa transao, ver tambm a entre vista de Joe Wallach, 
diretor da TV Globo,  revista Imprensa de maro de 1990, pp. 
46-50.
216 A DITADURA ESCANCARADA
nal do Brasil, Manoel Francisco do Nascimento Brito, que 
voltava de uma reunio da Sociedade Interamericana de 
Imprensa, na Cidade do Mxi co, onde criticara suavemente a 
censura. Interrogaram-no por quatro ho ras. No dia seguinte 
seu jornal no registrou o episdio. Mais tarde ele di ria: 
Ningum bota a cabea de fora porque os perigos so grandes
Cada um a sua maneira, todos os proprietrios de empresas 
jorna lsticas captaram os sinais de sanes e isenes que o 
regime enviou. A imprensa que gritara Basta e Fora a 
Jango, denunciara torturas no go verno de Castello e se 
opusera ao AI-5 em 1968, foi sedada atravs da re formulao 
dos termos do tradicional processo que regia suas relaes 
com o poder. Abriram-se as portas do cu e do inferno, O 
ministro da Fazenda exercitava a capacidade de negociar 
isenes e financiamentos, enquanto o da Justia ganhava 
poderes para determinar investigaes sobre a organizao e 
o funcionamento de empresas jornalsticas [ es pecialmente 
quanto  sua contabilidade, receita e despesa
Samuel Wainer, transformado pela propaganda do regime em 
arqu tipo da pena janguista, negociara em Paris a venda da 
ltima Hora pau lista ao proprietrio da Folha de S.Paulo, 
Octavio Frias de Oliveira. Aos 57 anos, o Profeta, como era 
chamado por Getulio Vargas, regressara ao Brasil pensando em 
recuperar a ltima Hora do Rio de Janeiro. Batalhou o quanto 
pde para conquistar a confiana dos comandantes militares, 
at que foi chamado ao i Exrcito e um coronel lhe pediu que 
publicas se na primeira pgina de seu jornal um poema 
vencedor de um concur so de aspirantes, rplica a 
Caminhando, de Geraldo Vandr. Ele dizia:
Tu, Vandr, que andas pela noite
No chopinho do Castelinho,
Que sabes de nossa Ptria?
35 Telegrama da agncia Reuters, de 5 de maio de 1969.
36 Paolo Marconi, A censura poltica na imprensa brasileira  
1968/1978, p. 58, citando o Jornal
do Brasil de 27 de janeiro de 1971, p. 13.
37 Lei de Segurana Nacional, decreto-lei n 898, de 29 de 
setembro de 1969, artigo 79.
38 Samuel Wainer, Minha razo de viver, p. 278.
O MILAGRE E A MORDAA 217
Samuel voltou  redao, publicou o poema e decidiu vender o 
pe dao que lhe restava do imprio da ltima Hora. Compraram-
no os mesmos empreiteiros que haviam arrematado o Correio da 
Manh. Pro tegido por Frias, foi trabalhar na redao da 
Folha de S.Paulo, onde per maneceu at sua morte, em 1980.
Ao ocaso do Correio e da ltima Hora correspondia a alvorada 
do que viria a ser o maior imprio de comunicaes da 
histria do Brasil: o Sistema Globo de Comunicaes. Em 1969 
seu proprietrio, Roberto Marinho, ainda no era um dos 
homens mais ricos do mundo, com uma fortuna avaliada, nos 
anos 90, em mais de 1 bilho de dlares. Pelo con trrio, a 
TV Globo estava amarrada a uma dvida de 3,75 milhes de d 
lares com o grupo americano Time-Life. Marinho sairia dela 
tomando um emprstimo ao National City Bank, cuja engenharia 
financeira o obrigaria a empenhar bens pessoais, inclusive 
sua manso do Cosme Ve lho. Vira falhar uma busca de amparo 
num consrcio de empresrios. Mais tarde, lembraria: Se 
fracassasse, teria de recomear a minha vida da estaca zero 
Com maneiras gentis e um senso de lealdade fora do comum na 
poltica brasileira, era um adversrio feroz pela astcia, um 
aliado insupervel pelo sentido de oportunidade. A ditadura 
transforma va-se em milagre e a televiso em cores, em seu 
cone. Em 1969 a Rede Globo era formada por trs emissoras 
(Rio de Janeiro, So Paulo e Belo Horizonte). Em 1973 seriam 
onze.
Quando o The New York Times atacou a censura brasileira com 
um editorial intitulado As notcias encarceradas na Amrica 
Latina, citan do as prises de jornalistas e pedindo que o 
governo americano pressio nasse Braslia, O Globo respondeu 
em 72 horas: A campanha de impren sa nos EUA destina-se a 
criar problemas diplomticos com Washington, mas essa presso 
no afeta os brasileiros na sua deciso de resolver os seus 
problemas domsticos sem pedir as bnos do The New York 
Times ou
39 Antonio Gallotti, dezembro de 1984.
40 Carta de Roberto Marinho ao presidente Joo Figueiredo, de 
14 de agosto de 1980.
41 Para o nmero de emissoras, Alzira Alves de Abreu e 
Fernando Lattman-Weltman, Momen tos de deciso: os anos 70 e 
a mdia no Rio de Janeiro, em Um estado em questo  0s25 
anos do
Rio de Janeiro, organizado por Amrico Freire, Carlos Eduardo 
Sarmento e Marly Silva da Mot ta, pp. 352-3.
218        A DITADURA ESCANCARADA
do Le Monde, que abenoaram Fidel Castro, Guevara e outros 
paladinos
dos direitos humanos.
A mordaa imposta  imprensa a partir de dezembro de 1968 era 
con fusa, onipotente e errtica. Passada a blitz do AI-5, os 
censores foram dis pensados, e a tesoura foi 
instrumentalizada atravs de sucessivos encon tros de 
autoridades com proprietrios de empresas jornalsticas. 
Criou-se, assim, uma rotina de comunicaes entre a Censura e 
as empresas, qua se sempre telefnica, informal. Duas 
tentativas de codificao das proi bies fracassaram pela 
megalomania de seus objetivos. Uma delas veta va notcias que 
pudessem tumultuar o comrcio, e outra determinava que no 
se divulgasse notcia falsa ou fato verdadeiro, parcialmente 
ou de maneira deformada. Depois dos dias de tumulto da Junta 
Militar, durante os quais a censura foi manipulada pelo 
interesse dos comandan tes de guarnies, estabeleceu-se um 
relativo equilbrio, em que havia graus variveis de 
tolerncia para com as transgresses. Nos primeiros meses de 
governo do general Medici s a tortura e as prises haveriam 
de se tor nar um tema incontornavelmente proibido.
Aos poucos essa situao mudaria. Aquilo que pretendera ser 
uma ao defensiva do Estado tornou-se, a partir do final de 
1969, a principal pea de sua mquina de desmobilizao e de 
supresso do dissenso. Quando foi retirada, em 1978, a 
mordaa tinha superado a durao do controle da imprensa na 
ditadura de Vargas, transformando-se no mais prolongado 
perodo de censura da histria do Brasil independente.
Durante a presidncia do general Medici foram expedidas 360 
proi bies, uma das quais determinava que se esquecesse uma 
declarao p blica do senador Filinto Mller, presidente do 
partido do governo, de que no existia censura no pas.
Dois jornais  O Estado de S. Paulo e o Jornal da Tarde, 
pertencen tes a uma nica famlia  haveriam de se recusar (a 
partir de agosto de
42 The New York Times, 4 de janeiro de 1969. O Globo, 7 de 
janeiro de 1969.
43 Resistncia, 21 de janeiro de 1969, para o caso do 
comrcio. Ordem 716, do Departamento de
Polcia Federal, de 10 de junho de 1969, em Paolo Marconi, A 
censura poltica na imprensa brasi leira  1968/1978, p. 226.
44 Paolo Marconi, A censura poltica na imprensa brasileira  
1968/1978, pp. 227-76. Para a proi bi de Filinto, p. 244, 
com a ordem de 19 de setembro de 1972.
O MILAGRE E A MORDAA 219
1972) a cumprir ordens telefnicas ou papeletas trazidas por 
policiais, obri gando o governo a remeter censores s suas 
redaes. Somente neles po dia-se ver diariamente o efeito da 
tesoura, pois, no lugar dos textos veta dos, foram publicadas 
receitas culinrias e, posteriormente, poemas. A partir de 
julho de 1973, os espaos vazios foram ocupados por trechos 
dOs lusadas, de Lus de Games. Em seu estudo sobre a 
censura do Estado a professora Maria Aparecida de Aquino 
contou 314 supresses s no ano de 1973. O dirio mais 
massacrado foi a Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro. 
Sofreu mais de vinte apreenses, e teve censores dentro de 
seu pr dio por dez anos e dois dias. Antes mesmo que Medici 
chegasse ao Pla nalto, o jornalista Helio Fernandes, seu 
proprietrio e alma panfletria, passara por quatro cadeias e 
dois desterros, um na ilha de Fernando de Noronha, outro em 
Mato Grosso. Voltaria a ser preso em 1973, para uma 
permanncia de seis dias no quartel da PE da Baro de 
Mesquita.
O controle dos principais rgos de comunicao fez florescer 
uma imprensa alternativa, denominada nanica Os dois 
semanrios impres sos em papel de jornal que mais se 
destacavam, O Pasquim e Opinio (lan ado no final de 1972), 
vendiam em torno de 100 mil exemplares, quase todos nas 
bancas. Era uma circulao superior s das revistas Veja e 
Manchete somadas. Podiam ser frugais, no nanicos. Deram ao 
debate cultural uma indita caracterstica renovadora. O 
prncipe e precursor des se fenmeno fora O Pasquim. Lanado 
em junho de 1969 com uma tira gem de 28 mil exemplares, 
chegara a 250 mil em seis meses. Glorifica o da ironia, 
intitulara-se um jornal de oposio ao governo grego, 
corajoso como um rato: Na terra de cego, quem l O Pasquim 
 rei
45 Maria Aparecida de Aquino, Censura, imprensa, Estado 
autoritrio (1968-1 978), pp. 99 e 60.
46 Helio Fernandes, abril de 2002. Helio Fernandes foi preso 
pela primeira vez em julho de 1963,
por ordem do ministro da Guerra de Joo Goulart, o general 
Jair Dantas Ribeiro. Depois de onze
dias, quatro dos quais incomunicvel, foi libertado por ordem 
do Supremo Tribunal Federal.
47 Para a tiragem dos semanrios alternativos, Bernardo 
Kucinski, Jornalistas e revolucionrios,
p90.
48 Em 1977, Veja vendia nas bancas em torno de 60 mil 
exemplares e Manchete, 25 mil.
49 Para as tiragens do Pasquim, entrevista de Srgio Cabral, 
em Hist ria4 do poder, de Alberto Dines,
Florestan Fernandes Jr. e Nelma Salomo (orgs.), vol. 1: 
Militares, Igreja e sociedade civil, p. 285.
50 Jos Luiz Braga, O Pasquim e os anos 70, pp. 32, 140 e 49. 
Para uma crnica da vida dO Pasquim,
ver tambm Norma Pereira Rego, Pasquim.
iJ
220        A DITADURA ESCANCARADA
Suas entrevistas projetaram pioneiros de um novo 
comportamento, co mo o de Leila Diniz (Na minha caminha, 
dorme algumas noites, mais nada. Nada de estabilidade). Num 
artigo sobre a Cannabis sativa, seu colunista Luiz Carlos 
Maciel descreveu-lhe a estrutura, os efeitos, as vir tudes, e 
listou 33 sinnimos da palavra maconha. O Pasquim generali 
zou expresses da gria de Ipanema (dica, sifu duca) e 
revolucionou a tcnica de redao jornalstica. Depois dele, 
vereador nunca mais foi edil, e entrevistado deixou de tecer 
consideraes. Sobreviveu a boicotes eco nmicos, censura, 
duas bombas e  priso de toda a sua redao. Fazia medo por 
engraado. Fez-se vanguarda, quando era apenas plural.
Sem o ar moleque dO Pasquim, foi o semanrio Opinio que en 
trou mais fundo na cabea da juventude universitria. 
Circulava com um encarte do jornal francs Le Monde e 
publicava regularmente artigos do The New York Review of 
Books. Tinha 80% de seus leitores nas classes A e B. Mais que 
isso, ia buscar numa nova esquerda mundial projetos de 
militncia desligados da velha proposio marxista, na qual 
todas as ati vidades revolucionrias deveriam confluir para o 
grande projeto da to mada do poder. Em Opinio havia espao 
para as mulheres, os negros e os homossexuais como tais, sem 
que fizessem parte de uma marcha da humanidade em direo ao 
socialismo. Ao cosmopolitismo e  boa qua lidade de seus 
articulistas (entre os quais estava o socilogo Fernando Hen 
rique Cardoso), somara uma seo cultural que vocalizava a 
hostilida de ao dogma do nacional-popular, base do prestgio 
dos intelectuais da esquerda tradicional. Enquanto viveu (de 
1972 a abril de 77), Opinio publicou 5 mil pginas e teve 
outras 5 mil vetadas. Cinco edies foram apreendidas e uma, 
proibida de rodar. Seu diretor, Fernando Gasparian, foi 
detido, e explodiu-se uma bomba em sua sede.
51 Joo Baptista M. Vargens, Nos bastidores do Pasquim, p. 
40.
52 O Pasquim, n 30, iSa 21 de janeiro de 1970, em Luiz Carlos 
Maciel, Negcio seguinte:, pp. 64-8.
53 Jos Luiz Braga, O Pasquim e os anos 70, p. 32.
54 A primeira bomba, com cinco quilos de dinamite, foi 
colocada no semanrio em maro de 1970.
A segunda, em maio. Ver Jos Amaral Argolo e outros, A 
direita explosiva no Brasil, pp. 260 e segs.
55 Bernardo Kucinski, Jornalistas e revolucionrios, p. 261.
56 Heloisa Buarque de Hoilanda, Impresses de viagem, p. 94.
57 Jos Antonio Pinheiro Machado, Opinio x Censura, pp. 5, 
65 e 97.
O MILAGRE E A MORDA 221
O Brasil dO Pasquim e Opinio pouco tinha a ver com aquele 
dos grandes jornais, revistas e emissoras de televiso. Num 
misturavam-se o deboche e um cosmopolitismo ctico. No outro, 
vivia-se o Brasil Grande Em novembro de 1970, quando se 
haviam passado dois anos da noite em que o Maracanzinho 
cantara Caminhando, o v Festival Internacional da Cano, 
organizado pela Rede Globo, enchera o est dio e a platia 
cantava:
Ol, ol,
O Brasil est botando
Pra quebr.
Vandr estava exilado no Chile, Caetano Veloso e Gilberto 
Gil, em Lon dres. Chico Buarque de Hollanda, em Roma, comps 
mais um samba:
Hoje voc  quem manda,
falou tfalado,
no tem discusso, no.
A minha gente hoje anda
falando de lado
e olhando pro cho, viu
Apesar de voc,
amanh h de ser
outro dia.
A cano circulou por um ms e 100 mil cpias at ser 
proibida. Tro pas do Exrcito fecharam a fbrica, e todos os 
discos guardados no esto que foram quebrados.
58 Veja, 4 de novembro de 1970.
59 Chico Buarque  Letra e msica, vol. 1, p. 130.
PARTE III A vitria
Uma elite aniquilada
Em agosto de 1969, em Belo Horizonte, um sacerdote que 
trabalhava com grupos de jovens tinha  sua frente Raquel, 
uma jovem recm-sada da pri so, O padre ligou um gravador e 
anunciou: Iniciamos aqui uma srie de reportagens destinadas 
 Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil
Raquel narrou o caso de Teresa, professora catlica com quem 
at pouco tempo antes dividira uma cela. Enquanto conseguiu 
se manter aler ta, Teresa contara as seis descargas eltricas 
que lhe aplicaram. Estupra ram-na e obrigaram que um sobrinho 
a torturasse.
Aquilo que cinco anos antes fora assunto para debates no 
Congres so e campanhas na imprensa, fonte de indignao e 
protesto, tornara-se matria clandestina. Fechara-se o 
crculo. No s era perigoso opor-se  ditadura: era 
arriscado at mesmo falar do que acontecia nos calabou os. 
Entre setembro de 1964, quando a ltima pgina do Correio da 
Manh era ocupada por denncias de torturas, e agosto de 69, 
quando o sacerdote de Belo Horizonte se movia quase em 
segredo, no s o regi me se impusera  sociedade, mas a 
tortura se impusera ao regime.
Raquel e Teresa eram nomes falsos, as vtimas escondiam-se. A 
srie
de reportagens do padre do gravador no se destinava a nenhum 
rgo
1 Separata da revista Mensaje, dos jesutas chilenos, n 186, 
janeiro-fevereiro de 1970, anexa a um artigo de Michel de 
Certeau. Esse mesmo artigo foi publicado em maio, em 
Montevidu, nos Cuadernos de Marcha, na edio intitulada 
Brasil Seis Afios de Dictadura  Torturas, com texto, seleo 
e notas de Paulo Schilling.
226        A DITADURA ESCANCARADA
de imprensa, muito menos ao Congresso. Seu destinatrio era a 
Confe rncia Nacional dos Bispos porque a eroso da estrutura 
institucional da sociedade brasileira chegara a um ponto em 
que s restava a Igreja co mo fora poltica organizada capaz 
de se mobilizar em defesa dos direi tos humanos.
O processo coercitivo de desmobilizao poltica desencadeado 
em 1964 contra a esquerda transbordara primeiro contra uma 
parte da mi litncia liberal, depois contra as prprias 
lideranas conservadoras que pretendiam sustentar projetos 
pessoais e polticos independentes. Em 1970, no apogeu, 
transformara-se num fenmeno de mutilao e desmorali zao 
da elite nacional. Esse ciclo, percorrido em seis anos, no 
obede ceu a doutrinas, planos ou estratgias. Foi produto de 
uma anarquia ins titucional na qual a cada avano da 
desmobilizao correspondeu um vcuo de legitimidade e a cada 
vcuo sobreveio um novo espasmo desordeiro. Cada setor 
interessado na desmobilizao saqueou um pedao das ins 
tituies nacionais. Todos fizeram isso acreditando que no 
final sobra riam instrumentos suficientes para assegurar-lhes 
uma parcela de poder. Assim, polticos sem voto saquearam as 
eleies diretas. Parlamentares sem opinio tungaram a 
inviolabilidade dos mandatos. Guildas patro nais surrupiaram 
a liberdade sindical. Grandes montadoras do ABC pau lista 
submetiam ao DOPS nomes de funcionrios que contratavam. Ter 
minada a tosa, a elite brasileira aniquilara-se.
O aniquilamento estendeu-se a todos os nveis. Primeiro 
varreu pes soas, depois violou instituies e, no final, 
esmagou o prprio conceito de cidadania. No dia 12 de abril 
de 1964 o ex-presidente Juscelino Kubitschek apoiara a 
deposio de Goulart. Semanas mais tarde, aceitara que parte 
da bancada de seu partido fosse cassada. O sacrificio era 
grande, mas a recom pensa parecia atraente: JK acreditava que 
a eleio presidencial de outubro
2 No dia 21 de abril de 1971 a Volkswagen consultou a 
delegacia do ABC a respeito de nove em pregados admitidos no 
seu Departamento de Segurana Industrial; a delegacia, por 
sua vez, re meteu o pedido ao Dops. A Chrysler tambm 
encaminhou esse tipo de pedidos, entre 1970 e 1971. Fabrcio 
Marques, em Jornal do Brasil, 25 de dezembro de 1994.
UMA ELITE ANIQUILADA 227
de 1965 haveria de lev-lo ao palcio do Planalto. Carlos 
Lacerda, seu ad versrio, pensava a mesma coisa. Defendeu 
todas as cassaes, inclusive a de Juscelino, o nico 
candidato capaz de bat-lo nas urnas. Com seu ta lento 
verbal, dizia temer que JK roubasse a Revoluo como roubou 
o pas Kubitschek foi cassado em junho de 1964. Menos de 
dois anos depois, La cerda estava fora da sucesso 
presidencial e em dezembro de 1968, cassa do, entrou preso no 
Regimento de Cavalaria da Polcia Militar, onde o alo jaram 
num jirau, entre a estrebaria e o dormitrio. L encontrou o 
ator Mrio Lago, seu contemporneo no Partido Comunista, 
hspede eventual da carceragem do DOPS desde 1932. No se 
falavam fazia dcadas, mas Lacer da quebrou o gelo: Mrio, 
preso fala com o outro, no ? Deram-se as mos. (Em 1961, 
quando um adversrio poltico gritou um pedido de pa redn 
para Lacerda, ele respondera: Se as coisas continuarem como 
vo, talvez ns venhamos a concluir essa cordial discusso na 
mesma cela
Quando o general Medici subiu a rampa do Planalto, o regime 
ha via banido da vida pblica todos os polticos que em 1964 
aspiravam  Presidncia da Repblica. Podia parecer que se 
perdiam os lderes mas preservavam-se os partidos, no entanto 
eles foram extintos em 1965, subs titudos por um sistema 
bipartidrio rgido nas votaes parlamentares e frouxo na 
coeso das bases. Podia parecer tambm que, mesmo sem 
lideranas e sem partidos, preservavam-se as instituies. 
Fechado duas vezes, o Congresso teve cassados 281 
parlamentares. Foi esquartejado em vida. No dia 10 de abril 
de 1964, quando se acreditava que seria poss vel restringir 
as cassaes de parlamentares a uma s rajada, abateram- se 
quarenta mandatos, liquidando-se a liderana de esquerda e 
centro- esquerda na Cmara. Nos meses seguintes expurgaram-se 
outros 29 parlamentares e em 1966, outros seis. A cada onda 
de cassaes caa um ncleo de liderana oposicionista. No 
seu lugar entrava outro, mais cau teloso e mais moderado, 
porm igualmente insuportvel. Depois do AI- 5 cassaram-se 
105 congressistas. O MDB perdeu o secretrio-geral, o l
3 John W. E Duiles, Carlos Lacerda A vida de um lutador, 
vol. 2: 1960-1977, p. 240.
4 Carlos Lacerda, Depoimento, p. 367
5 John W. F. Duiles, Carlos Lacerda  A vida de um lutador, 
vol. 2: 1960-1 977, p. 51.
6 Lcia Klein e Marcus F. Figueiredo, Legitimidade e coao 
no Brasil ps-64, p. 186.
228        A DITADURA ESCANCARADA
der na Cmara e catorze de seus 21 vice-lderes. A coero 
punha em movimento mecanismos de medo e adeso que produziam 
resultados bem mais profundos. Em So Paulo, mesmo depois das 
cassaes de 1964 e 65, a oposio conseguiu um patrimnio 
eleitoral de 27 deputados fe derais, 53 estaduais, 71 
prefeitos e 1185 vereadores. No fim de junho de 1969, aps o 
expurgo do AI-5 e uma onda de deseres, ela estava redu zida 
a doze deputados federais, vinte estaduais, 38 prefeitos e 
oitocen tos vereadores.
O Supremo Tribunal Federal foi diludo em 1965 e mutilado em 
68. Para neutralizar os votos dos ministros nomeados por 
Kubitschek e Joo Goulart, ampliou-se de onze para dezesseis 
o nmero de assentos no tri bunal. Com o AI-5, expurgaram-se 
Vitor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva. Da 
corte saiu o nico caso de protesto do perodo. Demitiram-se 
o presidente da casa, Antnio Gonalves de Oliveira, e seu 
substituto imediato, o ministro Antnio Carlos Lafayete de 
Andrada. Ambos mineiros, um deles descendente de Jos 
Bonifcio, foram os ni cos funcionrios de alto nvel dos 
poderes republicanos a se valer do es prito de renncia para 
impedir o prosseguimento da confuso entre a histria do 
regime e suas biografias. Com cinco vagas  mo, o governo 
Medici devolveu o Supremo ao seu tamanho habitual, e entre os 
onze so breviventes l continuaram Adaucto Lcio Cardoso e 
Aliomar Baleeiro, instrumentistas da banda de msica da 
UDN, ferozes adversrios daqui lo que poderia ter sido a 
ditadura de Joo Goulart. Meses depois juntou- se a eles 
Bilac Pinto, o responsvel pela introduo do conceito de 
guer ra revolucionria no vocabulrio poltico civil.
A coero, aplicada inicialmente como um elemento 
desmobiliza-
dor dos sindicatos de trabalhadores, da elite intelectual e 
da esquerda, mu dou de qualidade durante os expurgos de 1968 
e 69. O primeiro Ato Ins 7 Maria dAlva G. Kinzo, Legal 
opposition politics under authoritarian rule in Brazil, 1966-
79, p. 27.
8 Bruce Raymond Drury, Creating support for an authoritarian 
regime: the case of Brazil, 1964-
70 pp. 193-200. Citado por Bolvar Lamounier em Alfred 
Stepan (org.), Democratizando o Brasil,
nota 20, p. 109.
9 Bilac Pinto, Guerra revolucionria. Esse livro contm os 
discursos e artigos em que o deputado
tratou do tema, de 25 de junho de 1963 a 12 de abril de 1964.
UMA ELITE ANIQUILADA        229
titucional, sem nmero, supostamente nico, destinava-se a 
expurgar par te da cpula civil e militar do regime deposto. 
O ltimo, baixado em ou tubro de 1969 com o nmero 17, dava 
ao presidente o direito de trans ferir temporariamente para a 
reserva oficiais inconvenientes e servia apenas para punir 
dissidncias militares da prpria ditadura. Fez uma s 
vtima, o almirante Ernesto de Mello Baptista, o ministro da 
Marinha que em setembro de 1964 reagira s denncias de 
torturas publicadas no Correio da Manh anunciando que 
solicitaria a abertura de um proces so contra o jornaL 
Partidrio da candidatura do general Albuquerque Lima, 
divulgara um manifesto insurgindo-se contra a escolha de 
Medi- ci. Remetido ao estaleiro por um ano, naufragou no 
anonimato.
Com o intuito de purificar as universidades, em abril de 1969 
expur garam-se 65 professores. Num s balaio meteram-se 
comunistas como o arquiteto Joo Batista Villanova Artigas, 
da Universidade de So Pau lo, esquerdistas liberais como 
Fernando Henrique Cardoso e conserva dores moderados como 
Eullia Lahmeyer Lobo, irm do ministro de Minas e Energia, 
Antnio Dias Leite. Seria o jogo jogado se a Caio Pra do 
Jnior, um dos maiores historiadores do pas, no se tivesse 
reserva do punio exemplar, tpica tanto pela imputao como 
pelo castigo.
Autor da Formao do Brasil contemporneo, verdadeiro divisor 
de guas da historiografia nacional desde sua chegada s 
livrarias, em 1942, Caio Prado descendia da plutocracia 
paulista do Imprio, estivera no Partido Comunista e 
encarnava o pensador esquerdista afastado da mi litncia. 
Suas entrevistas eram raras, no fazia o gnero de figurinha 
fcil do radicalismo chique da poca. Em 1966 recebera o 
prmio de In telectual do Ano pela edio dA revoluo 
brasileira, trabalho que im pulsionaria o processo 
autocrtico da esquerda em relao  derrota de 64. No 
primeiro semestre de 1967 Caio Prado concedeu uma entrevista
10 Para o estudo da qualidade das punies, ver Lcia Klein e 
Marcus E Figueiredo, Legitimida de e coao no Brasil ps-64.
11 Correio da Manh, 23 de setembro de 1964.
230        A DITADURA ESCANCARADA
a um grupo de estudantes do grmio da Faculdade de Filosofia 
da usp. Representavam uma publicao editada artesanalmente, 
de circulao irrelevante. Tornou-se conhecida como revista 
Reviso, mas seria mais apropriado cham-la folheto. A 
entrevista era medocre nas perguntas (Qual  a importncia 
da organizao da classe operria?) e banal nas respostas 
(Acho que a organizao do proletariado  uma tarefa de 
fundamental importncia). O que os estudantes pareciam 
procurar era a opinio de Caio Prado sobre a luta armada, e 
ele tratou do assun to quatro vezes:
 A Revoluo Brasileira ter uma soluo pacfica ou armada?
 Isto nunca se sabe. No sou profeta, nem sei qual a maneira 
pr tica de realizar a Revoluo. [ A existncia ou no da 
luta armada de pende das circunstncias do momento, da 
situao tal como ela se apre senta. [
 Como v o movimento estudantil no Brasil com respeito  
revo luo socialista?
 [ No acredito que os estudantes sejam os possveis lderes 
da revoluo, mas acho que tm condies de estimularem o 
proletariado ur bano e rural para que iniciem sua luta. 
Agora, como guerrilheiros, no acre dito. Vocs que so 
estudantes, vem a possibilidade de um grupo de estu dantes 
se armarem e se tornarem guerrilheiros? [
 Os trabalhadores podem chegar ao poder pela via pacfica, 
ou no?
 No sei. Acredito que pode ser atravs de uma forma ou de 
outra. Mesmo a luta armada tem uma poro de graus: vai desde 
o choque de rua
at a guerra civil. [
 Qual a soluo para este problema?
 No devemos discutir a forma de luta, e sim comear a 
lutar. De pois, so as contingncias do momento que vo 
indicar que espcie de lu ta se vai fazer. Se se dissesse, 
concretamente, que existem em So Paulo 30 ou 50 mil 
trabalhadores dispostos a pegar em armas e tomar o poder,  
evi dente que a nossa tarefa  arranjar armas para estes 
operrios e ajud-los
UMA ELITE ANIQUILADA        231
a tomar o poder. Mas no adianta programar a luta armada se 
no exis tem os elementos capazes de concretiz-la. A forma 
de ao  determina da pelas circunstncias e condies do 
momento.
Em maro de 1969, quase dois anos depois da publicao da en 
trevista, abriu-se na 2 Auditoria Militar de So Paulo um 
processo con tra Caio Prado. Baseado no contedo da ltima 
resposta do historia dor, o Ministrio Pblico enquadrou-o no 
crime de incitao subversiva. No dia 25 de maro de 1970, 
quando o Exrcito acabara de anunciar o desbaratamento da 
VPR, Caio Prado Jnior sentou-se no banco dos rus. Levantou-
se para ser recambiado ao presdio Tiradentes, condenado  
pena mxima: quatro anos e seis meses de deteno. Recorreu 
ao Su perior Tribunal Militar, onde o ministro civil Alcides 
Carneiro, votan do pela sua absolvio, resumiu o processo em 
frase lapidar: Quem in cita no mostra as dificuldades, e 
sim as facilidades Tempo perdido:
tudo o que Caio Prado conseguiu foi a reduo da pena para 21 
me ses. Transferido do presdio, onde cozinhava suas 
refeies, o historia dor foi encarcerado no 1 6 Batalho 
Universitrio da Fora Pblica, atrs do campus da usp, onde 
dividiu uma cela com um ex-delegado conde nado por trfico de 
drogas. A muito custo recebeu permisso para as sistir ao 
sepultamento de seu filho Roberto, que se matara. Em agos to 
de 1971, depois de passar 545 dias na priso, com quase toda 
a pena cumprida, Caio Prado foi absolvido pelo Supremo 
Tribunal Federal e libertado. Tinha 64 anos.
Por mais que as torturas pudessem inibir a ao dos 
simpatizantes das organizaes armadas e casos como o de Caio 
Prado contribussem
para estabelecer um clima de conformismo nas universidades, a 
violn
12 Reviso, n 4, agosto de 1967, pp. 13 e segs.
13 Heleno Cludio Fragoso, Advocacia da liberdade, pp. 93 e 
segs.
14 Jornal do Brasil, 30 de julho de 1970, coluna Informe JB
15 Entrevista de Maria Odila Leite da Silva Dias, em Jos 
Geraldo Vinci de Moraes e Jos Marcio
Rego, Conversas com historiadores brasileiros, p. 191.
232 A DITADURA ESCANCARADA
cia e o arbtrio do regime so insuficientes para explicar 
por que a dita dura se manteve de p. Muito menos para se 
compreender por que Me dici conseguiu ser ao mesmo tempo o 
presidente menos criticado e o mais aplaudido. O silncio e a 
tolerncia que seu governo obteve foram maio res do que 
aqueles que a coero direta poderia assegurar.
Sem prazo de durao, o AI-5 diferia essencialmente de seus 
ante cessores. No governo Castelo os perodos de suspenso 
das franquias cons titucionais tinham prazos. Diante disso a 
oposio sempre podia fingir- se de morta durante a ventania, 
sabendo que ela haveria de passar. Com o AI-5 esse recurso 
extinguiu-se. Conteve-se a atividade parlamentar opo 
sicionista, e, sobretudo, submeteu-se a mquina do Estado. A 
notorieda de das vtimas dos expurgos fez que a natureza 
coercitiva do regime fos se percebida nas punies impostas 
aos adversrios. Ainda que fiel, esse retrato  incompleto. A 
essncia das ditaduras no est naquilo que elas fazem para 
se perpetuar, mas naquilo que a partir de certo momento j 
no precisam fazer.
A principal caracterstica da atividade legiferante que se 
seguiu  edi o do AI-5 foi a expanso do controle da 
sociedade pelo Estado. Os me canismos que permitiam cassar e 
demitir serviam para purificar e ate morizar o elenco, mas as 
alteraes tributrias e administrativas sugeridas j na 
noite de 13 de dezembro de 1968 pelo ministro Delfim Netto 
des tinavam-se a mudar o enredo. Duas semanas depois da 
edio do AI-5, ele foi buscar o suficiente. Fechou o 
guich que pagava, impondo uma severa poltica de conteno 
de gastos pblicos que previa, at o final do ano seguinte, 
uma reduo de 10% na folha de pagamento de pessoal de 1968. 
Em seguida, baixou o Ato Complementar n 40, alterando a po 
ltica de redistribuio de tributos federais. Diminuiu a 
participao dos estados e municpios na partilha dos 
impostos de renda e produo industrial (equivalentes a 70% 
da receita de impostos federais). Pela Constituio de 1967 
eles tinham direito a 20% do dinheiro recolhido. Com o golpe 
de caneta, os repasses caram  metade. Em todos os ca sos, a 
liberao dos recursos dos fundos dependia da aprovao de 
Bra slia, com base nas diretrizes e prioridades 
estabelecidas pelo Poder Executivo Federa1 Cortaram-se pela 
metade as transferncias para os estados e municpios, e 
engordou-se em cerca de 10% a receita do go-
UMA ELITE ANIQUILADA        233
verno federal. Em 1969 o governo bateria o seu recorde de 
gastos, con sumindo 23,4% do PNB, e ainda assim fecharia o 
oramento com supe rvit. Num clculo grosseiro, levando em 
conta outros instrumentos financeiros e tributrios, Delfim 
Netto estimou que no final de 1970 os recursos controlados 
pelo governo federal eram quase o dobro do mon tante 
disponvel em 67, quando terminou o governo Castello: Com o 
AI-5 eu aproveitei para fazer tudo o que precisava fazer
O AC-40 foi o instrumento de funcionalidade do AI-5 nas 
relaes eco nmicas do Estado brasileiro, transmutando 
aquilo que poderia ser uma ditadura difusa, entregue a 
coronis radicais e voluntaristas, num pro cesso de 
reorganizao do poder. De um lado reduziu os recursos a se 
rem distribudos, de outro centralizou os mecanismos atravs 
dos quais seriam feitas as transferncias. O AI-5 dissera o 
que era proibido. O AC 40 informava onde estaria o dinheiro 
para quem quisesse fazer o que era permitido.
O grau de controle que o governo adquiriu sobre o grande 
caixa na cional ampliou o enquadramento dos setores da 
produo que dele depen diam. Esse poder era exercido tanto 
na punio como na graa. Por inter mdio de instrues 
informais os cassados estavam proibidos de transacionar 
emprstimos com o Banco do Brasil. Atravs do decreto n 64 
345, os em preiteiros de obras pblicas, principais fontes de 
suprimento de dinheiro para a corrupo governamental, 
livraram-se do fantasma da concorrn cia de empresas 
estrangeiras. Os grandes contratos de obras estaduais e mu 
nicipais passaram a depender do aval e dos conselhos de 
Braslia, onde o governo j acumulava o tesouro da 
distribuio de incentivos fiscais.
A ao punitiva do regime, desinibida quando avanava sobre a 
es querda, moveu-se  direita no incio de 1969. Armou-se um 
bote contra
16 Estimativa de Antonio Delfim Netto, outubro de 1990. Para 
o corte do Fundo de Participao
dos Municpios, Jos Pedro Macarini, Um estudo da poltica 
econmica do Milagre Brasileiro
(1969-1973) p. 61.
17 Philippe Schmitter, The Portugalization of Brazil?, em 
Authoritarian Brazil, editado por Ai fred Stepan, pp. 192-3.
18 Antonio Delfim Netto, outubro de 1990.
19 Para uma anlise arguta e detalhada dessas mudanas, ver 
Jos Pedro Macarini, Um estudo
da poltica econmica do Milagre Brasileiro (1969- 1973) 
pp. 60 e segs.
1

234 A DITADURA ESCANCARADA
o banqueiro Walter Moreira Salles. Herdeiro de uma pequena 
casa bancria em Poos de Caldas, fora embaixador em 
Washington no segundo governo de Getulio Vargas e ministro da 
Fazenda do primeiro gabinete parlamentarista de Joo Goulart. 
Dono da Unio de Bancos Brasileiros, o quinto grupo 
financeiro do pas, captava depsitos em 333 agncias e 
aplicava sua influncia  esquerda e  direita. Nos anos 50 
financiara o jornalista Samuel Wainer, protegido de Vargas, 
no lanamento do vespertino ltima Hora. Nos 60, um de seus 
diretores alimentava a caixa de contribuies da conspirao 
antijanguista. Tendo deixado o governo, mantivera-se assduo 
interlocutor tanto de Joo Goulart como do em baixador 
Lincoln Gordon. Essa relao pode ser percebida quando se v 
que, num perodo de 48 horas (entre os dias 12 e 13 de 
dezembro de 1963), encontrou-se com Gordon (mencionando as 
poucas chances de um golpe, ou de um contragolpe) e a seguir 
com o prprio Goulart (tratando de uma troca de cartas com a 
Casa Branca), telefonando depois ao em baixador com um resumo 
da gesto junto ao presidente e marcando um almoo para o dia 
seguinte. Com uma cabeleira negra de toureiro espanhol, 
gentil nas maneiras e refinado no gosto, encarnava a figura 
do milionrio elegante. Era o brasileiro predileto dos irmos 
Nelson e Da vid Rockefeller. Sua mulher, Elisinha, era 
considerada uma das mais bem vestidas do mundo.
Nos dias seguintes  edio do AI-5 o general Jayme Portella 
teve a idia de constrang-lo. Inmeras personalidades 
estavam sendo chamadas  Receita Federal,  polcia ou aos 
escritrios do SNI. Prestavam esclarecimentos ou passavam 
algumas horas conversando. Em todos os casos, ficavam 
marcadas pelo fato de terem sido chamadas Entre os enfeites 
demaggicos pendurados na onda de arbitrariedades do fim de 
dezembro de 1968, j se haviam includo a priso de 
banqueiros de bicho do Rio de Janeiro e a criao de um prato 
popular, apelidado Sunabo, que deveria constar do cardpio 
de todos os restaurantes do pas, inclusive
20 Samuel Wainer, Minha razo de viver, p. 176.
21 RenArmand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, p. 202.
22 Telegrama do embaixador Lincoin Gordon ao Departamento de 
Estado, de 12 de dezembro
de 1963 (quinta-feira).
UMA ELITE ANIQUILADA 235
os mais finos. O constrangimento de um banqueiro de depsitos 
co roaria o truque diversionista, mas ele esbarrou em Delfim 
Netto. Eu fui ao Costa e Silva e disse que estava fora 
daquilo. No se podia fazer aqui lo com o Walter Moreira 
Salles. Costa e Silva disse que ia tratar do assun to. 
Tratou, e semanas depois Delfim aplacou as presses militares 
contra a plutocracia pedindo o confisco dos bens dos 
diretores de uma peque na fbrica de cigarros.
Atravs de um sistema de sinalizao, enviaram-se mensagens  
es querda e  direita. A uma mostrou-se a desdita de Caio 
Prado, condena do e encarcerado por conta de uma entrevista 
irrelevante, por ter dito al go que, na verdade, negara.  
outra exibiu-se a ameaa contra Walter Moreira Salies, salvo 
pelo gongo, um gongo que decorrera da vontade do ministro 
Delfim Netto.
As organizaes de industriais, fazendeiros e comerciantes 
mobili zadas para financiar a Operao Bandeirante captaram 
tanto o recado da coero como os sinais sedutores do regime. 
Perceberam a essncia da lgica desmobilizadora segundo a 
qual cabia ao estudante estudar, ao ope rrio trabalhar, ao 
padre rezar, aos empresrios ganhar dinheiro e ao go verno 
cuidar de que cada um cumprisse suas obrigaes. Em dezembro 
de 1970, num banquete em homenagem ao general Canavarro 
Pereira, que deixava o comando do I Exrcito, o presidente da 
Associao Co mercial de So Paulo, Daniel Machado de Campos, 
resumiu o pensamen to de seus pares: Nesta hora do lobo 
afiam as presas as alcatias totali trias que, ao revs, em 
nome de uma quimrica justia social, preparam-se para 
assaltar o poder atravs da mxima e mais impiedosa compulso 
po ltica. [ 1 Seria terrvel que, por desencontro nosso, por 
descuido nosso, surgisse a desconfiana, a incompreenso 
recproca, o desentendimento entre dois grupos que querem a 
mesma coisa e que, pela racional e ne cessria diviso do 
trabalho, laboram em setores diferentes, levados pe lo 
impulso de reerguimento nacional.
23 Antonio Delfim Netto, maio de 1988. No dia 13 de janeiro 
de 1969 a rdio Jornal do Commer cio, do Recife, anunciou que 
se cogitavam medidas contra Moreira Salies.
24 O Estado de S. Paulo, 2 de dezembro de 1970, ltima 
pgina.
236        A DITADURA ESCANCARADA
Os empresrios brasileiros no foram desmobilizados, mas 
desins titucionalizados. No regime do AI-5 um parlamentar no 
valia nada, mas todos os parlamentares valiam alguma coisa. 
Com os empresrios ocor ria o contrrio: um por um, valiam 
alguma coisa, mas todos juntos no valiam coisa alguma. Os 
grandes dirigentes empresariais da conspirao contra Joo 
Goulart tiveram vida curta. Entre 1964 e 1968 saram de ce na 
os presidentes das trs grandes confederaes patronais, das 
federa es de indstrias da Guanabara e de So Paulo, bem 
como o da Associa o Comercial do Rio de Janeiro. Em alguns 
casos eram atravessadores de negcios. Simulavam importncia 
mantendo-se horas a fio na ante- sala de Delfim Netto. Um 
deles organizou at mesmo a captura do lixo da sala do 
ministro, para ler papis rabiscados. Foram substitudos por 
uma gerao de dirigentes andina, porm longeva nas funes. 
A FIESP desmontou seu departamento econmico, foi incapaz de 
produzir um do cumento sobre a economia brasileira por oito 
anos relembrou Delfim.
A ditadura assumira o controle das chaves dos crceres e dos 
cofres, os partidos polticos estavam inertes, a atividade 
parlamentar resumira- se ao exerccio de investigao dos 
limites do Congresso, e os empres rios faziam seus negcios 
no varejo enquanto seus rgos de classe ban queteavam o 
regime no atacado. Conclura-se o processo de desmobilizao 
da sociedade brasileira. De todas as instituies de mbito 
nacional e tra dio poltica, s uma no coubera inteira no 
acerto: a Igreja.
25 Iris Meinberg saiu da presidncia da CNA em 1967. 
Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro ps-1930, coord. 
de Alzira Alves de Abreu e outros, vol. 2, p. 1507. Charles 
Moritz, da CNC, foi re tirado em setembro de 1964. Idem, p. 
2362. Edmundo Macedo Soares deixou a CNI em 1967 para assumir 
o Ministrio da Indstria e Comrcio do governo Costa e 
Silva. Idem, vol. 1, p. 811. (Ti rado do cargo por Medici, 
perdeu qualquer expresso poltica.) Raphael Noschese deixou 
a pre sidncia da FIESP em 1966. Idem, vol. 2, p. 2114. Zulfo 
de Freitas Mallmann, da FIEGA, deixou o cargo em 1964. Idem, 
vol. 3, pp. 3503-4. Rui Gomes de Almeida, da Associao 
Comercial do Rio de Janeiro, saiu em junho de 1965. Idem, 
vol. 1, p. 151. Para a longevidade: Thoms Pompeu de Souza 
Brasil Netto ficou na CNJ de 1967 a 1977. Flvio de Brito 
permaneceu na CNA de 1967 a 1985. Jess Pinto Freire presidiu 
a CNC de 1964 at morrer, em 80. Theobaldo de Nigris dirigiu 
a FIESP de 1967 a 1980.
26 Antonio Delfim Netto, outubro de 1990.
UMA ELITE ANIQUILADA        237
Seria exagero acreditar que toda a Igreja ficara de fora, ou 
at mes mo supor que ela tenha ficado sempre de fora. Pelo 
contrrio. De 1964 a 1970 ela marchou ao lado do regime nos 
momentos decisivos, e a maior parte de sua hierarquia 
perfilou-se nos momentos crticos. Como ins tituio, a 
Igreja podia fazer muitas coisas, menos uma: dar a Csar sua 
prpria desmobilizao. Ao contrrio do empresariado, do 
funcionalis mo pblico civil e militar, dos partidos 
polticos e do Congresso, ela no precisava de remunerao 
terrena ou licena do governo para existir. Essa 
independncia decorria de um patrimnio espiritual amarrado a 
con ceitos de civilizao que estavam sendo revogados no 
Brasil. A Igreja po dia fechar um olho aqui, outro ali, mas 
quando o sacerdote do gravador anunciou em Belo Horizonte que 
iniciamos aqui uma srie de repor tagens destinadas  
Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil no ha via como 
cal-lo por muito tempo. Pior, no havia tambm como dei xar 
de ouvi-lo.
Na grande diviso ocorrida no pas em maro de 1964, a maior 
par te da hierarquia da Igreja pendera para o levante. Dera-
lhe a base popu lar da Marcha da Famlia. D. Joo Resende 
Costa, arcebispo de Belo Ho rizonte, abenoara sob sigilo a 
rebelio do governador Magalhes Pinto. D. Jaime Cmara, 
cardeal do Rio de Janeiro, fora ao ar no dia 31 de mar o 
atribuindo  Virgem Maria, ao venervel Anchieta e aos 
quarenta mr tires do Brasil a religiosidade e o 
patriotismo com que se organizava a Marcha da Vitria. Na 
tarde de 1 de abril, durante a guerra de boatos em torno das 
movimentaes militares, foi o padre Benedito Calazans, 
senador pela UDN paulista, quem anunciou ao plenrio que o 
general Mou ro Filho j entrara no Rio de Janeiro (chegaria 
s no fim da noite) e fo ra ao palcio Guanabara cumprimentar 
o governador Carlos Lacerda (coi sa que no fez). Horas 
depois, acolitado pelo padre Antonio Godinho, vice-lder da 
UDN na Cmara, tentara anexar o arcebispo de Braslia s 
manobras destinadas a proclamar vaga a Presidncia da 
Repblica. Dois outros sacerdotes, Arruda Cmara e Pedro 
Vidigal, formavam na ban
27 O Globo, 11 de setembro de 1971, em artigo de Gustavo 
Coro.
28 Dirio do Congresso Nacional, 2 de abril de 1964, p. 688.
29 Auro de Moura Andrade, Um Congresso contra o arbtrio, pp. 
238-41.
11
238        A DITADURA ESCANCARADA
cada conservadora do Congresso. Vidigal tornara-se famoso 
alguns me ses antes por ter sido mais um dignitrio a 
anunciar que do que ns es tamos precisando no Brasil  
substituir a norma evanglica amai-vos uns aos outros por 
outra: armai-vos uns aos outros
Vitorioso o levante, o cardeal Jaime Cmara peregrinara ao 
San turio de Aparecida, onde agradeceu  santa a salvao do 
pas. D. Jai me foi um dos primeiros defensores do expurgo 
dos derrotados. No dia 3 de abril, antes mesmo da edio do 
Ato Institucional, ele dizia que, sem a punio dos 
culpados, arriscamos perder a batalha final, que  a salva 
o da ptria
Passada uma semana, fez-se a vontade dos defensores da 
Operao Limpeza, e saiu a primeira lista, com 102 
punies. Em Braslia o padre Francisco Lage, suplente de 
deputado federal por Minas Gerais, militan te da agitao nos 
bairros populares de Belo Horizonte e na zona rural do 
estado, resolveu sair do seu apartamento para visitar um 
amigo cas sado. Deu poucos passos  procura de um txi, 
quando ouviu: Padre Lage! Padre Lage! O senhor est preso. 
Est armado?
(Segundo um expediente secreto remetido dois meses depois 
pelo tenente-coronel Joo Baptista Figueiredo  Presidncia 
da Repblica, o padre Francisco Lage era pessoa de 
implicao subversiva de carter na cional Seu extrato de 
pronturio informava que era comunista confes so, lera O 
capital, incitara greves de professores e funcionrios 
pblicos e defendera uma reforma agrria na lei ou na 
marra, argumentando que o Congresso est cheio de 
latifundirios e 1adres
Levaram-no para a 1 1 Companhia de Polcia do Exrcito, 
vareja ram-lhe o apartamento e remeteram-no para Belo 
Horizonte, onde foi
espancado pela PM. A caminho da cela mandaram que se 
despisse, e
30 Paulo de Tarso Santos, 64 e outros anos, depoimentos a 
Oswaldo Coimbra, p. 44.
31 Ivo Cailiari, D. Jaime Cmara, p. 591.
32 Telegrama da embaixada americana ao Departamento de 
Estado, de 3 de abril de 1964. BLBJ.
33 Expediente enviado pelo tenente-coronel Joo Baptista 
Figueiredo, chefe do Servio Federal
de Informao e Contra-Informao, SFICI,  Presidncia da 
Repblica, 13 de junho de 1964.
APGCS/HF.
UMA ELITE ANIQUILADA        239
quando seu tero caiu ao cho, os policiais passaram a 
divertir-se, chu tando-o. Padre do diabo! gritou um deles.
A Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil pronunciou-se 
sobre o regime em junho de 1964 com um documento indicativo 
de que no ca beria inteira, nem por muito tempo, na nova 
ordem. Seu texto continha uma astuciosa dubiedade. Professava 
uma derramada adeso aos fatos con sumados e estabelecia um 
cauteloso distanciamento em relao ao futu ro. Apoiava a 
instaurao da ditadura com a prpria retrica do regime:
Ao rendermos graas a Deus, que atendeu as oraes de 
milhares de bra sileiros e nos livrou do perigo comunista, 
agradecemos aos militares que, com grave risco de suas vidas, 
se levantaram em nome dos supremos in teresses da Nao Em 
seguida, separava-se dela com a linguagem dos li berais: No 
h dvida que a ao militar deve consolidar a vitria me 
diante o expurgo das causas da desordem. Entretanto, o 
critrio da correo e os mtodos a serem empregados na busca 
e no trato dos culpados, as medidas saneadoras e as 
penalidades no so atribuio da fora como tal, mas de 
outros valores, sem os quais a fora no passaria de arbitra 
riedade, de violncia e tirania. Que os acusados tenham o 
sagrado direi to de defesa e no se transformem em objeto de 
dio ou de vindita
Finalmente, defendeu a inviolabilidade da instituio 
eclesistica:
Cumpre-nos declarar que no podemos concordar com a atitude 
de cer tos elementos que tm promovido mesquinhas 
hostilidades  Igreja, na pessoa de bispos, sacerdotes, 
militantes leigos e fiis2 Era uma lingua gem branda, 
elptica, mas tambm o primeiro sinal de que a Igreja, ao 
contrrio dos partidos polticos e das associaes 
empresariais, no es tava disponvel para um processo de 
automutilao. A hierarquia ecle sistica que em 1792 
celebrara o Te Deum pela execuo de Tiradentes e em 1824 
tirara as ordens de frei Caneca quando ele foi levado pelas 
ruas do Recife at o peloto de fuzilamento, era coisa 
passada.
34 Padre Lage, O padre do diabo, p. 137. Padre Lage, carta, 
em Projeto Brasil: nunca mais, tomo v,
vol. 1: A tortura, p. 983.
35 Correio da Manh, 3 de junho de 1964.
36 Para uma viso da reunio que produziu esse documento, ver 
Celia Maria Leite Costa, Dulce
Chaves Pandolfi e Kenneth Serbin (orgs.), O bispo de Volta 
Redonda, pp. 76-8.
240        A DITADURA ESCANCARADA
As violncias sofridas pelo padre Lage, bem como os casos 
espar sos de brutalidade contra militantes de organizaes 
religiosas, recebe ram da Igreja um tratamento morno, tpico 
da noo segundo a qual tudo no passava de excessos do 
fragor da hora. Visitando o colgio Pio Brasileiro de Roma, 
o papa Paulo vi, preocupado com o momento de temores e 
paixes, pediu a unio dos bispos e recomendou-lhes buscar 
o prudente conselho do nncio apostlico O governo do 
marechal Casteilo Branco acenara com a normalidade poltica 
em troca da diges to das violncias cometidas. A CNBB 
aceitara a transao. Vivia-se uma poca em que o padre Lage 
chegara a recuperar os livros apreendidos em seu apartamento, 
depois de escrever uma carta ao general Ernesto Geisel, chefe 
do Gabinete Militar. Preso no Hospital Central do Exrcito, 
no Rio de Janeiro, conseguira at mesmo telefonar ao nncio 
protestan do contra aquilo que considerava excessiva 
intimidade entre a cpula catlica e a ditadura.
Entre o palcio do Planalto e a hierarquia eclesistica havia 
um sin cero desejo de que a construo fosse duradoura. Ela 
dependia, porm, da satisfao de duas condies: a 
desmobilizao da esquerda da Igreja e o enquadramento da 
direita do regime. Bastaria que uma das duas fa lhasse para 
pr em perigo o acordo. Falhariam as duas.
Na manh de sbado, 6 de junho de 1964, quatro dias depois da 
di vulgao do comunicado dos bispos, uma equipe do Cenimar 
entrou num apartamento da rua das Laranjeiras, no Rio de 
Janeiro, onde viviam oito jovens militantes da Ao Catlica, 
e levou-os para o Arsenal da Mari nha. L, um oficial 
recebeu-os com satisfao:
 O peixe caiu na rede.
 No  um peixe qualquer, comandante.  um peixo  corrigiu 
um agente.
37 Fala de Paulo vi no colgio Pio Brasileiro, em 28 de abril 
de 1964. Em O So Paulo de 15 de
maio de 1964, citado em Fernando Prandini, Victor A. Petrucci 
e frei Romeu Dale, O. P. (orgs.),
As relaes Igreja-Estado no Brasil, vol. 1, p. 29.
38 Padre Lage, Opadre do diabo,pp. 141 e 160.
UMA ELITE ANIQUILADA        241
 Ento, Betinho, onde esto os outros dirigentes da AP?  
indagou o oficial.
 O senhor est me confundindo, no sou o Betinho.
Tomou um golpe no rosto.
 Filho-da-puta! Como no  o Betinho? Voc no  de Belo 
Hori zonte?
 Sou.
 No  da juc?
 No, da JEC.
 E qual  a diferena, seu veado? S falta dizer que no  
da AP! Quer levar umas porradas para refrescar a memria?
O preso explicou: militava na Ao Catlica, que nada tinha a 
ver com a AP, era mineiro e chamavam-no Betto, mas no era 
Herbert Jos de Souza, o Betinho, principal idelogo da 
organizao esquerdista cat lica. Chamava-se Carlos Alberto 
Libnio Christo. A Marinha voltaria a ouvir falar dele como 
frei Betto, Vitor, Ronaldo e Olavo, do convento de Perdizes, 
da AP, da ALN.
39 Frei Betto, Batismo de sangue, p. 111.
A soberba de Lcifer
Entre junho de 1964, quando o Cenimar prendeu Carlos Alberto 
Lib nio Christo pensando que era o Betinho da AP, e novembro 
de 69, quan do o Exrcito capturou frei Betto sabendo que era 
o Vitor da ALN, a Igre ja e o regime fizeram o que lhes 
parecia possvel para garantir uma convivncia harmnica. S 
no fizeram o que lhes era impossvel. Nem o governo poderia 
permitir a mobilizao da Igreja, nem ela poderia des 
mobilizar-se. Nesse antagonismo institucional, um via no 
outro a sober ba de Lcifer.
A ordem conservadora que se imps em abril de 1964 
correspondia aos desejos de uma poderosa faco da hierarquia 
e do clero catlicos. Envolvida desde os anos 50 num processo 
de reavaliao que precedeu as grandes discusses do Conclio 
Vaticano ii, a Igreja brasileira vivia ten ses que eram a um 
s tempo tpicas da sua estrutura e comuns  efer vescncia 
dos primeiros anos da Era de Aquarius. Vivia-se o pontificado 
de Joo xxiii, um campons gordo, divertido e bondoso que 
despiu a Igre ja das vestes regalescas de Pio xii, levando-a 
a repensar sua prpria exis tncia. s vezes, aquelas 
tenses, diversas na origem, confundiam-se com o debate 
nacional. Esse era o caso da militncia esquerdista de 
sacerdo tes em organizaes laicas como a AP ou 
evangelizadoras como a Ao Catlica. Havia, porm, clivagens 
especficas, relacionadas com o orde namento da burocracia 
eclesistica, que pouco dependiam do cotidiano poltico. 
Nesse aspecto, era exemplar a atividade da Conferncia Nacio
T
244        A DITADURA ESCANCARADA
na! dos Bispos do Brasil, experincia sem precedentes no 
direito can nico ou na histria do catolicismo
Nascida nos anos 50, a CNBB fora reflexo precoce de 
inquietaes do clero que haveriam de alterar o funcionamento 
da Igreja ps-conciliar. Na sua expresso mais simples, 
reorganizara a estrutura baseada na hierarquia centrpeta dos 
cardeais e abrira espo para uma outra ordem. Descentra 
lizadora na base, oferecia a cada bispo recursos que lhe 
aumentavam a au tonomia. Centralizadora, engendrara uma 
cpula parlamentar que dava ao episcopado voz e plpito para 
falar pela Igreja. Processo complexo por si mesmo, era quase 
inalcanvel para um regime de inspirao militar e f na 
hierarquia. A idia segundo a qual cerca de 150 bispos 
pudessem dis por de autonomia em suas dioceses, sem dar 
contas ao cardeal, equivalia, para os militares desinformados 
dos mecanismos de funcionamento da Igre ja, a uma situao em 
que o coronel de um regimento de infantaria no deve contas 
ao general comandante de exrcito. A noo de que o plen rio 
da CNBB podia fixar linhas de ao sem que cada diocese lhe 
devesse obe dincia equivalia  existncia de um comando 
incapaz de comandar.
A imunidade do clero aos expurgos coercitivos do regime era 
ou tro complicador para as relaes entre a Igreja e a nova 
ordem. Os depu tados socialistas, os coronis do janguismo e 
os professores do Partido estavam cassados, reformados e 
demitidos, mas os bispos de esquerda continuavam com suas 
mitras. Pior: os padres continuavam nas mes mas parquias. 
Ambos dispunham da proteo institucional da estru tura 
eclesistica. Se generais e burocratas do regime podiam agir 
em seus quartis e reparties sem o estorvo da crtica de 
antigos oponentes ideolgicos, o clero conservador estava 
obrigado a conviver com seus an tagonistas, como se nada 
tivesse acontecido. A Igreja tornara-se a nica instituio 
nacional a conservar dentro do seu organismo, na plenitude de 
seus direitos, personalidades publicamente adversas  nova 
ordem.
1 Ralph deila Cava, Poltica a curto prazo e religio a 
longo prazo  Uma viso da Igreja catli cano BrasiI 
Encontros com a Civilizao Brasileira, n 1, julho de 1978, 
Rio de Janeiro, pp. 242-57.
A SOBERBA DE LCIFER 245
Havia um clero de esquerda antes de 1 de abril de 1964 e 
continuaria
havendo depois.
Dois remanejamentos eclesisticos, ambos ocorridos dias antes 
da deposio de Goulart, alterariam o equilbrio de foras na 
Igreja, em be neficio do regime. O primeiro deu-se entre as 
treze e 16h30 do dia 7 de maro de 1964. No incio da tarde, 
o papa transferiu d. Helder Cmara, bispo auxiliar do Rio de 
Janeiro, para a diocese de So Lus do Maranho. Depois de 27 
anos de trabalho comum, suas relaes com d. Jaime ha viam-se 
deteriorado. O nncio apostlico tentara salv-lo, mandan do-
o para Salvador, onde ficaria a um passo do barrete 
cardinalcio, mas o cardeal lvaro da Silva no o quis. O 
bispado maranhense era um ex lio, somado a uma 
desclassificao. s 16h30 chegou a Roma um telegra ma com a 
notcia de que d. Carlos Coelho, jovem arcebispo de Olinda e 
Recife, acabara de morrer de choque anafiltico, aps uma 
cirurgia ba nal. Uma semana depois, d. Helder foi indicado 
para a s de Olinda. Para os conservadores, teria sido melhor 
v-lo em So Lus, mas, de qualquer forma, estava fora da 
poderosa arquidiocese do Rio de Janeiro.
A magra figura de d. Helder, com 55 anos, sempre metida numa 
ba tina folgada, era o smbolo mais visvel e querido da 
Igreja catlica. Des de os anos 50 confundia-se com uma 
Igreja de alcance popular cujos con tornos pioneiros 
demarcava. Erguera no Leblon um conjunto habitacional para 
favelados. Organizara a gr-finagem do Rio de Janeiro em 
torno da Feira da Providncia, na qual as madames se punham a 
vender quitutes e as embaixadas a repassar bebidas importadas 
pela metade do preo (por conta da iseno tributria de que 
gozavam). Patrocinou congressos de favelados, montou uma 
central de abastecimento de gneros aliment cios e fundou um 
banco destinado a atender os pobres. No seu conselho curador 
estavam sobrenomes como os de Celina Guinle de Paula Macha do 
(me de um dos empresrios que financiavam o IPs) e Bento 
Ribei ro Dantas (dono da companhia area Cruzeiro do Sul, em 
cujas asas a conspirao contra Jango voava de graa). 
Tornara-se um dos raros bra
2 Candido Mendes de Almeida, maio de 1988. Para os fatos do 
dia 7 de maro, Nelson Piletti e
Walter Praxedes, Dom Helder Cmara, p. 292.
3 Nelson Piletti e Walter Praxedes, Dom Helder Cmara, p. 
250.
A DITADURA ESCANCARADA
sileiros homenageados com um sambinha de Carnaval, gnero 
mais fr til na crtica do que no louvor:
Obrigado, reverendo.
Deus l do cu est vendo
a nossa gratido.
A ao caridosa de d. Helder era apenas uma de suas 
caractersticas, talvez a menos importante, acessria  
essncia da personalidade que o trans formou na maior figura 
poltica da histria da Igreja no Brasil. Lder fas cista nos 
anos 30, popularesco nos 50 e homem de esquerda para o resto 
da vida, foi acima de tudo um organizador da fora do 
catolicismo. Pas sou de seminarista a bispo em 29 anos, sem 
cuidar de parquia. Sob as pe les rotas daquele Joo Batista 
houve um Paulo. O padre Helder ligado  Ao Integralista no 
Cear fora a mola que fez da Liga Eleitoral Catlica a grande 
vencedora das eleies de 1934 no estado. Seu siogan era Um 
vo to para a LEC  um voto para Nosso Senhor Jesus Cristo 
Trazido para o Rio de Janeiro, reorganizou a Ao Catlica 
Brasileira e trabalhou junto a Roma para a criao da CNBB. 
L, contava com um admirador e aliado en tre os monsenhores 
que formavam a corte de Pio x Chamava-se Giovan ni Battista 
Montini. Criada a CNBB, d. Helder ocupou sua secretaria geral 
por doze anos. Em 1964 ele era a um s tempo nome da estima 
do papa Paulo vi (seu amigo Montini, eleito havia um ano)) 
encanto da esquerda catlica europia, smbolo do apostolado 
dos humildes, poderoso articu lador na CNBB e o mais popular 
dos sacerdotes brasileiros.
Para a nova ordem poltica brasileira, tinha o exato perfil 
de um pro blema. Pouco antes de seguir para o Recife, d. 
Helder encontrou-se com o general Castelo Branco, em cujo 
rosto rolou uma lgrima quando lhe contou que sua mulher, 
morta no ano anterior, tinha o hbito de ouvir suas prega 
es. No dia 11 de abril de 1964, diante da s do Recife, onde 
acabara de ser sagrado arcebispo, advertiu: No confundamos 
a bela e
4 D. Eugnio Saies, junho de 1987. O cardeal estava presente 
ao encontro.
A SOBERBA DE LCIFER 247
indispensvel noo de ordem, fim de todo o progresso humano, 
com con trafaes suas, responsveis pela manuteno de 
estruturas que todos re conhecem no podem ser mantidas Em 
Olinda, pela primeira vez des de sua ordenao, trabalharia 
sem a proteo da sotaina de um cardeal conservador. Se isso 
lhe dava liberdade de ao, tambm fazia dele um al vo mais 
fcil para os adversrios que colecionara dentro e fora da 
Igreja.
O segundo remanejamento que alteraria o balano do poder 
eclesis tico brasileiro ocorreu no dia 22 de maro de 1964, 
quando o cardeal- arcebispo de So Paulo, d. Carlos Carmelo 
de Vasconcelos Mota, aos 74 anos de idade, despachou uma 
carta ao papa pedindo que o dispensasse da funo. Bisneto do 
visconde de Caet, era ao mesmo tempo descen dente da nobreza 
mineira do Primeiro Reinado e exemplar tpico do car dinalato 
principesco. Defendia um clero palaciano, que evitasse dispu 
tas polticas pblicas. Condmino do poder, tivera suficiente 
intimidade com o governador Adhemar de Barros para aconselh-
lo, em momentos de crise, na casa da amante. Talvez tenha 
sido o nico (certamente o l timo) cardeal brasileiro a 
escrever ao presidente da Repblica pedindo a promoo de um 
coronel a general-de-brigada.
A sada de d. Helder do Rio e o nome do sucessor do cardeal 
Mota em So Paulo haveriam de favorecer o entendimento dos 
bispos com os generais. Em outubro de 1964, a CNBB reuniu-se 
em Roma. Formou-se uma maioria conservadora, derrubou-se d. 
Helder da secretaria geral, e defenestrou-se toda a sua 
equipe. A ofensiva foi to profunda que em dezembro o 
arcebispo de Olinda foi visitado por uma carta do Santo Ofi 
cio e teve de se defender da acusao de freqentar um templo 
protes
5 Correio da Manh, 12 de abril de 1964.
6 Octavio Frias de Oliveira, janeiro de 1998. No dia 5 de 
junho de 1966, Frias encontrou o car deal no apartamento de 
Ana Capriglioni. Adhemar acabara de ser cassado e, padecendo 
de uma crise de asma, estava deitado no quarto.
7 Carta de d. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota ao 
presidente Juscelino Kubitschek, solicitan do a promoo a 
general do coronel Jos Maria de Moraes e Barros, de 22 de 
outubro de 1960. O general foi promovido em maro, por Jnio 
Quadros. APGCS/HF
8 A vitria conservadora pode ser melhor medida quando se 
sabe que no s d. Helder no foi reeleito, como seu 
candidato, d. Fernando Gomes, foi derrotado na votao para 
preencher a primeira e a segunda vice-presidncia da CNBB. 
Nelson Piletti e Walter Praxedes, Dom Helder Cmara, pp. 314-
5.
248 A DITADURA ESCANCARADA
tante, elogiar seus fiis e criticar a devoo catlica  
Virgem Maria, O reverendo respondeu com amargura: Pedi ao 
Menino Deus: que eu morra antes de causar uma apreenso 
justificada  Santa S.
O conservadorismo colocou na presidncia da CNBB o arcebispo 
de Ribeiro Preto, d. Agnelio Rossi. Um ms depois, durante 
os debates da terceira sesso do Conclio, Paulo vi indicou-o 
arcebispo de So Paulo. Fi lho de um funileiro italiano, 
sacerdote de hbitos gentis e reputao de excelente 
administrador, Agneilo Rossi recebeu com o plio da s paulis 
ta a oferta da liderana de um reordenamento conservador. Aos 
51 anos, sado de um bispado sem expresso poltica, chefiava 
a maior arquidio cese do pas e presidia uma CNBB sem d. 
Helder na secretaria geral. Tor nou-se um operrio do 
regresso. Com a ajuda da hierarquia tentou fazer que a Igreja 
coubesse dentro do projeto desmobilizador do regime. Di luiu 
a ao da CNBB, liquidou as organizaes laicas da juventude 
catli ca e afastou-se do debate poltico.
At a segunda metade de 1967 esse projeto foi bem-sucedido. 
Hou ve escaramuas, mas o regime conseguia conviver com a 
militncia ca tlica e a hierarquia tolerou pequenas 
provocaes de militares, quase sempre contra d. Helder. Por 
pouco no se espetou no manto de Nossa Senhora Aparecida, a 
padroeira do Brasil, o ttulo de generalssima das Foras 
Armadas. Sobrevivia um acordo feito no governo Castello, re 
velado pelo cardeal Vicente Scherer, de Porto Alegre, pelo 
qual o gover no no prenderia padres sem que tramitassem pela 
hierarquia os peca- dos de que eram acusados. O prprio Costa 
e Silva dizia: No h atrito entre a Igreja e o governo, o 
que existe so divergncias entre alguns ele mentos do clero 
e alguns oficiais das foras armadas, mas no divergn cias 
entre as duas instituies.
9 Nelson Piletti e Walter Praxedes, Dom Helder Cmara, p. 
358.
tO Charles Antoine, Lglise et le pouvoir au Brsil, p. 137.
tt Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, 
O. P. (orgs.), As relaes Igreja-Estado
no Brasil, vol. 2, p. 40, citando uma declarao de d. 
Vicente Scherer ao Jornal do Brasil de 22 de
novembro de 1967, p. 3.
A SOBERBA DE LCIFER 249
Em julho, atravs da ligao da AP com os beneditinos do 
mosteiro de Vinhedo, nas proximidades de Campinas, deu-se o 
primeiro curto- circuito. Os monges emprestaram o claustro  
UNE para que ela realizas se seu congresso clandestino. Dias 
depois da partida do ltimo estudan te, a polcia contra-
atacou. Deteve onze padres, entre os quais o prior do 
mosteiro, e invadiu o convento de Perdizes, em So Paulo, 
levando seu superior para o DOPS. Uma rpida mobilizao das 
hierarquias do regi me e do clero libertou os sacerdotes.
O regime via a soberba de Lcifer na militncia esquerdista 
dos pa dres. Pela lgica da represso poltica, as suspeitas 
procediam. Havia dois anos a UNE organizava seus congressos 
clandestinos em conventos, indo buscar neles o manto protetor 
da imunidade dos templos. Agravando a tenso, a AP de 1967 
era diferente daquela que no ano anterior abrigara no 
convento dos franciscanos de Belo Horizonte o ltimo plenrio 
dos estudantes. Em Vinhedo, a maioria que elegeu a nova 
diretoria da UNE estava mais prxima do Livro vermelho do 
presidente Mao Zedong que da regra beneditina. Sobre essa 
esquerda catlica remoda pelo debate da luta armada, 
pairavam figuras como a do padre-guerrilheiro Camilo Tor res, 
morto com armas na mo nas matas da Colmbia. Os porta-vozes 
dos comandos militares elaboravam  sua maneira a doutrina 
pacifica dora de Costa e Silva. O deputado Clvis Stenzel, 
ventrloquo dos biva ques, acusava os sacerdotes de 
subverter a ordem e conclua: Por isso tm que ser 
reprimidos pelo governo, como quaisquer cidados
O raciocnio era simples, e nele um padre de esquerda era um 
es querdista, no um padre. Mesmo para bispos conservadores, 
crticos da cesso de conventos a reunies estudantis, a 
idia segundo a qual um pa dre  um cidado qualquer soava 
temvel. Sobretudo porque o regime cer ceava as liberdades 
pblicas dos cidados e a Igreja lhe negava o direito de 
definir a jurisdio poltica dos clrigos. Assim, d. Vicente 
Scherer, ar cebispo de Porto Alegre, condenou a reunio de 
Vinhedo, mas registrou a santidade da organizao 
eclesistica. Ele acusava os frades de Perdizes
12 Camilo Torres aderiu  guerrilha colombiana em dezembro de 
1965 e foi morto em fevereiro
de 1966.
13 Zuenir Ventura, 1968O ano que no terminou, p. 41.
4
250        A DITADURA ESCANCARADA
de utilizar, para promoo de idias pessoais, o prestgio 
que lhes vem de uma dignidade e de um cargo que a Igreja lhes 
concedeu para uma tarefa de evangelizao
O regime no cabia nessa proposio. No dia 11 de novembro de 
1967 o tenente-coronel Gladstone Pernasetti Teixeira, um 
oficial de pouca reputao, freqentador dos subrbios do 
radicalismo do 1 Exrcito, de terminou a invaso do bispado 
de Volta Redonda por uma tropa do 1 Batalho de Infantaria 
Blindada. Ela deveria procurar material subversi vo nos 
quartos onde viviam quatro militantes da Juventude Diocesana 
Catlica presos enquanto distribuam panfletos considerados 
subversi vos. O tenente-coronel Gladstone ordenou  patrulha 
o emprego dos meios indispensveis, como sejam, arrombamento 
de portas e mveis e assim foi feito. A resposta da Igreja 
veio em duas semanas. Depois de ouvir uma exposio de trs 
horas e meia feita por d. Waidyr Calheiros, o bispo que 
Gladstone queria incriminar, a comisso central da CNBB di 
vulgou um documento intitulado Misso da Hierarquia no Mundo 
de Hoje. Nele, dizia: No podem os bispos aceitar, fora da 
legislao da Igreja, que outros pretendam definir e 
delimitar suas funes. Estas no se opem a nenhum 
ordenamento da sociedade civil, desde que justo e racional. [ 
A Igreja exige o maior respeito aos direitos fundamentais da 
pessoa humana, assim como o acatamento  autoridade pblica, 
como respon svel pela promoo do bem comum. Dentro dos 
respectivos campos a Igreja e o Estado gozam de autonomia e 
independncia
Demarcavam-se trs linhas de fortificao. Na primeira o 
clero in formava ao regime que no lhe sub-rogaria poderes 
para definir o con tedo da pregao dos sacerdotes. Na 
segunda, estabelecia que a priso de padres, por quaisquer 
razes, seria uma fonte automtica de problemas com a 
hierarquia. Na terceira, artilhava-se no combate  violncia 
polti 14 Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei Romeu 
Dale, O. P. (orgs.), As relaes Igreja-Esta do no Brasil, 
vol. 2, p. 34.
15 Idem, p. 138. Ver tambm Celia Maria Leite Costa, Dulce 
Chaves Pandolfi e Kenneth Serbin (orgs.), O bispo de Volta 
Redonda, p. 97.
16 Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, 
O. P. (orgs.), As relaes Igreja-Esta do no Brasil, vol. 2, 
pp. 140-1.
A SOBERBA DE LCIFER        251
ca. Cada uma dessas fortificaes podia ser temporariamente 
evacuada, mas nenhuma delas podia ser ostensivamente 
abandonada. Enquanto o regime viveu o espasmo constitucional 
de 1967-68, conseguiu-se uma paz acomodada de articulaes de 
cpula que fortaleciam a hierarquia e, de certa forma, davam 
funcionalidade ao predomnio conservador.
O corifeu da acomodao era d. Avelar Brando, arcebispo de 
Teresi na, verdadeiro ourives das construes de bastidores. 
Defendia a conveni ncia da criao de uma comisso de alto 
nvel (com ele  frente) para dis cutir futuras dificuldades 
entre a Igreja e o Fez-se o possvel. D. Agneilo jantou com o 
comandante do ii Exrcito; d. Eugnio Saies, arce bispo de 
Salvador, reuniu-se com o ministro do Trabalho, e d. Avelar 
en controu-se com Costa e Silva, a quem presenteou com seis 
exemplares da encclica Populorum progressio. A agenda 
presidencial foi generosamente aberta, e o marechal chegou a 
receber d. Waldyr Calheiros. Unindo-se as pai xes 
cerimoniais do clero regalista e dos generais da poca, 
programou-se at mesmo uma visita da imagem de Nossa Senhora 
de Ftima ao Brasil.
A poeira parecia ter baixado, at que em maro de 1968 a 
morte de Edson Luis de Lima Souto acendeu a revolta 
estudantil. No dia da missa de stimo dia pela alma do garoto 
assassinado pela PM, o cardeal Jaime C mara tomou o carro e 
subiu para sua casa na montanha do Sumar. No celebraria a 
missa, marcada para a igreja da Candelria. O arcebispo ora 
va mais por algumas almas e menos por outras. No dia 12 de 
agosto de 1954, numa das piores crises poltico-militares da 
Repblica, celebrara mis sa na mesma igreja por um major da 
Aeronutica assassinado pela guar da pessoal de Getulio 
Vargas. Duas semanas depois, Vargas matou-se, e o arcebispo 
relutou at permitir a missa pela alma do suicida. 19
17 Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, 
O. P. (orgs.), As relaes Igreja-Esta do no Brasil, vol. 2, 
p. 44. Para as relaes entre a Igreja e o governo durante o 
ano de 1968, Not cias da Igreja Universal, n 68/72, janeiro-
fevereiro de 1969. Nmero especial, A Hora da Opo  Estudo 
das Relaes da Igreja e do Estado no Brasil em 68, brochura 
editada pela Parquia Nossa Senhora dos Pobres, So Paulo.
18 Charles Antoine, Lglise et lepouvoir au Brsil, pp. 134 
e segs.
19 Ivo Cailiari, D. Jaime Cmara, pp. 371-2. Em 1970, d. 
Jaime Cmara permitiu que se rezasse missa pela alma do ex-
presidente Caf Filho (o sucessor de Vargas) mesmo sabendo 
que ele era protestante. Segundo seu secretrio, fez isso 
porque, entre Outros motivos, o pblico no tinha 
conhecimento do fato Idem, p. 626.
252
A DITADURA ESCANCARADA
Ao receber a notcia de que a multido fora espancada pela 
polcia enquanto saa da Candelria (coisa que no ocorreu em 
1954), o pastor piscou: No ouvi nada. [ No ouvi rdio. 
Hoje no li jornal. Havia muita coisa a ouvir. Invadiram-se 
as catedrais de Braslia e Goinia, cer caram-se igrejas em 
Belo Horizonte e no Recife, produziram-se chariva ris no fim 
das missas em quatro cidades.
Reunida no Rio de Janeiro em julho, a CNBB enxergara o cu 
nubla do. A violncia cedo ou tarde poder ser inelutvel e, 
de fato,  uma das tentaes do momento, diziam os bispos. A 
VPR havia explodido seu caminho na porta do QG do II 
Exrcito. A maoizao da AP era um fato pblico, e se podia 
supor que essa radicalizao haveria de se refletir nos 
padres que militavam na sua periferia, O brigadeiro Burnier 
expusera os seus planos  tropa do Para-Sar, e o CIE j 
comeara sua ofensiva terro rista contra teatros. A 
construo do episcopado conservador, que s po deria se 
sustentar na utopia da ditadura temporria do castelismo, per 
dera o nexo. Num relatrio especial sobre a situao da 
Igreja brasileira> em setembro de 1968 a CIA informava ao 
governo americano que, por con ta dos ataques a padres e das 
manifestaes estudantis, a linha divisria entre 
conservadores e liberais est se desfazendo, e tende a ficar 
a cada dia mais imprecisa Olhando mais fundo, o servio de 
informaes ame ricano considerava dificil e insustentvel 
a opo do bloco conserva dor formado em 1964 e previa: A 
perspectiva  de um prolongado pero do de tenso acalorada 
entre a Igreja e o Estado
Um ms depois confirmaram-se as piores previses. Pressionado 
pe los sacerdotes de sua arquidiocese, o cardeal Agneilo 
Rossi recusou-se a receber a gr-cruz da Ordem Nacional do 
Mrito que lhe fora concedi- da por Costa e Silva. Era o 
troco de uma parte do clero paulista pela ex pulso do pas 
do padre-operrio belga Pierre-Joseph Wauthier, detido 
durante uma greve e encarcerado no DOPS por 29 dias. 
Empregado da Bra
20 Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, 
O. P. (orgs.), As relaes Igreja-Estado
no Brasil, vol. 2, p. 58.
21 Idem,p.82.
22 The Catholic Church in Brazil, Special Report da Central 
Intelligence Agency, de D de setem bro de 1968.
A SOBERBA DE LCIFER
253
seixos, em Osasco, no fizera piquete durante as greves, 
apenas negara- se a abenoar liturgias patronais. D. Agneilo 
tentara dar ao caso um tra tamento de alto nvel e chegara a 
dizer que no queremos pedir favores especiais s 
autoridades civis, O cardeal estava na Colmbia, onde vota 
ra uma resoluo condenando o trfico de patacas, quando a 
polcia me teu Wauthier num avio e o mandou para a Europa. 
Sucedeu-se uma re belio. O conselho de presbteros de So 
Paulo escreveu ao papa, noventa padres protestaram em Porto 
Alegre, c religiosos e freiras fizeram uma passeata 
silenciosa em frente  catedral do Rio, e duzentos outros 
marcharam pelas ruas de Osasco. A presso sobre o cardeal 
durou at a vspera da entrega da comenda. De um lado os 
padres, do outro o che fe da agncia do SNI em So Paulo, que 
o visitou em casa. O cardeal man dou seu secretrio oferecer 
um gambito a Costa e Silva: no iria ao QG do ii Exrcito, 
onde seriam distribudos os crachs, mas celebraria de bom 
grado uma missa pelos 66 anos do presidente na capela 
particular do pa lcio episcopal. L, receberia a gr-cruz. O 
presidente no fez negcio.
O operrio do regresso foi soterrado pelo seu prprio 
estratagema. No mundo dos prncipes, era legtimo que Costa e 
Silva visse na pataca compensao adequada  expulso de 
Wauthier. Era at mesmo com preensvel que o cardeal lesse no 
gesto do marechal mais uma demons trao do desejo do governo 
de ter boas relaes com a hierarquia. A Igre ja, contudo, 
no coube no arranjo. Uma violncia banal somada a uma 
esperteza malsucedida resultaram na desmoralizao do 
cardeal.  direi ta, porque dizendo-se amigo do governo, 
recusou a condecorao.  esquerda, porque se no o tivessem 
pressionado, teria pendurado a gr- cruz na sotaina. Dias 
depois uma rajada de tiros varreu as paredes exter nas de uma 
casa do bairro de Manguinhos, no Recife. Nela vivia d. Hel 
der Cmara.
23 Charles Antoine, Lglise et le pouvoir au Brsil, pp. 180 
e segs. Thomas C. Bruneau, The poli tical transformation 
ofthe Brazilian Catholic Church, pp. 199 e segs.
24 Para o encontro com o chefe da agncia do SNI, depoimento 
do general Enio Pinheiro, em Ma ria Celina dAraujo, Glucio 
Ary Dillon Soares e Celso Castro (orgs.), A volta aos 
quartis, p. 251. 25 Jayme Porteila de Meilo, A Revoluo e o 
governo Costa e Silva, pp. 598-9.
26 Telegrama da agncia France Presse, de 26 de outubro de 
1968.
254        A DITADURA ESCANCARADA
A divergncia em torno dos limites do apostolado via-se 
afogada por uma questo maior: a violncia do Estado atravs 
da tortura. Ela bateu  porta da Igreja em novembro de 1968 
com a priso, em Belo Horizon te, de trs padres 
assuncionistas franceses e um dicono brasileiro. Fo ram 
tirados de suas casas e ficaram incomunicveis por uma 
semana. Seus interrogadores informaram que se reconheceram 
subversivos e socialis tas. Mais: que planejavam trs focos 
guerrilheiros no interior de Minas Gerais. Um dos sacerdotes 
teria mencionado a existncia de 40 mil combatentes prontos 
para a ao em Pernambuco. O coronel Octavio Medeiros, 
comandante do CPOR, exibiu  imprensa um caderno manus crito 
onde o padre Michel le Ven (cujos interrogatrios viriam a 
somar 150 horas) escrevera que o povo tem o direito de pegar 
em armas para se defender
Com as quatro novas prises subiu para treze o nmero de 
sacer dotes encarcerados naquele ano, mas o episdio dos 
assuncionistas pa recia de soluo simples: padres 
estrangeiros metidos com pobreza e es querdismo a caminho de 
uma expulso do pas, negociada entre a cpula de So Pedro e 
a lajota do Planalto. Cada parte recitou a sua partitura. O 
manto protetor da batina no pode proteger um crime, dizia o 
mi nistro da Justia. Esses padres foram presos porque 
abandonaram a pregao do Evangelho, devotando-se a uma 
pregao poltica e ideo lgica, bem como  organizao da 
subverso e de movimentos guerri lheiros armados para a 
derrubada do regime, explicava o general Alvaro Cardoso, 
comandante da 48 Regio Militar. A CNBB aceitou o enqua 
dramento dos padres, dizendo que os que erramos no fugimos 
ao jul
27 Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, 
O. P. (orgs.), As relaes Igreja-Esta do no Brasil, vol. 2, 
pp. 112 e segs. Thomas C. Bruneau, The political 
transformation of the Brazi lian Catholic Church, p. 203.
28 Jornal do Brasil, 10 de dezembro de 1968, p. 7, em Thomas 
C. Bruncau, The political transfor mation ofthe Brazlian 
Catholic Church, p. 206.
29 Veja, 11 de dezembro de 1968, p. 16. Fernando Prandini, 
Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, O. P. (orgs.), As 
relaes Igreja-Estado no Brasil, vol. 2, p. 124.
30 Correio da Manh, 8 de dezembro de 1968, em Thomas C. 
Bruneau, Thepolitical transforma tion ofthe Brazilian 
Catholic Church, p. 204.
31 Jornal do Brasil, 3 de dezembro de 1968, p. 7, em Thomas 
C. Bruneau, The political transfor mation of the Brazilian 
Catholic Church, p. 204.
A SOBERBA DE LCIFER        255
gamento da autoridade competente, mas de novo recusou ao 
regime ju risdio sobre o apostolado: O juzo sobre a 
pregao autntica ou no do Evangelho  da competncia 
exclusiva da autoridade eclesistica
Havia algo de novo e de estranho no caso dos assuncionistas. 
A pon ta do vu foi levantada pelo bispo d. Jos de Castro 
Pinto, um sacerdote parrudo, com uma cicatriz no lbio 
superior que lhe dava uma aparn cia zangada. Era detestado 
pela esquerda do clero. Posto numa farda, pa receria um 
coronel de caricatura. E o seria se mais de vinte anos antes 
no tivesse trocado o enxoval de cadete da Academia Militar 
das Agulhas Negras pela batina de seminarista. Enquanto o 
cardeal Cmara, depois de reunir-se com o comandante do 1 
Exrcito, dizia que as acusaes so mesmo muito graves, o 
bispo, com seu rigor, duvidava: Geralmente os rus costumam 
negar at o fim o crime.  realmente espantosa essa con 
fisso assim to rpida
O tema foi retomado pelo arcebispo de Belo Horizonte, d. Joo 
Re sende Costa. Vindo de uma tradicional famlia mineira que 
dera um de seus filhos  Inconfidncia do sculo xv era um 
conservador refina do. Traduzira a obra de Dom Bosco e 
escrevera em italiano um traba lho sobre o telogo Martin de 
Barcos. Em maro de 1964 abenoara o governador Magalhes 
Pinto e a causa de Minas contra o comunismo, mas no dia 12 
de dezembro de 1968 separava-se do regime que saudara ao 
nascer: Irmos, com a minha autoridade de pastor da 
arquidiocese de Belo Horizonte e com a anuncia unnime de 
nosso clero, devo de nunciar o que sei por cincia direta 
pessoal e segura: os depoimentos dos sacerdotes e do dicono 
preso no so aceitos como expresso da ver dade porque foram 
usados com eles espancamentos e torturas. Para honra de nosso 
Exrcito, denunciamos estes horrores, para que as au 
toridades militares no permitam que elementos de sua 
corporao pra- tiquem tais atos
32 Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, 
O. P. (orgs.), As relaes Igreja-Esta do no Brasil, vol. 2, 
p. 113.
33 Veja, 11 de dezembro de 1968, p. 14.
34 Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, 
O. P. (orgs.), As relaes Igreja-Esta do no Brasil, vol. 2, 
p. 114.
256 A DITADURA ESCANCARADA
A Igreja via na violncia do regime a soberba de Lcifer.
No dia seguinte  homlia de d. Joo Resende Costa as 
autoridades militares precipitaram o Brasil na ditadura, e o 
arcebispo no foi esque cido: s duas da madrugada de 14 de 
dezembro um oficial do Exrcito, acompanhado por uma patrulha 
armada com submetralhadoras, inva diu a tipografia do jornal 
da arquidiocese. Logo depois, a tropa entrou no convento dos 
dominicanos de Belo Horizonte.
Se em 1964 a deposio de Goulart isolara a esquerda do 
clero, o AI-5 iniciaria em 68 um processo de corroso da 
frente conservadora que tomara o poder na CNBB com a 
deposio de d. Helder. Apesar de essa corrente ter sido 
formada no vcuo da ordem ditatorial e de ser liderada por 
bispos que simpatizavam com o regime, seu predomnio no 
derivava da qualidade das relaes com a ditadura, mas de uma 
for mulao que viria a ser denominada pastoralista Sua 
racionaliza o pacificadora era uma faca de dois gumes. 
Convinha ao regime ofe recendo uma Igreja apoltica, 
apostolar, mas inquietava-o porque ao mesmo tempo no fazia 
concesses em relao  sua integridade insti tucional.
Nos meses que se seguiram  edio do AI-5, o episcopado 
respon deu ao regime com sinais ambguos e cautelosos. Caso 
tpico ocorreu em Salvador, onde o comandante da Regio 
Militar, general Abdon Senna, orgulhava-se da ditadura: 
Montamos na crista da onda e no descere mos mais Por conta 
disso, resolveu pedir ao arcebispo d. Eugnio Sales que 
celebrasse uma missa para os militares. Magro, ou Patriarca, 
como o chamava d. Helder, tinha 48 anos e estava a um passo 
do cardinalato. Era o primeiro hierarca da Igreja brasileira 
a dispensar a aparncia bondosa e principesca do bispo de 
almanaque. Com seu forte sotaque nordesti no, valia-se de 
frases curtas, lgicas, freqentemente severas, num tom de 
voz inaltervel, seco. O arcebispo respondeu: Abdon, vocs 
que esto contentes com o AI-5 podem agradecer a Deus, mas 
no por meu inter mdio. Dias depois, tendo conseguido um 
celebrante, o general voltou
35 O conceito de pastoralismo foi expresso por Ralph delia 
Cava em seu artigo Poltica a cur to prazo e religio a 
longo prazo Uma viso da Igreja catlica no Brasil, 
Encontros com a Civilizao Brasileira, n 1, julho de 1978, 
Rio de Janeiro, pp. 242-57.
A SOBERBA DE LCIFER 257
ao arcebispo e pediu-lhe que se ausentasse do palcio 
episcopal  hora da missa, de forma a camuflar sua recusa. 
Negcio fechado, d. Eugnio foi visitar parquias. Dera-se 
uma mistura de distanciamento e conci liao. Negando-se a 
celebrar a missa, d. Eugnio demarcara seu distan ciamento. 
Aceitando o libi da visita pastoral, envolveu o gesto na con 
fidencialidade tpica das divergncias dos prncipes.
O mesmo sucedeu com a CNBB em relao ao AI-5. Nos dias 
seguin tes  proclamao da ditadura, d. Avelar Brndo, no 
exerccio da sua pre sidncia, disps-se a enviar uma carta 
pessoal a Costa e Silva. Chegou-se a um texto, mas seu 
destino foi a gaveta. Por sessenta dias a Igreja per maneceu 
em silncio. Os bispos do Nordeste, onde d. Helder, retrado, 
mantivera sua ascendncia, pediram uma reunio extraordinria 
da co misso central da CNBB. Dois em cada trs bispos 
relutaram em reunir- se, e, uma vez juntos, foi necessria a 
ao do nncio apostlico, d. Se bastiano Baggio, para 
quebrar a resistncia  idia de um pronunciamento poltico 
do clero. Quando finalmente se aprovou um texto baseado na 
carta engavetada de dezembro, d. Jaime Cmara decidiu coloc-
lo na se miclandestinidade. Intitulado Presena da Igreja, o 
documento pastoral no se destinava ao conhecimento das 
ovelhas. Baggio exigiu que o car deal levasse o documento a 
Costa e Silva e, diante da relutncia de d. Jai me, ameaou-
o: se os bispos brasileiros no falassem, Roma falaria. O 
Correio da Manh divulgou-lhe a ntegra. Era um documento 
duro: A situao institucionalizada no ms de dezembro 
ltimo possibilita arbi trariedades, entre as quais a 
violao de direitos fundamentais, como o de defesa, de 
legtima expresso do pensamento e de informao: amea a  
dignidade da pessoa humana, de maneira fisica ou moral; 
institui poder que, em princpio, torna muito dificil o 
dilogo autntico entre go vernantes e governados, e poder 
levar muitos a uma perigosa clandes tinidade
36 D. Eugnio Saies, junho de 1987.
37 Charles Antoine, Lglise et le pouvoir au Brsil, p. 203.
38 Ivo Cailiari, D. Jaime Cmara, p. 613.
39 Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, 
O. P. (orgs.), As relaes Igreja-Esta do no Brasil, vol. 2, 
p. 120.
258
A DITADURA ESCANCARADA
Tudo o que os bispos colocavam no campo das possibilidades j 
es tava acontecendo. Quanto  ameaa  dignidade da pessoa 
humana, no dia 19 de fevereiro, quando terminou a reunio da 
CNBB, foi preso em So Paulo o padre Jan Talpe. Durante o 
tempo em que ficou encarcerado con viveu com outro religioso 
que fora espancado no quartel-general do ii Exr cito e viu 
um amigo, professor da Universidade de So Paulo, pendurado 
de cabea para baixo e submetido a pancadas e choques. Quanto 
 pe rigosa clandestinidade foi precisamente por essa poca 
que o Vitor da ALN desconfiou que a polcia estivesse no seu 
rastro e desapareceu do conven to dominicano de Perdizes. Os 
dois Lucferes encaravam-se. Havia tortu ras nas catacumbas 
do regime e sacerdotes nos pores da luta armada.
Na madrugada de 30 de abril de 1969, uma nova rajada varejou 
as paredes do palcio arquiepiscopal do Recife. Era o segundo 
aviso a d. Hel der Cmara, bastante diverso do primeiro. 
Horas antes Cndido Pinto de Melio, presidente da Unio 
Estadual de Estudantes de Pernambuco, estava num ponto de 
nibus nas vizinhanas da ponte da Torre, e uma camionete com 
trs ocupantes parou  sua frente. Um deles, com um re vlver 
na mo e uma meia de mulher cobrindo-lhe o rosto, desceu e 
man dou-o entrar. O estudante reagiu, e o desconhecido atirou 
duas vezes. Com o segundo tiro seccionou-lhe a medula na 
altura das vrtebras dorsais. Aos 22 anos de idade, Cndido 
no voltaria a andar.
As conseqncias do atentado foram resumidas dias depois pelo 
cnsul americano no Recife: A longo prazo, talvez o fato 
mais srio se ja a prova de aparente cumplicidade militar  
ou ao menos aquiescn cia  nos atos terroristas. As provas 
indicam o fato de que alguns oficiais influentes aceitam as 
atividades do CCC como uma forma de presso adi cional e 
aparentemente legtima contra a dissidncia
40 Para o caso de Jan Talpe, Projeto Brasil: nunca mais; tomo 
v, vol. 2: As torturas, p. 271. Para oca so do outro 
sacerdote, Antonio Alberto Soligo, idem, tomo v, vol. 1: A 
tortura, p. 323.
41 Depoimento de Cndido Pinto de Meio, Folha de S.Paulo, 22 
de novembro de 1981.
42 Telegrama de Donor Lion, cnsul americano no Recife, para 
o Departamento de Estado, de
16 de maio de 1969. DEEUA.
A SOBERBA DE LCIFER        259
No ccc pernambucano pontificava o tenente da Polcia Militar 
Jos Ferreira dos Anjos. Fora ele quem atirara em Cndido. 
Campeo de tiro ao alvo, atuava no servio secreto da PM e 
havia quase um ano fora o ni co pernambucano includo na 
turma de dezoito policiais brasileiros se lecionados para um 
curso de aperfeioamento na Academia Internacio nal de 
Polcia, nos Estados Unidos. Ferreira dos Anjos, de 24 anos, 
embarcou para os Estados Unidos em agosto. Um ms depois o 
consu lado americano no Recife achou que ele era carga pesada 
e pediu que o recambiassem para o Recife, se possvel, 
atravs de uma iniciativa bra sileira, mas, se necessrio, 
pela nossa mo mesmo.
D. Helder recebeu o terceiro aviso menos de um ms depois do 
aten tado ao estudante. No dia 27 de maio de 1969 havia um 
cadver nas cer canias das residncias da cidade 
universitria do Recife. Tinha uma cor da passada no pescoo, 
feridas por todo o corpo, um tiro na cabea e cortes de faco 
na garganta e na barriga. Era o padre Antnio Henrique Pe 
reira Neto, de 28 anos, assistente da arquidiocese para 
Assuntos da Juven tude, a quem o arcebispo estimava como a um 
filho. Ainda no necrot rio, d. Helder Cmara identificou 
genericamente os assassinos: aqueles que julgam estar 
salvando a civilizao crist com a eliminao de sacer dotes 
e lderes estudantis
Como sucedeu a inmeros cadveres do regime, muitas foram as 
mor tes do padre Antnio Henrique.A primeira deu-se no 
matagal para onde foi levado numa camionete verde. As 
seguintes deram-se na imprensa, na polcia, no aparelho 
judicirio e, finalmente, na prpria Igreja. Cin co dias 
depois do crime, o Correio Braziliense assegurava, em 
editorial:
43 Para a identificao como autor do atentado, Jacob 
Gorender, Combate nas trevas, p. 163. Se gundo telegrama de 
30 de setembro de 1969 do consulado americano no Recife ao 
Departamen to de Estado, o tenente foi selecionado em agosto 
de 1968 e embarcou em agosto do ano seguin te. DEEUA.
44 Telegrama de Donor Lion, cnsul americano no Recife, ao 
Departamento de Estado, de 30 de setembro de 1969. DEEUA.
45 Jornal do Brasil, 28 de maio de 1969, p. 14, e O Globo, 3 
de junho de 1969.
46 Jornal do Brasil, 28 de maio de 1969, p. 14.
47  de Charles Antoine, Lglise et le pouvoir au Brsil, p. 
230, a idia da segunda morte do padre Henrique.
260 A DITADURA ESCANCARADA
Admite-se que a causa do homicida na pessoa do padre Antnio 
tenha si do de natureza poltica. Resultou de sua atividade  
frente das famosas re formas sociais e econmicas que com 
tanto entono e ameaas subversivas esto sendo pregadas por 
uma parte transviada, descrente e utilitria do clero 
catlico. Mas pode acontecer tambm que sejam outras, pois 
no  pequeno o nmero de padres que se esquecem de alguns 
dos seus deveres fundamentais e correm a competir com os 
demais cidados em atividades que antes os colocariam em 
forte suspeio aos olhos dos fiis. [ Nin gum mataria padre 
Antnio se ele fosse um sacerdote adstrito ao cum primento de 
seus deveres religiosos. [ Violncia atrai violncia, como pa 
lavra puxa palavra.
Exercitando seu apostolado junto aos jovens numa poca em que 
o consumo da maconha e de psicotrpicos era quase um rito de 
passa gem da adolescncia, o padre Henrique viu-se pintado 
como homos sexual, garanho e drogado. Para quem no 
acreditasse em nenhuma dessas hipteses, oferecia-se a teoria 
de que fosse tolo por meter-se com jovens pobres, 
homossexuais, garanhes e drogados. De qualquer forma, a 
culpa fora sua. A tese do crime passional funcionou ao mes mo 
tempo como inibidora de protestos e como pretexto para quem 
bus cava desculpa para calar. No incio dos trabalhos 
policiais, o diretor do Departamento de Investigaes, 
delegado Jos Bartholomeu Gibson, se guiu apenas as pistas 
que conduziam a viciados. Pudera, se tentasse procurar a 
camionete verde que levara o padre ao matagal, poderia des 
cobrir que ela pertencia  polcia e na noite do crime fora 
abastecida com sua autorizao. Se pedisse ajuda  me do 
padre, descobriria que seu sobrinho Jernimo Gibson a 
visitara 48 horas depois do crime para dizer-lhe que se 
tentasse saber quem lhe matara o filho, tomaria um tiro nas 
costas.
1
48 Correio Brazliense, 31 de maio de 1969, p. 4.
49 Jornal do Brasil, 27 de maio de 1970, p. 18.
50 Folha de S.Paulo, 19 de agosto de 1988.
51 Jornal do Brasil, 25 de janeiro de 1986, p. 20.
A SOBERBA DE LCIFER 261
Pela primeira vez na histria da Igreja brasileira um padre 
fora as sassinado por motivos polticos. A CNBB se limitou a 
condenar o crime, classificando-o de ato poltico, para cair 
logo depois em solene torpor. Obra de policiais, o crime 
tivera o objetivo explcito de atingir o arcebis po de Olinda 
e Recife. As leses existentes no corpo do padre Henrique 
indicavam que, antes de meter-lhe trs balas na cabea, seus 
algozes tor turaram-no. Sob diversos aspectos o delito 
mostrava-se mais grave que o assassinato de Edson Luis de 
Lima Souto, um ano antes. No caso do es tudante, a PM sempre 
poderia dizer (ainda que ao desamparo do depoi mento de 
testemunhas oculares) que ele fora alvejado pela fatalidade. 
Ade mais, Edson Luis estava numa manifestao pblica. O 
padre foi capturado quando voltava para casa e executado com 
ostensiva crueldade. Nesse mes mo dia o cardeal Cmara 
estivera com Costa e Silva. Informara-o de que escrevera ao 
papa Paulo vi oferecendo-lhe sua renncia por estar perto de 
completar 75 anos. O marechal imediatamente mobilizou o 
ministro das Relaes Exteriores para fazer saber  Santa S 
seu interesse na pre sena de d. Jaime na arquidiocese.
No se tinham passado ainda dois meses da morte do padre 
Henri que quando, no dia 17 de julho, os cinco cardeais 
brasileiros atravessa ram o porto do palcio da Alvorada. 
Haviam chegado a Braslia num dos Boeings da Presidncia da 
Repblica. Conversaram por hora e meia com Costa e Silva e 
passaram  mesa de jantar. Nenhum dos convidados narrou a 
conversa, e o presidente deixou dela apenas uma frase, lem 
brando que eles lhe falaram de direitos humanos  provvel 
que no encontro Costa e Silva tenha comunicado aos cardeais o 
seu desejo de reabrir o Congresso, medida considerada na 
poca um indicador do abrandamento do AI-5.
52 As execues de padres rebeldes ocorridas no sculo xix 
foram abenoadas pela Igreja, e, do ponto de vista do direito 
cannico, eles no eram religiosos, visto que foram despidos 
dos votos antes que os despissem da vida. A percepo de que 
o padre Henrique foi o primeiro clrigo as sassinado  de 
Scott Mainwaring, em A Igreja catlica e a poltica no 
Brasil, p. 120.
53 Ivo Calliari, D. Jaime Cmara, p. 616.
54 Notas taquigrficas, sem reviso, das reunies da Comisso 
de Alto Nvel designada pelo Se nhor Presidente da Repblica 
para a reforma da Constituio de 1967, em A Constituio que 
no foi, p. 168.
262        A DITADURA ESCANCARADA
A hierarquia da Igreja recebera dois sinais: um com o cadver 
do padre Henrique, outro no jantar no Alvorada. Ficou com o 
segundo. No fim de julho de 1969 reuniu-se a x Assemblia 
Geral da CNBB. Eram quase du zentos bispos. Viera at mesmo o 
secretrio-geral do Conclio, cardeal Pe ride Felici. No 
plenrio circulava um documento intitulado Relaes en tre a 
Igreja e o Estado no Brasil. Denunciava a expulso e a priso 
de padres. Foi rejeitado por 135 votos contra sessenta. 
Falando pelo episcopado, d. Agnello informou que a CNBB 
repudia os assaltos e atos terroristas que tm resultado at 
mesmo em perdas de vidas. A reunio encerrou-se sem que 
fosse divulgado nenhum documento, e d. Helder Cmara voltou 
pa ra o Recife sem dizer uma s palavra  imprensa.
A reunio da CNBB foi o apogeu do conservadorismo. Superou de 
muito a reviravolta de 1964 porque se cinco anos antes os 
bispos aplau diram uma insurreio militar vitoriosa havia 
meses, em 69 guardaram respeitoso silncio diante de uma 
ditadura que passara a valer-se da tor tura como poltica de 
Estado. No se tratava apenas de uma beata ini bio, 
existiam mesmo ingredientes de apoio  utopia ditatorial. Um 
documento interno produzido por d. Jos Gonalves, ex-
secretrio-ge ral da CNBB, argumentava que o modelo de 
democracia convencional [ aparece cada vez mais incompatvel 
com a rapidez e eficincia do processo decisrio que deve se 
acomodar a um ritmo acelerado de mu dana
Em apenas sete meses a Igreja brasileira dera um dos maiores 
saltos para trs de sua histria. Em fevereiro de 1969, na 
declarao da comis so central (organismo colegiado, de 
representatividade e poderes infe riores  assemblia), 
defendera os direitos humanos e fizera uma astucio sa citao 
da encclica Com ardente preocupao, na qual Pio x procurara 
dissociar a Igreja catlica do nazismo, em 37. No final de 
julho saltara para
55 Jornal do Brasil, 31 de julho de 1969, p. 3.
56 Telegrama da agncia France Presse, de 25 de julho de 
1969.
57 Scott Mainwaring, A Igreja catlica e a poltica no 
Brasil, p. 105.
A SOBERBA DE LCIFER        263
o silncio histrico que marcara o pontificado de Pio xii. O 
triunfo do regresso foi alavancado pela confluncia das 
promessas de Costa e Silva com uma atitude que o professor 
Candido Mendes de Almeida, secret rio-geral da Comisso 
Episcopal de Justia e Paz, denominaria de dou trina do no 
acredito no pode ser ou do no pago para ver.
Em janeiro de 1969 a Oban comeara a destruir a VPR em So 
Pau lo, e o coronel Octavio Medeiros liquidara o Colina em 
Belo Horizonte. Em abril o comandante Clemente Monteiro Filho 
montara com um des tacamento de fuzileiros navais seu pequeno 
campo de concentrao da ilha das Flores, e l moera o MR-8. 
Em julho, quando os bispos se cala ram, podia-se pr em 
dvida a durabilidade da nova poltica de repres so, mas no 
se podia duvidar de sua existncia.
Na periferia da CNBB uma pequena rede de advogados, 
coordenada do Rio de Janeiro por Candido Mendes, vinha 
reunindo depoimentos de supliciados. Mais: antes do incio da 
x Assemblia Geral, a CNBB recebeu uma carta assinada por 
religiosos mineiros. Seu intrito era claro: Que remos 
precisar os tipos e os lugares de tortura de que temos 
certeza Lis tavam cinco pores e sete modalidades de 
suplcio. Diante da documen tao existente, as barreiras do 
no acredito e do no pode ser eram precrias. Vigorava 
sobretudo a do no pago para ver Pior: a Santa S no 
queria arestas. O principal colaborador do papa, monsenhor 
Gio vanni Benelli, escrevera a d. Helder (a quem conhecera no 
Rio quando servira como secretrio da nunciatura) informando-
o que o Vaticano pre feria v-lo no trabalho apostlico de 
Olinda a t-lo viajando pelos qua tro cantos do mundo. 
Determinava-lhe que s falasse no exterior depois de 
consultar a autoridad eclesistica local a respeito do 
contedo e da oportunidade de suas intervenes
58 Para o documento da comisso central, Fernando Prandini, 
Victor A. Petrucci e frei Romeu Da le, O. P. (orgs.), As 
relaes Igreja-Estado no Brasil, vol. 2,p. 121.
59 Para o enunciado da doutrina, Candido Mendes de Almeida, 
maio de 1988.
60 Revista Mensaje, dos jesutas chilenos, n 186, janeiro-
fevereiro de 1970, anexo a um artigo de Michel de Certeau.
61 Carta do monsenhor Giovanni Benelli ad. Helder Cmara, em 
Nelson Piletti e Walter Praxe des, Dom Helder Cmara, pp. 
361-2.
264 A DJTADURA ESCANCARADA
O silncio do episcopado possua um carter peculiar. Por sua 
na tureza institucional, pela sua misso apostlica e pelas 
suas razes inter nacionais, cada pronunciamento dos bispos 
era um sinal que se projeta va sobre o futuro, antecipando os 
contornos do que seria a Igreja nos anos seguintes. Como o 
tempo haveria de mostrar, seu ncleo integrista, ca paz de 
defender a tortura e at mesmo de militar publicamente em seu 
favor, era abundantemente minoritrio. O silncio amparava-se 
num amplo setor do episcopado que se julgava capaz de 
combater a violncia do Estado por meio de movimentaes 
palacianas, sem alterar o predo mnio da coligao 
conservadora. Nessa poltica, uma das preocupaes centrais 
seria, por muito tempo, evitar que ao desmascaramento da di 
tadura correspondesse um fortalecimento da esquerda catlica. 
Como a conteno da esquerda era tambm um objetivo do 
regime, havia uma base para que cardeais e generais se 
entendessem.
Conquistar a boa vontade do prncipe poderia ser coisa fcil, 
mas poucas vezes o sucesso de uma cabala de palcio durou to 
pouco quan to o do jantar dos cardeais no Alvorada. Em 
setembro, menos de dois me ses depois do encontro, Costa e 
Silva estava mudo, prostrado numa ca ma no segundo andar do 
Laranjeiras. No trreo, governando o pas, estava a trinca 
inventada pelo general Jayme Porteila. Desabara a iluso do 
retorno ao regime constitucional, perdera nexo a transao do 
siln cio. A Igreja voltou a falar atravs da comisso 
central da CNBB no final do ms: Lamentamos as posies 
radicalizadas em suas variadas mani festaes, como os 
movimentos terroristas de direita e de esquerda, ati vidades 
clandestinas, prises, torturas [ seqestros Apesar da cons 
truo ambgua, foi a mais clara denncia do perodo.
No incio de outubro de 1969 a Operao Bandeirante invadiu o 
Lar Santana, em Ribeiro Preto, instituio que protegia 
simultaneamente me nores abandonados e militantes das Foras 
Armadas de Libertao Na cional, a FALN, pequena dissidncia 
esquerdista. No Lar Santana faziam- se reunies da FALN, e 
nele a polcia achou produtos qumicos usados na
62 Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, 
O. P. (orgs.), As relaes Igreja-Estado
no Brasil, vol. 2, p. 132.
A SOBERBA DE LCIFER        265
fabricao de bombas. Prenderam a diretora da instituio, 
madre Mau rina Borges da Silveira. Na delegacia de Ribeiro 
Preto ela encontrou o delegado Fleury. Duvidaram de sua 
virgindade e ameaaram lev-la a um exame ginecolgico. Um 
policial amarrou-lhe fios nos dedos das mos e rodou o 
magneto.  noite apareceu outro, embriagado, e a abraou. Fi 
zeram-na assinar uma confisso admitindo que era amante de um 
jovem militante da FALN. Por quase um ms ela pediria, sem 
sucesso, que a dei xassem comungar.
Abrira-se um novo conflito, onde se abrigavam dois fatores 
incon ciliveis. De um lado o governo acusava madre Maurina 
de proteger ter roristas, e de outro a Igreja demonstrava que 
a haviam torturado. A pro teo a perseguidos, no entanto, ia 
muito alm da madre de Ribeiro Preto. Nos conventos do Sul 
do pas funcionava um verdadeiro labirinto pelo qual 
religiosos davam fuga a perseguidos polticos e forneciam 
santurio para as movimentaes de emissrios e fugitivos de 
organizaes res ponsveis por atos terroristas. Um pedao 
dessa rede passava pelo semi nrio jesuta Cristo Rei, em So 
Leopoldo, e servia para o repasse de qua dros enviados pela 
ALN. Outro ia de Porto Alegre  cidade uruguaia de Rivera. 
Alm de serem usadas por organizaes armadas que se valiam 
do apoio de religiosos de esquerda, essas trilhas tinham 
outros clientes. Um deles era o embaixador mexicano Vicente 
Sanchez Gavito, amigo do nncio e jurista intransigente, que 
se recusava a dar asilo diplomtico a pessoas envolvidas em 
crimes de sangue mas remetia ao que chamava de mi ruta 
(minha rota) fugitivos que desejava socorrer mesmo sem ter 
podido proteger.
63 Entrevista de madre Maurina Borges da Silveira a Lus 
Eblak, Folha de S.Paulo, 7 de junho de
1998, mais!, pp. 5-5 e 5-6.
64 Auto de Qualificao de Maurina Borges da Silveira, 
Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol.
3: As torturas, p. 206, e entrevista a Lus Eblak, Folha de 
S.Paulo, 7 de junho de 1998, mais!, pp. 5-
5 e 5-6.
65 Para as fugas de quadros da ALN, ver Frei Betto, Batismo 
de sangue, pp. 79-101.
66 Quedograma, item 14.
67 Vicente Sanchez Gavito, novembro de 1969. Em suas 
memrias, d. Waidyr Calheiros refere-se
a outro caso, no qual o nncio, d. Sebastiano Baggio, pediu-
lhe que protegesse uma militante da
Ao Catlica. Em Celia Maria Leite Costa, Dulce Chaves 
Pandolfi e Kenneth Serbin (orgs.), O
bispo de Volta Redonda, p. 80.
266        A DITADURA ESCANCARADA
A priso de madre Maurina tinha os ingredientes capazes de 
trans form-la num caso exemplar de protesto da Igreja. A 
FALN de Ribeiro Preto era um grupo sem a fama nem o 
pronturio das siglas mais pode rosas, como a ALN e a VPR. 
Fraco, porm pioneiro. No primeiro semestre de 1967, pusera 
bombas em cinemas, num mercado e na igreja dos mr mons, sem 
assumir a responsabilidade pelos atentados. A maior acu sao 
que se podia fazer  religiosa era de ter abrigado 
terroristas, sem que tivesse nenhuma relao orgnica com o 
grupo a que pertenciam. Alm disso, as torturas por que 
passou eram muito mais um produto da selvageria de seus 
interrogadores que da funcionalidade do suplcio. Nada do que 
ela pudesse contar levaria a grandes golpes contra o terror. 
Os as sassinos do padre Henrique no eram conhecidos, mas a 
religiosa podia identificar publicamente seus torturadores. 
Madre Maurina tornara-se um desconforto para o governo, e uma 
parte da hierarquia da Igreja aba lara-se com o episdio.
O escasso envolvimento da madre com a FALN no fazia dela a 
en carnao de Lcifer que o governo buscava no clero 
esquerdista. A ses so de tortura por que passara a religiosa 
numa delegacia de Ribeiro Pre to, restrita  meganha, sem 
a participao de militares, tambm no configurava uma 
tpica apario do Prncipe das Trevas encarnado na violncia 
do regime. Seria um caso dificil, mas assim como sucedera nos 
episdios anteriores, havia espao para mais um encontro de 
alto nvel, um acordo, um silncio.
Os Lucferes que governo e Igreja viam um no outro 
encontraram- se no quinto andar do Arsenal da Marinha, no Rio 
de Janeiro, pouco de pois das duas da tarde de 2 de novembro 
de 1969. L, deu-se um choque de absolutos. No pau-de-arara 
estavam dois dominicanos articulados com a ALN e ligados 
pessoalmente a Carlos Marighella. Na manivela do magneto 
estavam oficiais de Marinha e o delegado Fleury, levando o re 
gime  sua maior vitria sobre a subverso esquerdista. 
Quando os tor 68 Luiz Maklouf Carvalho, Mulheres que foram  
luta armada, p. 92.
A SOBERBA DE LCIFER        267
cionrios terminaram seu servio, produziu-se uma alterao 
no jogo de
sombras em que o governo e a Igreja entraram em 1964.
A submisso arrancada aos frades na sala de interrogatrios 
do Ce nimar deu aos torturadores o que parecia uma vitria 
total, lmpida. Demonstraram a um s tempo que havia padres 
envolvidos com a c pula do terrorismo e que, por meio do 
desrespeit aos seus direitos e s prerrogativas da batina 
que a Igreja tanto defendia, fora possvel matar Carlos 
Marighella. A presena dos padres na cena da cilada con tra 
Ernesto adicionou ao episdio uma idia, to falsa quanto 
perver sa, de traio degradante da figura mtica dos 
guerrilheiros. Beijo de Judas comentou o jornal O Globo 
dias depois. A tortura, na sua fun cionalidade, mostrava-se 
arma eficaz contra o terror, desde que pudes se ser aplicada 
a qualquer um, inclusive padres. Dentro desse racioc nio, a 
condenao do suplcio dos dominicanos significava criar um 
embarao ao trabalho do delegado Fleury e dos policiais que, 
em lti ma anlise, haviam matado um dos chefes terroristas 
mais famosos do mundo.
Havia padres envolvidos com o terrorismo, e, no Brasil, 
tortura vam-se padres. Dos dois fenmenos, um era acessrio e 
transitivo, pois nem todos os terroristas eram padres, muito 
menos se podia dizer que todos os padres simpatizassem com a 
esquerda, quanto mais com a es querda armada. O segundo 
fenmeno era essencial e permanente: o re gime fazia da 
tortura de presos seu instrumento primordial de investi 
gao, vangloriava-se de seus resultados e no pretendia 
mudar de posio. Antes da arapuca da alameda Casa Branca 
havia frades que militavam clandestinamente na ALN. Depois 
dela, encarcerados, eles se tornaram tes temunhas pblicas 
dos crimes do Estado brasileiro. Da sala do Cenimar no 
Ministrio da Marinha sara uma s soberba, a do regime.
69 Os dominicanos teriam trado Marighella se o tivessem 
atrado para a cilada por terem muda do de opinio a seu 
respeito, ou ainda se, ante alguma promessa de recompensa, 
visassem algum proveito pessoal ou poltico. Um ato praticado 
diante do medo do retorno a suplcios sistemticos s pode 
ser considerado uma traio se o uso da tortura como forma de 
extrao de confisses  acei to como parte do acervo moral e 
tico da pessoa que declara traidor o preso submisso.
70 O Globo, 6 de novembro de 1969.
268        A DITADURA ESCANCARADA
A caracterstica escandalosa da relao dos dominicanos com 
Ma righella, bem como a cenografia da cilada em que ele foi 
assassinado, pro vocou na Igreja um clima de estupefao no 
qual se sucederam manifes taes desconexas. Em Ribeiro 
Preto, o bispo d. Felcio da Cunha, um religioso que se 
mantinha afastado da poltica, voltou ao caso de madre 
Maurina e excomungou dois delegados de polcia. A punio, 
imposta uma semana aps a morte de Marighella, soava como uma 
reao  ofen siva que o governo lanara contra a Igreja. D. 
Vicente Scherer, cardeal de Porto Alegre, atacou os 
dominicanos, foi atacado por um manifesto do clero de sua 
prpria diocese e reequilibrou-se, pedindo a apurao 
correta dos fatos e o esclarecimento da opinio pblica. D. 
Agnello Ros si permaneceu calado por seis dias. Quando falou, 
pisou no freio: No pedimos privilgios, mas apenas 
reclamamos a observncia dos direitos humanosY Um de seus 
bispos visitou os presos e assegurou-lhe que pe lo menos um 
fora horrivelmente torturado mas o cardeal encerrou a 
conversa: Devo lhe confiar que outros me garantem que no h 
tortu ras em nossas prisesY Na defensiva, a hierarquia no 
conseguiu pro duzir uma s declarao em que houvesse meno 
expressa ao crime pra ticado pelo Estado contra os frades 
presos.
Duas semanas depois da fuzilaria da alameda Casa Branca, o 
cardeal Rossi estava no gabinete de Medici. Dizia que o 
problema dos dominica- nos  da Ordem dos Dominicanos e 
queixava-se da imagem negativa que
o Brasil vinha recebendo da imprensa estrangeira. Convocara 
um grupo de cardeais e bispos ao seu palcio para assistir a 
uma sesso do videotei pe da confisso dos frades, gravado 
pela Marinha depois de suplici-los.
71 Para a data da excomunho, O Estado de S. Paulo, 14 de 
novembro de 1969.
72 O Globo, 18 de novembro de 1969, para o ataque de d. 
Vicente Scherer. Jornal do Brasil, 20 de
novembro de 1969, para sua nota.
73 Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, 
O. P. (orgs.),As relaes Igreja-Estado
no Brasil, vol. 3, p. 16.
74 D. Paulo Evaristo Arns, Da esperana  utopia, pp. 149-50.
75 Jornal do Brasil, 20 de novembro de 1969, p. 15, e 
Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei
Romeu Dale, O. P. (orgs.), As relaes Igreja-Estado no 
Brasil, vol. 3, p. 16.
76 Roberto de Abreu Sodr, No espelho do tempo, p. 164. Outra 
cpia dessa fita foi rodada em Bra slia para o nncio 
apostlico. Idem.
1
A SOBERBA DE LCIFER        269
Com essa conduta, o cardeal legitimava o uso da tortura como 
meio de obter confisses, mas ao mesmo tempo ela lhe dava o 
amparo dos fa tos. Aquilo que os dominicanos confessaram era 
verdade. Faltava dizer que catlicos ultramontanos estavam 
colaborando com o DOPS na estru turao dos interrogatrios 
dos religiosos. Lenildo Tabosa Pessoa, ex- seminarista, 
diretor da revista Hora Presente, audacioso porta-voz do 
conservadorismo e editorialista do Jornal da Tarde, foi visto 
no DOPS por um dos dominicanos presos. Dois delegados da 
equipe de Fleury con firmaram ao reprter Percival de Souza 
que a polcia era assessorada pe lo radicalismo tridentino. 
Havia uma relao entre o clero de esquer da e o 
marighelismo, mas tambm havia uma associao entre a 
miitncia catlica de direita e o poro.
J se tinham passado mais de trs meses do dia em que o 
sacerdote de Belo Horizonte sara de casa com seu gravador 
para ouvir os gritos do poro. A rede de advogados montada 
por Candido Mendes colecionara narrativas incontestveis do 
que estava acontecendo nos crceres. Seu tra balho, que at 
bem pouco tempo era quase um ato de voluntarismo, mu dara de 
natureza.
Desde setembro Candido agia por determinao do novo secret 
rio-geral da CNBB, d. Alosio Lorscheider, um franciscano 
corpulento de 45 anos, com voz fina e um estranho sotaque, 
salada de tiques gachos, alemes e italianos. Era o primeiro 
frade a ocupar um cargo to eleva do na hierarquia e chegara 
a ela com uma biografia em que se mistura vam a 
espiritualidade paroquial dos colonos alemes do Rio Grande 
do Sul e a formao erudita da educao romana. Entrara no 
seminrio fran ciscano de Taquari aos nove anos de idade, 
fora sagrado bispo de San to ngelo aos 38. Dos catorze anos 
que vivera como frade, passara seis em Roma, quer estudando, 
quer lecionando teologia dogmtica no co-
77 Percival de Souza, Autpsia do medo, p. 185.
78 Depoimento dos delegados Josecyr Cuoco e Raul Careca, em 
Percival de Souza, Autpsia do
medo, pp. 374 e 383.
270        A DITADURA ESCANCARADA
lgio Antonianum. Parecia um desconhecido, e durante toda a 
sua tra jetria pela vida poltica brasileira jamais se deu a 
conhecer. Tmido, s vezes grosseiro, isento de senso de 
humor, era perfeitamente previsvel. Sua cabea era o 
Conclio Vaticano e seu corpo, a CNBB. Resultava im possvel 
classific-lo como contrrio ou favorvel a d. Helder, a 
encar nao da linha demarcatria de posies na hierarquia 
do clero brasi leiro, pelo simples fato de que lhe era apenas 
posterior. Dava a impresso de que no criaria casos.
O mesmo sucedia com Candido Mendes. Bisneto do senador do Im 
prio que defendera o bispo d. Vital da perseguio do 
imperador Pedro ii, irmo de um jesuta, o professor Candido 
era dono de uma das maio res universidades privadas do pas e 
transitava com desembarao  esquer da e  direita. Abrigara 
perseguidos durante o governo Casteilo ao mes mo tempo que se 
tornara amigo do general Golbery, com quem negociava em 1969 
a fundao de um centro de estudos polticos. Socilogo de 
lin guagem rebuscada e charmeur compulsivo, Candido Mendes 
tinha uma singular militncia na Igreja. Enquanto era comum 
que os laicos tivessem pouca atividade na burocracia 
eclesistica e fizessem grande barulho jun to  opinio 
pblica como porta-vozes de correntes da Igreja, ele agia  e 
falava  quase exclusivamente dentro da mquina. Ns 
trabalhvamos na direo de criar uma situao no 
dubitativa, na qual no coubessem nem o ceticismo nem o 
aparecimento de hipteses tergiversadoras. O le- vantamento 
existia antes de d. Alosio dar a ordem para que o 
fizssemos. Ele no disparou a coleta dos depoimentos, mas 
comprou em nome da CNBB a briga que dela resultaria.
Uma semana depois da visita de d. Agnelio a Medici, em sua 
cela do DOPS de Porto Alegre, Carlos Alberto Libnio Christo, 
o Frei Betto, ex Vitor da ALN, escrevia  famlia: Sei que 
minha priso  um sinal na Igre ja do Brasil
79 Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro ps-] 930, 
coord. de Alzira Alves de Abreu e outros, vol.
3, p. 3290.
80 Candido Mendes de Almeida, maio de 1988.
81 Frei Betto, frei Fernando de Brito e frei Ivo Lesbaupin, O 
canto na fogueira, p. 18.
O Brasil difamado
Numa tarde de dezembro de 1969 o professor Ralph (Rafaello) 
delia Cava abriu a porta do seu apartamento da La Salte 
Street, 90, num con junto de edifcios que demarcam o fim da 
vizinhana da Universidade de Columbia e o incio do Harlem, 
em Nova York. A figura vivaz de Dei ta Cava era conhecida nos 
meios da Igreja militante em defesa dos direi tos civis dos 
negros americanos e das manifestaes contra a guerra no 
Vietn. Era um hiperativo numa poca de ativistas. Na tarde 
de 12 de abril de 1964 vira o fim da Repblica de 46 do alto 
das escadarias da Bibliote ca Nacional. Vivera quase um ano 
no Brasil, a maior parte do tempo tran cado no arquivo 
pblico do Cear, debruado sobre um ba onde en contrara a 
documentao da qual tiraria seu Milagre em Joazeiro, o 
melhor estudo j escrito sobre a vida de Ccero Romo 
Batista, o Padim Cio.
Eram trs os visitantes de Della Cava: Domcio Pereira, 
Jether Ra malho e Rubem Csar Fernandes. Vinham recomendados 
por William Wipfler, um padre episcopal, encarregado da seo 
latino-americana do Conselho das Igrejas Crists dos Estados 
Unidos. Os trs brasileiros sen taram-se no sof da pequena 
sala, ao lado de uma enorme esttua de ma deira crua do 
Padim. Os exilados mostraram-lhe o que haviam mostra do a 
Wipfler. Eram onze documentos, com o relato das torturas 
praticadas em Belo Horizonte, a descrio dos assassinatos de 
Chael e do padre Hen rique, bem como denncias esparsas 
vindas dos pores da ilha das Flo res e do quartel da PE da 
Vila Militar. Wipfler mandara a denncia certa para a pessoa 
certa. Quando os trs visitantes saram, estava acertada a
272        A DJTADURA ESCANCARADA
criao do American Committee for Information on Brazil. O 
professor
comeou a trabalhar com os papis e o telefone.
A visita a Delia Cava fora uma das pontas de um trabalho 
iniciado poucos meses antes. Enquanto em Cuba os exilados 
brasileiros prosse guiam seu treinamento militar, em Paris, 
onde era maior a colnia de es querdistas desarmados, a 
militncia contra o regime passou a girar em torno da 
divulgao de seus crimes. Duas semanas depois da morte de 
Marighella nascera a Frente Brasileira de Informaes, FBI. 
Fora articu lada com a colaborao decisiva de Miguel Arraes, 
ex-governador de Pernambuco exilado na Arglia, e sua irm 
Violeta, mulher generosa e incansvel, cujo apartamento nas 
vizinhanas do Bois de Boulogne, a um quarteiro da casa de 
Marcel Proust, transformara-se em abrigo ecum nico para 
perseguidos.
A Frente era a primeira iniciativa poltica unitria da 
esquerda bra sileira desde o estilhaamento de 1964. Buscava 
dotar de rotina e siste mtica as denncias que comearam a 
ser divulgadas em setembro, de pois da chegada  Cidade do 
Mxico dos quinze prisioneiros trocados por Elbrick. Sua 
estrutura frentista sinalizava para a esquerda internacional 
a bno simultnea dos catlicos e do Partido Comunista, 
retirando-lhe a m vontade e a suspeita que desqualificavam 
as aes dos grupos liga dos ao terrorismo. No manifesto de 
fundao ela informara que passa ria a distribuir 
regularmente notcias coletadas junto a todas as organi 
zaes revolucionrias brasileiras e anunciara ao regime que 
o combateria com um instrumento terrvel: Nossa arma  a 
verdade Dias depois di vulgou seu primeiro comunicado, 
listando 36 torturadores.
Alm da FBI, moviam-se outras estruturas. Algumas eram-lhe 
seme lhantes, como a Frente Brasilefia de Informaciones, 
fundada em Santia 1 Ralph della Cava, junho de 1990.
2 Os presos libertados no Mxico deram diversas entrevistas 
ao desembarcar, antes de se dividi rem entre Cuba e a 
Arglia. Onofre Pinto denunciou ao semanrio italiano 
LEspresso, de 14 de
setembro, a morte de Marco Antnio Brs de Carvalho e o 
assassinato sob torturas do ex-sargen to Joo Lucas Alves, em 
Belo Horizonte.
3 Telegrama da agncia Prensa Latina, de 18 de novembro de 
1969.
4 Telegrama da agncia Prensa Latina, de Santiago do Chile, 
de 22 de novembro de 1969.
O BRASIL DIFAMADO 273
go do Chile, e o Front Brsilien dInformation, de Argel. 
Outros ncleos surgiriam na Holanda, Canad, Sua e Itlia. 
Ajudados por 5 mil dla res reunidos por Delia Cava, 
organizaram-se na Universidade de Berke ley, na Califrnia, 
os Amigos Americanos do Brasil, editores do Brazilian 
Information Builetin. Entre os seus financiadores estavam 
renomados es pecialistas em assuntos brasileiros da 
comunidade acadmica america na. Havia ainda armaes que se 
moviam em sigilo, como a rede de Can dido Mendes, protegida 
pela Igreja.
Produto do desassombro, operava no Itamaraty um grupo de 
jovens funcionrios e diplomatas que coletavam denncias e as 
remetiam a Londres e Berna dentro da mala diplomtica dos 
assuntos do regime. L, o secretrio de embaixada Miguel 
Darcy de Oliveira e sua mulher Rosis ka repassavam-nas a 
organizaes defensoras dos direitos humanos e a militantes 
esquerdistas ilustres.
O primeiro relato minucioso do poro publicado no exterior 
foi a car ta assinada por 38 padres de Minas Gerais, mandada 
em julho de 1969 ao episcopado, listando os locais e as 
tcnicas de suplcio vigentes nas inves tigaes dos IPM5 de 
Belo Horizonte. Essas denncias saram na edio de dezembro 
da revista catlica francesa Politique dAujourdhui e no 
nme ro de janeiro-fevereiro de Mensaje, o rgo oficial dos 
jesutas chilenos.
Enquanto isso, papis iam e vinham. Graas  atividade da 
rede re ligiosa, o dossi que os trs exilados levaram a Nova 
York foi publicado no nmero de dezembro de 1969 da revista 
francesa Croissance des leu nes Nations. Pouco depois chegava 
 Europa e a Nova York um documen to provindo do crcere da 
ilha das Flores. Era o primeiro depoimento au tografado e 
trazia a autenticidade da valentia. Assinavam-no diversas 
prisioneiras que continuavam na ilha e afrontavam as 
represlias que o
5 Para a lista das organizaes, Brazilian Information 
Builetn, nn 6 e 9, de fevereiro de 1972 e ja neiro de 1973. 
A base italiana era coordenada pelo senador Lelio Basso.
6 Ralph delia Cava, fevereiro de 1991. Entre os 25 
financiadores listados no Boletim n 9, de ja neiro de 1973, 
estavam, alm de Della Cava, os professores Joseph Love (O 
regionalismo gacho) e Warren Dean (A industrializao de So 
Paulo).
7 Politique dAujourdhui, n 11. Revista Mensaje, n 186, 
1970.
8 A publicao dos documentos na revista francesa est 
mencionada em Terror in Brazil, a Dossier.
274        A DITADURA ESCANCARADA
gesto lhes poderia custar. Listaram dezesseis jovens 
supliciadas. Eram mi litantes do MR-8, do PCB e da AP. Salvo 
uma, todas tinham entre vinte e
25 anos. Sete haviam sido submetidas a choques eltricos, 
duas foram obri gadas a ouvir os gritos sados das sesses de 
tortura de seus companhei ros, tambm presos. Uma teve 
agulhas enfiadas por baixo das unhas. Os suplcios levaram 
uma das jovens a uma crise de insanidade. Outra teve um dedo 
quebrado, e uma terceira perdeu por alguns dias os movimen 
tos da mo direita. Tudo o que se est dizendo sobre mtodos 
de tor tura  pouco, comparado com os fatos, avisavam as 
prisioneiras.
Passaram-se poucos meses, e ouviram-se as vozes sadas do 
poro mineiro. Primeiro num manuscrito de ngelo Pezzuti, do 
Colina, posterior- mente conhecido como Documento de 
Linhares, por conta do nome do pre sdio onde estavam seus 
doze autores. Na sua verso distribuda nos Estados Unidos 
tinha vinte pginas. Arrolava novos casos concretos de tor 
tura e acrescentava a descrio de um episdio que haveria de 
chocar o mun do atravs da sua representao no filme Estado 
de stio, do diretor grego Costa-Gavras: a aula de tortura do 
tenente Ailton no salo da 1 Com panhia de Polcia do 
Exrcito. Depois foi a vez das mulheres mineiras da AI. 
Eram cinco, a mais velha tinha 26 anos, todas haviam apanhado 
em guar nies militares, e uma fora obrigada a presenciar o 
suplcio do marido no ptio do quartel do 1 2 Regimento de 
Infantaria, onde lhe quebraram seis costelas, uma perna e um 
p. S anos mais tarde contariam outros deta lhes de suas 
histrias. Uma foi entregue a um sargento tarado. Outra teve 
de suportar um tenente-coronel apaixonado: Eu nunca tinha 
visto uma mulher to bonita como voc no sofrimento. E eu 
senti prazer
9 Statement of Female Prisoners Held at Ilha das Flores, Rio 
de Janeiro. Terror in Brazil, a Dossier, datado de 8 de 
dezembro de 1969.
10 Terror in Brazil, a Dossier, p. 15, data o Documento de 
Linhares em 19 de dezembro de 1969. Ele foi recebido nos 
Estados Unidos no dia 13 de maro de 1970, The Torture of 
Prisoners in Brazil, Relatrio n 5.
li Costa-Gavras ouviu um relato da aula, feito por alguns dos 
presos que nela estiveram, duran te sua passagem por Havana, 
em outubro de 1971. Mauricio Paiva, O sonho exilado, p. 93.
12 Luiz Manfredini, As moas de Minas, pp. 122, 127 e 98. 
Brasil SeisAfios de Dictadura  Torturas, organizado por 
Paulo Schilling, documento n 4, p. 73, em Cuadernos de 
Marcha, n 37, maio de 1970, Montevidu. Esse documento foi 
divulgado nos Estados Unidos no dia 28 de abril de 1970, The 
Torture of Prisoners in Brazil, Relatrio n 6.
O BRASIL DIFAMADO 275
Alm de se moverem por condutos clandestinos, as notcias do 
po ro tambm vinham  tona pelo simples exerccio da 
atividade de alguns jornalistas estrangeiros baseados no 
Brasil. Em janeiro de 1970 sucede ram-se trs reportagens, 
todas relacionando as denncias de torturas, o assassinato de 
Chael e o silncio imposto  imprensa brasileira em tor no do 
assunto. Saram nos principais jornais dos Estados Unidos, 
Fran a e Inglaterra: The New York Times, Le Monde e The 
Times. O governo viu-se ainda obrigado a apreender a edio 
da revista francesa LExpress que trazia uma reportagem sobre 
suas torturas. Para um regime acostu mado a ver as falanges 
inimigas em Moscou ou Havana, os ataques vindos dos mais 
prestigiosos rgos da imprensa internacional soavam como uma 
perfdia, quase sempre atribuda a uma demonaca infiltrao 
co munista nos meios de comunicao. O ministro da Educao, 
Jarbas Passarinho, chegou a ver uma pena a servio das 
esquerdas no colunis ta William Buckley Jr., valente patrono 
do conservadorismo americano, que a revista Life chamara de 
o enfant terrible da extrema direita Os cronistas do 
oficialismo acusaram Joseph Novitsky, correspondente do The 
New York Times, de mentir como um co e seu colega Irineu 
Gui mares, do Le Monde, de ser um ex-comunista.
Esse tipo de resposta enviesada viria a se mostrar ineficaz 
diante da surpresa que surgiu no dia 20 de janeiro de 1970, 
em Roma. L, o cardeal
canadense Maurice Roy, presidente da Comisso Pontificia de 
Justia e Paz,
13 The New York Times, 3 de dezembro de 1969; Le Monde, 14 de 
dezembro de 1969. The Times, 4
de fevereiro de 1970, Brazilian regime relies on fear 
tactics
14 Telegrama da agncia France Presse, de 19 de janeiro de 
1970.
15 Carta de Jarbas Passarinho a Medici, de 8 de maro de 
1971, em Folha de S.Paulo de 12 de de zembro de 1993, pp. 1-
16. William Buckley Jr. dirigia a revista National Review, 
que na dcada de
60 chegou a ser quase que um porta-voz solitrio do 
pensamento conservador. Nos anos 90, quan do o Partido 
Republicano fez maioria no Congresso, o presidente da Cmara 
dos Representan tes, Newt Gingrich, dava a fundao da 
NationalReview, em 1955, como o marco do ressurgimen to 
conservador nos Estados Unidos. Ver Lisa McGirr, Suburban 
warriors  The origins of the New
American Right, p. 9.
16 Correio Braziliense, artigo de Teophilo de Andrade, 17 de 
janeiro de 1970.
276        A DITADURA ESCANCARADA
acabara de comunicar que entregara ao papa um dossi com 
denncias de torturas praticadas em crceres brasileiros. Se 
no compete  Comis so Pontifcia emitir julgamentos a 
respeito de quaisquer regimes polti cos, no podemos ficar 
surdos aos apelos daquelas conscincias crists que com razo 
reagem s violaes e ataques aos direitos humanos dizia o 
cardeal. Em seguida, indicando que o problema tinha chegado 
 mesa de Paulo vi, informou: Sua Santidade [ acompanha com 
vigilante ateno a situao da Igreja no Brasil E...] ainda 
que no seja sempre pos svel tornar pblicas as iniciativas 
atravs das quais se exprime
O pronunciamento do cardeal Roy significara a exploso, em 
Roma, do dilema que atormentava a CNBB havia pelo menos um 
ano. As denn cias de torturas nunca deixaram de chegar nem  
mesa dos bispos nem  do nncio. O dossi publicado na 
Croissance des Jeunes Nations chega ra  Cria romana fazia 
mais de dois meses. Se dependesse do secretrio de Estado, o 
cardeal francs Jean Villot, seria encadernado em silncio. 
Em dezembro, contudo, a papelada aparecera mais uma vez, 
acompanhada da assinatura de setenta intelectuais catlicos 
europeus. O dossi tinha um prefcio do jesuta Michel de 
Certeau e dividia-se em trs partes. Numa ia a carta dos 
intelectuais, noutra um trabalho da Juventude Estudantil Ca 
tlica sobre a represso poltica brasileira. A terceira, com 
36 pginas, era uma compilao de depoimentos de pessoas 
torturadas. Nela, o mais lon go testemunho era o de Teresa, a 
amiga de Raquel, que contara sua hist ria em Belo Horizonte 
ao sacerdote do gravador.
Alm disso, no Vaticano, o caso brasileiro tinha alguns 
padrinhos.
O mais ativo era Joseph Gremillion, um monsenhor americano 
que ocu pava a secretaria geral da Comisso Pontificia de 
Justia e Paz. Seu maior aliado era Jesus Garcia, jovem padre 
mexicano que fizera diversas visitas
17 Terror in Brazil, a Dossier, p. 13. The New York Tmes, 22 
de janeiro de 1970.
18 Telegrama da agncia France Presse, de 21 de janeiro de 
1970, em Brasil  Perspectivas de la
Revolucin, organizado por Paulo Schilling, Cuadernos de 
Marcha, n 38, junho de 1970, Monte vidu, e The New York 
Times, 22 de janeiro de 1970.
19 Uma cpia do documento das prisioneiras da ilha das Flores 
foi remetida ao nncio Umber to Mozzoni, Terror in Brazil, a 
Dossier, p. 6.
20 A carta, encaminhada por Marcelia Glisenti, secretria da 
Comisso Italiana Europa-Amri ca Latina,  de 14 de dezembro 
de 1969. The New York Times, 2 de janeiro de 1970.
O BRASIL DIFAMADO 277
ao Brasil. Foi ele quem trabalhou para que Roy decidisse dar 
o passo de 20 de janeiro, mostrando ao regime brasileiro a 
ponta do bculo papal. oy, por sua vez, levou o assunto a 
Paulo vi com o amparo poltico do poderoso monsenhor Benelli. 
Foi ele quem entregou o dossi a Paulo vi. A ditadura 
respondeu  carta do cardeal Roy proibindo a sua divulgao 
na imprensa brasileira.
O regime que nascera de um levante abenoado por um bispo e 
das marchas de 1964, estava metido numa briga com o papa, com 
o inson dvel Paulo VI, o pontfice da dvida, aquela figura 
aquilina, seca e sofri da. Esse homem que teve seu 
pontificado resumido na expresso dvi da montiniana, 
espremido entre o revisionismo de Joo xxiii e as certezas 
marianas de Joo Paulo ii, foi audaz no caso da tortura 
brasileira. Du rante a guerra, a vida lhe mostrara que a 
lgica dos poderosos abriga ce mitrios de espritos. Em 
1942, recomendara a Pio XII que rasgasse uma nota condenando 
a deportao de 15 mil judeus holandeses. Um ano depois, 
quando a Resistncia italiana explodiu uma carroa de lixo 
com doze quilos de dinamite e matou 32 soldados alemes que 
marchavam por via Rasella, no centro de Roma, monsenhor 
Giovanni Battista Mon tini era subsecretrio de Estado de Pio 
xii. Fazia parte do gabinete que divulgou uma nota oficial 
atravs da qual a Santa S atribuiu aos parti giani a 
responsabilidade pela morte dos alemes e tambm, indireta 
mente, dos 335 presos massacrados dois dias depois em 
represlia ao aten tado. O massacre, praticado-nas catacumbas 
de sal das Fossas Ardeatinas, teve uma surpresa perversa: no 
s os refns foram mortos numa loca lidade onde vinte sculos 
antes os cristos se escondiam das tropas ro manas, mas 
tambm achara-se entre eles o cadver de um padre.
No dia 26 de janeiro de 1970, Paulo VI recebeu d. Helder em 
seu ga binete e disse-lhe: Ns lemos a documentao 
referente  tortura que
21 Candido Mendes de Almeida, maio de 1988.
22 Telegrama da agncia France Presse, de 27 de janeiro de 
1970.
23 Depoimento da freira Pasqualina Lehner, em Testemunhos 
para o Processo de Beatificao de
Pio XII, p. 85, no arquivo da Sociedade de Jesus, no borgo 
Santo Spirito, em Roma, citado em John
Cornwell, Hitlers pope, p. 287.
24 Robert Katz, Death in Rome, p. 191 para a nota do 
Vaticano.
278        A DITADURA ESCANCARADA
voc nos mandou. Ento, tudo o que voc havia nos contado era 
verda de. [ A Igreja no dever tolerar mais as atrocidades e 
torturas come tidas num pas que se diz catlico O governo, 
mesmo sem saber o que o arcebispo conversara com o papa, pois 
a observao de Paulo vi s se ria conhecida meses depois, 
proibiu a imprensa de publicar quaisquer de claraes que 
viessem a ser feitas por d. Helder em Roma.
O gesto do palcio do Planalto era um indicador da comunho 
exis tente entre o regime e o poro. Ademais, num sinal de 
sua opo polti ca, o governo deteve por um dia o 
correspondente do jornal Le Monde no Rio de Janeiro. Outro 
sinal, desta vez indicativo do desembarao do poro, foi dado 
no presdio Tiradentes, em So Paulo. s duas da tarde de 17 
de fevereiro. O capito Maurcio Lopes Lima foi buscar em sua 
cela frei Tito de Alencar Lima, um dos dominicanos ligados  
ALN, e avisou o: Voc vai conhecer a sucursal do inferno 
Frei Tito foi para a Oban. Apanhou por trs dias. Numa das 
sesses, agentes da equipe do capito Benoni Albernaz, 
enfeitados com vestes litrgicas, mandaram que abris se a 
boca para receber a hstia sagrada Era o fio ligado ao 
magneto. De volta  carceragem, frei Tito conseguiu uma 
gilete e meteu-a na veia do antebrao. Acordou no pronto-
socorro do hospital das Clnicas.
Um ms depois da conversa reservada com d. Helder, o papa 
deci diu-se pela condenao pblica, ainda que oblqua, das 
torturas do regi me brasileiro. Isso foi conseguido depois 
que as ltimas resistncias da Secretaria de Estado foram 
quebradas por uma ofensiva onde se junta ram vinte dos 37 
membros da Comisso Pontificia de Justia e Paz e, so 
bretudo, o presidente internacional da Ao Catlica, 
Vittorio Veronese, amigo de Montini. A Comisso de Justia e 
Paz escreveu a Paulo VI pe dindo-lhe que interviesse para 
fazer valer a desaprovao da Igreja  vio 25 Ralph delia 
Cava, Torture in Brazil, Commonweal, 27 de abril de 1970.
26 Telegrama da agncia France Presse, de 27 de janeiro de 
1970.
27 Telegrama da agncia France Presse, de 17 de fevereiro de 
1970. Irineu Guimares foi preso no
dia 17 e levado ao DOPS, onde passou a noite. Foi solto no 
dia seguinte.
28 Frei Betto, Batismo de sangue. Depoimento de frei Tito de 
Alencar Lima, pp. 257 e segs. Esse
depoimento foi divulgado nos Estados Unidos em julho de 1970. 
The Torture of Prisoners in Brazil,
Relatrio n 8, de 9 de julho de 1970.
O BRASIL DIFAMADO 279
lao flagrante dos princpios humanitrios e das normas do 
direito no Brasil, e para fazer saber ao mundo a inflexvel 
oposio da Igreja s tor turas e aos tratamentos desumanos 
dos prisioneiros Veronese fez o que Candido Mendes 
classificaria mais tarde de trabalho auricular junto ao 
pontfice No dia 25 de maro, falando na baslica de So 
Pedro, Pau lo vi anunciou: Pela prpria honra de algumas 
naes que nos so que ridas, s podemos desejar um 
desmentido de fatos nos casos de torturas policiais que lhes 
so atribudas. Falou-se muito disto e ns mesmos es tamos 
desesperanados, aps termos feito o apelo que se impunha
Roma locuta, causa non finita. O papa no pedia muito, 
bastava um desmentido, mas era impossvel ouvi-lo. Uma semana 
antes de seu ape lo, o general Medici assinara a Diretriz 
Presidencial de Segurana Interna que criara a estrutura dos 
DOIS. Se as 43 palavras de Paulo VI produziram algum efeito 
concreto, este foi a sagrao de d. Agnelio Rossi como pa 
ladino do silncio. O cardeal de So Paulo denunciou a 
maledicncia or ganizada internacionalmente contra o regime 
brasileiro. No sermo da Pscoa, na praa da S, sintetizou 
sua doutrina: Detesto a demagogia e  indigno e impatritico 
denunciar alguma coisa de seu pas no exterior. Havendo roupa 
suja, lava-se em casa Condenou a difuso clandestina das 
notcias (a essa altura os jovens diplomatas e funcionrios 
do Itama raty que contrabandeavam denncias para a Europa j 
estavam na ca deia) e acusou seus divulgadores: Pretendem 
mais agravar a situao que resolv-la humana e 
patrioticamente A arquidiocese do Rio preferiu o caminho da 
astcia. O monsenhor Francisco Bessa, poderoso secret rio do 
cardeal Jaime Cmara, disse  imprensa que estivera com Paulo 
VI em Roma e ouvira dele uma severa condenao dos policiais 
que inte gravam os esquadres da morte, ameaando excomung-
los. No era da bandidagem policial que o papa estava 
falando.
29 LeMonde, 13 de maro de 1970.
30 Candido Mendes de Almeida, maio de 1988.
31 Veja, 8 de abril de 1970, p. 30.
32 Idem,p.31.
33 Telegrama da agncia Reuters, de 25 de maro de 1970.
280        A DITADURA ESCANCARADA
A mais importante ofensiva de denncias foi lanada nos 
Estados Unidos. Na manh de 28 de fevereiro de 1970 um 
editorial intitulado Opresso no Brasil, do The Washington 
Post, o mais respeitado jornal da capital americana, 
surpreendeu a embaixada brasileira em Washing ton. Era 
severo, mas equilibrado: Embora tenham um longo caminho a 
seguir antes de superar a Grcia ou o Haiti na tortura de 
presos polti cos, os ditadores militares que dirigem o 
Brasil esto indo rpido Trs dias depois da publicao do 
editorial e da sua transmisso ao Itamaraty pela embaixada 
brasileira, o chanceler Mano Gibson Barboza convocou ao seu 
gabinete o embaixador Charles Elbrick. Mostrou-lhe o artigo e 
dis se-lhe que ele poderia funcionar como uma bola de neve 
iunto  opinio pblica americana e que, nesse caso, o 
efeito sobre nossas relaes ser incaIcu1vel A ameaa fez 
efeito. Na manh de 4 de maro Elbrick tele grafou a 
Washington. Recomendava que o Departamento de Estado fi zesse 
alguma coisa em seus contatos com a imprensa para colocar 
esse assunto na sua perspectiva E concluiu: No h dvida 
de que existe um estado de insurreio limitada no Brasil, e 
o governo se sente obrigado a tomar medidas necessrias  sua 
defesa. Isso pode ou no envolver tor tura, sistemtica ou 
eventual, mas tambm deve ser lembrado que terro ristas esto 
recorrendo  violncia, assassinato, seqestro e assa1tos
Quando o telegrama de Elbrick comeou a tramitar pelo Departa 
mento de Estado, o Post estava nas bancas com duas cartas. 
Uma, do em baixador brasileiro Mozart Gurgel Valente, dizia 
que o tratamento dado aos presos polticos brasileiros era 
correto, mesmo quando eles so cul pados de crimes e atos 
terroristas Outra era do ex-secretrio de Estado Dean 
Acheson, patriarca da diplomacia americana, smbolo de elegn 
cia tanto no corte de seus ternos como na conduta poltica 
com que en frentara a caa s bruxas do anticomunismo no 
incio dos anos 50. De fendia o bom relacionamento do governo 
americano com as ditaduras e
34 The Washington Post, 28 de fevereiro de 1970.
35 Telegrama do embaixador Charles Elbrick ao Departamento de 
Estado, de 4 de maro de 1970,
transcrito na reportagem Segredos do terror, Isto, 19 de 
agosto de 1987. DEEUA.
O BRASIL DIFAMADO
281
dava nome aos bois: Os Estados Unidos tm boas relaes com 
a Gr cia, Haiti, Brasil, Portugal, frica do Sul e Rodsia
O encarregado de Assuntos Brasileiros do Departamento de 
Estado era o veterano Robert Dean, que no dia 31 de maro de 
1964 chefiava a re presentao americana em Braslia. No 
mesmo dia em que o Post publi cou as duas cartas ele almoou 
com Mozart Gurgel Valente. O embaixa dor queixou-se de 
Acheson por ter colocado o Brasil ao lado do Haiti e da 
Grcia. Dean mandou um memorando a Elbrick no qual revelava 
que as informaes a respeito da tortura brasileira estavam 
saindo da Comisso de Relaes Exteriores do Senado, onde 
tramitava uma investigao sobre o assunto. Ele resumiu suas 
impresses acerca do incidente: O Itamaraty est numa 
situao dificil porque Gibson no ousa dizer a Medici que os 
ataques da imprensa mundial contra o Brasil continuaro, at 
que o go verno demonstre que no apia nem pratica 
generalizadamente a tortura [ Gibson e Valente esto sob 
presso para demonstrar seu zelo na pro teo da honra do 
presidente e do governo controlado pelos militares.
Dean lembrou a Elbrick que o assunto no era novo. Fora 
discuti do recentemente com o ministro do Interior, Jos 
Costa Cavalcanti, e ele argumentara que o governo no apoiava 
a tortura mas infelizmente ela acontecia. Alm disso, o 
representante brasileiro junto ao Fundo Mone trio 
Internacional, Alexandre Kafka, dissera que o governo 
brasileiro no est consciente de sua vulnerabilidade s 
crticas da imprensa e pre cisa esclarecer sua posio diante 
da tortura. Kafka, um parente distan te do escritor tcheco, 
era uma espcie de embaixador dos ministros eco nmicos em 
Washington. Segundo Dean, ele informara que em breve deveria 
se encontrar com o ministro Delfim Netto em Londres e apro 
veitaria para tratar do assunto.
Kafka tinha razo a respeito da vulnerabilidade, e Gibson 
estava cer to quanto  bola de neve. Em maro a reao dos 
liberais americanos
36 The Washington Post, 5 de maro de 1970.
37 Memorando de Robert Dean, encarregado de Assuntos 
Brasileiros do Departamento de Esta do, ao embaixador 
Elbrick, de 5 de maro de 1970. DEEUA.
38 Idem. Segundo Delfim, Kafka nunca tratou de torturas com 
ele. Antonio Delfim Netto, no vembro de 1988.
282        A DITADURA ESCANCARADA
pipocou na seo de cartas do The New York Times. Quatro dos 
maio res especialistas em assuntos brasileiros da comunidade 
universitria dos Estados Unidos reclamavam, em nome da 
decncia, do processo ins taurado contra o historiador Caio 
Prado Jnior, denunciavam a tortu ra e faziam uma constatao 
histrica: Duvidamos que em qualquer poca da histria do 
Brasil tenha havido tanta desumanidade siste mtica e 
generalizada no tratamento de dissidentes polticos A ca 
bea coroada dos signatrios era o professor Charles Wagley, 
da Uni versidade de Columbia, verdadeiro patrono dos estudos 
brasileiros nos Estados Unidos, personagem em quem o 
romancista Jorge Amado te ria achado o brasilianista James 
Levenson, de Tenda dos milagres. O tex to da carta, com mais 
de uma centena de novas assinaturas, viria a se transformar 
na maior manifestao da academia americana em relao ao 
Brasil.
Logo depois, as redaes de jornais americanos comearam a 
rece ber cpias do resultado do trabalho do professor Deila 
Cava. Era um mao de dezenove folhas intitulado Terror in 
Brazil, A Dossier. Sua espinha dorsal era formada por nove 
documentos, entre os quais estava a denn cia das 
prisioneiras da ilha das Flores. Transcrevia o AI-5, trechos 
da Lei de Segurana Nacional e a descrio do sistema 
eleitoral que colocara o general Medici na Presidncia. Como 
carro-chefe, o documento trazia um manifesto assinado por 34 
professores e polticos liberais americanos que diziam: Ns 
no podemos continuar calados. Se o fizssemos, sera mos 
cmplices dos autores e dos agentes da represso. Pedimos aos 
lei tores deste dossi que ergam suas vozes conosco
Entre os signatrios estavam representantes de treze 
organizaes re ligiosas e dois dos mais conhecidos lderes 
do movimento em defesa dos direitos civis, o reverendo Ralph 
Abernathy e o jovem pastor Andrew Young. Semanas depois, numa 
visita  Universidade do Montana, le 39 The New York Times, 8 
de maro de 1970. Os outros trs signatrios da carta foram 
os profes sores Richard Morse (Formao histrica de So 
Paulo), Thomas Skidmore (Brasil de Getulio a Castello) e 
Stanley Stein (Vassouras).
40 Terror in Brazil, A Dossier.
41 Idem. Nessa carta esto novamente Morse, Skidmore, Stein 
e, por certo, Deila Cava.
O BRASIL DIFAMADO 283
vantou-se o senador Edward Kennedy, com um discurso acusando 
o go verno americano de financiar um regime torturador.
Apertada pela imprensa e por um dos mais destacados lderes 
da opo sio, ambos pedindo a condenao do regime brasileiro 
e a suspenso dos programas de ajuda militar s suas Foras 
Armadas, a diplomacia ame ricana seguiu o curso oposto ao da 
Santa S. Optou pelo apoio ao gover no de Medici. Fez isso 
com graus diversos de astcia e, ao mesmo tempo, produziu uma 
vulgarizao do metabolismo de sua prpria dissimula o. 
Mais tarde, um de seus executores, o secretrio de Estado 
assistente para Assuntos Interamericanos, William D. Rogers, 
explicou a estratgia dos governos dos presidentes Richard 
Nixon e Gerald Ford com uma va riante da teoria da roupa 
suja. Segundo ele, era mais produtivo para sua mulher 
critic-lo por uma m conduta social quando os dois 
estivessem em casa, ss na cama, do que repreend-lo em 
pblico. Um documen to do Conselho de Segurana Nacional 
informa que a metfora do reca to feminino criada por Rogers 
continha um elemento oculto: o receio de que os generais 
brasileiros, uma vez criticados, trocassem a madura alian a 
com os americanos pela antiga paixo juvenil do nacionalismo. 
Em maro, o Conselho formulara trs cenrios possveis para o 
governo de Medici. No primeiro, o general chegaria ao fim do 
mandato, passando o poder a um militar moderado Nos dois 
outros, seria deposto ou suce dido por um nacionalista-
reformista
O Departamento de Estado preferiu dormir com as verses da 
dita dura. Numa carta a um deputado que levantara a questo 
da convenin cia de uma reviso das relaes dos Estados 
Unidos com o governo do general Medici, o secretrio de 
Estado assistente para relaes com o Congresso, David 
Abshire, exps duas racionalizaes. Numa informou:
Altos funcionrios brasileiros nos disseram que o uso da 
tortura no 
42 Esse discurso, que foi discutido na reunio dos 
jornalistas credenciados no Departamento de
Estado com o porta-voz da Casa Branca no dia 21 de abril de 
1970, parece ter-se perdido. A asses soria do senador Kennedy 
no conseguiu localiz-lo.
43 Lars Schoultz, Human rights and United States policy 
toward Latin America, p. 121.
44 Prcis of Brazilian Program Analysis, marcado secreto 
anexo ao memorando de Laurence E.
Lynn Jr. a Henry Kissinger, de 18 de maro de 1970, p. 8. 
DEEUA.
284
A DITADURA ESCANCARADA
apoiado pelo governo, e esses casos, que podem ter ocorrido, 
so atos iso lados, individuais e desaprovados Noutra, deu 
ao deputado informaes factuais: O governo tomou medidas 
para reduzir os maus-tratos de pri sioneiros. As notcias de 
incidncia de tortura, que aumentaram duran te a segunda 
metade de 1969, caram desde dezembro, quando o minis tro da 
Justia Alfredo Buzaid anunciou publicamente que se viesse a 
saber de alguma violncia contra presos polticos, aplicaria 
as medidas apropriadas para punir os responsveis
Abshire  um ex-oficial do Exrcito, veterano da Coria e do 
ser vio de informaes  repassou falsidades. Nem o 
palavrrio de Bu zaid desarmou um s pau-de-arara nem as 
torturas diminuram a par tir do final de 1969. Um 
levantamento da atividade do poro informa que em 1969 os 
casos de tortura denunciados em auditorias militares foram 
pelo menos 1027 e em 70, 1206. Entre a poca do suposto ar 
refecimento dos suplcios e o dia em que Abshire escreveu ao 
deputa do, o The New York Times tratara dezesseis vezes da 
tortura brasileira, arrolando quatro casos concretos, entre 
os quais o assassinato de Chael Schreier.
Os ministros brasileiros que passaram por Washington tiveram 
de tratar do poro. Joo Paulo dos Reis Veloso, do 
PlanejamentO atacou em pblico, numa entrevista coletiva: As 
informaes da imprensa sobre tor turas e represso no Brasil 
carecem de fundamento Delfim Netto, da Fazenda, defendeu-se 
entre quatro paredes, durante um encontro com o secretrio de 
Estado interino Eiliot Richardson. Elegante advogado de Bos 
ton, Richardson entrou com cuidado no assunto, explicou que 
no pre tendia censurar o governo mas lembrou a Delfim que o 
problema da tor
45 Carta de David M. Abshire ao deputado Lee H. Hamilton, de 
24 de abril de 1970. DEEUA.
46 Para a biografia de Abshire, aspirante de West Point de 
1951, comandante de companhia e ofi cial de inteligncia no 
front coreano, ver David M. Abshire, Preventing World War III 
 A realis tic grand strategy, p. 332.
47 Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 1: A tortura, p. 
114.
48 Para os casos concretos, The New York Times de 3 de 
dezembro de 1969 (com a notcia da mor te de Chael), 2 de 
janeiro, 5 e 16 de maro de 1970. Para as referncias, idem, 
7 de dezembro de 1969, 2 (em trs artigos diversos), 8, 22 e 
27 de janeiro, 9 de fevereiro, 5,6, 14 e 16 de maro de 1970.
49 Jornal do Brasil, 23 de maio de 1970, p. 16.
O BRASIL DIFAMADO 285
tura, tisnando a imagem do Brasil nos Estados Unidos, poderia 
afetar as relaes entre os dois pases. O ministro saiu-se 
com uma inveno: Na extenso em que ocorre, a tortura no  
apoiada pelo governo, e atual mente ele est conduzindo uma 
importante investigao a respeito des sas acusaes.
Na esteira do discurso de Kennedy, os jornalistas 
credenciados no Departamento de Estado foram buscar respostas 
com o seu porta-voz, Carl Bartch. Ele reiterou que o governo 
americano estava preocupado com o problema e esclareceu: Em 
conversas com altos funcionrios brasilei ros, recebemos 
deles a garantia de que seu governo no apia a tortura
 E o senhor est satisfeito com essa garantia?  perguntou 
um re prter.
 Bem, ns continuamos preocupados com essas notcias, e 
mante mos contatos com o governo brasileiro a respeito delas. 
Eu entendo que continuaremos a conversar com eles e a 
manifestar nossa preocupao  respondeu Bartch.
A tese segundo a qual a tortura era produto da atividade de 
agentes desautorizados e passveis de punio fora 
desmoralizada. Os presos da ilha das Flores, da penitenciria 
de Linhares e do presdio de Juiz de Fora haviam denunciado 
os suplcios por que passaram, sem que o governo procedesse a 
nenhum tipo de investigao. Era uma alternativa irracio nal, 
mas no restavam muitas outras. Sua eficcia no dependia da 
coe rncia do que dizia o governo, mas do crdito que lhe 
queriam dar. Quan do Abshire e Bartch contaram suas histrias 
em Washington, j estava havia mais de uma semana no 
Departamento de Estado um telegrama do cn sul americano em 
Porto Alegre, Curtis Cutter.
50 Telegrama do Departamento de Estado  embaixada americana 
em Brasilia, de 26 de maio
de 1970.
51 Partial Transcripts of Stat e Department Press Briefings 
by Mr. CarI Bartch, 21 de abril de 1970.
Em United States Policies and Programs in Brazil, Hearings 
before the Subcommittee on Western
Hemisphere Affairs, U. S. Government Printing Office, 
Washington, 1971, p. 292.
286 A DITADURA ESCANCARADA
Cutter era duplamente idneo. Era funcionrio do governo 
ameri cano, e um comando da VPR tentara seqestr-lo na noite 
de 6 de abril de 1970. Escapara com um tiro no ombro, jogando 
a sua camionete so bre o carro que pretendeu intercept-la. 
Dias depois, visitara os terroris tas presos e enviara ao 
Departamento de Estado um relato de quinze p ginas. Nele, 
informava que, segundo o secretrio de Segurana, coronel 
Jayme Mariath, os terroristas haviam confessado seus crimes 
esponta neamente e sem torturas Mesmo assim, depunha 
Cutter: Os suspeitos foram submetidos a intenso 
interrogatrio, incluindo abusos fisicos [ 1 mas um alto 
oficial da secretaria de segurana me disse que os mtodos 
usados no deixavam marcas. As nicas evidncias sobre as 
tcnicas usa das seriam as palavras dos presos.
O governo brasileiro ganhou sua primeira batalha na Frana, 
sede poltica da dispora esquerdista e base de operaes da 
Frente Brasilei ra de Informaes. Generoso no asilo, o 
governo francs era severo na vigilncia dos exilados e 
cordial nas relaes com a embaixada. Nego ciava-se nessa 
poca a compra, pela Fora Area, de uma esquadrilha de 
dezesseis caas Mirage. A oportunidade para um conveniente 
gesto de simpatia com Braslia surgiu em maro, quando a 
editora Le Seuil publicou o livro Pour la libration du 
Brsil, de Carlos Marighella. Tra tava-se de uma coletnea 
propagandstica onde o jornalista Conrad Detrez juntara uma 
biografia do lder terrorista, documentos, uma en trevista e, 
como pea de resistncia, o Manual do guerrilheiro urbano. 
Por conta desse texto mtico, o ministro do Interior, Raymond 
Marcel lin, invocou uma lei de 1939 e mandou a polcia 
confiscar a edio. Pro duziu um desastre. Em poucas semanas 
o livro estava de volta s livra rias, dessa vez sob o 
patrocnio das 21 maiores editoras da Frana, que estampavam 
seus nomes na capa e condenavam o ato arbitrrio do
52 Telegrama do cnsul Curtis Cutter ao Departamento de 
Estado, de 12 de junho de 1970. Em
Isto, 19 de agosto de 1987. DEEUA.
O BRASIL DIFAMADO 287
ministro. Conseguira-se mobilizar o maior esforo editorial 
feito na
Frana em torno de assuntos brasileiros.
O regime chamava o noticirio internacional de campanha para 
di famar o Brasil no exterior Ao contrrio do que sucedera 
com a ditadura dos coronis gregos, que fizeram concesses 
cosmticas  presso interna cional, como a libertao do 
compositor comunista Mikis Theodorakis, au tor da clebre 
cano do filme Zorba, o grego, o regime brasileiro privile 
giou a represso. A difamao transformou-se em categoria 
poltica. Quando o deputado Humberto Lucena, lder da 
oposio na Cmara, pe diu que Medici apurasse as sucessivas 
denncias de violncias cometidas contra as pessoas dos 
presos, seu colega Raimundo Padilha, do governo, acusou-o de 
fazer um discurso que pertencia menos ao Sr. Humberto Lu 
cena do que aos difamadores sistemticos do Brasil (No final 
dos anos 30 Padilha fora o chefe clandestino da Ao 
Integralista Brasileira.)
No dia 9 de maio o prprio palcio do Planalto tomou a 
iniciativa
e, atravs de uma nota oficial, anunciou:
No h tortura em nossas prises. Tambm no h presos 
polticos. [ Essa intriga, na sua desfaatez, busca gerar 
discrdia entre naes demo crticas, amigas e aliadas, 
estancar o fluxo de investimentos no pas, em uma palavra, 
enfraquecer o Brasil e com isso enfraquecer a comunidade de 
na es livres. Provm, inequivocamente, de grupos 
esquerdistas, inclusive in filtrados em rgos estrangeiros e 
em agncias internacionais que, muito bem dirigidos por 
chefia perfeitamente identificada, agem em unssono, nos 
vrios quadrantes do globo.
53 Carlos Marighella, Pour la libration du BrsiL Org. e 
prefcio Conrad Detrez. Editores: Aubier Montaigne/Christian 
Bourgois/Buchet-Chastel/Le Centurion/Le Cerf/Armand 
Colin/Denol/Es prit/Flammarion/Grasset-
Fasquelle/Gallimard/Pierre Horay/Magnard/Mercure de France/Mi 
nuit/Robert Morel/J.-J. Pauvert/Seghers/Le Seuil/La Table 
Ronde/Claude Tchou. Paris, 1970.
54 Jornal da Tarde, 29 de julho de 1970, p. 14: Governo no 
admite vistoria estrangeira dentro do pas
55 Hlgio Trindade, O radicalismo militar em 64 e a nova 
tentao fascista, em 21 anos de regi me militar, organizado 
por Glucio Ary Dilion Soares e Maria Celina dAraujo, p. 
134.
56 Jornal do Brasil, 14 de maio de 1970.
z88        A DITADURA ESCANCARADA
Dois dias depois da divulgao dessa nota foi preso em So 
Paulo o gelogo Marcos Penna Sattamini de Arruda, de 29 anos. 
Em carta ao pa pa Paulo VI, contaria o que lhe aconteceu. 
Apanhou durante doze horas seguidas. Enquanto lhe aplicavam 
choques eltricos, um dos torturado res observou: Veja s, 
ele est soltando fascas Teve uma convulso, per deu a fala 
e os movimentos da perna e do olho esquerdos. Os oficiais pas 
saram a cham-lo de Frankenstein.
A nota do Planalto alterara a rotina do poro, acrescentando-
lhe no vas tarefas. Da submisso extrada dos presos, cuja 
utilidade funcional era permitir a destruio da rede 
revolucionria esquerdista, retirava-se um no vo produto, de 
natureza poltica e propagandstica: os arrependidos. O uso 
da presso policial para levar os presos a abjurar suas 
condutas revelou-se uma pea essencial para o desmantelamento 
de organizaes armadas em diversos pases do mundo. 
Conjugada com uma reforma penal que ofere ceu aos 
arrependidos trs nveis de colaborao e de perdo, ela 
viria a ser uma das armas mais poderosas da democracia 
italiana contra um surto ter rorista muito mais virulento que 
o brasileiro, com 419 mortos, entre os quais um ex-primeiro-
ministro, mais de mil feridos e quase 15 mil aes. A ma 
nipulao dos presos para lev-los ao arrependimento e o 
incentivo ofe recido pela libertao mostraram-se eficientes 
quando, alm de no depen derem da tortura, processaram-se 
atravs das normas do estado de direito. Brian Jenkins, um 
dos maiores especialistas mundiais em combate ao ter rorismo, 
qualifica a manobra: Quando os militantes que esto em 
liberda de vem um de seus lderes anunciando-se arrependido 
atravs da impren sa, isso tem um efeito desmoralizante sobre 
toda a estrutura da organizao. Esse efeito, porm, s se d 
quando os militantes sabem que ele no foi tor turado. Se h 
tortura, se eles percebem que ele mudou de posio ou con 
fessou porque foi torturado, o efeito  inverso: estimula a 
solidariedade
57 Carta de Marcos Sattamini ao Vaticano, de 4 de fevereiro 
de 1971, em Relatrio sobre as acusa es de tortura no 
Brasil, pp. 62-6. Ver tambm a narrativa de sua me, Lina 
Penna Sattamini, em Brazilian Information Bulietin, n 1, 
fevereiro de 1971.
58 Alison Jamieson, The heart attacked  Terrorism and 
conflict in the Italian State, pp. 19-20, 193 e segs. Para o 
estratagema italiano, ver David Moss, Thepolitics of left-
wing violence in Italy, 1969- 85, pp. 145 e segs.
59 Brian Jenkins, 1991.
O BRASIL DIFAMADO
289
Os arrependidos brasileiros no eram usados para atacar o 
terroris mo, nem sequer a subverso, mas a campanha de 
difamao do pas no exterior. Liam textos preparados por 
policiais e militares. O ii Exrcito levou  televiso dois 
quadros da VPR, um dos quais estivera no vale do Ribeira. 
Depois de mant-lo 75 dias incomunicvel, os policiais diver 
tiam-se mandando-o cacarejar ou lamber as paredes da cela. Na 
tele viso, atacou o esquema montado para denegrir a imagem 
brasileira no qual estavam os falsos puritanos Jean-Paul 
Sartre, Simone de Beau voir, [ o falecido Bertrand Russel1 
A VPR enviava a esses falsos puri tanos toda a peonha que 
eles destilavam, assumindo a pose de homens santos, quando 
nada mais eram que testas-de-ferro. A tortura polua o 
efeito dos arrependimentos, mas dois dos cinco prisioneiros 
que inau guraram a prtica sempre sustentaram que foram aos 
estdios sem cons trangimento. Um deles se tornou sincero 
admirador de Medici. Outro, depois de libertado, enforcou-se.
A retrica do governo mostrava que no havia acordo possvel. 
D. Helder Cmara andava calado, mas acertara um sistema de 
cotas com o papa. Poderia viajar quatro vezes ao ano, desde 
que, somadas, as ausn cias no ultrapassassem os dois meses 
de frias a que tinha direito. O arcebispo baixara em Paris 
na ltima semana de maio de 1970 e, numa entrevista  
televiso, desabafou:  impossvel continuar sendo discre 
to. Algum precisa falar, e eu vou falar. Eu no sou ingnuo, 
sei as con seqncias, sei que dizem que falar de torturas  
um crime contra a p tria, mas o crime contra a ptria  
ficar calado na situao atual
60 Alpio de Freitas, Resistir  preciso, p. 50, para as 
paredes. Ver tambm Alfredo Sirkis, Os carbo nrios, p. 258, 
para os cacarejos. Veja, 30 de janeiro de 1991, p. 38.
61 Veja, 15 de julho de 1970, p. 21.
62 Os primeiros arrependidos apareceram na televiso no dia 
21 de maio de 1970. Massafumi Yoshinaga, de vinte anos, 
entregou-se em junho de 1970. Foi libertado e matou-se pouco 
tempo depois.
63 Nelson Piletti e Walter Praxedes, Dom Helder Cmara, p. 
380.
64 Telegrama da agncia France Presse, de 24 de maio de 1970.
I7
290        A DJTADURA ESCANCARADA
De ingnuo d. Helder nunca teve nada. Seu desabafo coincidia 
com a abertura de uma assemblia do episcopado, em Braslia. 
Era o primei ro encontro plenrio da CNBB desde julho de 
1969, quando se resignara ao silncio.
O governo apostara forte para influenciar a reunio e a ela 
enviara trs assessores diretos de Medici, alm do ministro 
Alfredo Buzaid, esca lado para falar aos bispos. Ele 
discursou na noite de 26 de maio, na linha de sempre: havia 
tortura, eram casos isolados e no representavam uma poltica 
do Estado. Por iniciativa de d. Alosio Lorscheider, a 
comisso cen tral distribura aos bispos o relatrio 
preparado por Candido Mendes. Eram doze depoimentos 
indiscutveis. Tnhamos trs pessoas tortura das que estavam 
dispostas a morrer confirmando, onde quer que fosse, o que 
lhes havia sucedido. Buzaid foi ouvido em silncio e teve de 
ou vir quatro contraditas. A principal, pelas suas razes 
conservadoras, veio de d. Jos Pedro da Costa, ex-capelo 
militar, bispo de Uberaba. Ele in formou que conhecia 98 
denncias de torturas, todas encaminhadas a Me dici e ao SNI. 
Trinta estavam catalogadas na Comisso de Justia e Paz do 
Vaticano. Por 159 votos contra 21, o episcopado denunciou a 
incidn cia dos casos de tortura no Brasil mas comprou a 
verso do Planalto:
Estamos certos de que, se comprovados tais fatos, 
dificilmente poderiam corresponder a uma orientao oficial 
do Governo. No final dos tra balhos, d. Alosio Lorscheider 
ordenou que se apagasse a fita onde esta va gravado o debate 
com Buzaid, e o cardeal Eugnio Sales providenciou a coleta 
de todos os exemplares do relatrio de Candido Mendes, para 
impedir que chegasse  imprensa.
Havia uma dialtica na conduta do conservadorismo catlico e 
da di plomacia americana ao reconhecerem a autenticidade das 
denncias e, ao
mesmo tempo, aceitarem a tese de que a tortura no era uma 
poltica de
65 Candido Mendes de Almeida, maio de 1988.
66 Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, 
O. P. (orgs.), As relaes Igreja-Esta do no Brasil, vol. 3, 
p. 20, e Veja de 27 de maio e 3 de junho de 1970.
67 Jornal do Brasil, 28 de maio de 1970, p. 12, reproduzindo 
a ntegra do documento.
68 Marcio Moreira Alves, A Igreja e a poltica no Brasil, p. 
191. Veja, 27 de maio, pp. 64-5, e 3 de
junho de 1970, pp. 24-6.
O BRASIL DIFAMADO 291
Estado. Nela cabiam todas as foras polticas que evitavam um 
confronto com a ditadura, quer por tem-la, quer por estim-
la. Cabiam ainda aque les que, alm disso, acreditavam na 
tortura como remdio temporrio e fun cional para o combate 
ao terrorismo. Cabiam tambm os que supunham que o mal se 
esvairia por falta de adversrios logo que a luta armada 
fosse batida. Embutida na moderao, havia sempre uma 
esperana de regene rao do regime. Em todos os casos o 
estratagema tinha a virtude de dei xar aberta a porta para 
novas denncias, permitindo que o governo ficas- se sob 
presso, quando no por torturador, pelo menos por mentiroso.
Exemplo dessa construo ocorreu pouco depois da Assemblia 
da CNBB, quando d. Eugnio Sales, na condio de legado papal 
junto ao v Congresso Eucarstico, reuniu-se com Medici em 
Braslia. Falaram a ss, e a certa altura o cardeal-primaz 
sacou o tema:
 Presidente, h torturas, e venho protestar como bispo e 
como cristo.
 D. Eugnio, veja a minha situao. Acontece uma coisa no 
Piau, como  que eu vou saber? Ademais, veja o que sucedeu 
na guerrilha do vale do Ribeira. Mataram um oficial a 
coronhadas. Como  que se vai con ter a tropa?
O cardeal fechou o assunto reconhecendo que em sua diocese 
tam bm aconteciam coisas que no sabia.
D. Eugnio Sales abafava a repercusso pblica das denncias 
dos tor turados ao mesmo tempo que, nos seus encontros 
privados, conspirava contra os torturadores. O cardeal j se 
encontrara com o chefe do Estado- Maior do Exrcito, general 
Antonio Carlos Muricy. Falando em nome de militares catlicos 
preocupados com o fosso aberto nas relaes entre o regime e 
a Igreja, Muricy tentara criar um canal secreto de discusses 
com a hierarquia, mas a iniciativa, segundo ele, morreu por 
exaustoY
Na mesma noite em que os bispos ouviram Buzaid em Braslia, 
d.
Helder falou a 10 mil pessoas reunidas no palcio dos 
Esportes, em Pa
69 D. Eugnio Saies, junho de 1987.
70 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
292        A DITADURA ESCANCARADA
ris: A tortura  um crime que deve ser abolido. Os culpados 
de traio ao povo brasileiro no so os que falam, mas sim 
os que persistem no em prego da tortura. Quero pedir-lhes que 
digam ao mundo todo que no Bra sil se tortura. Peo-lhes 
porque amo profundamente a minha ptria e a tortura a 
desonraY
A extenso das denncias, sua conversa com o papa e o fim do 
si lncio da CNBB levaram d. Helder Cmara a lanar-se num 
combate di reto contra o regime, algo que vinha controlando 
disciplinadamente des de 1964. Tinha a seu favor um vento de 
popa: era candidato ao Prmio Nobel da Paz, com a simpatia do 
consultor da comisso de personalida des norueguesas que o 
outorgava. Para enfrent-lo, a ditadura tinha pou ca munio, 
mas gastou-a toda.
71 Jornal da Tarde, 27 de maio de 1970.
72 Nelson Piletti e Walter Praxedes, Dom Helder Cmara, p. 
11.
Pra trs, Brasil
Desde o incio de 1968 o jornalista Nelson Rodrigues estava 
agarrado ao pescoo de d. Helder. Dramaturgo genial, 
ressentido com os intelectuais que desdenharam sua criativa 
vulgaridade e o deixaram ao sol nas vinte vezes em que suas 
peas foram proibidas pela Censura, escrevia nO Globo. 
Considerava-se uma flor de obsesso e tanto no teatro como 
na crni ca esportiva cultivava uma causticidade impiedosa e 
eficaz. Sua paixo po ltica era recente, incondicional no 
governismo e furiosa no ataque ao ra dicalismo chique. 
Inventara expresses inesquecveis, como a gr-fina das 
narinas de cadver, o idiota da objetividade e o padre de 
passeata Em seus artigos embrulhava num estilo divertido e 
debochado a crtica, a fantasia e o insulto. A d. Helder, um 
de seus personagens prediletos, j cha mara de falsrio, 
ex-catlico e arcebispo vermelho Golpeava duro a vaidade 
e o carisma do arcebispo: Se pudesse morrer como a Sarah 
Bern hardt no quinto ato de A Dama das Camlias, e se, como a 
diva, pudesse levantar-se, em seguida, para receber os 
bravos, os bravssimos e as cor beilles, D. Helder 
representaria, todas as noites, o prprio assassinato
Para os ataques de Nelson Rodrigues ad. Helder, at o fim de 
junho de 1970: O Globo, 29 de ja neiro, 14 de fevereiro, 16 e 
21 de maro, 3, 20 e 26 de abril, 8 e 9 de maio, 24 de julho 
e 25 de se tembro de 1968; 29 de janeiro, 8 de maro, 7 de 
junho, 6 de setembro e 16 de dezembro de 1969; 16e 30 de 
junho de 1970.
2 Entrevista a Luiz Fernando Mercadante, Veja, 4 de junho de 
1969, pp. 3-6, para falsrio O Globo, 25 de setembro de 
1968 para ex-catlico e 16 de dezembro de 1969 para 
arcebispo vermelho
3 O Globo, 26 de abril de 1968.
294        A DITADURA ESCANCARADA
Passado pouco mais de um ms do discurso do palcio dos Espor 
tes, respondendo a uma entrevista em que d. Helder defendera 
a luta ar mada como opo poltica, Nelson Rodrigues subiu o 
tom: Ele quer, e o diz, quer derramar barris de sangue como 
groselha. Mas acontece que no  groselha.  o nosso sangue. 
E, se quer o nosso sangue,  um Dr cula. Um pequenino 
Drcula
 popularidade dos artigos de Nelson Rodrigues, juntou-se a 
direi ta catlica. A revista Permanncia, publicada no Rio, 
acusava o arcebis po de justificar, incentivar, estimular 
moos assassinos, magarefes cuja crueldade [ j superou a 
crueldade nazista O arcebispo de Diaman tina, d. Geraldo 
Sigaud, foi combater na Europa o que ele chamava de a imagem 
que d. Helder tem espalhado sobre o Brasil Desembarcou em 
Roma dizendo que se h violncia,  s durante os 
interrogatriosY
Se no toda essa manobra, pelo menos uma parte dela era monta 
da pelo Servio Nacional de Informaes. Foi de l que saiu 
uma foto grafia dos anos 30 na qual o padre Helder Cmara, 
com os gestos largos de sempre, falava a uma platia de 
integralistas uniformizados, com suas camisas verdes. Ela 
viria a ser mostrada pelo jornalista David Nasser, no seu 
programa Dirio de um Reprter, na Rede Associada de TV, e na 
re vista O Cruzeiro. Posteriormente, por meio das embaixadas 
do Brasil em Oslo e Paris, foi difundida na Europa. Na 
Noruega, a ditadura contou com a ajuda do industrial Tore 
Munch, um dos homens mais ricos do pas, dono da fbrica de 
guindastes que leva seu sobrenome e do jornal Morgenposten. 
Neste, saiu um artigo intitulado Prmio Nobel  violn cia 
em que se propunha a desclassificao do arcebispo por 
controver tido, visto que o acusavam de defender a poltica 
de Fidel Castro em Cuba com o mesmo oportunismo com que nos 
anos 30 defendera os nazistas.
4 O Globo, 2 de julho de 1970.
5 Permanncia, n 25, outubro de 1970, citada em Marina 
Bandeira, Comisso Pontifcia Justia
e Paz 1969-1995 (Memria) em Candido Mendes de Almeida e 
Marina Bandeira, Comisso
Brasileira Justia e Paz  1969-1995 (Empenho e memria), p. 
82.
6 O Estado de S. Paulo, 4 de julho de 1970, ltima pgina.
7 Telegrama da agncia France Presse, de 14 de julho de 1970.
8 Luiz Maklouf Carvalho, Cobras criadas, p. 519.
9 Nelson Piletti e Walter Praxedes, Dom Helder Cmara, pp. 
12-3.
PRA TRS, BRASIL        295
O governo subestimara o sentido de oportunidade de d. Helder. 
Ele discursara em Paris na mesma semana em que a CNBB 
condenara a tor tura, colocando-se debaixo da proteo da 
disciplina eclesistica. O ar cebispo era enftico, mas tinha 
a seu favor aquilo que Nelson Rodrigues, numa de suas 
expresses mais populares, chamava de o bvio ululan te: 
dizia a verdade. O governo mentia, e a CNBB sabia disso. O 
SNI entra ra numa aposta alta: explorara a possibilidade de a 
Igreja permitir que um dos seus bispos fosse triturado.
Coube ao governador de So Paulo, Roberto de Abreu Sodr, 
girar mais uma rosca do parafuso: Ele pertence  mquina de 
propaganda do partido comunista; ele  um elemento de 
promoo do c na Euro pa; ele recebe para isso; ele viaja 
para isso. Ento, como as esquerdas que rem ter uma vedete, 
no de barbas e de charuto, mas de batina no cor po, usam-no 
para denegrir o Brasil.  o que este Fidel Castro de batina 
tem feito na Europa
A manobra defensiva, destinada a impedir que d. Helder 
levasse o Nobel da Paz, foi bem-sucedida. Ele saiu para o 
cientista americano Nor man Borlaug, criador do milho 
hbrido. A outra, ofensiva, interessada em isolar d. Helder, 
produziu o efeito inverso. A hierarquia da Igreja, que em 
1964 o tirara da CNBB, uniu-se em sua defesa. D. Agnello 
Rossi pediu a Sodr que provasse o que dissera. D. Eugnio 
Sales proclamou sua ami zade pessoal por D. Helder e 
denunciou a tenaz campanha difamat ria contra o piedoso e 
sincero prelado D. Vicente Scherer exigiu que lhe fosse dado 
o direito de defesa, prerrogativa fundamental da criatu ra 
humana At d. Sigaud afastou-se da macumba: D. Helder  meu 
irmo em Cristo e ns nos amamos e estimamos como irmos, 
embora discordemos como responsveis pela sorte de nossos 
rebanhos
10 Folha de S.Paulo, 6 de outubro de 1970.
11 Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, 
O. P. (orgs.), As relaes Igreja-Esta do no Brasil, vol. 3, 
pp. 34-5.
12 Entrevista a Alberico Souza Cruz, Veja, 14 de outubro de 
1970, p. 4.
296        A DITADURA ESCANCARAL
A bola de neve voltara a crescer. Os quarenta presos 
libertados em troca do embaixador alemo, entre os quais 
estava frei Tito, haviam-se espalhado pela Europa, e a 
imprensa ganhara uma nova fornada de denn cias de torturas. 
A primeira delas foi a prpria fotografia dos prisionei ros 
agrupados para o embarque, no Rio de Janeiro. Na extremidade 
di reita, presa a uma cadeira, estava Vera Slvia Magalhes, 
de 22 anos, a bonita candidata a empregada que encantara o 
chefe da segurana do embaixa dor Elbrick. Passara por longas 
sesses de pau-de-arara, choques eltri cos, queimaduras e 
pancadas. Diante da viso de Vera Slvia num exem plar do Le 
Figaro, o escritor Josu Montello, conselheiro cultural da 
embaixada do Brasil em Paris, escreveria em seu dirio: Fujo 
de encon trar-me com amigos franceses, humilhado, triste.
Com fundos dos institutos Brasileiro do Caf e do Acar e do 
lcool, montara-se no Ministrio das Relaes Exteriores um 
esquema para res ponder ao que o chanceler Gibson Barboza 
chamava de campanha in ternacional de calnias Num s lote, 
o governo trouxera quase uma cen tena de jornalistas europeus 
para uma visita ao Brasil. Tantos foram os convidados da 
campanha internacional do governo que o caso brasileiro 
acabou no manual de malandragens intitulado Roube este livro, 
do hip pie americano Abbie Hoffman. Ensinava a afanar discos 
em supermerca dos (Numa caixa de pizza congelada cabem dois 
LP5), a burlar o correio (Enderece o envelope a voc mesmo 
e ponha o nome do destinatrio no lugar do remetente; a 
correspondncia sem selos  habitualmente devol vida ao ponto 
de origem) e a viajar de graa: Alguns pases tm esque mas 
especiais para permitir que escritores, jornalistas e 
artistas viajem de graa. Brasil e Argentina, com certeza. 
Telefone ou escreva para a embai xada do pas que voc quer 
visitar.  melhor escrever, sobretudo se voc puder arranjar 
papel timbrado de alguma publicao ou editora
13 Depoimento de Vera Slvia Magalhes, em Relatrio sobre as 
acusaes de tortura no Brasil, p. 33.
14 Josu Montelio, Dirio do entardecer, p. 297.
15 Discurso de Mano Gibson Barboza na Escola de Comando e 
Estado-Maior do Exrcito. Tele grama da agncia Reuters, de 
18 de julho de 1970, citando o Jornal do Brasil.
16 O Globo, 24 de novembro de 1969.
17 Abbie Hoffman e outros, The best of Abbie Hoffman, p. 220.
PRA TRS, BRASIL        297
Apesar dos esforos do Itamaraty, o regime sentia um novo 
espinho no p. Chamava-se Sen MacBride, ex-ministro das 
Relaes Exteriores da Irlanda, secretrio-geral da Comisso 
Internacional de Juristas. Os in gleses fuzilaram seu pai em 
1916, sua me fora uma figura legendria, musa do poeta 
Yeats. Ele prprio, ainda adolescente, estivera na cadeia, 
por ter rorista do Exrcito Revolucionrio Irlands. Era um 
homem magro, com cara de passarinho, educado e irredutvel. 
Fazia dois anos que comanda va a Anistia Internacional, 
instituio baseada em Londres, empenhada na defesa e 
libertao de presos polticos. MacBride j encrencara com 
meio mundo, mas ajudara a soltar desde o arcebispo de Praga, 
Josef Be ran, at 152 presos polticos de Gana. Colecionava 
havia meses denn cias vindas do Brasil (um de seus 
fornecedores tinha sido a rede de di plomatas e funcionrios 
do Itamaraty, enquanto funcionou). Para o governo brasileiro 
a Comisso Internacional de Juristas era aquilo que se 
poderia chamar de instituio respeitvel. Alguns anos antes 
ficara de monstrado que a Central Inteiligence Agency a 
subvencionava indireta mente, estimulando suas denncias 
contra as ditaduras do Leste euro peu. Essa m fama tornava 
mais dolorosa a concluso do relatrio da comisso: Hoje, no 
Brasil, a tortura no  mais um simples ingrediente nos 
interrogatrios judicirios. Ela se tornou uma arma poltica 
[ A tortura  sistematicamente aplicada, s vezes antes mesmo 
que o inter rogatrio propriamente dito seja iniciado
Alfredo Buzaid respondeu, atacando a grande imaginao da co 
misso mas MacBride mandou-lhe uma carta pedindo que o 
governo permitisse a verificao de seu desmentido. O 
ministro da Justia, ca tedrtico da Faculdade de Direito da 
Universidade de So Paulo, deu ao grmio de juristas uma 
confiana que no dava a outras instituies e vol tou a 
responder: Estou extremamente surpreso porque o senhor no 
acei tou a palavra do governo brasi1eiro O irlands teimoso 
rebateu: Rece bi seu telegrama e o agradeo. Ns mantemos a 
nossa posio original. Isto : para esclarecer a situao, 
so necessrias uma investigao da Co-
18 Egon Larsen, A flame in barbed wire, p. 18. Denis Healey, 
The time ofmy life, p. 568.
19 Documento consultado no Departamento de Documentao da 
Editora Abril em 1987.
20 Para a resposta de Buzaid, telegrama da agncia France 
Presse, de 23 de julho de 1970.
298        A DITADURA ESCANCARADA
misso Interamericana de Direitos Humanos e a inspeo das 
prises por
uma comisso da Cruz Vermelha Internacional
Naqueles dias, defender presos acusados de atividades 
terroristas era uma tarefa difcil. Atentados, seqestros e 
assassinatos faziam parte da ro tina de organizaes 
esquerdistas em mais de uma dezena de pases, e os nmeros 
indicavam uma perigosa expanso do fenmeno. Se em 1968 se 
deram 142 aes terroristas de natureza internacional, 70 
fecharia com 43 seqestros, 22 assassinatos e 131 mortos, num 
total de 391 aes. Duran te o primeiro semestre de 1970 a 
Amrica Latina ficou com 21 das 39 aes relevantes ocorridas 
em todo o mundo. Na Guatemala foi seqestrado e morto o 
embaixador alemo Karl von Spreti. Na Argentina, terroristas 
capturaram e assassinaram com um tiro no peito o ex-
presidente Pedro Aramburu, general que chefiara a sangrenta 
rebelio antiperonista de 1955. No Uruguai, os 3 mil 
militantes do Movimiento de Liberacin Nacional, denominados 
Tupamaros em homenagem ao chefe inca que se rebelara con tra 
os espanhis, pareciam invencveis. Ao contrrio de seus 
similares de todo o mundo, misturavam senso de humor  
audcia. Explodiram a sede do Montevideo Country Club, 
limparam a casa de uma das famlias mais ricas do pas e 
atacaram uma boate da moda deixando escrito na parede:
O bailan todos, o no baila nadie Na manh de 31 de julho os 
Tupama ros puseram em movimento o Plan Satan. Primeiro 
seqestraram Dan Mi trione, um policial americano de 49 anos 
que chefiava o programa de cooperao americano-uruguaio na 
rea de segurana pblica. Em segui da levaram o cnsul 
brasileiro em Montevidu, Aloysio Dias Gomide, um catlico 
integrista, pai de seis filhos. Mitrione foi morto a tiros 
dez dias de pois. Gomide s foi libertado aps seis meses de 
negociaes. Nessa po
 21 Para a nova resposta de Buzaid e a nova carta de McBride, 
Brazilian Information Builetin, n
1, fevereiro de 1971.
22 Patterns ofinternational Terrorism, a Research Report, 
Central Inteiligence Agency, Washing ton, junho de 1981, pp. 
VI e 8.
23 Brian Jenkins e Janera Johnson, International Terrorism: a 
Chronology, 1968-1974, Rand Corporation, maro de 1975, Santa 
Mnica, pp. 18-22.
24 Arturo C. Porzecanski, Uruguays Tupamaros, p. 40.
25 David Ronfeldt, The Mitrione Kidnapping in Uruguay, Rand 
Corporation, agosto de 1987, San ta Mnica.
PRA TRS, BRASIL 299
ca o adido aeronutico brasileiro no Uruguai contrabandeava 
explosivos
para uma rede de policiais que explodiam sedes do Partido 
Comunista.
A ofensiva terrorista aprofundou a solidariedade do governo 
ame ricano ao poro. Ela vinha de longe. Em 1964 o DOPS 
paulista emprestara a um funcionrio do governo americano as 
dezenove cadernetas apreendidas no aparelho abandonado por 
Prestes. O grau de familiaridade de funcionrios do governo 
dos Estados Unidos com a Oban e, posteriormente, com o DOI 
era nico. No nvel social, o major Carlos Alberto Brilhante 
Ustra e sua mulher foram convidados para um jantar na casa do 
cnsul Robert Corrigan. No nvel operacional, um funcionrio 
do consulado em So Paulo era figura fcil no DOPS e na rua 
Tutia. Gozava de acesso privilegiado aos textos das 
confisses dos presos. Lia-as no prprio prdio onde 
funcionava o DOI. Era um sujeito de culos redondos. Um dia 
eu o encontrei lendo depoimentos e determinei que isso no se 
repetisse, pois no era permitido, contou Ustra.
Era uma familiaridade de cmplices, pois no produziu 
informaes de boa qualidade para o governo dos Estados 
Unidos. No dia 24 de agosto de 1970, Francis Lambert, o 
segundo homem da embaixada americana em Braslia, informou ao 
Departamento de Estado que a tortura estava sendo substituda 
por mtodos mais humanitrios de interrogatrio. Ressalvava 
que ela ainda no acabara, mas dava dois exemplos 
construtivos. Segundo ele, duas militantes da ALN capturadas 
em So Paulo tinham sido tratadas cavalheirescamente. Uma era 
Ana Bursztyn, ex- estudante de farmcia, presa havia duas 
semanas no magazine Mappin. Um vigilante desconfiara ao v-la 
colocar cosmticos numa sacola (da loja) e levou-a a uma 
sala, onde estava o chefe da segurana. Ana meteu a mo na 
bolsa, puxou um Taurus 32, feriu-o com um tiro na perna, mas
26 Dickson Melges Grael, Aventura, corrupo e terrorismo, p. 
19.
27 Depoimento do delegado Renato dAndrea, em Percival de 
Souza, Autpsia do medo, p. 383.
28 Coronel Carlos Alberto Brilhante listra, maro e setembro 
de 1988.
29 Telegrama da embaixada americana em Braslia ao 
Departamento de Estado, de 24 de agosto
de 1970. DEFUA.
300        A DITADURA ESCANCARADA
no conseguiu fugir. A outra era Denise Crispim, a Clia, 
mulher de
Eduardo Leite, o Bacuri da ALN e da REDE.
Ana Bursztyn passara pelo receiturio do poro: tapas, 
choques el tricos e pau-de-arara. Depois de trs dias de 
torturas, acabara internada no hospital do Exrcito. L, um 
mdico lhe disse: Aqui ns temos dois critrios: o 
sentimento do dever mdico e o sentimento de amor pela p 
tria. O que voc fez no merece a primeira considerao. 
Denise, gr vida de seis meses, no apanhou na barriga.
A informao de Lambert era falsa, no s no aspecto 
episdico, referente s duas mulheres, mas tambm no conceito 
da evoluo hu manitria dos interrogatrios. Por uma 
coincidncia, ele telegrafou a Washington no mesmo dia em que 
Bacuri, com as pernas paralisadas, chegou ao DOPS de So 
Paulo. Fora capturado 72 horas antes, no Rio de Janeiro
Ex-vendedor de automveis, Bacuri participara de dezenas de 
aes armadas, organizara dois seqestros e planejava mais 
um, o do embai xador ingls. Tornara-se uma lenda nos 
subterrneos da clandestinida de. Assustava a tigrada 
ameaando-a por telefone. Seu primeiro crce re fora um 
centro de torturas montado pela Marinha numa casa em final de 
construo no bairro carioca de So Conrado. No DOPS de So 
Pau lo passou algumas semanas na chamada Cela dos Atores, 
onde estavam agrupados os arrependidos. Poucos foram os dias 
em que conseguiu ca minhar. Carregavam-no para lev-lo aos 
interrogatrios e traz-lo de vol 30 Jornal da Tarde, 16 de 
julho de 1970, e Veja, 22 de julho de 1970, pp. 26-7. Para um 
detalhado
depoimento de Ana Bursztyn, ver Luiz Maklouf Carvalho, 
Mulheres que foram  luta armada, pp.
281 e segs.
31 Auto de Qualificao e de Interrogatrio de Ana Bursztyn, 
em Projeto Brasil: nunca mais, to mo v, vol. 1: A tortura, p. 
278. Luiz Maklouf Carvalho, Mulheres que foram  luta armada, 
p. 286.
32 Luiz Maklouf Carvalho, Mulheres que foram  luta armada, 
p. 288.
33 Para a priso de Bacuri, Percival de Souza, Autpsia do 
medo, p. 179. Antonio Carlos Fon, Tortura,
pp. 52-3. Isto, 19 de agosto de 1987, p. 20. Depoimento de 
Vinicius Caldeira Brant, em Projeto
Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 4: Os mortos, pp. 107 e 
segs.
34 Para o projetado seqestro, Jacob Gorender, Combate nas 
trevas, p. 218.
35 Auto de Qualificao de Ottoni Guimares Fernandes Junior, 
em Projeto Brasil: nunca mais,
tomo v, vol. 3: As torturas, p. 405.
PRA TRS, BRASIL 301
ta. Transferiram-no para a cela do fundo do corredor, e l, 
no dia 25 de outubro, o tenente Chiari, comandante da equipe 
de choque do DOPS, disse- lhe: Bacuri, voc fugiu Mostrou-
lhe uma nota oficial da polcia reve lando que ele escapara 
durante uma diligncia. Das grades, Bacuri con tou, aos 
gritos, o que acabara de acontecer: Eu vou ser morto, tenho 
certeza Por duas noites os presos do DOPS revezaram-se, 
vigiando a por ta da sua cela. Para evitar que houvesse 
barulho quando ela fosse aberta, os policiais lubrificaram-
na. Aos cinqenta minutos do dia 27, a porta de Bacuri foi 
aberta. Havia perto de sessenta presos no DOPS, bateram com 
canecas e pratos nas portas de metal, gritaram. A base 
paulista da di plomacia americana comprou a teoria da fuga e 
informou a Washington que as circunstncias envolvendo a 
fuga de Leite conferem com rumo res de que ela tenha sido 
planejada em troca de sua cooperao Do Rio, o cnsul-geral 
Clarence Boonstra advertia: era farsa.
Bacuri chegou ao forte dos Andradas, no Guaruj, dentro de um 
saco de lona. Trancaram-no numa pequena solitria erguida na 
praia do Bue no e depois levaram-no para um tnel do depsito 
de munies, a trs quilmetros de distncia. Era certo que 
se houvesse algum seqestro de diplomata, ele entraria na 
lista dos presos a serem libertados. No dia 8 de dezembro, 
passadas menos de 24 horas do seqestro, no Rio de Janeiro, 
do embaixador suo Giovanni Enrico Bucher, uma Veraneio 
estacionou na entrada do depsito. Dela saltaram um major e 
dois tenentes. Foram ao banheiro onde Bacuri estava trancado 
e disseram-lhe que iam lev-lo ao hospital militar. Um 
soldado ajudava-o a encostar-se na pia para la var-se quando 
o major mandou que sasse: Escutei uma pancada. No sei se 
era tiro ou o barulho de uma cabea batendo na parede. S sei 
que logo depois o corpo dele foi retirado do banheiro no 
mesmo saco de lona em que chegou A polcia paulista informou 
que Bacuri, localizado, ofe 36 Ariston Lucena, agosto de 
1988, e depoimento de Denise Crispim, em Luiz Maklouf 
Carvalho,
Mulheres que foram  luta armada, p. 87.
37 Dossi dos mortos e desaparecidos, p. 81. Ver tambm 
Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio, Dos
filhos deste solo, p. 56. Ariston Lucena, agosto de 1988.
38 Telegramas dos consulados americanos em So Paulo e no Rio 
de Janeiro, ambos de 27 de ou tubro de 1970. DEEUA.
39 Narrativa do soldado Rinaldo Campos de Carvalho a 
Reprter, r 36, dezembro de 1980.
302        A DITADURA ESCANCARADA
receu tenaz resistncia a tiros. Tinha 25 anos, e seu corpo 
foi abando nado no cemitrio de Areia Branca, em Santos, com 
dois tiros no peito, um na tmpora e outro no olho direito.
Se havia uma remota possibilidade de o governo do presidente 
Ri chard Nixon hostilizar os regimes militares do Brasil e da 
Argentina em defesa dos direitos humanos de esquerdistas 
presos, ela foi inibida pelo assassinato de Dan Mitrione. 
Mais que isso: no incio de setembro de 1970 Salvador Aliende 
venceu as eleies presidenciais chilenas. Pela primei ra vez 
na histria do continente, um socialista chegava ao poder, 
pelo vo to. Numa reunio na Casa Branca, Nixon pediu a 
Richard Helms, dire tor da Central Inteiligence Agency, que 
cuidasse do Chile. Helms anotou algumas das frases que 
ouvira: Vale a despesa. No me preocupo com os riscos.
A nfase que Nixon ps no combate a Aliende, a quem chamava 
de fflho-da-puta, firmou o eixo da poltica de seu governo 
em relao  Am rica Latina e, sobretudo, suas ditaduras. A 
direita militar, que poucos meses antes pudera parecer 
incmoda, transformara-se em aliada essen cial. No dia 19 de 
outubro, enquanto chegava ao Departamento de Esta do um 
telegrama do conselheiro poltico da embaixada em Braslia pe 
dindo que lhe remetessem exemplares da legislao 
antiterrorista americana para atender a uma solicitao do 
presidente da Comisso de Relaes Exteriores da Cmara, 
deputado Flvio Marclio, a CIA embarcara, com destino a 
Santiago, uma pesada mala diplomtica. Tambm se relacio nava 
com terrorismo. Nela iam trs submetralhadoras com a 
numerao raspada. Chegaram entre os dias 20 e 21. s duas da 
madrugada do dia 22 o adido do exrcito junto  embaixada 
americana no Chile entregou
40 Dossi dos mortos e desaparecidos, p. 33, e Reprter, n 
36, dezembro de 1980, transcrevendo o jornal Cidade de Santos 
de 9 de dezembro de 1970.
41 Necropsia de Eduardo Leite, Projeto Brasil: nunca mais, 
tomo v, vol. 4: Os mortos, p. 104. Para a localizao do 
cadver, Judith Lieblich Patarra, lora, p. 420.
42 Nathaniel Davis, The last two years of Salvador Allende, 
pp. 7-8.
43 Para a qualificao de Aliende, Nathaniel Davis, The last 
two years of Salvador Allende, p. 6, ci tando a biografia de 
Richard Helms, The man who kept the secrets, de Thomas 
Powers.
44 Para o pedido de Flvio Marclio, telegrama de Stephen 
Low, da embaixada em Braslia, ao De partamento de Estado, de 
19 de outubro de 1970.
PRA TRS, BRASIL 303
a encomenda a um grupo de militares direitistas. Seis horas 
depois, o co mandante do exrcito chileno, general Ren 
Schneider, teve o seu carro atacado por um comando que 
pretendia seqestr-lo. Reagiu e foi mor to com um tiro de 
revlver.
Schneider foi a mais alta autoridade assassinada por 
terroristas la tino-americanos desde maio de 1961, quando 
militares dominicanos, com o conhecimento do Departamento de 
Estado e possivelmente com armas fornecidas pela CIA, 
metralharam o generalssimo Rafael Leonidas Trujillo e 
abandonaram-no no porta-malas de um carro. (Na dcada de 60 o 
presidente dos Estados Unidos autorizou atentados contra 
Fidel Castro e o primeiro-ministro congols Patrice Lumumba.
Reunido na Casa Branca com a cpula do seu governo, Nixon ex 
ps claramente suas diretrizes:
Se o Chile for na direo que estamos prevendo e sair 
inclume [ enco rajar os outros latino-americanos que esto 
em cima do muro. No va mos pensar nos pases realmente 
democrticos da Amrica Latina, O jogo est na Argentina e no 
Brasil. [ Jamais vou c com a poltica de rebaixamento dos 
militares na Amrica Latina. Eles so um centro de po der 
sujeito a nossa influncia. [ Ns queremos ajud-los. Brasil 
e Argen tina, particularmente. [ O Brasil tem uma populao 
maior que a da Fran a e da Inglaterra, somadas. Se deixarmos 
que os lderes potenciais da
Amrica do Sul pensem que podem ir na direo em que vai o 
Chile, man tendo relaes normais conosco, teremos problemas. 
Eu quero trabalhar
nisso, e nas relaes militares  botando dinheiro.
45 Nathaniel Davis, The last two years of SalvadorAliende, p. 
6. Mark Falcoff, em seu livro Modern
Chile, 1970-1989 A critica! history, p. 215, informa que um 
tribunal militar chileno concluiu que
os tiros disparados contra Schneider no partiram das armas 
enviadas pela CIA.
46 Thomas Powers, The mau who kept the secrets, p. 186. Entre 
maro e abril de 1961 a CIA entregou
aos conspiradores trs carabinas e trs pistolas. Semanas 
antes do assassinato de Trujillo, depois do
fracasso da invaso de Cuba, o governo americano afastou-se 
da conspirao. Idem, pp. 396-7.
47 Os atentados no aconteceram. Lumumba foi assassinado por 
congoleses. Para o plano de en venenamento do governante 
congols, ver Ludo de Witte, The assassination of Lumumba, p. 
78.
48 Memorandum of Conversation, National Security Council 
Meeting, 6 de novembro de 1970
(NssM97), colocado no stio do National SecurityArchive: 
<http://www.gwu.edu/nsarchiv/news/
20001113/701 106.pdf>.
304 A DITADURA ESCANCARADA
Apesar da existncia de uma prolfica produo de denncias 
de en volvimento direto da administrao americana com as 
torturas brasileiras, no h prova de que um s militar ou 
policial tenha aprendido a bater em seus presos nos cursos de 
intercmbio patrocinados pelo governo dos Es tados Unidos. Da 
mesma forma, no h prova de que americanos tenham 
participado de sesses de tortura. A polcia brasileira 
sempre excedeu, de muito, a americana na prtica e na 
desenvoltura da criminalidade contra presos. Se uma delas 
tivesse algo a aprender com a utilizao do pau-de- arara ou 
dos choques eltricos, seria a americana, no abrasileira. O 
caso mais notvel de ligao biogrfica entre torturadores 
estrangeiros e a ditadura brasileira deu-se em 1973, quando o 
governo francs mandou para o Bra sil, como seu adido 
militar, o general Paul Aussaresses, chefe das operaes de 
represso, suplcios e extermnio praticadas na Arglia nos 
anos
H prova, contudo, de que ensinamentos americanos eram 
delibera damente complementares, num processo de 
sistematizao do mtodo de busca das informaes no qual 
estava embutida  e entendida  a pr tica da tortura. 
Documentos liberados pelo governo americano em 1996 indicam 
que apostilas distribudas a oficiais e agentes de polcia 
que esta giavam na Escola das Amricas, mantida pelo exrcito 
dos Estados Unidos no Panam, sugeriam o uso da tortura como 
forma de obteno de informa es. Uma parte dos documentos 
dos anos 60 e 70 foi destruda. Um deles foi preservado. 
Intitulado KUBARK, recomendava que, no preparo de uma sala de 
interrogatrio, deve-se saber antecipadamente o tipo de 
corrente eltrica para que se tenha  mo transformadores ou 
equipamentos do g nero (A mais conhecida relao entre 
transformadores e interrogatrios est no uso da energia para 
a aplicao de choques eltricos.) Redigido em 1963, o KUBARK 
dedicava duas pginas  anlise da dor fisica.
49 Em 2001 o general publicou suas memrias argelinas, com 
uma enftica defesa da tortura e dos assassinatos. Ver Paul 
Aussaresses, Servces spciaux, sobretudo pp. 154-6.
50 Torture was taught by the CIA, reportagem de Gary Cohn, 
Ginger Thompson e Mark Mat thews, The Baltimore Sun, 27 de 
janeiro de 1997, citando a pgina 46 do documento KUBARK CouN 
TERINTELLIGENCE INTERROGATION, da Central Inteiligence 
Agency, julho de 1963. Para a dor fisica, pp. 93-5, colocadas 
no stio do National Security Archive: <http://www.gwu.edu/ 
NSAEBB/NSAEBB27/01-01.htm>. Agradeo ao jornalista Jos 
Casado a cesso de uma cpia des se documento.
PRA TRS, BRASIL 305
Antes de 1964 passaram pela Escola das Amricas 105 
brasileiros. Deles, apenas nove oficiais da Marinha e do 
Exrcito (5%) tomaram au las ligadas com a rea de 
informaes. Os demais eram, ou artilheiros aprendendo a usar 
canhes de 90 mm, ou oficiais da PM. Entre 1965 e 1970 os 
oficiais-bolsistas foram sessenta. Deles, 38 (63%) fizeram 
cur sos de informaes. Fulanizada, a lista dos estagirios 
informa que um em cada dez oficiais mandados ao Panam pela 
ditadura fora ou viria a ser nominalmente acusado de tortura 
ou morte de presos. O oficial com mais alta patente na turma 
de 1965 era o comandante Clemente Jos Monteiro Filho. Ele 
fundaria a central de torturas da ilha das Flo res. No ano 
seguinte, foi o coronel Helio Ibiapina, responsvel pela 
violncia do Recife nos primeiros meses da ditadura. Em 1967, 
seria ma triculado o coronel Burnier, adido  embaixada 
brasileira no Panam. Tambm fariam o curso dois majores, um 
dos quais se metera em ar bitrariedades em Belm e mais tarde 
seria condenado pela Justia Mi litar por ter expropriado o 
automvel de uma prisioneira. A eles se junta o tenente-
coronel Manoel Moreira Paes, que reorganizaria o Cen tro de 
Estudos de Pessoal.
Em 1970, a cooperao do governo dos Estados Unidos com a m 
quina policial brasileira custara perto de 1 milho de 
dlares, dos quais se gastaram 292 mil mantendo no pas treze 
especialistas em investiga es criminais e contra-
insurreio e outros 128 mil levando aos Esta dos Unidos 58 
policiais brasileiros. Funcionrios americanos ajuda ram a 
estruturar o SNI, e oficiais brasileiros fizeram estgios de 
seis meses em Washington, recebendo suas aulas no subsolo do 
hotel Alban
51 Incluindo-se os sargentos e suboficiais, passaram pela 
Escola das Amricas nesse perodo 142
militares. Deles, 92 fizeram cursos de informaes. A lista 
dos estagirios da Escola das Amricas
est no stio do School ofAmericas Watch, cujo endereo  
<http://www.soaw.org>.
52 O stio do School ofAmericas Watch, <http://www.soaw.org>, 
relaciona dezoito oficiais e sar gentos ligados ao aparelho 
repressivo; deles, seis oficiais so associados a casos 
especficos de tor tura pelo Grupo Tortura Nunca Mais.
53 Era o major Carlos Alberto Bravo da Cmara. Jarbas 
Passarinho, Na plancie, p. 144. O outro
era o major Bismark Baracuhy Amancio Ramalho, cujo nome foi 
relacionado ao atentado contra
a Editora Civilizao Brasileira, em Heleno Cludio Fragoso, 
Advocacia da liberdade, p. 25.
54 Carta de Richard Winslow, funcionrio da USAW, ao The 
Washington Post, de 13 de maro de
1970. Citado em telegrama desse dia do Departamento de Estado 
 embaixada em Braslia. DEEUA.
306        A DITADURA ESCANCARADA
Tower. O governo Nixon apoiou a ditadura, e os funcionrios 
que de senharam essa poltica sabiam o que sucedia nas 
prises. O regime no precisava de mais.
A atividade da Frente Brasileira de Informaes e da esquerda 
catli ca europia fez a bola de neve rolar novamente na 
direo do Vaticano. Du rante a Semana Santa de 1970, a 
igreja parisiense de Saint Germain des Prs exps em seu 
altar-mor um Cristo algemado, com um tubo na boca e um 
magneto na trave da cruz. Sobre sua cabea havia uma bola com 
a inscri o Ordem e progresso. O depoimento de frei Tito 
tivera longos trechos publicados pelo Le Monde. Num s dia de 
outubro realizaram-se mani festaes contra a tortura 
brasileira em 56 cidades francesas, na Blgica e na Alemanha. 
A revista italiana LEuropeo, mexendo numa dolorosa fe rida 
da Santa S, perguntava: Vai se repetir no Brasil o caso dO 
vigrio?. Referia-se a uma pea teatral internacionalmente 
festejada, cuja trama se desenvolvia em torno da vacilao de 
Pio xi na condenao do nazismo. Na mesma semana Le Nouvel 
Observateur publicara uma carta do telogo Ivan Illich ao 
papa: Em nome da humanidade, imploro-vos que faleis e 
condeneis essa tortura utilizada como castigo, como meio de 
terror e, so bretudo, como meio de governo. Vossa Santidade 
sabe to bem quanto eu que no Brasil a tortura constitui uma 
poltica e uma prtica deliberadas
Sua Santidade de fato sabia. O cardeal holands Alfrink 
estivera no
Brasil e entrevistara-se com padres presos. O provincial dos 
dominica-
55 Depoimento do general Enio Pinheiro, fundador da ESNI, em 
Maria Celina dAraujo, Glucio
Ary Dillon Soares e Celso Castro (orgs.), Os Anos de Chumbo, 
pp. 140 e 134.
56 LEuropeo, 24 de setembro de 1970.
57 Look, 14 de julho de 1970, e LEuropeo, 24 de setembro de 
1970. Tito de Alencar Lima enfor cou-se, pendurando-se numa 
rvore, no dia 7 de agosto de 1974. Foi enterrado no 
cemitrio do minicano de Sainte Marie de la Tourette, nas 
proximidades de Lyon, na Frana. Em 1983 seus res tos 
voltaram ao Brasil e esto no jazigo da famlia, em 
Fortaleza.
58 Le Monde, 21 de outubro de 1970, e Marcio Moreira Alves, A 
Igreja e a poltica no Brasil, p. 205.
59 LEuropeo, 7 de setembro de 1970.
60 Le Nouvel Observateur, 7 de setembro de 1970.
61 LeMonde,21 de outubro de 1970.
PRA TRS, BRASIL 307
nos, frei Domingos Maia Leite, contara-lhe o que acontecera 
nos inter rogatrios de seus irmos. D. Eugnio Saies levara-
lhe um relatrio da CNBB narrando as torturas sofridas por 
dois padres no interior do Mara nho. Mais: d. Paulo Evaristo 
Arns, bispo auxiliar da regio norte de So Paulo, entregara-
lhe uma petio assinada por influentes lderes catli cos 
reclamando da intimidade do cardeal Rossi com os militares.
Quem teve a idia, no se sabe, mas no dia 7 de outubro, no 
Rio de Janeiro, uma tropa do DOI invadiu o Instituto 
Brasileiro de Desenvolvi mento, o Ibrades, que era dirigido 
por jesutas e ligado  CNBB. Suspen deram as aulas, 
prenderam alunos, professores e quem estivesse no pr dio. Um 
deles era o provincial da Companhia de Jesus, padre Pedro 
Veloso. Em abril de 1964, como mentor dos Crculos Operrios 
Catli cos, ajudara a formar a diretoria de interventores no 
Sindicato dos Me talrgicos do Rio. Outro, o reitor da 
Pontifcia Universidade Catlica, padre Ormindo Viveiros de 
Castro. Finalmente havia aquele que recla mou, informando que 
tinha uma audincia marcada com o ministro Al fredo Buzaid 
para as dezessete horas. Era d. Alosio Lorscheider, o secre 
trio-geral da CNBB. Foram todos fotografados de frente e de 
perfil. Liberaram-nos no meio da tarde.
D. Alosio perdeu o compromisso com Buzaid, mas no faltou ao 
se guinte, em Roma, no dia 19 de outubro, com Paulo vi. A 
edio daquela manh do Osservatore Romano, rgo oficial da 
Santa S, publicava uma advertncia da CNBB: O terrorismo da 
subverso no pode ter como res posta o terrorismo da 
represso. Desabara a construo conservadora que orientara 
o episcopado brasileiro desde 1964. Numa clara referncia
62 Boletim do Sedoc, maro de 1971.
63 Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, 
O. P. (orgs.), As relaes Igreja-Estado
no Brasil, vol. 3, p. 32.
64 Lawrence Weschler, Um milagre, um universo, p. 31.
65 Ata da reunio do Grupo de Base dos Metalrgicos, de 7 de 
abril de 1964, citada em Jos Ricar do Ramalho e Marco 
Aurlio Santana (orgs.), Trabalho e tradio sindical no Rio 
de Janeiro, p. 117.
66 Veja, 14 de outubro de 1970, p. 26, e Fernando Prandini, 
Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale,
O. P. (orgs.), As relaes Igreja-Estado no Brasil, vol. 3, 
pp. 36-7.
67 Fernando Prandini, Victor A. Petrucci e frei Romeu Dale, 
O. P. (orgs.), As relaes Igreja-Esta do no Brasil, vol. 3, 
p. 38.
308        A DITADURA ESCANCARADA
ao Brasil (um grande pas, que vive as tenses do esforo 
pelo progres so econmico e social), o prprio Paulo vI 
cumpriu o doloroso dever de pedir uma reflexo em torno de 
certos fatos que chocam pela sua sin gularidade, sua 
gravidade e sua repetio Quais? As torturas, por exem 
plo. Na contorcida linguagem vaticana, lembrou que elas vo 
alm do simples episdio e parecem um sinal de sbita 
decadncia moral
Enquanto o papa falava em Roma, d. Agneilo Rossi 
interpretava-o em So Paulo dizendo que Paulo vi estimava os 
esforos do presidente Medici para conduzir o Brasil ao 
caminho do desenvolvimento, ao mes mo tempo que tenta conter 
a onda de subverso e a campanha de men tiras e injustias 
dirigida contra o Brasil No dia seguinte, foi anunciada pela 
Santa S a sua transferncia da arquidiocese de So Paulo 
para a pre feitura da Sagrada Congregao para a 
Evangelizao dos Povos, em Roma. Para seu lugar o papa 
nomeou d. Paulo Evaristo Arns, sob cuja batina estava a 
Pastoral Carcerria. Nunca na histria da Igreja brasilei ra 
a nomeao de um arcebispo haveria de ter tamanhas 
conseqncias.
O protesto de Paulo VI significara uma inflexo na poltica 
da San ta S em relao  ditadura brasileira, refletira uma 
poderosa mudana em curso no pensamento do episcopado e 
resultara numa vitria dos de fensores de causas 
aparentemente perdidas. Seus efeitos junto ao poro foram 
nulos, mas na resposta do regime pde-se perceber um tique de 
nervosismo. Ao contrrio do que sucedera em maro, a fala do 
papa foi inicialmente proibida pela Censura. Uma vez 
liberada, Buzaid chegou a elogi-la. O general Orlando Geisel 
respondeu em nome do governo e atacou a gigantesca e 
deliberada campanha de perverso e distoro de fatos da 
realidade brasileira, que procura mobilizar contra ns a 
opinio pblica internacional e frustrar nosso acelerado 
desenvolvimento Essa era a resposta pblica.
68 Le Monde, 23 de outubro de 1970.
69 Segundo Peter Hebblethwaite, Paul VI  Thefirst modern 
pope, pp. 556-7, a ao rpida de
Paulo v foi produto da ao do monsenhor Beneili.
70 Para a nota da Censura proibindo o noticirio da fala de 
Paulo vi, Paolo Marconi, A censura
poltica na imprensa brasileira  1968/1978, p. 229. Para o 
elogio de Buzaid, Ralph deila Cava (org.),
A Igreja em flagrante  Catolicismo e sociedade na imprensa 
brasileira, 1964-1 980, p. 145.
71 Jornal do Brasil, 27 de novembro de 1970, p. 3.
PRA TRS, BRASIL        309
Noutra, secreta, ressuscitara a idia de se criar uma 
comisso desti nada a discutir as questes que envolvessem a 
Igreja, bem como as de nncias de torturas. A idia fora 
reapresentada ao general Muricy pelo professor Candido 
Mendes, e o velho soldado acautelou-se antes de acei t-la. 
Primeiro submeteu-a a Medici e Orlando Geisel. Quando eles 
con cordaram, o general voltou a encontrar-se com o 
professor, informan do-o de que poderamos fazer alguma 
coisa juntos O professor replicou o movimento de Muricy e 
entendeu-se com a GNBB. Articulou-se a cria o de uma 
comisso que se tornou conhecida como Bipartite. Reuniu- se 
pela primeira vez no retiro dos jesutas, no Rio de Janeiro, 
pouco de pois do incidente do Ibrades. Dividia-se em dois 
grupos. Num, o da situao sempre chefiado por Muricy, 
sentavam-se representantes do Exrcito, Marinha, Aeronutica, 
SNI e GTE. No outro, o religioso, senta vam-se hierarcas da 
Igreja, sempre liderados por um dirigente da CNBB. Durou at 
meados de 1974 e reuniu-se pelo menos 23 vezes. Os resulta 
dos de cada um dos encontros, dos quais a delegao militar 
mantinha atas, eram reportados diretamente a Orlando Geisel. 
A bancada da Igre ja era dirigida pela hierarquia da CNBB e 
variava na composio. Em pe lo menos uma ocasio incluiu o 
nncio apostlico. Muricy relembrou:
As reunies davam em pancadaria verbal. Era um lado acusando 
o ou tro de ter feito isto e aquilo, e o outro acusando de 
voltaY
O surgimento da Bipartite significou uma delicada reviravolta 
po ltica: com ela um pedao do regime comeou a se mover em 
segredo. Pendurado na bandeira dos direitos humanos, o 
radicalismo esquerdis ta recuperara uma parte do seu espao 
de atividade legal, livrando-se, em graus variveis, da 
atividade subterrnea em que estava desde 1968. J as foras 
que mantinham a ditadura e os conservadores que desejavam re 
gener-la viram-se condenados a dois tipos de militncia. Uns 
ficaram no poro, criado e incentivado pelo governo, maldito 
por uma retrica fraudulenta que, por mentirosa, poderia 
tra-lo. Outros caminharam para articulaes secretas, entre 
as quais a Bipartite foi o primeiro e o mais
72 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
73 Idem. Para uma competente e minuciosa descrio da 
montagem, dos debates e do significa do da Bipartite, ver 
Kenneth P. Serbin, Dilogos na sombra.
310        A DITADURA ESCANCARADA
estruturado dos exemplos. Dela no resultou a retirada de um 
s preso do pau-de-arara, mas a sua existncia indicava que 
se formara, com qua dros do regime, um tnue ncleo de 
discusso da tortura.
Cavalgando a euforia do tricampeonato mundial de futebol e 
feste jando o crescimento econmico, o regime cultivava a 
fantasia triunfalis ta do Brasil Grande Enquanto isso, o 
senador Oscar Passos, presidente do MDB, escrevia a um amigo 
falando do surgimento do manto negro da noite que cai sobre 
o entardecer Ele sabia do que falava. Duas semanas antes das 
eleies legislativas de 1970, marcadas para o dia 15 de 
novem bro, o governo desencadeou um arrasto de 
oposicionistas. Pode-se esti mar que tenham sido presas em 
torno de mil pessoas, numa lista onde se misturavam lderes 
sindicais, artistas e advogados de presos polticos.  Em 
alguns casos foram levados para prises conhecidas. Em 
outros, foram se qestrados, encapuzados e mantidos em 
crceres clandestinos. Quando se abriram as urnas, a oposio 
parlamentar estava destroada. Oscar Pas sos perdera sua 
cadeira. O MDB ficara com 21% dos votos para a Cma ra, nove 
pontos percentuais abaixo da soma dos votos brancos e nulos. 
Sua bancada no tinha sequer o tero necessrio para o 
requerimento de constituio de comisses parlamentares de 
inqurito. Fundado por vinte senadores e 149 deputados, 
restavam-lhe sete cadeiras no Senado e 87 na Cmara.
Demos-lhe uma surra, lembraria Medici mais tarde.
74 Veja, 11 de novembro de 1970, pp. 25-7.
75 Maria dAlva G. Kinzo, Legal opposition politics under 
authoritarian rule in Brazil, 1966-79, p. 63.
76 Idem, pp. 18 e 20.
77 Antonio Carlos Scartezini, Segredos de Medici, p. 25.
Nada a fazer
Surrada, a oposio viu caducar a idia de que a comprovao 
das tor turas desmoralizaria o governo e enfraqueceria a 
ditadura. Medici cha mara a tigrada de agentes 
injustiados da segurana deste pas, e o ge neral Orlando 
Geisel avisava aos celerados que, at o seu completo 
aniquilamento, no nos faltar energia, no desfalecer nossa 
determi nao, no adormecer na rotina a eficincia dos 
rgos de segurana Restava  Igreja, aos polticos 
oposicionistas e  imprensa apenas uma es tratgia de 
embarao. Embaraavam o governo confrontando-o com de 
linqncias condenadas pela sua prpria retrica. Como o 
prprio Me dici prometera represso dura e implacvel mas 
apenas contra o crime, e s contra os criminosos, existia, 
em tese, espao livre para discutir o caso de pessoas que 
tivessem sido brutalizadas mesmo no pertencendo a 
organizaes envolvidas em atos terroristas.
A estratgia do embarao era to flexvel que praticamente 
depen dia dos movimentos da tigrada Produto do senso comum, 
desenvol veu-se sem enunciados ou grandes articulaes. 
Evitava controvrsias que envolvessem militantes das 
organizaes armadas.
O primeiro embarao foi imposto ao governo quando o operrio 
Olavo Hansen morreu no DOPS de So Paulo. Ex-estudante de 
engenharia,
1 Emilio Garrastaz Medici, Nova conscincia de Brasil, p. 
80. Aula inaugural proferida na Esco la Superior de Guerra em 
10 de maro de 1970. Ordem do Dia do ministro Orlando Geisel, 
O Es tado de S. Paulo, 26 de agosto de 1971, p. 12.
2 Emilio Garrastaz Medici, O povo no est s, p. 91.
312        A DITADURA ESCANCARADA
empregado numa fbrica de fertilizantes e militante 
trotskista, fora pre so no dia 1 de maio de 1970, enquanto 
distribua panfletos num com cio. Oito dias depois estava 
morto. Segundo a polcia, matara-se ingerin do um inseticida 
que lhe paralisara os rins. Sua autpsia registrava quatro 
ferimentos tpicos do pau-de-arara, no havia inseticida na 
sua cela, e uma carta assinada por todos os presos da 
carceragem do DOPS revelava que Hansen agonizara por 48 horas 
antes de ser removido em estado de co ma para um hospital. 
Morrera no mesmo dia em que o palcio do Pla nalto denunciara 
a existncia de uma campanha de difamao do Brasil e 
proclamara ao mundo: No h tortura em nossas prises
No s o jovem operrio, de 32 anos, nada tinha a ver com o 
terro rismo, como nem sequer o acusavam de ter praticado 
crime algum. A pri meira reao veio do movimento sindical. 
Duas federaes e 21 organi zaes de trabalhadores de So 
Paulo telegrafaram a Medici pedindo que se investigasse o 
episdio. Pouco depois o deputado Franco Montoro, um discreto 
democrata-cristo, e o lder do MDB, Oscar Pedroso Horta, 
denunciaram o caso na Cmara. Ambos sustentavam seus 
argumentos na necropsia de Hansen. O MDB levou a questo ao 
nico foro possvel:
o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana.
Criado em 1968 e formado por parlamentares e dirigentes de 
orga nizaes corporativas da sociedade civil, o CDDPH era 
uma ambigidade da ditadura. No servia para nada porque o 
governo utilizava a maioria de que dispunha no seu plenrio 
para mandar ao arquivo todas as de nncias. Servia para 
alguma coisa porque o regime no podia negar  opo sio o 
direito de deixar-lhe diante da porta casos como o de Hansen. 
As denncias, bem como seu arquivamento, embaraavam o 
governo at mes mo quando a oposio confessava sua 
impotncia. Meses depois de o Con selho ter-se recusado a 
investigar o caso de Hansen, Pedroso Horta con 3 Nilmrjo 
Miranda e Carlos Tibrcio, Dos filhos deste solo, pp. 527-32. 
A necropsia de Hansen
revela uma pielonefrite aguda A insuficincia renal que 
matou vrios presos era provocada pela aplicao de pancadas 
na musculatura mole do corpo, o que a faz liberar quantidades 
elevadas de uma protena denominada mioglobina. Esse ciclo 
fatal foi descoberto durante a Segunda Guer ra, na 
Inglaterra, estudando-se os padecimentos de pessoas 
machucadas em desabamentos du rante os bombardeios alemes. 
Denomina-se crush syndrome.
4 Jornal do Brasil, 17 de maio de 1970, p. 3.
NADA A FAZER 313
tava: Ainda h poucos dias, recebi, nesta sala [ a visita de 
dois velhi nhos. [ Pareciam figuras sadas de uma policromia 
alem. Pergunta ram-me, com lgrimas nos olhos, o que podiam 
fazer para punir os res ponsveis pela morte do seu filho, 
Olavo Hansen. Eu lhes respondi: no h nada a fazer. E, 
realmente, no h
O poro vencera, mas Olavo Hansen, um operrio desconhecido, 
custara mais caro ao regime que Bacuri. Durante o ano de 1970 
morre riam outros 25 militantes de organizaes esquerdistas, 
mas nenhum deles se transformou em processo junto ao CDDPH.
Numa linha auxiliar  pura e simples negativa da tortura, o 
regime construiu um raciocnio atravs do qual tornava a sua 
admisso um fa tor que lhe reduzia a relevncia. O primeiro a 
exp-lo em pblico foi o ministro da Educao, Jarbas 
Passarinho: Dizer que no existe tortura seria faltar  
verdade. Agora, dizer que existe tortura como sistemtica de 
governo, no  s faltar  verdade.  uma ignomnia. Dizer 
que no exis tem torturas inclusive nos pases que nos atacam 
tambm  mentira, por que dentro de determinadas prises 
existem torturas e violncias.  a violncia policial que ns 
conhecemos desde que lemos Os miserveis, de Victor Hugo
Em linguagem mais direta, o vice-lder da Arena na Cmara, 
depu tado Cantdio Sampaio, exps o mesmo raciocnio: Seria 
de uma inge nuidade ridcula dizer-se que no h tortura no 
Brasil, ou mesmo nos Es tados Unidos da Amrica do Norte. No 
mundo inteiro existem as feras humanas travestidas de seres 
humanos. E... 1 Digo isso como ex-policial, como ex-
secretrio de segurana
A construo tinha dois cursos. Um sugeria que a tortura, 
sendo eter na e universal, era tambm banal. Outro localizava 
a sede da violncia nas transgresses policiais, separando o 
poro do Estado. Manipulan do-se os dois conceitos, chegava-
se  idia de que havia tortura, mas co mo o governo a 
condenava, ela era produto de agentes indisciplinados que 
Medici tentava controlar. Vai da, era preciso proteger o 
presidente
5 Entrevista a Dirceu Brisola, Veja, 13 de janeiro de 1971, 
p. 5.
6 O Estado de S. Paulo, 18 de junho de 1970.
314        A DITADURA ESCANCARADA
para que ele acabasse com a violncia, e a melhor maneira de 
faz-lo era no tocar no assunto. A racionalizao tinha 
tambm a capacidade de desembaraar tanto o governo como 
todos aqueles que desejando apoiar o regime, sem poderem 
acreditar na inexistncia da tortura, precisavam acreditar em 
alguma coisa. Tratava-se de um estratagema destinado a 
fortalecer o presidente e o governo, no a erradicar 
torturadores. O pr prio Passarinho explicaria a Medici: 
Admiti, de caso pensado, a existn cia de fatos isolados. 
Primeiro porque negar o bvio seria infame. Ad mitindo, 
crescemos em autoridade moral o suficiente para preservar o 
senhor. [ Sei que minha atitude criou reas de reservas, mas 
sei tam bm (e s isso me interessa) que a ttica surtiu 
efeito bom em relao ao presidente e ao governoY
Deixando-se de lado a realidade do poro (que no  pouca 
coisa), a prpria literatura militar do governo Medici segue 
outro curso, o da poltica de Estado. No dia 16 de abril de 
1971 o coronel Germano Seidl Vidal, adjunto da Diviso de 
Assuntos Doutrinrios da Escola Superior de Guerra, relatou 
aos estagirios o trabalho intitulado Segurana inter na  
Guerra revolucionria e informou: A situao de fato  que 
impe a plena aplicao violenta do poder, ainda no quadro 
restrito da segu rana interna, sem dar ao contendor a 
caracterizao de beligerante para aplicao dos princpios 
jurdicos internacionais
Em bom portugus: os contendores estavam ao desamparo at 
mesmo da Conveno de Genebra. Outro documento, produzido 
pelo Centro de Informaes do Exrcito, aprofundava essa 
racionalizao. Depois de listar as restries impostas pelas 
leis do mundo, informava que sob condies de emergncia, ou 
prximo a elas, o governo pode modificar esses critrios e 
adotar uma legislao diferente para tratamen to dos 
capturados
7 Carta de Jarbas Passarinho a Medici, de 8 de maro de 1971, 
em Folha de S.Paulo, 12 de dezem bro de 1993, pp. 1-16.
8 Germano Seidi Vidal, com Everaldo de Oliveira Reis 
(coronel) e Antnio de Arruda (desem bargador), Segurana 
interna Guerra revolucionria, p. 13.
9 Interrogatrio, apostila de 1971, marcada confidencial, 
do Centro de Informaes do Exr cito, p. 10.
NADA A FAZER 315
Smbolo de tenacidade, desprendimento, alto esprito de 
sacrificio e excepcional coragem, o delegado Srgio Fleury 
tornara-se fora aut noma na polcia paulista. 
Transformando impunidade em onipotn cia, projetava-se como 
guardio dos cdigos de silncio e vindita que per meiam as 
relaes policiais. Neles, poucas figuras comparam-se  do 
vingador, e foi nesse papel que Fleury, acompanhado por nove 
compar sas, entrou no presdio Tiradentes na tarde de 17 de 
julho de 1970. Ho ras antes, o bandido Guri (Adjovan Nunes) 
matara um policial. O ban do vinha para a desforra. Tiraram 
cinco presos da carceragem e mataram-nos nas vizinhanas de 
Guarulhos. Outros cinco presidirios seriam executados nas 
horas seguintes, at que acharam Guri num ma tagal de 
Itaquera com 150 furos de bala. O matador de guerrilheiros 
apre sentava-se  corporao como lder do Esquadro da 
Morte, resgatando a promessa de que para cada policial morto 
morreriam dez bandidos. Re gistre-se que se a opinio pblica 
desconhecia a extenso das brutalida des cometidas contra 
presos polticos, sabia o que vinha a ser o Esqua dro e 
dividia-se ao julg-lo: 54% contra, 46% a favor.
Pois foi nessa semana de fausto que se colocou no caminho do 
po deroso delegado Srgio Fleury a figura mida e tmida do 
procurador H lio Pereira Bicudo. Catlico praticante, tinha 
48 anos e sete filhos. Fora chefe-de-gabinete do ministro da 
Fazenda em 1963 e vivia modestamen te. Fazia mais de um ano 
que oficiava contra os crimes da polcia, e diante da nova 
onda de assassinatos voltara a pedir providncias ao pro 
curador-geral. O Esquadro tornara-se uma pedra no sapato do 
regime, pois a imprensa estrangeira e as organizaes de 
direitos humanos apre sentavam-no como medida da banditizao 
da ditadura. Algum teve a idia de trocar tudo por um golpe 
publicitrio. Esses agentes do crime
0 Para os elogios, Resoluo SSP-4Oda Secretaria de Segurana 
de So Paulo, assinada pelo coro nel Danilo Darcy de S da 
Cunha e Melio. Jornal da Tarde, t de maro de t97t.
it Hlio Bicudo, Meu depoimento sobre o Esquadro da Morte, 
pp. t42-4 e t85-9.
12 Pesquisa da Marpian realizada no Rio de Janeiro e em So 
Paulo. Veja, 29 de julho de t970.
13 Bicudo foi chefe-de-gabinete do ministro Carlos Alberto de 
Carvalho Pinto.
1
316        A DITADURA ESCANCARADA
sero punidos exemplarmente pela justia brasileira 
anunciara o pal cio do Planalto. Aplaudida por toda a 
imprensa e pela oposio parla mentar, a providncia foi um 
sucesso. Pela primeira vez desde 1964 o go verno conseguiu um 
editorial favorvel do The New York Ti rn es em relao aos 
direitos humanos. O presidente do Tribunal de Justia de So 
Pau lo condenou o Esquadro, e o procurador-geral deu a 
Bicudo a chefia das investigaes que deveriam erradic-lo.
Se o Judicirio paulista tentava falar srio, o Executivo 
estava fazen do teatro. Pouco depois da nomeao de Bicudo, o 
governador Abreu So dr formou uma comisso presidida por um 
general da reserva (Lus Fe lipe Galvo Carneiro da Cunha), 
com a suposta finalidade de investigar o Esquadro. O general 
fora um dos interrogadores do QG do ii Exrcito no 
desbaratamento da VPR, em 1969.16 Em menos de um ms Bicudo 
de nunciou dois investigadores e um alcagete. Logo em 
seguida colocou um guizo no pescoo de Fleury, apontando sua 
relao com uma quadrilha de policiais associada ao trfico 
de drogas) Numa nova investigao, Bi cudo teve a ajuda de um 
padre canadense, proco da igreja de Nossa Se nhora de 
Ftima, nos arredores de Guarulhos. Em 1968 o religioso foto 
grafara Fleury no comando de um grupo de exterminadores pouco 
antes de emboscarem um bandido. Passados mais de dois anos, 
entregou a Bi cudo os filmes e um relato do que presenciara.
Ameaado por telefonemas do Lrio Branco, codinome do porta-
voz do Esquadro encarregado de anunciar  imprensa a 
localizao dos ca dveres produzidos pela quadrilha, Bicudo 
foi a Braslia levando um dos si e uma m notcia para o 
regime: tinha provas suficientes para denun ciar Fleury. 
Esteve no palcio do Planalto e no SNI. L, um coronel disse-
lhe que a incriminao do delegado daria novo alento  
subverso esquerdis 14 Para a nota do Planalto, Daniel 
Drosdoff, Linha dura no Brasil  O governo Medici 1969-
1974, p. 108.
15 The New York Times, 1 de agosto de 1970.
16 Hlio Bicudo, Meu depoimento sobre o Esquadro da Morte, 
p. 137. Para Carneiro da Cunha no
QG do ii Exrcito, depoimento de Dulce de Souza Maia, em Luiz 
Maklouf Carvalho, Mulheres que
foram  luta armada, p. 66.
17 Hlio Bicudo, Do Esquadro da Morte aos justiceiros, p
18 Idem, pp. 54 e 155-6. Relatrio sobre a morte de Nego 
Sete, executado pelo Esquadro da Morte.
NADA A FAZER 317
ta no pas. O embarao chegara ao limite, e o governador de 
So Paulo, Roberto de Abreu Sodr, tomaria a defesa dos 
assassinos: Quem  que es t no front, quem  que est na 
frente da briga, quem  que sobe numa fa vela para pegar um 
marginal?  o juiz togado...  um promotor pequeno, grande, 
seja do tamanho que tiver para ir l? No, quem sobe  um 
policial da polcia militar ou da polcia civil, que arrisca 
a sua vida, o sustento da sua famlia, porque geralmente so 
pobres, para tirar um marginal de dentro de uma favela, 
escondido, encurralado, para dar tranqilidade  cidade
O procurador continuou em seu caminho e pediu a priso preven 
tiva de Fleury. Amparado pelo palcio do Planalto, o delegado 
bateu  porta do Supremo Tribunal Federal buscando um habeas 
corpus. Perdeu por cinco a trs. Pela primeira vez desde 1968 
o Supremo contrapunha se ao regime. A resposta da tigrada 
foi imediata. Na manh de 15 de ju nho, quando inspecionava 
uma obra na torre de sua igreja, o padre ca nadense foi 
surpreendido: Urubu filhoda-puta. Um dos comparsas de 
Fleury, que teoricamente estava preso no DOPS, empurrou-o do 
alto de um andaime. (Na queda, o padre fraturou o crnio, mas 
sobreviveu.) Em seguida Bicudo foi afastado do inqurito. A 
Secretaria da Receita Fe deral vasculhou-lhe as contas 
bancrias, e ventanistas invadiram seu es critrio. O 
procurador pusera em movimento sete processos e denun ciara 
35 pessoas, entre delegados, investigadores e alcagetes. 
Neles, listaram-se 41 execues. Fleury viu-se acusado de 
estar envolvido em 22.23
Em outubro de 1970, inesperadamente, entrou em cena em So 
Pau lo o personagem que haveria de se transformar em smbolo 
da tenacida de na luta contra a tortura. Era o seu novo 
arcebispo, o franciscano Pau lo Evaristo Arns. Crescera numa 
casa em que se falava e rezava em alemo.
19 Hlio Bicudo, Meu depoimento sobre o Esquadro da Morte, 
p. 58.
20 Idem,p. 125.
21 Para a descrio da cena, relato de uma entrevista como 
delinquente, o investigador Adhe mar Augusto de Oliveira, o 
Fininho, em Do Esquadro da Morte aos justiceiros, de Hlio 
Bicu do, pp. 64-5.
22 Hlio Bicudo, Meu depoimento sobre o Esquadro da Morte, 
p. 251.
23 Percival de Souza, Autpsia do medo, p. 300.
318        A DITADURA ESCANCARADA
Era um dos treze filhos de uma humilde famlia descendente de 
colonos instalados em Santa Catarina na primeira metade do 
sculo x Trs de suas irms eram freiras e um irmo, padre. 
Calara seu primeiro par de sapatos aos oito anos. Pela 
primeira vez na histria da Igreja brasileira uma diocese 
cardinalcia era entregue a um frade. D. Paulo passara 32 
anos den tro do projeto pedaggico da Ordem. Quer como aluno 
de letras da Sor bonne, em Paris, quer como professor de 
filosofia em Bauru, fizera um percurso diverso daquele que a 
Cria dera aos mais famosos de seus pa dres seculares. Aos 32 
anos, publicara em Paris uma tese sobre os mto dos de 
trabalho e produo da obra de So Jernimo, grande pensador 
catlico do incio da Idade Mdia. Chegara a bispo da regio 
norte de So Paulo aos 45 anos de idade e dezenove de 
sacerdcio sem ter dirigi do uma parquia em regime de 
dedicao exclusiva. Atarracado, tinha a aparncia de um 
campons, e seu sotaque ecoava a infncia catarinense.
Fora nomeado arcebispo no dia seguinte  segunda fala de 
Paulo VI contra a tortura brasileira. Era um desconhecido 
fora dos meios eclesis ticos. Afinal, quem haveria de se 
preocupar com as idias de um frade me tido em filosofia, 
encantado com o refinamento intelectual e a indepen dncia do 
cristianismo do sculo Iv? Paulo Evaristo assumiu a 
arquidiocese de So Paulo em novembro de 1970. No dia 29 de 
dezembro encontrou- se com o comandante do ii Exrcito e 
presenteou-o com um de seus li vros: A guerra acabar, se 
voc quiser.
A guerra comeou 29 dias depois, quando o DOPS prendeu na 
casa do vigrio do arcebispado o padre Giulio Vicini e a 
assistente social Yara Spadini. Ele era um proco de 
periferia e ela, secretria da regio episco pal sul. Tinham 
consigo a matriz de impresso de um panfleto denuncian do a 
morte de um operrio, militante da AP. Yara foi levada a uma 
sala e interrogada por cinco policiais. Aplicaram-lhe choques 
eltricos por dez
24 D. Paulo Evaristo Arns, A tcnica do livro segundo So 
Jernimo, Rio de Janeiro, Imago, 1993.
25 Folha de S.Paulo, 30 de dezembro de 1970, p. 3.
26 Marcio Moreira Alves, A Igreja e a poltica no Brasil, p. 
211. O operrio, Raimundo Eduardo
da Silva, era militante da AP e fora esfaqueado no dia 23 de 
novembro. Convalescia num hospital
quando foi preso e levado para o HCE. Morrera de peritonite. 
Para esse caso, ver Projeto Brasil: nun ca mais, tomo v, vol. 
4: Os mortos, pp. 3 17-8.
NADA A FAZER 319
minutos. Ao padre Giulio sentaram por duas horas numa cadeira 
de co bertura metlica pela qual passavam choques eltricos. 
Chamavam-na Ca deira do Drago. O arcebispo visitou-os. Ambos 
tinham os tornozelos feridos e queixaram-se das torturas. D. 
Paulo foi ao governador Abreu Sodr e dele obteve autorizao 
para levar ao DOPS uma equipe mdica de sua confiana, de 
forma a iniciar uma investigao. Aos poucos a si tuao 
reverteu-se. Primeiro Sodr recuou, e os mdicos no puderam 
entrar na delegacia. Em seguida a polcia divulgou a priso 
de Spadini e Vicini, qualificando-os como subversivos. 
Finalmente, quando j estavam presos havia uma semana) foram 
postos em regime de incomunicabili dade. Ao meio-dia de 
quinta-feira, 4 de fevereiro, de volta de um fracas sado 
encontro com o governador, d. Paulo Evaristo redigiu um aviso 
e distribuiu-o a todas as parquias. Ele informava:
 Nem o padre Giulio Vicini nem Yara Spadini podem ser 
considerados subversivos antes de serem julgados por um 
tribunal competente que lhes garanta amplamente o seu direito 
de defesa. [
 Infelizmente padre Giulio e a Sra. Yara Spadini foram 
torturados de uma maneira ignominiosa pela policia poltica 
(Deops) da nossa capi tal, como o vigrio episcopal da regio 
sul e ns prprios pudemos verifi car pessoalmente. [
 O Arcebispado de So Paulo espera que as autoridades no 
falta ro ao dever de fazer um inqurito sobre esses fatos 
deprimentes e de apli car enrgicas medidas de punio. [
 Este aviso deve ser afixado, este domingo, nas portas das 
igrejas pa roquiais e dos lugares de orao de nosso 
arcebispado, sem que seja lido
ou comentado durante os atos religiosos.
27 Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vois. 2 e 3: As 
torturas, p. 95 e p. 930.
28 Para a visita do vigrio, Marcio Moreira Alves, A Igreja e 
a poltica no Brasil, p. 211. Para as
marcas nos tornozelos, Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, 
vol. 3: As torturas, p. 930. Ver tambm
Veja, 17 de fevereiro de 1971. D. Paulo narra o episdio em 
suas memrias, Da esperana  utopia,
pp. 278-9.
29 Marcio Moreira Alves, A Igreja e a poltica no Brasil, pp. 
211-2, citando Sedoc, maro de 1971,
pp. 1130-1.
320        A DITADURA ESCANCARADA
D. Paulo detonara a crise paulista e controlara seu curso 
silencian do os sermes. Na segunda-feira, acompanhado por um 
padre grisalho e calado, o arcebispo embarcou para Belo 
Horizonte. O sacerdote era o nncio apostlico, d. Umberto 
Mozzoni, e o destino de ambos era a x Assemblia Geral da 
Conferncia Nacional dos Bispos. L, ao contrrio do que 
sucedera no ano anterior, o conservadorismo estava em 
retirada. Perdera a presidncia da CNBB com a partida de d. 
Agnello para Roma e vira o papa alinhar-se  denncia do 
regime.
Antes mesmo da priso de Spadini e Vicini o clero fora 
confronta do com mais um caso de tortura de padre. Em Barra 
Mansa, o tenente- coronel Gladstone Pernasetti Teixeira, do 
12 Batalho de Infantaria Blin dada, continuava sua guerra 
contra o bispo Waldyr Calheiros. Suas sesses de tortura 
denominavam-se missas e os presos, nus, eram obrigados a 
cantar o sucesso Jesus Cristo, de R Carlos. Dois dias antes 
da redao do aviso de d. Paulo Evaristo, a comisso central 
da CNBB j si nalizara uma mudana dos ventos episcopais 
solidarizando-se com o bispo de Volta Redonda numa linguagem 
bem diversa daquela em que havia um ano dera ao governo o 
privilgio da dvida: O que observa mos, na verdade,  que o 
fenmeno das torturas infelizmente existe em nossa ptria e, 
em certas circunstncias, de maneira atroz.
Na reunio de Belo Horizonte chocaram-se pela ltima vez a 
Igre ja pr- e ps-conciliar. Enquanto o plenrio discutia os 
termos da soli dariedade da Assemblia a d. Paulo Evaristo, o 
cardeal do Rio de Janei ro, Jaime Cmara, circulava pelos 
corredores com sua cruz peitoral de ouro e pantufas vermelhas 
coletando assinaturas contra as modificaes im postas pelo 
papa ao sacramento da confisso. Aos 76 anos, tornara-se 
smbolo esquecido do regalismo conservador. Freqentara todos 
os pre 30 Veja, 17 de fevereiro de 1971.
31 Depoimento do padre Natanaei de Morais Campos a Murilo 
Fiuza de Meio e Francisco Luiz
Noel. Jornal do Brasil, 25 de maio de 1997, Caderno Brasil, 
p. 9.
32 Carta do presidente, do vice-presidente e do secretrio-
geral da CNBB a d. Waidyr a1heiros,
de 2 de fevereiro de 1971. Boletim do Sedoc, maro de 1971.
33 Para a coleta de assinaturas, Dicionrio histrico-
biogrfico brasileiro ps-1 930, coord. de Alzi ra Alves de 
Abreu e outros, vol. 1, p. 966. O cardeal do Rio morreu em 
Aparecida do Norte dois
dias depois do encerramento da assemblia.
NADA A FAZER 321
sidentes. Celebrava na Candelria as missas pelas almas de 
policiais mor tos no combate ao terrorismo e, em cerimnia 
restrita, por um sobrinho- neto que a tigrada assassinara. 
Estivera com Medici na vspera, levan do uma agenda de sete 
pontos. Entre seus temas estavam um pedido e uma sugesto. 
Queria vigilncia sobre letras de carnaval irreverentes e 
propunha que o governo soltasse os dominicanos presos em So 
Paulo, para esvaziar o assunto durante os debates da reunio 
da CNBB. Medici deu-lhe apenas quinze minutos de ateno.
Terminada a reunio, d. Alosio Lorscheider foi eleito para a 
presi dncia da CNBB. Derrotara o cardeal Vicente Scherer, 
arcebispo de Porto Alegre, por 105 votos a 65. Estava 
terminado o domnio dos conservado res. D. Alosio ficaria na 
cadeira por oito anos.
D. Waidyr Calheiros costumava brincar dizendo que mexer com 
bis po traz falta de sorte Com ele os comandantes do i 
Exrcito e do 12 BIB mexeram at onde puderam. Interrogaram-
no, indiciaram-no em IPMS, che garam a prender os maridos de 
senhoras que trabalhavam nas obras sociais da diocese. O 
ministro da Justia tentara dep-lo pedindo sua transfern 
cia ao nncio apostlico. Pouco depois da Assemblia da CNBB 
um padre que passara pelo crcere do BIB contou-lhe uma 
histria horrvel. Foi veri fic-la no mesmo dia. Um velho 
senhor que podia confirm-la confessou:
 Eu gostaria tanto de falar com o senhor, mas eles 
proibiram.
 Se eles perguntarem, diga que fui eu quem o procurei  
respon deu o bispo.
34 Era Aldo de S Brito Souza Neto, militante da ALN, um dos 
seqestradores do embaixador Von
Hoileben. Ivo Cailiari, D. Jaime Cmara, p. 639. Para a morte 
de Aldo, Projeto Brasil: nunca mais,
tomo v, vol. 4: Os mortos; p. 11.
35 Ivo Cailiari, D. Jaime Cmara, p. 641.
36 Para o pedido do ministro Buzaid ao nncio Umberto 
Mozzoni, Celia Maria Leite Costa, Dul ce Chaves Pandolfi e 
Kenneth Serbin (orgs.), O bispo de Volta Redonda, p. 101.
37 Depoimento de d. Waidyr Calheiros a Paulo Moreira Leite, 6 
de dezembro de 1988. Ver tam bm Celia Maria Leite Costa, 
Dulce Chaves Pandolfi e Kenneth Serbin (orgs.), O bispo de 
Volta
Redonda, pp. 108-14.
322        A DITADURA ESCANCARADA
No dia seguinte o velho estava preso, mas d. Waidyr conseguiu 
re constituir o que acontecera no quartel do tenente-coronel 
Gladstone no incio de janeiro de 1971. Comunicou os fatos ao 
nncio apostlico e a d. Ivo Lorscheiter, primo de d. Alosio 
e secretrio-geral da CNBB. O as sunto foi levado a uma das 
reunies da Bipartite. Quando d. Ivo acabou de contar sua 
histria, o general Muricy defendeu-se: Duvido que o 
Exrcito brasileiro tenha praticado atos dessa natureza
Sucedera o seguinte: o chefe da 2 Seo do estado-maior do 1 
BIB, capito Dalgio Miranda Niebus, de 29 anos, investigara a 
existncia de uma boca-de-fumo no quartel. Ajudado por um 
tenente, trs sargentos e dois cabos, prendera ilegalmente 
quinze soldados e os interrogara no Arquivo, uma construo a 
quatrocentos metros de distncia do corpo de guarda do 
batalho. Bateram neles com canos de ferro, aoites e 
palmatrias fei tas no servio de carpintaria do quartel, uma 
das quais desenhada pelo ca pito Niebus. Deram-lhes choques 
eltricos e esmagaram os ps dos pre sos numa prensa manual. 
Na tarde de 12 de janeiro, dois dos soldados estavam mortos. 
Informado do caso, Gladstone determinou que se simu lasse uma 
fuga arrombando-se o teto do Arquivo e dando-se sumio aos 
cadveres. Um foi degolado e o outro, incinerado. No dia 
seguinte morreu um terceiro soldado. O quarto, cuja cabea 
fora colocada na prensa, mor reria dias depois no Hospital 
Central do Exrcito. Pelo menos um deles ago nizou no 
Arquivo, implorando assistncia, mas o mdico da unidade se 
re cusou a socorr-lo. Todos tinham a mesma idade: dezenove 
anos.
38 Narrativa de d. Waldyr Caiheiros a Murilo Fiuza de Meio e 
Francisco Luiz Noel, Jornal do Brasil,
25 de maio de 1997, Caderno Brasil, p. 9.
39 Celia Maria Leite Costa, Dulce Chaves Pandoifi e Kenneth 
Serbin (orgs.), O bispo de Volta Redonda, p. 111.
40 Sentena da 2 Auditoria do Exrcito, da 1 Circunscrio 
Judiciria Militar, p. 16. Durante trs anos o autor tentou 
achar a documentao desse caso. Apesar dos sinceros esforos 
de dois mi nistros do Superior Tribunal Militar, nada 
conseguiu. A narrativa baseia-se no depoimento de d. Waldyr 
Calheiros a Paulo Moreira Leite e no trabalho dos reprteres 
da sucl_sal Rio da revista Veja. Os soldados assassinados 
foram Wanderley de Oliveira, Juarez Mono/Virote, Geomar Ri 
beiro da Silva e Vicente Roberto da Silva. Em 1997 o 
professor Kenneth Serbin passou ao autor uma cpia da 
sentena de 32 pginas da 2 Auditoria do Exrcito, na qual se 
encontram fragmen tos dos episdios ocorridos no 1 BuS. AA.
41 Sentena da 2 Auditoria do Exrcito, da 1 Circunscrio 
Judiciria Militar, pp. 15-6 e 22. AA.
/
NADA A FAZER        323
O comandante do 12 BIB determinou a abertura de um 1PM e 
nomeou Gladstone para presidi-lo. O tenente-coronel concluiu 
que os fugitivos haviam espancado os colegas e mandou que 
trs rdios da cidade divulgassem o edital de chamada dos 
dois desertores. O depoimento de uma lavadeira amparava a 
construo.
Infelizmente, temos que dar a mo  palmatria admitiria o 
general Muricy aos seus interlocutores da Bipartite. Um novo 
IPM, iniciado menos de duas semanas depois, desmascararia a 
farsa. O Centro de Relaes Pblicas do Exrcito informou que 
elementos do 12 BIB agiram de maneira condenvel e 
deformada, provocando a morte dos soldados. Nenhum nome, 
nenhuma patente, nem sequer o nmero de vtimas. Os 
criminosos foram julgados em janeiro de 1973. O tenente-
coronel Gladstone tomou sete anos (reduzidos depois para seis 
meses) e o capito Dalgio, 84 (cumpriu menos de um dcimo 
disso). As penas iniciais dos dez acusados somaram 473 anos.
A hierarquia militar encobriu os detalhes do suplcio dos 
quatro sol dados do BIB, mas ainda assim ele foi um estranho 
sinal para a oficialida de. Anos depois, o general Gustavo 
Moraes Rego lembraria: Esse caso cho cou fortemente o 
Exrcito. Aquilo no era subverso, no era nada. Era coisa 
de maconheiros numa poca em que muita gente fumava maconha. 
De certa maneira esse caso chocou mais que outros, surgidos 
anos depois. Com o passar do tempo alguns generais se 
convenceram de que a conde nao dos criminosos do 12 BIB foi 
exemplo de repulsa dos comandantes militares da poca  
tortura. Os fatos desmentem essa suposio. Tendo- se 
comprovado o crime, nenhuma providncia tomaram os generais 
para sinalizar que a punio era uma advertncia aos 
torturadores. Pelo con 
42 Celia Maria Leite Costa, Dulce Chaves Pandolfi e Kenneth 
Serbin (orgs.), O bispo de Volta
Redonda,p. 112.
43 Jornal do Brasil, 18 de janeiro de 1973, e Celia Maria 
Leite Costa, Dulce Chaves Pandolfi e Kenneth
Serbin (orgs.), O bispo de Volta Redonda, p. 112.
44 Sentena da 2 Auditoria do Exrcito, da 1 Circunscrio 
Judiciria Militar, p. 29. AA.
45 General Gustavo Moraes Rego, novembro de 1984.
46 A esse respeito, ver o artigo do general Srgio de Ary 
Pires enaltecendo a memria do general
Walter Pires de Albuquerque, publicado em O Globo de 12 de 
novembro de 1990. Ou ainda a en trevista do ex-presidente 
Joo Baptista Figueiredo em O Globo de 28 de abril de 1991.
324        A DITADURA ESCANCARADA
trrio. Colocaram o processo em segredo de Justia. Se o 
crime do 12 BIB foi reinvestigado e os delinqentes punidos, 
isso se deveu ao fato de estes terem praticado delito 
considerado comum, equiparando-se aos oficiais e sargentos 
que davam desfalques ou matavam desafetos. Afora um gran de e 
fulminante embarao, nada mais.
Os comandantes militares mentiram quando informaram que o 
comportamento do capito Dalgio fora totalmente contrrio [ 
s de terminaes em vigor no Exrcito Sua defesa sustentou 
o oposto, a tese da guerra santa em defesa das 
instituies: Estes homens foram trei nados para a guerra, 
no so homens comuns, so especializados para enfrentar a 
Guerra Revolucionria [ ou so todos responsveis, ou nin 
gum  responsvel Disse o bvio: que a oficialidade do 12 
BIB sabia o que acontecia no Arquivo.
Os cabos e sargentos culparam os oficiais, os oficiais 
culparam os co mandantes. O coronel Arioswaldo Tavares Gomes 
da Silva, sob cujo co mando se achava o batalho, safou-se 
dizendo que tirara frias, mas re conheceu que numa ida ao 
quartel foi procurado pela irm de um dos soldados que 
estavam apanhando. Perdeu o comando e ganhou uma dis creta 
passagem para a reserva. Foi inocentado tanto por Gladstone 
co mo pelo tenente que acolitava Niebus. Eram bons camaradas. 
Um ano antes da matana dos soldados o coronel justificara 
publicamente a pri so de militantes da Juventude Operria 
Catlica e acobertara as tortu ras praticadas contra um 
padre. Entre os torturadores estava o tenente.
Na mesma poca da morte dos quatro soldados do 22 BIB, o 
coman do do i Exrcito encobriu o assassinato do ex-deputado 
federal Rubens Paiva, comportando-se como o capito que mais 
tarde condenaria. Nes se episdio a tigrada teve a sua 
maior vitria.
Deputado federal pelo PTB, cassado de 1964, Rubens Beirodt 
Paiva
tinha 41 anos e levava a vida de prspero engenheiro, vivendo 
com a mu 47 Nota do Centro de Relaes Pblicas do Exrcito, 
de fevereiro de 1972, em Jornal do Brasil, 18 /
de janeiro de 1973, p. 26.        /
48 Sentena da 2 Auditoria do Exrcito, da 1 Circunscrio 
Judiciria Militar, pp. 9 e 11. AA.
49 Para o episdio, Marcos de Castro, 64 Conflito Igreja x 
Estado, p. 120.
NADA A FAZER
325
lher e cinco filhos numa casa da praia do Leblon. Ganhara 
alguma no toriedade em 1963, durante os trabalhos da comisso 
parlamentar de in qurito que remexeu a contabilidade dos 
capils eleitorais distribudos aos candidatos conservadores 
pelo empresariado e pelo governo ameri cano. Sua atividade 
poltica visvel restringia-se a um crculo de notveis do 
governo Goulart que vivia na Zona Sul do Rio. Estivera no 
Chile no final de 1970 e aconselhara seu amigo Almino 
Affonso, ex-ministro de Joo Goulart, a retornar ao Brasil. 
Achava que a ditadura se estabilizara mas no havia risco de 
que fosse preso ou torturado. Almino foi cuidar da papelada. 
Percebeu que a embaixada em Santiago no lhe dava pas 
saporte. Telefonou a Paiva, no Rio. Queria pedir-lhe que 
usasse alguns contatos que tinha no Itamaraty para suspender 
o constrangimento. Do outro lado da linha atendeu uma voz de 
homem: Rubens Paiva no es tava, no se sabia para onde fora, 
nem quando voltaria. Telefonou outras duas vezes e ouviu a 
mesma resposta. Achou que havia algo de errado, ligou para 
seu irmo e recebeu a notcia, no cdigo banal da poca: Pai 
va estava hospitalizado, talvez em estado grave; tambm se 
encontravam no hospital a mulher e uma das filhas.
Rubens Paiva foi preso no incio da tarde de 20 de janeiro de 
1971, quando seis homens armados e nervosos ocuparam sua 
casa. Ele os acal mou, pediu que guardassem os revlveres e 
vestiu-se. Escoltado, guiou seu carro at o quartel do 
comando da iii Zona Area, junto ao aeropor to Santos Dumont. 
Levaram-no para uma sala e acarearam-no com duas senhoras. Os 
trs foram obrigados a ficar de p, com os braos levanta 
dos. Era um fio que comeara a ser puxado pelos servios de 
informaes do governo dois dias antes, em Santiago do Chile. 
Elas haviam visitado os filhos, tomaram o avio de volta ao 
Rio e foram presas ao desembar car. Na bagagem de uma delas 
acharam-se pelo menos duas cartas ende readas a Rubens 
Paiva. Uma era de Almino Affonso. Outra vinha de He lena 
Bocayuva, filha do ex-deputado Luiz Fernando (Baby) Bocayuva 
Cunha. Militante do MR-8, ela fora fiadora da casa do Rio 
Comprido onde ficara o embaixador americano Charles Elbrick. 
Mesmo tendo sido iden
50 Narrativa do deputado Almino Affonso, discurso na Cmara 
dos Deputados, 13 de dezembro
de 1995.
326 A DITADURA ESCANCARADA
tificada e fotografada durante o seqestro, escapulira para o 
exlio. Ru bens Paiva, amigo e scio de seu pai, escondera-a 
no Rio.
Uma das senhoras sentiu-se mal, Rubens Paiva amparou-a, foi 
gol peado por um oficial e respondeu com um palavro. 
Surrado, ficou es tendido no cho. Horas depois anunciaram 
que iam lev-lo para o Apa relho. Era o DOI da Baro de 
Mesquita. No caminho ele reclamava de que no conseguia 
respirar, mas chegou consciente ao quartel da Polcia do 
Exrcito. Foi interrogado, e durante a noite ouviram-no 
soletrar o so brenome Beirodt para os carcereiros que faziam 
a ronda. Ouviram-no tam bm pedir gua.
Passava pouco de uma hora da madrugada do dia seguinte quando 
Amilcar Lobo, aspirante-a-oficial e mdico do DOI, foi 
acordado em casa e levado para o quartel. Subiu  carceragem 
do segundo andar e l, nu ma das celas do fundo do corredor, 
encontrou um homem nu, deitado, com os olhos fechados. Tinha 
todo o corpo marcado de pancadas e o ab dmen enrijecido, 
clssico sintoma de hemorragia interna. Rubens Pai va, 
murmurou duas vezes o preso, abrindo os olhos.
Lobo aconselhou que ele fosse levado para um hospital, mas o 
ma jor que o acompanhou  cela achou melhor ret-lo: Ele  
muito quen te, doutor, se d com gente do Chile
Na manh seguinte o mdico foi informado de que Rubens Paiva 
mor rera. Pretendiam esquartej-lo. Comandava o DOT o major 
Jos Anto nio Nogueira Belham. Dispunha do receiturio de 
lorotas para explicar as mortes dos presos na Baro de 
Mesquita, mas nenhuma delas servia. No podiam negar a 
priso, como no caso de Mrio Alves, do PCBR.
dizer que o ex-deputado resistira, como disseram depois de 
matar Chael Charles Schreier, da vri Muito menos que se 
suicidara, como fizeram com Roberto Cieto.
Rubens Paiva deve ter morrido poucas horas depois da visita 
do as pirante Lobo, pois a fraude destinada a encobrir o seu 
assassinato foi exe
5t Todas as informaes referentes  priso de Rubens Paiva 
so da reportagem de Fritz Utzeri e
Heraldo Dias publicada pelo Jornal do Brasil em 22 de outubro 
de t978, Caderno Especial.
52 Amilcar Lobo, A hora do lobo, a hora do carneiro, pp. 27-
9.
NADA A FAZER 327
cutada antes que o dia amanhecesse. Segundo o registro feito 
na 19 De legacia s 4h30 da madrugada de 22 de janeiro, o 
elemento Rubens Sei xas fora seqestrado por um grupo 
terrorista na estrada montanhosa do Alto da Boa Vista quando 
era transportado, no banco de trs de um Volkswagen, por um 
capito e dois sargentos. Os seqestradores surgi ram em dois 
automveis, atacaram com armas automticas e obrigaram a 
escolta a abrigar-se fora do fusca. Deu-se tiroteio cerrado 
o carro in cendiou-se e o preso evadiu-se. Rubens Paiva era 
um homem corpulen to, pesava perto de cem quilos. Teria 
conseguido sair do carro pela por ta esquerda enquanto os 
trs militares saam pela direita. No meio do tiroteio 
refugiara-se atrs de um poste e correra at um dos veculos 
dos terroristas, percurso que somaria 25 metros.
Entre o momento em que ouviram Rubens Paiva pedir gua e o 
ins tante em que ele murmurou o nome em agonia passaram-se 
cerca de dezesseis horas. J entre o dia da montagem da farsa 
do Alto da Boa Vista contando a fuga de um suposto Rubens 
Seixas (22 de janeiro) e a sua di vulgao, quando lhe 
atriburam a identidade certa (3 de fevereiro), pas saram-se 
duas semanas. Durante esse perodo o governo emitiu sinais 
con fusos. No final de janeiro o i Exrcito informou  
Justia Militar que Rubens Paiva no estava entre os seus 
presos, sem nenhuma referncia  fuga de Rubens Seixas 
Ademais, durante treze dias deixou-se que o assunto fos se 
tratado pela imprensa, e a Censura s foi mobilizada depois 
que o go verno oficializou a verso fraudulenta do seqestro. 
Mesmo tratando-se de um dos crimes mais investigados da 
ditadura, nada se sabe das razes que levaram o comando do i 
Exrcito a procrastinar a divulgao da farsa.
Rubens Paiva morreria muitas outras vezes, em muitos outros 
fo ros. Eunice, sua viva, bateu  porta do Superior Tribunal 
Militar e do
Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. Sabia que o 
ma 53 A fuga de Rubens Paiva foi uma repetio da farsa 
montada em 1957 pelo exrcito francs
na Arglia para encobrir o assassinato do professor Maurice 
Audin. Ele teria fugido dez dias de pois de preso, quando era 
transportado num jipe. Audin foi assassinado pelo mesmo 
tenente que mais tarde reconstituiu a cena da fuga. Pierre 
Vidal-Naquet, La torture dans la rpublique, p. 74.
54 No dia 3 de fevereiro a Censura proibiu a divulgao de 
uma carta da filha de Rubens Paiva, de quinze anos, ao 
ministro da Justia, Alfredo Buzaid. Paolo Marconi, A censura 
poltica na im prensa brasileira  1968/1978, p. 232.
328        A DITADURA ESCANCARADA
rido estava morto, mas pedia que se investigasse a verso 
farsesca do episdio do Alto da Boa Vista. Foi sempre barrada 
pelo endosso que os comandantes militares deram quele 
seqestro fraudulento, to pare cido com a desero dos 
mortos fabricada pelo capito Dalgio no BIB. Seu ltimo 
recurso ao STM teve como relator o general Jurandyr de Bi 
zarria Mamede, corifeu do castelismo, mestre da Escola 
Superior de Guer ra. Mamede negou-o. Ao plenrio de nove 
cadeiras do CDDPH, Eunice Paiva pediu que fosse criada uma 
comisso especial destinada a inves tigar o caso. Contou com 
os quatro votos dos representantes da oposi o e da Ordem 
dos Advogados. O ministro da Justia desempatou a favor do 
governo.
Assassinara-se um ex-deputado federal cuja atividade poltica 
era de sassombrada, porm inofensiva, e cuja vida pessoal 
acompanhava mui to mais os padres da elite do Milagre do que 
os cdigos da militncia esquerdista. Contara-se uma histria 
insustentvel, e encerrara-se o as sunto. Tinha razo o 
deputado Pedroso Horta: No h nada a fazer. E, realmente, 
no h
Ainda assim, fazia-se. Em maro de 1971 o monsenhor Joseph 
Gre million e o padre Jesus Garcia estavam no Rio de Janeiro. 
Oficialmente, participavam do iv Encontro Regional Latino-
Americano de Justia e Paz. Gremillion reuniu o nncio 
apostlico, outros cinco representantes es trangeiros, um 
cardeal e oito bispos brasileiros. Mais treze peritos nu ma 
mistura poltica e espiritual que juntava o ministro de Minas 
e Ener gia, Antnio Dias Leite, e o professor paulista 
Fernando Henrique Cardoso. Encontraram-se no convento do 
Cenculo, em Laranjeiras. Longe do auditrio, Gremillion 
entrevistou-se com diversos familiares de desapa recidos. 
Ouviu cada caso de uma vez, inclusive o de Eunice Paiva, a 
vi va de Rubens. No final, autorizou a Comisso de Justia e 
Paz a dar as-
55 Marina Bandeira, Comisso Pontifcia Justia e Paz  
1969-1995 (Memria), em Candido
Mendes de Almeida e Marina Bandeira, Comisso Brasileira 
Justia e Paz  1969-1995 (Empenho
e memria), pp. 68-72.
NADA A FAZER 329
sistncia a essas famlias, cujos parentes eram, em quase 
todos os casos,
marxistas e militantes de organizaes armadas.
Nesses dias, tambm desembarcou no Rio um texano magro, com 
prido, de ps enormes. Chamava-se Pat Holt. Trabalhava na 
assessoria tc nica da poderosa Comisso de Relaes 
Exteriores do Senado america no. Vinha investigar a relao 
entre os programas de assistncia de seu governo e a mquina 
repressiva da ditadura. Ficou duas semanas no Bra sil, 
entrevistou-se sigilosamente com mais de vinte pessoas e 
coletou de nncias escritas. Uma delas informava que o 
escritrio do Grupo Tcni co de Comunicaes Navais americano 
funcionava perto de uma das salas de tortura montadas no 
Arsenal de Marinha, no Rio de Janeiro. Funcio nrios da 
misso naval americana ouviram gritos e presenciaram a en 
trada e sada de presos.
Holt verificou tambm que a embaixada americana estava 
dividida em relao ao regime. Com 1400 pessoas na folha de 
pagamento, era uma das maiores representaes do governo dos 
Estados Unidos no mundo. Nominalmente estava sob a direo do 
veterano William M. Rountree, um diplomata to cauteloso que 
antes de se deixar fotografar em seu gabinete, virava de 
costas os papis relevantes que tinha sobre a mesa. De fato 
comandava-a o adido militar, coronel Arthur Moura, um 
extrovertido descendente de aorianos cujas ligaes com o 
Exrcito re montavam a 1944, quando foi anexado  quarta 
turma de oficiais brasi leiros enviada para o curso de 
adestramento de Fort Leavenworth. Her dara as conexes de seu 
amigo Vernon Walters, de quem fora assistente, e era de longe 
o americano melhor informado das tramas do regime. Mou
56 Kenneth P. Serbin, Dilogos na sombra, pp. 330-1.
57 Telegrama da Associated Press, lido por Pat Holt, sem 
mencionar a data, em United States Po licies and Programs in 
Brazil, Hearings before the Subcommittee on Western 
Hemisphere Affairs,
U. 5. Government Printing Office, Washington, 1971, p. 93.
58 Pat Holt, janeiro de 1990. Holt jamais deu detalhes de sua 
misso.
59 United States Policies and Programs in Brazil, Hearings 
before the Subcommittee on Western
Hemisphere Affairs, U. 5. Government Printing Office, 
Washington, 1971, p. 273. Depoimento do
embaixador William M. Rountree. Essa equipe tinha 588 
cidados americanos e 811 brasileiros.
No entram nesse clculo os 325 voluntrios dos Corpos da 
Paz.
60 Para a presena de Moura em Fort Leavenworth, depoimento 
do general Antonio Carlos Mu ricy ao cpnoc, vol. 1, fita 13, 
p. 247.
330        A DITADURA ESCANCARADA
ra tornara-se o verdadeiro orientador poltico da embaixada e 
atuava com tamanha desenvoltura que em algumas ocasies 
praticamente presidiu reunies de trabalho na presena de 
Rountree.
O embaixador e Holt no se entenderam. De volta a Washington, 
o funcionrio do Senado ps em movimento a engrenagem 
burocrtica que obrigaria o Executivo americano a explicar ao 
Senado suas relaes com a ditadura brasileira. Na manh de 4 
de maio de 1971, na sala S-116 do Ca pitlio, o senador 
democrata Frank Church, presidente da Subcomisso de Assuntos 
do Hemisfrio Ocidental, iniciou uma sabatina de trs dias. 
Era um poltico liberal do Idaho, adversrio da Guerra do 
Vietn e das maqui naes internacionais da Central 
Intelligence Agency o povo quem pa ga a conta do que ns 
estamos fazendo no Brasil e ele tem o direito de sa ber tudo 
aquilo que a segurana nacional permita, informou Church.
Vista da Casa Branca, a Amrica Latina ia de mal a pior. 
Noves fora Fidel Castro, o Chile era governado por um 
socialista, o Peru e a Bolvia por generais nacionalistas. No 
Uruguai o terrorismo Tupamaro parecia o preldio de um 
governo de esquerda. No s a ditadura brasileira era 
simptica ao governo do presidente Richard Nixon, mas tambm 
o go verno Nixon mostrava-se simptico s ditaduras em geral. 
O secretrio de Comrcio Maurice Stans acabara de visitar a 
Grcia governada por um grupo de coronis e louvara o 
milagre econmico que produziam. o\ Departamento de Estado 
j informara  subcomisso o interesse do go verno americano: 
O Brasil representa metade da massa territorial e da 
populao da Amrica do Sul. Se a sua postura atual de aliado 
indepen dente do mundo livre vier a se deteriorar, levando-o 
para uma posio hostil, ocorrer uma significativa vitria 
para as foras mundiais que se opem aos Estados Unidos.
61 Stephen Dachi, maro de 1988. Dachi serviu em Braslia, em 
1971, como chefe do servio dos
Corpos da Paz. Mais tarde foi cnsul-geral em So Paulo.
62 United States Policies and Programs in Brazil, Hearings 
before the Subcommittee on Western
Hemisphere Affairs, U. 5. Government Printing Office, 
Washington, 1971, p. 1.
63 C. M. Woodhouse, The rise and fali ofthe Greek coloneis, 
p. 89.
64 Nota do Departamento de Estado  Subcomisso de Assuntos 
do Hemisfrio Ocidental, de ja neiro de 1971. United States 
Policies and Programs in Brazii, Hearings before the 
Subcommittee on
Western Hemisphere Affairs, U. 5. Government Printing Office, 
Washington, 1971, p. 257.
NADA A FAZER 331
Ademais, o Brasil era o 12 comprador de produtos americanos. 
Na sua economia estavam 14% dos investimentos feitos na 
Amrica Latina, e era o nico pas da regio no qual a 
rentabilidade mdia das empresas americanas se mantinha em 
alta.
Essa viso utilitria da relao do governo americano fora 
resumi da pelo general Walters em 1968, depois da edio do 
AI-5. Ele escrevera ao professor Henry Kissinger, o poderoso 
assessor de Nixon: Se o Bra sil se perder, no ser outra 
Cuba, ser outra China
Os senadores comearam os trabalhos ouvindo Theodore D. 
Brown, chefe do programa de assistncia  segurana pblica 
brasileira. Em 1970 ele gastara 727 mil dlares e treinara 98 
policiais civis brasileiros. Seu testemunho teve dois grandes 
momentos.
O primeiro:
HOLT: O que  a Operao Bandeirante?
BROWN: J ouvi falar nisso, mas agora no consigo lembrar o 
que sig nifica.
O segundo:
SENADOR CLAIBORNE PELL: Uma severa condenao [ torturadoresi 
de par te do nosso governo ou da embaixada no produziria 
sobre eles um efei to inibitrio?
65 United States Policies and Programs in Brazil, Hearings 
before the Subcommittee on Western Hemisphere Affairs, U. S. 
Government Printing Office, Washington, 1971, p. 257. Para a 
rentabi lidade das empresas americanas, us companies in 
Latin America invest more but earn less in 1970 Business 
Latin America, 24 de setembro de 1970, citado em James Petras 
e Morris Morley, The Uni ted States and Chile  Imperialism 
and the overthrow of the Allende government, p. 63.
66 Memorando de Vernon Walters a Henry Kissinger, em Folha de 
S.Paulo, 24 de abril de 2001.
67 United States Policies and Programs in Brazil, Hearings 
before the Subcommittee on Western He misphere Affairs, U. S. 
Government Printing Office, Washington, 1971, p. 6. Desde 
1963, quando o programa de segurana pblica comeou a 
funcionar, o governo americano treinara 641 policiais 
brasileiros. Somando-se todas as suas despesas, gastara 10 
milhes de dlares. Idem, pp. 22 e 19.
68 United States Policies and Programs in Brazil, Hearings 
before the Subcommittee on Western Hemisphere Affairs, 1]. S. 
Government Printing Office, Washington, 1971, p. 43.
332 A DITADURA ESCANCARADA
BROWN: Eu no acho, senador, e estou qualificado para dizer 
isso.
(Brown estava realmente qualificado. Visitara inmeras 
centrais de
polcia brasileiras e, em Alagoas, assistira a uma 
demonstrao de controle de tumultos feita pela Polcia 
Militar.)
 tarde chegou o general George Beatty, chefe da delegao 
americana junto  Comisso Militar Mista Brasil-Estados 
Unidos. Em 1970 as foras armadas americanas haviam treinado 
562 militares brasileiros e em 71 j tinham fechado negcio 
para a venda de 20 milhes de dlares em armas. O testemunho 
de Beatty, bem como os documentos que apresentou, ocupa 105 
das 315 pginas da ata da subcomisso, mas pode ser resumido 
em duas linhas:
HOLT: O senhor sabe alguma coisa a respeito do CODI?
BEATTY: Eu leio a respeito dele no O Globo, e isso  tudo.
No dia seguinte foi a vez do diretor da Central Intelligence 
Agency, Ri chard Helms. Sua prioridade latino-americana era o 
Chile, no o Brasil. Acabara de pedir ao FBI que grampeasse o 
prdio da embaixada americana em Santiago. Os senadores 
ouviram-no durante duas horas e vinte minutos. A transcrio 
de seu testemunho somou 2400 linhas datilografadas, e no fim 
da sesso foram destrudos a fita estenogrfica e os 
carbonos. Restou apenas um original, marcado como top 
secret guardado no cofre da subcomisso por dezesseis anos, 
at que em fevereiro de 1987 se liberou uma
69 United States Policies and Programs in Brazil, Hearings 
before the Subcommittee on Western
Hemisphere Affairs, U. S. Government Printing Office, 
Washington, 1971, p. 39.
70 Gazeta de Alagoas de 15 de junho de 1968, citada por Jos 
Alberto Saldanha de Oliveira em A
mitologia estudantil  Uma abordagem sobre o movimento 
estudantil alagoano, p. 73.
71 United States Policies and Programs in Brazil, Hearings 
before the Subcommittee on Western
Hemisphere Affairs, U. S. Government Printing Office, 
Washington, 1971, pp. 85 e 140.
72 Idem, p. 138.
73 The last two years of Salvador Aliende, de Nathaniel 
Davis, p. 94. Helms pediu o grampo no dia
27 de abril, e ele foi instalado na primeira metade de maio.
NADA A FAZER 333
cpia expurgada. A quarta parte do que o diretor da CIA disse 
ainda est protegida pelo sigilo. Helms sabia o que era o 
CODI e acreditava que o ter rorismo entrara em declnio. Em 
pelo menos duas ocasies referiu-se  falta de coordenao do 
aparelho repressivo e numa delas classificou-o de bagunaY 
H em seu testemunho ecos da tese segundo a qual em mui tos 
casos a violncia escapava ao controle de Medici. Demorou-se 
expli cando aos senadores que havia no Brasil uma ditadura 
consentida: A economia brasileira melhorou, e o povo est 
vivendo melhor. Como os se nhores bem sabem, quando o povo 
vive melhor, h menos desencanto com os governantes. O 
ministro da Fazenda fez um servio que parece muito 
competente. [ Conseguiu um crescimento de 9% nos ltimos dois 
anos, o que  indiscutivelmente um bom resultado. [ O clima 
dos negcios para as companhias americanas  muito bomY
Uma semana depois testemunhou o embaixador Rountree: Em 1969 
o [ investimento direto lquido no Brasil foi de 64 milhes 
de dlares, e as remessas de lucros [ empresas americanas no 
Brasil] so maram 66 mi1hes
Quanto  tortura:
SENADOR PELL: O senhor acha que hoje as condies esto 
melhores ou
piores do que h trs anos?
74 Devo  gentileza do jornalista Getulio Bittencourt o 
acesso  cpia desse documento.
75 Depoimento do diretor da CIA, Richard Helms,  Subcomisso 
de Assuntos Hemisfricos da
Comisso de Relaes Exteriores do Senado, 5 de maio de 1971, 
cpia da transcrio liberada em
1987, p. 14 para o CODI e 22 para o declnio do terrorismo.
76 Na pgina 67 do seu testemunho, Helms diz que j falou da 
falta de coordenao em outro pon to do depoimento. A palavra 
usada foi mishmash.
77 Depoimento do diretor da CIA, Richard Helms,  Subcomisso 
de Assuntos Hemisfricos da
Comisso de Relaes Exteriores do Senado, 5 de maio de 1971, 
cpia da transcrio liberada em
1987, p. 28.
78 Idem. A expresso ditadura consentida foi trazida pelo 
senador liberal Jacob Javits e endos sada por Helms. Depois, 
por conta de uma interveno do senador William Fulbright, 
dominou
boa parte do debate; pp. 62-3 para Javits e Helms, e 72 para 
Fulbright.
79 Idem, pp. 53-4.
80 United States Policies and Programs in Brazil, Hearings 
before the Subcommittee on Western
Hemisphere Affairs, U. S. Government Printing Office, 
Washington, 1971, p. 285.
334 A DITADURA ESCANCARADA
ROUNTREE: Ouve-se consideravelmente menos a respeito dela 
hoje do que h um ano.
(Desde o dia 1 de janeiro de 1971 haviam sido assassinadas 
dezes seis pessoas, uma das maiores marcas j ocorridas. Dois 
dias depois do testemunho de Rountree fora assassinado na 
base area do Galeo o mi litante do MR-8 Stuart Edgar Angel 
Jones, sobrinho-neto do presidente do Tribunal de Justia de 
Nova York.)
Nada a fazer. A comunidade de negcios americana via na econo 
mia brasileira um festivo milagre, e a Casa Branca via no 
governo do general Medici um rochedo de paz, prosperidade e 
vigor anticomunis ta. Em outubro o chanceler Mano Gibson 
Barboza desembarcou em Nova York para receber nos sales do 
hotel Plaza o ttulo de Homem do Ano da Cmara de Comrcio 
Brasil-Estados Unidos. Pelo lado americano o prmio foi para 
Nelson Rockefeller. Dois meses depois, Medici desem barcava 
na base area de Andrews. Vinha com uma comitiva de 55 pes 
soas, doze das quais guarda-costas. Era o primeiro general 
latino- americano a visitar Nixon. O The New York Times 
informou que ele. condenava a violncia poltica, tendo 
instrudo seus colaboradores a tentar elimin-la
No era bem assim. Em julho o Brazilian Information Bulietin 
lista ra 31 artigos sobre a represso poltica do governo 
Medici publicados na imprensa americana. Poucos meses antes 
d. Paulo Evaristo Arns fora ao Planalto pretextando entregar 
ao presidente uma cpia das reflexes do papa Paulo vi sobre 
o octogsimo aniversrio da encclica Rerum no varum. Quando 
lhe estendeu o bonito volume, o presidente afastou-o. A 
conversa ia seca, at que o cardeal falou de pessoas mortas, 
torturadas e desaparecidas O general segurava as bordas da 
mesa, suas mos tre
81 Idem, p. 294.
82 Cinco folhas enviadas pelo coronel Piero Ludovico Gobbato 
ao general Danilo Venturini, de
5 de fevereiro de 1982, com a relao numrica e nominal das 
pessoas que viajaram para os EUA
em dezembro de 1971 APGCS/HF.
83 Brazilian leader to talk to Nixon, The New York Times, 7 
de dezembro de 1971.
84 Brazilian Information Bulietn, n 4, julho de 1971, p. 15. 
AA.
NADA A FAZER        335
miam, e os objetos balanavam: Os senhores pedem demncia 
para os bandidos, enquanto eles assaltam, roubam e 
seqestram. Ameaam de morte at meus ministros. Medici 
disse-lhe que seu lugar  na sacris tia chamou-o de 
despreparado, lembrou que tivera boas relaes com seu 
antecessor e, de p, anunciou-lhe que podia se retirar. O 
cardeal re sumiu o encontro para a imprensa informando que 
nossas posies continuam as mesmas.
Nixon recebeu Medici nos jardins da Casa Branca e, numa sauda 
o de improviso, informou: Ns sabemos que para onde o 
Brasil for, para l ir o resto do continente latino-
americano No poderia ser mais franco, at mesmo proftico. 
Os dois presidentes conversaram por 55 minutos, e quando os 
jornalistas perguntaram ao porta-voz do governo americano se 
o tema da restaurao democrtica havia sido levantado, ele 
respondeu: Eu acho que esse assunto no apareceu Apareceu 
em outros lugares, mas pouca ateno mereceu. Na vspera da 
chegada do general o jornalista Dan Griffin, do The 
Washington Post, publicou um artigo indagando: Quando e como 
o presidente Medici pretende restau rar a democracia no 
Brasil?.
85 Notas do encontro, tomadas por d. Paulo, em Jornal do 
Brasil, 7 de outubro de 1995.
86 Entrevista de d. Paulo Evaristo Arns a Jos Casado, 2 de 
novembro de 1994. D. Paulo narrou
novamente esse episdio  revista Imprensa de outubro de 
1996.
87 D. Paulo descreveu esse episdio, com graus variveis de 
detalhes, em pelo menos cinco oca sies. Ele est em suas 
memrias, Da esperana  utopia, p. 352. Para o pedido para 
que o cardeal
se retirasse, notas do encontro, tomadas por d. Paulo, em 
Jornal do Brasil, 7 de outubro de 1995.
Para despreparado, entrevista de Arns a Jos Casado, 2 de 
novembro de 1994, e, para o comen trio do cardeal sobre o 
encontro, O Estado de S. Paulo, 6 de maio de 1971. D. Paulo 
tratou do as sunto tambm em duas diferentes entrevistas que 
concedeu a Roldo Arruda e a Jos Maria May rink, publicadas 
em O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasilde 8 de setembro de 
1996. H uma outra
verso desse encontro em Roberto Nogueira Medici, Medici  O 
depoimento, p. 84.
88 The New York Times, 31 de dezembro de 1971. A frase, em 
ingls: We know that as Brazil goes
50 wll go the rest of the Latin-American continent
89 Cinco anos depois dessa declarao havia ditaduras 
militares em sete dos dez pases sul-ame ricanos: Brasil, 
Argentina, Uruguai, Chile, Bolvia e Equador. No Peru 
sobrevivia a ditadura do
general Velasco Alvarado, sem que se possa enquadr-la na 
tipologia antevista por Nixon. A elas
se somava a veterana ditadura paraguaia, estabelecida em 
1954.
90 The New York Times, 8 de dezembro de 1971.
91 The Washington Post, 7 de dezembro de 1971.
336        A DITADURA ESCANCARADA        1
Em sua coluna dO Globo, Nelson Rodrigues vangloriava-se: A 
es t por que emudeceram todas as piadas, porque o prprio 
Brasil deixa de ser uma piada. Quando reconhece o Milagre 
Brasileiro, Richard Ni xon ensina o Brasil a ver Emilio 
Garrastaz Medici como o nosso maior presidente
92 O Globo, 13 de dezembro de 1971.
A marcha de Cirilo
Nos ltimos meses de 1970, um ano depois da morte de 
Marighella, a es querda armada, que Luiz Carlos Prestes 
chamara de sarna do revolu cionarismo pequeno-burgus 
estava dividida em trs populaes. Na maior delas achavam-
se os presos. Eram cerca de quinhentos: alguns, con denados a 
penas curtas, podiam sonhar com a hora da libertao; outros, 
com sentenas do tamanho de suas vidas, torciam por novos 
seqestros. A segunda populao, em torno de duzentas 
pessoas, era a dos exilados que continuavam militando 
ativamente nas organizaes armadas. Nela estava boa parte 
dos veteranos de aes terroristas, os principais comba 
tentes e quadros tericos, quase todos trocados nos 
seqestros. Forma vam uma tropa imaginria que desembarcaria 
no Brasil com experincia, treinamento e recursos suficientes 
para retomar a ofensiva. Espalhavam- se pelo Chile, Cuba, 
Arglia e Frana. O terceiro grupo era o dos comba tentes que 
viviam clandestinamente no Brasil. Nas cidades, mal passavam 
de cem. Viviam espremidos entre a idia do exlio e a do 
desbunde Esse termo, que designara a passagem da militncia 
esquerdista para o mun do de sonhos da marginlia cultural, 
confundia-se com um salto em di reo a uma condenada opo 
pela individualidade.
1 Dnis de Moraes (org.), Prestes com a palavra, p. 200, com 
um texto do Estado de S. Paulo de
29 de dezembro de 1970, citando um artigo de Prestes na Nova 
Revista Internacional.
2 Uma reportagem do Jornal do Brasil estima em quatrocentos 
os presos em julho de 1970. Jor nal do Brasil, 3 de julho de 
1970, p. 4.
338 A DITADURA ESCANCARADA
Amarrando-os s armas, havia a perseguio, a lembrana dos 
so frimentos dos presos e o compromisso com os mortos No 
comoven te depoimento de Vera Slvia Magalhes: Eram meus 
amigos, era minha vida  e minha morte. Essa contradio eu 
tinha de viver. Fora dali eu era o qu? No tinha identidade 
Procurava-se resgatar uma dvida com os vivos, a libertao 
dos prisioneiros. A gente ficava mais pelo aspecto tico, 
moral... que outros companheiros j morreram... aquele 
negcio todo, reconheceria Alex Polari, da VPR.
Circulava um duplo sentimento de culpa, pois a desero 
significa ria o abandono no s do amigo morto (quase sempre 
um jovem colega de bar ou de escola, freqentemente um amor 
juvenil) mas tambm dos amigos vivos, a cujos momentos de 
doloroso silncio muitos deviam a li berdade. Ficar parecia 
uma opo pela morte e pela tortura
Desarticulada, a VPR no chegava a somar cinqenta quadros. 
Car los Lamarca, trancado num aparelho, refletia: Estamos 
nos esvaziando, no conseguimos recuperar o terreno perdido [ 
aprofundamos o nos so isolamento poltico, afundando cada vez 
mais na marginalidade Outra militante, num documento aos 
demais quadros da organizao, advertia: Se no tivermos a 
combatividade necessria para fazermos uma profunda 
autocrtica e revoluo interna no passaremos do que so mos 
hoje: um tumor dentro da realidade poltica brasileira
Felipe, um veterano da VPR, contara ao seu psicanalista o 
suicdio do socilogo Juarez Guimares de Brito, legendrio 
fundador da organiza o. Era o Juvenal do assalto ao cofre 
de Adhemar de Barros e tentara res gatar um companheiro que a 
polcia levara at um ponto A manobra
3 Francisco Carlos de Andrade, agosto de 1988.
4 Marcelo Ridenti, O fantasma da revoluo brasileira, p. 
272.
5 Luzimar Nogueira Dias (seleo), Esquerda armada  
Testemunho dos presas polticos do pre sdio Milton Dias 
Moreira, no Rio de Janeiro, p. 11.
6 Herbert Daniel, Passagem para o prximo sonho, p. 59.
7 Carlos Lamarca, em Os Mesmos Problemas da Propaganda 
Armada, documento apreendido, ci tado em A trajetria de um 
desertor, na internet: 
<http://www.ternuma.com.br/lamarca.htm>.
8 Zenaide Machado, Carta Aberta a Toda a ORG, citado em A 
trajetria de um desertor na in ternet: 
<http://www.ternuma.com.br/lamarca.htm>.
A MARCHA DE CIRILO 339
falhara, e uma patrulha do GTE ia captur-lo. Deu um tiro na 
cabea. Felipe
dissera ao terapeuta:
 Fim de linha, doutor. Perdemos a guerra...
 Olha, pra mim voc no tem mania de perseguio, no. Voc 
es t sendo perseguido.  a realidade. A opo de ir para o 
exterior  uma
reao de vida, no h por que se culpabiizar  respondeu o 
analista.
Felipe era uma espcie de intrprete oficial da VPR. Estivera 
no se qestro de Von Hoileben, pensara em saltar, mas ia 
ficando. Viera da in cubadeira do movimento secundarista da 
classe mdia alta do Rio de Ja neiro. Havia dois anos 
carregava um trabuco na cintura.
O embaixador suo Giovanni Enrico Bucher, um solteiro de 57 
anos, tornara-se conhecido nos sales do Rio pelo bom humor e 
pela latinha que empunhava como se fosse um talism. Eram 
cigarros ingleses feitos com uma mistura de fumos dosada ao 
seu gosto. Seu Buick azul foi intercepta do no Flamengo na 
manh de 7 de dezembro de 1970. Os terroristas deram dois 
tiros. Um deles feriu mortalmente o agente federal que 
escoltava o di plomata. Paulista e Daniel mandaram que sasse 
do carro. Bucher voltou- se bruscamente. Parecia procurar uma 
arma, mas catava a latinha de ci garros. Disfararam-no de 
pintor, com guarda-p e bon, e desovaram-no numa casinha de 
subrbio na ladeira Tacaratu, em Rocha Miranda.
 O senhor ser bem tratado  tranqilizou-o, em ingls, 
Felipe.
 Porra, eu no sou americano, sou suo! No tenho nada com 
isso  respondeu Bucher em portugus quase impecvel.
9 Alfredo Sirkis, Os carbonrios, p. 199.
10 Herbert Daniel, Passagem para o prximo sonho, p. T 15, e 
Alfredo Sirkis, Os carbonrios, pp.
289 e 297.
11 Alfredo Sirkis, Os carbonrios, p. 288.
340 A DITADURA ESCANCARADA
Helga, que recebera Holieben com Valium 5, preparou-lhe um 
suco de maracuj. Desde o primeiro momento estabeleceu-se uma 
relao amigvel entre o embaixador e seus carcereiros. 
Demoraria pouco para que formasse com o barbudo Paulista uma 
dupla temvel no biriba. Ao contrrio do que sucedera nos 
seqestros anteriores, dessa vez a VPR dis punha de razovel 
infra-estrutura. A casa fora alugada seis meses antes, e dois 
dos seqestradores haviam-se familiarizado com a vizinhana. 
Tinha- se at um refgio alternativo. Cinco manifestos 
espalhados pela cidade in formavam que o resgate de Bucher 
fora fixado em setenta presos, com trs outras exigncias: a 
divulgao de uma catilinria, o congelamento geral de preos 
por noventa dias e roletas livres nas estaes de trem do Rio 
de Janeiro. Era o mais alto preo pedido por um diplomata.
Durante os catorze meses que separaram o seqestro de Elbrick 
do de Bucher desenvolvera-se internacionalmente uma cultura 
policial re lacionada com a segurana dos diplomatas, a 
negociao de resgates e a invaso de aparelhos. Os servios 
de segurana brasileiros perceberam a precariedade das aes 
anteriores. Os interrogatrios dos seqestrado res capturados 
permitiram uma melhor compreenso das tenses supor tadas 
pelos terroristas durante o dificil perodo das negociaes. 
O pre sidente Medici perdera o sono nos seqestros 
anteriores, mas quando lhe contaram que mais um embaixador 
havia sido capturado, avisara que no queria mais ser 
aborrecido com o assunto.
Os jornais do dia seguinte trouxeram duas ms notcias para 
os se qestradores. Bacuri, cujo nome encabeava a lista de 
presos que seria apresentada ao governo, fora assassinado. 
Alm disso, o governo dizia que ainda no recebera mensagem 
alguma, mentira indicativa de que no ti nha pressa. O 
silncio s foi rompido um dia depois, quando a VPR j fi 
zera outro comunicado e o embaixador escrevera duas cartas, 
uma das quais ao chanceler suo. O Planalto concordava em 
discutir a libertao dos presos, mas recusava-se a cumprir 
as trs exigncias adicionais, das
12 Alfredo Sirkis, Os carbonrios, p. 302.
13 Telegrama da embaixada americana ao Departamento de 
Estado, de 7 de dezembro de 1970.
DEEUA.
14 Informao dada por Medici a Ernesto Geisel, janeiro de 
1974.
A MARCHA DE CIRILO        341
sificando-as de extravagantes e humilhantes Parecia um 
detalhe banal, relacionado com o carter pitoresco da anistia 
ferroviria e do congela mento de preos, mas na realidade 
estava em jogo uma etapa decisiva nos estratagemas dos 
seqestros. Ao aceitar a recusa, sobretudo a censura do 
manifesto, os seqestradores permitiram que o adversrio lhes 
contes tasse a iniciativa. Nos casos anteriores o governo 
sempre consentira na divulgao das proclamaes 
esquerdistas. Braslia fingia no ouvir a VPR, mas mesmo 
assim os terroristas refugaram um confronto em torno dos 
acessrios do resgate. Remeteram o essencial, a lista com os 
nomes dos setenta presos que pretendiam libertar. Paulista, o 
mais experimen tado da equipe, farejava desgraas: J 
perdemos muito terreno com a no- aceitao das condies 
polticas. No sei no. Pode dar merda
Deu. Somando determinao a astcia, o governo tornava-se se 
nhor do ritmo e da qualidade da negociao. Anunciou que a 
lista era falsa, exigiu uma nova cpia rubricada pelo 
embaixador e remetida ao Ministrio da Justia. No dia 12, 
quando o seqestro de Bucher estava no quinto dia, 
transformando-se no mais longo da srie brasileira, o Planal 
to recusou-se a soltar treze dos setenta presos. Enunciava um 
critrio pe lo qual no negociaria a liberdade de 
seqestradores e autores de crimes de sangue. Indita e 
audaciosa, a cartada deixara  VPR uma escolha amar ga. Cedia 
e libertava 57 prisioneiros, ou rompia as negociaes, matava 
Bucher e mantinha na cadeia todos os setenta.
O dilema era cruel para os treze rejeitados, precisamente 
aqueles que mais se desejava libertar. Aceita a negociao, a 
VPR estaria indicando que admitia deix-los no crcere por 
boa parte de suas vidas. Entre os rejeita dos estavam trs 
veteranos do seqestro de Elbrick. A esse lance de intran 
signcia acrescentaram-se uma surpresa e uma aparente 
concesso. Dezoi to presos recusavam-se a sair do pas. 
Somados aos treze vetados, deixavam 31 lugares abertos na 
lista, O governo informou que concordava em nego ciar outros 
nomes de forma a cumprir a exigncia das setenta libertaes.
Havia cinco terroristas na casa da rua Tacaratu. Semanas de 
claus tro aumentaram a tenso, e j se brigara at mesmo 
porque um dos in 15 Alfredo Sirkis, Os carbonrios, pp. 304 e 
310.
342        A DITADURA ESCANCARADA
quilinos fritara ovos na manteiga, coisa de pequeno-
burgus. Formou- se instantaneamente uma maioria pela 
execuo de Bucher. Cedemos demais. Cedermos de novo  
desmoralizao demais da conta. No d, dizia Daniel. Pela 
concesso, s Felipe, que acabara de completar vinte anos. 
Paulista pareceu simpatizar com a execuo, mas trancou-se no 
quarto. Bucher perguntou: O que vo fazer comigo? Disseram-
lhe que seria trans ferido para outro aparelho, mas era 
mentira. O aparelho alternativo fo ra capturado pela polcia, 
e naquela pequena casa de subrbio o prprio verbo transferir 
tinha significado diverso. Pensava-se, de fato, em trans 
ferir o embaixador deste mundo para outro. Paulista redigiu 
um ulti mato: Executaremos Bucher se as negociaes forem 
interrompidas
As bases da VPR queriam ver sangue. Por quinze votos contra 
trs, Bucher deveria ser transferido Uma delas propunha que 
a ditadura le vasse o cadver do embaixador atravessado na 
garganta Paulista refie tira muito. Decidiu-se pela vida do 
diplomata e julgou necessrio valer- se de um dispositivo 
estatutrio da organizao ao qual jamais dera importncia. 
Ele atribua ao comandante-em-chefe o direito de veto so bre 
decises coletivas. A VPR capitulava. Houve militante que, ao 
receber a notcia, puxou os cabelos em plena rua.
Os 31 nomes foram substitudos numa demorada negociao du 
rante a qual quatro outros foram rejeitados. Um ms depois da 
captura de Bucher, conseguiu-se finalmente fechar uma lista 
com setenta nomes, e no dia 13 de janeiro de 1971 os presos 
foram embarcados com destino ao Chile. Terminara o ciclo dos 
seqestros.
Paulista era Carlos Lamarca. Fazia dois anos que fugira do 
quartel de Quitana para comandar focos guerrilheiros, 
bombardear So Paulo e participar da vanguarda revolucionria 
que derrubaria a ditadura. Os focos no existiam, o 
bombardeio no acontecera, e a ditadura abatera as 
organizaes revolucionrias. Lamarca vivera a maior parte do 
seu tem po trancado em aparelhos. Em dois anos estivera em 
mais de vinte, qua se sempre sem poder chegar  janela, 
fechado Estudava, tomava litros de caf, fumava cinco maos 
de cigarros por dia e matava o tempo cor-
16 Alfredo Sirkis, Os carbonrios, pp. 307 e 315.
A MARCHA DE CIRILO        343
tando bolinhas de cortia ou descascando feijo. Produziu 
uma litera tura megalmana e deixou uma crnica de humildade 
pelos tugrios por onde passou. Escrevendo  mulher pouco 
depois de limpar o cofre de Adhemar de Barros, informava: 
Falam no meu nome com uma extraor dinria esperana. O nosso 
povo j foi trado por seus falsos lderes e, em bora eu no 
tenha esta pretenso, sou uma esperana para o povo So nhava 
com uma guerra durante a qual viveria numa tenda verde, de 
onde sairia para pisar tapetes vermelhos. Montado numa viso 
idlica da es querda e da revoluo, recomendava aos filhos: 
Estudem a vida de Marx Lenin-Engels-Trotsky-Mao-Fidel-Ho Chi 
Minh-Giap-Boumediene e que sejam criados no esprito do Che 
A Central Intelligence Agency tra ara-lhe o perfil: 
Compensou com entusiasmo, estmina, determinao e coragem o 
que lhe faltou em sofisticao intelectual Era o homem mais 
procurado do Brasil. Se tivesse desertado da PM, talvez no 
mobili zasse tanto prestgio  esquerda nem dio  direita.
Poucos meses depois da fuga de Quitana o capito se 
apaixonara pela musa da VPR, a Clara, uma mulher bonita, com 
enormes olhos cla ros. Vaidosa, era capaz de sair de um 
aparelho para cortar o cabelo e to mar champanhe no Jambert 
de Jpanema, o melhor e mais caro salo do pas. Era a 
psicloga Tara Iavelberg, tinha 25 anos, chegara  luta arma 
da pelo movimento estudantil e lecionara marxismo no campo de 
trei namento do vale do Ribeira. Paulista saiu do aparelho de 
Cascadura dias antes da libertao do embaixador e foi se 
encontrar com Tara numa casa de Brs de Pina. Nas semanas 
seguintes discutiu-se a fuga do casal para o Chile, e chegou-
se a mobilizar um esquema para que obtivessem pas 17 Judith 
Lieblich Patarra, lara, pp. 293 e 440.
18 Carta de Carlos Lamarca a Tara Iavelberg, de 3 de julho de 
1971, em Folhetim da Folha de S.Paulo,
10 de julhode 1987.
19 Emiliano Jos e Oldack Miranda, Lamarca, p. 48. Ho Chi 
Minh, um velhinho mido de bar bicha branca, era o presidente 
do Vietn do Norte, O marechal Nguyn Giap era seu ministro 
da
Defesa. Houari Boumediene era o presidente da Arglia. A 
caracterizao da viso idlica  de
Alfredo Sirkis, em Os carbonrios, p. 313.
20 Depoimento de Richard Helms, diretor da CIA,  Subcomisso 
de Assuntos do Hemisfrio Oci dental do Senado, 5 de maio de 
1971. Transcrio liberada em 1987, National Archives, p. 16.
21 Judith Lieblich Patarra, lora, p. 298.
344 A DITADURA ESCANCARADA
saportes. Ele a recusou: O retorno  problemtico e abomino 
depender dos outros. Seria capaz de voltar s. Cara, coragem 
e meu 38. Nosso pa pel  criar condies para a guerrilha 
Acabou metido numa casa onde estavam abrigados tantos 
ressentimentos e intransigncias ideolgicas que os hspedes 
de um quarto no dirigiam a palavra aos do outro. Lamar ca 
dormia duas horas por noite. Eu tambm fico informou Tara.
Durante o cativeiro de Bucher a principal baixa da VPR fora 
Yoshi tane Fujimori, o bel da direo regional em So Paulo, 
veterano dos pri meiros assaltos de 1968, do vale do Ribeira, 
com duas mortes nas costas e perto de uma dezena de aes 
armadas. Levara cinco tiros na cabea. Para o seu lugar 
ascendeu Jadiel, 29 anos, recm-chegado de Cuba, onde vivera 
desde 1967. Alm do capito Carlos Lamarca, a quem trouxera 
re cados de Havana, poucos sabiam que Jadiel era Jos Anselmo 
dos San tos, lder da rebelio dos marinheiros de 1964. 
Quando chegou, esse era seu nico segredo.
Logo aps a deposio de Goulart, o Cabo Anselmo fora uma das 
pes soas mais procuradas do pas. Safara-se asilando-se na 
embaixada do M xico. Surpreendentemente, desistira do asilo 
e se transferira para a rede clandestina da AP. Capturado em 
menos de 24 horas, tornara-se trofu da onipotncia da nova 
ordem. Depois de passar pelo DOPS, foi manda do para a 
delegacia no Alto da Boa Vista. L vigoravam os costumes t 
picos das carceragens de bairro, com presos circulando pelo 
prdio, che gando at mesmo a substituir os policiais em 
tarefas burocrticas. Anselmo fazia servios de telefonista, 
escrivo e assistente do nico detetive do lu gar em suas 
rondas de cobrana de propina em pontos de bicho e bocas- de-
fumo.
22 Judith Lieblich Patarra, lara, pp. 437 e 449.
23 Emiliano Jos e Oldack Miranda, Lamarca, pp. 106-7.
24 Para os cinco tiros, Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, 
vol. 4: Os mortos, p. 362.
25 Depoimento de Cosme Alves Neto, em Marco Aurlio Borba, 
Cabo Anselmo, p. 25. Para as pro pinas, Avelino Bioen 
Capitani, A rebelio dos marinheiros, p. 179.
A MARCHA DE CIRILO        345
Um ano depois, tornou-se o nico preso da delegacia. Com as 
rega lias ampliadas, era-lhe permitido ir  cidade. Numa 
ocasio surpreen deu o ministro-conselheiro da embaixada do 
Chile, visitando-o no es critrio e pedindo-lhe asilo. Quando 
o diplomata lhe perguntou o que fazia em liberdade, respondeu 
que tinha licena dos carcereiros. O chi leno, estupefato, 
recusou-lhe o pedido. Em abril de 1966, com a ajuda da AP, 
Anselmo deixou a cadeia. Pouco depois chegava a Montevidu, 
de onde a conexo brizolista haveria de catapult-lo a Havana 
e ao seu curso de luta armada. Anselmo estava num exerccio 
de treinamento no alto da serra cubana em outubro de 1967, 
quando os guerrilheiros cho raram a morte do Che Guevara. Em 
setembro de 1970, como Jadiel, re tornou ao BrasiL
Em So Paulo, tornou-se Jnatas. Encontrou uma guerrilha 
agoni zante. Esteve com Lamarca num barraco no interior do 
Rio de Janeiro, sem contatos, sem carro e sem projetos. No 
cio da periculosidade, An selmo viveu em funo dos pontos 
com outros militantes. No partici pou de nenhum tipo de 
operao. Apenas esperava. Sua principal tarefa foi coordenar 
a construo de uma casa que deveria servir de aparelho para 
a VPR. Quando o dinheiro lhe faltou, buscou ajuda e contatos 
na velha rede de simpatizantes. Bateu em oito portas. Cinco 
fecharam-se. A da irm abriu- se a contragosto, mesmo 
tratando-se apenas de guardar uma maleta.
Anselmo foi preso por acaso, no dia 30 de maio de 197 1.32 H 
duas
verses para esse episdio. A primeira  do delegado Edsel 
Magnotti, do
26 Para as sadas da delegacia, Jornal do Brasil, 28 de abril 
de 1966. Para uma narrativa de Ansel mo sobre as condies 
carcerrias, Jos Anselmo dos Santos  Declaraes Prestadas 
nesta Especia lizada de Ordem Social, fi. 4.
27 Percival de Souza, Eu, Cabo Anselmo, p. 97.
28 Na narrativa de sua fuga (Octvio Ribeiro, Por que eu tra4 
p. 36), Anselmo informa que, em tro ca de uma propina, o 
guarda de planto deixou-o sair para o que dizia ser um 
encontro amoroso. 29 Octvio Ribeiro, Por que eu tra, p. 45.
30 Para a data da chegada de Anselmo, 15 de setembro, 
declaraes de Jos Anselmo dos Santos ao DOPS-SP, em 
Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio, Dos filhos deste solo, p. 
259.
31 Jos Anselmo dos Santos  Declaraes Prestadas nesta 
Especializada de Ordem Social, fis. 13-7.
32 Entrevista do delegado Carlos Alberto Augusto, O Globo, 18 
de junho de 2000. No dia 4 de ju nho Anselmo prestou um 
depoimento ao Dops, revelando seus contatos no Brasil. Ver 
Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio, Dos filhos deste solo, p. 
259.
346        A DITADURA ESCANCARADA
DOPS paulista: Anselmo fora visto (sem ser reconhecido) no 
saguo do hotel San Raphael, onde estava hospedada a seleo 
cubana de basquete que jogava em So Paulo o vi Campeonato 
Mundial. Entregara  capit Margarita um pequeno embrulho, 
pedindo-lhe que o passasse ao com panheiro Fidel A partir 
da teria sido seguido e capturado na casa de um amigo, o ex-
fuzileiro naval Edgard Aquino Duarte, um veterano da rebelio 
de 1964 que vivia em So Paulo como operador na bolsa de va 
lores. A segunda verso, de Anselmo, no difere basicamente 
do que dis se o delegado. O cabo contou (em 1999) que a 
polcia chegou ao apar tamento onde estava, depois de 
rastrear um cheque de Edgar, dado ao empreiteiro da casa da 
VPR. As duas verses coincidem no essencial. Os policiais que 
prenderam Anselmo no sabiam quem ele era. Entregue ao 
delegado Fleury, o cabo trocou a VPR pelo DOPS, tornando-se 
um poli cial. Edgar, a nica pessoa que soubera da sua 
captura, vagou de priso em priso e foi visto pela ltima 
vez no DOPS de So Paulo em junho de 1973, tornando-se um 
desaparecido.
Nos dois depoimentos em que narrou seu pulo, Anselmo insistiu 
na sinceridade e na convico de sua escolha.  certo que 
adquiriu essa con vico depois de pelo menos uma sesso de 
tortura. Como ele mesmo es clareceria: Concederam-me a 
oportunidade de sobreviver Sobreviveu simulando-se livre, 
restabelecendo contatos, cobrindo pontos e levan do aquilo 
que se poderia chamar de a vida normal de um clandestino.
Depois de interrogatrios feitos em condomnio com o Cenimar 
e o GTE, Anselmo foi transferido para um apartamento. L, 
tornou-se isca para atrair os contatos da VPR e da ALN. As 
cortinas de sua sala tinham microfones embutidos. Tornou-se 
tambm um analista, estudando do cumentos e confisses: Lia 
os depoimentos e via em que pontos ele po 33 Marco Aurlio 
Borba, Cabo Anselmo, p. 45. Anselmo confirmou que esteve no 
hotel e que en tregou o pacote a Margarita, mas negou que 
essa tenha sido a causa de sua priso. Octvio Ribei ro, Por 
que eu tra, p. 64. A final do campeonato de basquete deu-se 
no dia 29 de maio.
34 Marco Aurlio Borba, Cabo Anselmo, p. 45.
35 Depoimento de Jos Anselmo dos Santos a Percival de Souza, 
Eu, Cabo Anselmo, p. 162.
36 Idem, pp. 52-3 e 181.
37 Percival de Souza, Eu, Cabo Anselmo, p. 29.
A MARCHA DE CIRILO 347
deria estar sendo pouco verdadeiro ou escondendo, sonegando 
alguma coisa e traduzia algumas das questes mais tcnicas, 
dando as linhas que iriam servir para um novo 
interrogatrio. Ganhava a comida e uns tro cados. O Jnatas 
da VPR foi rebatizado pelo DOPS e virou Kimble.
H indicaes de que tentou enganar a polcia. Perdeu a 
parada. Num ponto, Anselmo contou ao ex-sargento Jos 
Raimundo da Costa, o Moiss da VPR, que tinha sido preso e 
fingia colaborar com a polcia. An tes de ser assassinado, em 
agosto, Moiss revelou a outros militantes da organizao o 
segredo da transmutao do cabo Alguma coisa deu errado, 
pois no dia 26 de junho algum postou no correio um envelope 
com uma folha de papel de seda endereado  Editora Abril. 
Era um co municado do Centro Brasileiro de Informaes 
avisando que o Cabo An selmo fora assassinado no DOPS de So 
Paulo aps intensa sesso de tor turas. Pouco depois a 
notcia estava no jornal da ALN, nos despachos da agncia 
cubana Prensa Latina e no boletim romano da Frente Brasi 
leira de Informaes.
A transmigrao de Anselmo foi um fato traumtico e custoso 
para
a esquerda armada, mas isso se deveu mais  inpcia dos seus 
aliados do
que  competncia dos novos patres. Edgard Aquino Duarte 
contara a
um colega de cela que Anselmo fora capturado. Dois presos o 
viram na
carceragem do DOPS. Em julho, a ALN comprovara que seus 
pontos com
o cabo estavam vigiados. Dois militantes da VPR 
desapareceram de-
38 Octvio Ribeiro, Por que eu tra, p. 103.
39 Veja, 20 de maio de 1992, A anatomia da sombra, de 
Expedito Filho. Para o apelido, Percival
de Souza, Eu, Cabo Anselmo, p. 12.
40 Cabo Anselmo, um agente secreto, reportagem de Henrique 
Lago em Folha de S.Paulo de 14
de outubro de 1979, 1 caderno, p. 8.
41 Original e envelope consultados em 1987 na pasta Torturas, 
no Departamento de Documen tao da Editora Abril.
42 Venceremos, julho de 1971, e telegrama da agncia Prensa 
Latina, de 16 de julho de 1971. Fronte
Brasiliano dInformazioni, agosto-setembro de 1971.
43 Henrique Lago, em Cabo Anselmo, um agente secreto, Folha 
de S.Paulo de 14 de outubro de
1979, 1 caderno, p. 8. A confidncia foi feita a Altino 
Dantas Jr.
44 leda Seixas, entrevista a O Globo de 18 de junho de 2000. 
Anselmo tambm foi visto por Car los Franklin Paixo de 
Arajo. Ver Marco Aurlio Borba, Cabo Anselmo, p. 40.
45 Marco Aurlio Borba, Cabo Anselmo, pp. 48 e 55.
348 A DITADURA ESCANCARADA
pois de encontr-lo. Um psiquiatra que militava na 
organizao sur preendera-se ao ver que a polcia lhe 
perguntava segredos que compar tilhara com Anselmo. Os 
torturadores de uma dirigente da VPR conta ram-lhe que 
Anselmo estava preso, trabalhando para ns. Em agosto, 
internada num hospital de Belo Horizonte, ela conseguira 
comunicar a amigos que Jnatas era policial. Em setembro a 
informao chegou ao Chile, mas a denunciante foi dada por 
doida. A essa altura, Kimblej se tornara um policial 
convicto e audacioso. Desembarcou em Santiago, para 
reencontrar seu amigo Onofre Pinto. O fundador da VPR lhe 
mostrou um informe vindo do Brasil em que se assegurava: O 
Cabo Anselmo se en tregou  represso Prevaleceu a amizade. 
Anselmo retornou ao Brasil com algum dinheiro e a tarefa de 
montar uma rede da VPR no Recife. L, teria trs vidas. Numa 
era o marido da dona da butique Mafalda, onde se vendiam boas 
rendas. Noutra era Kimble, do DOPS. Na terceira, Daniel, 
chefe do ncleo da VPR no Nordeste, no qual infiltrara Csar, 
um inves tigador da equipe de Fleury.
A ltima operao de Anselmo, na primeira semana de janeiro 
de 1973 (dezenove meses depois da primeira denncia), 
resultou numa das maiores e mais cruis chacinas da ditadura. 
Um combinado de oficiais do GTE e do DOPS paulista matou, no 
Recife, seis quadros da VPR. Captu rados em pelo menos quatro 
lugares diferentes, apareceram numa pobre chcara da 
periferia. L, segundo a verso oficial, deu-se um tiroteio 
em cujo trmino morreram seis foragidos e escaparam dois 
(Daniele Csar). Os mortos da VPR teriam disparado dezoito 
tiros, sem acertar um s. Re ceberam 26, catorze na cabea. 
Deles, quatro eram veteranos, trs com treinamento em Cuba, 
mas pouco tinham a contar alm do que Ansel 46 Anselmo 
admitiu a possibilidade de ter colaborado para a priso de 
Heleny Telles Guariba e
Paulo de Tarso Celestino, em Octvio Ribeiro, Por que eu 
tra, p. 81.
47 Trata-se de Carlos Alberto do Carmo. Em Marco Aurlio 
Borba, Cabo Anselmo, p. 52.
48 Era Ins Etienne Romeu. Marco Aurlio Borba, Cabo Anselmo, 
pp. 45,48 e 58.
49 No seu depoimento a Percival de Souza, Eu, Cabo Anselmo, 
p. 186, Anselmo diz que, confron tado com a acusao, ps seu 
revlver sobre a mesa, sugerindo que o executassem. Em sua 
narra tiva da viagem ao Chile, o Relatrio de Paquera 
(documento n 09/143, do DOPS), ele no mencio na esse 
episdio. AA.
50 Depoimento de Jos Anselmo dos Santos a Percival de Souza, 
Eu, Cabo Anselmo, p. 190.
A MARCHA DE CHULO 349
mo j contara. A advogada Mrcia de Albuquerque Ferreira viu 
os cad veres no necrotrio. Estavam brutalmente 
desfigurados. Um dos mortos era a paraguaia Soledad Barret 
Viedma, morena de cabelos dourados, com panheira de Anselmo  
uma pessoa preciosa nas palavras de Kimble. Completaria 28 
anos no dia seguinte. DaniellKimble no viu o massacre. Foi 
para um hotel na praia da Boa Viagem, e a esquerda s voltou 
a saber dele onze anos depois, quando o cabo entregou sua 
histria ao reprter Octvio Ribeiro, o Pena Branca.
Anselmo foi o mais famoso dos infiltrados, mas no o nico. 
Fleury compartilhou-o com o dE, que haveria de infiltrar-se 
em quase todas as siglas de esquerda. No Partido Comunista 
teria um plantel de pelo menos oito agentes. Um dos 
informantes era membro do comit central do PCB; outros 
militavam na ALN, VPR e Molipo. Bacuri fora preso por conta 
de dois agentes do DOI que militavam na Frente de Libertao 
Nacional e mais tar de se mudariam para o PCBR. Joaquim 
Cmara Ferreira, o Toledo, foi cap turado por Fleury graas  
ajuda de um quadro da ALN. Preso no Par, apa receu em So 
Paulo fingindo ter fugido de um hospital. O CIE recebia da 
Central Intelligence Agency relatrios de um instrutor de 
guerrilhas ba seado em Cuba. Ele listava nomes, codinomes e 
atividades dos brasilei ros que treinava. Foram necessrios 
vinte anos para que se descobrisse a existncia do mais 
eficiente dos cachorros do DOI paulista, em cujo rastro 
morreram perto de uma dezena de quadros da ALN. Era o Jota, 
recrutado em 1972 e identificado em 92 como Joo Henrique 
Ferreira de Carvalho, o Jair.
O comandante do DOI paulista, coronel Carlos Alberto 
Brilhante Us tra, teve em torno de uma dezena de cachorros, 
e um de seus oficiais,
o capito nio Pimentel da Silveira, Dr. Ney, manteve um 
canil com
51 Percival de Souza, Eu, Cabo Anselmo, p. 206.
52 Veja, 20 de maio de 1992, A anatomia da sombra, de 
Expedito Filho.
53 Judith Lieblich Patarra, lora, p. 407
54 Quedograma, item 33. Ver tambm Reinaldo Guarany, A fuga, 
p. 79.
55 Relatrio 674, de 1972, do dE, em Jornal do Brasil de 11 
de julho de 1993, e depoimento do ge neral Adyr Fiza de 
Castro, em Maria Celina dAraujo, Glucio Ary Dillon Soares e 
Celso Castro
(orgs.), Os Anos de Chumbo, p. 56.
56 Veja, 20 de maio de 1992, A anatomia da sombra, de 
Expedito Filho.
350        A DITADU A ESCANCARADA
doze. Anselmo soube de uns seis ou oito Cada cachorro 
ganhava mensalmente algo como o soldo de um capito. Assinava 
contrato e pas sava recibo.
Nos seus primeiros meses de trabalho como cachorro Anselmo 
teve poucos servios a prestar. Ainda que rica em Santiago e 
Paris por conta do dinheiro do cofre de Adhemar de Barros, a 
VPR tornara-se to peque na que era dificil ach-la. Estava 
reduzida a duas submetralhadoras e me nos de trinta 
militantes. Poucos meses depois deixaria de existir no Bra 
sil. Lamarca, seu comandante-em-chefe, transferira-se em 
maro para o MR-8, trocando o nada por coisa nenhuma. O Oito 
desintegrava-se. En tre maio e junho o Centro de Informaes 
e Segurana da Aeronutica, o CISA, teve nos seus crceres 
dois presos que sabiam onde o capito dor miria a noite 
seguinte. Stuart Edgar Angel e Jos Gomes Teixeira morre ram 
sem falar. Escondido com Tara num apartamento de simpatizan 
tes, nas vizinhanas do largo do Machado, no Rio, o capito 
ameaava:
 Amigos,  minha a ltima bala do revlver. Ningum me pega 
vivo. Se a
represso descobrir este aparelho abro os bicos de gs e 
acendo o isqueiro.
 Ei! No quero morrer explodida, voc nunca me falou desse 
pla no. Meu negcio  tiro  brincou lara.
 Primeiro voc me deixa sair, depois explode  arrematou a 
dona da casa.
Na tarde de 4 de maio de 1971 o presidente Medici estava como 
gos tava. Num s compromisso, em Salvador, inaugurara a 
renovao do es tdio da Fonte Nova e assistia a um jogo de 
futebol. Aos 21 minutos do segundo tempo a multido achou que 
as arquibancadas estavam ceden do. Pnico, dois mortos e 2 
mil feridos. Medici chegou a supor que o
57 Veja, 20 de maio de 1992, pp. 40-1. O capito nio 
Pimentel da Silveira suicidou-se em 1986.
58 Emiliano Jos e Oldack Miranda, Lamarca, p. 111.
59 Judith Lieblich Patarra, lara, p. 461.
60 Emiliano Jos e Oldack Miranda, Lamarca, p. 116.
A MARCHA DE CIRILO        351
jogo continuaria, mas convenceram-no a autorizar a suspenso 
do diver timento. Solange Loureno Gomes, a Emlia, dirigente 
do MR-8, mar cara um ponto na Fonte Nova e estivera na 
arquibancada enlouqueci da. Em estado de choque, entrou numa 
delegacia informando: Eu sou uma subversiva, eu sou uma 
subversiva Uma semana depois, tendo con tado tudo o que 
sabia a respeito do MR-8, levou a polcia ao encontro do seu 
companheiro. No final de maio o MR-8 baiano estava nas mos 
do DOI. Tinha-se conhecimento at mesmo da existncia de um 
dispositivo rural, coordenado por um certo Dino, ou Joo 
Lopes Salgado. S no sa biam sua localizao.
No final de junho Carlos Lamarca e lara Iavelberg fugiram 
para a Bahia, onde o dispositivo rural de Dino esperava o 
comandante. Com o nome de Cirilo e dizendo-se gelogo, o 
capito chegou no dia 29 ao luga rejo de Buriti Cristalino, 
em Brotas de Macabas, a setecentos quilmetros de Salvador, 
nas proximidades do mdio So Francisco. Era um perau pro 
fundo do serto baiano, regio de caa e garimpo, paisagem 
lunar, evoca tiva das terras de Canudos. De Brotas no se 
falava desde 1940, quando por l o cangaceiro Corisco perdera 
a vida. Havia lugares onde no se usava o arado e alguns 
camponeses acreditavam que, diante da decadncia dos cos 
tumes das cidades, o comunismo j tinha chegado. Depois de 
quase um ano de clausura, Lamarca sentia-se flcido e plido. 
Tentava controlar o fu mo consumindo abaixo de dois maos por 
dia. Comeou nesse dia a es crever cartas dirias a Tara, que 
ficara em Feira de Santana.
Documento nico na historiografia brasileira, essas 23 cartas 
contam
o estado de nimo de um revolucionrio derrotado que corre em 
direo
ao nada, cavalgando sua utopia sem recriminaes que 
mascarassem fra cassos nem dvidas que amortecessem perigos. 
Pela aparncia macerada
e pela marcha sem rumo, o Cirilo do serto baiano move-se 
como um de sesperado, mas aquele que se mostrou nas cartas  
um homem feliz, de-
61 Antonio Carlos Magalhes, 1982.
62 Emiliano Jos e Oldack Miranda, Lamarca, p. 120. Ver 
tambm o depoimento do coronel Nu ton Cerqueira a Ayrton 
Baifa, em O Estado de S. Paulo de 17 de setembro de 1981, p. 
16.
63 Carta de Carlos Lamarca a Tara Iavelberg, de 29 de junho 
de 1971, em Folhetim da Folha de
S.Paulo, 10 de julho de 1987.
352
A DITADURA ESCANCARADA
sempenhando o papel de heri que se impusera e cultivara. Via 
as vicissitudes como um enriquecimento biogrfico. Referindo-
se ao pedregulho sobre o qual anotava sua teoria da revoluo 
rural, mencionava um escritrio rstico, pr-histrico  um 
dia sentirei orgulho dele e contarei com satisfao, como 
quem rememora dificuldades superadas Naquilo que parece um 
beco sem sada, via um caminho em cujo fim haveria um tapete 
vermelho Suas cartas a Tara so a doce narrativa de um 
grande amor:
Aqui tem muitos pssaros lindos de variadas cores perto est 
uma ju riti pronta para tomar um tiro no peito mas no daria 
 e a vida dela continua em homenagem a ti. Ela voou. [ Sou 
feliz por ser o teu amor, sinto saudades de tudo e me 
alimento das lembranas. Penso adoidada- mente em ti  
impressionante  nunca pensei amar tanto.
Livre dos aparelhos, solto no mato, ainda assim Lamarca vivia 
confinado. Passava o dia numa barraca, tomava banho  noite e 
enterrava as prprias fezes para no deixar pistas capazes de 
revelar a durao de sua permanncia num lugar. No incio de 
julho comeou a doer-lhe a coxa esquerda. Foi atacado por 
formigas e barbeiros. A vegetao espinhosa obrigava-o a 
caminhar agachado. O contato que deveria trazer notcias de 
Salvador no aparecia. Sonhava com Tara (Dormi contigo, 
entendeu?) ou com combates. Num deles, como lord Nelson, 
triunfava aleijado do brao e cego de um olho. Como Mao, 
cometia poemas:
O canto, um grito
de guerra transformou
na luta longa,
na longa jornada,
conquista -se, espraia-se
o canto, o chorar.
64 Carta de Carlos Lamarca a lara Iavelberg, de 28 de junho 
de 1971, em Folhetim da Fo1h de
S.Paulo, 10 de julho de 1987. Para o pedregulho, Emiliano 
Jos e Oldack Miranda, Lamarca, p. 155.
65 Cartas de Carlos Lamarca a lara Iavelberg, de 3 e 6 de 
julho de 1971, em Folhetim da Folha de
S.Paulo, 10 de julho de 1987.
66 Carta de Carlos Lamarca a Tara Iavelberg, de 21 de julho 
de 1971, em Folhetim da Folha de S.Paulo,
10 de julho de 1987.


A MARCHA DE CIRILO 353
No dia 14 de julho comemorava: Hoje  data da tomada da 
Bastilha  vemos a burguesia e o imperialismo cercados em 
todo o mundo, vamos ficando para o fim mas j tomamos gosto 
nessa participao
 frica e Amrica Latina sero o marco do incio do fim do 
imperialismo  incio de nova era na Humanidade
O dispositivo rural baseava-se no apoio de Jos Campos 
Barreto, o Zequinha das greves do ABC em 1968. Preso, 
divertira a esquerda nacional respondendo em ingls ao 
policial que lhe perguntou quantos anos tinha: Twenty one 
Ex-seminarista, antes de entrar no MR-8 militara na VPR e na 
VAR-Palmares. Pretendia montar um foco guerrilheiro a par tir 
do Buriti Cristalino, onde viviam seu pai e seis irmos, trs 
homens e trs mulheres. Alm deles havia o Professor Roberto, 
Lus Antnio Santa Brbara, um excelente jogador de futebol, 
24 anos, que ensinava o po voado a ler e as crianas a montar 
um teatrinho.
No dia 6 de agosto, enquanto Lamarca escrevia a Tara de sua 
tenda do Buriti (previa agitaes de militares 
nacionalistas), Rocha, o militan te que os trouxera do Rio, 
conversava com outro quadro do MR-8 num ponto no centro de 
Salvador. Tratavam da transferncia de lara. Bateu a polcia, 
e Rocha (Jos Carlos de Souza) foi apanhado. Sabia tudo o que 
a tigrada queria. Levaram-no para o quartel da Polcia do 
Exrcito. Co meavam a cruzar-se os caminhos do ex-capito 
Carlos Lamarca e do ma jor Nilton de Albuquerque Cerqueira, 
chefe da 2 Seo do estado-maior da 6 Regio Militar, 
comandante do DOI de Salvador. Filho de um sar gento-msico 
do Exrcito, era um alagoano parrudo, obstinado, ascti co e 
messinico. Tinha aquela caracterstica dos temperamentos 
napo lenicos que o levava a agir, j como major, como se 
estivesse escrevendo a biografia de um marechal.
No primeiro dia Jos Carlos apanhou at as duas da manh. 
Inicial-
mente os interrogadores queriam saber onde estavam Dino e o 
disposi tivo rural. Na segunda semana de suplcios os 
torturadores conseguiram
67 Carta de Carlos Lamarca a Tara Iavelberg, de 14 de julho 
de 1971, em Folhetim da Folha de S.Paulo,
10 de julho de 1987.
68 Judith Lieblich Patarra, lara, p. 236.
69 Emiliano Jos e Oldack Miranda, Lamarca, pp. 132 e segs.
354 A DITADURA ESCANCARADA
saber de um aparelho para o qual havia mandado seus mveis. 
Desco nhecia o endereo, mas lembrava onde contratara a 
camionete da mu dana. Quando o DOI encontrou o motorista, 
descobriu que o esconde rijo ficava na rua Minas Gerais, na 
Pituba. Preparou-se o ataque. Jos Carlos achou que iludira 
os interrogadores, O DOI acreditava que ia cap turar Dino, 
mas ele estava certo de que, por cautela, o aparelho tinha si 
do desativado.
O DOI chegou ao edificio Santa Terezinha ao amanhecer do dia 
20 de agosto. Cercou todo o quarteiro. Fumigou o apartamento 
201 com bombas de gs lacrimogneo, e dele saram trs 
militantes do MR-8, a em pregada e duas crianas. Um sucesso. 
Partiram todos numa camionete, deixando trs agentes de 
planto no apartamento varejado. A batida ter minara quando 
um garoto, morador do apartamento 202, abriu a porta do 
banheiro de servio e viu-se diante de uma mulher apontando-
lhe dois revlveres. Fugiu e denunciou-a.
Era a Liana do 201. Tara Iavelberg pulara um pequeno vo, 
passan do de um apartamento para o outro, mas a polcia 
encurralou-a num quar to infestado de gs lacrimogneo. 
Ouviu-se um tiro. A bala transfixou lhe o corao e o pulmo 
esquerdo. Tentaram lev-la a um hospital, mas quando o carro 
estava na curva do largo de Amaralina, o policial que lhe 
repousava a cabea no colo avisou: No precisa mais correr 
tanto por que ela morreuY
Passaram-se algumas horas antes que se descobrisse que aquela 
jo vem deitada numa mesa do Instituto Mdico-Legal Nina 
Rodrigues com uma mancha roxa no peito era a mulher de Carlos 
Lamarca. Quatro dias antes, ele despachara um lote de cartas 
para Tara. Na ltima parecia lu tar contra a despedida: Te 
amo, te adoro  segue esta carta impregna da de amor  vou te 
ver, nem que seja a ltima coisa na minha vida  70 Emiliano 
Jos e Oldack Miranda, Lamarca, p. 120.
71 Idem, p. 124. Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 4: 
Os mortos, p. 157, para a trajetria da bala. Ver tambm 
Paolo Marconi, Perseguio e morte de Lamarca, Coojornal, 
agosto de 1979, pp. 15-9. Depoimento do motorista Paulo 
Rezende, em Judith Lieblich Patarra, lara, p. 515. Ver tambm 
o depoimento do coronel Nilton Cerqueira, em O Estado de S. 
Paulo de 17 de setembro de 1981, p. 6, na srie Assim morreu 
Lamarca, de 16 a 18 de setembro de 1981.
A MARCHA DE CIRILO 355
mil beijos do teu CiriloY Em So Paulo uma mulher que seguia 
a his tria daquela paixo lendo cartas capturadas, sentiu 
uma lgrima ao sa ber do fim de Tara. Eu admirava aquela 
mulher apaixonada, contaria mais tarde Joseta Ustra, mulher 
do comandante do DOI do ii Exrcito.
Durante mais de um ms o corpo de Tara ficou numa gaveta do 
ne crotrio como isca para atrair Lamarca. Era o terceiro 
cadver da per seguio. A tigrada pusera nessa lia um 
grau de violncia e ressenti mento estranhos at mesmo  
neurastenia do poro. Stuart Angel fora morto amarrado  
traseira de um jipe, com a cabea prxima ao cano de 
descarga, e arrastado pelo ptio da base area do Galeo.
Depois de ter sido presa no apartamento da Pituba, Nilda 
Cunha ou vira os gritos de seu namorado. Tinha dezessete anos 
e fora ameaada de estupro. O delegado Srgio Fleury, que 
voara de So Paulo, alisara-lhe o rosto e avisara: Vou 
acabar com essa sua beleza Vendaram-lhe os olhos, levaram-na 
para outro lugar. Quando voltou a ver, estava ao lado do 
cadver de Tara. Obrigaram-na a toc-la. Nilda enlouqueceu. 
Teve cri ses de cegueira e foi internada diversas vezes. Em 
novembro, numa das suas crises, morreu. Meses depois sua me 
enforcou-se com um fio de mquina de calcular.
No dia 25 de agosto o major Cerqueira reuniu-se na sala de 
instru es do QG da 6 Regio Militar com as equipes que 
caavam Lamarca no serto. Deu  mobilizao o nome de 
Operao Pajussara, homena geando uma praia de Macei, e nas 
comunicaes por rdio Lamarca era chamado de a mercadoria 
Somavam 215 homens, dezoito dos quais sados do Para-Sar. Era 
um combinado de todos os servios de infor maes militares e 
de policiais paulistas e baianos. Os soldados nativos
72 Carta de Carlos Lamarca a lara Iavelberg, de 16 de agosto 
de 1971, em Folhetim da Folha de
S.Paulo, 10 de julho de 1987.
73 Joseta Ustra, maro de 1988.
74 Paolo Marconi, Perseguio e morte de Lamarca, 
Coojornal, agosto de 1979.
75 Carta de Alex Polari a Zuzu Angel, de 23 de maio de 1972, 
em Virginia Vaili, Eu, Zuzu Angel,
procuro meu filho, pp. 153-8.
76 Emiliano Jos e Oldack Miranda, Lamarca, pp. 129-3 1.
77 Para mercadoria, O Estado de S. Paulo de 16 de setembro 
de 1981, p. 9, A morte de Lamarca
em pleno serto, reportagem de Ayrton Baffa. Para o total da 
tropa, Operao Pajussara, pp. 26-7.
356        A DITADURA ESCANCARADA
chamavam a equipe vinda de Braslia de cancs e a 
rivalidade chega ria a tal ponto que por pouco uma equipe no 
atirou em outra, con fundindo-a com o inimigo. Nesse mesmo 
dia a embaixada america na em Braslia informou ao 
Departamento de Estado que, segundo uma fonte do DOI, Lamarca 
tinha apenas 40% de chances de escapar ao cerco.
Os cancs chegaram a Buriti Cristalino no dia 28, e na casa 
dos Barreto sabia-se o que isso significava. Olderico, de 23 
anos, abriu fogo e caiu com um tiro no rosto. Seu irmo 
Otoniel, de vinte, tambm ati rou, morreu com uma rajada de 
submetralhadora e foi deixado ao re lento, onde os carcars 
lhe comeram os olhos. O Professor Roberto ma tou-se com um 
tiro na cabea. Jos Barreto, o pai de Olderico e Otoniel, 
apanhou por vrios dias. Amarravam-lhe os ps e penduravam-no 
de cabea para baixo.
Lamarca e Zequinha ouviram os tiros de Buriti Cristalino, 
abando naram a barraca, cigarros e latas de comida em 
conserva. Marcharam nove quilmetros numa noite e chegaram a 
um engenho. No demorou muito, e a tigrada achou-lhes a 
pista. Puseram-se a salvo subindo as mon tanhas, mas no dia 7 
de setembro desceram  localidade de Trs Reses e foram 
denunciados. Atravessaram a serra da Conceio e entraram na 
caa tinga. Lamarca estava doente, faltava-lhe flego, mal 
andava. Zequinha carregava-o nas costas. Alguns camponeses de 
Carnaba ouviram quan do ele pediu para ser abandonado pelo 
amigo. Iam a lugar nenhum, mas caminhavam em direo a Brotas 
de Macabas alimentando-se de rapa dura, bebendo nos tanques 
de gado. Pediam comida a parentes de Zequinha e a conhecidos, 
tentavam at compr-la, mas s porta batendo na cara.
78 O Estado de S. Paulo, 16 de setembro de 1981.
79 Telegrama da embaixada americana ao Departamento de 
Estado, de 26 de agosto de 1971, in titulado Lamarca na rea 
de Salvador, narrando o relato de um coronel que no 
identifica. DEEUA.
80 Operao Pajussara, p. 18.
81 Paolo Marconi, Perseguio e morte de Lamarca, 
Coojornal, agosto de 1979. Lamarca procu rou um mdico em 
Ibotirama. Ver o depoimento do coronel Nilton Cerqueira, em O 
Estado de S.
Paulo de 18 de setembro de 1981, p. 9.
82 Jos de Arajo Barreto, pai de Zequinha, em entrevista ao 
Coojornal de agosto de 1979. Ver
tambm sua entrevista a Ricardo Kotscho, Jornal do Brasil, 15 
de setembro de 1991.
A MARCHA DE CIRILO 357
Seus perseguidores tiveram a ajuda dos moradores, do mdico 
de Iboti rama a um campons que os viu  beira de um crrego. 
Desnutridos, desidratados, tinham chegado ao fim da jornada. 
Lamarca, com 1,73 m de altura, pesava sessenta quilos. Se 
fossem deixados na caatinga, mor reriam de fome.
Fugiam havia vinte dias e trezentos quilmetros quando 
pararam para descansar perto de Pintada, lugarejo de 
cinqenta casas. Nesse lugar per dido, Deonila Maria dos 
Santos, uma mulher que no sabia sequer quan tos anos tinha, 
proibira seus seis filhos de sair de casa. Um deles desobe 
deceu e viu dois homens debaixo de uma imponente barana. Um 
dormia com a cabea apoiada numa pedra, o outro sentara-se. 
Estavam a tre zentos metros da estrada. A notcia chegou ao 
guia da tropa.
Eram trs da tarde quando o major Cerqueira dividiu seus 
homens
 a equipe Co  e marchou atrs da pista. O barulho de um 
galho es talado acordou Zequinha: Capito, os homens esto 
a.
Correu para o mato e foi varrido. Cirilo ergueu-se e levou 
sete tiros.
Um atravessou-lhe o trax, transfixando o corao e os dois 
pulmes.
Debaixo da barana de Pintada no houve gesta.
Amarraram-no a um pau e levaram-no para a beira da estrada, 
onde
uma camionete transferiu os cadveres para Brotas. L, foram 
chutados
83 Depoimento do coronel Nilton Cerqueira, em O Estado de S. 
Paulo de 18 de setembro de
1981, p. 9.
84 Reportagem de Bernardino Furtado, em O Globo de 7 de julho 
de 1996, citando o laudo dos legistas Charles Ren Pittex e 
Jos Francisco dos Santos, de 18 de setembro de 1971.
85 Emiliano Jos e Oldack Miranda, Lamarca, p. 166. O Estado 
de S. Paulo, 18 de setembro de 1981. Ver tambm Serto 
baiano lembra a morte de Lamarca 20 anos depois, reportagem 
de Ricardo Kotscho, Jornal do Brasil, 15 de setembro de 1991.
86 Emiliano Jos e Oldack Miranda, Lamarca, p. 166, e Epiogo 
do Relatrio da Operao Pajussara, em Folha de S.Paulo, 13 
de setembro de 1992.
87 Para os tiros, Laudo de Exame Cadavrico do Instituto 
Mdico-Legal Nina Rodrigues, de Sal vador, assinado pelos 
peritos Charles Ren Pittex e Jos Francisco dos Santos, de 
18 de setembro de 1981, publicado em O Globo de 7 de julho de 
1996. Os outros seis tiros atingiram-no no peito (dois), na 
mo, no brao, numa ndega e nas costas. Segundo o perito 
Nelson Massini, que estu dou o laudo, descoberto em 1996, os 
outros ferimentos do cadver indicam que eles no aconte 
ceram numa eventual correria pelo mato. Eram ferimentos de 
uma pessoa que foi arrastada ou levou pontaps.
358        A DITADURA ESCANCARADA
pelos oficiais, soldados e meganhas bbados. Embarcaram-nos 
para Salvador e no aeroporto jogaram-nos ao cho para que 
fossem fotogra fados. No dia seguinte o presidente Medici 
conferia a fisionomia do mor to em sua mesa no Planalto. 
Lamarca tinha os olhos abertos.
O epitfio daquela figura seca, descala e rota, semelhante 
na runa ao Antonio Conselheiro exumado, parecia ter sido 
escrito quase vinte anos
antes pelo poeta Mrio Faustino: Gladiador defunto, mas 
intacto
Sepultado no Campo Santo de Salvador em cova com nmero, mas 
sem nome, Cirlo ainda metia medo: Por determinao do 
presidente da Repblica, qualquer publicao sobre Carlos 
Lamarca fica encerrada a par tir da presente, em todo o pas. 
Esclareo que qualquer referncia favo recer a criao de 
mito ou deturpao, propiciando imagem de mrtir que 
prejudicar interesses da segurana nacional
88 Para a bebedeira, entrevista de Valter Bastos de Matos, 
prefeito de Brotas em 1971, em Paolo
Marcorii, Perseguio e morte de Lamarca Coojornal, agosto 
de 1979.
89 Antonio Carlos Magalhes, 1973.
90 O verso de Mrio Faustino serve de epgrafe a Terra em 
transe, de Glauber Rocha.
91 Ordem da Censura, de 22 de setembro de 1971, transcrita em 
Paolo Marconi, Perseguio e
morte de Lamarca Coojornal, agosto de 1979.
PARTE IV A gangrena
A gangrena
Na madrugada de 14 de maio de 1971, trs capites, dois 
sargentos e dois cabos da 1 Companhia do 2 Batalho de 
Polcia do Exrcito atacaram a casa de nmero 3375 da estrada 
do Mendanha, na mata de Campo Gran de, Zona Oeste do Rio de 
Janeiro. Alm de seus carros traziam um cami nho basculante 
e um furgo de presos da PE.
Comandava a tropa o capito Ailton Guimares Jorge. Tinha 29 
anos, era filho de um guarda-civil a quem acompanhava ainda 
criana em suas rondas pela Zona Norte do Rio. Fora um cadete 
aplicado e ba gunceiro na Academia Militar das Agulhas 
Negras. Sara em 15 numa turma de 69, com 7,5 de mdia e 35 
dias de cadeia. Cara na intendncia, passaporte seguro para 
uma carreira banal. Seu primeiro comandante vi ra nele uma 
versatilidade que muito o recomenda e uma honestidade a 
toda prova Bom de bola, sambista, freqentador do Cordo do 
Bola Preta, metera-se por gosto nas aes de polcia poltica 
da PE. No proces so de avaliao ideolgica de seus 
superiores, era considerado oficial in 1 Processo n 4896, 
STM, Denncia do Procurador Jos Manes Leito, de 31 de maio 
de 1974, vol.
1, pp. 6-7. Alm dos trs capites, estavam os sargentos 
Euler Moreira de Moraes e Valter da Silva Range! e os cabos 
Marco Antonio Povoreli e Antonio Jos Soares. Para o 
basculante, Depoimen to de Ernesto Alves Gonalves, p. 421.
2 O Globo, 23 de outubro de 1981, p. 8.
3 Assentamentos do Capito Ailton Guimares Jorge, Processo n 
17/74, da 2 Auditoria do Exr cito, vo!. 2, pp. 1339 e segs. 
Elogio do coronel Nilo Caneppa, comandante do 12 Regimento de 
Cavalaria, em Bag.
362        A DITADURA ESCANCARADA
teiramente imbudo dos objetivos revolucionrios, por um 
Brasil melhor, livre da corrupo e da subverso Em 1968, 
fora carcereiro de Viadi mir Palmeira e, nas horas seguintes 
 edio do AI-5, prendera o jorna lista Paulo Francis e o 
poeta Ferreira Gullar. Um ano depois, num tiro teio em Vila 
Kosmos, levara um tiro na perna e tornara-se o primeiro 
oficial ferido em combate com terroristas. Recebera a Medalha 
do Pacificador, e o comandante da 1 Diviso de Infantaria 
esculpira-lhe o perfil:  um dos reais valores com que conta 
a 1 companhia da PE para misses dif ceis e perigosas. 
Espontneo e dedicado,  um voluntrio permanente para tudo 
que der e vier. A bravura pessoal  um trao marcante da sua 
per sonalidade. Participa de tudo e comanda diligncias como 
um verdadei ro e exemplar militar combatente
Mudara-se havia pouco para Copacabana, e sua mulher estava 
gr vida de sete meses. Servia na PE e lecionava tcnica de 
abordagem de apa relhos no Centro de Estudos de Pessoal. 
Orgulhava-se de seu papel: No interrogava ningum com capuz 
na cabea. Fazia questo de os presos me conhecerem Meses 
depois serviria no DOI.
Com Guimares estavam dois capites. Um era Luiz Fernandes de 
Brito, 36 anos, seu bom amigo e companheiro na seleo de 
futebol de salo da 18 Diviso de Infantaria, campe do 1 
Exrcito. Vivia no Mier. Chefiava o setor de interrogatrios 
do DOI e estava para come ar seu mestrado no Centro de 
Estudos de Pessoal. O outro era Ailton Joaquim, 28 anos, 
chefe da 28 Seo da 18 Companhia da PE. Seu pai, Amrico 
Careca, cedera  logstica da operao dois caminhes e um de 
psito no bairro de Santssimo. Seguiam a pista da casa do 
Mendanha fazia quase dois meses.
4 Alteraes do Capito Ailton Guimares Jorge, Processo n 
17/74, da 2 Auditoria do Exrcito,
vol. 3, p. 1368.
5 Zuenir Ventura, 1968O ano que no terminou, p. 300. Para 
Viadimir Palmeira, Jos Dirceu e
Palmeira, Abaixo a ditadura, p. 159.
6 Boletim da i Diviso de Exrcito, de 16 de outubro de 1969, 
Processo n 4896, STM, vol. 2, p. 1383.
7 O Globo, 23 de outubro de 1981, p. 8.
8 Processo n 4896, STM, vol. 2, pp. 1305 e 2102.
9 Processo n 4896, STM, Depoimento do Sargento Euler Moreira 
de Moraes, vol. 1, p. 222.
10 Processo n 4896, STM, Depoimento de Manoel da Cunha Gomes, 
vol. 1, p. 81.
A GANGRENA 363
Os sete militares trabalhavam juntos. Trs deles estiveram no 
tiroteio de Vila Kosmos. Poucos dias antes, dois dos 
oficiais e um dos cabos haviam torturado Vera Slvia 
Magalhes, presa com um ferimento de bala na cabe a. Os 
dois sargentos acolitaram a mundialmente conhecida aula de 
tor tura do tenente Ailton Dos sete, trs tinham a Medalha 
do Pacificador.
A casa da estrada do Mendanha caiu sem resistncia. 
Capturaram centenas de caixas de usque House of Lords, de 
perfume Artmatic, alm de alguns milhares de calas e 
jaquetas Lee. Roubaram o contrabando de uma quadrilha de ex-
oficiais da Polcia Militar. Venderam parte do bu tim a um 
receptador do centro do Rio, e cada capito levou 15 mil cru 
zeiros (2500 dlares). Os demais receberam 3 mil (550 
dlares) cada um. Mais de trs meses de salrio numa s 
noite de trabalho.
A relao da tigrada carioca com o contrabando vinha de 
1970. Co meara na PE da Vila Militar com uma partida de 
relgios ofertada por um policial que prestava servios ao 
dE. Estendera-se ao quartel da Ba ro de Mesquita, onde se 
guardara a carga de uma barcaa. Oficiais do DOI consertavam 
seus carros de graa na oficina mecnica de um recep tador. 
Promiscuidade tpica da marginlia policial, nela cruzavam-se 
qua drilhas de contrabandistas como a de Chiquinho do P, Z 
Boio e Manuel Portugus, corsrios sados da PM, policiais e 
receptadores.
Formavam um engenhoso mercado. No mundo ideal dos contraban 
distas as cargas eram recolhidas no litoral, transferidas 
para depsitos e distribudas no comrcio. Na origem, uma boa 
carga valia em torno de 100 mil dlares. No fim da linha o 
preo de uma cala Lee  smbolo do
11 Estavam com o capito Ailton Guimares Jorge o tenente 
Ailton Joaquim e os sargentos Eu ler Moreira de Moraes e 
Valter da Silva Rangel. Ofcio do Tenente-CoronelAry Pereira 
de Carvalho  1 Companhia da PE, Processo n 4896, STM, vol. 
2, p. 1381.
12 Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 3: As torturas, 
pp. 839-40  Vera Slvia Arajo Maga lhes. Vera foi 
torturada por Ailton Guimares Jorge e Ailton Joaquim, bem 
como pelo cabo Mar co Antonio Povoreli. Relatrio sobre as 
acusaes de tortura no Brasil, p. 33. O caso est tambm em 
Amilcar Lobo, A hora do lobo, a hora do carneiro, p. 23.
13 Ailton Guimares Jorge, Ailton Joaquim e o sargento Valter 
da Silva Rangel.
14 Processo n 4896, STM, vol. 1, pp. 74 e 1864.
15 Processo n 4896, STM, vol. 2, p. 7.
16 Processo n 4896, STM, Depoimentos de Joaquim Dias Simeo e 
Manoel da Cunha Gomes, vol.
1, pp. 889, 200 e 86, e Amilcar Lobo, A hora do lobo, a hora 
do carneiro, pp. 29-3 1.
364        A DITADURA ESCANCARADA
cosmopolitismo da juventude  dobrava. Em tese, perderiam 
tudo se os agentes do Estado os apanhassem, levando as 
mercadorias a hasta pbli ca. Na prtica esse perigo era 
desprezvel. O verdadeiro risco estava na possibilidade de 
serem descobertos por policiais que lhes roubariam a car ga, 
revendendo-a no bazar de receptadores. Era o arrepio Para 
se pro teger, as quadrilhas contratavam o seguro dos 
desembarques e dos com boios na prpria polcia. O mercado 
tinha uma hierarquia: no centro ficavam os contrabandistas 
negociando com capites de navios e comer ciantes, no meio os 
policiais que lhes vendiam proteo. Na periferia, agiam os 
predadores.
Os ex-oficiais da PM a quem pertencia a carga do Mendanha ti 
nham-se estabelecido no contrabando depois de saltear no 
aeroporto do Galeo. Em poucos dias descobriram quem os havia 
roubado e tentaram um acordo. Um dos chefes da quadrilha 
sentou-se com o capito Gui mares e lhe props a recompra da 
mercadoria por 60 mil cruzeiros (pouco mais de 10 mil 
dlares). Num novo encontro, na churrascaria Fu nil, no 
Meier, o capito fez sua contraproposta. Devolveria uma parte 
sem cobrar nada, desde que lhe dessem servio. Oferecia-se 
para escoltar de sembarques. Negcio fechado. O ex-PM selou o 
acordo presenteando o capito com 5 mil cruzeiros.
Alguma coisa saiu errada, porque se passou quase um ano sem 
que os contrabandistas dessem servio aos militares da PE. Em 
meados de 1972 os capites Guimares e Brito voltaram ao 
corso. Capturaram um cami nho carregado de roupas num posto 
de gasolina da RioPetrpolis. Ven deram-no por 200 mil 
cruzeiros (pouco mais de 30 mil dlares). Os con trabandistas 
reagiram, e um dos chefes da quadrilha denunciou-os ao 
comando do i Exrcito.
7 No Processo n 4896, STM, vol. 1, p. 262, onde esto 
envolvidas duas quadrilhas de arrepiadores e outras duas de 
contrabandistas, indiciaram-se 24 pessoas. Delas, dezenove 
eram militares, ex-mi litares, policiais e ex-policiais. No 
caso do Mendanha, todos os contrabandistas do dono da car ga 
 equipe do mar  e todos os arrepiadores eram funcionrios 
ou ex-funcionrios do Estado. t8 Processo n 4896, STM, 
Depoimento do Sargento Euler Moreira de Moraes, vol. 1, pp. 
223-4.
19 Para o arrepio, Processo n 4896, STM, Depoimentos do 
Capito Luiz Fernandes de Brito e do Capito Ailton Guimares 
Jorge, vol. , pp. 262 e 268-9. Para o valor, Depoimento de 
Ernesto AI ves Gonalves, vol. , p. 177.
A GANGRENA 365
O comandante do DOI cuidou do caso. O tenente-coronel Jos 
Ama ral Caldeira, um mineiro de 46 anos, era um veterano. Na 
manh de 1 de abril de 1964 ajudara a convencer o tenente 
Freddie Perdigo Pereira a mo ver seus tanques do palcio 
Laranjeiras para o Guanabara. Chefiara a se o de operaes 
especiais do CIE e dirigira a fase inicial do cerco aos guer 
rilheiros de Carlos Lamarca no vale do Ribeira. A tigrada 
do DOI carioca derrubara porta de aparelho com granadas, 
entregara o corpo de um pre so em caixo lacrado e torturara 
o historiador Manoel Maurcio de Albu querque, abatendo-lhe o 
nimo pelos poucos anos de vida que lhe sobra ram. Em 
fevereiro de 1972 a CIA apontara o desempenho e os mtodos do 
DOI de Caldeira: Os cercos no Rio conseguiram prender 
aproximada mente quarenta membros da ALN e de dois outros 
grupos terroristas. [ O preso mais importante, lder da ALN 
no Rio, foi morto depois do inter rogatrio. Muitos dos 
suspeitos foram espancados, alguns brutalmente
Com a quadrilha do quartel da PE a conversa seria outra. O 
coman dante do 1 Exrcito, general Sylvio Frota, disse que 
no queria se basear no depoimento de um contrabandista para 
prender oficiais, e o coronel liquidou o assunto em dois 
dias. Foi sozinho ao posto de gasolina, mos trou fotografias 
dos capites aos empregados e perguntou-lhes se os ha viam 
visto. Nunca. Ouviu os oficiais e perguntou-lhes se a 
denncia era verdadeira. Nem pensar. Como ele mesmo informou, 
fizera uma sindi cncia sumria e, tratando-se de um 
denunciante de pouca idoneidade, contrabandista que era, 
envolvendo dois oficiais conceituados, chegara  concluso de 
que a denncia no tinha nenhum fundamento O coro nel 
Caldeira exagerara na conceituao de Guimares. Pouco depois 
do
20 Hernani dAguiar, A Revoluo por dentro, p. 148.
21 Operao Registro, p. 2, e Relatrio da Operao Registro, 
do general Canavarro Pereira, fi. 3.
Caldeira diz em seu depoimento que na poca da sindicncia 
comandava o Regimento de Cava laria de Guarda. O capito Luiz 
Fernandes de Brito, ao narrar como ele e seus comparsas combi 
naram iludi-lo, diz que comandava o DO!. Processo n 4896, 
STM, vol. 1, p. 262.
22 Doss dos mortos e desaparecidos, p. 54. Para o professor 
Manoel Maurcio, assistente de cte dra do historiador Helio 
Vianna, cunhado do presidente Castelo Branco, Projeto Brasil: 
nunca mais,
tomo v, vol. 2: As torturas, p. 889.
23 Weekly Report da Central Intelligence Agency, 4 de 
fevereiro de 1972.
24 Para a posio de Frota, Segunda Reunio do Alto Comando 
das Foras Armadas, 20 de janeiro
de 1975. APGCS/HF.
366        A DITADURA ESCANCARADA
roubo do contrabando o capito tomara 25 dias de cadeia por 
desobe decer a ordens.
A investigao do coronel Caldeira esteve para as relaes 
dos ofi ciais do DOI com a marginlia assim como a declarao 
do comandante do i Exrcito negando que um de seus quartis 
servira de calabouo du rante o seqestro dos irmos Duarte, 
em 1968. A investigao do coro nel Caldeira sinalizou a 
impunidade no s para aquele caso, mas tam bm para os 
futuros.
Desde 1964, quando a polcia paulista sumira com um casaco de 
pe les da casa de Luiz Carlos Prestes, os agentes que 
invadiam aparelhos dis punham de uma carta de corso sobre os 
bens que lhes interessassem. Fur tavam at anis de presas. 
Em Belo Horizonte, um tenente torturador do 12 m intimidara 
seus scios num empreendimento imobilirio ameaan do prend-
los. Um dos oficiais do DOI de So Paulo foi afastado porque 
fa zia dvidas e, pelo que se viu, elas eram quitadas pelos 
avalistas. Metera- se tambm em falcatruas e fraudes de 
terras. Noves fora suas atividades no Esquadro da Morte, o 
delegado Fleury fora acusado de aliviar o patrim nio 
descoberto nos aparelhos e de comandar uma Mfla da Proteo, 
ven dendo segurana a empresrios. O GTE protegia-o dos 
promotores paulistas.
Naquele mundo moralmente corrupto viviam oficiais que no as 
saltavam butins e nenhum proveito pessoal tiraram do poder 
que o go verno lhes dera. Ainda assim, toleravam os saques. 
Mesmo em casos de achaques de agiotas ou trfico de 
influncia, transferiam os delinqen tes em silncio. A 
tolerncia com o crime estava expressa na zona de som bra 
lanada pela proteo a Fleury.
Os contrabandistas cariocas renderam-se e contrataram os 
servios
da quadrilha enquistada no DOT. No final de 1972 o capito 
Guimares,
25 Processo n 4896, STM, vol. 2, pp. 1738 e 1398.
26 Para o saque  casa de Prestes, Maria Prestes, Meu 
companheiro 40 anos ao lado de Lus Car los Prestes, p. 26. 
Para a norma, informao dada pelo sargento Marival Chaves do 
Canto ao jor nalista Expedito Filho em dezembro de 1991.
27 Depoimento de Maria Aparecida dos Santos, em Projeto 
Brasil: nunca mais tomo v, vol. 3: As torturas, p. 65.
28 O Estado de Minas, 7 de dezembro de 1998.
29 Carlos Alberto Brilhante Ustra, Rompendo o silncio, p. 
138.
A GANGRENA 367
escoltado por um sargento, juntou-se  guarda que protegeu na 
praia do Caju a desova de uma carga de trs caminhes com 
roupas e cosmticos. No servio seguinte, em Sepetiba, um 
jipe do Exrcito escoltou o com boio que transportou perto de 
18 mil calas Lee at o centro da cidade. Eram jornadas de 
cinco horas de trabalho e valiam 5 mil cruzeiros por cabea. 
No Caju e em Sepetiba os agentes do DOI trabalharam ao lado 
do comissrio Euclides Nascimento, o Garotinho, scio-atleta 
da Escu derie Jason e presidente da Le Cocq, biombo do 
Esquadro da Morte.
Na madrugada de 22 de novembro de 1973 o capito e o 
comissrio escoltavam dois caminhes de usque e cigarros 
desembarcados perto do aterro de lixo do Caju. Passavam por 
So Cristvo quando apareceram dois policiais de pistola na 
mo, confiscando-lhes a carga. Tentou-se um acordo. Os 
contrabandistas ofereciam 50 mil cruzeiros, os meganhas 
queriam 150. Na retaguarda iam Guimares e o sargento Euler 
Morei ra de Moraes, veterano da 1 Companhia e fundador da 
quadrilha. Seu patrimnio somava dois apartamentos, oito 
casas, dois carros, uma loja e um stio. O capito mandou-o 
requisitar a tropa. Euler telefonou para o quartel da Vila: 
estava encurralado nas proximidades da avenida Bra si! e 
precisava de reforos. Em meia hora chegou um camburo da PE 
com trs soldados, todos de submetralhadora, sob o comando de 
um sar gento. Era Paulo Roberto de Andrade, condecorado com a 
Medalha do Pacificador, torturador de Chael Charles Schreier. 
Guimares contra- atacou e ordenou  patrulha que desarmasse 
os policiais. Um deles, ven 30 Processo n 4896, STM, 
Depoimentos de Alvaro Cardoso Machado e Manoel da Cunha 
Gomes, vol. 1, pp. 75 e 84.
31 Processo n 4896, STM, Denncia do Procurador Jos Manes 
Leito e Depoimento do Capito Ailton Guimares Jorge, vol. 
1, pp. 9 e 270.
32 Processo n 4896, STM, Auto de Qualificao e de 
Interrogatrio de Euclides Nascimento, vol.
2, p. 887.
33 Processo n 4896, STM, Termo de Perguntas do Indiciado 
Alvaro Cardoso Machado, vol. 1, p. 78.
34 Processo n 4896, STM, Termo de Perguntas do Indiciado 
Euler Moreira de Moraes, vol. 1, p. 235.
35 Processo n 4896, STM, Termo de Inquirio de Testemunha 
Nelson Santos Filho e do Indicia do Ailton Guimares Jorge, 
vol. 1, pp. 126 e 275.
36 Para a relao com Chael, Auto de Qualificao de Antonio 
Roberto Espinosa, em Projeto Brasil:
nunca mais, tomo v, vol. 1: A tortura, p. 404. Para a 
medalha, Folha de Assentamentos do Sargen to Paulo Roberto de 
Andrade, Processo n 4896, STM, p. 1487.
368        A DITADURA ESCANCARADA
do a confuso em que se metera, dizia que era simples curioso 
e s pa rara ali porque precisava urinar.
Os policiais receberam suas armas de volta, e a muamba foi em 
fren te. No quartel da PE no ficou vestgio burocrtico da 
diligncia. Ao con trrio do que sucedia com qualquer 
operao do gnero, nem sequer no tcia  seo de 
informaes da 1 Diviso de Exrcito foi dada. O capito da 
Escuderie Jason faturara 5 mil cruzeiros. O comissrio da Le 
Cocq, 4 mil. Tornaram-se bons amigos. Euclides Nascimento 
ensinava a Ai! ton Guimares Jorge o que sabia.
Naquele mesmo dia, em So Paulo, o procurador-geral da 
Justia, Oscar Xavier de Freitas, chamou ao seu gabinete do 
15 andar do edif cio do frum os dois promotores que 
substituram Hlio Bicudo na in vestigao de outra conexo 
da tigrada com o crime: o Esquadro da Morte do delegado 
Fleury. Haviam aberto o leque de oito para 39 sindi cncias. 
Eram Djalma Lcio Gabriel Barreto e Alberto Marino Junior. 
Deu-se o seguinte dilogo:
OSCAR: Chamei vocs aqui para conversarmos porque a situao 
est preta.
DJALMA: Mas... preta em que sentido?
OSCAR: Em todos os sentidos. Vou falar francamente: ns todos 
cor remos perigo.
DJALMA: Mas... perigo de qu?
OSCAR: No posso entrar em pormenores, tal o vulto da coisa. 
Vocs precisam confiar em mim. Confiam? A impunidade do Dr. 
Fleury  pon 37 Processo n 4896, STM, Termo de Perguntas do 
Indiciado Paulo Roberto de Andrade, voL 1, pp.
146-9. Para a verso do policial, Termo de Inquirio de 
Testemunha Rogerio Marcelino dos San tos, vol. 1, pp. 163-5.
38 Processo n 4896, STM, Termo de Perguntas dos Indiciados 
Euler Moreira de Moraes e Alvaro
Cardoso Machado, vol. 1, pp. 229 e 78.
39 Processo n 4896, STM, Termo de Perguntas do Indiciado 
Euclides Nascimento, vol. 1, p. 380.
40 Entrevista do capito Ailton Guimares Jorge a O Globo de 
23 de outubro de 1981.
41 Depoimento de Alberto Marino Junior, em Percival de Souza, 
Autpsia do medo, p. 397.
A GANGRENA 369
to de honra para a cpula do governo e das Foras Armadas! [ 
O peri go  enorme!
DJALMA: Nessa altura, inclusive para nosso resguardo, 
gostaramos de saber qual o perigo. De que se trata? Em 
relao a quem? O que re presenta?
Osc No posso falar... Mas direi uma coisa: todos ns estamos 
ar riscados a tudo, vocs, eu... o ministrio pblico. As 
atenes esto volta das principalmente contra voc, Djalma! 
Voc precisa ter muito cuidado. Vo lhe armar alguma cilada.
DJALMA: No tenho nada a temer, pois nunca tive rabo-de-
palha. [ 1
OSCAR: Eles esto muito revoltados contra voc. A ordem  
voc es quecer tudo o que viu e ouviu. Tome algum comprimido, 
digo comprimi do que lhe provoque amnsia.
DJALMA: Mas eu apenas procedi s investigaes, sem qualquer 
animo sidade contra algum. Tratei dos casos do Esquadro 
como se fossem de
rus comuns. Finalmente, estou nisso tudo porque voc nos 
designou.
OSCAR: Eu compreendo, mas desejo que vocs atentem para a 
atual si tuao de fora. O Bicudo  odiado por eles. Quanto 
a vocs dois, eles se voltam mais contra o Djalma. Djalma! [ 
No faa mais nada. Fique inerte! Se presenciar um homicdio, 
vire o rosto. No veja mais nada! [
DJALMA:  angustiante ouvir isso do chefe do ministrio 
pblico: o cum primento da lei transformar-se em delito!
OSCAR:  verdade. Se algum me ouvisse nesse instante, 
deveria dizer que o procurador-geral deveria ser internado. 
Mas vocs no avaliam as presses a que estou submetido! Eu 
no recebo solicitaes, apenas ordens. [ Esqueam, por 
favor, o fichrio. Esqueam tudo, no se metam em mais nada. 
Existem olheiros em toda parte, nos fiscalizando. Nossos 
telefones esto censurados. [ Alis, eu quero que os dois 
tirem frias em dezem bro prximo.
Fleury estava realmente protegido. Um dia antes o general 
Carlos de
Meira Mattos, velha figura do castelismo pela qual Ernesto 
Geisel tinha
42 Hlio Bicudo, Do Esquadro da Morte aos justiceiros, p. 
29.
370        A DITADURA ESCANCARADA
bastante respeito e pouca simpatia, procurara o futuro 
presidente. Que ria falar do caso do delegado. Quando Geisel 
contou a gesto do general a Golbery, ele reagiu contra 
Fleury: Ele  confessadamente, reconheci damente o homem do 
Esquadro da Morte
Geisel foi na direo oposta:
 Eu sei, mas o Esquadro da Morte  uma conseqncia dessa 
baguna da Justia, dessa esculhambao toda. Que  uma 
barbaridade, . Mas no  uma conseqncia? Voc vai a uma 
favela dessas e tem centenas de caras criminosos que esto 
soltos a e ningum prende. E se prender, vem o go verno no 
fim de seis meses e d indulto, vai solto. No tem cadeias 
para manter os caras.
 Isso pode estar certo, mas no h de ser o seu Fleury que 
vai ser juiz. Esse negcio de Esquadro da Morte, no comeo, 
eram bandi dos. Agora esto sendo cousas de outra ordem. No 
se iluda  respon deu Golbery.
No dia 20 de fevereiro de 1974, a quadrilha da PE viu-se 
encurrala da. A Polcia Federal e o SNI haviam reunido provas 
de suas atividades e remeteram o material, que inclua 
gravaes de conversas telefnicas, ao general Sylvio Frota, 
comandante do i Exrcito. Estava-se diante de uma situao 
nova. Agora no eram mais contrabandistas denunciando ofi 
ciais, mas a prpria mquina de informaes do governo 
provando que se delinqia na 1 Companhia da PE. Frota abriu 
um inqurito policial- militar para investigar a nova 
denncia. Seu chefe, coronel Aloysio AI-. ves Borges, 
instalou-se no quartel da Baro de Mesquita. Em poucas ho ras 
estavam presos dois capites, um subtenente, um sargento e 
dois contrabandistas. Capturaram o capito Guimares no dia 
seguinte. Eu clides Nascimento presidia uma reunio de sua 
escuderia quando a tro 43 Conversa de Geisel com Golbery, 
novembro de 1973. APGCS/HF.
44 arrativa do general Sylvio Frota, Segunda Reunio do Alto 
Comando das Foras Armadas, 20
de janeiro de 1975. APGCS/I-F.
A GANGRENA
371
pa lhe invadiu a sede, meteu-o num camburo, encapuzou-o e 
trancou- o numa cela por uma semana. No fim do ms o coronel 
tinha perto de trinta presos, a maioria deles no DO!. Todos 
estavam incomunicveis quando assinaram seus depoimentos.
Euler Moreira de Moraes, com doze anos de servio na 1 
Companhia
da PE, contou o que lhe aconteceu:
Foi colocado numa cela, despido e despojado de todos os seus 
haveres, in clusive cigarros, cela essa a que inmeras vezes 
havia levado outras pesso as. [ No 1 Batalho da PE foi 
novamente despido e contemplado com um capuz preto. 1...] No 
decorrer dos dias foi retirado para uma outra de pendncia do 
DO! e no seu interior pde perceber que estava numa gela 
deira, porque j conhecia tal dependncia em razo de sua 
funo. [ Foi submetido s mais srias torpezas, que foram 
telefone e choques de mag neto, embora no vendo, sabia do 
que se tratava, pois j conhecia essa m quina infernal.
Paulo Roberto de Andrade, Medalha do Pacificador da turma de 
1970:
Levado para dependncias do DO!, onde sofreu uma srie de 
coaes, foi interrogado encapuzado e ficou em uma sala que  
chamada de fri gorfico durante dois dias. [ Durante o 
interrogatrio levou choques e socos. [ 1 No gosta nem de se 
lembrar, mas devido  friagem da cita da cela adquiriu uma 
sinusite.
O capito Guimares soube que seu irmo, doente mental, 
queixa va-se de ter sido posto numa cela de gelo O sargento 
Valter da Silva
45 Apelao 42 476-8, STM, Auto de Qua!ificao e de 
Interrogatrio de Euclides Nascimento, p. 888.
46 Apelao 42 476-8, STM, Auto de Qualificao e de 
Interrogatrio de Euler Moreira de Mo raes, p. 813.
47 Para a citao, Auto de Qualificao e de Interrogatrio 
de Paulo Roberto de Andrade, Processo
n 4896, STM, vai. 2, p. 851.
48 Apelao 42 476-8, STM, Auto de Qualificao e de 
Interrogatrio de Aiiton Guimares Jorge,
voi. 2, p. 806. Atestado de Amilcar Lobo informando que 
Amilcar Guimares Jorge, preso nesta
unidade da Polcia do Exrcito, est sob meus cuidados 
profissionais, em tratamento psiquitri co 14 de maro de 
1974, p. 1868. Para a cela de gelo, Termo de Declarao de 
Maria Amlia Mot ta Amorim Jorge, p. 1869.
372        A DITADURA ESCANCARADA
Range!, Medalha do Pacificador de 1971, era levado nu para os 
interrogatrios. Quando o cabo Antonio Jos Soares deixou a 
geladeira e recebeu a visita da mulher, soube que os colegas 
a haviam assediado. A incomunicabilidade de Euclides 
Nascimento s foi quebrada porque ele teve um distrbio 
cardaco. Dois contrabandistas saram com pneumo nia, outro 
passou nove meses em tratamento psiquitrico. Pelo menos um 
saiu da priso para o hospital militar da Vila. No Manuel 
Portugus deram um soco que lhe tirou um dente. Depois de 
apanhar e conhecer as duas celas especiais do DOI, o detetive 
Newton Moreira Lopes resumiria
a experincia: Aps ser liberado, no mais voltou ao quartel 
da Baro de  Mesquita, no passando sequer pela porta.
Na primeira instncia da Justia Militar, o processo dos 
contrabandistas teve uma trajetria absurda. Em menos de dois 
meses os 24 mdiciados estavam soltos. A 2 Auditoria do 
Exrcito rejeitou a denncia da promotoria, entendendo que se 
tratava de um caso de contrabando, cri me comum de 
competncia da Justia Civil. O Superior Tribunal Militar 
revogou a deciso, e reabriu-se o processo. Todos os 
indiciados disseram em juzo que o coronel do 1PM lhes 
extorquira as confisses. A maioria deles sustentou que, 
surrados, assinaram os papis sem l-los. Num procedimento 
indito, os oficiais do Conselho de Justia decidiram que o 
processo tramitaria em segredo. Durante o julgamento a 
promotoria jogou a toalha, e, em maio de 1979, os 21 acusados 
foram absolvidos. O caso voltou ao STM, cinco ministros 
recusaram-se a relat-lo, e, por unanimidade, confirmou-se a 
absolvio. A sentena baseou-se num s argumento: Tudo o 
que se apurou nestes autos, o foi, exclusivamente, atravs de 
confisses, declaraes e depoimentos extrajudiciais, 
retratados e desmentidos posteriormente em juzo, sob a 
alegao de violncias e ameaas pra ticadas durante o IPM
49 Apelao 42476-8, STM, Auto de Qualificao e de 
Interrogatrio de Valter da Silva Rangel, vol.
2, p. 850.
50 Apelao 42476-8, STM, Auto de Qualificao e de 
Interrogatrio de Antonio Jos Soares, p. 860.
51 Apelao 42 476-8, STM, Auto de Qualificao e de 
Interrogatrio de Manoel da Cunha Go mes, 906.
52 Apelao 42 476-8, STM, declarao de Newton Moreira 
Lopes, p. 1156.
53 Apelao 42 476-8, STM, voto do relator Jorge Alberto 
Romeiro, pp. 2253-63.
A GANGRENA373
Para que o coronel Aloysio Alves Borges construsse toda a 
trama denunciada em seu 1PM tirando de sua cabea cada 
histria e cada detalhe, seria necessrio que tivesse raro 
talento de ficcionista. O que ele informou era verdade, mas 
reconstitura os delitos atravs de um processo que 
violentara os direitos dos acusados e ofendera o rito da 
Justia. A idia de que a confisso  insuficiente como prova 
e de que obt-la pela violncia anula o esforo da 
investigao, era estranha a ele, aos rus, ao DOI e ao 
regime. Agia-se com uma noo exclusiva de poder outorgando-
se no s o direito de punir delinqentes da forma que 
parecesse adequada, como tambm a prerrogativa de fechar os 
olhos quando se julgasse conveniente. S isso explica que 
ningum tenha desconfiado da sindicncia sumria do coronel 
Caldeira, que inocentara os militares. O STM achou justo 
desconsiderar as confisses obtidas no DOI, mas esqueceu- se 
de determinar a investigao das torturas. O capuz da Justia 
Militar estava torto: cego para a esquerda, enxergava  
direita. Milhares de pessoas passaram pelos DOIS, mas a 
quadrilha de contrabandistas da PE foi o nico grupo confesso 
na instruo policial integralmente absolvido em todas as 
instncias judiciais.
Coube ao bicheiro Tio Patinhas consertar a vida de Ailton 
Guimares Jorge. Chamava-se Angelo Maria Longa, era o maior 
banqueiro de bicho do Rio de Janeiro. O processo do 
contrabando ainda tramitava, e o nome do capito estava no 
Almanaque do Exrcito quando ele se transferiu formalmente 
para a contraveno, levando a patente por apelido e diversos 
colegas como colaboradores. Comeou como gerente do banqueiro 
Guto, sob cujo controle estavam quatro municpios 
fluminenses. Um dia trs visitantes misteriosos tiraram Guto 
de casa e sumiram com ele. Num ambiente em que os negcios 
raramente saem das famlias, Tio Patinhas passou-lhe a banca. 
Em trs anos o Capito Guimares foi de tenente a general, 
sentando-se no conselho dos sete grandes do bicho, redigindo 
as atas das reunies, delimitando as zonas dos pequenos 
banqueiros. Seu territrio estendeu-se de Niteri ao Es-
54 Entrevista do banqueiro de bicho Capito Guimares a O 
Globo de 23 de outubro de 1981.
55 O Globo, 25 de outubro de 1981.
56 Idem, 23 de outubro de 1981.
374 A DITADURA ESCANCARADA
prito Santo. Seguindo a etiqueta de legitimao social de 
seus pares, apadrinhou a escola de samba Unidos de Vila 
Isabel e virou a maior au toridade do Carnaval, presidindo a 
liga das escolas do Rio de Janeiro. Rico e famoso, adquiriu 
uma aparncia de rvore de Natal pelas cores de suas roupas e 
pelo ouro de seus cordes. Tornou-se um dos mais conhecidos 
comandantes da contraveno carioca. Do seu tempo da PE 
ficou-lhe o guarda-costas, um imenso ex-cabo que, como ele, 
comeara no crime organizado da represso poltica.
Os promotores paulistas conheciam as leis muito melhor que o 
coronel do 1PM do contrabando. Conheciam tambm a fora do 
delegado Fleury. Lentamente, com a inapelvel sistemtica do 
rito judicial, cercaram-no. No final de 1973 ele parecia 
perdido, com a priso preventiva decretada pelo assassinato 
de um traficante de txicos, mas o procurador- geral Oscar 
Xavier de Freitas tinha razo quando dizia que a sua 
impunidade era ponto de honra para os comandantes militares. 
S um remdio herico poderia salv-lo, e um remdio herico 
salvou-o. Em novembro de 1973, no crepsculo do governo 
Medici, providenciou-se uma nova redao para o artigo 594 do 
Cdigo de Processo Penal, determinando que os rus primrios, 
com bons antecedentes, depois de condenados, teriam direito 
 liberdade enquanto durasse a tramitao de seus recursos. 
Simples: abria-se uma porta para que o delegado respondesse 
em liberdade aos processos que Bicudo comeara a acumular. O 
mandado de priso preventiva caducara. Fleury estava livre.
Comeara-se transferindo aos tribunais militares o julgamento 
dos
crimes contra a segurana do Estado, mas isso pareceu pouco. 
Suspen
57 Reportagem de Mnica Freitas e Cesar Pinho, Jornal do 
Brasil, 13 de outubro de 1989, Cader no Cidade, pp. 1 e 3.
58 O artigo 594 do Cdigo de Processo Penal (decreto-lei n 
3689, de 3 de outubro de 1941) dis punha, originalmente: 
Art. 594. O ru no poder apelar sem recolher-se  priso, 
ou prestar fian a, salvo se condenado por crime de que se 
livre solto Alterado pelo artigo l lei n 5941, de 22 de 
novembro de 1973, ficou assim: Art. 594. O ru no poder 
apelar sem recolher-se  priso, ou prestar fiana, salvo se 
for primrio e de bons antecedentes, assim reconhecido na 
sentena condenatria, ou condenado por crime de que se livre 
solto.
A GANGRENA        375
deu-se o habeas corpus, e transformou-se a tortura em 
poltica de Estado, mas isso no era tudo. Protegendo-se das 
anomalias que provocara, a ditadura acobertara ladroagens de 
seus agentes, mas isso tambm no bastara. Tornara-se 
necessrio reformar a lei penal para assegurar a liber dade 
de um condenado.
A matana
Era a segunda vez que o major Rubens Paim Sampaio recorria ao 
tenente Amilcar Lobo, mdico do DOI. Na primeira, durante um 
intervalo de interrogatrio, pedira-lhe que fosse  sua casa 
examinar as filhas gmeas recm-nascidas, pois rejeitavam o 
leite materno. Desta vez, em maio de 1971, tratava-se de ir a 
Petrpolis cuidar de uma mulher atropelada em Cascadura. Lobo 
subiu a serra dois dias depois. Seu guia apresentou-se como 
Camaro e, ao entrar na cidade, deu-lhe um capuz preto. 
Quando o mdico o tirou, estava diante de uma casa branca, 
com um daqueles grandes telhados tpicos da arquitetura da 
regio. Encarapitada no alto de um morro, era a nica 
construo da vizinhana, O Dr. Teixeira veio  porta e 
levou-o para uma sala espaosa, com lareira. L, apresentou-o 
ao Dr. Nagib. Nenhum dos dois era mdico, e ambos eram 
majores do Centro de Informaes do Exrcito. Teixeira, o 
prprio Ru bens Sampaio. Nagib era Freddie Perdigo Pereira. 
Em 1968 militara na conexo clandestina do CIE e participara 
de pelo menos um atentado a bomba. Anexado ao DOI carioca, 
passara a interrogar e torturar presos. Mancava de uma perna 
desde que um terrorista lhe dera dois tiros durante uma 
batida.
1 Amilcar Lobo, A hora do lobo, a hora do carneiro, pp. 32-5.
2 Jos Amaral Argolo e outros, A direita explosiva no Brasil, 
p. 251. Trata-se da exploso do dep sito de papel do Jornal 
do Brasil, no Rio de Janeiro.
3 Depoimentos de Srgio Ubiratan Manes e Tania Chao, em 
Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 3: As torturas, pp. 
728 e 759.
378 A DITADURA ESCANCARADA
De acordo com as normas da casa, Lobo foi rebatizado e 
tornou-se Carneiro. A mulher estava num dos quartos, deitada 
no cho. Tinha dois grandes ferimentos, na barriga e numa 
coxa. Era Ins Etienne Romeu, a Alda da vAR-Palmares, 
seqestradora de Bucher, inquilina do aparelho da rua 
Taracatu, onde Carlos Lamarca salvara a vida do embaixador. 
Presa em So Paulo, dissera que no dia seguinte tinha um 
ponto no Rio de Janeiro. Deixada como isca numa rua de 
Cascadura, atirara-se contra um nibus. Levaram-na para o HCE 
e estavam interrogan do-a quando um oficial-mdico exigiu o 
encerramento da sesso at que se trouxesse uma autorizao 
do diretor. Assim como procedera em 1969 no caso de Chael 
Charles Schreier, o Hospital Central do Exrcito dissociou-se 
do poro. Seu diretor, em vez de autorizar o interrogatrio, 
visitou-a vrias vezes num s dia. Transferiram-na para o 
hospital Carlos Chagas e, de l, para a casa de Petrpolis.
Carneiro suturou os ferimentos da presa durante duas horas e 
voltou para o Rio de Janeiro com Teixeira. No caminho o major 
do CIE contou-lhe a histria da casa. Segundo as memrias de 
Amilcar Lobo, publicadas dezoito anos depois, o ministro 
Orlando Geisel ordenara a morte dos prisioneiros banidos que 
regressassem ao pas. A casa (rua Arthur Barbosa, 668) 
funcionaria como um aparelho de torturas e assassinatos.
O aparelho de Petrpolis  codinome Codo  era uma base do 
Centro de Informaes do Exrcito. Seria um erro cham-la de 
clandes
4 Amilcar Lobo, A hora do lobo, a hora do carneiro, p. 35.
5 Relatrio de Ins Etjenne Romeu, O Pasquim, n 607, 12 a 18 
de janeiro de 1981, pp. 4-5 e 26.
6 Amilcar Lobo, A hora do lobo, a hora do carneiro, p. 35.
7 Para o endereo, Isto, 11 de fevereiro de 1981.
8 Esse no foi o primeiro aparelho. Em 1969 o Centro de 
Informaes da Marinha operara uma base paralela numa casa em 
final de construo nas montanhas de So Conrado, no Rio de 
Janeiro. Nela foram torturados Ottoni Guimares Fernandes 
Junior e Eduardo Leite, o Bacuri. Ver Projeto Brasil: nunca 
mais, tomo v, vol. 3: As torturas, p. 405, Auto de 
Qualificao de Ottoni Guimares Fer nandes Junior, e tambm 
entrevista do ex-sargento Marival Chaves Dias do Canto a 
Expedito Filho, Veja, 18 de novembro de 1992, pp. 20-32. Para 
o codinome, Isto, 11 de fevereiro de 1981. Para a atri 
buio da casa ao dE, depoimento do general Adyr Fiza de 
Castro, em Maria Celina dAraujo, Glu cio Ary Dillon Soares 
e Celso Castro (orgs.), Os Anos de Chumbo, p. 68. Existiu 
outro aparelho, nu ma delegacia do Alto da Boa Vista. Em seu 
depoimento a Maria Celina dAraujo e Celso Castro (orgs.), 
Ernesto Geisel, p. 373, Geisel chamou a casa de Petrpolis de 
dependncia do cia
A MATANA        379
tina, O comandante da PE sabia de sua existncia. Em 1973, um 
general revelou a Geisel que havia outras instalaes, no 
Alto da Boa Vista. Os doutores que nelas operavam cumpriam 
escalas de servio do Centro, dentro da sua hierarquia e de 
acordo com seu comando. Era um dispositivo complementar aos 
DOIS. Estes, com todas as suas anomalias, vinculavam-se  
rotina administrativa do Exrcito. J o aparelho dispunha de 
uma autonomia outorgada pela chefia. No se tratava de 
operao avulsa, nem refletia o propsito de afastar a 
tortura dos quartis. Escalas de servio eram escalas de 
servio, e os atos l praticados influam na carreira dos 
doutores Teixeira e Nagib tinham a Medalha do Pacificador. 
O aparelho refletia onipotncia e anarquia, jamais 
indisciplina.
Indisciplina no CIE no havia. Seu chefe era o general Milton 
Tavares de Souza, o Miltinho. Uma sombra, s aparecia nos 
jornais trs vezes por ano, durante as reunies do Alto-
Comando do Exrcito, sentado atrs do general Orlando Geisel. 
Devotava-lhe total lealdade. Fizera uma carreira notvel. 
Como capito fora ferido em combate na Itlia. Em maro de 
1964 servia com o general Castello Branco no Estado-Maior do 
Exrcito. Vivia como um monge, sem frias nem vida social. 
Fisicamente frgil, nem sequer fazia o tipo do general 
bulioso. Como chefe do CIE foi um mudo.  dele a marca de 
ferocidade da represso. Passou pela vi da pblica sem 
revelar hbitos, gostos ou preferncias. Era surdo, cardaco, 
retrado e obsessivo. Depois de ter deixado o dE, no comando 
da 108 Regio Militar, disse um pouco do que pensava: Nada 
de importan te acontece no pas sem a ao dos comunistas. H 
uma poeira vermelha nos olhos do povo e de grande parte das 
autoridades brasileiras.  preciso que acordemos e encaremos 
o problema com a seriedade que ele merece, se no quisermos 
ser cmplices da queda do Brasil nas mos dos comunistas.  
uma opo que devemos fazer. Eu j fiz a minha. Prefiro 
morrer livre  escravido do partido comunista Achava que o 
movimento hippie era uma inveno de Moscou.
9 Dirio de Heitor Ferreira, 2 de agosto de 1973, APGCS/HF, e 
general Reynaido Meilo de Almeida,
agosto de 1998.
10 Conferncia do general Milton Tavares de Souza, comandante 
da 10 Regio Militar, na ADESG
do Maranho, O Estado de S. Paulo, 2 de outubro de 1976.
380        A DITADURA ESCANCARADA
Se durante o mandarinato de Orlando Geisel houve generais 
poderosos, Miltinho foi o mais forte entre todos. Refletindo 
a hipertrofia que a represso poltica impusera  estrutura 
do Exrcito, acumulou o comando do GTE com a chefia do 
gabinete do ministro. Seu GTE tinha em torno de 120 
militares. Cerca de sessenta eram oficiais, divididos entre a 
chefia e quatro sees. A maior  operaes  trabalhava com 
oito ou dez e cerca de 35 sargentos. Pode-se ter uma idia da 
escala desse efetivo sabendo-se que nessa poca o Gabinete 
Militar da Presidncia tinha 141 militares. O GTE funcionava 
no prdio do antigo quartel-gene ral, no Rio de Janeiro. Na 
teoria era um apndice do gabinete, sem ju risdio sobre os 
comandos. Na prtica fazia o que queria. Desautori zava o 
servio de propaganda da Presidncia patrocinando patriotadas 
como a campanha de divulgao do siogan Brasil, ame-o ou 
deixe-o De uma lista de oitenta ordens de censura  
imprensa colecionada pe la Polcia Federal entre agosto de 
1971 e janeiro de 73, doze saram do GTE. Em So Paulo o 
delegado Fleury era muito mais um operador do GIE do que um 
caudatrio do DOT.
Sob o comando do GTE, a mquina de represso do governo 
reorien tara-se na direo do extermnio. Estavam esquecidos 
os costumes de 1969, quando, mesmo havendo tortura e 
assassinatos, todos os dez terroristas que jogaram um 
caminho-bomba contra o QG do TT Exrcito sobrevive ram  
captura. A partir do segundo semestre de 1970 ocorre uma mu 
dana gradual em seu comportamento. Em 1971, prevalece o 
extermnio. Pelo menos na rea sob jurisdio do TI Exrcito, 
essa poltica est do cumentada. O general Vicente de Paulo 
Dale Coutinho, ex-comandante da 2 Regio Militar, descreveria 
a diretriz do seu colega Humberto de Souza Mello, que assumiu 
o comando do IT Exrcito em janeiro de 1971:
Eu vi em So Paulo, e justia se faa ao Humberto. Quando 
comeou o comando do Humberto, comeou a diminuir o terror, 
porque a ordem dele era matar. A ordem dele era matar
U Garta do general Octavio Gosta ao autor, de junho de T99T.
12 Maurcio Maia de Souza, Henfil e a censura  O papel dos 
jornalistas, pp. 67-74.
13 Gonversa do general Dale Goutinho com Geisel, fevereiro de 
1974.
A MATANA        381
Justia tambm fazia o general Humberto. Ia ao DOI com alguma 
fre qncia e, numa dessas ocasies, dissera ao Capito Jos 
Lisboa (delega do David dos Santos Arajo): Matem os 
terroristas, matem os carteiros que entregam suas cartas. Os 
familiares, os amigos, seja o que for. S no quero que morra 
nenhum de vocs.
Essa virulncia derivou de um processo racional, influenciado 
por circunstncias emocionais. Na noite de 2 de abril de 1971 
deu-se uma tra gdia na rua Niquelndia, no subrbio carioca 
de Campo Grande. Um cabo pra-quedista desconfiara do 
comportamento de um casal de vizi nhos e levara seu receio ao 
chefe da seo de informaes da Brigada Aeroterrestre. Cinco 
agentes entraram na casa suspeita durante a tarde e 
confirmaram: era um aparelho, quase um arsenal. Guardava uma 
sub- metralhadora, trs fuzis, trs pistolas, duas granadas e 
trs quilos de ex plosivos. Por volta das 22 horas havia 
sete militares e dois carros no bo queiro sem sada da 
pequena rua. Apareceu um txi com um casal, passou pela casa, 
fez um contorno e ia embora quando um automvel lhe fechou o 
caminho. Um agente saltou e pediu ao casal que se identi 
ficasse. A mulher abriu a bolsa e disparou. O major Jos 
Julio Toja Mar tinez Filho, 39 anos, foi alvejado no trax. A 
bala saiu abaixo da axila di reita. Estava morto. Era o 
primeiro oficial das Foras Armadas assassinado em ao pelo 
terrorismo. Filho de um coronel, deixara viva e quatro fi 
lhos, o mais novo com quatro anos.
14 Depoimento do delegado David dos Santos Arajo, em 
Percival de Souza, Autpsia do medo,
pp. 445-6.
13 Boletim Informativo n 02-71, Centro de Relaes Pblicas 
do Exrcito, 1971, pp. 12-3.
16 A descrio do episdio est na apostila Contra-Subverso, 
da Escola Nacional de Informaes,
de 1974. O autor teve acesso a esse documento, sem poder 
copi-lo.
17 Para o ferimento, O Globo, 5 de abril de 1971. A apostila 
da E5NI, Contra-Subverso, de 1974,
sugere que o tiroteio foi na noite de sexta-feira. O Globo 
diz que foi na madrugada de sbado. Pre valeceu a apostila. 
Para o pai, depoimento do general Leonidas Pires Gonalves, 
em Histrias do
poder, de Alberto Dines, Florestan Fernandes Jr. e Nelma 
Salomo (orgs.), vol. 1: Militares, Igreja
e sociedade civil, p. 363. Para outra narrativa do episdio, 
ver Alfredo Sirkis, Os carbonrios, p. 386.
382        A DITADURA ESCANCARADA
Marilena Vilias Boas Pinto, a ndia do MR-8, foi entregue ao 
DOI, e  possvel que a tenham levado para Petrpolis. 
Mataram-na com um tiro no pulmo. O relato do que sucedeu a 
Marilena antes que a assassinas sem chocou alguns dos 
companheiros de Toja. Os pra-quedistas no tiveram nada a 
ver com o que fizeram com ela. No caixo, estava arru mada, 
estava inteira, mas era enfeite, relataria catorze anos 
depois o co ronel Idyno Sardenberg.
A morte do major Toja transformou-se em prova da virulncia 
de um terrorismo encurralado. Marilena era uma veterana, mas 
a sua orga nizao, o MR-8, estava se desfazendo. Nas 
discusses tericas, o Oito es tava abandonando a tese da 
luta armada urbana.
Na rua Niquelndia tantos foram os erros cometidos pelos 
pra-que distas que, listados, transformaram-se em estudo de 
caso para a prpria Comunidade de Informaes. Eles no 
deveriam ter agido sem consul tar o rgo especializado No 
deveriam ter entrado na casa  tarde, e tendo-o feito, o 
certo seria ocup-la, em vez de vigi-la de fora com ape nas 
dois agentes. No deveriam ter estacionado os dois carros 
perto da casa, tampouco um nico agente poderia ter abordado 
o txi, muito me nos pedindo documentos aos suspeitos.
A despeito do impacto provocado pelo assassinato de Toja 
sobre a oficialidade, a poltica de extermnio e a criao de 
bases secretas deriva ram de uma nova apreciao da luta 
armada. No fim de seu governo, jus tificando a regra de 
entrar nos aparelhos atirando, Medici dizia que ma tando-se 
os terroristas, reduzia-se o nmero de presos e, com isso, o 
poder de barganha dos que continuavam em atividade.
Uma coisa seria entrar num aparelho atirando, sem 
contemplao
com quem estivesse l dentro, e outra, prender quem l dentro 
estives 18 Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 4: Os 
mortos, p. 277.
19 Coronel Idyno Sardenberg, fevereiro de 1985.
20 Apostila Contra-Subverso, da ESNI, de 1974.
21 Esse raciocnio foi feito por Medici a Geisel num de seus 
ltimos encontros. Geisel narrou-o
assim, em janeiro de 1974: Diz ele:  muito melhor morrerem 
eles que morrer um soldado ou
sargento nisso. Com isso tambm o nmero de presos diminuiu. 
Agora no pode mais estar bar ganhando.
r        A MATANA        383
se e mat-lo, sem contemplao, num canto do poro. Havia 
nexo no propsito. Quando os setenta presos trocados pelo 
embaixador suo des ceram no aeroporto de Santiago do Chile, 
criou-se um fantasma arit mtico: os 130 banidos dos quatro 
seqestros de diplomatas tornaram- se um efetivo superior ao 
de militantes armados em ao no Brasil, que
no chegavam a cem. Como havia cerca de quinhentos presos, 
temia- se que novos seqestros engrossassem a dispora, 
levando a uma situa o em que, tendo-se quebrado a espinha 
da guerrilha urbana, ela seria realimentada pelo retorno dos 
exilados, muitos deles reciclados em Cuba. Chegou a circular 
at uma conversa de marinheiros soviticos b bados segundo a 
qual a frota vermelha desembarcava banidos nos por tos 
brasileiros.
A sentena de morte contra os banidos autodocumenta-se. Entre 
1971
e 1973 foram capturados dez. Nenhum sobreviveu.
Ordenara-se tambm o assassnio dos cubanos nome dado aos 
militantes que regressavam de Havana. O Cenimar publicou 
confiden cialmente uma galeria com fotografias de 135 pessoas 
que tinham ido para a Ilha. O DOI de So Paulo produzira uma 
apostila ensinando a identific-los: Vestem-se sobriamente, 
usam cabelos curtos, carregam duas armas, seus documentos so 
muito bem falsificados, e reagem violentamente quando presos, 
coisa que no  normal nos demais ter roristasY
Entre 1966 e 1970 foram capturados 26 cubanos Dezoito 
continua ram vivos, e oito morreram. Entre 1971 e 1973 foram 
capturados pelo me-
22 Em junho de 1971, quando o Cabo Anselmo teve acesso ao 
arquivo do DOPS, o nmero de ati vistas e simpatizantes 
somava aproximadamente cem pessoas Depoimento de Jos 
Anselmo dos Santos a Percival de Souza, Eu, Cabo Anselmo, p. 
179.
23 O Globo, 10 de julho de 1970.
24 So eles: Aderval Coqueiro, Carlos Eduardo Pires Fleury, 
Joo Leonardo Rocha, Jeov Assis Gomes, Eudaido Gomes da 
Silva, Daniel Jos de Carvalho, Edmur Camargo, Joel Jos de 
Carva lho, Joo Batista Rita e Joaquim Pires Cerveira, os 
dois ltimos, seqestrados em Buenos Aires. 25 A Ao 
Subversiva no Brasil, marcado confidencial feito pelo 
Cenimar em maio de 1972. AA. Em 21 de novembro de 1972,01 
Exrcito encaminhou ao DOPS do Rio outro lbum, com 219 no 
mes. Denise Rollemberg, O apoio de Cuba  luta armada no 
Brasil, p. 11.
26 Jornal do Brasil, 17 de janeiro de 1992, p. 8.
384        A DITADURA ESCANCARADA
nos 32. Nesse perodo, descontando-se o Cabo Anselmo, que se 
tornou po licial, um quadro da ALN, que negociou sua 
libertao, dois outros, cujo paradeiro no se conhece, e uma 
jovem, que teria abandonado a militn cia, s um cubano 
sobreviveu ao poro.
As execues transbordaram as categorias dos banidos e dos 
cuba nos Segundo o Dr. Pepe, um dos matadores do GTE, o 
primeiro preso a morrer na casa (em maro de 1971, 47 dias 
antes do tiro da rua Nique lndia) foi Carlos Alberto Soares 
de Freitas. No era banido nem cuba no, mas dirigente da 
VAR-Palmares. Socilogo, vinha do trotskismo e fo ra o Breno 
da VPR. Pela sua miitncia, era uma cobra, nome dado pelos 
oficiais do DOI do Rio aos combatentes mais destacados. 
Finalmente, passou-se a matar todo aquele que no convinha 
deixar vivo. No final de maio Carneiro viu o Dr. Teixeira 
matar um preso na sala do aparelho. Era um jovem enlouquecido 
que via um tigre no jardim. Ningum sai com vida daqui 
explicou o major.
Os mortos de Petrpolis eram esquartejados e enterrados nas 
cer canias. Quantas pessoas morreram na rua Arthur Barbosa, 
no se sabe. Durante 96 dias de cativeiro, Ins Etienne Romeu 
listou pelo me nos cinco. Nessa mesma poca a conta do Dr. 
Teixeira estava em mais de dez.
27 Jos da Silva Tavares negociou sua libertao em troca da 
entrega de Joaquim Cmara Ferrei ra ao delegado Fleury (Jacob 
Gorender, Combate nas trevas, p. 218, e Percival de Souza, 
Autpsia do medo, p. 257). Boanerges de Souza Massa foi 
considerado um desaparecido poltico (Nilmrio Miranda e 
Carlos Tibrcio, Dos filhos deste solo, p. 154). Faltam dados 
a respeito de Benjamin de Oliveira Torres. Manha Anglica do 
Amaral teria abandonado a miitncia. Sobreviveu, depois de 
presa, Darci Toshiko Miaki. Nessa conta no se incluiu 
Cludio de Souza Ribeiro, que abandonou a militncia e, tendo 
matado a mulher numa crise de cimes, entregou-se  Polcia 
Civil. Para o seu caso, O Estado de S. Paulo, 13 de abril de 
1980.
28 Relatrio de Ins Etienne Romeu a O Pasquim, n 607, 12 a 
18 de janeiro de 1981.
29 Amilcar Lobo, A hora do lobo, a hora do carneiro, p. 37.
30 Para o esquartejamento, entrevista do sargento Marival 
Chaves Dias do Canto a Expedito Filho, Veja, 18 de navembro 
de 1992, pp. 20-32. Para o sepultamento, Amilcar Lobo, A hora 
do lobo, a ho ra do carneiro, p. 71.
31 Carlos Alberto Soares de Freitas, Alusio Palhano, Mariano 
Joaquim da Silva, Paulo de Tarso Celestino e Heleny Telhes 
Guaniba.
32 Amilcar Lobo, A hora do lobo, a hora do carneiro, p. 37.
A MATANA        385
Tornara-se difcil sair com vida em qualquer situao. 
Tateiam-se os nmeros do extermnio verificando-se que, s em 
1971, mataram-se cm qenta pessoas, contra 29 no ano 
anterior. Fechando-se o foco numa s organizao, a ALN, v-
se que teve 48 mortos durante toda a sua exis tncia. Em 1969 
e 70, seus anos de maior atividade, morreram doze de seus 
militantes. Entre 1971 e 1972, no declnio, morreram trinta.
De acordo com as estatsticas da polcia e das foras armadas 
ame ricanas o ndice de pessoas alvejadas na cabea em 
tiroteios  inferior a 5%. Isso para casos de uma s bala. 
Duas ou mais caracterizam as exe cues feitas por 
pistoleiros profissionais e denominam-se a marca da Mfia. 
Os laudos de 129 autpsias de mortos de 1969 a 1973, 
coletadas pelo projeto Brasil, nunca mais, produzem o 
seguinte quadro:
Ano
Mortos com
autpsia
conhecida
Mortos
com tiros*
Mortos
com tiros
na cabea
Mortos com
um s tiro
na cabea
Mortos com
dois ou mais
tiros na cabea
1969
20
9
1
1
O
1970
22
12
6
2
4
1971
33
21
6
4
2
1972
37
20
15
8
7
1973
17
8
4
2
2
* No necessariamente a causa mortis.
Fonte: Brasil, nunca mais, pesquisa de Alcidsio de Oliveira 
Jr.
(Esse quadro no leva em conta os mortos na guerrilha do 
Araguaia.)
O regresso das falanges da dispora era uma fantasia 
compartilha da pelos militantes que continuavam em ao. 
Desde o segundo semes tre de 1970 pouco restava das 
organizaes que um ano antes se mostra vam vigorosas. A ALN 
vira-se encurralada em So Paulo. Um de seus comandantes 
mandado por Havana para o Brasil acabou fugindo para a
33 Levantamento do autor, com base nos dados de Nilmrio 
Miranda e Carlos Tibrcio, Dosfi lhos deste solo, e no Dossi 
dos mortos e desaparecidos polticos a partir de 1964.
34 Brian Jenkins, dezembro de 1992.
386 A DITADURA ESCANCARADA
Sucia. Sem contatos, um de seus quadros mais ativos, o 
Vieira, com mais de vinte assaltos no pronturio, no tinha 
onde morar. Nos primeiros me ses de 1971 passava as noites 
dentro de nibus ou ia para Santos dormir
na praia.
Um levantamento das atividades de cinco organizaes em So 
Pau lo mostra que os assaltos a bancos caram de doze em 1970 
para sete em 71. J os assaltos a supermercados, dez em 1970, 
sobem para dezesseis no ano seguinte. Nesses dois anos a VAR-
Palmares no operou na rede ban cria paulista. Praticou doze 
assaltos, oito em supermercados e os outros at em fbrica de 
parafusos. Uma lista autocongratulatria, divulgada em Roma 
no incio de 1972, informava que no semestre as organizaes 
ar madas haviam praticado 33 aes em todo o pas, s seis em 
bancos. Bus caram fundos em duas boates, dois restaurantes e 
quatro postos da Lo teria Esportiva.
A VAR j reconhecera num documento interno que os 
combatentes, isolados e perseguidos, mal sobrevivem e no 
tm uma influncia deci siva sobre a realidade 
Surpreendentemente, seu texto foi divulgado pela agncia de 
notcias cubana Prensa Latina, sinalizando uma ponta de 
dvida na f de Havana em relao  capacidade divina dos 
revolucio nrios de fazerem a revoluo.
O paradigma da coluna cubana foi o Grupo Primavera, 
dissidncia da ALN nascida na Ilha. Tinha em torno de trinta 
quadros, o equivalente a cerca de 20% do total de brasileiros 
treinados em Havana. Comearam a retornar ao Brasil no incio 
de 1971. Pensavam em abrir uma nova frente de luta, mas 
transformaram-se em repasto do extermnio. Trs no embar
35 Denise Rollemberg, O apoio de Cuba  luta armada no 
Brasil, p. 48.
36 Francisco Carlos de Andrade, dezembro de 2000.
37 Para os assaltos de 1970 e 1971, Carlos Alberto Brilhante 
Ustra, Rompendo o silncio, pp. 219-
27, 326-7 e 329. Ustra ateve-se s aes praticadas por 
combatentes da ALN, VAR, MRT, REDE e Molipo
cujos nomes sabia.
38 Fronte Brasiliano dInformazione, n 2, fevereiro de 1972.
39 Telegrama da agncia Prensa Latina, de 6 de maio de 1971.
A MATANA        387
caram, e um desistiu durante a viagem. Pelo menos dezoito 
chegaram ao Brasil. Estavam vigiados desde a partida e foram 
descobertos com preciso e pontaria inditas. A infiltrao 
existente em Cuba no explica, por si s, a localizao de 
militantes meses depois de terem desembarcado no Bra sil, 
onde se espalharam na rotina da organizao. Dezesseis 
morreram. Con tando-se os militantes que se juntaram ao grupo 
quando ele chegou ao Bra sil, sobreviveram apenas seis 
pessoas, todas por terem escapado  captura.
Duas execues de cubanos esto documentadas pelo prprio 
Exrcito, amparadas nas verses fantsticas que as 
acompanhavam, des tinadas a encobrir a crueldade, mas tambm 
a exagerar riscos, exaltan do a coragem e a eficincia da 
tigrada
Em novembro de 1971 cercara-se um aparelho na rua Cervantes, 
em Vila Prudente. De suas quatro janelas sara a fuzilaria de 
duas submetra lhadoras e um rifle. A tropa calculara em 
quatro os atiradores, mas era um s: Jos Roberto Arantes de 
Almeida, 28 anos. Era o Gustavo do Mo lipo e chegara de Cuba 
fazia cerca de seis meses. Passara pelo Instituto Tecnolgico 
da Aeronutica, pelo PCB, pela vice-presidncia da UNE, pela 
Passeata dos Cem Mil e pelo arrasto de Ibina. Na rua 
Cervantes, fabri cava explosivos. A casa foi bombardeada com 
gs lacrimogneo e grana das. Segundo se ensinou na Escola 
Nacional de Informaes, a ttica re velara-se adequada, pois 
quando os agentes ocuparam o aparelho, encontraram seu 
cadver. Falso. A autpsia de Jos Roberto Arantes de Almeida 
informa que ele morreu com quatro tiros, todos na cabea. Os 
registros burocrticos do caso indicam que seu corpo chegou 
ao necro trio um dia depois do tiroteio, vindo do D0L
40 Terroristas com Curso em Cuba Situao em 21 de Junho de 
1972, do dE, CIE-S/103, e Informao
n 674/72 -II, Assunto: Grupo da Ilha, citado em Nilmrio 
Miranda e Carlos Tibrcio, Dos filhos
deste solo, pp. 127-30.
41 Denise Rollemberg, O apoio de Cuba  luta armada no 
Brasil, p. 59.
42 Apostila Contra-Subverso, da ESNI, de 1974. Para o tipo 
de armamento, Frei Betto, Batismo de
sangue, p. 86.
43 Apostila Contra-Subverso, da EsNI, de 1974.
44 Autpsia de Jos Carlos Pires de Andrade, identidade com a 
qual estava Jos Roberto Arantes
de Almeida, Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 4: Os 
mortos, p. 212.
45 Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio, Dos filhos deste solo, 
p. 133.
388 A DITADURA ESCANCARADA
No caso de Arantes, houvera ao menos o tiroteio. Em muitos 
casos, nem isso. Fazia-se uma encenao cartorial. O preso 
era assassinado, e seu cadver colocado numa situao que 
simulasse um confronto. Ou sim plesmente se inventava o 
confronto, dava-se baixa do preso, divulgava- se uma nota 
oficial, e a Censura fazia o resto.
Tamanha onipotncia na manipulao da realidade produziria 
dois casos patticos. De acordo com a documentao oficial, o 
cubano Fran cisco Jos de Oliveira chegou morto ao IML, com 
trs balas na cabea, de zoito horas antes do tiroteio em que 
teria sido alvejado. Outro cuba no, Frederico Eduardo Mayr, 
morre trs vezes. A primeira, a caminho do hospital depois 
de um tiroteio na avenida Paulista. A segunda, no dia 
seguinte, fugindo de um ponto no Jardim da Glria. A 
terceira, no mes mo dia, alvejado pelos colegas quando estava 
dentro de um carro, pre so. Na realidade, Mayr foi para o 
DOI, onde o fotografaram e ficharam, dando-lhe o nmero 1112. 
Tinha uma bala alojada debaixo da pele da barriga. O 
ferimento era to superficial que se podia apalpar o 
projtil. Conversava normalmente. Mataram-no com trs tiros 
no peito, perfu rando-lhe os dois pulmes.
Aos banidos e aos cubanos, juntavam-se na morte jurada os 
diri gentes das organizaes. Se o preso morria porque 
preenchia uma des sas condies, isso no significava que no 
as preenchendo, tinha a vida garantida. O jornalista Percival 
de Souza, em sua biografia de Srgio Fleury, narra um 
episdio em que o delegado, tendo levado um preso ao que 
supunha ser um ponto, impacientou-se: Aqui no vai 
aparecer mais ningum Matou-o dentro do automvel em que 
estavam. Fleury go vernava uma vala no cemitrio de Perus, 
administrada por um policial
46 Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio, Dos filhos deste solo, 
pp. 133-5.
47 Boletim das Turmas de Busca do DOI, 23 e 25 de fevereiro 
de 1972. Trechos udos ao autor. A
priso de Mayr na avenida Paulista est referida tambm na 
apostila Contra-Subverso, da E5NI,
de 1974.
48 Aviso 0024/MM, de 5 de fevereiro de 1993, do ministro da 
Marinha ao ministro da Justia, no
qual relatou os dados existentes nos arquivos da Fora a 
respeito dos desaparecidos
49 Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio, Dos filhos deste solo, 
p. 151, e Jos Carlos Giannini, 1987.
50 Projeto Brasil: nunca mais, tomo V, vol. 4: Os mortos, p. 
135.
51 Percival de Souza, Autpsia do medo, p. 173.
A MATANA        389
do DOPS. Entre 1971 e 1973, nela enterraram-se como 
indigentes, com no mes falsos e at mesmo com as identidades 
verdadeiras pelo menos 25 pessoas que haviam sido capturadas 
com vida. 52
Num sinal de que a ao da tigrada dissociara-se da ameaa, 
a p0- ltica de extermnio prosseguiu mesmo depois da 
primeira manifestao formal (ainda que verbal) de que o 
inimigo capitulava. No dia 14 de ja neiro de 1973 o jornal 
francs Le Monde publicou um documento assi nado por trs 
organizaes armadas (VAR, VPR e APML) reconhecendo que a 
luta armada, isolada, falhara. Falava numa guerra popular, 
mas a reme tia para o futuro remoto. No poderia haver dvida 
quanto  essncia do documento, pois tinha um quarto 
signatrio, o Partido. O regime ti vera a glria das festas 
do Sesquicentenrio da Independncia, via o apo geu do 
Milagre, mas a matana ganhara amplitude e ferocidade 
inditas. Entre dezembro de 1972 e outubro de 73 morreram 43 
pessoas. Delas, de zesseis em trs chacinas.
A matana de 1973 foi coadjuvada pelos militantes que o GTE 
trans formara em agentes infiltrados. A preciso e a armadura 
dos disfarces dos cachorros chegou ao extremo no caso da 
captura de Jos Carlos da Mata Machado, da APML. Sua histria 
foi contada pelo reprter Samarone Lima, em 1998, no 
emocionante livro Z  Jos Carlos Novais da Mata Machado. 
Vivera treze de seus 28 anos na militncia da esquerda catli 
ca,  qual pertencera seu pai, secretrio de Educao do 
governador Ma galhes Pinto e ex-deputado federal pelo MDB de 
Minas Gerais. Descen dia de um conselheiro do Imprio, 
constituinte de 1891, e tinha na sua biografia a marca da 
priso de Ibina, em 1968, ao preo de nove meses de cadeia. 
Casara-se com uma colega da AP usando codinome, numa ce 
rimnia celebrada por um ex-padre (suspenso das ordens) 
casado com
52 Para os 25 mortos, Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio, Dos 
filhos deste solo. Para a maneira
como Fleury cuidou do assunto, Percival de Souza, Autpsia do 
medo, pp. 179-84. Para a vala do
DOPS no cemitrio de Perus, ver Caco Barcellos, O Globo 
Reprter sobre a vala de Perus, em Ja nana Teles (org.), 
Mortos e desaparecidos polticos: reparao ou impunidade?, 
pp. 195-208.
53 Le Monde, 14 de janeiro de 1973.
54 Seis militantes do PCBR cujos corpos foram deixados numa 
rua do Graja em dezembro de
1972. Mais seis quadros da vpa no massacre da chcara So 
Bento, em Pernambuco, em janeiro
de 1973. Quatro presos do PCBR num carro explodido na praa 
da Sentinela, no Rio.
390        A DITADURA ESCANCARADA
uma ex-freira. Vivera em Fortaleza e no Recife, estruturando 
a organiza o, trabalhando como vendedor de roupas e 
sapatos, passando fome com a mulher e dois filhos. Fora 
Fernando, Hilrio, Alberto, Nando e Alusio. A APML no 
juntava trinta militantes.
Em agosto, quando o GTE j o seguia, admitira a possibilidade 
de exi lar-se. Foi para o Rio. Sua mulher teve um mau 
pressentimento. Descon fiara de que o prprio irmo, Gilberto 
Prata, fosse um cachorro:
 Voc est trabalhando para a represso?
 Que  isso, Mad. T me estranhando? [
Voc est com uma conversa de policial E...].
 Estou com vocs, Mad. Na mesma luta.
Jos Carlos saiu de casa com a roupa do corpo, empurrando um 
car rinho de beb vazio, e tocou-se para So Paulo. Vagou 
pela cidade por trs dias, sem comida, dormindo na rua, at 
que bateu  porta do advogado Hlio Navarro, amigo de seu 
pai. Conseguiu proteo, mas em pouco tem po foi novamente 
alcanado pelo cachorro Deveria partir para um es conderijo 
seguro no sbado, 19 de outubro de 1973. Foi preso na 
estrada.
Na noite do dia 27, Jos Carlos da Mata Machado foi visto na 
carce ragem do DOI do Recife. Horas depois, de cuecas, estava 
sentado numa sala, sangrando pela boca e pelos ouvidos, 
quando percebeu a entrada de outro preso. Disse-lhe: 
Companheiro... Meu nome  Jos Carlos Novais da Mata 
Machado. Sou dirigente nacional da Ao Popular Marxista-Le 
ninista. Se voc puder, se tiver condies, avise aos 
companheiros que eu no abri nada.
Dez anos depois, no Natal de 1983,0 cunhado de Jos Carlos, 
Gilber to Prata, sentou-se perto da irm, Mad, e contou-lhe: 
era o cachorro
55 Samarone Lima, Z, pp. 91, 112 e 196.
56 Idem, p. 155.
57 Idem, p. 15.
58 Idem,p.217.
A MATANA        391
Perpiexos diante do colapso da violncia romntica que 
construram, os sobreviventes fugiam de uma realidade em que, 
triunfante, estava o mundo da crueldade do Estado. Nesse 
processo degenerativo as linhas que separam os dois universos 
acabam por se confundir, produzindo um no vo tipo de 
ferocidade, dessa vez voltada tambm para dentro das pr 
prias organizaes. Problemtica centenria, foi retratada 
por Dostoivs ki em Os demnios, onde um dirigente terrorista 
ordena o assassinato de um colega contra o qual, no fundo, 
no tem muita coisa, simplesmente porque ningum tem o 
direito de abandonar a causa. No Partido de 1936, obcecado 
pelo fracasso do levante de novembro de 35 e com a quantidade 
de informaes acumuladas pela polcia, Luiz Carlos Prestes 
forou o assassinato de uma jovem analfabeta considerada 
delatora sem que houvesse contra ela uma s prova factual. Na 
guerrilha argentina de 1963, antes que seu Comandante Segundo 
sumisse no mato, executou- se um jovem combatente deprimido 
que retardava as marchas e se com portava mal. No Japo, 
sob o comando de uma bela enfermeira, a or ganizao Rengo 
Sekigun matou catorze de seus militantes, quer esfaqueando-
os, quer deixando-os amarrados na neve. No Exrcito Vermelho 
alemo vigorava o entendimento de que o nico caminho de 
sada da organizao era o tmulo.
No Brasil a autofagia terrorista prosperou na ALN. A 
organizao pas sara a se orgulhar do mote Dez vidas eu 
tivesse, dez vidas eu daria.
Em 1971, Mrcio Leite de Toledo, o Professor Pardal, Vicente, 
Carlos,
Carlo, achou que no valia mais a pena dar sua vida pela 
ALN. Tinha 26
59 Fjdor M. Dostoivski, Os demnios, p. 1286.
60 Jacob Gorender, Combate nas trevas, pp. 275-6. Marly de 
Almeida Gomes Vianna, Revolucio nrios de 35, pp. 292-8.
61 Ricardo Rojo, Meu amigo Che, p. 163. Ver tambm Jon Lee 
Anderson, Che Guevara, p. 578.
62 Ovid Demaris, Brothers in blood, p. 29. Ver tambm Walter 
Laqueur, The age of terrorism, p. 84.
63 Declarao de Michael Baumann, especialista em explosivos 
do Exrcito Vermelho. Em Jer rold M. Post, Terrorist psycho-
logic  Terrorist behavior as a product of psychological 
forces,
em Walter Reich (ed.), Origins of terrorism, p. 33.
64 Venceremos, n 1, abril-maio de 1971.
392 A DITADURA ESCANCARADA
anos, seu pai era dono de uma universidade no noroeste 
paulista e seu irmo, deputado federal governista. Estivera 
em Cuba e retornara em 1970, tornando-se membro da 
coordenadoria nacional da organizao, mas comportava-se 
estranhamente. Estava aterrorizado. Sumia, faltava aos 
encontros. Rebaixaram-no e ofereceram-lhe o exlio, mas ele 
recusou, informando que pretendia ficar no Brasil, desligado 
da luta armada.
No quarto alugado onde vivia, Pardal alinhara suas idias 
numa car ta que pretendia entregar  organizao: No vacilo 
e no tenho dvi das quanto s minhas convices. Continuarei 
trabalhando pela Revo luo, pois ela o meu nico 
compromisso. [ 1 Os companheiros ficaram sem saber o que 
fazer.
Alguns de seus companheiros reuniram-se num simulacro de tri 
bunal e decidiram o que fazer. Por seis votos a um a direo 
da ALN con denou-o  morte. Recolheram-no num ponto e 
mataram-no com oito tiros, na rua Caapava, em So Paulo. 
Mrcio caiu tapando o rosto com as mos.
A ALN explicou-se num panfleto: Ao assumir responsabilidades 
na organizao cada quadro deve analisar sua responsabilidade 
e seu pre paro. Depois disso, no se permitem recuos.
Reunido no Chile, o comando da VPR condenou  morte o Daniel 
do vale do Ribeira, dos seqestros de Von Hoileben e Bucher. 
Seu crime fora um acesso de recusmo, no qual ele chegara a 
propor que a orga nizao fosse desmobilizada. Herbert 
Eustquio de Carvalho salvou-se porque no havia contato 
entre o tribunal de Santiago e o que eventual- mente restasse 
da VPR no Brasil.
 ferocidade da tigrada correspondeu uma fase pistoleira 
dos ter roristas. Entre 1967 e 1972, alm de Mrcio Toledo a 
esquerda matou
65 Para a condenao, Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 
279. Para a carta, Jornal do Brasil,
7 de junho de 1987, reportagem de Valdir Sanches.
66 Depoimento de Carlos Eugnio Sarmento da Paz, em Lus Mir, 
A revoluo impossvel, pp.
586-7.
67 O Estado de S. Paulo, 16 de abril de 1971, e O 
assassinato de Mrcio Leite de Toledo da ALN:
<http://www.ternuma.com.br/aln.htm>.
68 Herbert Daniel, Passagem para o prximo sonho, p. 65.
A MATANA        393
a esquerda em duas ocasies. Primeiro foi um professor a quem 
atri buam a responsabilidade pela morte de um dirigente da 
ALN. Fuzila ram-no no colgio em que lecionava. Depois foi a 
vez de um ex-mili tante do PCBR sobre quem recaa a suspeita 
da responsabilidade pela descoberta de Mrio Alves; em 1970. 
Mataram-no enquanto estava atrs do balco do bar onde 
trabalhava, no Leblon.
A disciplina militar e a estrutura celular das organizaes 
armadas fizeram que  desarticulao das siglas 
correspondesse a transformao de algumas de suas bases em 
pequenas quadrilhas. Em 1971 sobrevi viam como grupos sem 
objetivos e com poucos propsitos alm do as salto seguinte, 
capaz de trazer comida para casa e de pagar os aluguis 
vencidos dos aparelhos.  dificil caracterizar o 
comportamento de mi litantes de grupos esquerdistas como 
quadrilheiro, pois diversas cama das de racionalizaes 
mascaram a decadncia poltica das organiza es insolventes. 
Mesmo assim, quando um pequeno grupo de militantes reduz sua 
atividade poltica a assaltos destinados apenas a sustentar-
lhe a precria clandestinidade, pouca diferena h entre um 
revolucionrio e um assaltante.
A histria do terrorismo brasileiro produziu pelo menos um 
caso confesso de banditismo. Foi a preparao do assalto  
casa de um contra bandista de dlares feita em 1971 por 
quadros da ALN em Santiago do Chi le. O assalto fracassou na 
fase preparatria, depois de um tiroteio numa tentativa de 
roubo de um automvel. Como contou Reinaldo Guarany, um dos 
planej adores, faramos a coisa como marginais Outros 
assaltos, bem- sucedidos, teriam transformado um dos 
terroristas em empresrio.
O cotidiano desses militantes era assombrado por delrios. O 
Otvio da VPR planejara jogar milhares de ratos na usina de 
Volta Redonda para
69 Foi o professor Francisco Jacques Alvarenga. Depoimento do 
general Adyr Fiza de Castro,
em Maria Celina dAraujo, Glucio Ary Dilion Soares e Celso 
Castro (orgs.), Os Anos de Chumbo,
pp. 78-9.
70 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 281.
71 Para um exemplo dessas dificuldades, depoimento de Ldia 
Guerlenda, em Luiz MakloufCar valho, Mulheres que foram  
luta armada, p. 244.
72 Reinaldo Guarany, A fuga, p. 108. Em entrevista a Denise 
Rollemberg, Guarany revelou que a
VPR e a ALN praticaram diversos assaltos no Chile. 
Rollemberg, Exlio, p. 155.



394 A DITADURA ESCANCARADA
sabotar a produo de ao do pas. Seu companheiro Felipe 
tinha pesadelos em que o Henrique do MRT morria pendurado num 
gancho de aougue. O Adolfo da ALN andava pelas ruas de 
Santiago falando com os amigos mortos.
O ltimo dos 63 fuzis FAL roubados por Lamarca no quartel de 
Quitana para a protofonia da insurreio de 1969 foi 
resgatado num terreno baldio de So Paulo em janeiro de 78. 
Estava enterrado com treze revlveres, duas carabinas e trs 
pistolas, e foi entregue ao DOI pelo Ari da VAR-Palmares, um 
revolucionrio que passara pela Universidade Patrice Lumumba, 
na Unio Sovitica, pelo Punto Gero, em Guba, e pela ALN, no 
Brasil. Reassumira sua identidade de Adilson Ferreira da 
Silva e, sem contatos nem comida, tornara-se assaltante na 
regio dos Jardins, em So Paulo, onde uma patrulha de ronda 
o capturou atracado com um corre tor de imveis que tentara 
roubar.
Os grupos terroristas brasileiros iam se destruir sozinhos, 
acaba riam empunhando bandeiras irrelevantes para as massas 
ou degene rariam em grupos de criminosos. O governo reagia 
contra seus prprios medos. Foi uma histria trgica e ao 
mesmo tempo pattica explica Brian Jenkins.
Nesse mundo de valores subvertidos houve pelo menos um caso 
de pai que entregou a filha ao DOI supondo que l seria 
honrado o acordo pelo qual no a torturariam. O deputado Jos 
Lindoso, vicelder do go verno, sustentava que havia uma 
serena energia na represso, na base da justia e da 
verdade mas no contava que fora barrado na porta do DOI de 
So Paulo quando tentou visitar o filho, militante da Ala 
Vermelha do ic do B e hspede da sala de torturas da rua 
Tutia. Do outro lado do
73 Emiliano Jos e Oldack Miranda, Lamarca, p. 110.
74 Para Adolfo, Reinaldo Guarany, A fuga, p. 111.
75 Carlos Amorim, Comando Vermelho, pp. 197-9.
76 Brian Jenkins, dezembro de 1989.
77 Informao dada ao autor por um oficial do Exrcito cujo 
nome fica preservado. Os depoi mentos dessa jovem, submetida 
a choques eltricos, permitiram que se puxasse um fio que 
leva ria ao desmantelamento da Ala Vermelha, depois que um 
dos seus dirigentes, com curso na Chi na, tornou-se agente 
policial.
78 Para o discurso do senador, Hlio Bicudo, Meu depoimento 
sobre o Esquadro da Morte, p. 249.
A MATANA        395
combate, um coordenador do grupo de fogo da ALN, com uma bala 
na garganta, descobriu que seus companheiros, sem terem como 
providen ciar assistncia mdica segura, decidiram deix-lo 
morrer. Veterano de nove assaltos, entregou-se  polcia e 
meses depois contou seu caso  im prensa:  bom, alis, falar 
que a cobertura da Oban tem sido decisiva na minha 
recuperao?
Em 1971, com uma impressora roubada num assalto, o que 
restava da ALN paulista acabara de publicar o primeiro nmero 
de seu jornal, in titulado Venceremos. A organizao tinha um 
novo smbolo: a mira te lescpica. A mira dos canhes que 
derrubam os helicpteros dos agres sores norte-americanos no 
Vietn e no Laos,.e dos fuzis que j esto em ao no Brasil 
Na primeira pgina trazia um retrato do empresrio Peri Igel, 
dono do grupo petroqumico Ultra, fornecedor das refeies 
Super gel do DOi: Este  o homem que paga aos carrascos da 
Oban Um gru po de terroristas descobriu que freqentava um 
edificio prximo ao Mu seu de Arte de So Paulo e planejou 
explodi-lo. Tinham 25 quilos de nitroglicerina estocados, mas 
Igel reforou sua segurana, e a idia foi aban donada. A 
priso de um veterano da ALN abortou um plano de explodir o 
prdio da Folha de S.Paulo. A organizao teria chegado a 
roubar um carro-tanque com 6 mil litros de gasolina. Carros 
da empresa eram em prestados ao DOI, que os usava como 
cobertura para transportar presos na busca de pontos, e o 
prprio autor da idia, depois de capturado, viu- se enfiado 
num deles.
Outro grupo estava de olho em Henning Albert Boilesen, um no 
ruegus que chegara a presidente da Ultrags e diretor da 
Federao das Indstrias do Estado de So Paulo. Era ativo 
colaborador do DOI. Parti cipara da campanha contra d. Helder 
Cmara junto  comisso do Pr mio Nobel. Ao contrrio de 
Peri Igel, seu patro, circulava sem segu rana nem cuidados. 
Na manh de 15 de abril, um Volks emparelhou com
79 Para o caso de Monir Tahan Sab, ver seu depoimento em 
Carlos Alberto Brilhante Ustra, Rompendo
o silncio, pp. 198-201.
80 Venceremos, n 1, abril-maio de 1971.
81 Francisco Carlos de Andrade, agosto de 1988.
82 Para o caso do Nobel, Nelson Piletti e Walter Praxedes, 
Dom Helder Cmara, p. 12.
396        A DITADURA ESCANCARADA
seu Galaxie azul, e luri Xavier Pereira, o Joozo, disparou 
um tiro de fu zil Mauser. A bala raspou sua cabea. Boilesen 
abriu a porta e correu al guns metros na contramo. Uma 
rajada de submetralhadora derrubou o. Joozo saiu para a 
rua. Tinha 1,90 m, cem quilos e 23 anos. Deu-lhe mais um 
tiro, que lhe destroou o lado esquerdo do rosto.
O surto terrorista brasileiro nada teve de incruento. Afora 
os seqes tros, depois de 1969 faltaram-lhe as sonhadas bases 
rurais e as aes es petaculares, mas abundaram as vtimas. 
Descontando-se os guerrilhei ros do Araguaia, morreram em 
torno de duzentos quadros das organizaes armadas que 
atuaram nas cidades. Essas organizaes mataram 36 agen tes 
annimos da ordem. Boa parte deles eram soldados e cabos das 
po lcias militares. Estavam na base da pirmide social, mas 
sustentavam a ordem da ditadura. O mesmo no se pode dizer de 
cerca de quinze guar das de bancos, carros-fortes e 
estabelecimentos comerciais. Morreram na cena das aes 
terroristas pelo menos outras dez pessoas que nada tinham a 
ver com a segurana dos locais onde estavam. Eram bancrios, 
comerciantes ou mesmo um cobrador de nibus. Num clculo 
conser vador  excluindo-se casos em que as pessoas possam 
ter sido atingidas por tiros disparados pela polcia  as 
mortes ligadas a aes terroristas ficam em torno de setenta. 
A esse nmero devem-se somar onze vti mas deliberadamente 
selecionadas, como foio caso de Boilesen. Pode-se estimar 
que, para cada cinco mortos na esquerda ligada a aes 
armadas nas cidades, essa mesma esquerda matou duas pessoas. 
O surto comea ra com atentados urdidos para matar o marechal 
Costa e Silva e o cap tor de Che Guevara. Terminou no segundo 
semestre de 1973 com o as sassinato de um professor de 
histria e de um dono de bar, ex-militantes da ALN e do PCBR 
sobre os quais recara a suspeita da traio.
O foco urbano estava aniquilado em 1972. Ao longo desse ano, 
aqui lo que restava da militncia armada de cinco 
organizaes praticara ape nas oito aes. J estavam 
assaltando at caixa de drogaria. Cinco anos de
83 Folha de S.Paulo, 16 de abril de 1971, eAssassinato de 
HennirigAlbert Boilesen, no stio Terrorismo
nunca mais, Ternuma, em outubro de 2000: 
<http://www.ternuma.com.br/boi1esen.htm>.
84 Para uma lista de vtimas do terrorismo, ver Carlos 
Alberto Brilhante Ustra, Rompendo o si lncio, pp. 183-93.
1
A MATANA        397
combates revolucionrios destinados a produzir uma guerrilha 
em que se formaria o exrcito popular da revoluo brasileira 
comearam e ter minaram como Che Guevara advertira: Se voc 
comea roubando ban cos, acaba virando assaltante de bancos
85 Em 1973 aquilo que restava dos grupos terroristas lanou-
se a uma poltica de execues. Em fevereiro mataram um dono 
de restaurante que teria denunciado uma mesa suspeita, 
provocan do a morte de quatro militantes da ALN. No ms 
seguinte, na mais conhecida ao vindicativa do perodo, um 
comando composto por trs terroristas da ALN, um do PCBR e 
outro da VAR assassi nou numa calada de Copacabana o 
delegado Octvio Gonalves Moreira Junior, chefe da seo de 
busca e apreenso do DO! de So Paulo.
A floresta dos homens sem alma
Rosa, morena mida, calava 33. Chamava-se Maria Clia 
Corra, tinha 26 anos, estudara na Faculdade Nacional de 
Filosofia e sustentara-se tra balhando em banco. Cristina, 
cearense de rosto redondo, abandonara o curso de biologia da 
Universidade Federal Fluminense. Despedira-se dos pais 
dizendo-lhes que talvez no a tivessem de volta. Era Jana 
Moroni Barroso. Tinha 21 anos.
Ambas chegaram ao Araguaia em 1971, para mudar o mundo. 
Viviam em casebres e davam aulas (inclusive de tiro) para as 
crianas do lugar. Desde 1966 o PC do B estocava militantes 
nas matas fechadas da regio do Bico do Papagaio, numa das 
ltimas frentes de expanso da socieda de brasileira. L 
juntam-se os rios Araguaia e Tocantins. Encontram-se a 
Amaznia, o Nordeste e o Brasil central. Formam o esturio 
dos fluxos de povoamento do Par, Maranho e Gois.
1 Depoimento de Cirene Moroni a Manchete de 22 de outubro de 
1988, p. 128, reportagem de H lio Contreiras, Ktia Pompeu, 
Fbio Antnio e Elsie Rotemberg.
2 A melhor documentao primria disponvel para o 
conhecimento da guerrilha do Araguaia encontra-se no stio do 
Centro de Documentao Eremias Delizoicov: 
<http://www.desaparecidos politicos.org.br>. Entre os dias 28 
de abril e 8 de julho de 1996, O Globo publicou uma documen 
tada srie de reportagens que lanou novas luzes sobre a 
guerrilha. Elas foram resultado do tra balho dos seguintes 
jornalistas: Adriana Barsotti, Amaury Ribeiro Jr., Ascnio 
Seleme, Aziz Filho, Cid Benjamin, Consuelo Dieguez, Daniel 
Hessel Teich, Florncia Costa, Letcia Helena, Maria Lima, 
Marta Barceilos, Mnica Gugliano e Ricardo Miranda.
3 Para as aulas de tiro de Jana Moroni Barroso, O Estado de 
S. Paulo de 18 de maio de 1996.
4 Na poca no existia o estado de Tocantins.
400 A DITADURA ESCANCARADA
Os quadros do c do B dividiram-se por trs reas, numa 
extenso de 130 quilmetros. Moviam-se numa superficie de 6,5 
mil quilmetros quadrados. At o primeiro semestre de 1972 
eles foram 59 homens e ca torze mulheres. Quando o Exrcito 
chegou, havia 69 na mata e sete a ca minho. Cinco a menos que 
a fora de Fidel ao alcanar o litoral cuba no, 26 
combatentes a mais do que Guevara tivera na Bolvia poucos 
anos antes. Seriam a centelha de uma guerra popular. Pela 
descrio dos do cumentos revolucionrios, entrariam num 
cenrio triunfal: As monta nhas e as florestas, as quebradas 
e os capes de mato, as grutas e as plan taes mais densas, 
abrigaro os hericos guerrilheiros, protegidos pela simpatia 
e pela violncia das massas.
O governo os atacara entre abril e outubro de 1972. 
Disfarara a ofen siva como se fora uma grande manobra. 
Rotativamente, mobilizara 3200 militares das trs Foras 
Armadas. Em agosto essa fora somara 1500 sol dados. Tomada 
pelo conjunto, fora a maior movimentao de tropas des de a 
formao da FEB. Maior, de longe, que a do levante de 1964. 
Maior tambm que trs das quatro expedies mandadas a 
Canudos. Resulta ra num miado de leo. As baixas dos 
militantes do pc do B ficaram em treze mortes e sete prises.
A tropa voltara em outubro de 1973. Dessa vez somava cerca de 
750 homens, divididos em grupos de 250 que se revezavam na 
zona de com bates. Estavam sob as ordens do dE. Eram 
comandados por oficiais e sar gentos das foras especiais e 
de elite do Exrcito, boa parte deles treina dos para a 
guerra na selva. Tinham ordens para no manter prisioneiros e 
prisioneiros no mantiveram. Em quatro meses derrotaram a 
guerri lha. Pela documentao conhecida, pode-se supor que no 
final de janei
5 Estavam a caminho: Joo Amazonas, Elza Monnerat, Eduardo 
Jos Monteiro Teixeira, Rioco
Kayano, Dagoberto Alves da Costa e outros dois no 
identificados. Ver Vernica Bercht, Corao
vermelho, pp. 112-3.
6 Partido Comunista do Brasil, Guerra popular, p. 153.
7 Jornal do Brasil, 22 de maro de 1992, p. 19, reportagem de 
Etevaldo Dias e Ronaldo Brasiliense.
8 Coronel Alvaro de Souza Pinheiro, Guerrilha na Amaznia: 
uma experincia no passado, o
presente e o futuro, edio brasileira da Military Review, 
janeiro-maro de 1995, pp. 58-79.
9 A terceira expedio, comandada pelo coronel Moreira Csar, 
tinha 1300 homens. A quarta, do
general Arthur Oscar, tinha 6500. Marco Antonio VilIa, 
Canudos  O povo da terra, pp. 199 e 201.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        401
ro de 1974 os quadros do ic do B no passavam de trinta. 
Dispersos, vagavam pela mata, como bichos. Sem caa nem 
mantimentos, alguns ali mentavam-se de polpa de babau.
Rosa e Cristina eram sobreviventes daquilo que fora o 
destacamen to A. Operara ao sul de Xambio. Tivera 22 
combatentes. No dia 2 de ja neiro o grupo em que estavam 
reunia cinco pessoas. Desfez-se sob a me tralha da tropa, por 
conta do barulho da lata em que um deles carregava alguns 
pepinos e uma abbora tirados a uma roa. As duas jovens 
embre nharam-se na floresta. Na sua narrativa do crepsculo 
da guerrilha que comandava, ngelo Arroyo, veterano 
sindicalista e dirigente do ic do B, registraria: No se 
sabe o que aconteceu com as duas companheiras
Jos Veloso de Andrade, um cearense que sobrevivera  seca de 
1932 e desmatava a regio desde 68, soube o que aconteceu a 
Cristina: Ela mor reu o seguinte: eles andava com uma 
equipe, a equipe do... chamavam ele Dr. Terra, que tudo era 
uns nomes vios, estramblicos, que eles tinham... A, 
toparam nela. [ No foi combate, ela... quando ela... eles 
pressenti ram o pessoal do Exrcito ela correu... [ Um guia 
atirou nela. Era o Z Catingueiro, atirou nela, deu chumbo, 
mas o chumbo era pequeno, e ela no morreu logo, mas ela 
morreu... A flor da subverso na boniteza.
Dona Maria da Metade, outra pioneira da ocupao daquele peda 
o de fim de mundo, estava no lugarejo de So Jos e viu o 
que aconte ceu a Rosa: Vinha dois homens com a Rosinha 
amarrada. E... 1 E ela to da trapiazinha, a roupa toda 
rasgada. [ Ela tava comendo at peixe cru que l na quitanda 
tinha, e deram bolacha pra ela e a ela queria fazer xixi e 
foi l pra detrs da casa. Ns fomos com ela porque os guias 
no que riam confiar... E ns fomos com ela e ela pedindo a 
ns que rezasse pra
o Njlmrio Miranda e Carlos Tibrcio, Dos filhos deste solo, 
p. 183, listam quarenta guerrilhei ros mortos a partir de 25 
de dezembro de 1973. Estimando-se que nesse dia tenham 
morrido cin co, no incio de janeiro seriam 35.
ti ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia em 
Guerrilha do Araguaia, p. 33.
12 Depoimento de Jos Veloso de Andrade a Romualdo Pessoa 
Campos Filho e Gilvane Felipe,
19 de janeiro de 1994. APRPF. O trabalho do Centro de 
Documentao Eremias Delizoicov,
<http://www.desaparecidospoliticos.org.br>, d ao leitor 
acesso a quase todos os testemunhos co nhecidos para o caso 
de cada guerrilheiro.
402 A DITADURA ESCANCARADA
ela no ser morta, pra no matarem ela. [ Ela no tava 
desesperada no,
tava calma, rindo e tudo mais. S tava assim maltrapilha 
demais
Manuel Leal Lima, o Vanu, mateiro de 35 anos, contou que 
estava  margem de um igarap quando um helicptero 
aterrissou trazendo trs presos. Tinham os olhos vendados. Um 
oficial mandou que andassem cin co passos. Metralharam-nos. 
Foi horroroso. As cabeas dos guerrilhei ros ficaram 
totalmente destrudas. Um deles era Rosa.
Rosa e Cristina ainda estavam vivas na manh de 18 de 
janeiro, quan do Ernesto Geisel, trs dias depois de sua 
eleio pelo Colgio Eleitoral, con versava com o chefe de 
sua segurana, tenente-coronel Germano Arnoldi Pedrozo, do 
dE. Conheciam-se desde 1964, quando ele fora seu ajudante de-
ordens. O general tomaria posse em maro. Queria notcias do 
Araguaia:
 Vem c. E como  que est aquela operao l em Altamira?
 L em Xambio? Tenho a impresso de que se prosseguir como 
tem sido executada, mais uns dois ou trs meses liquida-se 
aquilo l.
 Mas eles j conseguiram alguma coisa?
 Atualmente j pegaram quase que trinta.
 Trinta?
 Trinta. O efetivo mais ou menos estimado para l  da ordem 
de
180, 200.
E esses trinta, o que eles fizeram? Liquidaram? Tambm?
13 Depoimento de Maria Raimunda Rocha Veloso (Maria da 
Metade) a Romualdo Pessoa Cam pos Filho e Gilvane Felipe, 
janeiro de 1994. APRPCF. Rosa foi vista tambm por Agenor 
Moraes da Silva e Jos Moraes Silva; ver seus depoimentos, em 
Inquritos Civis Pblicos MPF/SP/N 03/2001, MPF/PA/N 01/2001 
e MPF/DF/N 05/2001. O Centro de Documentao Eremias 
Delizoicov registra trechos de depoimentos de quinze pessoas 
que viram Rosinha viva: <http://www.desaparecidos 
politicos.org.br/araguaia/m_celia.html>.
14 Depoimento de Manuel Leal Lima, o Vanu, em O Globo de 2 de 
maio de 1996. Cinco anos de pois, depondo aos procuradores 
que conduziram os Inquritos Civis Pblicos MPP/SP/N 03/200 
1, MPP/PA/N 01/2001 e MPF/DF/N 05/2001, Vanu no mencionou 
essa cena.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        403
Tambm.
 Hein?
 Alguns na prpria ao. E outros presos, depois. No tem 
jeito no.
 E os outros? No liquida porque no adianta?
 No. Porque no consegue apanhar. [ 1
 E a populao?
A populao vinha sendo trabalhada h muito tempo por eles. 
[
 A populao no tomou conhecimento dessas mortes, no?
 Deve tomar, deve tomar porque a coisa se processa com a 
presen a dos mateiros e se espalha logo. Mas eles j sabem, 
general, o principal  que agora eles sabem de cor que a 
maioria  terrorista, subversivo. J hou ve, eles fizeram 
logo no incio, um assalto a um distrito policial para rou 
bar armamento, mataram um polcia. A populao reagiu, ficou 
indigna da. Ento eles perderam um pouco esse apoio da 
populao.
 Foi uma burrice deles.
 Foi, porque eles contavam com o apoio. A populao  muito 
ig norante.
 A primeira condio da guerrilha  ter o apoio da 
populao.
 [ 1 Eles esto atrapados justamente por causa disso. Eles 
perde ram o apoio. Eles tinham depsitos com vveres e 
medicamentos. Grande parte desses depsitos j foram 
descobertos, foram desativados. Eles no tm recursos, 
praticamente. Deixaram de receber dinheiro. Recebiam cons 
tantemente, todo ms eles recebiam.
 Vinha de onde? Cubano?
 No, era gente que levava pessoalmente na rea.
 Onde era a sede, a direo deles, em So Paulo?
 A direo  do rc do B, Partido Comunista do Brasil. E 
eles tinham na rea um elemento da chamada comisso militar. 
Praticamente super visionava o trabalho ali na rea. Essa 
comisso tinha elementos do Rio e de So Paulo que se 
revezavam. Agora no deve estar mais atuando essa comisso. 
Esto praticamente soltos, abandonados. No recebem dinhei 
ro, no tm o apoio da populao. A maioria vive de 
sobrevivncia na sel
404        A DITADURA ESCANCARADA
va. Eu tenho a impresso de que mais dois, trs meses... A 
despeito de que
o cabea de l at hoje no pegaram, um tal de Osvaldo.
 Como ?
 Osvaldo. Um sujeito de quase dois metros de altura, 
oficial da re serva, do CPOR, tenente. Est l h seis anos 
na rea.
 Mas esse deve ser fcil de achar.
 Ah, mas esse est internado l na mata. Tem sada. A regio 
 mui to dificil. Se ele bater no Araguaia tem condies de 
escapar.  uma rea enorme, no h via de comunicao. [ A 
localidade est l no mapa. Vai ver so trs, quatro casinhas 
numa clareira no meio da selva.
 Qual  o objetivo deles ali, afinal?
 Pretendiam fazer uma zona liberada.
 Mas se no tem quase populao...
Tenho a impresso de que eles iam levando gente de fora para 
l.
Aproveitar a pouca populao e levando gente de fora, 
independente dis so faziam treinamento. [
 E eles iam para l como, de rio?
 Pelo rio. Normalmente entravam por So Geraldo, que  uma 
ci dadezinha em frente a Xambio. [ Na margem do Araguaia.
A narrativa de Pedrozo refletia o xito e os receios dos 
comandan tes militares. No seriam necessrios dois ou trs 
meses para encerrar as operaes. O efetivo dos guerrilheiros 
nunca chegara a cem. Poucos dias depois da conversa de Geisel 
com Pedrozo, ngelo Arroyo tomou o caminho de volta para a 
cidade. Furou o cerco acompanhado por dois guerrilheiros. 
Deixou para trs um pedao do seu grupo e um rono grama de 
pontos a serem cobertos a cada dias 12 e 15 dos meses se-
15 Conversa de Ernesto Geisel com Germano Arnoldi Pedrozo, 
janeiro de 1974.
16 Depoimento de Micheas Gomes de Almeida, o Zezinho, ou 
Zezim, em Romualdo Pessoa Cam pos Filho, Guerrilha do 
Araguaia, pp. 237-41. Arroyo deixou a mata com Micheas e um 
guerrilhei ro cuja identidade no se conhece.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        405
guintes. Dos outros, nada mais se sabia. Um deles era 
Osvaldo Orlan do da Costa, o Osvaldo.
Negro, tinha 35 anos, 1,98 m, barba enorme e calava 46. 
Filho de um padeiro, fora campeo de boxe no Botafogo e 
estudara engenharia na Uni versidade de Praga. Chegara ao 
Araguaia em 1966 e vivera no mato como garimpeiro e caador 
de peles, plantando-se mais tarde numa capoeira per to da 
margem de um rio. At refugiar-se na mata, tivera uma casa 
de pa lha. Aterrorizava os soldados, a ponto de o CIE ter 
recomendado aos seus agentes infiltrados na regio que 
evitassem confrontos, salvo se o achas sem, mas somente 
quando a possibilidade de xito no deixar dvidas. Teria 
matado um sargento. Organizara trs execues de civis, dois 
dos quais eram seus compadres. Tornara-se um mito de 
invulnerabilidade. Dizia- se que o Exrcito no o pegava 
porque, ao entrar na floresta, ele virava to co, mosquito, 
cachorro ou borboleta. (Lenda semelhante acompanhara Luiz 
Carlos Prestes pelo interior do pas nos anos 20. Ele seria 
imortal, e os de mais integrantes de sua coluna teriam o 
corpo fechado por feiticeiras.)
Um lavrador que lhe dera comida teve a roa incendiada e 
nunca mais foi VjStO.2 No final de dezembro de 1973, quando 
aquilo que sobrara do comando da guerrilha decidira sair da 
regio, Osvaldo perguntara: pa ra onde? Anos antes da 
derrota, propusera que se planejasse um recuo
17 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, pp. 32-3. Ar royo foi assassinado em 
So Paulo, em dezembro de 1976. Micheas Gomes de Almeida s 
reapa receu em 1996, em Goinia.
18 Para a capoeira, entrevista de Jos Genoino, em Palmrio 
Dria e outros, A guerrilha do Araguaia, p. 28. Para a barba, 
Anexo B (Informaes)  OP n 1 (Operao Sucuri), do tenente-
co ronel Carlos Sergio Torres, comandante da operao, 
assinado e rubricado pelo major Gilberto Airton Zenkner, de 
abril de 1973, fl. 7.
19 Plano de Informaes Sucuri, n 1, do dE, de abril de 1973, 
fi. 8.
20 Para a morte do sargento, Glnio S, Araguaia, p. 15. Para 
o fuzilamento de Pedro Mineiro e do campons Osmar, Romualdo 
Pessoa Campos Filho, Guerrilha do Araguaia, pp. 132-3. Para o 
compadrio de Osvaldo com Osmar, entrevista de Jos Veloso de 
Andrade a Romualdo Pessoa Cam pos Filho e Gilvane Felipe, 19 
de janeiro de 1994. APRPCF. Para a morte de um mateiro cuja 
execu o no consta do relatrio de Arroyo, Micheas Gomes de 
Almeida, maro de 2001. Para a iden tificao desse mateiro 
como Z Grande, compadre de Osvaldo, entrevista de Francisco 
Macid Lima a Romualdo Pessoa Campos Filho e Gilvane Felipe, 
19 de janeiro de 1994. APRPCF.
21 Entrevista de Madalena Lopes de Souza, viva de Jos 
Ribeiro Dourado, a O Globo de 5 de maio de 1996.
406
A DITADURA ESCANCARADA
para o Xingu. Batidos, no tinham rota de fuga. Sem 
suprimentos, te riam a floresta por inimiga. Restara-lhes a 
debandada.
Na tarde de 4 de fevereiro de 1974 Osvaldo estava sozinho, 
escon dido na floresta. Arlindo Vieira, o Piau, um jovem 
campons que co- laborara com os guerrilheiros, vinha  
frente de uma patrulha militar. Viu-o numa capoeira, sentado 
num tronco. Matou-o com um s tiro. O corpo enorme e 
depauperado do guerrilheiro morto foi pendurado num cabo e 
iado por um helicptero. Despencou. Amarraram-no de novo, e 
assim o povo da terra viu que Osvaldo se acabara. Antes de 
sepult-lo, cortaram-lhe a cabea.
O que se deu no Araguaia foi o paroxismo do choque dos 
radicalis mos ideolgicos que, com seus medos e fantasias, 
influenciaram a vida po ltica brasileira por quase uma 
dcada. A esquerda armada supusera que estava no caminho da 
revoluo socialista, e a ditadura militar acredita ra que 
havia uma revoluo socialista a caminho. At o incio do 
surto terrorista esse conflito ficara no campo dos receios e 
dos planos. Da em diante, um pedao da esquerda mostrara-se 
disposto ao combate a que julgava ter faltado em 1964. Ela se 
aprisionara numa ttica de choques ur banos deliberadamente 
isolacionista e fora esmigalhada pela violncia do Estado. 
Foi uma rebelio sem povo, num pas onde as grandes revoltas 
po pulares no tiveram a participao da elite. A histria 
brasileira registra confrontos armados sangrentos e 
duradouros entre o povo pobre e o po der. Nos maiores, 
ocorridos no serto de Canudos e nas matas do Con 22 
Depoimento de Micheas Gomes de Almeida, em Romualdo Pessoa 
Campos Filho, Guerrilha
do Araguaia, p. 240.
23 Para a ligao de Piau com a guerrilha, entrevista de 
dona Domingas a Romualdo Pessoa Campos Filho. AIRPCF. Para a 
cena da morte de Osvaldo, depoimento de Jos Rufmo Pinheiro, 
no Centro de Documentao Eremias Delizoicov: 
<http://www.desaparecidospoliticos.org.br/araguaia/ 
osvaldo.html>. Entrevista de Jos Veloso de Andrade a 
Romualdo Pessoa Campos Filho e Gilva ne Felipe, 19 de janeiro 
de 1994. APRPCF. Ele narrou a mesma cena ao reprter Amaury 
Ribeiro Jr. em O Globo de 29 de abril de 1996. Veloso de 
Andrade informou que ouviu essa narrativa de Arlindo Piau, 
seu compadre.
24 Depoimentos de Joaquina Pereira da Silva, em O Globo de 29 
de abril de 1996, e de Manuel Leal Lima, o Vanu, em O Globo 
de 2 de maio de 1996.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        407
testado, contaram-se em poucas dezenas os combatentes que 
sabiam ler
e escrever. Nas matas perdidas do Araguaia, o pc do B 
tornara-se a nica
 e derradeira  organizao poltica brasileira a ir buscar 
na violn cia das massas a energia vital de seu projeto 
comunista.
Enquanto a ditadura se confrontou com a esquerda nas grandes 
ci dades, fez o possvel para combater seus adversrios sem 
ferir a popula o, O general Medici orgulhara-se de no 
adotar condutas que 1...] ser vissem  tcnica subversiva do 
quanto pior, melhor, capazes de levar a uma escalada de 
represso Ameaara com uma resposta dura e impla cvel mas 
procurara demarc-la: Apenas contra o crime, e s contra os 
criminosos. Nas cidades, foram relativamente poucos os casos 
de pri so de pessoas que tinham contatos superficiais com 
quadros de organi zaes armadas. Salvo os saques de 
aparelhos e poucos casos de furtos em residncias de 
familiares de militantes, nas cidades jamais se atentou con 
tra a propriedade ou o patrimnio de amigos, de simpatizantes 
ou das fa mlias desses militantes. Houvera uma preocupao 
em aprofundar a re presso sem expandi-la. Nas matas do 
Araguaia a histria foi outra.
Era outro aquele mundo. Ali o Brasil Grande encontrava-se 
com lugar nenhum. Pouco mais de 20 mil habitantes, a 
populao do Leme, viviam numa rea pouco maior que a do 
Distrito Federal. Eram nordes tinos atrs de terras, 
garimpeiros procurando pedras, todos querendo tra balho. Na 
regio de garimpo onde Osvaldo se enfiara, viviam pessoas 
que tinham deixado os lugarejos prximos: Na rua no est 
dando para viver. No mato pode-se viver at nu. E l tem 
caa, pode-se plantar man dioca e criar galinha A liberdade 
tpica das fronteiras econmicas lhes parecia uma conquista, 
sempre ameaada pela besta-fera que traria o cativeiro. 
Amparada em prefeitos corruptos, incapazes e primrios, 
associados a uma polcia aptica e irresponsvel, diante de 
autoridades federais a servio dos grandes proprietrios, a 
besta j estava expulsan do camponeses. Famlias 
trabalhavam em fazendas por menos de um
25 Emilio Garrastaz Medici, Nova conscincia de Brasil, pp. 
89,90 e 91.
26 Otvio Guilherme Velho, Frentes de expanso e estrutura 
agrria, pp. 134 e 131.
27 Relatrio da Operao de Informaes Realizada pelo CIE no 
Sudeste do Par  Operao Sucuri,
de autoria do capito Sebastio Rodrigues de Moura, o Major 
Curi, de 24 de maio de 1974, fi. 14.
408        A DITADURA ESCANCARADA
salrio mnimo. Em seu estudo dessa regio, Otvio Guilherme 
Velho ve rificou que, na safra de 1968-69, uma caixa de 
fsforos custava Cr$ 0,50 na cidade e Cr$ 3,00 num barraco a 
trs dias de viagem, O hectolitro da castanha-do-par, 
principal produo do lugar, era comprado pelo fa zendeiro a 
Cr$ 4,50 no mato e vendido a Cr$ 6,00 na cidade. Valia Cr$ 
55,00 ao chegar a Belm. Enfim, o Eldorado da revolta 
popular.
A floresta tropical ganhara uma das jias da Coroa do Brasil 
Gran de Era a rodovia Transamaznica, cuja abertura fora 
decidida por Me dici nos primeiros meses de seu governo. Ela 
ligaria a cidade maranhen se de Imperatriz a Rio Branco, 
capital do Acre. As obras estavam na metade do caminho, e a 
estrada j passava por Marab, o maior povoa do da regio. O 
fim do mundo ficara mais perto. At o final de 1967, quando 
os militantes do rc do B estabelecidos na regio giravam em 
tor no de meia dzia, consumiam-se at dois dias para 
percorrer os 56 qui lmetros que separam de Marab a 
localidade de So Domingos. No ano seguinte, com a abertura 
de uma estrada, a viagem (de lotao) passou a demorar seis 
horas. A partir de outubro de 1971, com a Transamaz nica, 
fazia-se o percurso em uma hora, de nibus, ao preo de dois 
cru zeiros. A estrada atrara as correntes migratrias que a 
selva continha. No dizer de um morador: O negcio pro 
chegante est complicado. Pobre tem que andar [ 1. Quem j 
fez j fez, quem no fez no faz mais.
O rc do B fixara-se no Araguaia seguindo uma linha poltica 
e aten dendo a uma necessidade prtica. Sua defesa da luta 
armada era anterior  ditadura. Era tambm exclusiva. 
Rejeitara a idia do foco (concepo vo luntarista) e o 
conceito de revoluo continental (estranha ao marxis mo-
leninismo). No tinha negcios com Havana, muito menos com 
Moscou (camarilha de renegados). Entre 1964 e 1968, os 
chineses ha viam-lhe dado dezoito vagas em seus cursos de 
capacitao militar, mas desde o ano seguinte suas relaes 
com Pequim estavam frias. Seu san-
28 Otvio Guilherme Velho, Frentes de expanso e estrutura 
agrria, p. 84.
29 Idem, pp. 82, 84, 147-8 e 153.
30 Partido Comunista do Brasil, Guerra popular, pp. 137 e 
161.
31 Folha de S.Paulo de 22 de novembro de 1968 e Breve 
histrico das divergncias com o c da
China A Classe Operria, dezembro de 1978, pp. 11 e 17.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        409
turio externo mais prximo ficava a 8550 quilmetros de 
distncia, naAl bnia, o destacamento avanado do socialismo 
na Europa onde sobre vivia o derradeiro regime stalinista. 
Ponto de partida de uma guerra po pular que ainda no tinha 
data marcada para comear, a floresta serviu tambm para 
proteger militantes perseguidos pela polcia. Sem coletar 
fundos por meio de assaltos, o rc do B era pobre. Enfurnando-
se na Ama znia, um militante procurado pela polcia custava 
pouco e algum dia ren deria um combatente. A operao era 
mantida em sigilo. S alguns dos mem bros de sua comisso 
executiva sabiam onde ficava a rea prioritria para onde 
eram levados os militantes designados para a tarefa 
especial
At a primeira metade de 1968 havia em torno de quinze 
militantes estabelecidos em trs pontos diferentes da regio. 
Pelo menos sete tinham passado pelos cursos de capacitao na 
China. Dois possuam um bar co que fazia comrcio pelo rio. 
Outro era dono de farmcia. Havia um mdico (que passava por 
curandeiro) e uma quitandeira. Um pedreiro da Baixada 
Fluminense fizera-se mascate. Quase todos plantavam roas. 
Chefiavam-nos Mrio e o Velho Cid.
Mrio dirigia a comisso militar encarregada de conduzir as 
opera es. Era o baiano Maurcio Grabois, com 55 anos, quase 
quarenta de mi litncia comunista. Amigo de infncia de 
Carlos Marighella e, como ele, prisioneiro do Estado Novo. 
Comprara um pequeno stio e abrira uma tenda de comrcio. 
Tinha consigo o filho, a nora e um genro. O Velho Cid (ou Tio 
Cid) era Joo Amazonas, o secretrio-geral do rc do B, um 
revo lucionrio estico e frugal, cujo radicalismo poltico 
contrastava com a gentileza dos modos. Tinha 56 anos e 
conhecera a regio em 1941, quan do fugira de uma cadeia de 
Belm e subira o Tocantins de barco. Como Grabois e 
Marighella, fora constituinte de 1946.
32 Partido Comunista do Brasil, Guerra popular, p. 163.
33 Eram eles: Joo Carlos Haas Sobrinho, Paulo Mendes 
Rodrigues, Andr Grabois, Miguel Pe reira dos Santos, Micheas 
Gomes de Almeida, Nelson Piauhy Dourado e Divino Ferreira de 
Sou za. Afora Joo Amazonas e Grabois, recebidos oficialmente 
em Pequim.
34 Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro ps-1 930, 
coord. de Alzira Alves de Abreu e outros, vol.
3, pp. 2633-5.
35 Idem,vol. 1, pp. 209-10.
410        A DITADURA ESCANCARADA
Mrio e Cid eram dirigentes histricos do comunismo nacional, 
com sua tradio escolstica, agressiva e triunfalista nas 
palavras, mas quase sempre incruenta nas aes. Sua tropa 
tinha o impulso combativo da ju ventude das demais 
organizaes armadas. A idade mdia dos guerri lheiros estava 
abaixo de trinta anos. Cerca de 70% de seu efetivo era com 
posto por estudantes que haviam tomado as ruas em 1968. Mais 
da metade havia abandonado as universidades. Em pouco mais de 
trs anos, no meio da juventude, saltaram da militncia 
urbana para a clan destinidade. Dela, para o grande sonho da 
guerra popular amaznica. Cinco passaram por faculdades de 
medicina. Trs estudaram fisica e um deles, astronomia. Duas 
jovens abandonaram os cursos de letras, uma das quais 
matriculada nas cadeiras de alemo e japons. Outro tinha 
trs anos de qumica e um de teoria musical, o que o tornaria 
flautista do grupo. Dois guerrilheiros estiveram na diretoria 
da UNE. Outro presidi ra a Unio Paulista dos Estudantes 
Secundrios e pagara dois anos de crcere. Cinco haviam sido 
presidentes dos diretrios acadmicos de suas faculdades. 
Dezesseis passaram pela priso, oito deles no grande arras 
to de Ibina. Compunham dez matrimnios, dois pares e uma 
trinca de irmos: os Petit da Silva.
Lcio e Jaime Petit eram engenheiros. Um tinha 29 anos e o 
outro, 27. Ambos chegaram ao Araguaia com as mulheres. Regina 
estudara me dicina, e Regilena deixara o curso secundrio. A 
terceira irm, Maria L cia, de 22 anos, era professora. 
Quando percebeu que no teria tempo para conhecer um sobrinho 
que nasceria em So Paulo, dissera  me que fi cava melhor 
assim, pois seria uma pessoa a menos para sentir saudade.
Aos 22 anos, a baiana Mariadina explicara aos pais a escolha 
que
fizera, ao lado do marido (estudante de economia): S nos 
resta este ca minho e  com amor que vamos percorr-lo
36 Para os laos de parentesco, ver Neide Richopo, A 
esquerda no Brasil  Um estudo de caso
p. 130. A sua lista somei os casais Lcio Petit e Lcia 
Regina de Souza Martins, com base em O
Globo de 3 de maio de 1996, e Pedro e Tereza Albuquerque.
37 O Globo, 16 de maio de 1996.
38 Dinaelza Santana Coqueiro, 23 anos, estudante de 
geografia.
39 Movimento, 30 de julho a 5 de agosto de 1979, p. 2.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        411
Luiz fora preso no final da Passeata dos Cem Mil. Tinha 23 
anos quando chegou  floresta com uma sentena de seis meses 
de priso nas costas e uma revoluo na idia. Do mato, 
escrevera  famlia: No pos so largar tudo, seria atentar 
contra minha prpria conscincia. [ No momento s h uma 
sada, transformar esse pas, e o prprio governo  que nos 
obriga a ela. A violncia injusta gera a violncia justa. A 
violn cia reacionria  injusta, enquanto a violncia 
popular  justa porque es t a favor do progresso e da 
justia social. [ No se preocupem comi go, estou bem e 
seguro, no estou sozinho
Enquanto estiveram sozinhos e seguros, os guerrilheiros 
misturaram- se  populao. Juca, mdico, atendia doentes e 
ajudava nos mutires da roa. A vendeira Dma dava remdios e 
fazia partos. Dentro da eti queta do meio rural e da 
curiosidade recatada das fronteiras econmi cas, eram 
estimados pelo povo do lugar. Arlindo Pereira, o Arlindo 
Baleia, um pioneiro do final dos anos 50, resumiria esse 
sentimento: Eles eram umas boas pessoas, eu arrancava dentes 
com eles, extraa dentes. Eles compravam peles em minhas 
mos, de caititu, que naquele tempo era ven dvel, eles eram 
umas boas pessoas, tratavam bem a gente quando che gava na 
casa deles. Eles tinham de tudo na casa, de acar, sabo, 
sal, fu mo, agulhas, brilhantina.., essas coisas assim.
Apesar do esforo, no faziam sentido. Em algumas localidades 
chamavam-nos paulistas ou ainda povo da mata O prprio 
Arlindo no sabia o que eles faziam: Eles no diziam pra 
gente. [ No expli cavam pra ningum Ou, nas palavras do 
campons Pedro Zuza:  1 gente boa e sabida, que ns no 
temos essa teoria, sabedoria, aqui, por isso eu achava 
esquisito eles aqui Um comerciante suspeitou que fos 40 
Guilherme Gomes Lund, carioca, ex-aluno do Colgio Militar, 
estudante de arquitetura na UFRJ.
41 Carta de Guilherme Lund aos pais, de 2 de fevereiro de 
1970, em Vrios Autores; Documen tos do pc do B, Guerrilha do 
Ara guaia, p. 50.
42 Joo Carlos Haas Sobrinho, 31 anos, ex-presidente do 
Centro Acadmico da Faculdade de Me dicina da UFRGS.
43 Dinalva Oliveira Teixeira, 28 anos, geloga, formada pela 
UFBA.
44 Depoimento de Arlindo Pereira a Romualdo Pessoa Campos 
Filho, 22 de fevereiro de 1996. APRPCF.
45 Depoimento de Pedro Vicente Ferreira (Pedro Zuza) a 
Romualdo Pessoa Campos Filho, 19 de
janeiro de 1994. APRPCF.
412        A DITADURA ESCANCARADA
sem grileiros. Uma senhora convenceu-se de que as jovens que 
passa vam por sua casa e brincavam com seu filho eram gente 
de fora: E que no era gente -toa no. Era gente 
importante Talvez freiras. Quando Osvaldo disse a um 
vizinho que um jovem sobrinho do Velho Cid era bom de faco, 
o roceiro observou-o e respondeu: Deve ser bom mesmo  de 
caneta
Mesmo quando faziam parte de um pequeno ncleo, os guerrilhei 
ros viviam a quilmetros de distncia. Quatro numa posse, 
seis num castanhal ou um casal perto da beira de uma estrada. 
Plantavam arroz, inhame e mandioca. Criaram calos nas mos, 
tiveram febres. Apren diam a andar numa floresta onde uma 
caminhada de duzentos metros  suficiente para se perder o 
rumo da volta. No final de 1970 a maioria no completara um 
ano de vida rural. Ainda no se sentiam adaptados. Para a 
turma estabelecida na vizinhana do rio Gameleira a ltima 
noite do ano foi quase triste. Juntou menos de seis pessoas. 
Os demais no circu lavam com desembarao junto  populao, 
orientavam-se mal na ma ta ou estavam abatidos pela malria.
Depois de um ano de disciplina, no final de 1971 os 
guerrilheiros con seguiram organizar uma manobra com um 
efetivo de dezenove pessoas. Alguns estavam treinados a ponto 
de sarem em pequenos grupos para jor nadas de um ms na 
floresta, levando apenas suas armas, sal, farinha e mu nio. 
Adestravam-se para sobreviver. Estocavam alimentos, remdios 
e munies em pontos esparsos da mata. Viviam 
compartimentados. Um gru po no sabia onde estava ou o que 
fazia o outro. A confiana adquirida ao longo do ano animou o 
rveilion de 1972 na Gameleira. Teve veado- mateiro ao leite 
de castanha, paca e palmito de babau. Osvaldo recitou o 
poema 1-Juca Pirama, de Gonalves Dias, e todos cantaram 
Apesar de voc, de Chico Buarque de Hoflanda. Quando um 
grupo chegou cantan do a Internacional, o Velho Cid pulava de 
alegria.  meia-noite, saudaram
46 Depoimento de dona Amncia a Romualdo Pessoa Campos Filho, 
23 de julho de 1992. APRPCF.
47 Glnio S, Araguaia, p. 5.
48 Entrevista de Jos Genoino, em Palmrio Dria e outros, A 
guerrilha do Araguaia, p. 39.
49 Glnio S, Araguaia, p. 11.
50 Entrevista de Jos Genoino, em Palmrio Dria e outros, A 
guerrilha do Araguaia, p. 38.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        413
o ano com vinte tiros. Iam bem as coisas, e eles esperavam 
entrar em ao at dezembro. Sem mencionar o trabalho 
clandestino na floresta, o pc do B informava aos seus 
militantes urbanos: Amadurecem rapidamente as con dies 
para tornar uma realidade a guerra popular. [ Tudo indica que 
o povo se lanar em importantes batalhas e alcanar 
brilhantes vitrias
A guerrilha amaznica estivera nos projetos de todas as 
organiza es da esquerda armada, mas tambm nos cuidados de 
todos os gover nos da ditadura. Em agosto de 1964, passados 
apenas quatro meses da deposio de Goulart, o Exrcito 
mandara onze oficiais e doze sargentos ao centro de 
treinamento de operaes na selva mantido pelo governo 
americano no Panam. Desde 1969 o Estado-Maior baixara uma 
por taria contendo as instrues provisrias que formavam uma 
espcie de minimanual do contraguerrilheiro rural. Tinha 135 
pginas e ecos viet namitas. Em 1970, as trs Foras Armadas 
realizaram uma grande ma nobra na regio e, em operaes 
paralelas, desbarataram duas estrutu ras da ALN na rea do 
Bico do Papagaio. Um ano depois, com a mobilizao de apenas 
sessenta militares, desativaram-se outras duas propriedades, 
onde a VAR-PalmareS pretendia montar bases de treinamento. 
Eram projetos de guerrilhas assentados no conceito de posse 
fundiria da base da insurreio. Nos trs casos foi chegar, 
ver e prender.
O governo descobriu o projeto guerrilheiro do rc do B no 
incio de 1972. Soube disso por duas fontes diferentes. No 
se pode dizer qual foi
a primeira. Em novembro de 1971, o guerrilheiro Peri (Pedro 
Albuquer 51 Jos Genoino, novembro de 1992, e entrevista de 
Jos Genoino, em Palmrio Dria e outros,
A guerrilha do Araguaia, p. 39. Ver tambm Glnio S, 
Araguaia, p. 12.
52 Entrevista de Jos Genoino, em Palmrio Dria e outros, A 
guerrilha do Araguaia, p. 39.
53 Gilvne Felipe, A guerrilha do Araguaia (Brasil: 1966-
1975), cap. 11.3.1.
54 A lista dos estagirios da Escola das Amricas foi 
oficialmente liberada. Encontra-se na inter net, no seguinte 
endereo: <http://www.soaw.org/Graduates/br5496.htm>.
55 Ministrio do Exrcito, Instrues Provisrias IP 31-15 O 
Pequeno Escalo nas Operaes Con traguerrilhas, 
Estabelecimento general Gustavo Cordeiro de Farias, 1969. 
Para o eco vietnamita,
as descries de armadilhas e esconderijos das pginas 145 a 
147.
56 O Globo, 5 de abril de 1998.
414        A DITADURA ESCANCARADA
que) e sua mulher fugiram da mata. Em janeiro de 1972 ele 
viria a ser preso em Fortaleza. Um relatrio do GTE atribui-
lhe a indicao do fio da meada que levou os militares ao 
Araguaia. (Albuquerque sustentou que seus torturadores j 
tinham conhecimento da estrutura do c do B na regio.) A 
outra pista veio do Sul. A guerrilheira Regina, mulher de 
Lcio Petit da Silva, contrara hepatite e brucelose. Tambm 
em novem bro, fora levada a Anpolis e internada. Deveria 
retornar, mas foi para So Paulo. Manteve-se em contato com o 
partido e chegou a repassar-lhe ai guns remdios. Pressionada 
pela famlia, revelou ao Exrcito aquilo que sabia da rea 
prioritria
Informados da priso de Pedro, os guerrilheiros acautelaram-
se e passaram a dormir fora dos casebres, em barracas armadas 
no mato ou nas capoeiras. No deram maior importncia  
informao de uma dona de hotel de Xambio. Em maro ela 
avisara Geraldo da passa gem de agentes federais procurando 
forasteiros. Dada a abundncia de projetos revolucionrios 
existente na regio, acharam que aquilo no era com eles.
A tropa comeou a chegar no dia 12 de abril de 1972. Operava 
en tre Marab e Xambio. Em cada uma dessas cidades acampou 
um bata lho, cada um com quatrocentos homens. No interior da 
floresta insta laram-se seis bases de combate, cada uma com 
uma companhia. Em agosto chegaram a somar 1500 homens. Para 
consumo geral, partici pavam do Manobro, um exerccio 
chefiado pelo comando do TV Exr cito, com sede no Recife, a 
1600 quilmetros de distncia. Nele, camufla 57 Romualdo 
Pessoa Campos Filho, Guerrilha do Araguaia, p. 104.
58 Relatrio da Operao de Informaes Realizada pelo CIE no 
Sudeste do Pard  Operao
Sucuri, de autoria do capito Sebastio Rodrigues de Moura, o 
Major Curi, de 24 de maio de 1974,
e Relatrio Especial de Informaes n 2/12, citado no Jornal 
do Brasil de 22 de maro de 1992.
59 Romualdo Pessoa Campos Filho, Guerrilha do Araguaia, p. 
105.
60 Depoimento de Elza Monnerat a Romualdo Pessoa Campos 
Filho, abril de 1993. APRPCF.
61 Angelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, p. 19.
62 Jos Genoino Neto, 26 anos, ex-presidente do Diretrio 
Central de Estudantes da Universida de Federal do Cear.
63 Entrevista de Jos Genoino, em Palmrio Dria e Outros, A 
guerrilha do Araguaia, p. 41.
64 Coronel Alvaro de Souza Pinheiro, Guerrilha na Amaznia: 
uma experincia no passado, o
presente e o futuro, edio brasileira da Military Review, 
janeiro-maro de 1995, pp. 58-79.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        415
da, estava a Operao Papagaio, destinada a eliminar a 
guerrilha. Tinha em torno de oitocentos homens. Seu poder de 
fogo concentrava-se nas tropas profissionais e de elite. Do 
Rio de Janeiro vieram 26 combatentes das foras especiais da 
Brigada Pra-Quedista. Alm deles, havia cerca de cem homens 
do dE.
Entraram em quatro cidades e pelo menos dez lugarejos e 
fazendas. Montaram uma base area em Xambio e armaram postos 
de controle na Transamaznica e na BelmBraslia. O comando 
das operaes fi cou numa casa de telhado azul, encarapitada 
num barranco  margem do rio Itacainas, prximo a Marab.
Atacaram dois ncleos dos homens da mata O campons Jos Ve 
loso de Andrade lembra-se do resultado de uma das aes: No 
primei- ro ataque, na sede dos guerrilheiros, no lugar 
denominado Chega com Jeito, ento quando eles chegaram l no 
encontraram mais ningum, eles estavam escondidos. Mas tava o 
barraco... eles encontraram um touro me cnico, montado a 
pilha..,  com doze pilha, e uma metralhadora acaban do de 
aperfeioar
Tambm no havia vivalma no outro barraco, 130 quilmetros a 
su deste. Capturaram uma forja, ferramentas, um rdio, livros 
de medici na, panelas e farinha.
Os guerrilheiros enfiaram-se nos refgios armados na 
floresta. Piau, avisado por um campons, seguiu at onde 
pde no seu burro. Quando precisou entrar na mata fechada, 
deu-o a um conhecido: Se um dia eu aparecer, voc me 
entrega, e se eu nunca aparecer, ento voc fica com o 
burro. Antnio bateu  noite na casa de Maria da Metade e pe 
65 Para as foras especiais, Agnaldo dei Nero Augusto, A 
grande mentira, p. 429.
66 Entrevista de Jos Veloso de Andrade a Romualdo Pessoa 
Campos Filho e Gilvane Felipe, 19
de janeiro de 1994. APRPCF.
67 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, p. 20. Para a
forja, as ferramentas e os livros, A Ao Subversiva no 
Brasil, documento do Cenimar, de maio de
1972, p. 47.
68 Antnio de Pdua Costa, 28 anos, ex-aluno do Instituto de 
Fsica da UFRJ.
69 Depoimento de Jos Veloso de Andrade a Romualdo Pessoa 
Campos Filho e Gilvane Felipe,
19 de janeiro de 1994. APRPCF.
70 Antnio Ferreira Pinto, cerca de quarenta anos, ex-
alfaiate.

416        A DITADURA ESCANCARADA
diu-lhe que na manh seguinte fosse ao seu barraco para 
recolher um rdio e um toca-discos. Se no voltasse, podiam 
ficar. Ela lhe perguntou o que estava acontecendo: No, 
nada, ns vamos embora. At um dia deiest que vocs sabem O 
sentimento dos guerrilheiros diante da chegada dos militares 
ficou na memria de Geraldo: A frase que a gente mais ouvia 
era: Chegou a hora
Chegara a hora de 71 guerrilheiros, mas isso acontecera pela 
ao do inimigo. A guerrilha, cujo capital inicial est em 
surpreender o governo, fora surpreendida. Faltavam-lhe treze 
quadros para atingir a estrutura planejada pelo ic do B. 
Tambm no havia terminado a organizao dos depsitos 
clandestinos de mantimentos. Sua fora era composta por trs 
destacamentos (A, B e C). Cada um deles tinha dois chefes e 
por volta de vinte combatentes. Subdividiam-se em trs grupos 
de fogo, com cerca de meia dzia de pessoas. No topo da 
hierarquia, estavam os quatro dirigentes da comisso militar, 
oculta em outro ponto da mata.
Cada guerrilheiro tinha um revlver com quarentabalas. O 
conjunto dispunha ainda de quatro submetralhadoras, duas de 
confeco do mstica, mais 25 fuzis e rifles. Essas eram suas 
armas de guerra (menos de uma para cada dois guerrilheiros). 
Somando-se a elas trinta espingar das e quatro carabinas, as 
armas longas eram 63. Faltavam oito para que cada combatente 
tivesse a sua. Armamento escasso, de m qualidade balstica, 
bastava para pouco mais que a simples defesa pessol. Seu 
poder de fogo era inferior ao de quatro grupos de combate do 
Exrcito, cada um deles com nove homens armados de oito fuzis 
FAL e uma submetralhadora. Por velha, a maior parte do 
arsenal estava com defeito. A guer
 71 Entrevista de Maria Raimunda Rocha Veloso (Maria da 
Metade) a Romualdo Pessoa Campos
Filho e Gilvane Felipe, janeiro de 1994. APRPCF.
72 Depoimento de Micheas Gomes de Almeida a Romualdo Pessoa 
Campos Filho e Gilvane Felipe,
dezembro de 1996.
73 Coronel Alvaro de Souza Pinheiro, Guerrilha na Amaznia: 
uma experincia no passado, o
presente e o futuro, edio brasileira da Military Review, 
janeiro-maro de 1995, pp. 58-79.
74 Idem. Arroyo no d o nmero de rifles, espingardas e 
carabinas do destacamento C. Estimei
que nele houvesse a maior quantidade registrada em cada um 
dos outros dois destacamentos. Gl nio S d nmeros 
ligeiramente diferentes para o destacamento B. Estimei sempre 
o maior.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        417
rilheira Lena lembraria: O fuzil que eu usava, nossa! [ Pra 
acertar
naquela rvore tinha que atirar trs rvores depoisY
A precariedade de meios e o isolamento fisico eram 
parcialmente com pensados por um alento emocional. A cada 
dia, s vinte horas, a rdio de Tirana transmitia um programa 
de sessenta minutos, em portugus, in formando ao mundo que 
havia uma revolta camponesa no Brasil e nar rando os feitos 
dos guerrilheiros. Para espanto do Exrcito, o notici rio 
no s divulgava fatos verdadeiros, como se mostrava gil e 
atualizado. Era abastecido por um sistema de transmisso 
prximo, porm parale lo  guerrilha.
A Operao Papagaio comeou mal. No primeiro choque com a 
guerrilha uma patrulha desfez-se. Na tarde de 5 de maio, uma 
turma de informaes foi emboscada na beira de um riacho. 
Os guerrilheiros dispersaram a tropa, feriram um tenente, um 
sargento e mataram o cabo Odlio Cruz Rosa, da 58 Companhia 
de Guardas, de Belm. Num novo choque um soldado teria sido 
morto e um sargento, ferido. Um guia, o campons China, 
escondeu-se por dois dias num brejo e sumiu: Re solvi cair 
fora daquela guerra, porque se eu no morresse naquele dia, 
morria no dia seguinte, aquilo ia durar muito tempo. Os 
soldados no entendiam nadinha de mato
O maior xito dessa fase inicial da ofensiva militar passou 
desper cebido. Manteve fora da rea da guerrilha o Velho Cid, 
seu principal qua 75 Regilena da Silva Carvalho, 25 anos.
76 Depoimento de Regilena da Silva Carvalho, em Luiz Maklouf 
Carvalho, Mulheres que foram 
luta armada, p. 464.
77 A Classe Operria, maio de 1972. Davam-se duas 
transmisses de uma hora cada uma, s vin te e s 22 horas, e 
outras duas de meia hora, s quatro e s 18h30.
78 Coronel lvaro de Souza Pinheiro, Guerrilha na Amaznia: 
uma experincia no passado, o
presente e o futuro, edio brasileira da Military Review, 
janeiro-maro de 1995, pp. 58-79, e en trevista do coronel 
Pedro Correa Cabral a Euler Belm, Jornal Opo, 27 de junho 
de 2001.
79 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, p. 21.
80 Parte n 54-E2, de 15 de junho de 1972, do tenente-coronel 
Raul Augusto Borges, da 2
ao chefe do EMR/8. Para o ferimento do tenente e do sargento, 
Agnaldo del Nero Augusto, A grande
mentira, p. 429.
81 Depoimento de Jos Bezerra, o China, em Fernando Portela, 
Guerra de guerrilhas no Brasil,
pp. 25-6.
418        A DITADURA ESCANCARADA
dro poltico, e Dona Maria, veterana organizadora de sua 
estrutura. Ela vinha de So Paulo, trazendo novos 
combatentes. Entregou dois no ca minho e seguiu com os outros 
num nibus que deveria deix-los em Ma rab. Foram 
interceptados por uma patrulha militar, e um dos rapazes foi 
preso. Tinha consigo dois livros suspeitos (A estrada de 
Volokolansk e Um homem de verdade). Dona Maria voltou sozinha 
para Anpolis e foi para a rodoviria da cidade,  procura do 
Velho Cid, que tambm estava a caminho da rea especia1 Ela 
conta o encontro: O Amazonas pas sou olhando pra baixo, a 
eu olhei pra cima mas no me mexi, s olhei pra cima [ 1. 
Quando ele chegou mais perto eu fiz sinal pra ele que a coisa 
l estava feia. E...] Ento eu fiz assim um sinal pra ele e 
ele enten deu que pelo jeito estava cercado, eu fiz assim, 
fiz um sinal assim, mas com a mo l embaixo. [ 1 A o 
Amazonas ento saiu da rodoviria, atra vessou a rua e foi 
para um caf do outro 1ado De l, ele voltou para So Paulo.
Ao contrrio do que sucedera no enfrentamento com a esquerda 
ar mada das cidades, no Araguaia as coisas comearam 
diferentes. Os mili tares comportaram-se como uma fora de 
ocupao. O tamanho da mo bilizao e a conduta dos soldados 
assustaram o povo. Em Xambio prenderam tanto um lutador de 
circo, por seu cabelo comprido, como os comerciantes acusados 
de transacionar com os terroristas Um ven deiro foi 
amarrado num pau e exibido pelas ruas de So Joo do 
Araguaia. Uma patrulha capturou um fazendeiro capixaba que ia 
pelo mato  fren te de 22 pees e duas tropas de burros para 
se assentar numa terra que acabara de comprar. Foi colocado 
num helicptero e passou pelo seguin te: Pousamos num 
acampamento cercado por rolos enormes de arame farpado. 
Parecia aqueles campos de concentrao nazistas. Me desembar 
caram e me fizeram entrar num buraco fundo, de uns trs 
metros, esca 82 Elza de Lima Monnerat, ex-professora 
primria, com 59 anos e 27 de militncia Comunista,
chegara ao Araguaia no Natal de 1967.
83 Vernica Bercht, Corao vermelho, pp. 114-5.
84 Depoimento de Elza de Lima Monnerat a Romualdo Pessoa 
Campos Filho, abril de 1993. APRPCF.
85 Fernando Portela, Guerra de guerrilhas no Brasil, p. 48. 
Para o lutador de circo, depoimento do
padre Roberto de Valicourt a Romualdo Pessoa Campos Filho e 
Gilvane Felipe, 16 de janeiro de
1994. APRPCF.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        419
vado no cho. Em seguida puseram em cima uma tampa de 
madeira. Aqui lo virou noite
No dia 18 de maio chegou  delegacia de Xambio o barqueiro 
Lou rival Paulino, com cerca de 55 anos. Era acusado de 
colaborar com a guer rilha. Trs dias depois o sargento-
delegado informou que ele se enforca ra com uma corda.
Em termos operacionais, conseguira-se seccionar a linha de 
conta tos da guerrilha com o seu destacamento C. Disso 
resultaria o isolamen to de vinte combatentes, 25% do 
efetivo. Em menos de um ms, a tro pa capturou cinco 
guerrilheiros. Um caminhava pela Transamaznica depois de 
ter-se desligado da operao. Dois foram achados no mato, e 
dois outros foram denunciados por camponeses.
O Exrcito oferecia mil cruzeiros por paulista capturado. 
Era di nheiro suficiente para a compra de um pequeno pedao 
de terra. Esse tipo de incentivo, associado  intimidao, 
levou um campons a denun ciar um guerrilheiro com quem tinha 
boas relaes. Deveria entregar- lhe um rolo de fumo e avisou 
o Exrcito. Cinco paulistas foram para as proximidades do 
lugar onde deveria ser deixada a encomenda. Um deles, Jorge, 
aproximou-se. Ouviram-se trs rajadas. Bergson Gurjo Farias, 
25 anos, ex-aluno de qumica na Universidade Federal do 
Cear, tornou-se o primeiro desaparecido da guerrilha. O 
lavrador Pernambuco delatou Carlito, que parara num 
castanhal. Uma fistula de leishmanio se na perna impedia-o de 
caminhar, e ele pedira aos companheiros que o deixassem. Foi 
visto surrado, em cima de um burro. Mataram-no trs dias 
depois. Quando seu cadver foi fotografado, ainda tinha no 
pesco-
86 Depoimento de Jos Augusto Aranza, em O Globo de 28 de 
abril de 1996, reportagem de Ascnio
Seleme.
87 Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio, Dos filhos deste solo, 
p. 172.
88 Angelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, pp. 19-2 1.
89 Entrevistas de Danilo Monteiro (Miguel) e Luzia Reis 
(Baianinha) a O Globo de 28 de abril e
12 de maio de 1996, e Angelo Arroyo, Relatrio sobre a luta 
no Araguaia em Guerrilha do Ara guaia, p. 21.
90 Depoimentos de Amaro Lins e Joo de Deus Nazrio a 
Romualdo Pessoa Campos Filho. APRPCF.
91 Klber Lemos da Silva, trinta anos, economista.
420 A DITADURA ESCANCARADA
o a bssola que sempre trazia pendurada. Outro campons, 
Joo Coioi, tocaiou sua amiga Maria.
Era Maria Lcia Petit da Silva. Lena, sua cunhada, narrou a 
reao do irmo de Maria, que tambm estava na guerrilha, ao 
receber a not cia: A o Jaime caiu. Sabe o que  cair 
mesmo? Estava de calo, o cor po molhado, tinha tomado 
banho. Caiu e rolou nas folhas. Quando le vantou era uma 
figura terrvel, parecia um vegetal, em prantos. Eu joguei 
gua na cabea, no corpo dele. Tirei folha, terra, formiga. 
Parecia um bi cho ferido
Os militares enterraram Maria num cemitrio de Xambio, com o 
corpo embrulhado num pedao de pra-quedas e a cabea envolta 
em plstico. A ditadura fixara um padro de conduta. Fazia 
prisioneiros, mas no entregava cadveres. Jamais 
reconheceria que existissem. Quem morria, sumia. Esse 
comportamento no pode ser atribudo s dificul dades 
logsticas da regio, pois a tropa operava de acordo com uma 
ins truo escrita: Os PG (prisioneiros de guerra) falecidos 
devero ser se pultados em cemitrio escolhido e comunicado. 
Devero ser tomados os elementos de identificao (impresses 
digitais e fotografia)
Pouco depois da morte de Maria, Lena afastou-se de um grupo 
que
ouvia o noticirio noturno. O comandante do destacamento 
reclamou:
 Voc no vai ouvir a Tirana? [
 U. A Tirana est falando como se isso aqui fosse o Vietn 
e no  nada disso. Parece que  o Vietn, mas no .
92 Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio, Dos filhos deste solo, 
p. 174, e O Globo, 28 de abril de 1996.
Para a morte de Carlito, ver tambm Anexo A da Ordem de 
Operaes (Papagaio) (Exerccio), do
Comando do Grupamento de Operaes FFE, n 01-72, fi. 11. Para 
a delao, ngelo Arroyo,
Relatrio sobre a luta no Araguaia, em Guerrilha do 
Araguaia, p. 22.
93 Depoimento de Regilena da Silva Carvalho, em Luiz Maklouf 
Carvalho, Mulheres que foram 
luta armada, p. 463.
94 O Globo, 28 de abril de 1996, reportagem de Adriana 
Barsotti, Aziz Filho e Consuelo Dieguez.
95 Carta de Instruo 01/72, em Jornal do Brasil de 3 de 
dezembro de 1992.
96 Depoimento de Regilena da Silva Carvalho, em Luiz Maklouf 
Carvalho, Mulheres que foram 
luta armada, p. 464.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        421
Lena tinha 24 anos. Percebera o dilema que se apresentara aos 
guer rilheiros: Continuar naquilo pra mim significava a 
morte. Eu no esta va a fim de morrer Perdeu-se no mato, 
dormiu numa casca de palmei ra, saiu numa estradinha e chegou 
a uma casa de camponeses amigos. Notou que tinham mudado de 
atitude, mas mesmo assim pousou. Acor dou com o barulho do 
helicptero, fugiu descala e meteu-se de novo no mato. 
Rasgada e ferida por espinhos, na manh seguinte estava cheia 
de formigas, com os ps infeccionados. Improvisou um par de 
muletas e ca minhou de volta  casa de onde fugira. Trinta 
homens do lugar, todos ar mados, esperavam-na. Chegaram os 
pra-quedistas e o helicptero.  noi te Lena estava no 
buraco onde se guardavam presos em Xambio.
A priso do lutador cabeludo e o assassinato do barqueiro 
foram uma ostentao da fora da tropa. Em apenas duas 
semanas, ela ostentou tam bm sua opo poltica. No Dia de 
Corpus Christi, depois da missa, pren deram o padre Roberto 
de Valicourt, missionrio francs e ex-soldado na guerra 
colonial argelina. Ele chegara  regio em janeiro e 
enfrentara o prefeito da cidade, que envenenava as roas de 
posseiros para tomar- lhes as terras e d-las s filhas. 
Valicourt contaria:
A eles pegaram dois pra dar soco assim, na cara, nos ossos, 
e botavam os de dos nos olhos, e torcendo os braos, e 
batendo a cabea na parede, era pon tap na barriga, nos 
rins, eu fiquei bastante machucado. [ 1 Mentiroso, sa cana, 
safados  p, p, p,  porrada de todo jeito, e os soldados 
ficavam l quietos. Me disseram depois que alguns tavam 
chorando sabe? Porque os sol dados eram recrutas, do 
Planalto. [ Depois eles amarraram a gente com as cordas, 
atrs, nos braos atrs e pelo pescoo [ 1 e jogaram no jipe.
O propsito e o tamanho da mobilizao militar pressupunham 
uma operao que associasse surpresa, impacto e sucesso 
rpido. Inicial-
97 Depoimento de Regilena da Silva Carvalho, em Luiz Maklouf 
Carvalho, Mulheres que foram 
luta armada, pp. 465-8.
98 Depoimento do padre Roberto de Valicourt a Romualdo Pessoa 
Campos Filho e Gilvane Fe lipe, 16 de janeiro de 1994. 
APRPCF.
99 Idem.
422        A DITADURA ESCANCARADA
mente, a tropa da Marinha acreditou que a fatura estava 
liquidada. Em maio, um documento do Cenimar informava que, 
pelo menos na regio mencionada, os grupos foram 
desbaratados Passado o xito do pri meiro ms, a Operao 
Papagaio atolou. Junto  populao, o Exrcito teve 
colaboradores, mas no conseguiu apoio. Como recordou o 
coronel pra quedista Idyno Sardenberg: Os caboclos no 
colaboravam, ou se cola boravam, eram to prestativos com os 
federais, como eles diziam, quan to com os homens da 
mata, como eles chamavam aos guerrilheiros. Eles no queriam 
se meter.
Entre junho e julho a tropa retrara-se. Nada descobrira a 
respeito do destacamento A, e obtivera informaes 
incompletas a respeito do B. S conseguira localizar a rea 
de refgio do destacamento C. Um grupo de guerrilheiros 
passou duas semanas cercado, comendo carne crua e en 
charcado. Outro padeceu fome, diarrias e malrias O 
Exrcito combatera apenas o destacamento C, isolado e 
dividido. O chefe da co misso militar da guerrilha temeu 
pelo seu desmoronamento. Os sol dados enfrentaram seis 
vezes seus grupos dispersos e levaram vantagem em quatro. 
Deram-se dois outros combates, com guerrilheiros que o 
procuravam.
Em setembro comeou uma nova ofensiva, dessa vez com 3 mil ho 
mens.  diferena da primeira, durante a qual manteve 
relaes estri tamente policiais com a populao, o Exrcito 
cuidou de dissociar-se da besta-fera Desembarcaram 2,5 
toneladas de medicamentos e panfleta ram cartas de trs dos 
seis guerrilheiros presos pedindo aos companhei ros que se 
rendessem. Lena explicaria a sua: Podia ter dito no estou 
a fim de escrever Podia. [ Fiz duas linhas [ presa. Estou 
bem.
100 A Ao Subversiva no Brasil, documento do Cenimar, de 
maio de 1972, p. 48.
101 Coronel Idyno Sardenberg, fevereiro de 1985.
102 Relatrio da Operao de Informaes Realizada pelo CIE 
no Sudeste do Par  Operao Sucu ri, de autoria do capito 
Sebastio Rodrigues de Moura, o Major Curi, de 24 de maio de 
1974, fl. 2.
103 Depoimento de Crimia Schmidt, em Gilvane Felipe, A 
guerrilha do Araguaia (Brasil: 1966-
1975) cap. 11.4.
104 Glnio S, Araguaia, p. 16.
105 Carta de Maurcio Grabois, do final de 1972, em O Globo 
de 7 de abril de 1998.
106 Para o efetivo, Agnaldo dei Nero Augusto, A grande 
mentira, p. 430.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        423
Desistam dessa aventura Trouxeram tambem medicos, dentistas 
e re medios Obrigaram fazendeiros a reconhecer os direitos 
trabalhistas dos pees e vingaram humilhaes
A segunda investida teve resultados mais mediocres que os da 
ante rior. Programada para durar vinte dias, durou a metade, 
pois gastaram- se seis na adaptao da tropa e outros quatro 
foram perdidos com o can celamento antecipado da operao. A 
guerrilha atacou uma base do 2 Batalho de Infantaria de 
Selva e matou o sargento Mrio Abrahim da Silva. A fora 
militar no conseguiu chegar a um s refgio dos guer 
rilheiros Ao contrario do que ocorrera na primeira operao, 
a ajuda dos mateiros contratados a 25 cruzeiros por dia 
(cerca de oito vezes a remu nerao de uma jornada na roa) 
no produziu emboscadas bem-suce didas. Seus xitos 
resultaram sobretudo dos choques com guerrilhei ros que 
buscavam suprimentos. O Exrcito nunca revelou suas baixas 
nessas duas ofensivas. A escassa documentao oficial 
registra a morte do sar gento Abrahim e do cabo Odlio. 
ngelo Arroyo listou um sargento e dois soldados (afora a 
execuo de um morador da regio que servira de guia  tropa 
e cinco soldados feridos). Um mateiro foi alvejado na 
cabea.
Para os camponeses, a retirada da tropa representava uma 
vitria dos paulistas Escapar do Exrcito significava t-lo 
derrotado. Na me lhor tradio da guerrilha maosta, a fora 
de um revelara-se fraqueza e a fraqueza do outro, fora. Esse 
entendimento pode ser percebido na reao dos prprios 
mateiros que ajudaram a tropa. Joo Coioi juntou sua famlia 
e sumiu da regio. Outro bate-pau fingiu-se inepto: Eles iam 
embora e eu ia ficar na isca?. Um campons que guiara os 
mi-
107 Depoimento de Regilena da Silva Carvalho, em Luiz Makiouf 
Carvalho, Mulheres que foram
 luta armada, p. 473.
108 Agnaldo dei Nero Augusto, A grande mentira, pp. 438 e 
431.
109 Para o estipndio dos mateiros, Angelo Arroyo, Relatrio 
sobre a luta no Araguaia em Guerrilha
do Araguaia, p. 23.
110 Depoimento de ngelo Lopes de Souza, em Inquritos Civis 
Pblicos MPF/SP/N 03/200 1,
MPF/PA/N 01/2001 e MPF/DF/N- 05/2001.
111 Depoimento de Jos Veloso de Andrade a Romualdo Pessoa 
Campos Filho e Gilvane Felipe,
19 de janeiro de 1994. APRPCF. Para essa percepo pelo 
comando militar, ver Anexo B (Informaes)
 OP o 1 (Operao Sucuri), do tenente-coronel Carlos Sergio 
Torres, comandante da operao,
assinado e rubricado pelo major Gilberto Airton Zenkner, de 
abril de 1973, fi. 2.
424 A DITADURA ESCANCARADA
litares pelo mato, surpreendido casualmente por trs 
guerrilheiros, foi
assassinado.
Pelo nmero de mortos, a guerrilha pagou caro. Nenhuma de 
suas baixas resultou de aes ofensivas. Salvo o ataque  
base do 2 BIS, as em boscadas que planejaram nunca se 
realizaram. Entre abril e outubro de 1972 ela perdeu dezenove 
combatentes. Oito morreram em reas de com bate ou em 
emboscadas. Quatro foram assassinados depois da captu ra. 
Outros sete foram aprisionados e remetidos a Braslia.
O ltimo prisioneiro foi o guerrilheiro Glnio, capturado 
por cam poneses depois de vagar durante quase dois meses, 
perdido na floresta. Sua caminhada ilustra o apoio que a 
populao dava aos homens da mata Ele se perdera com 
munio para quatro tiros, meia caixa de fsforos e um faco. 
Dormiu em p, caminhou nu, comeu carne crua e delirou de 
malria. Esqulido, imundo e com vermes de gado num brao, 
recebeu ajuda num lugarejo, cinco roas e uma fazenda. Cruzou 
com dois matei ros que haviam guiado patrulhas militares. Um 
deles, Osmar, amigo de Osvaldo, deu-lhe carne de ona e 
pediu-lhe que relevasse sua atitude: fo ra obrigado a guiar 
os soldados. Glnio s foi trado no dcimo contato.
Os 52 paulistas que permaneceram na floresta criaram uma 
for te coeso: Era como se cada um fosse um pedao do outro 
Pelo me nos dez j haviam trocado tiros com os militares. 
Trs tinham sido feri dos. Entre eles surgia uma lenda que se 
somaria  de Osvaldo. Era a Dma. A geloga Dinalva Oliveira 
Teixeira estava na regio desde 1970, viven do como vendeira 
e ganhando estima como professora, dentista e par-
12 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, p. 22.
3 Morreram em reas de combate: Miguel Pereira dos Santos ( 
Cazuza), Jos Toledo de Oliveira (Vitor), Francisco Manoel 
Chaves (Z Francisco), Ciro Flvio Salasar Oliveira (Flvio), 
Joo Car los Haas Sobrinho e Manuel Jos Nurchis (Gil). 
Emboscados: Maria Lcia Petit e Idalsio Soares Aranha Filho.
14 Morreram depois de capturados: Bergson Gurjo Farias, 
Klber Lemos da Silva, Helenira Na zareth e Antnio Carlos 
Monteiro Teixeira. A eles se deve somar o barqueiro Lourival 
Paulino.
15 Foram aprisionados: Danilo Monteiro, Jos Genoino, Dower 
Cavalcanti, Dagoberto Alves da
Costa, Luzia Reis, Regilena da Silva Carvalho e Glnio S.
16 Glnio S, 22 anos, ex-estudante secundarista.
17 Depoimento de Micheas Gomes de Almeida a Romualdo Pessoa 
Campos Filho e Gilvane Fe lipe, 19 de dezembro de 1996. 
APRPCF.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        425
teira. Sobrevivera a trs enfrentamentos. Escapara de uma 
emboscada e alvejara no ombro o capito pra-quedista lvaro 
Pinheiro, de 28 anos, filho do general que comandava a Escola 
Nacional de Informaes. Sara ferida no pescoo. Fizera 
fama de valente e de boa atiradora.
Retirando-se em outubro, antes da chegada das chuvas que 
inundam a regio alterando-lhe o relevo, o chefe de uma parte 
da operao, gene ral Vianna Moog, registrou que o xito da 
manobra excedeu a expecta tiva deste comandante Repetiu 
diante dos terroristas do Araguaia o triunfalismo do 
general Carlos de Mesquita quando combateu os ban didos do 
Contestado, em 1914. Proclamou vitria e foi-se embora. Seu 
principal estrategista, o general Antonio Bandeira, da 3 
Brigada de In fantaria, trocou a mata pela mesa de diretor da 
Polcia Federal, onde se celebrizaria combatendo as 
composies de Chico Buarque de Hollan da. Numa projeo 
grosseira, se o desempenho de Vianna Moog e Ban deira pudesse 
ser medida de xito, o Exrcito precisaria de pelo menos
quatro anos para acabar com a guerrilha do Araguaia.
As operaes de 1972 resultaram num incompreensvel desastre 
mi litar. Conceitualmente disforme, a ofensiva acumulou quase 
todos os er ros que a situao permitia. Repetiu a ttica do 
martelo e bigorna, que fracassara em 1969, no vale do 
Ribeira. Nessas operaes, tenta-se con ter o inimigo numa 
posio (a bigorna) para esmag-lo com uma fora ofensiva (o 
martelo). No Araguaia, como no Ribeira, a bigorna revelou- se 
uma esponja. Chegou-se ao ponto de jogar bombas de gasolina 
ge 118 Para o ferimento do capito, Isto de 4 de setembro de 
1985, reportagem de Raymundo Costa.
119 Ofcio 1 19/SPC, de 2 de outubro de 1972, Jornal do 
Brasil de 3 de dezembro de 1992.
120 No caso do general Mesquita importa registrar que ele se 
retirou porque julgou que no lhe
competia andar com foras federais  caa de bandidos, como 
capito-do-mato do tempo da escra vatura Ademais, reclamou 
de descaso do governo para com os habitantes da regio. Paulo 
Ramos
Derengoski, Guerra no Contestado, p. 51.Ver tambm Marli 
Auras, Guerra do Contestado, pp. 93-9.
121 Para o uso da ttica, coronel Alvaro de Souza Pinheiro, 
Guerrilha na Amaznia: uma experin cia do passado, o 
presente e o futuro, edio brasileira da Military Review, 
janeiro-maro de 1995,
pp. 58-79. Para a ttica, Ministrio do Exrcito, Instrues 
Provisrias IP 31-15  O Pequeno Escalo
nas Operaes Contraguerrilhas, Estabelecimento general 
Gustavo Cordeiro de Farias, 1969, pp. 24-6.
426 A DITADURA ESCANCARADA
latinosa numa serra careca onde os guerrilheiros nunca haviam 
posto o
p. Pior: evitou-se entrar na selva. J coronel, tendo-se 
passado 23
anos, lvaro Pinheiro analisaria a derrota:
1. Concepo equivocada nos nveis operacional e ttico. [ No 
terre no da selva, as patrulhas se deslocavam com um efetivo 
de peloto, 35 a 40 homens, pelas trilhas, enquanto os grupos 
de guerrilha se deslo cam atravs da selva, com um efetivo de 
cinco a no mximo dez elemen
tos. 1...]
2. Falta de unidade de comando. Provocada, sobretudo, pelo 
fato de que a base de combate de Marab estava sob o controle 
do Comando Militar da Amaznia, enquanto a de Xambio estava 
sob o do Comando Mi litar do Planalto. [
3. Informaes deficientes sobre o terreno e o inimigo. No 
havia car tas nem fotos areas da regio de operaes em 
escala compatvel. O des conhecimento do terreno era enorme. 
As patrulhas se deslocavam somen te pelas trilhas, enquanto 
os guerrilheiros, profundos conhecedores do terreno, sempre 
atravs da selva.
4. Grande diversidade de unidades empregadas e deficincias 
no ades tramento. Unidades de diferentes pontos do territrio 
nacional foram em pregadas nesta fase. Algumas delas com 
graves deficincias no adestra mento em operaes de 
contraguerrilha em ambiente de selva. Muitas delas com 
efetivos constitudos por soldados recrutas.
5. Falta de continuidade nas operaes. Diferentemente da 
fora de guerrilha que j estava na rea h algum tempo e l 
permanecia, a tropa era empregada por perodos 
predeterminados, no mais de vinte dias, fin dos os quais 
retornava  sua sede, sem ser substituda.
122 Coronel Alvaro de Souza Pinheiro, Guerrilha na Amaznia: 
uma experincia no passado, o
presente e o futuro, edio brasileira da Military Review, 
janeiro-maro de 1995, pp. 58-79, Cita do por Luiz Maklouf 
Carvalho, em Folha de S.Paulo de 20 de abril de 1998.
123 Agnaldo del Nero Augusto, A grande mentira, pp. 430 e 
438.
124 Coronel lvaro de Souza Pinheiro, Guerrilha na Amaznia: 
uma experincia no passado, o
presente e o futuro, edio brasileira da Military Review, 
janeiro-maro de 1995, pp. 58-79.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        427
Dona Domingas, moradora de So Geraldo do Araguaia, viu os 
sol dados: Tudo recruta. Choravam, passavam aqui com o 
caminho cheio,
chorando. Deram-se alguns casos de desero.
No se conhecem as razes que levaram  concepo de um plano 
grandioso, inepto e intil. Pode-se apenas conjecturar que, 
no inicio do ano do Sesquicentenrio, os chefes militares e 
os generais envolvidos na operao quisessem produzir uma 
vitria militar digna do Brasil Gran de S um verniz 
napolenico explica, por exemplo, a ida do general Bre no 
Borges Fortes, chefe do Estado-Maior do Exrcito, a uma zona 
de ope raes onde trs generais e mais de mil soldados 
caavam, sem sucesso, algumas dezenas de guerrilheiros. O 
sargento Jos Pereira, do 1O Ba talho de Caadores, cuja 
patrulha matara trs combatentes e jogara seus cadveres na 
base de comando de um general, descreveu a rotina de um 
acampamento de apoio: A gente estava com as fardas rasgadas. 
Parecia que a gente estava no Vietn e eles estavam na 
Disneylndia. Estavam tran qilos, tomando banho. Todo mundo 
de calo Mais: Teve muito co ronel que no participou do 
combate  guerrilha, ficou fazendo a barba com gua mineral 
na beira do rio Araguaia
O disfarce da operao prejudicara seu desempenho militar sem 
trazer nenhum benefcio adicional ao que j lhe dava a 
censura  impren sa. O governo podia impedir a publicao dos 
panfletos do pc do B, mas no podia evitar que ele os 
produzisse. A guerrilha emitiu seu primeiro comunicado no dia 
25 de maio, e a Censura ratificou-o um ms depois, vetando 
notcias sobre movimentos de tropas na Amaznia. Em setem 
bro o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma longa e 
minuciosa re 125 Depoimento de dona Domingas a Romualdo 
Pessoa Campos Filho. APRPCF. Segundo o ge neral Agnaldo dei 
Nero Augusto, a maioria dos soldados mobilizados na ofensiva 
de setembro eram, de fato, recrutas. A grande mentira, p. 
430.
126 Jornal do Brasil, 22 de maro de 1992, p. 19.
127 O Estado de S. Paulo, J de outubro de 1972, p. 27. Nessa 
poca participavam da operao os generais Vianna Moog, 
Antonio Bandeira e Hugo Abreu, comandante da Brigada P 128 
Entrevista do ex-sargento Jos Pereira a Euler Belm, Jornal 
Opo, 9 a 15 de novembro de
1997. Esse episdio ocorreu em setembro de 1972.
129 Para o comunicado, Vrios Autores; Documentos do Pc do B, 
Guerrilha do Araguaia, pp. 34-
5. Para a Censura, Paolo Marconi, A censura poltica na 
imprensa brasileira  1968/1978, p. 241.
428        A DITADURA ESCANCARADA
portagem descrevendo a mobilizao militar. Dois dias depois, 
a guerri lha estava no The New York Times.
Os militares haviam-se envolvido num fiasco, mas isso no 
signifi cava que fossem incapazes de conhecer o inimigo. O 
Exrcito supunha que cada guerrilheiro tivesse um revlver e 
uma arma longa, mas perce bera a manuteno precria e a 
falta de munio. Na sua conta, cada com batente tinha apenas 
25 balas por revlver e pouco mais de vinte tiros por 
espingarda ou fuzil.
O capito-de-corveta Uriburu Lobo da Cruz, que colaborara no 
pa trulhamento do Araguaia, registrara em seu relatrio: 
Embora alguns elementos tenham realizado cursos de guerrilha 
no exterior, pode-se afirmar que os grupos terroristas no 
tm experincia de combate, esto precariamente armados e, 
para atenuar essas deficincias, buscam sem pre fugir ao 
contato com as tropas, mas persistem obstinadamente em 
permanecer na rea. Seu colega Rubens Almeida Moreira 
Piedras foi mais sucinto: O inimigo carece de armamento 
indispensvel para dar prosseguimento s aes.
Retirada a tropa e desfeito o segredo para os moradores da 
regio, o ic do B lanou-se na propaganda. Produziu uma 
Proclamao da Unio pela Liberdade e pelos Direitos do Povo. 
Anunciado como um documen to simples, acessvel s pessoas 
mais atrasadas, o manifesto tinha 4 mil palavras, entre as 
quais estagnado, urbanizao e ramos da adminis
1 
It
130 Essa reportagem, intitulada Em Xambio, a luta  contra 
a misria e a guerrilha, publicada em O Estado de S. Paulo 
de 24 de seter de 1972, p. 27,  do jornalista Fernando 
Portela. Ele  autor do primeiro livro sobre o episdio 
(Guerra de guerrilhas no Brasil). The New York Tmes, 26 de 
setembro de 1972.
131 Anexo B (Informaes)  OP n 1 (Operao Sucuri), do 
tenente-coronel Carlos Sergio Tor res, comandante da 
operao, assinado e rubricado pelo major Gilberto Airton 
Zenkner, de abril de 1973, fis. 12-3.
132 Anexo A da Ordem de Operaes (Papagaio) (Exerccio), do 
Comando do Grupamento de Ope raes FFE, de setembro de 1972, 
fi. 12.
133 Diretiva de Planejamento (Operao Papagaio) (Exerccio), 
Elementos Informativos de Informaes, CmdoDivAnf n 03/72, de 
setembro de 1972.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        429
trao. Seu texto traa o propsito propagandstico, 
destinado a criar nas grandes cidades a impresso de que 
comeara uma revoluo na sei va. Referindo-se ao terec e 
s pajelanas, seu autor julgou necessrio in formar: 
(religies da regio) Apresentava um programa de 27 pontos, 
doze dos quais se relacionavam com a justia e racionalidade 
na posse da terra, na produo e no trabalho. As iniciativas 
de educao e sade, respons veis pelo prestgio e pelo 
afeto conseguidos pelos homens da mata, tive ram apenas 
quatro referncias, numa das quais se incluiu a promessa de 
construo de pistas de atletismo. As redaes de jornais 
receberam uma Carta a um deputado federal Nela o Comando 
das Foras Guerrilheiras do Araguaia contava sua histria, 
turbinando fatos com fantasias: Pouco a pouco, cresceu o 
nmero de lutadores, homens e mulheres, organizan do-se a 
fora combatente Quando a proclamao foi escrita, a guerri 
lha tivera dez baixas, simpatia e nenhuma adeso efetiva. Um 
lavrador que participara de reunies com os paulistas 
recordaria: Eles falavam em co munismo, mas as pessoas no 
entendiam muito bem o que era aquilo
Grabois percebera o erro do inimigo ao mobilizar grandes 
efetivos. Lembrava que, ao contrrio do que sucedera cinco 
anos antes a Che Guevara nas matas bolivianas, no ficamos 
isolados Ressentia-se, con tudo, da posio defensiva em que 
agia. Tendo o fator surpresa ao seu la do, o Che partira para 
o ataque e, em trs semanas, matara dezessete sol dados e 
aprisionara 37 Apesar de tudo, Grabois estava otimista:
Podemos afirmar que as Foras Guerrilheiras, apesar das 
srias perdas so fridas, mantm sua capacidade de luta [  
certo que pagamos preo ele-
134 Para pessoas mais atrasadas A Classe Operria, n 76, 
agosto de 1973.
135 Modalidade de macumba, s vezes associada  magia negra, 
comum na regio.
136 Proclamao da Unio pela Liberdade e pelos Direitos do 
Povo, em Vrios Autores; Documen tos do pc do B, Guerrilha do 
Araguaia, pp. 45-9.
137 Carta a um deputado federal, em Vrios Autores; 
Documentos do Pc do B, Guerrilha do
Araguaia, pp. 35-8.
138 Depoimento de Jos Moraes Silva, em Inquritos Civis 
Pblicos MPF/SP/N 03/200 1, MPF/PA/N
01/2001 e MPF/DF/N 05/200 1.
139 Brian Loveman e Thomas M. Davies Jr., Case histories of 
guerrilla movements and political
change, em Che Guevara, Guerrilla warfare, p. 344.
1
430        A DITADURA ESCANCARADA
vado. Mas as coisas correram assim, e no como desejamos. No 
podemos pensar em ficar enfurnados na mata. Este deve ser 
nosso ponto de apoio para as aes militares e para o 
trabalho de propaganda [ as For as Guerrilheiras tm boas 
perspectivas de crescer e se consolidar, O mai or perigo est 
em ns mesmos, isto , na superestimao do inimigo e na 
subestimao de nossas reais possibilidades.
No mundo das paixes revolucionrias, os combatentes 
atingiram algo prximo da felicidade do guerrilheiro maosta, 
movendo-se no meio do povo como o peixe na gua. Na 
estimativa de um oficial do Exrcito, o inimigo tinha o apoio 
de oito em cada dez habitantes da regio e de quase todos os 
pequenos comerciantes. Noutro clculo dos militares, os 
guerrilheiros tiveram a adeso direta ou indireta de at 180 
morado res. O amparo derivava tanto da simpatia como do 
medo. Seis anos de postura samaritana dos quadros do c do B 
foram substitudos pela real identidade revolucionria. 
Reabasteceram as despensas e espalharam pe quenos depsitos 
de mantimentos pelos refgios por onde sabiam que haveriam de 
passar. At junho de 1973, recrutaram dois combatentes e 
formaram treze ncleos clandestinos de apoio  guerrilha, 
juntando pe lo menos 39 simpatizantes. Um dos grupos chegou a 
reunir cinqenta pessoas para discutir os problemas da 
regioTl42
Desenfurnados, os guerrilheiros atacaram. At setembro de 
1973 organizaram quatro expedies punitivas. Mataram mais 
trs colabo radores do Exrcito. Um tinha fama de jaguno. O 
outro foi Osmar, que meses antes se explicara a Glnio. 
Ocuparam a sede de uma fa 140 Carta de Maurcio Grabois, do 
final de 1972, em O Globo de 7 de abril de 1998.
141 A guerrilha do Araguaia, documento existente no stio 
Terrorismo Nunca Mais, Ternuma:
<http://www.ternuma.com.br>, em julho de 2002.
142 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, pp. 25 e 27.
143 Para a morte de um terceiro mateiro, Micheas Gumes de 
Almeida, maro de 2001, e entrevis ta de Francisco Maciel 
Lima a Romualdo Pessoa Campos Filho e Gilvane Felipe, 19 de 
janeiro de
1994. APRPCF.
144 Em abril de 1973, Osmar estava na lista que o Exrcito 
organizara dos colaboradores da guer rilha, identificado como 
compadre de Osva1do Anexo B (Informaes)  OP r 1 
(Operao Sucuri),
do tenente-coronel Carlos Sergio Torres, comandante da 
operao, assinado e rubricado pelo ma jor Gilberto Airton 
Zenkner, de abril de 1973, fi. 3.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA 431
zenda, prenderam seu dono, confiscaram-lhe quatrocentos 
cruzeiros, remdios e alimentos. Na maior ao ofensiva de 
todo o perodo, ata caram um posto da PM na Transamaznica. O 
cabo que o comandava estava alhures, bebendo. Os 
guerrilheiros cercaram a casa, atearam fo go ao teto de 
palha, e cinco soldados renderam-se. Levaram-lhes as far das 
e as armas (seis fuzis e um revlver). Dias depois soltaram 
um panfleto que informava: Os soldados, depois de 
interrogados, sofre ram severa advertncia: se voltarem a 
cometer violncias contra o po vo sero justiados
O ataque ao posto da PM significou o apogeu da guerrilha. A 
pro ximidade do perodo chuvoso permitia a suposio de que o 
Exrcito s se aventuraria a retornar  regio no final do 
primeiro trimestre de 1974. Alm disso, acreditavam que 
retornaria ao velho estilo e, portan to, seria possvel 
derrot-lo novamente. Segundo o relatrio de Arroyo, havia 56 
guerrilheiros. Seis eram camponeses. Escasseavam roupas, is 
queiros, bssolas e pilhas. Faltavam sapatos. Quase todos 
calavam san dlias feitas com pedaos de pneus, ou nada. Em 
caixa, quatrocentos cru zeiros, dinheiro equivalente a algo 
como quarenta sacos de farinha, ao preo da mata. Tinham 
comida para quatro meses, mas suas armas con tinuavam 
insuficientes. Eram 29 fuzis e rifles, vinte espingardas, 
trs sub metralhadoras e 49 revlveres. Pouco mais de uma 
arma de guerra para cada dois combatentes. Menos de uma arma 
longa para cada um. Ha via quarenta balas para cada revlver, 
mas faltava munio para as es pingardas e carabinas.
Isso era o que tinham para lutar por suas idias ao preo do 
risco de suas vidas. No receberam reforos. Joo Amazonas 
contaria, mais de vin te anos depois, que planejara retornar 
ao Araguaia mas a estrutura que
145 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, p. 27, e de poimentos de Jos Veloso 
de Andrade (19 de janeiro de 1994) e Pedro Marivetti (21 de 
janeiro de 1994) a Romualdo Pessoa Campos Filho e Gilvane 
Felipe. APRPCF.
146 Comunicado do Destacamento Helenira Rezende sobre o 
ataque a um posto da Polcia Mi litar, em Vrios Autores; 
Documentos do pc do B, Guerrilha do Aragunia, p. 41.
147 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, p. 28. Para o preo da farinha, tomei 
a tabela de Otvio Guilherme Velho (Frentes de expanso e 
estrutura agr ria, p. 82), a qual informa que em 1969 ela 
custava dezesseis cruzeiros.
432        A DITADURA ESCANCARADA
o levaria  floresta foi abalada por uma priso e mais tarde 
o desenvol vimento da luta j no aconselhava minha volta No 
final de 1972, Gra bois perguntava  direo paulista: At 
meados do ano que vem no da ria para vir uns vinte 
elementos? No recebeu nenhum. Pelo contrrio, teve a 
desero do guerrilheiro Paulo. Deixara o acampamento com a 
roupa do corpo.
O cerco imposto aos guerrilheiros era temvel, porm 
precrio. Gl nio foi preso quando tentava reencontrar os 
combatentes, enquanto Pau lo, querendo sair da floresta, dela 
conseguiu escapar. Pelo menos dois guer rilheiros 
experimentados entravam e saam da regio com a cautela que a 
situao exigia, mas tambm com a freqncia que suas tarefas 
deman davam. Um era Nunes. O outro, Zezinho, era o 
encarregado de bus car suprimentos nas cidades prximas. 
Tinha entre suas tarefas a manu teno do estoque de 
medicamentos para Grabois, que padecia de hipertenso. Eu 
entrei e sa da regio todas as vezes em que isso foi ne 
cessrio. Podia faz-lo em viagens de trs dias ou de duas 
semanas, Sem saber nadar, atravessava os rios agarrado em 
pedaos de p
Cabe a pergunta: por que a guerrilha no se desmobilizou?
Por mais vitoriosa que se sentisse e por mais determinado que 
fos se o esprito de luta dos combatentes, a falta de 
reforos fsicos indica va que estavam sitiados. A falta de 
armas revelava que no teriam capa cidade de combate. Haviam 
sido assassinados no Rio de Janeiro quatro dirigentes do 
partido. Trs deles integravam sua comisso executiva, e um 
conhecia o pouco que restava do sistema de comunicaes com o
148 Entrevista de Joo Amazonas, em Vrios Autores; 
Documentos do ic do B, Guerrilha do Ara guaia, p. 66.
149 Carta de Maurcio Grabois, do final de 1972, em O Globo 
de 7 de abril de 1998.
150 Joo Carlos Wisnesky, ex-estudante de medicina da UFRJ.
151 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia em 
Guerrilha do Araguaia, p. 28. Paulo era casado com Maria 
Clia Corra, a Rosa, irm de Elmo Corra, o guerrilheiro Lou 
rival, estu dante de medicina.
152 Divino Ferreira de Souza, 32 anos, ex-estudante 
secundarista, com curso de capacitao na China.
153 Micheas Gomes de Almeida, 37 anos, operrio, com curso de 
capacitao na China.
154 Micheas Gomes de Almeida, maro de 2001.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        433
Araguaia. O desbaratamento do Pc do B em So Paulo, no Rio, 
Gois, Cear, Bahia e Esprito Santo mostrara que ele no 
seria capaz de mo bilizar novos quadros para a guerrilha. 
Vista de dentro, a guerra po pular estava desarmada. Vista 
de fora, estava isolada.
Pela lgica, deveriam ter ido embora, mas, tambm pela 
lgica, no poderiam ter derrotado a expedio militar de 
1972. Toda guerrilha vi toriosa transforma-se em exemplo de 
herosmo de seus combatentes e de clarividncia de seus 
lderes. Da mesma forma, toda guerrilha fracas sada 
assemelha-se a um poo de voluntarismos e leviandades. Os 
guer rilheiros permaneceram no Araguaia porque acreditavam 
naquilo que es tavam fazendo.
A autoconfiana dos lderes do ic do B e da comisso militar 
ex clura do planejamento de sua guerra a alternativa da 
retirada. Antes mesmo do incio da guerrilha, Osvaldo 
propusera que se definisse uma rota de retirada estratgica. 
Pensara na regio do Xingu. Tratava- se de rastre-la, 
conhec-la e abastec-la com os apoios possveis e, so 
bretudo, mantimentos. Durante toda a luta Osvaldo insistiu 
na neces sidade desse refgio de ltima instncia. Foi 
derrotado pela convico da maioria da comisso militar, 
certa de que o Exrcito no entraria na mata. Grabois 
julgava-o bom militar e valente mas revela espri to 
defensivo
Em abril de 1973 o inimigo comeou a armar seu bote. O 
fracasso do Manobro retirara  estrutura convencional do 
Exrcito o planejamento das operaes. Ele fora centralizado 
no dE.  Operao Papagaio sucedeu- se a Sucuri, nome da 
cobra que engole suas presas. O Exrcito selecionou cinco 
oficiais e 25 sargentos, cabos e soldados no DOI de Braslia 
e na 3
155 Carlos Nicolau Danielli, Lincoin Bicalho Roque, Lincoin 
Cordeiro Oest e Luiz Guilhardini.
Em Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio, Dos filhos deste solo, 
p. 198.
156 Wladjmir Pomar, Araguaia, p. 41.
157 Depoimento de Mcheas Gomes de Almeida a Romualdo Pessoa 
Campos Filho e Gilvane Felipe,
19 de dezembro de 1996. APRPCF.
158 Carta de Maurcio Grabois, do final de 1972, em O Globo 
de 7 de abril de 1998.
434        A DITADURA ESCANCARADA
Brigada de Infantaria. Mandou-os em maio de 1973 para o 
Araguaia, seguindo a mesma tcnica de disfarce que 
beneficiara o c do B. Se a guer rilha tinha o tio Cid em 
So Paulo, a Sucuri tinha o tio Antnio como coordenador-
geral, em Braslia. Era o major Gilberto Airton Zenkner, de 
39 anos, da seo de operaes do dE. A maioria dos agentes 
nem do cumentos de identidade carregavam. Quando os tinham, 
eram falsos.
Em Xambio, apareceu um novo agrnomo no escritrio do INCRA. 
Tinha 39 anos e jeito de matuto mineiro. Era Marco Antnio 
Luchini. Outro forasteiro, Nonato, comprador de arroz e 
madeira, chegou a par ticipar de uma reunio convocada pelos 
guerrilheiros para discutir o funcionamento da escolinha do 
local. Dois chegantes compraram pequenas bodegas e 
meteram-se em negcios de madeira. Um deles ex pandiu o 
negcio tornando-se tambm padeiro. Eram soldados. Um 
sargento, sem conseguir comprar um ponto, transformara-se em 
bi cateiro ambulante. Espaadamente, quatro duplas de 
migrantes ad quiriram roas na regio. Eram militares 
ambientados para a vida ru ral numa chcara nas cercanias de 
Braslia. Um dizia vir de Mato Grosso, onde estivera 
envolvido num crime de morte. Conversava pou co, e os 
guerrilheiros desconfiaram dele, ameaando mat-lo. Tio, um 
falso amealhador de tarefeiros, chegou a ser aprisionado. 
Sustentou sua identidade, foi libertado e abandonou a 
operao. Outro agente, para
159 Relatrio da Operao deinformaes Realizada pelo CIE no 
Sudeste do Par Operao Sucuri,
de autoria do capito Sebastio Rodrigues de Moura, o Major 
Curi, de 24 de maio de 1974, fi. 6.
160 Plano de Informaes Sucuri, n 1, do GTE, de abril de 
1973.
161 Era o major Sebastio Rodrigues de Moura, que viria a ser 
conhecido como Major Curi. O
Globo, 7 de abril de 1998, e Correio Braziliense, 5 de maio 
de 1996.
162 Depoimentos de Abdias Soares e Silva, em 21 de janeiro de 
1994, e Maria Raimunda Rocha
Veloso (Maria da Metade), em janeiro de 1994, a Romualdo 
Pessoa Campos Filho e Gilvane Felipe
(APRPCF), e de Jos Moraes Silva, em Inquritos Civis 
Pblicos MPF/SP/N 03/200 1, MPF/PA/N 01/2001
e MPF/DF/N 05/200 1. Ver tambm Termo de Declarao prestado 
por Jos Ribamar Ribeiro Lima,
no dia 4 de julho de 1996, na sede da Procuradoria da 
Repblica no estado de Roraima, presente
o procurador-chefe, dr. Osrio Barbosa, no arquivo do Centro 
de Documentao Eremias Deli zoicov: 
<http://www.desaparecidospoliticos.org.br/araguaia/militares.
html>.
63 Relatrio da Operao de Informaes Realizada pelo CIE no 
Sudeste do Par  Operao Sucuri,
de autoria do capito Sebastio Rodrigues de Moura, o Major 
Curi, de 24 de maio de 1974, fl. 12.
164 Idem, fl. 13.
165 Idem, fi. 11. Para o nome, Plano de Informaes Sucuri, n 
1, do GIE, de abril de 1973.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        435
no despertar suspeitas, vendeu-lhes munio. Na venda de 
dona Do- mingas entraram dois jovens vendendo alho e fazendo 
perguntas. Ou tros compravam carvo. Todos mapeavam a 
identidade dos guerri lheiros e aquilo que o GTE chamava de 
fora subterrnea Em abril de 1973 uma lista do Exrcito 
arrolara 51 moradores da regio como possveis integrantes 
das foras de sustentao da guerrilha. Cin co meses 
depois, um novo fichrio, mais amplo, acumulava quatrocen tos 
nomes.
O sigilo com que o Exrcito protegeu suas operaes no 
Araguaia tinha o propsito de negar aos adversrios do regime 
o reconhecimen to de que efetivos das foras armadas estavam 
sendo empregados num problema de defesa interna dessa 
natureza Inmeros depoimentos do conta de que a ditadura 
temia que a propagao das notcias de com bates, mesmo 
ocorrendo apenas no exterior e em canais semiclandesti nos, 
desse notoriedade  guerrilha. Era o medo de que o Araguaia 
se trans formasse numa zona liberada como sucedera nas 
guerras do gnero no Sudeste da sia.172 O general Medici 
queria que a campanha seguisse em silncio: Era preciso 
esconder as operaes para que elas tivessem sucesso.
O segredo da operao militar determinou a clandestinizao 
da ao do Estado. O Araguaia no produziu inquritos 
policial-militares, denn cias formais ou sentenas 
judiciais. A guerrilheira Regilena, que se ren 166 Para a 
venda de munio, Agnaldo dei Nero Augusto, A grande mentira, 
p. 443.
167 Entrevista de dona Domingas a Romualdo Pessoa Campos 
Filho. APRPCF.
168 Depoimento do padre Roberto de Valicourt a Romualdo 
Pessoa Campos Filho e Gilvane Fe lipe, 16 de janeiro de 1994. 
APRPCF.
169 Anexo B (Informaes)  OP n 1 (Operao Sucuri), do 
tenente-coronel Carlos Sergio Tor res, comandante da 
operao, assinado e rubricado pelo major Gilberto Airton 
Zenkner, de abril
de 1973, fis. 2-4.
170 Veja, 13 de outubro de 1993, pp. 16-28, por Rinaldo Gama.
171 Coronel lvaro de Souza Pinheiro, Guerrilha na Amaznia: 
uma experincia no passado, o
presente e o futuro edio brasileira da Military Revew, 
janeiro-maro de 1995, pp. 58-79.
172 Anexo B (Informaes)  OP n 1 (Operao Sucuri), do 
tenente-coronel Carlos Sergio Tor res, comandante da 
operao, assinado e rubricado pelo major Gilberto Airton 
Zenkner, de abril
de 1973, ti. 1.
173 Antonio Carlos Scartezini, Segredos de Medici, p. 36.
436        A DITADURA ESCANCARADA
dera em julho de 1972, foi libertada em dezembro. Outra 
combaten te, capturada na primeira ofensiva, fora libertada 
na primeira metade de 1973. Ficara presa por dez Alice, 
mulher de Andr Grabois, fo ra tirada da selva no final de 
1972 e acabou presa em dezembro. Solta ram-na em abril do ano 
seguinte. O guerrilheiro Glnio foi mantido sem visitas de 
familiares por treze meses, mas foi solto em dois anos. Para 
os padres punitivos do regime, eram libertaes precoces. 
Fora do Ara guaia, os inquritos e processos resultavam em 
penas superiores a cinco anos de priso para um em cada trs 
rus condenados. Os guerrilhei ros de Capara, por exemplo, 
foram todos condenados a penas iniciais de quatro a doze anos 
de priso.
Na madrugada de 7 de outubro os soldados chegaram simultanea 
mente aos pequenos povoados por onde andaram os 
guerrilheiros. Al guns vieram dentro de cargas ocas de 
caminhes que simulavam trans- portar madeira. Era a Operao 
Marajoara. Apoiava-se no 23 Batalho de Infantaria de Selva, 
de Marab, com cerca de quatrocentos homens, mas diferia do 
Manobro tanto na quantidade como na qualidade. O ataque foi 
desfechado por um efetivo menor, com cerca de 250 comba 
tentes. Operavam a partir de trs bases de combate, em 
Xambio, Ma rab e na pequena localidade de Bacaba, s 
margens da Transamazni ca. Na selva, alguns diziam-se 
funcionrios da Agropecuria Araguaia. Tinham o reforo de 
uma tropa de fuzileiros e de avies e helicpteros da FAB, 
todos descaracterizados, a servio de uma inexistente Minera 
o Aripuan. Dessa vez no havia soldadinhos. S 
profissionais.
174 Depoimento de Regilena da Silva Carvalho, em Luiz Maklouf 
Carvalho, Mulheres que foram
 luta armada, p. 478.
175 Era Luzia Reis, a Baianinha. O Globo, 28 de abril de 
1996.
176 Folha de S.Paulo, 28 de agosto de 1999.
177 Projeto Brasil: nunca mais, tomo III: Perfil dos 
atingidos, pp. 12-3. De um total de 2828 conde nados, 880 
receberam penas superiores a cinco anos.
78 Gilson Rebeilo, A guerrilha de Capara, p. 45.
179 Coronel Alvaro de Souza Pinheiro, Guerrilha na Amaznia: 
uma experincia no passado, o
presente e o futuro, edio brasileira da Military Review, 
janeiro-maro de 1995, pp. 58-79.
180 Para o efetivo, Agnaldo del Nero Augusto, A grande 
mentira, p. 449.
181 Veja, 13 de outubro de 1993, pp. 16-28, por Rinaldo Gama.
182 Para a Minerao, coronel Francisco Deilamora, fevereiro 
de 2001.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        437
Perto da metade veio da Brigada Pra-Quedista, outra das 
tropas espe ciais e dos batalhes de guerra na selva. Eram 
soldados das guarnies de fronteira, jovens habituados  
vida na floresta. Tropa sem farda, comandada por oficiais 
sem nome, todos fazendo-se chamar de dou tores. Doca era 
coronel. Arturo era o major Lcio Augusto Ribeiro Maciel.
Se em 1972 houvera o interesse em mostrar a ao do Exrcito, 
des sa vez havia a preocupao de esconder ou, pelo menos, 
descaracterizar a ao militar. Cabeludos, barbudos e 
vestidos como o povo da regio, os combatentes chegaram como 
se fossem paulistas Um lavrador de saconselhou uma senhora 
a entrar no seu lugarejo: Dona, volte que os guerrilheiros, 
os terroristas to acabando com So Domingos. J pega ram dez 
e carregaram Nonato foi  casa do aougueiro, perguntando 
pela Dma. Ele lhe disse que no a vira. Prendeu-o. Outro 
grupo bus cou o dono da farmcia para dar um depoimento aos 
terroristas Mais tarde, os dois vendedores de alho 
desembarcaram de um helicptero. A essa altura, na condio 
de capito do CIE, o posseiro mato-grossense estava instalado 
na sede do comando, a casa de telhado azul debruada sobre o 
rio Itacainas.
Cada equipe que chegava a uma rea recebia um fichrio com os 
no mes dos moradores, informando as relaes que mantinham 
com os paulistas Os lavradores e pequenos comerciantes eram 
levados para as prises de Xambio e Marab. Alguns eram 
amontoados em grandes buracos abertos no cho, cobertos por 
grades. Estima-se que, em dois meses, capturaram-se 
trezentas pessoas. Admitindo-se que a populao da rea de 
ao efetiva dos guerrilheiros fosse de 5 mil pessoas, e 
saben 183 Coronel Alvaro de Souza Pinheiro, Guerril41a na 
Amaznia: uma experincia no passado, o
presente e o futuro, edio brasileira da Military Review, 
janeiro-maro de 1995, pp. 58-79.
184 Depoimento de Maria Raimunda Rocha Veloso (Maria da 
Metade) a Romualdo Pessoa Cam pos Filho e Gilvane Felipe, 
janeiro de 1994. APRPCF.
185 Entrevista de Jos Veloso de Andrade a Romualdo Pessoa 
Campos Filho e Gilvane Felipe, 19
de janeiro de 1994. APRPCF.
186 Depoimento de dona Domingas a Romualdo Pessoa Campos 
Filho. APRPCF.
187 Agnaldo del Nero Augusto, A grande mentira, p. 449.
188 Depoimento de Arlindo Pereira, o Arlindo Baleia, a 
Romualdo Pessoa Campos Filho, 25 de
fevereiro de 1996. APRPCF.
438 A DITADURA ESCANCARADA
do-se que foram poucos os casos de deteno de mulheres, o 
Exrcito pren deu, ao longo de toda a campanha, mais da 
metade dos homens do lugar. Na localidade de Taboco, onde 
eles eram dezessete, prendeu todos. H relatos de torturas 
praticadas contra os presos. Um deles contou: Moo, ti nha 
nego despedaado l. Tinha nego l que tava azul que nem 
carne roxa
Antes das refeies os presos eram postos em fila e obrigados 
a
cantar:
 um tal de soca soca,
 um tal de pula pula,
quem tem culpa se enrola,
quem no tem logo se apura.
Quem errasse a cantoria, apanhava. Como assinalou o professor 
Romualdo Pessoa Campos Filho, a cultura do lugar registrou 
sobretudo a queixa da humilhao Um morador recordaria: 
Eles foram humi lhados bastante, j pensou um pai de famlia 
de uma certa idade, quase sessenta anos como era o caso de 
meu pai, e ele ficar naquela situao, como nasceu, despido, 
no s ele, como todos?.
As informaes obtidas pelo CIE permitiram a montagem de um 
pai nel no qual se fixavam as fotografias e os dados 
biogrficos dos guerri lheiros. As patrulhas moviam-se em 
helicpteros e monomotores L-19, os paqueras, que 
asseguravam as comunicaes entre cada uma delas e o comando. 
A cada dia pelo menos uma dezena de patrulhas ia caar o 
rastro dos guerrilheiros, sempre guiadas por moradores da 
regio.
No h como calcular o nmero de mateiros que serviram ao 
Exr cito. Durante o planejamento da Operao Sucuri, cujas 
caractersticas exi giam um grau elevado de confiana e 
sigilo, o major Zenkner listara doze
189 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, p. 30.
190 Depoimento de Pedro Marivetti a Romualdo Pessoa Campos 
Filho, 21 de janeiro de 1994. APRPCF.
191 Depoimento de Joarez Pinheiro e Luiz Martins dos Santos, 
em Inquritos Civis Pblicos MPF/
SP/N 03/2001, MPF/PA/N 01/2001 e MPF/DF/N 05/2001.
192 Depoimento de Joel a Romualdo Pessoa Campos Filho, 26 de 
julho de 1992. APRPCF.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA 439
moradores da regio como informantes seguros. Duas dezenas 
de en trevistas, realizadas mais de vinte anos depois da 
guerrilha, produziram uma lista nominal de outros vinte 
camponeses que se tornaram guias da tropa. Nas duas primeiras 
campanhas houvera a atrao das recompen sas e do prestgio. 
Na terceira, o dilema era outro. ngelo Lopes de Sou za, o 
Carneiro, tinha quarenta anos quando foi levado para o campo 
de concentrao da localidade de Bacaba e ficou um ms preso. 
Conhecia bem os guerrilheiros e seu caminho. Recebeu (e 
entendeu) uma propos ta para juntar-se  tropa: Tinha 
certeza de que se no aceitasse seria mor to. Tornou-se 
guia tambm um lavrador que fizera do guerrilheiro Fl vio 
padrinho de seu filho. Poucos meses antes de matar Cristina, 
Z Catingueiro levava recados dos guerrilheiros convidando 
famlias de la vradores a acompanh-los mata adentro. Esse 
nvel de coao no en contra paralelo na represso aos 
grupos armados urbanos. Desconhece- se caso de pessoa que 
tenha sido obrigada a trabalhar sistematicamente para o 
aparelho repressivo sem que mantivesse vnculos orgnicos com 
alguma organizao clandestina. Muito menos de pessoa que 
tenha sido morta por ter-se recusado a faz-lo.
Aos lavradores que atravessavam, presos, o rio Itacainas, 
mostra va-se a casa de telhado azul. Era o castelo do homem 
sem alma. De l, onde estava a sala de comando das 
operaes, partira a diretriz: a po pulao deveria ter mais 
medo do Exrcito que dos guerrilheiros. Essa estratgia de 
intimidao articulou as prises em massa, os espancamen tos 
e um ingrediente indito de agresso patrimonial. Num 
conjunto de trinta relatos recolhidos 28 anos depois dos 
combates, oito testemunhas rememoraram o incndio de um 
lugarejo (o stio gua Boa, em So Do mingos do Araguaia) e 
de pelo menos seis roas. Inmeros lavradores
193 Plano de Informaes Sucuri, n 1, de abril de 1973, fis. 
2-3.
94 Depoimento de ngelo Lopes de Souza, em Inquritos Civis 
Pblicos MPF/SP/N 03/2001, MPF/
PA/N 01/2001 e MPF/DF/N 05/2001.
195 Ciro Flvio Salasar Oliveira, trinta anos, ex-estudante 
da Faculdade de Arquitetura da UFRJ.
196 Depoimento de Ccero Saraiva da Silva, em Inquritos 
Civis Pblicos MPF/SP/N 03/2001, MPF/PA/
N 01/2001 e MPF/DF/N 05/200 1.
197 Depoimentos de Luiz Martins dos Santos e Zulmira Pereira 
Neres, em Inquritos Civis Pblicos
MPF/SP/N 03/2001, MPF/PA/N 01/2001 e MPF/DF/N 05/2001.
440        A DITADURA ESCANCARADA
foram expulsos de suas terras. Uma famlia perdeu cinqenta 
alqueires
de mata, porcos, galinhas, sessenta sacos de arroz e dois de 
farinha.
Amedrontada, a gente do Araguaia imps-se um toque de 
recolher. Ningum saa de casa  noite. Se de um lado a 
estratgia do medo deu ao Exrcito uma rede de informantes e 
uma brigada de mateiros, de outro forneceu  guerrilha uma 
indita leva de adeses. Pelo menos seis fam lias entraram 
na mata.  razovel supor que entre setembro e novembro de 
1973 os guerrilheiros tiveram, no mnimo, a colaborao 
efetiva de vin te adultos, nmero muito superior s poucas 
simpatias conseguidas por Guevara na Bolvia.
Com o apoio dos adultos, os guerrilheiros alistaram tambm 
meni nos e adolescentes que iam s aulas das professoras Rosa 
e Cristina. Trs deles so casualmente mencionados por 
Arroyo. A um chama de rapazi nho que, por acaso, se 
encontrava entre os nossos Nomeia os outros dois, dizendo-os 
bastante jovens e informa que saram da guerrilha mostran 
do medo. Um deles, Wilson, tinha pouco mais de dez anos. A 
narra tiva de um garoto que acompanhou o pai e foi capturado, 
revela que se re crutaram pelo menos mais dois. Admitindo-se 
que tenham sido s sete
198 Depoimentos de Adalgisa, Agenor e Pedro Moraes da Silva, 
Dionor Carlos Azevedo, Manoel Ferreira, Margarida Ferreira 
Flix, Maria Nazar Ferreira Brito e Sinvaldo de Souza Gomes, 
em Inquritos Civis Pblicos MPF/SP/N 03/2001, MPF/PA/N 
01/2001 e MPF/DF/N 05/2001.
199 So Luiz Vieira, Batista, Pedro Carretel e Abel, e as 
famlias de Pedro Moraes da Silva, Jos Atansio Santana, Z 
Gonalo, Joo da Mariona, Velho Tadeu e Romo, em depoimento 
de Pedro Moraes da Silva, em Inquritos Civis Pblicos 
MPF/SP/N 03/2001, MPF/PA/N 01/2001 e MPF/DF/N 05/200 1. H 
ainda Antonio Alfredo Campos. Ver Nilmrio Miranda e Carlos 
Tibrcio, Dos filhos deste solo, p. 181. No seu Relatrio 
sobre a luta no Araguaia, em Guerrilha do Araguaia, p. 29, 
Ar royo se refere a nove elementos da massa que ajudaram, 
sem sucesso, a tocar fogo numa ponte da Transamaznica.
200 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, p. 27.
201 Depoimento de Manuel Leal Lima, o Vanu, em O Globo de 2 
de maio de 1996.
202 Depoimento de Jos Vieira a Romualdo Pessoa Campos Filho, 
25 de fevereiro de 1996. APRPCF. No Relatrio sobre a luta 
no Araguaia, em Guerrilha do Ara guaia, p. 29, Arroyo 
menciona Riba mar e Wilson. Jos Vieira menciona esses dois, 
mais Antoninho e Sebastio. Sinvaldo menciona Joo Batista. 
Para as adeses de adolescentes, ver tambm o depoimento de 
Maria Raimunda Rocha Ve loso (Maria da Metade) a RomuaJdo 
Pessoa Campos Filho e Gilvane Felipe, janeiro de 1994. 
APRPCF.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA 441
os adolescentes anexados  guerrilha, resulta que, para cada 
trs adultos in tegrados na guerra popular, o pc do B 
alistou um menor de idade.
Uma semana depois da chegada do Exrcito, quatro 
guerrilheiros e um campons que os acompanhava resolveram 
capturar dois porcos numa roa. Fizeram um fogo de palha e 
pelaram-nos. Iam-se embora com a carne quando apareceu uma 
patrulha. Eram quinze soldados. Dois homens da mata 
morreram no lugar, dois ficaram feridos, e o quin to 
desapareceu. Um dos mortos era Z Carlos, filho de Grabois. O 
ofi cial que comandava a tropa mandou que o mateiro Vanu os 
enterras se na direo do rio. Um dos feridos era Nunes, um 
veterano do curso na China, que vivera como comerciante na 
regio. Enquanto foi inter rogado na mata, ameaou os 
militares com a possibilidade da chegada da imprensa e da 
televiso quele pedao de selva, para que registras sem o 
que l acontecia. O outro era Antonio Alfredo Campos, um 
lavrador analfabeto. Foram levados de helicptero para a Casa 
Azul e assassinados.
 noite, dois camponeses que haviam prometido aderir  
guerrilha decidiram fugir da mata. Passados alguns dias, 
foram capturados ou en tregaram-se ao Exrcito. Tornaram-se 
mateiros. O mesmo sucedera a dois lavradores presos depois de 
terem colaborado com os guerrilheiros na tentativa fracassada 
de incendiar uma ponte.
Na tarde de 24 de outubro, num banhado da grota da 
Borracheira, a guerrilha do Araguaia teve o seu mais famoso 
combate. Acompanhada por um menino, a guerrilheira Snia 
resolveu descalar as botinas e lavar os ps. Por parteira e 
pelos seus conhecimentos de medicina, era uma das paulistas 
mais populares da regio. Na volta, no achou o calado. 
Pensou que fosse brincadeira, at que se viu diante de uma 
patrulha. Esse
203 Entrevista de Manuel Leal Lima, o Vanu, a Terezinha de 
Souza Amorim, cedida pelo profes sor Romualclo Pessoa Campos 
Filho. APRPCF.
204 Para o fato de Alfredo ter sido ferido, e no morto, 
entrevistas de Manuel Leal Lima, o Vanu, a Terezinha de Souza 
Amorim, cedida pelo professor Romualdo Pessoa Campos Filho, 
APRPCF, e a O Globo de 2 de maio de 1996.
205 Depoimento de um oficial combatente do Araguaia cujo nome 
fica preservado, fevereiro de 2001.
206 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, p. 30.
207 Lcia Maria de Souza, 29 anos, ex-quartanista de 
medicina.
442        A DITADURA ESCANCARADA
encontro foi narrado pouco tempo depois pelo general Joo 
Baptista Fi gueiredo, chefe do Gabinete Militar de Medici:
Houve uma menina [ . Vm aqueles rastreadores na frente e 
eles vm cem metros atrs. [ Desconfiaram de qualquer coisa e 
recuaram. Recuaram e ento o pessoal veio. E veio um major, 
na frente, pela picada no meio do mato. E encontrou uma moa 
escondida atrs de uma rvore com uma me tralhadora na mo. 
Meninota, de vinte e poucos anos. [ Diz que o ma jor que 
estava de revlver na mo baixou a arma e disse: Vem c, 
minha filha, como  o teu nome? Vem c, minha filha, que  
que voc est fazen do aqui? no dando a perceber que tinha 
visto ela com a metralhadora. E a menina respondeu:
Isso no  da tua conta.
Vem c, minha filha, vem me contar a sua histria. Como  
seu nome? A mulher responde: Guerrilheira no tem nome. A 
resposta de guer rilheiro  esta. E deu uma rajada no major. 
Levou um tiro na mo e outro de raspo assim no rosto. A o 
pessoal que j tinha entrado na mata come ou a atirar em 
cima da menina. A ela continuou atirando. Quando ela caiu 
tinha quarenta e poucas perfuraes de calibre 22.208
Snia no foi surpreendida, mas emboscada por uma patrulha 
que achara as suas botinas. No tinha submetralhadora. Atirou 
de revlver. Acertou o capito Sebastio Rodrigues de Moura, 
da seo de operaes do dE. Ele era o ex-Marco Antnio 
Luchini do INCRA, futuro Major Curi do Araguaia. Feriu-o no 
brao, desarmando-o momentaneamente. Ou tro tiro derrubou o 
Dr. Arturo, ou Ivan, o major Lcio Augusto Ribeiro Maciel, do 
dE. A bala, sem fora, atingiu-o no rosto, passou por bai xo 
da pele e saiu na altura da nuca.
A cena paternal foi uma fantasia de Figueiredo. O dilogo no 
ocor reu antes dos tiros, mas depois que Snia alvejara os 
dois oficiais e esta-
208 Narrativa do general Figueiredo a Ernesto Geisel, 
fevereiro de 1974. APGCS/HF.
209 Para a identidade do major, entrevista de Jos Veloso de 
Andrade a Romualdo Pessoa Cam pos Filho e Gilvane Felipe, 19 
de janeiro de 1994. APRPCF. Para Ivan, Romualdo Pessoa 
Campos
Filho, Guerrilha do Araguaia, p. 152.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        443
va no cho, ferida e satisfeita: Uau, tem gente ferido a.. 
 Na lembran a de um mateiro do Exrcito, a conversa foi 
outra:
Qual  o teu nome?
 Guerrilheira no tem nome, seu filho-da-puta. Eu luto pela 
liber dade.
Anos depois, o general Hugo Abreu, que comandava a tropa pra 
quedista, contou a seguinte histria: Lembro-me de um casal 
que ma tamos eles mataram um major e eu tive de mandar mat-
los. A moa devia ter uns vinte anos e era belssima, o 
rapaz, uns 25 anos. Digo a vo cs que no sentia dio dos 
guerrilheiros. No caso desse casal, o que sen ti foi pena
Hugo Abreu revelava o seu mundo de fantasias. No morreu 
major no Araguaia. A guerrilheira no foi morta por ordem de 
ningum, mas na cena do combate em que feriu os dois 
oficiais, O acompanhante de Snia no tinha 25 anos, nem 
morreu. Era um adolescente e fugiu. Foi achado dias depois e 
sobreviveu  guerrilha.
Trs moradores da regio asseguram que o corpo de Snia ficou 
na lama da Borracheira. Tornou-se repasto dos animais. Na 
ocasio em que narrou a morte da menina Figueiredo definiu 
os guerrilheiros: So fanticos
210 Para o uau Romualdo Pessoa Campos Filho, Guerrilha do 
Araguaia, p. 152.
211 Entrevista de Manuel Leal Lima, o Vanu, em O Globo de 2 
de maio de 1996.
212 Quinze pginas com o texto de uma entrevista concedida 
pelo general Hugo Abreu a Getu lio Bittencourt e Haroldo 
Cerqueira Lima em 23 de agosto de 1978.
213 Depoimentos de Margarida Ferreira Flix a Claudio Renato, 
em O Estado de S. Paulo de 2 de maio de 1996, e de Manuel 
Leal Lima, o Vanu, a Terezinha de Souza Amorim, cedida pelo 
profes sor Romualdo Pessoa Campos Filho. APRPCF. Para 
inmeros depoimentos sobre a morte de Snia, ver Centro de 
Documentao Eremias Delizoicov: 
<http://www.desaparecidospoliticos.org.br/ 
araguaia/lucia.html>.
444 A DITADURA ESCANCARADA
214 Arildo Valado, 25 anos, ex-presidente do Diretrio 
Acadmico do Instituto de Fsica da UFRJ.
215 Segundo Angelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no 
Araguaia, em Guerrilha do Araguaia, p.
29, Jonas foi preso na segunda ofensiva e, na poca do incio 
da terceira, tinha o pai encarcerado. Pedro Marivetti, que 
foi preso no dia 9 de novembro, encontrou Abel na Bacaba, 
colaborando com os militares. Arildo Valado foi morto no dia 
24 de novembro. Pela narrativa de Arroyo fica claro que ele 
foi recrutado depois do incio da ofensiva.
216 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Ara guaia, p. 31. Para um testemunho ocular, 
Termo de Declarao que Presta Sinsio Martins Ribeiro, em 
So Geraldo do Araguaia, em 19 de julho de 2001. Centro de 
Documentao Eremias Delizoicov, <http://www. 
desaparecidospoliticos.org.br/araguaia/arildo.html>.
217 Em outubro de 1972, como parte dos festejos do 
Sesquicentenrio da Independncia, o Esta do-Maior do 
Exrcito publicou uma Histria do Exrcito brasileiro  
Perfil militar de um povo, em trs volumes; nela, dassificou 
a luta do Contestado como uma guerra revolucionria, vol. 
2, p. 789.
1
A palavra maldita de Canudos e do Contestado chegara ao 
Araguaia. Poucas semanas depois da morte de Snia, dois 
guerrilheiros acercaram- se de uma grota. Um era Ari, 
veterano de trs choques com as tropas. O outro, lonas, um 
campons de nome Abel, recrutado na regio. Fora pre so no 
final de 1972 e tinha o pai na cadeia. Outros combatentes que 
es tavam nas vizinhanas ouviram trs tiros. Aproximaram-se 
da grota e en contraram o corpo de Ari, sem a cabea. A 
degola de Canudos, do Contestado e das volantes do cangao 
tambm chegara ao Araguaia.
Passados 21 anos, o mateiro Jos Veloso de Andrade teve o 
seguin te dilogo com os professores Romualdo Pessoa Campos 
Filho e Gilva ne Felipe:
 O Ari ele foi morto e quem cortou a cabea dele foi um 
guia.
 O sr. lembra do nome dele?
 [ Ouvi falar que foi o Abel. Mas eu no tenho certeza.
 Ele chegou com a cabea dele num saco?
assim?
 , num saco, exatamente, eles carregaram num saco.
 E o sr. tomou conhecimento de outras cabeas que chegaram
 ... muitas, vrios, porque eles... vrios outros que 
eles...
 O sr. ficou sabendo de mais alguma?
r        A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        445
,fiquei... [
 Tinha alguma recompensa quando acontecia isso?
 Mixaria, mas tinha. Mas era mixaria.
 Ento pra provar que tinha matado a eles levavam a cabea?
 . Exatamente. [
 Diga uma coisa, esse Abel no era um que tinha aderido  
guerrilha... e a numa traio pegou o Ari?
 , exatamente, ele mesmo.
Nos primeiros 45 dias as operaes militares foram conduzidas 
de forma a empurrar os guerrilheiros para as terras mais 
altas e secas, para em bosc-los quando descessem em busca de 
gua. Essa ttica resultara em trs choques bem-sucedidos, 
com a captura e morte de seis guerrilheiros. Restavam em 
torno de cinqenta quadros do ic do B, e a Operao Marajoara 
corria o risco de repetir o fracasso dos ataques anteriores. 
Os jovens tenentes e capites que entravam no mato 
convenceram seus chefes a mudar de ttica, trocando a linha 
da cautela pela da agressividade. Duas bases de operaes 
perdidas na selva ganharam autonomia em relao  sala 
refrigerada da casa de telhado azul. Era a aplicao de um 
ensinamento das foras contra-insurrecionais: Guerrilha se 
combate com guerrilha.
Criou-se um sistema pelo qual quando uma patrulha achava um 
ras tro e conseguia projetar o rumo dos guerrilheiros, em vez 
de persegui- los, fustigando sua retaguarda, comunicava-se 
com a base, de forma a lanar outras duas mais  frente, com 
o objetivo de emboscar sua vanguarda. As patrulhas tinham 
entre dez e doze homens, comandados por um tenente ou 
capito. Dispunham de mantimentos para dez dias de per 218 
Entrevista de Jos Veloso de Andrade a Romualdo Pessoa Campos 
Filho e Gilvane Felipe, 19
de janeiro de 1994. Pedro Marivetti, em seu depoimento a 
Romualdo Pessoa Campos Filho, diz ter
ouvido que a cabea de Ari chegou  Bacaba num saco. APRPCF.
219 Depoimento de um oficial combatente do Araguaia cujo nome 
fica preservado, maro de 2001.
220 Coronel Alvaro de Souza Pinheiro, Guerrilha na Amaznia: 
uma experincia no passado, o
presente e o futuro, edio brasileira da Military Review, 
janeiro-maro de 1995, pp. 58-79.
221 Idem.




manncia na selva. Assemelhavam-se aos pequenos grupos de 
guerrilhei ros da primeira fase dos combates. Sobrepujavam o 
inimigo no apoio a reo, nas comunicaes e, sobretudo, no 
armamento. Cada uma delas ti nha mais poder de fogo que toda 
a guerrilha junta. Ao contrrio do que sucedera na primeira 
ofensiva, a regio fora aerofotografada. Abriram- se mais de 
uma centena de clareiras, nas quais os pilotos de 
helicpteros eram capazes de descer em vo visual.
Reunido em novembro, o comando da guerrilha sentira-se 
vitorio so. Pensara em concentrar todo o efetivo numa s 
regio, o que permi tiria aes de maior envergadura. As 
dificuldades de abastecimento adiaram a deciso para o 
encontro seguinte, marcado para o final de dezembro. O 
comando julgou-se diante de uma ofensiva branda, com tropa 
pequena (estimada em cinqenta homens), sem preparo para lu 
tar na selva e sem logstica, condenada a retirar-se em 
poucas semanas, com a chegada das chuvas. Para um grupo de 
combatentes que acre ditava j ter derrotado duas ofensivas 
de 8 mil a 10 mil soldados, desco brir que dessa vez a tropa 
contava, no conjunto, com quinhentos homens pouca diferena 
faria. No tinham como saber que agora enfrentavam tropas 
habituadas  vida na selva, comandadas por oficiais 
recrutados nas foras especiais do Exrcito. Faria pouca 
diferena tambm a lembrana de que o Che Guevara fora 
derrotado seis anos antes na Bolvia por uma tropa de 
seiscentos soldados de elite, numa campanha que durara pou co 
menos de dois meses.
Avaliaram mal o rastro do inimigo. Surpreenderam-se ao 
perceber que os soldados vasculhavam algumas das reas 
desabitadas onde eles se refugiavam. As patrulhas tinham 
roado dois de seus principais acam pamentos e passaram perto 
do esconderijo do comando da guerrilha. Os combatentes j 
haviam perdido o principal depsito de remdios, e comeava a 
escassear a Resochina com que enfrentavam os acessos de ma
222 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, p. 30.
223 Idem, p. 29, e Angelo Arroyo, Grande acontecimento na 
vida do pas e do c do B em Guer rilha do Araguaia, p. 60.
224 Thomas C. Wright, Latin America in the era ofthe Cuban 
Revolution, p. 94.
225 Angelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia em 
Guerrilha do Araguaa, pp. 30 e 60.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        447
lria. A tropa caava os esconderijos de mantimentos e 
fechava as fon tes do comrcio local. Dois guerrilheiros que 
foram a um lugarejo bus car sal, encontraram todas as casas 
vazias.
Nesse quadro, a guerrilha jogava apenas com a sorte. 
Prevalecia quan do no era percebida. Danava-se se aviam. No 
final de novembro, um gru po de oito combatentes dissolveu-se 
na cabeceira de uma grota. Chi co foi abatido com um tiro no 
peito enquanto procurava jabutis. Por ordem do Dr. Silva, o 
tenente-comandante da patrulha, foi degolado por um ma teiro. 
Ccero Pereira, morador da regio, lembraria: Ajudei a 
carregar a ca bea dele num saco pelo meio da mata. Pesava 
tanto que at parecia um corpo inteiro. Outros cinco 
meteram-se no mato, sem comida. Quando reencontraram a 
coluna, estavam famintos, com o corpo inchado de pica das de 
mosquito. Dois outros sumiram. Um deles era Jaime Petit da 
Silva. Morreu duas semanas depois, atirando. Estava doente, e 
restaram-lhe um pouco de sal, milho e seis balas. Foi 
degolado, e sua cabea, colocada num saco, foi levada na 
mochila de um mateiro. Jaime sobrevivera dezoito me ses a 
Maria Lcia. Dos trs irmos Petit da Silva vivia apenas 
Lcio, o Beto.
A guerrilha do Araguaia comeou a acabar na segunda semana de 
dezembro. Os quadros do PC do B no Araguaia eram 44. 
Camponeses, s dois. A maior parte dos combatentes juntou-se 
numa s coluna de 23 pessoas. Outros quinze guerrilheiros 
convergiriam para um morrote na regio de Palestina, perto da 
Transamaznica. L acampou a comisso militar. Havia mais 
seis cumprindo tarefas em outros lugares. A mano bra 
concentraria toda a fora guerrilheira numa rea de, no 
mximo, cin qenta quilmetros quadrados. S a certeza de que 
o Exrcito no tinha tropa poderia justificar essa deciso.
226 Micheas Gomes de Almeida, maro de 2001.
227 Adriano Fonseca Fernandes Filho, 28 anos, ex-aluno da 
Faculdade de Filosofia da UFRJ.
228 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, p. 30.
229 Depoimento do mateiro Ccero Pereira, em A histria do 
Exrcito que torturava, matava e
cortava cabeas, reportagem de Eumano Silva, Correio 
Braziliense, 28 de novembro de 2001.
230 Depoimento da testemunha ocular Sinsio Martins Ribeiro, 
em Termo de Declarao que Pres ta Sinsio Martins Ribeiro, 
em So Geraldo do Araguaia, em 19 de julho de 2001. Centro de 
Docu mentao Eremias Delizoicov, 
<http://www.desaparecidospoliticos.org.br/araguaia/jaime.html
>.
231 Os camponeses eram Pedro Carretel e Batista.
444        A DITADURA ESCANCARADA
A palavra maldita de Canudos e do Contestado chegara ao 
Araguaia. Poucas semanas depois da morte de Snia, dois 
guerrilheiros acercaram- se de uma grota. Um era Ari, 
veterano de trs choques com as tropas. O outro, lonas, um 
campons de nome Abel, recrutado na regio. Fora pre so no 
final de 1972 e tinha o pai na cadeia. Outros combatentes que 
es tavam nas vizinhanas ouviram trs tiros. Aproximaram-se 
da grota e en contraram o corpo de Ari, sem a cabea. A 
degola de Canudos, do Contestado e das volantes do cangao 
tambm chegara ao Araguaia.
Passados 21 anos, o mateiro Jos Veloso de Andrade teve o 
seguin te dilogo com os professores Romualdo Pessoa Campos 
Filho e Gilva ne Felipe:
 O Ari ele foi morto e quem cortou a cabea dele foi um 
guia.
 O sr. lembra do nome dele?
 [ Ouvi falar que foi o Abel. Mas eu no tenho certeza.
 Ele chegou com a cabea dele num saco?
 , num saco, exatamente, eles carregaram num saco.
 E o sr. tomou conhecimento de outras cabeas que chegaram 
assim?
 ... muitas, vrios, porque eles... vrios outros que 
eles...
 O sr. ficou sabendo de mais alguma?
214 Arildo Valado, 25 anos, ex-presidente do Diretrio 
Acadmico do Instituto de Fsica da UFRJ.
215 Segundo ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no 
Araguaia em Guerrilha do Araguaia, p.
29, lonas foi preso na segunda ofensiva e, na poca do incio 
da terceira, tinha o pai encarcerado. Pedro Marivetti, que 
foi preso no dia 9 de novembro, encontrouAbel na Bacaba, 
colaborando com os militares. Arildo Valado foi morto no dia 
24 de novembro. Pela narrativa de Arroyo fica claro que ele 
foi recrutado depois do incio da ofensiva.
216 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, p. 31. Para um testemunho ocular, 
Termo de Declarao que Presta Sinsio Martins Ribeiro, em 
So Geraldo do Araguaia, em 19 de julho de 2001. Centro de 
Documentao Eremias Delizoicov, <http://www. 
desaparecidospoliticos.org.br/araguaia/arildo.html>.
217 Em outubro de 1972, como parte dos festejos do 
Sesquicentenrio da Independncia, o Esta do-Maior do 
Exrcito publicou uma Histria do Exrcito brasileiro  
Perfil militar de um povo, em trs volumes; nela, classificou 
a luta do Contestado como uma guerra revolucionria, vol. 
2, p. 789.
1
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        445
,fiquei... [
 Tinha alguma recompensa quando acontecia isso?
 Mixaria, mas tinha. Mas era mixaria.
 Ento pra provar que tinha matado a eles levavam a cabea?
 . Exatamente. [
 Diga uma coisa, esse Abel no era um que tinha aderido  
guerri lha.., e a numa traio pegou o Ari?
 , exatamente, ele mesmo.
Nos primeiros 45 dias as operaes militares foram conduzidas 
de for ma a empurrar os guerrilheiros para as terras mais 
altas e secas, para em bosc-los quando descessem em busca de 
gua. Essa ttica resultara em trs choques bem-sucedidos, 
com a captura e morte de seis guerrilheiros. Res tavam em 
torno de cinqenta quadros do ic do B, e a Operao Marajoa 
ra corria o risco de repetir o fracasso dos ataques 
anteriores. Os jovens te nentes e capites que entravam no 
mato convenceram seus chefes a mudar de ttica, trocando a 
linha da cautela pela da agressividade. Duas bases de 
operaes perdidas na selva ganharam autonomia em relao  
sala refri gerada da casa de telhado azul. Era a aplicao de 
um ensinamento das foras contra-insurrecionais: Guerrilha 
se combate com guerrilha.
Criou-se um sistema pelo qual quando uma patrulha achava um 
ras tro e conseguia projetar o rumo dos guerrilheiros, em vez 
de persegui- los, fustigando sua retaguarda, comunicava-se 
com a base, de forma a lan ar outras duas mais  frente, com 
o objetivo de emboscar sua vanguarda. As patrulhas tinham 
entre dez e doze homens, comandados por um te nente ou 
capito. Dispunham de mantimentos para dez dias de per 218 
Entrevista de Jos Veloso de Andrade a Romualdo Pessoa Campos 
Filho e Gilvane Felipe, 19
de janeiro de 1994. Pedro Marivetti, em seu depoimento a 
Romualdo Pessoa Campos Filho, diz ter
ouvido que a cabea de Ari chegou  Bacaba num saco. APRPCF.
219 Depoimento de um oficial combatente do Araguaia cujo nome 
fica preservado, maro de 2001.
220 Coronel lvaro de Souza Pinheiro, Guerrilha na Amaznia: 
uma experincia no passado, o
presente e o futuro, edio brasileira da Military Review, 
janeiro-maro de 1995, pp. 58-79.
221 Idem.
446        A DITADURA ESCANCARADA
manncia na selva. Assemelhavam-se aos pequenos grupos de 
guerrilhei ros da primeira fase dos combates. Sobrepujavam o 
inimigo no apoio a reo, nas comunicaes e, sobretudo, no 
armamento. Cada uma delas ti nha mais poder de fogo que toda 
a guerrilha junta. Ao contrrio do que sucedera na primeira 
ofensiva, a regio fora aerofotografada. Abriram- se mais de 
uma centena de clareiras, nas quais os pilotos de 
helicpteros eram capazes de descer em vo visual.
Reunido em novembro, o comando da guerrilha sentira-se 
vitorio so. Pensara em concentrar todo o efetivo numa s 
regio, o que permi tiria aes de maior envergadura. As 
dificuldades de abastecimento adiaram a deciso para o 
encontro seguinte, marcado para o final de dezembro. O 
comando julgou-se diante de uma ofensiva branda, com tropa 
pequena (estimada em cinqenta homens), sem preparo para lu 
tar na selva e sem logstica, condenada a retirar-se em 
poucas semanas, com a chegada das chuvas. Para um grupo de 
combatentes que acre ditava j ter derrotado duas ofensivas 
de 8 mil a 10 mil soldados, desco brir que dessa vez a tropa 
contava, no conjunto, com quinhentos homens pouca diferena 
faria. No tinham como saber que agora enfrentavam tropas 
habituadas  vida na selva, comandadas por oficiais 
recrutados nas foras especiais do Exrcito. Faria pouca 
diferena tambm a lembrana de que o Che Guevara fora 
derrotado seis anos antes na Bolvia por uma tropa de 
seiscentos soldados de elite, numa campanha que durara pou co 
menos de dois meses.
Avaliaram mal o rastro do inimigo. Surpreenderam-se ao 
perceber que os soldados vasculhavam algumas das reas 
desabitadas onde eles se refugiavam. As patrulhas tinham 
roado dois de seus principais acam pamentos e passaram perto 
do esconderijo do comando da guerrilha. Os combatentes j 
haviam perdido o principal depsito de remdios, e comeava a 
escassear a Resochina com que enfrentavam os acessos de ma
222 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, p. 30.
223 Idem, p. 29, e ngelo Arroyo, Grande acontecimento na 
vida do pas e do ic do B em Guer rilha do Araguaa, p. 60.
224 Thomas C. Wright, Latin America in the era of the Cuban 
Revolution, p. 94.
225 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, pp. 30 e 60.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        447
lria. A tropa caava os esconderijos de mantimentos e 
fechava as fon tes do comrcio local. Dois guerrilheiros que 
foram a um lugarejo bus car sal, encontraram todas as casas 
vazias.
Nesse quadro, a guerrilha jogava apenas com a sorte. 
Prevalecia quan do no era percebida. Danava-se se a viam. No 
final de novembro, um gru po de oito combatentes dissolveu-se 
na cabeceira de uma grota. Cl co foi abatido com um tiro no 
peito enquanto procurava jabutis. Por ordem do Dr. Silva, o 
tenente-comandante da patrulha, foi degolado por um ma teiro. 
Ccero Pereira, morador da regio, lembraria: Ajudei a 
carregar a ca bea dele num saco pelo meio da mata. Pesava 
tanto que at parecia um corpo inteiro. Outros cinco 
meteram-se no mato, sem comida. Quando reencontraram a 
coluna, estavam famintos, com o corpo inchado de pica das de 
mosquito. Dois outros sumiram. Um deles era Jaime Petit da 
Silva. Morreu duas semanas depois, atirando. Estava doente, e 
restaram-lhe um pouco de sal, milho e seis balas. Foi 
degolado, e sua cabea, colocada num saco, foi levada na 
mochila de um mateiro. Jaime sobrevivera dezoito me ses a 
Maria Lcia. Dos trs irmos Petit da Silva vivia apenas 
Lcio, o Beto.
A guerrilha do Araguaia comeou a acabar na segunda semana de 
dezembro. Os quadros do rc do B no Araguaia eram 44. 
Camponeses, s dois. A maior parte dos combatentes juntou-se 
numa s coluna de 23 pessoas. Outros quinze guerrilheiros 
convergiriam para um morrote na regio de Palestina, perto da 
Transamaznica. L acampou a comisso militar. Havia mais 
seis cumprindo tarefas em outros lugares. A mano bra 
concentraria toda a fora guerrilheira numa rea de, no 
mximo, cin qenta quilmetros quadrados. S a certeza de que 
o Exrcito no tinha tropa poderia justificar essa deciso.
226 Micheas Gomes de Almeida, maro de 2001.
227 Adriano Fonseca Fernandes Filho, 28 anos, ex-aluno da 
Faculdade de Filosofia da UFRJ.
228 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, p. 30.
229 Depoimento do mateiro Ccero Pereira, em A histria do 
Exrcito que torturava, matava e
cortava cabeas, reportagem de Eumano Silva, Correio 
Brazilense, 28 de novembro de 2001.
230 Depoimento da testemunha ocular Sinsio Martins Ribeiro, 
em Termo de Declarao que Pres ta Sinsio Martins Ribeiro, 
em So Geraldo do Araguaia, em 19 de julho de 2001. Centro de 
Docu mentao Eremias Delizoicov, 
<http://www.desaparecidospoliticos.org.br/araguaia/jaime.html
>.
231 Os camponeses eram Pedro Carretel e Batista.
448 A DITADURA ESCANCARADA
Os guerrilheiros sabiam que deixavam rastro e se deram conta 
de que havia militares por perto, pois encontraram papel 
higinico no caminho. Seus comandantes sabiam que o inimigo 
capturara e mantinha presas pe lo menos cinco pessoas que 
conheciam os hbitos, os objetivos e boa par te das trilhas 
dos combatentes. Um dos presos era Josias, ex-estudan te de 
medicina que acabara de completar 24 anos. Haviam-se 
invertido as tticas. A guerrilha tornara-se pesada, tomando 
o risco, enquanto o Exr cito agia com tropas leves, com o 
monoplio da surpresa.
Entre os dias 20 e 21 de dezembro uma patrulha militar achara 
um forte rastro de uma coluna guerrilheira e seguiu-a  
distncia. Dois dias depois, outras duas patrulhas entraram 
na mata com o objetivo de cor tar o caminho de sua vanguarda. 
Moviam-se em linhas paralelas, em sen tido contrrio, ao 
longo de um eixo nordestesudoeste. Na manh do Natal de 1973 
uma das patrulhas estava na regio de Palestina: O acaso fez 
com que uma tropa que pretendia interceptar a marcha de uma 
co luna de guerrilheiros acabasse passando pelo seu ponto de 
destino, o mor rote onde estava a comisso militar.
Maurcio Grabois, o Mrio, pode ter sido o primeiro 
guerrilheiro a morrer. A narrativa de um oficial que se 
encontrava na regio mas no presenciou o choque, informa que 
ele estava sentado numa trilha quan do, para surpresa mtua, 
um tenente viu-o  sua frente. Grabois tinha um revlver 38 e 
o oficial, uma submetralhadora. As duas armas trava ram, mas 
o tenente teve a segunda chance. H ainda duas outras ver 
ses. Numa, ele foi surpreendido enquanto comia. Na outra, 
foi morto em combate. Nesse choque morreram mais quatro 
guerrilheiros, entre
232 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, p. 31.
233 Os dirigentes da guerrilha sabiam que haviam sido 
capturados Jonas (Abel) e dois campo neses que tinham 
colaborado no incndio da ponte. Sabia-se da fuga do 
guerrilheiro Josias, no
dia 17 de dezembro. No Relatrio sobre a luta no Araguaia, 
em Guerrilha do Araguaia, p. 31, Ar royo registra tambm o 
conhecimento da fuga do lavrador Toninho, que conhecia a 
rea.
234 Tobias Pereira Jnior.
235 Depoimento de um oficial combatente do Araguaia cujo nome 
fica preservado, agosto de 2001.
236 Idem, maro e agosto de 2001. Outro oficial, que teria 
testemunhado a cena, diz que Grabois
morreu no meio do tiroteio, combatendo. Veja, 13 de outubro 
de 1993, pp. 16-28. Ver tambm a
documentao referente a Grabois, arquivada no Centro de 
Documentao Eremias Delizoicov,
<http://www.desaparecidospoliticos.org.br/araguaia/mauricio.h
tml>
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        449
eles seu genro Pedro. Grabois guardava consigo o arquivo da 
guerra. Desde o seu dirio de campanha, at a coleo de 
panfletos, hinos e poemas dos combatentes. Ao tiroteio 
seguiu-se uma revoada de avies e helicpteros que por todo o 
dia desembarcaram tropas e levaram pa ra Marab o que 
acharam. Tanto cadveres como mochilas e objetos pessoais.
A partir do tiroteio de 25 de dezembro de 1973, a narrativa 
de nge lo Arroyo, principal fonte documental dos movimentos 
dos guerrilhei ros, perde o mtodo. Ele estava a dois 
quilmetros do acampamento. Ouviu os tiros, mas s no dia 
seguinte veio a saber o que aconteceu. Res taram apenas 
memrias episdicas de moradores e umas poucas revela es 
feitas por militares.
Surpreendidos e fustigados por trs patrulhas (trinta homens 
bem ar mados), os guerrilheiros perderam sua condio de 
fora militar organiza da. Eram pelo menos 35, metade do 
efetivo que vira a chegada do Exrcito em 1972. Dos quinze 
(ou dezesseis) combatentes do acampamento apenas quatro 
restabeleceram contato com o pedao da guerrilha cujos 
movimen tos foram registrados por Arroyo. Escaparam Osvaldo 
e a temida Dma, que padecia de uma crise de malria. A ao 
das patrulhas dispersara os combatentes e desarticulara o seu 
sistema de comunicaes. Os depsitos de mantimentos e os 
pontos de referncia tornaram-se armadilhas.
Segundo Arroyo, 25 guerrilheiros reuniram-se na floresta no 
dia 29 de dezembro. No seu relatrio, ele informou: Mostrou-
se a gravidade da situao e destacou-se que este era o 
perodo mais crtico que atraves sava a guerrilha. Acentuou-
se que outros povos j tinham passado por momentos muito 
dificeis e venceram porque persistiram na luta. Man 237 
Gilberto Olmpio Maria, 31 anos, ex-estudante de engenharia.
238 Segundo um oficial cujo Dome fica preservado, os 
guerrilheiros no morrete de Palestina eram
dezesseis e os mortos nesse combate foram cinco. Maio de 
2002.
239 Elza Monnerat, Dados a respeito do Araguaia, em 
Vernica Bercht, Corao vermelho, p. 151.
240 So Osvaldo, Lia, Batista e Lauro.
450        A DITADURA ESCANCARADA
tendo-se unidos e decididos poder-se-iam superar as 
dificuldades. O co mando indagou se algum dos combatentes 
queria abandonar a luta. [ Ningum manifestou o desejo de 
sair.
Num relato posterior, Arroyo omitiu a cena da reunio 
herica. Ela nunca aconteceu. Ele mesmo registrou que, depois 
do ataque do Natal, os combatentes ficaram  merc do 
inimigo. Zezinho, o ltimo sobre- vivente da guerrilha, no 
guardou lembrana de semelhante reunio nos dias seguintes ao 
ataque contra a comisso militar. A lembrana que guar dou 
foi de que a certa altura decidiram retirar-se pelo menos 21 
pessoas:
Quando se falou em disperso, em outras palavras salve-se-
quem-puder, cada destacamento teve a sua livre iniciativa de 
tomar rumo diferente. E... 1 Quando se fala em recuar, para 
onde? A o Osvaldo tinha muita razo, ti nha muita clareza 
quando colocava. Quando ns falamos em recuo tnha mos de ter 
um lugar preestabelecido para o recuo. [ 1 Quando houve aque 
le momento da disperso, foi um momento de desespero
Veterano militante do pc do B, Zezinho tinha 39 anos e uma 
conde nao a dezoito meses de priso. Trabalhara na 
construo de Bras lia, num bar e numa oficina de 
motocicletas. Passara cerca de um ano na China e dessa 
experincia extrairia uma objetiva serenidade. Ela o habi 
tuara  floresta, tornando-o um dos melhores mateiros da 
guerrilha: Na mata eu serei a rvore, serei as folhas, serei 
o silncio. A ttica, a princ pio,  essa. Dentro desses 
princpios, que so fundamentais na mata, a gen te pode ir e 
vence todos os obstculos
241 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia em 
Guerrilha do Araguaia, p. 33.
242 Idem, Grande acontecimento na vida do pas e do pc do 
B, em Guerrilha do Araguaia, p. 60.
Elza Monnerat, que conviveu com Arroyo nos anos seguintes, 
menciona uma reunio com todos
os guerrilheiros, mas no diz quantos eles eram. Ver 
Vernica Bercht, Corao vermelho, pp. 151-2.
243 O autor entrevistou Micheas Gomes de Almeida em duas 
ocasies, por cerca de cinco horas.
Ele tinha vaga lembrana do que pode ter sido uma reunio de 
dezessete pessoas, antes do ataque
 comisso.
244 Depoimento de Micheas Gomes de Almeida a Romualdo Pessoa 
Campos Filho e Gilvane Fe lipe, 19 de dezembro de 1996. 
APRPCF.
245 Habeas data de Micheas Gomes de Almeida, dado em 20 de 
novembro de 2000 pela Agncia
Brasileira de Inteligncia.
246 Depoimento de Micheas Comes de Almeida a Romualdo Pessoa 
Campos Filho e Gilvane Fe lipe, 19 de dezembro de 1996. 
APRPCF.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        451
Segundo Arroyo, a guerrilha dividiu-se em cinco grupos, e 
cada um deles partiu na manh de 30 de dezembro. Um foi 
emboscado  tarde, e  provvel que se tenha dissolvido. 
Outro dissolveu-se trs dias depois. Seu chefe foi morto, e 
os quatro combatentes restantes dispersaram-se. Entre eles 
estavam Rosa e Cristina.
Depois de duas semanas de caminhada, Arroyo e seus cinco acom 
panhantes acamparam perto de uma capoeira. Foram procurar 
comida. Andaram pela estrada e no camuflaram a terra de onde 
haviam tirado algumas mandiocas. Metralhados, dividiram-se, e 
trs tomaram outro cur so. Um deles era Beto, o engenheiro 
Lcio, de 29 anos, o ltimo dos ir mos Petit da Silva.
Continuaram a marcha. Eram quatro, pois haviam incorporado ao 
grupo um guerrilheiro disperso. No dia 19 de janeiro, dois 
foram deixa dos no caminho. Ficaram com a tarefa de marcar um 
encontro para os dias 12 ou 15 de maro com o pedao do grupo 
que se separara.
Segundo a narrativa de Arroyo, ele seguiu com Zezinho at a 
locali dade onde fora destroado o acampamento de Grabois.  
dele o relato dos passos seguintes: Notou-se fortes rastros 
dos inimigos, no s anti gos como recentes. E os 
helicpteros sobrevoavam o local. Decidiram vol tar, porque 
no havia condies para prosseguir
Lendo-se essas palavras, pode-se pensar que o principal 
quadro so brevivente da comisso militar decidiu voltar ao 
lugar onde estava seu grupo, ou a um lugar seguro de onde 
pudesse seguir para os encontros que marcara com os 
combatentes. ngelo Arroyo decidira voltar para So Paulo. 
Ia-se embora do Araguaia, deixando para trs pelo menos 
trinta guerrilheiros transformados em fugitivos. Haveria de 
faltar-lhe a since ridade de Guevara, que, ao abandonar o 
Congo, registrara: Nossa reti rada no passava de uma
Guiados por Zezinho, atravessaram o rio Araguaia; em trs 
dias pas saram por terras goianas e subiram para o Maranho 
at chegarem ao
247 Angelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia em 
Guerrilha do Araguaia, p. 33.
248 Idem.
452        A DITADURA ESCANCARADA
Cear. Durante 22 anos acreditou-se que Arroyo saiu sozinho 
da flo resta. Essa foi a impresso que deixou em seu 
relatrio. Em 1996 o pro fessor Romualdo Pessoa Campos Filho 
encontrou Zezinho em Goinia. Micheas Gomes de Almeida 
completara 52 anos e vivera em So Paulo com outra 
identidade.
Narrando a caminhada com Arroyo, Zezinho teve o seguinte 
dilo go com o professor Romualdo:
 Quando o senhor estava retirando essas duas ltimas 
pessoas, qual era o sentimento de vocs? [ 1 O que passava na 
cabea de vocs?
 Eu no sei. [ Ns chegamos a um ponto extremo em que ns 
no tnhamos condio para nada. No tnhamos condio para 
fazer co mida, no tnhamos condio de conversar.
J no Maranho, Arroyo disse a Zezinho que iriam para S Pau
lo. Ao saber disso, o guerrilheiro sentiu faltar-lhe cho 
debaixo dos ps:
Eu jamais imaginei que eu ia receber tarefa para me retirar 
dali. Nunca. Olhe, tudo me passou pela cabea, menos essa 
hiptese. Para mim naquele momento foi pior do que se eu 
tivesse recebido um tiro. [ 1 Eu vi o sacri ficio de todos 
aqueles companheiros. A gente lutando junto, tendo um ob 
jetivo, e, naquele momento de dificuldade, a pessoa que tinha 
condio de dar um pouco, retirar algum de l... Eu me senti 
amarrado, eu me senti um trapo. Em outra conversa, me senti 
um lixo, me senti uma coisa assim que eu no sei nem te 
explicar.
249 Para a durao, Micheas Gomes de Almeida, maro de 2001.
250 Romualdo Pessoa Campos Filho, Guerrilha do Araguaa, pp. 
237-4 1.
251 Depoimento de Micheas Gomes de Almeida a Romualdo Pessoa 
Campos Filho e Gilvane Fe lipe, 19 de dezembro de 1996. 
APRPCF.
252 Micheas Gomes de Almeida, maro de 2001.
253 Depoimento de Micheas Gomes de Almeida a Romualdo Pessoa 
Campos Filho e Gilvane Fe lipe, 19 de dezembro de 1996. 
APRPCF.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        453
Passados quase trinta anos do aniquilamento da guerrilha do 
Ara guaia, a reconstruo do que sucedeu na floresta a partir 
do Natal de 1973  um exerccio de exposio de verses 
prejudicadas pelo tempo, pelas lendas e at mesmo pela 
convenincia das narrativas. Delas, a mais em busteira  a 
dos comandantes militares que se recusam a admitir a exis 
tncia da guerrilha e a poltica de extermnio que contra ela 
foi pratica da. Nunca revelaram suas baixas. Reconheceram a 
morte do sargento Mrio Abrahim e do cabo Odlio, mas nunca 
revelaram o nome de um solda do morto na Bacaba por um 
disparo acidental. Pode-se estimar que seus mortos girem em 
torno de dez.
Da guerrilha do Araguaia s h um relato assumido de oficial 
com batente.  o do capito Pedro Correa Cabral, feito mais 
de vinte anos de pois, quando ele j era coronel da reserva: 
A guerrilha j no era mais guerrilha. Era uma caada levada 
a termo por verdadeiros monstros Cabral revelou que 
helicpteros sobrevoaram a selva com alto-falantes por meio 
dos quais se oferecia a rendio aos guerrilheiros. Quem a 
acei tou, foi assassinado. Os comandantes militares 
produziram apenas um documento, da Marinha, no qual est 
registrada a suposta data da mor te de cada guerrilheiro. 
Conhece-se tambm um canhenho de anota es de um oficial que 
participou dos combates, com registros parcia Juntos, formam 
um conjunto desconexo.
Restam ainda as lembranas de moradores que continuaram na re 
gio. Trs depoimentos so esclarecedores. Um  do 
encarregado da lan-
254 Veja, 13 de outubro de 1993, p. 22, por Rinaldo Gama.
255 Depoimento do coronel Pedro Correa Cabral  Comisso de 
Direitos Humanos da Cmara
dos Deputados, 23 de maio de 2001.
256 A confiabilidade dessa lista requer cautela. Est errada 
em dois casos. Registra que Antnio
Guilherme Ribeiro Ribas, o Ferreiro, morreu em fevereiro de 
1973, quando Arroyo, no Relatrio
sobre a luta no Araguaia em Guerrilha do Araguaia, p. 31,0 
d por vivo no dia 28 de novembro.
Informa que Rosa foi morta a tiros num acampamento, quando 
ela foi capturada viva e vista tan to presa como na ocasio 
de seu fuzilamento. Apesar dessa restrio, trs mortes (Zeca 
Fogoi, Osvaldo
e Peri) cuja data pode ser estabelecida com base nos 
depoimentos de outras fontes militares es to corretamente 
localizadas.
454        A DITADURA ESCANCARADA
chonete da Bacaba, Jos Veloso de Andrade, outro  do 
sargento Joo San ta Cruz, cujo nome se tornou uma lenda 
entre as foras da ordem. O ter ceiro  o do coronel Pedro 
Cabral.
Veloso guardou uma verso e uma certeza do que aconteceu a 
Dma:
A Dma foi presa aqui nas imediaes da Itaipava, quando ela 
tirou o re vlver do brao e deu pra um velho ir vender, 
porque ela tava fraca de di nheiro, no tinha dinheiro, ento 
ela juntamente com a Lia, no sei o nome da Lia. E a o velho 
chegou e avisou pra turma do Exrcito. A juntou o pessoal e 
foram, o pessoal do Exrcito, foram com o velho levar.., acom 
panharam o velho e fizeram l os traos deles com o velho, e 
fizeram uma emboscada. A o velho vai com elas deixar 
dinheiro e tirar elas,  noite.
Ela no foi morta, ela foi presa. Quem falou, quem informou 
mentiu. [ Ouvi falar que tinham levado pra Braslia, agora 
no sei.
Santa Cruz, que chegou com as tropas em 1972 e permaneceu na 
re gio depois da sada do Exrcito, viu Dma na Bacaba e 
conversou com ela em inmeras ocasies. O coronel Pedro 
Cabral trocou algumas pa lavras com uma guerrilheira grvida, 
que acredita ter sido Dma, presa na Casa Azul. Ela lhe 
dissera: Estou doida para voltar para Braslia, pagar minha 
pena No dia seguinte, Cabral viu-a embarcando num helicpte 
ro com uma patrulha comandada pelo Major Curi. Foi 
assassinada.
257 Teima Regina Cordeiro Corra, 27 anos, ex-estudante de 
geografia na Universidade Federal Fluminense.
258 Depoimento de Jos Veioso de Andrade a Romualdo Pessoa 
Campos Filho e Gilvane Felipe, 19 de janeiro de 1994. APRPCF. 
Ainda que haja outras verses segundo as quais Dma foi 
entregue por um morador da regio,  improvvel que ela e Lia 
tenham sido presas juntas. Para o conjun to de verses sobre 
as duas, consultar o Centro de Documentao Eremias 
Delizoicov. Para Dma:
<http://www.desaparecidospoliticos.org.br/araguaia/dinaelza.h
tml>. Para Lia, com o depoimen to de uma testemunha ocular 
que a viu ser presa sozinha: 
<http://www.desaparecidospoliticos. 
org.br/araguaia/telma.html>.
259 Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, setembro de 2001, 
depois de ter tomado o depoimen to do sargento Santa Cruz na 
Comisso de Direitos Humanos da Cmara dos Deputados.
260 Depoimento do coronel Pedro Correa Cabral  Comisso de 
Direitos Humanos da Cmara dos Deputados, 23 de maio de 2001.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        455
Sabe-se tambm como foi capturado Zeca Fogoi, o ltimo 
sobre- vivente da comisso militar da guerrilha: no incio de 
janeiro ele se acer cou da casa de um campons e lhe pediu 
gua, comida e cho para re pousar. Recebeu gua e sentou-se 
num toco  beira de um mandiocal. O menino da casa foi 
mandado  fazenda onde estava o comando das patru lhas do 
lugar. Rendido, o guerrilheiro pediu: Doutor, no vai me 
matar Tinha o corpo coberto por ulceraes de picadas de 
mosquito e desnu trio. Numa mochila de aniagem carregava 
carne de macaco e mandio ca. Identificou-se como Jos 
Humberto Bronca. Quando o helicptero chegou, trazendo 
sargentos do dE, um deles esclareceu: Que Bronca coi sa 
nenhuma, esse o Fogoi. Segundo o registro da Marinha, ele 
mor reu no dia 13 de maro de 1974.
Piau, um dos quadros mais qualificados do ic do B, andou 
pelo ma to por vrias semanas, at que um menino que o 
acompanhava (cujo pai aderira  guerrilha e fora morto) 
resolveu lev-lo  casa de um tio. Esta va faminto, seminu. 
Foi entregue  tropa, que o encapuzou, amarrou e levou para a 
Bacaba. O mateiro Peixinho acompanhou-o em cinco pa trulhas 
na busca por depsitos de armas ou mantimentos. A princpio 
Piau ia amarrado. Depois, andava com a tropa. Um dia 
disseram ao ma teiro que Piau no o acompanharia mais.
Joo Araguaia, que participara do ataque ao posto da PM e 
escapa ra da emboscada em que morrera Andr Grabois, partira 
 frente de um dos cinco grupos formados no dia 30 de 
dezembro. Provavelmente no fi nal de janeiro, a sorte 
protegeu-o de novo. Foi com o guerrilheiro Manoel
261 Jos Humberto Bronca, 39 anos, ex-mecnico de manuteno 
de avies.
262 Depoimento de um oficial combatente do Araguaia cujo nome 
fica preservado, fevereiro de 2001.
263 Depoimento de Jos Vieira a Romualdo Pessoa Campos Filho, 
25 de fevereiro de 1996. APRPCF.
Ver tambm o depoimento de uma moradora da regio a Snia 
Zaghetto, em O Liberal de 3 de
junho de 2001, e os de Jos Moraes Silva e Jos Francisco 
Dionsio, em Inquritos Civis Pblicos
MPF/SP/N 03/2001, MPF/PA/N 01/2001 e MPF/DF/N 05/2001.
264 Termo de Declarao que Presta Raimundo Nonato dos Santos 
(Peixinho), em So Domin gos do Araguaia, em 14 de julho de 
2001. Centro de Documentao Eremias Delizoicov, <http://
www.desaparecidospoliticos.org.br/araguaia/a_padua.html>.
265 Dermeval da Silva Pereira, 29 anos, advogado.
266 Rodolfo de Carvalho Troiano, 24 anos, ex-estudante 
secundarista.
456        A DITADURA ESCANCARADA
 casa de um lavrador para devolver-lhe o filho Sebastio, 
que acom panhara a guerrilha. Continuava robusto, vestia 
bermudas e carregava uma submetralhadora. O pai do menino foi 
para a Bacaba e avisou os militares. Voltou com doze 
soldados. Guiados por Sebastio, entraram na mata, e deu-se 
um tiroteio. Manoel, ferido, foi morto com um tiro na cabea. 
Tempos depois, magro, amarelado e cabeludo, Joo pe diu a um 
lavrador que o entregasse ao Exrcito. Foi metralhado na Ba 
caba.
Beto, o ltimo dos irmos Petit da Silva, foi preso em abril, 
c dois outros guerrilheiros, quando foi  casa de um lavrador 
em busca de sal. Um deles mal podia caminhar. (Nos cinco anos 
seguintes, vi vendo em So Paulo, a costureira Julieta, me 
dos trs Petit da Silva, acre ditou que eles estariam no 
exterior ou na priso. Pelo resto de sua vi da colocou uma 
flor ao lado do retrato de Maria Lcia no dia de seu 
aniversrio, retirando-a somente quando as ptalas caam. 
Restou-lhe um casal de filhos.)
Peri, achado sozinho na mata, tinha consigo uma garrafa com 
sal, uma garrucha e um caderno de notas no qual louvava os 
jabutis e mal dizia os mateiros. Levou um tiro na cabea, e 
um helicptero buscou seu cadver. Deixado no cho da base de 
Xambio, foi chutado pela tropa at que um oficial da FAB 
interveio, exigindo que respeitassem o inimigo morto. No 
crcere da Bacaba, Veloso viu pelo menos sete guerrilheiros
267 Depoimento de Luiz Martins dos Santos e Zulmira Pereira 
Neres, em Inquritos Civis Pblicos
MPF/SP/N 03/2001, MPF/PA/N 01/2001 e MPF/DF/N 05/2001.
268 Depoimento de Rocilda Souza dos Santos, em Inquritos 
Civis Pblicos MPF/SP/N 03/200 1,
MPF/PA/N 01/2001 e MPF/DF/N 05/2001, e entrevista de Manuel 
Leal Lima, o Vanu, a Romualdo
Pessoa Campos Filho. APRPCF.
269 Ele estava com Antnio Ferreira Pinto (Antnio Alfaiate) 
e ljirassu de Assis Batista (Valdir).
Depoimentos de Margarida Ferreira Flix e Antnio Flix da 
Silva. Beto foi visto preso, por Adal gisa Moraes da Silva. 
Segundo Sinvaldo de Souza Gomes, existe uma fotografia de 
Beto, amarra do, diante de um helicptero. Inquritos Civis 
Pblicos MPF/SP/N 03/2001, MPF/PA/N 01/2001 e
MPF/DF/N 05/2001.
270 O Globo, 28 de abril de 1996, e Veja, 19 de maio de 1996.
271 Pedro Alexandrino de Oliveira Filho, 27 anos, bancrio.
272 Informao dada por um oficial cujo nome fica preservado, 
fevereiro de 2001. Segundo o re latrio da Marinha, Peri 
morreu em agosto de 1974.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        457
capturados. Por coincidncia, Vanu viu dois deles vivos, no 
mato, escol tados pela tropa.
Depois de morto, Osvaldo foi degolado. Nesse caso, por puro 
bar barismo. A lgica do extermnio explicava a degola como 
recurso neces srio para a identificao de guerrilheiros 
mortos no meio da mata, a dias de distncia de um ponto de 
contato com a tropa. Num episdio desse tipo, Jos dos Santos 
Anik, que combateu a guerrilha como soldado, con tou o que 
fez: Eu matei um guerrilheiro e, seguindo a prtica do Exr 
cito, cortei sua cabea e as mos para que seu nome pudesse 
ser riscado da lista negra entregue a todos os militares com 
os nomes e as fotos de todos os procurados.
A partir de outubro de 1973 todos os militantes do ic do B 
aprisio nados foram executados. Pelo menos dois cadveres 
foram deixados in sepultos na floresta. Mataram inclusive 
Josias, que, segundo os registros de um militar, identificou 
e confirmou a presena na regio de quatro ou tros 
guerrilheiros. H depoimentos esparsos de mateiros e 
moradores indicando que alguns guerrilheiros se renderam. 
Outros, depois de pre sos, foram levados de volta  floresta 
para localizar refgios e esconderi jos de mantimentos. (Em 
maro de 1974 o governo contabilizara a des truio de 54 
depsitos de mantimentos. Rendidos e submissos, foram 
assassinados. Puseram alguns deles em avies tripulados por 
equipes do Centro de Informaes da Aeronutica e jogaram-nos 
no oceano. Esse
273 Veloso viu na Bacaba: Mariadinci (Dinaelza Soares Santana 
Coqueiro), Chica (SuelyYumiko
Kariayama), Edinho (Hlio Luiz Navarro de Magalhes), Beta 
(Lcio Petit da Silva), Valdir (Ui rassu de Assis Batista), 
Pedro Carretel (Pedro Matias de Oliveira) e Rosa (Maria Clia 
Corra). Desses,
Vanu viu vivos Pedro Carretel e Rosa. Alm deles, viu Piau 
(Antnio de Pdua Costa) e Dada (Luiz
Ren Silveira e Silva).
274 Entrevistas do ex-soldado Jos dos Santos Anik a O Globo 
de 31 de dezembro de 1995 e de
Joaquina Pereira a O Globo de 2 de maio de 1996.
275 O Globo, 31 de dezembro de 1995.
276 Agenor Moraes da Silva viu o cadver que acreditou ser de 
Luiz Ren Silveira e Silva, o Dada,
a quem vira, vivo, na Bacaba. Margarida Ferreira Flix viu o 
de Lcia Maria de Souza, a Snia.
Inquritos Civis Pblicos MPF/SP/N 03/2001, MPU/PA/N 01/2001 
e MPF/DF/N 05/2001.
277 O Globo, 28 de abril de 1996.
278 Maria Celina dAraujo e Celso Castro (orgs.), Dossi 
Geisel, p. 49.
279 Depoimento de um oficial combatente do Araguaia cujo nome 
fica preservado, janeiro de 2002.
458        A DITADURA ESCANCARADA
pode ter sido o caso dos que foram retirados da Bacaba com a 
informa o de que fariam uma viagem
As foras militares pouparam pelo menos seis lavradores que, 
com suas famlias, internaram-se na mata a convite da 
guerrilha e, semanas depois, dispersaram-se. Pouparam tambm 
trs dos adolescentes re crutados pelo rc do B. No h 
notcia de jovem atrado pelos guerrilhei ros que, depois de 
capturado, tenha sido assassinado pelo Exrcito. O me nino 
Jos Vieira, que foi preso com Piau, sobreviveu  terceira 
campanha e contou sua histria. Passou um tempo na cadeia. 
Levaram-no para Be lm e de l para Altamira, onde o 
alistaram no Exrcito. Serviu por um ano e retornou para 
casa. Ele guardou a lembrana de dois outros que foram 
alistados.
No final de fevereiro de 1974 o Exrcito estimava que os 
fugitivos fos sem cerca de vinte e comeou a retirar suas 
tropas especiais do Araguaia. Deixou em torno de cem homens 
do CIE e das tropas especiais, manteve os postos de comando e 
as bases de Marab e Xambio. A partir da o msculo da fora 
combatente passaria a ser outro, as equipes Zebra. Em geral 
uma equipe Zebra era composta por dois mateiros, armados com 
fuzis Mauser e trinta cartuchos, atrs de recompensas que iam 
de 3 mil cruzeiros por uma boa informao a 5 mil por um 
guerrilheiro morto. Trs mil cruzeiros era o valor do prmio 
que o colgio Pedro ii pagara ao aluno de sua Faculdade de 
Humanidades que fizera o melhor ensaio so 280 Depoimento de 
Luiz Martins dos Santos e Zulmira Pereira Neres, em 
Inquritos Civis Pblicos
MPF/SP/N 03/2001, MPF/PA/N 01/2001 e MPF/DF/N 05/2001.
281 Depoimento de Jos Vieira a Romualdo Pessoa Campos Filho, 
25 de fevereiro de 1996. APRPCF. Segundo Jos, um jovem de 
nome Sebastio tambm tirou os tempos em Altamira. Ele 
mencio na mais dois, um dos quais  Wilson, o garoto que 
escapou da emboscada em que morreu a guer rilheira Snia. 
Para o caso de Sebastio, ver o depoimento de Zulmira Pereira 
Neres, em Inquri tos Civis Pblicos MPF/SP/N 03/200 1, 
MPF/PA/N9 01/2001 e MPF/DF/N 05/200 1.
282 Depoimento de um oficial combatente do Araguaia cujo nome 
fica preservado, dezembro de
2001. O ex-guia Alexandre de Oliveira usou esse termo, que 
relacionou com a busca de rastros, fi xando a sua ao em 
1974: Eu ficava com mais quatro na zebra E...] e no tinha 
dia, no tinha sol, no tinha chuva: o pau quebrava mesmo no 
mato. Em <http://www.desaparecidospoliti 
cos.org.br/araguaia/7.html>, citando A guerrilha do Araguaia, 
de Palmrio Dria e outros. H ou tra referncia s zebras 
no depoimento de Jos Veloso de Andrade a Romualdo Pessoa 
Campos Filho e Gilvane Felipe, de 19 de janeiro de 1994: 
E...] os caras que entravam.., que eles criavam uma equipe 
de guias, que se chamavam zebras [ APRPCF.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA 459
bre o tema A Revoluo de 1964 e a educao nacional Cinco 
mil va lera a parte do capito Guimares no trabalho de 
cobertura de um de sembarque de contrabando em Sepetiba.
Pela narrativa de um morador, a oferta de dinheiro era 
suficiente para enricar. Pelo menos dois sargentos com anos 
de servio na selva (um com curso no Panam) ficaram no 
Araguaia caando guerrilheiros. Um deles seguiu para sudoeste 
e capturou dois fugitivos. Estabeleceu-se na regio, onde 
obteve terras. O guerrilheiro Doca foi fotografado na 
companhia do ex-sargento Joo Santa Cruz, na mata, ao lado de 
uma pequena cachoei ra. Est agachado, com as mos e os ps 
livres, na posio de quem compe uma cena. Segundo o 
relatrio da Marinha, ele morreu em junho de 1974.
Renasceram as volantes caadoras de cangaceiros. Pode-se 
estimar que as equipes Zebra tenham sido dez, mas no se sabe 
quantos guerri lheiros mataram. A recompensa foi dada apenas 
s volantes credencia das. Os demais eram gratificados de 
acordo com os costumes definidos em 1972. O mateiro Piau, 
matador de Osvaldo, ganhou uma gleba de terra na mata e 
viveu a fama de seu xito. Morreu pobre em 1993, e o governo 
pagou-lhe o funeral. Outro bate-pau, que participara de pe lo 
menos um combate no qual morreram quatro guerrilheiros, 
ganhou sua gleba, mas faltou-lhe dinheiro para mant-la. 
Acabou como carro ceiro. Adalberto Virgulino, que capturou a 
guerrilheira urea,292 re 283 ARevoluoeajuventude,p. 17.
284 Depoimento de Alvaro Cardoso Machado, Processo n 4896, 
STM, vol. 1, p. 75.
285 Para o interesse dos mateiros pela recompensa, depoimento 
de Joo de Deus Nazrio a Ro mualdo Pessoa Campos Filho, 26 
de fevereiro de 1996. APRPCF.
286 Depoimento de um oficial combatente do Araguaia cujo nome 
fica preservado, abril de 2001.
287 Depoimento de Pedro Mari vetti a Romualdo Pessoa Campos 
Filho, 21 de janeiro de 1994. APRPCF.
288 Daniel Ribeiro Cailado, 34 anos, operrio.
289 Jornal Opo, 8 a 14 de julho de 2001, reportagem de 
Euler Belm.
290 Depoimento de Dilma Bezerra, sobrinha de Arlindo Vieira, 
em O Globo de 29 de abril de 1996.
Para o funeral, depoimento de Jos Veloso de Andrade a 
Romualdo Pessoa Campos Filho e Gil vane Felipe, 19 de janeiro 
de 1994. APRPCF.
291  Manuel Leal Lima, o Vanu. O Globo, 2 de maio de 1996.
292 urea Eliza Valado, 24 anos, ex-estudante de Fsica da 
UFRJ, viva de Arildo Valado.
460        A DITADURA ESCANCARADA
cebeu oitocentos cruzeiros e um mao de cigarros. O 
fazendeiro que entregou Rosa foi condecorado e veio a ser 
delegado de polcia na sua pequena cidade.
A caada do Araguaia pode ter durado mais nove meses. Dois 
regis tros de informantes do Exrcito revelam que em outubro 
de 1974 trs guer rilheiros foram vistos no mato. Dois homens 
com roupas esfarrapdas, no dia 3 Uma semana depois o 
lavrador Chico Vitorino viu uma mu lher magra, meio 
amarelada. Mancava de uma perna e estava descala. Vestia 
bermuda e camisa de homem, e trazia um revlver na mo. Deso 
rientada, pedia fsforos. Fugiu quando lhe pediram a arma. 
Dois matei ros seguiram seu rastro, sem sucesso. Na folha 
manuscrita assinada por Chico Vitorino algum escreveu: Ela
Era Walkria. Chegara ao mato em 1971 e dois anos depois esti 
vera no peloto de quatro mulheres que assassinaram um 
funcionrio da Companhia de Terras de Gois. Segundo o 
registro da Marinha envia do ao Congresso, Waik foi a ltima 
combatente executada. Morreu no dia 25 de outubro de 1974. O 
mateiro Sinsio Martins Ribeiro viu-a presa na base de 
Xambio: Ela estava bem cuidada, limpa com roupa nova, um 
vestido, falando com o doutor. O doutor no gostava de falar 
com guer rilheiro sujo Um soldado levou-a para o mato, 
carregando uma lata de biscoitos com cal virgem. Dias depois, 
quando Sinsio perguntou ao sol dado onde ela estava, ouviu: 
J era
293 Isto, 28 de julho de 1993.
294 Depoimento do fazendeiro Geraldo Martins de Souza, em O 
Globo de 5 de maio de 1996.
295 Informe n de 3 de outubro de 1974. AA.
296 Walkria Afonso Costa, 28 anos, ex-aluna de pedagogia da 
UFMG e ex-vice-presidente de seu
diretrio acadmico.
297 Documento da Marinha, anexo ao Relatrio da Comisso 
Externa Destinada a Atuar junto aos
Familiares dos Mortos e Desaparecidos Polticos aps 1964, na 
Localizao de seus Restos Mortais,
publicado no Dirio do Congresso Nacional de 23 de maro de 
1995, p. 4179. Para o fuzilamento,
Jornal do Brasil de 12 de abril de 1992, p. 17, reportagem de 
Ronaldo Brasiliense.
298 Termo de Declarao que Presta Sinsio Martins Ribeiro, 
em So Geraldo do Araguaia, em
19 de julho de 2001. Centro de Documentao Eremias 
Delizoicov, <http://www.desaparecidos politicos. 
org.br/araguaia/walquiria.html>.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        461
Na guerra popular do ic do B pereceram 59 quadros levados 
para o Araguaia. Suas famlias foram indenizadas pelo Estado. 
Quase todos tor naram-se nome de pelo menos uma rua, no 
municpio de Campinas. Al guns, de trs. Morreram tambm 
cerca de dez moradores do Araguaia. Em alguma medida, deram  
guerrilha a simpatia e a violncia das mas sas. S trs 
foram indenizados. Um deles  Antonio Alfredo  virou nome de 
rua. Os outros  Lourival Paulino e Luiz Vieira  no tive 
ram essa homenagem. Num livro em que publicou a biografia dos 
mor tos do Araguaia, o pc do B dedicou 121 linhas a Maurcio 
Grabois e trs a cinco camponeses desaparecidos durante a 
guerrilha, um dos quais es tava vivo. Nelas falta pelo menos 
um combatente. Chama-se Batista, e dele pouco se sabe. Estava 
com Osvaldo quando a tropa atacou a co misso militar, no 
Natal de 1973.300 Continuou com os guerrilheiros at que foi 
capturado, numa casa onde pediu comida. Foi visto na priso, 
em Xambio, onde desapareceu.
Num dos mais grosseiros episdios de mistificao poltica 
produ zidos pelo comunismo nacional, a direo do pc do B, 
liderada por Joo Amazonas, levou ao seu limite a retrica do 
herosmo popular e transfe riu os combates para o mundo da 
fantasia do materialismo histrico. Em abril de 1974, quando 
Arroyo j se encontrava em So Paulo, um edito rial dA 
Classe Operria enviava fraternais e entusisticas saudaes 
de combate aos seus quadros e assegurava: No h dvida de 
que os guer rilheiros do Araguaia tm condies para resistir 
e possuem imenso campo de manobra. Em novembro o jornal 
clandestino O Araguaia informava que, no decorrer destes 
dois anos e oito meses do incio da
299  Frederico (Frederico Lopes). Apareceu em 1985. O Globo, 
5 de maio de 1996.
300 ngelo Arroyo, Relatrio sobre a luta no Araguaia, em 
Guerrilha do Araguaia, pp. 31-2.
301 Termo de Declarao que Presta Sinsio Martins Ribeiro, 
em So Geraldo do Araguaia, em
19 de julho de 2001. Centro de Documentao Eremias 
Delizoicov, <http://www.desaparecidos 
politicos.org.br/araguaia/aurea.html>.
302 Dois anos de luta gloriosa, A Classe Operria, abril de 
1974. Elza Monnerat encontrou-se
com Arroyo em So Paulo, no final de maro de 1974. Vernica 
Bercht, Corao vermelho, p. 146.
462 A DITADURA ESCANCARADA
resistncia, a guerrilha conseguiu se implantar firmemente na 
regio
Nessa poca, nem fugitivos havia mais.
Enquanto os capas-pretas do rc do B combatiam numa guerrilha 
que no tinha mais histria, o CIE combatia a Histria, para 
que nela no exis tisse guerrilha. Apagava o registro do 
extermnio. Equipes de militares mandadas ao Araguaia abriram 
sepulturas, retiraram os corpos espalha dos pela regio e 
levaram-nos de helicptero para a serra das Andorinhas, onde 
foram queimados em fogueiras de pneus carecas. Em abril de 
1975 o PC do B dirigia-se aos combatentes: Saudamos 
calorosamente os intr pidos guerrilheiros do Araguaia, sua 
deciso inabalvel de prosseguir com batendo por uma causa 
justa Em setembro, sempre conjugando a ao da guerrilha no 
tempo presente, proclamava: Vivam as Foras Guerrilheiras do 
Araguaia! S em abril de 1976 o ncleo dirigente do PC do B 
admitiu que a guerra popular tinha retrocedido Ainda assim, 
sustentaria: O balano poltico, do ponto de vista da luta 
do nosso povo e do papel do partido, no que respeita aos 
sucessos do Araguaia,  altamente positivo.
O Exrcito nunca contou como prevaleceu, e o PC do B nunca 
reco nheceu a derrota militar de sua iniciativa poltica. 
Agiram assim porque
cada um teve um pedao da histria a esconder.
Pelo lado das foras da ditadura, os militares que se 
apresentavam
ao pas como um fator de civilizao e progresso, encarnaram 
os valores
e os mtodos das volantes de caadores de quilombolas e de 
cangaceiros.
A vida dos inimigos tornara-se uma irrelevncia diante de um 
objetivo
maior: o extermnio da subverso comunista.
Pelo lado da liderana do PC do B, que se apresentava como a 
van guarda de uma guerra popular, ruiria sua conexo com a 
realidade. Ope racionalmente, ela se desligou do que 
acontecia no Araguaia, tanto em relao aos meios (que eram 
poucos) como em relao  responsabili
303 O Araguaia, novembro-dezembro de 1974, em Wladimir Pomar, 
Araguaia, p. 47.
304 Veja, 13 de outubro de 1993.
305 A Classe Operria, abril e setembro de 1975 e abril de 
1976, em Wladimir Pomar, Araguaia,
pp. 237, 245 e 247.
306 ngelo Arroyo, Grande acontecimento na vida do pas e do 
PC do B, em Guerrilha do Ara guaia, p. 56.
A FLORESTA DOS HOMENS SEM ALMA        463
dade que lhe cabia. Substituiu o massacre de seus quadros 
pela propa ganda da iniciativa, O extermnio tornara-se uma 
irrelevncia diante do objetivo maior: a autoglorificao do 
partido.
Perseguindo objetivos que ora prescindiam dos fatos ora os 
temiam,
a ditadura e o rc do B entrariam para a histria com o mesmo 
siogan:
Vencemos
A extravagncia geo grfica, somada ao sigilo da operao e 
ao siln cio em que o massacre do Araguaia foi envolvido por 
todos os governos seguintes, deixou a impresso de que este 
foi um episdio singular. Do ponto de vista histrico, os 
massacres de Canudos e do Contestado fica ram por dcadas em 
situao parecida. O primeiro, incorporado como enredo de uma 
obra-prima literria, O segundo, relegado a um desco 
nhecimento s vezes atribudo  falta de um Euclides da 
Cunha. Cada um  sua maneira, esses episdios adquiriram 
aparncia de excentricidade quando foram manifestaes 
semelhantes do exerccio selvagem da vio lncia do Estado.
O massacre do Araguaia foi o apogeu de uma concepo poltica 
na qual se embutira o extermnio das militncias 
esquerdistas. Teve pouco de especfico. A violncia militar 
contra os humildes moradores da re gio seguiu a tradio 
nacional. Sua singularidade esteve apenas na di retriz, 
executada a partir de outubro de 1973, do extermnio de todos 
os guerrilheiros.
O recurso ao assassinato e a idia da eliminao das 
lideranas e dos principais quadros das organizaes armadas 
era-lhe anterior. Quando o primeiro oficial do Centro de 
Informaes do Exrcito chegou  casa de telhado azul de 
Marab, a casa de Petrpolis funcionava havia pelo menos um 
ano. Em 1971, quando nada se sabia do Araguaia, desapare 
ceram pelo menos catorze presos polticos. Muitos deles foram 
execu tados nas condies de submisso em que haveriam de 
morrer quase to dos os guerrilheiros.
307 Vale lembrar que Adeodato, comandante rebelde do 
Contestado, vagou pela mata e foi loca lizado em condies 
semelhantes quelas em que se encontrava Osvaldo. Entregou-
se, e um jri o condenou. Fugiu e foi recapturado. Sete anos 
depois, mataram-no quando tentava nova fuga. Paulo Ramos 
Derengoski, Guerra no Contestado, pp. 106-8.
464        A DITADURA ESCANCARADA
No ltimo trimestre de 1973 morreram treze pessoas fora do 
Ara guaia. Destas, seis desapareceram. Pela primeira vez na 
histria da dita- / dura, o nmero de desaparecidos 
aproximava-se ao de mortos oficialmen te admitidos. Estava-se 
diante de um novo comportamento. Nele, o que sucedeu no 
Araguaia foi amostra radical, no episdio isolado.
Dez anos depois da sada do marechal Castelio Branco de sua 
casa de Ipanema para o palcio Laranjeiras, o general Ernesto 
Geisel prepa rava-se para ocupar a Presidncia da Repblica. 
Receberia uma ditadu ra militar que apoiara, sabendo que 
dentro dela estava montada uma m quina de extermnio das 
lideranas esquerdistas. No havia mais guerrilha, muito 
menos terrorismo. Sobrara a mquina.
i Patentes
APNDICE
BREVE NOMENCLATURA MILITAR
So as seguintes as patentes dos oficiais das Foras Armadas:
MARECHAL (cinco estrelas)
Patente honorfica, extinta no governo Casteilo.
Ao passarem para a reserva, os generais-de-exrcito eram 
promovidos ao marechalato.
Em 1975 eles eram 73*
GENRRAL-DE-EXRC5TO (quatro estrelas)
 a patente mais alta dos oficiais da ativa.
Em 1964 o Exrcito tinha catorze quatro-estrelas. Quatro em 
comandos de exrcitos, um na che fia do Estado-Maior e outros 
quatro na chefia dos departamentos administrativos. Juntos, 
forma vam o Alto-Comando.
Um oficial pode ter quatro estrelas e ficar sem funo, assim 
como pode ter funo (o comando da Escola Superior de Guerra, 
por exemplo) e no pertencer ao Alto-Comando.
(Essa patente corresponde  de almirante-de-esquadra na 
Marinha e tenente-brigadeiro na Fora Area.)
GENERAL-DE-DIVI5O (trs estrelas)
Em 1964 eram 31.** Em 1975, 42.
Os trs-estrelas comandam as divises de tropas (a 1 Diviso 
de Infantaria, da Vila Militar, por exemplo). Ocupam as vice-
chefias do Estado-Maior e dos departamentos. Tambm chefiam 
as Re gies Militares.
(Corresponde ao vice-almirante e ao major-brigadeiro.)
* At 1968, quando morreu, o marechal Mascarenhas de Moraes 
foi mantido no servio ativo, por deciso do Congresso. Era 
uma homenagem ao comandante da Fora Expedicionria 
Brasileira.
** Computaram-se os engenheiros militares (dois), mdicos 
(um), veterinrios (um) e intenden tes (um).
466        A DITADURA ESCANCARADA
GENERAL-DE-BRIGADA (duas estrelas)
Em 1964 eram 73. Em 1975, 93.
Um general de duas estrelas pode comandar uma unidade 
importante, como a Brigada Pra-Quedista,
ou uma diretoria burocrtica.
Em 1964 a idade mdia dos generais-de-brigada ficava em pouco 
menos de 54 anos.
(Corresponde ao contra-almirante e ao brigadeiro.)
Pela reforma de 1967, devida ao presidente Castello Branco, 
nenhum oficial pode permanecer mais de doze anos na ativa 
como general. Alm disso, cada uma das patentes deve ter 25% 
de seu qua dro renovado a cada ano. Essas normas vigoram at 
hoje.
CORONEL
Em 1964 o Exrcito tinha 340 coronis em funes consideradas 
militares. Em 1975, 408.
Na tropa, o coronel comanda um regimento.
(Corresponde ao capito-de-mar-e-guerra da Marinha.)
Pela reforma de Castello nenhum coronel pode permanecer menos 
de sete e mais de nove anos na
patente.
TENENTE-CORONEL
Comanda um batalho.
Ficava-se nessa patente em torno de cinco anos.
A etiqueta militar d aos tenentes-coronis o tratamento de 
coronel
(Corresponde ao capito-de-fragata da Marinha.)
MAJOR
Comanda um batalho.
(Corresponde ao capito-de-corveta da Marinha.)
CAPITO
Comanda uma companhia.
Em 1975 o Exrcito tinha cerca de 2 mil capites.
TENENTE
Comanda um peloto.
Na mdia, de cada cem tenentes, seis chegam a general.
2 Estrutura
No Exrcito convivem duas estruturas. Uma, diretamente 
relacionada com as tropas de combate,
 bastante simples. Outra, na qual est a burocracia,  mais 
complexa.
 a seguinte a estrutura de uma tropa de combate, vista de 
baixo para cima:
PELOTO
Tem um efetivo que pode variar entre trinta e cinqenta 
homens.  comandado por um tenente.
COMPANHIA
Trs pelotes formam uma companhia. Tem de cem a 150 homens. 
 comandada por um capito.
1
APNDICE        467
BATALHO
Trs companhias formam um batalho. Seu efetivo oscila de 
trezentos a 450 homens, comanda- dos por um major ou tenente-
coronel.
REGIMENTO
Trs batalhes formam um regimento. Tem entre mil e t500 
homens e  comandado por um coronel.
BRIGADA
 uma unidade de composio mista, sempre comandada por um 
general de duas estrelas. Seu efe tivo pode variar entre 5 
mil e 10 mil homens.
DIVISO
Um nmero varivel de brigadas e regimentos agrupam-se numa 
diviso. Essa  a principal unidade combatente. Rene tropas 
das diferentes Armas. Nelas, excentricamen te, as tropas de 
infantaria ficavam sob o comando de uma Infantaria 
Divisionria, conhecida co mo in.
EXRCITO
Conhecido como grande comando, agrupa todas as tropas de 
uma determinada regio geogr fica.
As tropas terrestres estavam assim divididas:
1 Exrcito, com jurisdio sobre as tropas do Rio (onde 
ficava o seu comando), Minas Gerais e Esprito Santo;
II Exrcito, incluindo So Paulo (sede do comando) e Mato 
Grosso;
III Exrcito, incluindo o Rio Grande do Sul (sede do comando, 
em Porto Alegre), Santa Catarina e Paran, e
iv Exrcito, com sede no Recife, englobando todos os estados 
do Nordeste.
Alm desses grandes comandos ocupados por quatro-estrelas, 
havia dois outros, sob as ordens de
generais-de-diviso:
Comando Militar da Amaznia, com sede em Manaus, e
Comando Militar do Planalto, com sede em Braslia e 
jurisdio sobre o Distrito Federal e Gois.
Existiam tambm onze Regies Militares, comandadas por 
generais-de-diviso.
A regio cuida essencialmente do apoio logstico ao Exrcito 
em cuja rea se situa.
Eram as seguintes as Regies Militares:
U EM, com sede nu Rio de Janeiro;
2 EM, com sede em So Paulo;
3 EM, com sede em Porto Alegre;
4s EM, com sede em Juiz de Fora;
5 EM, com sede em Curitiba;
6 EM, com sede em Salvador;
D EM, com sede no Recife;
8 EM, com sede em Belm;
9 EM, com sede em Campo Grande;
t0 EM, com sede em Fortaleza, e U EM, com sede em Brasilia.
CRONOLOGIA
470 A DITADURA ESCANCARADA
POLTICA
Janeiro Cassados 39 parlamentares, trs mi nistros do STF e 
um do STM.
O capito Carlos Lamarca deserta. Julho Inaugurada a nova 
sede da Oban.
Os conservadores prevalecem na CNBB. Roubado o cofre de 
Adhemar de Barros. Agosto Costa e Silva sofre uma isquemia 
cerebral. Uma junta militar assume. Setembro Seqestrado o 
embaixador ameri cano Charles Elbrick.
Virglio Gomes da Silva, da ALN,  preso e some.  o primeiro 
desaparecido. Outubro Nova Constituio.
Reaberto, o Congresso elege Medici. Novembro Morre Carlos 
Marighella.
Surge em Paris a Frente Brasileira de Infor maes, 
denunciando a ditadura.
e No ano, mais de 100 assaltos e exploses.
Neles morrem 15 guardas e policiais e quatro
cidados. Morrem 19 militantes da esquerda.
 As denncias de torturas so 1027.
Maro O historiador Caio Prado Jnior  con denado a quatro 
anos e meio de priso.
O papa Paulo vi condena a tortura brasileira.
Abril Descoberta uma base de treinamento
de Lamarca no vale do Ribeira.
Juniio Seqestrado o embaixador alemo Von
Holleben.  trocado por 40 presos. H no pas 500 presos: 56% 
so estudantes
cuja idade mdia  23 anos. Setembro Criados 05 DOIS.
Outubro D. Agnelio Rossi vai para Roma. D. Paulo Evaristo 
Arns  o novo arcebispo de So Paulo.
Novembro Eleies legislativas. A Arena faz mais de dois 
teros na Cmara. Dezembro Seqestrado o embaixador suo 
Giovanni Bucher.  trocado por 70 presos. e Denncias de 
torturas: 1206. Mortos: 30. Os terroristas mataram 17 
pessoas, entre elas um tenente, trs sargentos e seis 
policiais.
ECONOMIA E SOCIEDADE
Janeiro O governo informa que s falar so bre casos de 
corrupo quando as investiga es estiverem concludas.
O The New York Times informa: O regime  antipatizado, mas o 
Brasil cresce Fevereiro Inaugurada a estao receptora de 
sinais de satlites da Embratel, em Itabora.
Delfim Netto prev que a economia cresce r 10% no ano.
Maro O governo concede iseno de impos tos de importao s 
emissoras de TV e rdio.
Seca e saques no Nordeste.
Julho Comea a alta das bolsas de valores de So Paulo e do 
Rio.
Setembro Vendido o Correio da Manh. Novembro O general 
Ernesto Geisel assume a presidncia da Petrobrs.
e O ano termina com um crescimento de 9,5% do PIB e a 
inflao em 20,1%.
Fevereiro Cai o ministro da Indstria e Co mrcio, Fbio 
Yassuda. Divergiu de Delfim. Junho Medici anuncia a abertura 
da rodovia Transamaznica, ligando o Maranho ao Acre. Julho 
Por conta de um boato, as aes do Ban co do Brasil sobem 15% 
num s dia.
Sai da fbrica da Volkswagen o milionsi mo fusca.
Agosto Nixon baixa um pacote, e o governo americano passa a 
controlar salrios, preos e aluguis.
Criado o PIs, com o objetivo de formar um peclio para os 
trabalhadores.
e Os EUA fecham o ano com um dficit de 9,8 bilhes de 
dlares.  a primeira vez que isso acontece, desde 1888.
e Segundo grande ano do Milagre. Crescimen to de 10,4% do 
PIB. Inflao em 19,3%.
1969
1970
CRONOLOGIA        471
 Pel marca seu milsimo gol.
 Caetano Veloso e Gilberto Gil seguem exila dos para 
Londres.
 Chico Buarque de Hoilanda vai para a Itlia.
 O diplomata Vinicius de Moraes  aposen tado com base no 
AI-5.
 Estria o Jornal Nacional.
e Surge O Pasquim. Em dezembro sua circu lao chega a 250 
mil exemplares.
e Ajunta Militar cria a Embrafilme.
e Com Sonia Braga no elenco, estria em So
Paulo a pea Hair.
e A Censura suspende as apresentaes do
bal sovitico da Moldvia.
e Joaquim Pedro de Andrade mostra Macu nama.
e Samuel Beckett ganha o Nobel de Literatura.
 Quatrocentos mil jovens americanos jun tam-se no festival 
de msica de Woodstock.
 Mano Puzo publica Godfather (O poderoso
Chefo).
 Por 4 x 1 (confirmando o prognstico do presidente Medici) 
o Brasil derrota a Itlia e ganha a Copa do Mundo.
 Chico Buarque compe Apesar de voc.
e Paulinho da Viola grava Foi um rio que
passou em minha vida.
e Roberto e Erasmo Carlos gravam Jesus
Cristo.
Nelson Cavaquinho grava seu primeiro dis co solo, aos 59 
anos.
 Jos Rubem Fonseca publica Lcia McCart
ney.
e Solzhenitsyn ganha o Nobel de Literatura.
e O museu Metropolitan compra o quadro
Juan de Pareja, de Velsquez, por 5,5 milhes
de dlares.
e Comeo da construo, em Nova York, das
duas torres do World Trade Center.
e Onda terrorista na Itlia, com 398 aes e
19 mortos.
Fevereiro Um livro-bomba mata Eduardo
Mondlane, primeiro presidente da Frente de
Libertao de Moambique.
Os Tupamaros assaltam o cassino San Ra fael, em Punta del 
Este.
Costa e Silva afrouxa o bloqueio ao regime racista da frica 
do Sul e permite o pouso de seus avies em aeroportos 
brasileiros. Junho Pancadaria no bar Stonewall. Os ho 
mossexuais que freqentavam o lugar en frentam a polcia. Da 
em diante 28 de junho torna-se a festa do Orgulho Gay. Julho 
O astronauta americano Neil Armstrong anda na Lua.
Dezembro Aproximando-se da China, o go verno americano reduz 
o bloqueio comercial que lhe impunha.
 Dobra o nmero de mortos em atos terro ristas no mundo. So 
131.
Fevereiro O secretrio de Estado Henry Kis singer comea a se 
reunir secretamente com emissrios do Vietn do Norte. Abril 
Assassinado na Guatemala o embaixa dor alemo Karl von 
Spreti.
Maio Terroristas argentinos seqestram e ma tani o general e 
ex-presidente Pedro Aram
buru.
Julho Os Tupamaros seqestram Dan Mitrio ne, responsvel pelo 
programa de ajuda pres tada pelo governo americano ao 
uruguaio em assuntos de segurana.
Setembro Salvador Aliende  eleito presiden te do Chile.
Outubro A CIA manda armas a terroristas chilenos que planejam 
matar (e matam) o co mandante do exrcito do Chile, general 
Ren Schneider.
CULTURA
MUNDO
472 A DITADURA ESCANCARADA
1971
1972
POLTICA
Janeiro O general Humberto Melio assume o II Exrcito, em So 
Paulo. Sua ordem  matar. Fevereiro Ulysses Guimares assume 
a presi dncia do MDB.
Est funcionando a Casa da Morte, admi nistrada pelo CIa, 
em Petrpolis. Maio O Senado americano realiza sua srie de 
audincias sobre o Brasil.
Junho O Cabo Anselmo est na polcia. Setembro Carlos Lamarca 
 morto. Dezembro Medici vai aos RUA e Nixon diz que para 
onde o Brasil for, para l ir o resto do continente latino-
americano
e As denncias de torturas so 788. Trinta mor tos nas 
organizaes armadas, dos quais 15 (50%) desapareceram.
As organizaes terroristas matam 21 pes soas, entre elas um 
major do Exrcito, um in dustrial e um militante da ALN.
Janeiro O Exrcito descobre uma base de trei namento de 
guerrilha no Araguaia.
O deputado Flvio Marclio defende a ree leio de Medici.
Fevereiro Terroristas matam o marinheiro in gls David 
Cuthberg, de 19 anos. Abril Campanha militar no Araguaia. 
Termina em julho. Recomea, por um ms, em setembro. Agosto A 
Censura probe qualquer notcia so bre a sucesso 
presidencial.
A Anistia Internacional divulga um relat rio listando os 
nomes de 472 torturadores e 1081 torturados.
A Censura probe a publicao da declara o de Filinto 
Mller, presidente da Arena, de que no h censura.
Outubro Comea a circular o semanrio Opinio.
 Os mortos foram 58, com 18 desaparecidos e cinco suicidas, 
trs enforcados na cela.
ECONOMIA E SOCIEDADE
e O excesso de liquidez da banca internacio nal faz renascer 
o mercado de emprstimos a pases subdesenvolvidos.
Janeiro Segundo uma pesquisa do Gallup, 48% dos paulistanos 
acham que seu nvel de vida est subindo. S 7% dizem que 
est cain
do.
Maro Comea a funcionar a discagem dire ta nas ligaes 
entre o Rio, So Paulo e outras cinco capitais.
Agosto A exuberante bolsa de valores brasi leira comea a 
cair.
Nixon descola o dlar do padro ouro, con gela preos e 
salrios por noventa dias, e se reserva o direito de aplicar 
uma taxa de 10% sobre as importaes.
Dezembro A Petrobrs torna-se a segunda maior distribuidora 
de derivados de petrleo do pas.
e O ano termina com um crescimento de 11,3% do PIB e a 
inflao em 19,5%.
Janeiro A Censura probe ms notcias sobre a queda da bolsa.
Fevereiro O secretrio do Tesouro america no, John Connally, 
diz que os EUA deviam se guir o exemplo da economia 
brasileira. Abril Chegam ao Brasil os ossos de d. Pedro i. 
Comeam as festas do Sesquicentenrio da Independncia.
Maio Inaugurada em Braslia a Escola Nacio nal de 
Informaes, E5NI, brao pedaggico do 5NI e do CIE.
Inaugurada em Paulnia a maior refinaria de petrleo do 
Brasil.
Agosto O IBGE informa que o Brasil bateu a marca dos 100 
milhes de habitantes. Novembro O ndice Dow Jones, da bolsa 
de Nova York, fecha pela primeira vez acima dos mil pontos.
e O ano termina com um crescimento de 11,9% do PIB e 15,7% de 
inflao.
CRONOLOGIA 473
CULTURA
 Pela primeira vez desde sua fundao, em
1965, a TV Globo fecha o ano com lucro.
 Leon Hirszman mostra So Bernardo.
e Nelson Pereira dos Santos mostra Como era
gostoso o meu francs.
 Antonio Cailado publica Bar Don Juan. Joo Ubaldo Ribeiro 
publica Sargento Get lio. Num parecer para o Instituto 
Nacional do Livro, Otvio de Faria reconhece suas virtu des, 
mas no o recomenda.
George C. Scott  o general Patton no filme
de mesmo nome.
e Stanley Kubrick mostra Laranja mecnica,
proibido no Brasil.
e Comeam a circular os Cadernos Cebrap.
e  preso em Ouro Preto o teatrlogo ameri cano Julian Beck.
 O pas de So Saru  tirado do Festival de
Cinema de Braslia. No lugar entra Brasil bom
de bola, no qual Medici abraa Pel.
e H 6,2 milhes de aparelhos de TV flO Bra sil. Surge a TV 
em cores.
e Emerson Fittipaldi ganha o campeonato da frmula 1.
* Caetano Veloso e Gilberto Gil voltam do ex lio. Em 
Londres, Caetano gravou Triste Bahia, musicando um poema de 
Gregrio de Matos:
Triste Bahia,  quo dessemelhante. e Aparece a dupla Joo 
Bosco e Aldir Blanc. e Os Novos Baianos cantam Acabou 
chorare e Liza Minnelli em Cabaret.
 Bernardo Bertolucci mostra O ltimo tango em Paris. O filme 
 proibido no Brasil.
 Marlon Brando em O poderoso Chefo. e Woody AJlen em Play 
it again, Sam (Sonhos de um sedutor).
e Tom Jobim toca guas de maro e O ano de Secretariat, um 
dos maiores cava los de todos os tempos.
MUNDO
e Comeam os desaparecimentos na Argenti na. Uma pessoa a 
cada 18 dias. Janeiro Os Tupamaros uruguaios seqestram o 
embaixador ingls.
Abril Uma equipe de pingue-pongue ameri cana  convidada a 
jogar na China. Junho O The New York Times comea a pu blicar 
os documentos secretos do Pentgono sobre a Guerra do Vietn.
Julho Henry Kissinger vai  China. Conversa com Mao.
Agosto Golpe na Bolvia. Com a ajuda do go verno brasileiro, 
assume o coronel Hugo Ban
zer.
Setembro Fracassa o golpe do ministro da Defesa Lin Piao 
contra Mao Zedong.
As foras armadas uruguaias assumem o combate aos Tupamaros. 
A tortura torna-se sistemtica.
Novembro Fidel Castro passa trs semanas no Chile.
Fevereiro Richard Nixon vai  China. Maro O editor italiano 
Giangiacomo Feltri nelli morre quando instalava uma bomba nu 
ma torre de transmisso de energia, perto de
Milo.
Maio No fim de seu mandato o presidente da
Nicargua, Anastasio Somoza, d um golpe e
fica no poder.
Terroristas japoneses matam 25 peregrinos judeus no aeroporto 
de Tel Aviv. Junho Cinco pessoas so presas no edificio 
Watergate, em Washington. Tinham grampea do a sede do Partido 
Democrata. Setembro Preso o chefe Tupamaro Ral Sen dic. 
Metade dos uruguaios apiam a repres so militar.
Terroristas seqestram parte da delegao de Israel nas 
Olimpadas de Munique. Mor rem atletas e seqestradores. 
Novembro Nixon  reeleito.
474 A DITADURA ESCANCARADA
1973
POLTICA
Maro Terroristas matam no Rio o delegado Octvio Gonalves 
Moreira Jr., do DOI de si. Maio O CIE comea a Operao 
Sucuri, infil trando oficiais e soldados no Araguaia. Junho 
Medici chama Ernesto Geisel ao La ranjeiras e diz que ele 
ser seu sucessor. Julho O Estado de S. Paulo publica poemas 
nos espaos abertos pela Censura.
Filinto Mller morre. Petrnio Portella tor na-se presidente 
do partido do governo, a
Arena.
Setembro Ulysses Guimares lana-se como anticandidato  
Presidncia. Outubro Comea nova ofensiva no Araguaia. 
Novembro Medici altera o Cdigo de Proces so Penal para 
impedir que o delegado Srgio Fleury v para a cadeia.
Dezembro Dissolvida a guerrilha do Ara-
guaia.
o As organizaes terroristas executam cinco pessoas, duas 
das quais ex-militantes.
ECONOMIA E SOCIEDADE
 Greves parciais de metalrgicos na Villares e na 
Volkswagen, em So Paulo. Janeiro A Gr-Bretanha adere ao 
Mercado Comum Europeu.
Fevereiro Nixon desvaloriza o dlar em 10%. Abril Brasil e 
Paraguai assinam o tratado que permitir a construo de 
Itaipu. Maio Uma divergncia com Delfim provoca a sada do 
ministro da Agricultura, Cirne Lima. Junho A iniciativa 
privada entrega o controle da Petroqumica Unio  Petrobrs. 
Outubro-dezembro Em dois aumentos su cessivos, os pases 
exportadores de petrleo elevam o preo do barril de us$ 3,01 
para us$
11,56.
o O ano termina com um crescimento do PIB de 14%. Isso nunca 
tinha acontecido, nem vol taria a acontecer, pelo menos nos 
trinta anos seguintes.
CRONOLOGIA 475
CULTURA
 Estriam na TV Globo o programa Fants tico e a primeira 
novela em cores, O Bem Amado.
 Hugo Carvana mostra Vai trabalhar, vaga bundo.
 Arnaldo Jabor mostra Toda nudez ser casti gada.
 A Censura probe a pea Calabar, de Chico Buarque e Ruy 
Guerra.
 Roberto Athayde monta Apareceu a Marga
rida.
 Publicado postumamente Os ltimos dias de Paupria, de 
Torquato Neto.
Sai As meninas, de Lygia Fagundes Telles.
 A Editora Brasiliense pede concordata.
 Julio de Mesquita Neto declara num depoi mento que enquanto 
houver censura no seu
jornal, o que nele se publica  da responsabi lidade do 
ministro da Justia, Alfredo Buzaid.
MUNDO
Fevereiro O Senado americano comea a in vestigar o caso 
Watergate.
Maro Termina mais um ciclo militar na Ar gentina. O 
peronista Hctor Cmpora  elei to presidente. Renunciar 
para permitir a as censo de Juan Pern.
Julho A embaixada brasileira asila um polti co chileno 
envolvido numa tentativa de golpe contra Salvador Allende.
Setembro Golpe militar no Chile. Allende se mata. Pinochet 
assume, numa junta.
A embaixada do Brasil nega auxlio aos exi lados em Santiago. 
Policiais brasileiros inter rogam presos.
Juan Pern  eleito presidente da Argentina. Outubro O Egito 
e a Sria invadem Israel. So derrotados e o mundo rabe 
declara um boi cote de petrleo aos pases pr-Israel.
O vice-presidente dos EUA, Spiro Agnew, re nuncia ao cargo. 
Nixon indica o deputado Ge rald Ford.
FONTES E BIBLIOGRAFIA CITADAS
1 Obras de referncia
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Fernando, & LAMARO, Srgio Tadeu de Niemeyer (coords.). 
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FGV/CPDOC, 2001.
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Arquivo do Autor
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Arquivo Privado de Golbery do Couto e Silva/Heitor Ferreira
Arquivo Privado de Romualdo Pessoa Campos Filho
Biblioteca Lyndon B. Johnson
Departamento de Estado dos Estados Unidos da Amrica
Alcir Henrique da Costa
Aloysio Nunes Ferreira
Amlia Lucy Geisel
Americo Mouro
Antonio Carlos Magalhes
Antonio Carlos Muricy
Antonio Delfim Netto
Antonio Gallotti
Ariston Lucena
Armnio Guedes
Brian Jenkins
Candido Mendes de Almeida
Carlos Alberto Brilhante Ustra
Carlos Medeiros Silva
Claude Erbsen
Djalma (operrio da Forja Tijolos)
Ernesto Geisel
Eugnio Sales
Expedito Filho
Fernando Gabeira
Francisco Carlos de Andrade
Francisco Dellamora
Franklin Martins
Gasto Vidigal
Gustavo Moraes Rego
Heitor Lopes de Souza
Informantes
478        A DITADURA ESCANCARADA
Helio Fernandes        Manchete
Idyno Sardenberg Filho        O Pasquim
Italo Zappa        Time
Joo Batista Torrens Gomes Pereira        Veja
John Blacken
Jos Bonifcio de Oliveira Sobrinho
Jos Carlos Giannini        Peridicos        outros
Jos Genoino
Joseta Ustra        A Classe Operria
Leonidas Pires Gonalves        Boletim do Sedoc
Luiz Eduardo Greenhalgh        Brazilian Information Bulletin
Luiz Helvecio da Silveira Leite        Commonweal
Micheas Gomes de Almeida        Coojornal
Murillo Santos        Cuadernos de Marcha
Octavio Costa        Em Tempo
Octavio Frias de Oliveira        Encontros com a Civilizao 
Brasileira
Pat Holt        Estudos Avanados
Paulo Bonchristiano        Fronte Brasiliano dinformazione
Paulo Egydio Martins        Jornal Opo
Paulo Sawaya        Le Nouvel Observateur
Ralph della Cava        LEuropeo
Reynaldo Melio de Almeida        Look
Romualdo Pessoa Campos Filho        Mensaje
Rubens Resstel        Movimento
Salomo Malina        Noticirio Diplomtico Brasileiro
Silvio Ferraz        Notcias da Igreja Universal
Stephen Dachi        O Liberal
Vicente Sanchez Gavito        Permanncia
Politique dAujourdhui
Peridicos        dirios        Reprter
Reviso
Correio Braziliense        Voz Operria
Correio da Manh
Dirio do Congresso Nacional
Sries documentais, dossis
Folha de S.Paulo
Jornal da Tarde
Jornal do Brasil        A Revoluo e a juventude. Monografias 
dos
estudantes do Colgio Pedro I
Le Monde
vencedores do Concurso sobre a
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At julho de 2002 verificou-se o acesso aos Stios aqui 
mencionados.
NDICE REMISSIVO
iv Encontro Regional Latino-Americano de Justia e Paz, 328
viii Congresso Eucarstico, 291
Abernathy, Ralph, 282
Abreu, Hugo, 189, 427n, 443
Abshire, David, 283-285
Academia Brasileira de Letras, 20
Academia Internacional de Polcia, 259
Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), 18,46, 126-127, 
184,255,361
Ao Catlica, 240-24 1, 243, 246, 265n, 266,278
Ao Integralista Brasileira, 246, 287
Ao Libertadora Nacional (ALN), 39, 48n, 49- 52, 88-89, 103, 
141-142,144-145, 144n, 149-
150, 160-162, 170, 178-179, 191-193, 191-
192n, 195, 195n, 205, 207, 241, 243, 258,
265-267, 270, 278, 299-300, 321n, 346-347, 349,365,384-386, 
386n, 393-395, 393n, 397n, 413; autofagia, 39 1-392, 396; e 
Lamarca, 48; e o seqestro de Elbrick, 88-93; e os domi 
nicanos, 148, 151; Grupo Ttico Armado (GTA), 49, 89, 99, 
101-103, 144, 149-151; infiltrados, 349; jornal, 395; morte 
de Ma righella, 153-156
Ao Popular (AP), 147, 193n, 241, 243, 249, 252, 274, 318, 
318n, 344, 345, 389
Ao Popular Marxista-Leninista (APML), 173, 389, 390
Acheson, Dean, 280
Ackerman, Abraham, 81, 106
Action, 145, 145n
Aeroporto dos Guararapes: atentado, 98, 162
Affonso, Almino, 325
frica, 353
frica do Sul, 281
Agency for International Development, 146
Ala Vermelha do c do B, 192, 193, 194,394, 394n
Albnia, 409
Albernaz, Benoni de Arruda, 104, 173n, 278
Albuquerque, Manoel Maurcio de, 365
Albuquerque, Pedro (Peri), 410,413-414,456
Albuquerque, Tereza, 410, 414
Albuquerque, Walter Pires de, 323n
Aleixo, Pedro, 81-83, 85, 132, 136; nova Cons tituio, 75
Alemanha, 20, 35n, 306
Alexander, Murilo Fernando, 165
Aliende, Salvador, 302
Almanaque do Exrcito, 125, 373
Almeida, Candido Mendes de, 263, 269-270, 273,279; e a 
criao da Comisso Bipartite,
309; relatrio sobre tortura, 290 Almeida, Edgar de, 99, 102
Almeida, Jos Roberto Arantes de (Gustavo), 387, 387n
Almeida, Micheas Gomes de (Zezim, Zezinho), 404n, 405n, 406n, 
409, 432, 432n, 450, 451,
452
Almeida, Reynaldo Melio de, 379n
Almeida, Rui Gomes de, 236n
Almirante Azambuja, 121, 121 n
Alto-Comando das Foras Armadas, 83, 119; e a sucesso de 
Costa e Silva, 107, 120, 123, 129
490 A DITADURA ESCANCARADA
Alto-Comando do Exrcito, 71, 107, 129, 130; Diretriz de 
Segurana Interna, 176; e a repres so, 175-176; sucesso de 
Costa e Silva, 104, 112-120, 122, 130
Alvarado, Velasco, 335n
Alvarenga, Francisco Jacques, 393n
Alves, Duma Borges, 172, 173n
Alves, Joo Lucas, 91n, 272n
Alves, Marcio Moreira, 70
Alves, Mrio (Mrio Alves de Souza Vieira) (Vi las), priso e 
desaparecimento, 169-173, 171n, 326, 393
Alves Neto, Cosme, 344n
Amado, Jorge, 282
Amaral, Manha Anglica do, 384n
Amaral, Zzimo Barroso do, 73
Amazonas, Joo (Tio Cid, Velho Cid), 400n, 409, 409n, 412, 
417, 431, 461
American Committee for Information on Brazil, 272
Amrico Careca, 362
Amigos Americanos do Brasil, 273
Andrada, Antnio Carlos Lafayete de, 228
Andrade, Francisco Carlos de, 386
Andrade, Jos Veloso de, 401, 401 n, 405 n, 406n, 415, 423n, 
431n, 437n, 444, 454, 456, 457n
Andrade, Paulo Roberto de, 164, 164n, 367,371
Andrade, Silvio Correia de: e a censura, 212
Andreazza, Mrio, 112, 115-116
ngelo, Otvio, 156n
Anik, Jos dos Santos, 457, 457n
Anistia Internacional, 297
Anjos, Jos Ferreira dos, 259
Antonio Conselheiro, 358
Antunes Filho, Domiciano (Luciano), 65-66
Aquino, Maria Aparecida de, 219
Arago, Augusto Cezar de Castro Moniz de, 79, 111, 129; 
contra ajunta Militar, 85; e a crise ps-punio de 
Boaventura, 70-74; e a su cesso de Costa e Silva, 117
Arago, Jos Campos de, 175
Araguaia, guerrilha do, 22n, 185, 192, 396, 399, 402,404-
408,410-464
Araguaia, 0,461
Aramburu, Pedro, 298
Aranha Filho, Idalsio Soares, 424n
Aranza, Jos Augusto, 419n
Arajo, Carlos Franklin Paixo de, 347n
Arajo, David dos Santos (Capito Jos Lisboa), 182, 381
Arajo, Jos Maria Ferreira, 173n
Arajo, Marcelo Paixo de, 37n, 182, 183n; e a tortura, 23-24
Arena, 313
Arendt, Hannah, 24
Arglia, 19n, 31-33, 35-37, 35n, 44, 55, 60, 191, 193, 203-
204,272-273, 272n, 304, 327n, 337,
3430
Argentina, 54n, 198, 296, 298, 302-303, 335n
Argoud, Antoine, 35, 35n
Arns, d. Paulo Evaristo, 307, 318, 320, 334-335,
335n; contra a tortura, 319-320; nomeado
arcebispo de So Paulo, 308, 318; pessoa e
hbitos, 317-318
Arraes, Miguel, 272
Arraes, Violeta, 272
Arroyo, ngelo, 401,404, 404n, 405n, 416n, 423, 431, 440, 
444n, 448-452, 450n, 461, 461n
Arruda, Digenes, 149
Arruda, Marcos Penna Sattamini de, 288
Arruda, Roldo, 335n
Artigas, Joo Batista Villanova, 229
Arzua, Ivo, 111
Associao Brasileira de Imprensa (ABI), 76
Associao Comercial de So Paulo, 235
Associao Comercial do Rio de Janeiro, 236
Ato Complementar n 40, 232-233
Ato Institucional n 5, 24, 59, 66, 70, 72, 75, 76n, 86, 103, 
107-109, 128-130, 132-133, 132n, 137, 146, 211-212, 216, 218, 
227-228,
232-234, 236, 256-257, 261, 282, 331, 362; e a Constituio 
que no foi, 75-76
Ato Institucional n 12, 84
Ato Institucional, o primeiro, sem nmero,
228-229
Audin, Maurice, 327n
Augusto, Agnaldo dei Nero, 427n
Aussaresses, Paul, 19n, 304
Avlio Filho,Armando (Apoio), 171n, 182, 182n
Azevedo, Dionor Carlos, 440n
Aziz Filho, 399n
Baggio, d. Sebastiano, 257, 265n
Bahia, Luiz Alberto, 214n
Baiboni, Luiz Fogaa, 103
Baleeiro, Aliomar, 228
NDICE REMISSIVO 491
Banco da Arglia, 54n
Banco da Repblica do Uruguai, 54n
Banco do Brasil, 49, 209, 233
Banco Mercantil de So Paulo, 62
Banco Sotto Mayor, 170
Bandeira, Antonio, 425, 427n
Bandeira, Manuel, 214
Barbosa, Osrio, 434n
Barbosa, Severo, 71
Barboza, Mano Gibson, 280-28 1, 296, 334
Barceilos, Marta, 399n
Barcelos, Maria Auxiliadora Lara (Francisca, Maria Carolina 
Montenegro), 163-165, 164n
Barcos, Martin de, 255
Barreto, Djalma Lcio Gabriel, 368-369
Barreto, Jos Campos (Zequinha), 353, 356-
357
Barreto, Jos de Arajo, 356
Barreto, Olderico, 356
Barreto, Otoniel, 356
Barros, Adhemar de, 52, 54, 98, 142, 191, 202, 247; ouro, 
162, 338, 343, 350
Barros, Jos Maria de Moraes e, 247n Barros, Nelson de, lOin 
Barroso, Jana Moroni (Cristina), 399,401-402,
411,439-440,451
Barsotti, Adriana, 399n
Bartch, CarI, 285
Basso, Lelio, 273n
Bastien-Thiry, Jean-Marie, 34, 35n
BatalhadeArgel, 19,31-32,44,193
Batista, 440n, 447n, 449n, 461
Batista, Ccero Romo (Padim Cio), 271
Batista, Ernesto de Mello, 229
Batista, Hermes Camargo (Xavier), 45n, 47; co laborao, 48
Batista, Uirassu de Assis ( Valdir) , 456-457n
Baumann, Michael, 391 n
Beatty, George, 332
Beauvoir, Simone de, 289
Blgica, 35n, 306
Belham, Jos Antonio Nogueira, 326
Belton, William, 90, 93, 93n
Beltro, Hlio, 75n
Benchimol, Jos Burlamaqui, 56n
Benelli, monsenhor Giovanni, 263, 277, 308n
Benjamin, Cid de Queiroz ( Vitor), 87, 89, 93, 161, 399n
Beran, Josef, 297
Berger, Harry, 38
Bernhardt, Sarah, 293
Bessa, monsenhor Francisco, 279
Betinho. Ver Souza, Herbert Jos de
Bezerra, Dilma, 459n
Bezerra, Gregrio, 145
Bezerra, Jos (China), 417, 417n
Bicudo, Hlio Pereira, 315-317, 315n, 368-369,
374
Bidault, Georges, 35n
Bittencourt, Getulio, 333n
Bittencourt, Niomar Moniz Sodr, 214, 214n
Blacken, John, 146; Memcom 68-12-30, 146
Bocayuva, Helena, 325
Boilesen, Henning Albert, 395-396
Bolvia, 330, 335n, 400,440,446
Bollardire, Jacques Paris de, 32-33, 35
Bonchristiano, Paulo, 155n
Boonstra, Clarence, 202, 301
Bordaberry, Juan Mara, 23
Borges, Aloysio Alves, 370, 373
Borges, Raul Augusto, 417n
Borlaug, Norman, 295
Bom, Jorge, 54n
Bom, Juan, 54n
Boscardini, 92
Boumediene, Houari, 343, 343n
Bradesco, 46
Brando, d. Avelar, 251, 257
Brasil Netto, Thoms Pompeu de Souza, 236n
Brazilan Information Bulietin, 273, 334
Brito, Flvio de, 236n
Brito, Juarez Guimares de: morte, 53, 55n, 201n, 338
Brito, Luiz Fernandes de, 185n, 188, 362, 364,
365n
Brito, Manoel Francisco do Nascimento, 216
Brito, Maria do Carmo (Lia), 55, 201n
Brito, Maria Nazar Ferreira, 440n
Brizola, Leonel, 135, 192n
Bronca, Jos Humberto (Zeca Fogoi),453n, 455, 4550
Brown, Theodore D., 331-332
Bucher, Giovanni Enrico, 301, 339-342, 344,
392
Buckley Jr., William, 275, 275n
Burnier, Joo Paulo, 95, 126n, 252, 305



492 A DITADURA ESCANCARADA
Bursztyn, Ana, 299-300, 300n
Buzaid, Alfredo, 167-168, 284, 290-29 1, 297, 307-308, 321n, 
327n
Cabo Anselmo. Ver Santos, Jos Anselmo dos
Cabral, Pedro Correa, 417n, 453-454
Caf Filho, 135, 251n
Calazans, padre Benedito, 237
Caldeira, Jos Amaral, 365-366, 365n, 373
Calheiros, d. Waldyr, 250-251, 265n, 320-322,
322 n
Cailado, Daniel Ribeiro (Doca), 459
Calley, William, 31, 31 n
Cmara, Arruda, 237
Cmara, Carlos Alberto Bravo da, 305n
Cmara, d. Helder, 245-248, 247n, 256-257,262- 
263,270,278,289-290,294-295,395; denn cias de torturas, em 
Paris, 291-292; e Nelson Rodrigues, 293-294; em Roma, 277; 
trs avisos, 253, 258-259
Cmara, d. Jaime, 237-238, 251,251 n, 257, 279,
320
Cmara, Jos Sette: priso, 213
Cmara de Comrcio Brasil-Estados Unidos,
334
Camargo, Edmur, 383n
Cames, Lus de, 219
Campos, Antonio Alfredo, 440n, 441,461
Campos, Daniel Machado de, 235
Campos, padre Natanael de Morais, 320n
Campos Filho, Romualdo Pessoa, 438, 444, 445n, 452
Canad, 273
Caneppa, Nilo, 361n
Canto, Marival Chaves Dias do, 62n, 378n
Canudos, 351, 400, 406, 444,463
Capara, 45, 47, 192, 436
Capriglioni, Ana Benchimol, 52, 56, 56n, 247n
Cardeal Alfrmnk, 306
Cardoso, Adaucto Lcio, 228
Cardoso, Alvaro, 254
Cardoso, Fernando Henrique, 220, 229, 328
Carmo, Carlos Alberto do, 348n
Carneiro, Alcides, 231
Carvalho, Antnio Carlos de, 171
Carvalho, Apolonio de, 194
Carvalho, Ary Pereira de, 163n, 166, 166n, 168,
363 n
Carvalho, Daniel Jos de, 383n Carvalho, Herbert Eustquio de 
(Herbert Da niel, Daniel), 57, 161,392; e o seqestro de 
Holieben, 202-203; seqestro de Bucher, 339, 342
Carvalho, Joo Henrique Ferreira de (Jair, Jota),
349
Carvalho, Joel Jos de, 383n
Carvalho, Luiz Maklouf, 55
Carvalho, Marco Antnio Brs de (Pedrinho), 49, 101, 144n, 
272n
Carvalho, Regilena da Silva (Lena), 410, 417, 417n, 420-422, 
424n, 435
Carvalho, Srgio Miranda de (Srgio Macaco):
expulso, 122
Casado, Jos, 304n, 335n
Caso Para-Sar, 252, 355; conta liquidada, 122
Castello Branco, Carlos: priso, 211,214
Castello Branco, Humberto de Alencar, 69-70,
95, 107-108, 129, 134, 169, 176, 183, 214,
216, 232-233, 240,246,248,270,379,464; e
a censura, 211
Castilho, Joo Dutra de, 94, 116, 159 Castro, Adyr Fiza de, 
70, 92, 175n; e a tortu
ra, 24
Castro, Celso, 18
Castro, Fidel, 104, 218, 294-295, 303, 330, 343, 346, 400
Castro, Milton Soares de, 91 n
Castro, padre Ormindo Viveiros de, 307
Cavalcante, Jos Elpdio, 41 n
Cavalcanti, Dower, 424n
Cavalcanti, Themstocles, 75n
Cavalcanti Jr., Francisco Boaventura, 111-112; pessoa e 
carreira, 70; punio, 70-7 1
Celestino, Paulo de Tarso, 348n, 384n
Central IntelligenceAgency (CIA), 74,147,154,
161, 190,252,297,302,330,343,349,365; e
a Amrica Latina, 302-303; e a mquina
repressiva da ditadura, 332-334; e o Brasil,
154; e os dominicanos, 148
Centro Brasileiro de Informaes, 347
Centro de Estudos de Pessoal (CE?), 183, 201, 305, 362
Centro de Estudos sobre Terrorismo e Violncia Poltica da 
Rand Corporation, 93n
Centro de Informaes da Marinha (Cenimar),
50, 55n, 151, 179, 187, 240, 243, 267, 383; e
NDICE REMISSIVO        493
1
o Cabo Anselmo, 346; e o seqestro de
Elbrick, 9 1-93, 97; galeria dos cubanos, 383;
no Araguaia, 422
Centro de Informaes do Exrcito (CIE), 21-
22, 24, 26, 31, 36, 41, 54-55, 61, 66, 70, 72,
85, 135, 159, 163, 165, 175, 177, 183-184,
190, 196, 201, 252, 309, 314, 339, 363, 365,
377-3 79, 384, 390; agentes infiltrados, 389;
autonomia, 380; e o Cabo Anselmo, 346,
348-349; e o seqestro de Elbrick, 9 1-93, 95;
envio de pessoal  Gr-Bretanha, 67; es trutura, 185; morte 
de Chael Schreier, 164-
165; na linha de comando do Exrcito, 186;
noAraguaia, 400,402,405,414-415,433-435,
437-438,442,455,458,462-463; proteo a
Fleury, 366
Centro de Informaes e Segurana da Aero nutica (cIsA), 
350, 458
Centro de Operaes de Defesa Interna (C0DI), 178-179, 332
Centro de Pesquisa e Documentao de His tria Contempornea 
do Brasil da Funda o Getulio Vargas (CPD0C), 118-119
Centro de Preparao de Oficiais da Reserva (CroR), 104, 
254, 404
Cerqueira, Nilton de Albuquerque: e a caa de Lamarca, 351n, 
353, 355, 357
Certeau, Michel de, 188, 225n, 263n, 276
Cerveira, Joaquim Pires, 383n
Chagas, Carlos, 80n, 112; no financiamento  represso, 77
Chagas Freitas, 177
Chandler, Charles, 45,47,48, 101, 101 n, 142, 146, 154, 162, 
194
Chao, Tania, 377n
Chaves, Francisco Manoel (Z Francisco), 424n
Chco Vitorino, 460
Chile, 99,211,221,272-273,302-303, 303n, 325- 326, 330, 332, 
335n, 337, 342-343, 345, 348,
348n, 383, 392-393, 393n
China, 154, 191-192, 331, 394n, 408, 408n, 432; e a guerrilha 
brasileira, 409, 441, 450
Christo, Carlos Alberto Libnio (Frei Betto, Olavo Borges, 
Ronaldo Mattos, Vitor), 148, 150, 153, 154, 175, 241, 243, 
270
Chrysler, 226n
Church, Frank, 330
Cieto, Roberto, 90-9 1, 165, 326
Crculos Operrios Catlicos, 307
Clark, Walter, 64
Classe Operria, A, 461
Coelho, d. Carlos, 245
Coelho, Marco Antnio Tavares, 41
Coelho, Waldyr, 51; no comando da Oban, 50, 60, 67, 178-179, 
186, 187
Colgio de Aplicao, 87
Colgio Pedro II, 458
Colmbia, 249, 253
Colon, Severino Viana, 91 n, 165
Comandante Segundo, 391
Comando das Foras Guerrilheiras do Araguaia,
429
Comando de Caa aos Comunistas (CCC), 259 Comando de 
Libertao Nacional (Colina),
49-51, 53, 55, 55n, 57, 124, 162, 192n, 193,
195n, 263, 274
Comando Militar da Amaznia, 426
Comando Militar do Planalto, 426
Comisso Bipartite, 309-3 10, 322-323
Comisso de Investigaes do Exrcito, 70
Comisso de Justia e Paz, 263,275-276,278,290
Comisso de Relaes Exteriores do Senado Americano, 329
Comisso Geral de Investigaes, 56, 160 Comisso 
Interamericana de Direitos Huma nos, 297-298
Comisso Internacional de Juristas, 297 Comisso Militar 
Mista Brasil-Estados Unidos,
332
Comit Internacional Comunista (Comintern),
38
Companhia de Jesus, 307
Conclio Vaticano II, 243
Condessa Pereira Carneiro, 213
Confederao Nacional da Agricultura, 236n
Confederao Nacional da Indstria, 236n
Confederao Nacional do Comrcio, 64, 236n
Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil
(CNBB), 226,240,243-244,254,258,261,263- 264, 269-270, 276, 
290-291, 295, 307, 320-
321; dubiedade, 237-240,257; e a criao da Comisso 
Bipartite, 309-310; e a tortura, 63, 225, 320, 321, 322; e d. 
Helder, 246-247, 256-257,295; fim do silncio, 292,295; 
Misso da Hierarquia no Mundo de Hoje, 250; nas mos dos 
conservadores, 248, 252, 256, 262
494 A DITADURA ESCANCARADA
Congo, 37, 303, 303n, 451
Conselho das Igrejas Crists dos Estados Uni dos, 271
Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Hu mana (CDDPH), 
312, 313, 327
Conselho de Segurana Nacional, 59, 128, 130, 132, 132n, 135, 
283
Contestado, 407, 444, 463
Conveno de Genebra, 21, 60, 314
Coqueiro, Aderval, 383 n
Coqueiro, Dinaelza Soares Santana (Mariadi na), 410, 457n
Coro, Gustavo, 148
Coria, 284
Coronel Moreira Csar, 400n
Corpos da Paz, 329n
Corra, Elmo (Lourival), 432n
Correa, Estanislau Incio, 101 n
Corra, Maria Clia (Rosa), 399,401,402, 402n, 432n, 440, 457 
n,460
Corra, Pio, 126n
Corra, Telma Regina Cordeiro (Lia), 55,449n, 454n
Correio Braziliense, 259
Correio da Manh, 166, 214n, 225, 229, 257; e a censura, 211, 
214; venda, 217
Corrigan, Robert, 155, 299
Corte de Justia da Gr-Bretanha, 26n
Costa,Antnio de Pdua (Piau), 415, 415n, 455, 457n; 
mateiro, 459
Costa, Dagoberto Alves da, 400n, 424n
Costa, Florncia, 399n
Costa, d. Joo Resende, 237, 255-256
Costa, d. Jos Pedro da, 290
Costa, Jos Raimundo da (Moiss), 347
Costa, Octavio, 167, 169, 183
Costa, Osvaldo Orlando da (Osvaldo), 404- 407, 405n, 412, 
424, 433, 449, 449n, 457,
459, 461
Costa, Walkria Afonso, 460, 460n
Costa Cavalcanti, Jos, 70, 76-77, 281
Costa e Silva, Alcio, 80n, 122-123
Costa e Silva, Arthur da, 46, 59, 72n, 73n, 75n, 78n, 88, 93, 
98, 104-109, 106n, 111-118, 121-
122, 125, 127-130, 132-134, 136-137, 145n, 185,211-
212,215,235, 236n, 251, 261, 396; doena, 77-8 1, 264; e a 
Constituio que no foi, 75-76; e a Igreja, 248-249,252-
253,257,
261-263; incapacidade, 82-84, 86; na Pre sidncia, 69-77
Costa e Silva, Emanuel da, 71
Costa e Silva, Riograndino, 122
Costa e Silva,Yolanda, 72, 80n, 82, 115-116, 122
Costa-Gavras, 274, 274n
Coutinho, Vicente de Paulo Dale, 200n, 380
CoutoeSilva,Golberydo,69, 123, 126,128,154, 270, 370
Crispim, Denise (Clia), 300
Croissance des Jeunes Nations, 273, 276
Croix, La, 20n
Cruz, Uriburu Lobo da, 428
Cruz Vermelha Internacional, 298
Cruzeiro, O, 294
Cruzeiro do Sul, 245
Cuba, 45-46, 89, 102, 144n, 151, 154,156-157,162,
179,191-192, 191n, 194,272,272n,274n,275,
294, 303n, 331, 337, 344, 348-349, 383, 385-
387, 392, 394, 408; treinamento de guerri lheiros, 99, 102
Cunha, Euclides da, 463
Cunha, d. Felcio da, 268
Cunha, Lus Felipe Galvo Carneiro da, 316
Cunha, Lus Fernando (Baby) Bocayuva, 325
Cunha, Nilda, 355
Cunha, Simo da, 136, 136n
Cunha, Vasco Leito da, 94n
Cutter, Curtis, 285-286
Dachi, Stephen, 330n
DAndrea, Renato, 154n, 299n
Danielli, Carlos Nicolau, 433n
Dantas, Bento Ribeiro, 245
Dantas Jr., Altino, 347n
DAraujo, Maria Celina, 18
Dean, Robert, 281
Dean, Warren, 273n
De Gaulle, Charles, 33, 35n, 36; atentados, 34; morte, 34n
Degueldre, Roger (Danielie), 35n, 36n
De Lamare, Rinaldo, 82
Delarue, padre, 43n
Delegacia de Ordem Poltica e Social (nops),
45, 65, 91n, 142n, 147, 148, 150, 152n, 155,
178-179, 187,226-227, 226n, 249, 252, 269-
270, 278n, 299, 300-301, 311, 317-318, 344,
345n, 346-347, 383n, 389, 389n; cartilha,
1
NDICE REMISSIVO        495
25; e a CIA, 154-155; e a Oban, 60, 179; e o
Cabo Anselmo, 346-348; invaso de jor nais, Correio da Manh, 
211; invaso do
convento, 152; morte de Chael Schreier,
163, 166
Delfim Netto, Antonio, 61-62, 109, 112, 133n, 215,232-
233,235-236,281,284; plano para o seqestro de, 163
Delia Cava, Ralph, 271-273; denncias de tor turas no Brasil, 
273n, 282, 282n
Denys, Odylio, 135
Denys, Rubens Bayma, 22n
Destacamento de Operaes Internas (001),
26, 30, 40-41, 48, 55n, t77n, t8On, 182, 184,
185n, 187-190, 299, 307, 326, 351, 353-356,
362, 366, 371-373, 377, 380-384, 384n, 387-
388, 390, 394-395, 433; cachorros, 349-
350; criao, 175-178; e a marginlia, 363,
365-366; e o CIE, 186; estrutura, 179-182;
formao de profissionais, 183
Detrez, Conrad, 150, lSOn, 286
Dias, Erasmo, 141, 199, 199n, 201
Dieguez, Consuelo, 399n
Dines, Alberto, 213; e a censura, 214
Diniz, Leila, 220
Diniz, Wellington Moreira, 53n
Dissidncia Universitria da Guanabara, 87, 87n, 142; adoo 
da sigla ME-8, 57n; assal to a Edgar de Almeida, 99-100; 
seqestro de Elbrick, 88, 149, 162
Dom Bosco, 255
Domingues, Heron, 115-116
Dostoivski, Fidor M., 391
Dourado, Jos Ribeiro, 405n
Dourado, Nelson Piauhy, 409n
Dr. Pepe, 384
Drummond de Andrade, Carlos, 214
Duarte, Edgard Aquino, 346-347
Editora Abril, 99n, 297n, 347, 347n
Editora Civilizao Brasileira, 305n
Editora Le Seuil, 286
Eichmann, Adolf, 24
Elbrick, Charles Burke, 280,281; seqestro, 88-
94, 88n, 96-103, 107, 110,141-142,145,149-
150, 162, 194, 202, 205, 272, 280, 296, 325,
340-341
Ellena, Peter, 146, 154
Emenda Constitucional n 1,75, 131-132; con tedo, t32n
Empresa Brasileira de Aeronutica 5. A. (Em braer), 209
Engels, Friedrich, 343
Equador, 335n
Equipes Zebra, 458, 459
Escola das Amricas, 304-305, 305n; KUBARK (apostila), 304
Escola de Aperfeioamento de Oficiais (asAo),
134, 213
Escola de Comando e Estado-Maior do Exrcito (ascoMa), 51, 
134, 183, 183n, 187
Escola Nacional de Informaes, 381 n, 387,425 Escola 
Superior de Guerra, 108, 119, 160,311 n,
314, 328
Escuderie Jason, 188, 367-368
Escuderie Le Cocq, 367-368
Espinosa, Antonio Roberto (Bento, Mouro Co bral), 161n, 163-
165, t64n
Esquadro da Morte, 187, 316, 366-370; con denado pela 
justia, 315; e a opinio pbli
ca, 315
Estado de S. Paulo, O, 427; e a censura, 212, 218; pede 
expulso dos dominicanos, 147
Estado-Maior das Foras Armadas, 113, 117, 123 Estado-Maior 
do Exrcito, 85, 106, 110, 128,
135, 186, 291, 379, 427
Estado Novo, 38, 87, 136,155, t69;earepresso,
29
Estados Unidos, 18,63,90,94, 94n, 154,259,271, 274-275, 274n, 
278n, 281-283,285,299,303, 313, 329-330; e a Amrica Latina, 
303; e a censura no Brasil, 217; e a mquina re pressiva da 
ditadura, 329-334; e a tortura no Brasil, 280-286; e Medici, 
130; e oporo, 299-302, 304-305; e o terrorismo no Brasil,
146-147
Exrcito Revolucionrio de Libertao Nacio
nal, 157
Exrcito Revolucionrio do Povo, 54n Exrcito Revolucionrio 
Irlands (IRA), 297
Faculdade de Cincias Mdicas da Santa Casa de Misericrdia, 
162
Faculdade de Direito da Universidade de So Paulo, 297
Elisabeth II, 214
496 A DITADURA ESCANCARADA
Faculdade de Filosofia da Universidade de So Paulo, 230
Faculdade de Humanidades, 458
Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de 
Janeiro, 166
Faculdade Nacional de Filosofia, 399
Falco, Armando, 128, 128n
Farias, Bergson Gurjo, 419, 424n
Farias, Gustavo Cordeiro de, 135, 413n
Faustino, Mrio, 358, 358n
Federao das Indstrias da Guanabara, 236n
Federao das Indstrias do Estado de So Pau lo (FIEsp), 62-
63, 236, 395
Federao do Comrcio do Estado de So Pau-
lo, 63
Federal Bureau of Investigations (FBI), 202,332
Felici, d. Pende, 262
Felipe, Gilvane, 444
Flix, Margarida Ferreira, 440n, 443n, 456n,
457n
Fernandes, Hlio, 219
Fernandes, Joo Luiz de Souza, 164, 164n
Fernandes, Rubem Csar, 271
Fernandes Filho, Adriano Fonseca (Chico),
447 n
Fernandes Junior, Ottoni Guimares, 378n
Fernando, frei: captura e morte de Marighella,
151, 152, 156
Ferraz, Carl Marcondes, 82
Ferraz, Silvio, 50n, 62n
Ferreira, Heitor Aquino, 69, 123, 133n
Ferreira, Joaquim Cmara (Toledo, Velho), 88, 150-151, 156, 
349, 384n
Ferreira, Manoel, 440n
Ferreira, Manoel Henrique, 40
Ferreira, Mrcia de Albuquerque, 349
Ferreira, Oswaldo Caymmi, 166
Ferreira, Pedro Vicente (Pedro Zuza), 41 in
Ferreira Gullar, 362
Figaro, Le, 296
Figueiredo, Joo Baptista de Oliveira, 183, 238n, 442; e a 
tortura, 23; e o padre Lage, 238
Fleury, Carlos Eduardo Pires, 383n
Fleury, Srgio Fernando Paranhos, 26, 67, 103, 178-
179,187,199,265-267,269,317,349,355, 366,368-370,374, 384n, 
388; cerco e morte de Marighella, 151-153, 155-156; de volta 
ao Dops, 187; e a represso, 67; e a vala no
cemitrio de Perus, 388; e Hlio Bicudo, 315-316; e o Cabo 
Anselmo, 346, 348-349; fora autnoma, 315; Medalha do 
Pacificador, 66; operador do CIE, 380; pes soa e hbitos, 65; 
relaes com o trfico de drogas, 65-66
Folhada Semana, 211
Folha da Tarde, 148
Folha de S.Paulo, 63, 2 16-217, 395
Fon Filho, Aton, 42n, 156n
Fonseca, Arthur Candal: e a sucesso de Costa e Silva, 117-
118
Fonseca, Eduardo de Oliveira, 22n
Fontoura, Carlos Alberto da, 30-3 1, 295
Fora Area Brasileira (FAB), 40, 122,286,436,
456
Fora Expedicionria Brasileira (FEB), 59, 167,
400
Foras Armadas de Libertao Nacional
(FALN), 264-266
Foras Guerrilheiras do Araguaia, 429-430, 462
Ford: apoio  represso, 62
Ford, Gerald, 283
Fortes, Breno Borges, 427
Frana, 19n, 33-34, 193, 195,275,286,303, 306n, 337; e a 
tortura no Brasil, 304, 306
Francis, Paulo, 362
Franco, Galeno da Penha, 165, 173
Frei Betto. Ver Christo, Carlos Alberto Libnio
Frei Caneca, 239
Freire, Jess Pinto, 64, 236n
Freitas, pio de, 60n
Freitas, Carlos Alberto Soares de (Breno) , 384,
384n
Freitas, Janio de, 214n
Freitas, Oscar Xavier de, 368-369
Frente Brasileira de Informaes, 19, 32, 272, 286, 306, 347
Frente Brasilefla de Informaciones (Chile), 272
Frente de Libertao Nacional (FLN), 349
Front Brsilien dInformation (Arglia), 273
Fronte Brasiliano dInformazioni, 347n
Frota, Sylvio, 365, 370
Fujimori, Yoshitane (bel), 197, 344
Fulbright, William, 333n
Fundao Getulio Vargas, 119
Fundo Monetrio Internacional (FMI), 281
NDIcE REMISSIVO 497
Gabeira, Fernando (Honrio), 90, 92, 93n, 96
Gama e Silva, 56
Gana, 297
Garcia, Ivair Freitas, 152n
Garcia, padre Jesus, 276, 328
Garcia, Marco Aurlio, 56
Garrastazu, Rafael Danton, 126
Gasparian, Fernando: priso, 220
Gavito, Vicente Sanchez, 265
Geisel, Alzira, 134
Geisel, Amlia Lucy, 83n
Geisel, Ernesto, 17-18, 69, 83-84, 135, 240, 369,
464; e a sucesso de Costa e Silva, 107; e a
tortura, 37, 43; e o Araguaia, 402, 404; e o
Esquadro da Morte, 370; na Petrobrs,
123
Geisel, Orlando, 22n, 83n, 135, 137n, 172, 175- 177, 183, 
186, 201, 308-309, 311, 378-380, 378n; e apoltica, 135-136; 
e a represso, 175; e a sucesso de Costa e Silva, 81, 118; e 
Medici, 134, 137; na crise da incapacidade de Costa e Silva, 
83; no Ministrio do Exr cito, 134; pessoa e hbitos, 134
General Arthur Oscar, 400
Genoino Neto, Jos ( Geraldo), 405n, 412-414n, 414, 424n
Gerson, 207
Giap, Nguyn, 343, 343n
Gibson, Jernimo, 260
Gibson, Jos Bartholomeu, 260
Gil, Gilberto: no exlio, 221
Gingrich, Newt, 275n
Glisenti, Marceila, 276n
Globo, 0,55, 171n,217,267,293,332,336,381n
Gobbato, Piero Ludovico, 334n
Godard, Jean-Luc: apoio  guerrilha brasileira,
145
Godard, Yves (Franoise), 35, 35n
Godinho, padre Antonio, 237
Comes, d. Fernando, 247n
Gomes, Hilton, 105
Gomes, Jeov Assis, 383n
Gomes, Sinvaldo de Souza, 440n, 456n
Comes, Solange Loureno (Emlia), 351
Gomide, Aloysio Dias, 298
Gonalves, d. Jos, 262
Gonalves, Leonidas Pires, 194n
Gonalves Dias, 412
Gordon, Lincoln, 234
Gorender, Jacob, 38, 143; e a morte de Mari ghella, 155
Goulart, Joo (Jango), 135, 213, 219n, 226, 228, 234, 236, 
325
Grabois, Andr (Z Carlos), 409n, 436, 441,
455
Grabois, Maurcio (Mrio), 409,410,448, 448n, 449, 461
Gr-Bretanha, 26n, 67
Grael, Dickson, 94, 94n, 96
Grcia, 280-28 1, 330
Gremillion, monsenhor Joseph, 276, 328
Griffin, Dan, 335
Grupo de Estudos para a Integrao da Poltica de Transportes 
(Geipot), 72
Grupo Primavera, 386
Grupo Ttico Armado (GTA), 49, 89, 101, 103, 144; de novo 
desestruturado, 102; recons truo, 99. Ver tambm Ao 
Libertadora Nacional
Grupo Tcnico de Comunicaes Navais, 329
Grupo Ultra, 395
Guarany, Reinaldo, 393, 393n
Guariba, Heleny Telles, 348n, 384n
Guatemala, 298
Guerlenda, Ldia, 393n
Guerra Civil Espanhola, 194-195
Guevara, Ernesto Che 49, 198, 218, 343, 345, 396-397, 400, 
429, 440,446,451
Gugliano, Mnica, 399n
Guilhardini, Luiz, 433n
Guimares, Irineu, 275, 278n
Guimares, Ulysses, 194
Guimares Rosa, Joo, 214
Gutemberg, Luiz, 167, 169
Haas Sobrinho, Joo Carlos (Juca), 409n, 411, 424n
Haiti, 280-28 1
Handels Bank, 55
Hansen, Olavo, 311, 312, 312n, 313
Helga, 202, 340
Helms, Richard, 302, 332-333, 332-333n
Herbert Daniel. Ver Carvalho, Herbert Eust quio de
Ho Chi Minh, 343, 343n
Hoffman, Abbie, 296
498 A DITADURA ESCANCARADA
Holanda, 273
Hoilanda, Chico Buarque de, 412,425; no exlio,
221
Holieben, Ehrenfried von, 195n, 201,205,321 n, 339, 340,392; 
seqestro, 202, 203, 204
Holt, Pat, 329-3 32, 329n
Hora Presente, 269
Horta, Celso Antunes, 104n
Horta, Oscar Pedroso, 312, 328
Hugo,Victor, 313
Iavelberg, Tara (Clara), 343, 350-352; priso e morte, 354-
355
Ibiapina, Helio, 305
Igel, Peri, 395
Iglesias, Jos (Juca), 65
Igreja, 237,239,243-244,248,250,253,256,259, 261n, 264, 267, 
273, 278, 295, 311; e as or ganizaes armadas, 194; e o 
regime, 226, 236-237, 240, 245
Illich, Ivan, 306
Indochina, 19, 32
Inglaterra, 201, 214, 275, 303, 312n
Inqurito Policial-Militar (1PM), 159, 273, 321, 323, 372-
373; do contrabando, 374
Instituto Brasileiro de Desenvolvimento (Ibra des), 307, 309
Instituto Brasileiro do Acar e do lcool, 296
Instituto Brasileiro do Caf, 296
Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (ns),
126, 245
Instituto Mdico Legal (IML), 354, 388
Instituto Tecnolgico da Aeronutica, 387
Irlanda, 18, 26, 26n, 297
Itlia, 26, 273, 379
Ivo, frei: captura e morte de Marighella, 151, 152,
156
Jairzinho, 201, 207
Jango. Ver Goulart, Joo
Janini, Rubens Pedro Macuco, 166
Japo, 391
Javits, Jacob, 333n
Jeffery, Antonio Carlos, 101 n
Jenkins, Brian, 93n, 205n, 288, 394
Joo xxiii, 243, 277
Joo Coioi, 420, 423
Joo Paulo ii, 277
Joaquim, Ailton, 22, 22n, 124, 164n, 184n, 362, 363n; e a 
Escuderie Jason, 189; e a Medalha do Pacificador, 164
Jones, Stuart EdgarAngel, 334; morte, 350,355 Jorge,Ailton 
Guimares (Capito Guimares),
164n, 363n, 367, 371; e a Escuderie Jason,
189,368; e o contrabando, 363-364,366-368,
373; pessoa e carreira, 361, 362
Jorge, Amilcar Guimares, 371 n
Jornal da Tarde,269;e a censura,218
Jornal do Brasil, 73, 90, 102, 166-167; e a cen sura, 211, 
213, 215-216
Jornal Nacional, 105, 105n
Jouhaud, Edmond (Soleil Bis), 35
JuntaMiitar, 84-86, 88,93-96, 98, 105-107,110- 113, 115, 122, 
131-132, 132n, 218; consti tuio, 84; e o seqestro de 
Elbrick, 89-90,
92-94
Juventude Diocesana Catlica, 250
Juventude Estudantil Catlica (JEc), 241, 276
Juventude Operria Catlica, 324
Juventude Universitria Catlica (juc), 241
Kafka, Alexandre, 281
Kanayama, Suely Yumiko (Chica), 457n
Kayano, Rioco, 400n
Kennedy, Edward, 283, 285
Keramane, Hafid, 55
Kissinger, Henry, 130n, 283n, 331
Kozel, Mrio, lOin
Kruel, Amaury, 127
Kubitschek, Juscelino, 39, 189n, 226-228, 247n
Lacerda, Carlos, 70, 88, 112, 182, 227, 237
Lafoz, Sonia, 202
Lage, padre Francisco: priso e tortura, 238,
240
Lage, Otvio, 77-78
Lago, Mrio, 227
Lamarca, Carlos (Csar, Cirilo, Paulista), 46n,
48, 56, 59, 98-99, 99n, 153, 161, 161n, 179,
195, 201, 338, 345, 354-356, 356n, 365, 378,
394; cerco e morte, 356-358; desero, 48;
e a VOE, 47; e Marighella, 46; na Bahia, 351-
353; no vale do Ribeira, 196-200; pessoa e
hbitos, 46; seqestro de Bucher, 342, 344 Lamarca, Maria, 
46n
Lambert, Francis, 299-300
NDICE REMISSIVO 499
Laos, 395
Laqueur, Walter, 54n
Lauria, Celso, 164-165, 164n
Lauro, 449n
Leal, Vitor Nunes, 228
Legjo de Honra da Frana, 195
Legio Estrangeira, 32
Lei de Segurana Nacional, 56n, 282
Leito, Jos Manes, 3610
Leite, Antnio Dias, 229, 328
Leite, frei Domingos Maia, 307
Leite, Eduardo (Bacuri), 187n, 202,203,300,302, 340, 378n; 
priso e morte, 300-302
Leite, Luiz Helvecio da Silveira, 165, 168
Leite, Paulo Moreira, 321 n
Lemos, Adail Ivan de, 164n
Lenin, Viadimir Ilitch, 343
LEspresso, 272n
Letcia Helena, 399n
LEuropeo, 306
Levenson, James, 282
LExpress, 32, 275
Lfe, 275
Liga Eleitoral Catlica (LEC), 246
Lima, Affonso Augusto de Albuquerque, 84,
109, 110-112, 114-117, 119-122, 130, 229;
candidato  sucesso de Costa e Silva, 107-
109,111-112,114, 116;pessoaecarreira, 108
Lima, Agostinho Ferreira, lOin
Lima, Francisco Maciel, 405n, 430n
Lima, Hermes, 228
Lima, Jos Ribamar Ribeiro, 434n
Lima, Manuel Leal (Vanu), 402, 402n, 406n, 440n, 441, 441n, 
443n, 456n, 457,457n, 459n
Lima, Maria, 399n
Lima, Maurcio Lopes, 278
Lima, Samarone, 389
Lindoso, Jos, 394
Lion, Donor, 258-259n
Livraria Duas Cidades, 150-152, 156
Lobo, Amilcar, 189, 326, 371,i, 377-378
Lobo, Eullia Lahmeyer, 229
Longa, Angelo Maria (Tio Patinhas), 373
Lopes, Frederico, 461n
Lopes, Newton Moreira, 372
Lord Nelson, 352
Lord Parker, 26n
Lorscheider, d. Alosio, 269-270,290,307,321-322
Lorscheiter, d. Ivo, 322
Lott, Henrique, 135
Love, Joseph, 273n
Low, Stephen, 302n
Lucena, Ariston (Rogrio), 200; e a tortura, 40
Lucena, Humberto, 287
Luchini, Marco Antnio. Ver Moura, Sebastio Rodrigues de
Lumumba, Patrice, 303, 303n
Lund, Guilherme Gomes (Luiz), 411 n
Lungaretti, Celso, 289n
Lustosa, Iris, 92
Luz, Carlos, 135
Lynn Jr., Laurence E., 130n, 283n
MacBride, Sen, 297
Machado, Celina Guinle de Paula, 245
Machado, Jos Carlos Novais da Mata, 389-390
Macid, Lcio Augusto Ribeiro (Dr. Arturo, Ivan), 437, 442
Maciel, Lus Carlos, 220
Madruga, Alusio, 22n
Magalhes, Hlio Luiz Navarro de (Edinho), 457n
Magalhes, Vera SulviaArajo (Marta), 41n, 87n, 88, 296, 338, 
363, 363n
Magnotti, Edsel, 25n, 345
Maia, Dulce de Souza, 49n, 316n
Maia, Waldemiro (Miroca), 65
Major Curi. Ver Moura, Sebastio Rodrigues
de
Malan, Alfredo Souto: e a sucesso de Costa e Silva, 118
Malina, Salomo, 149
Mallmann, Zulfo de Freitas, 236n
Malraux, Andr, 34
Maluf, Paulo, 61
Mamede, Jurandyr de Bizarria, 118, 130, 328; sucesso de 
Costa e Silva, 115
Manchete, 219
Manes, Srgio Ubiratan, 377n
Manz, Hans Rudolf, 42n, 156n
Mao Zedong, 249, 343, 352
Marcellin, Raymond, 286
Marcha da Famlia com Deus pela Liberdade,
237
Marcha da Vitria, 237 Marchetti, Victor, 154
500 A DITADURA ESCANCARADA
Marclio, Flvio, 302
Maria, Gilberto Olmpio (Pedro), 449n
Mariath, Jayme, 37, 286
Marighella, Carlos (Menezes), 38n, 52, 55, 102,
141-151, 149-150n, 153-157, 162, 169, 178,
195, 199, 211, 266-268, 267n, 272, 337, 409;
cerco e morte, 152-157; e as bases rurais,
98; e Lamarca, 46; eos dominicanos, 146-
148, 150-151; Manual do guerrilheiro ur bano, 141-144, 286; 
na rdio Havana, 157;
no Estado Novo, 38
Marinho, Francisco Srgio Bezerra, 50n, 97n
Marinho, Roberto, 217
Marino Junior, Alberto, 368
Mariona, Joo da, 440n
Marks, John, 154
Marques, Celso Seixas, 22n
Marroux, Francis, 34, 34n
Martinez Filho, jos Julio Toja, 38 1-382
Martins, Franklin ( Valdir), 87,89-90, 93n, 97, 97n
Martins, Lcia Regina de Souza (Regina) , 410n
Martins, Mrio, 87
Martins, Paulo Egydio, 62
Martins, Washington Mastrocinque, 102n
Marx, Karl, 343
Massa, Boanerges de Souza, 384n
Massini, Nelson, 357n
Massot, Vicente, 43n
Massu, Jacques, 19, 19n, 31-33, 32n, 35-36, 35n, 40, 44, 60, 
193
Matos, Valter Bastos de, 358n
Mattos, Carlos de Meira, 18-19, 369
Mayr, Frederico Eduardo, 388
Mayrink, Jos Maria, 335n
Medalha do Pacificador, 22, 66, 164, 362, 367, 371-3 72
Medeiros, Octavio, 49, 254, 263 Medici, Emilio Garrastaz, 
17, 22n, 71, 76,113,
118-123,125, 126n, 128-134, 133n, 137, 137n,
160, 167, 169, 172, 177, 186, 205, 219, 228-
229, 236n, 281, 283, 289-291, 311-312, 314,
321, 334, 340n, 358, 382, 382n, 442; e a
Comisso Bipartite, 309; e a Igreja, 268,
270, 308; e a represso, 128-130, 141, 175,
183,311,407; e a sucesso de Costa e Silva,
115;eatortura, 183,218,287,290,313,333;
e d. Paulo Evaristo Arns, 321, 334-335; e o
Araguaia, 435; e o seqestro de Bucher,
340; e Orlando Geisel, 137, 172, 175; e os
EUA, 130; na crise de 1964, 126-128; na im prensa americana, 
282,334; na Presidncia,
30, 123, 131-134, 160, 167, 176, 183, 207,
209-210, 218, 227, 232, 279, 283, 310, 314,
335-336, 340, 350, 374; no comando das
Agulhas Negras, 127; no comando do SNI,
128; nos EUA, 334-335; pessoa e hbitos, 125-
126; sucesso de Costa e Silva, 120; Tran samaznica, 408
Medici, Scylla, 126
Meinberg, Iris, 236n
Mello, Cndido Pinto de, 258
Meio, Guilherme Achilies de Faria, 166
Meio, Humberto de Souza, 31 n, 189n, 380
Mello, jayme Portella de, 59, 69-74, 81, 83-85,
84n, 107, 110,113,116, 134,211,234,264;e
a doena de Costa e Silva, 78-79; e ajunta
Militar, 82, 84-85, 106, 111; e Medici, 115,
118; escondendo a doena de Costa e Silva,
80-81, 106
Meio, Mrcio de Souza e, 131; membro da jun
ta, 83
Melo, Severino Elias de, 91 n
Memcom 68-12-30, 146, 146n, 147n
Mendes, Jos Nonato, 156n
Mendes, Raimundo Teixeira, 171, 171 n
Mendes Junior, Alberto, 197
Mendona, Edson Antonio, 164n
Menem, Carlos, 43n
Mensaje, 273
Mesquita, Carlos de, 425
Mesquita Filho, Julio de, 213
Mxico, 179n, 200, 207, 272
Miaki, Darei Toshiko, 384n
Miranda, Leonel, 79, 81
Miranda, Ricardo, 399n
Mir, Joan: apoio  guerrilha brasileira, 145
Mitrione, Dan, 298, 302
Monde, Le, 218, 220, 275, 278, 306, 389
Monnerat, Elza de Lima (Dona Maria), 192n, 400n, 418, 418n, 
450n, 461n
Monteiro, Danilo (Miguel), 419n, 424n
Monteiro Filho, Clemente Jos, 50, 263, 305
Montello, Josu, 296
Montini, Giovanni Battista. Ver Paulo vi
Montoro, Franco: denncias de torturas, 312
Moog, Olavo Vianna, 425, 427n
NDICE REMISSIVO 501
Moraes, Euler Moreira de, 361n, 362n, 363n, 367, 371
Moraes Filho, Evaristo de, 56n
Morato, Estela Borges, lOin
Moreira Junior, Octvio Gonalves, 397n
Morgenposten, 294
Moritz, Charles, 236n
Moroni, Cirene, 399n
Morse, Richard, 282n
Mota, d. Carlos Carmelo de Vasconcelos, 247
Moura, Arthur, 94, 94n, 329, 330
Moura, Sebastio Rodrigues de (Major Curi, Marco Antnio 
Luchini, Sebastio Curi):
no Araguaia, 22n, 434, 434n, 442, 454
Mouro, Americo, 78n
Mouro Filho, Olympio, 126-127, 237
Movimento de Libertao Popular (Molipo),
349, 386n, 387
Movimento Democrtico Brasileiro (MDB), 70, 227, 310, 312, 
389
Movimento Nacionalista Revolucionrio (MNR), 192n
Movimento Revolucionrio 8 de Outubro
(MR-8), 49, 55, 55n, 57, 195, 195n, 263, 274,
325,334,351,353,382; bases rurais, 192; de sarticulao, 50, 
350; e os dominicanos,
148; seqestro de avio, 154; morte de Tara
e priso de Lamarca, 354-358 Movimento Revolucionrio 
Tiradentes (MRT),
195n, 386n
Movimiento de Liberacin Nacional, 298
Mozzoni, d. Umberto, 276n, 320, 321n
Mller, Filinto, 29, 218
Munch, Tore, 294
Muricy, Antonio Carlos, 67, 86, 106, 113-114,
114n, 115,118, 118n, 119-120, 122, 130, 131,
134-136, 291, 309, 322; e a criao da Co misso Bipartite, 
309,322-323; e a sucesso
de Costa e Silva, 85-86, 106, 113-115, 118-
120, 122, 130
Museu de Arte de So Paulo (MA5P), 395
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 214
Mussolini, Benito, 60
Nahon, Isaac, 114-115, 114n, 118; e a sucesso de Costa e 
Silva, 115
Nascimento, Euclides (Garotnho), 1 87n, 367, 368, 370
Nasser, David, 294
Nassif, Lus, 21n
Natel, Laudo: no financiamento  represso, 177
National Review, 275n
Nazareth, Helenira, 424n
Neves, Tancredo, 153, 194
New York Review of Books, The, 220
New York Times, The, 94n, 217, 275, 282, 284, 316, 334, 428
Niebus, Dalgio Miranda, 322-324, 328
Niemeyer, Paulo, 106
Nigris, Theobaldo de, 236n
Nixon, Richard, 31,283,302-303,306,331, 335n, 336; e a 
Amrica Latina, 302, 330; recebe Medici, 334-335
Nbrega, Jos de Arajo (Alberto), 53
Noruega, 294
Noschese, Raphael, 236n
Nouvel Observateur, Le, 306
Novitsky, Joseph, 275
Nunes, Adjovan (Guri), 315
Nurchis, Manuel Jos (Gil), 424n
Oest, Lincoln Cordeiro, 433n
Okuchi, Nobuo, 179n
Oliveira, Adhemar Augusto de (Finnho), 66, 317n
Oliveira, Alexandre de, 458n
Oliveira, Antnio Gonalves de, 228
Oliveira, Celso Gilberto de, 173n
Oliveira, Ciro Flvio Salasar (Flvio), 424n, 439, 439n
Oliveira, Francisco Jos de, 388
Oliveira, Jos Toledo de ( Vitor), 424n
Oliveira, Lus Antonio Medeiros de, 63
Oliveira, Miguel Darcy de, 273
Oliveira, Octavio Frias de, 216-217, 247n
Oliveira, Pedro Lobo de, 47
Oliveira, Pedro Matias de (Pedro Carretel), 440n, 447, 457n
Oliveira, Rosiska de, 273
Oliveira, Wanderley de, 322n
Oliveira Filho, Pedro Alexandrino de (Peri), 456n
Oliveira Jr., Alcidsio de, 385
Oliveira Neto, Manoel Cirilo de (Srgio), 103
Olivier, Augusto Henrique Maria, 1710
Operao Bandeirante (Oban), 59-62, 103, 104, 150, 159, 165, 
177-179, 180, 180n, 235, 263-
502 A DITADURA ESCANCARADA
264,278,299,331, 395; criao e estrutura,
60; e o dinheiro do empresariado paulista,
62; instalaes, 61
Operao Limpeza, 238
Operao Marajoara, 436, 445
Operao Papagaio, 415,417, 422, 433
Operao RocknRoli, 34
Operao Sucuri, 438
Opinio, 2 19-220
Ordem dos Advogados, 328
Ordem dos Dominicanos, 151, 267n, 306, 307; apoio e 
participao na guerrilha, 146-148, 151, 154,256,267-
269,278,303,321; e a mor te de Marighella, 152, 156, 179, 
266, 268
Organizao do Exrcito Secreto (oEs), 33, 54n Organizao 
dos Pases Exportadores de
Petrleo, 47
Organizao Rengo Sekigun, 391 Organizao Revolucionria 
Marxista  Po ltica Operria (Polop), 193
Orsini, Abeylard de Queiroz, 152n
Osava, Chizuo (Mrio lapa), 161n, 179, 179n
Osmar, 405n, 424, 430
Osservatore Romano, 307
Pacheco, Rondon, 75n, 77, 78,81
Padilha, Raimundo, 198, 287
Paes, Manoel Moreira, 183, 305
Paiva, Eunice, 328
Paiva, Rubens Beirodt: morte, 324-327, 327n
Palhano, Alusio, 384n
Palmeira, Vladimir, 87-88, 362
Panam, 304-305, 413, 459, 459n
Papa Jr., Jos, 63
Papandreu, Vitor, 384n
Paraguai, 335n
Partido Comunista Brasileiro (PCB), 38, 38n, 39,
46n, 49-51, 88, 156, 169, 176, 227, 229-230,
272-273,295,298,387,389-390; e a guerrilha,
145; infiltrado, 349 Partido Comunista Brasileiro 
Revolucionrio
(PCBR), 38,49,169-171,171 n, 193,326,349,
389n, 397n; autofagia, 393, 396; imploso,
170-171, 194
Partido Comunista do Brasil (PC do B), 149, 154; e a 
guerrilha do Araguaia, 192, 193,410-464; capacitao na 
China, 408; santurio naAl bnia, 409
Partido Comunista Revolucionrio (PCR), 193
Partido Trabalhista Brasileiro (PrB), 324
Pasquim, 0,219-221
Passarinho, Jarbas, 23, 81,275,313; e a tortura,
38, 75
Passeata dos Cem Mil, 387, 411
Passos, Oscar, 310
Paulino, Lourival, 419, 424n, 461
Paulo vi, 240, 240 o, 246,248,261,276,277-279, 288, 307-308, 
308n, 318, 334
Paz, Carlos Eugnio Sarmento da, 392n
Pedro 1, d., 82
Pedro II, d., 82-83, 270
Pedro Marivetti, 40n, 431n, 438n, 444-445n, 459 n
Pedro Mineiro, 405n
Pedrozo, Germano Arnoldi, 402
Pel, 86, 207, 210
Pell, Claiborne, 331, 333
Peralva, Osvaldo: e a censura, 214
Pereira, Arlindo (Arlindo Baleia), 411, 437n
Pereira, Athos Magno, 161 n
Pereira, Ccero, 447, 447n
Pereira, Dermeval da Silva (loo Araguaia), 455, 455n
Pereira, Domcio, 271
Pereira, Freddie Perdigo (Nagib), 182, 184, 365, 377
Pereira, luri Xavier (Joozo), 396
Pereira, Joo Batista Torrens Gomes, 55n, 97n
Pereira, Jorge Leal Gonalves, 173n
Pereira, Jos, 427
Pereira, Jos Canavarro, 59, 61, 114n, 235; e a represso, 
160; e a sucesso de Costa e Silva, 107, 114, 118; e Lamarca, 
196
Pereira, Zilda Xavier, 39n
Pereira Filho, Andr Leite, 22n
Pereira Jnior, Tobias (Josas), 448n
Pereira Neto, padre Antnio Henrique: morte,
259
Permanncia, 294
Peru, 69, 203, 330, 335n
Pessoa, Lenildo Tabosa, 269
Pezzuti, ngelo, 274
Piedras, Rubens Almeida Moreira, 428
Pinheiro, Alvaro, 22n, 425-426
Pinheiro, Joarez, 438n
Pinheiro, Jos Rufino, 406n
NDICE REMISSIVO        503
Pinto, Antnio Ferreira (Antnio Alfaiate) , 415n,
456n
Pinto, Bilac, 228
Pinto, Carlos Alberto de Carvalho, 315n
Pinto, d. Jos de Castro, 255
Pinto, Jos de Magalhes, 77, 79, 90,237,389; e o seqestro 
de Elbrick, 93, 107
Pinto, Marilena Villas Boas (ndia), 382 Pinto, Onofre 
(Augusto), 45, 272n, 348; cap turado, 48; e Lamarca, 46
Pio, Higino Joo, 91 n
Pio xi, 262
Pio xn, 243, 246, 263, 277, 306
Pires, Srgio de Ary, 323n
Pittex, Charles Ren, 357n
Planejamento de Segurana Interna, 176-177
Polari, Alex, 338
Poltica de Segurana Nacional: pensamento 
extraordinariamente pobre 188
Politique dAujourdhui, 273
Pontificia Universidade Catlica (puc), 53, 108,
307
Portela, Fernando, 417n
Portella, Jayme. Ver Mello, Jayme Portella de
Portugal, 281
Povoreli, Marco Antonio, 36tn, 363n
Prado Jnior, Caio, 231, 235,282; punio, 229
Prata, Gilberto, 390
Prensa Latina, 198, 347, 386
Prestes, Luiz Carlos, 337, 366, 391, 405
Priolli, Gabriel, 105n
Programa de Assistncia ao Trabalhador Rural (Prorural), 210
Proust, Marcel, 272
Ponto Final, 99
Quadros, Jnio, 247n
Quedogrania, 48n
Queirz, Odilon Marcheroni de, 66
Quentel, Luiz Macedo, 61
Rademaker, Augusto, 83, 121; e a sucesso de Costa e Silva, 
120; membro da Junta, 131
Rdio Dirio da Manh, 141n
Rdio Havana, 141, 145n, 157, 157n
Rdio Jornal do Commercio, 235n
Rdio Nacional, 95, 110, 141
Ramalho, Bismark Baracuhy Amancio, 305n
Ramalho, Jether, 271
Ramos, Rodrigo Octavio Jordo, 112, 113n, 119; e a sucesso 
de Costa e Silva, 117
Rand Corporation, 195
Rangel,Valter da Silva, 361n, 363n, 371-372
Reale, Miguel, 75n
Realidade, 99
Rede Associada de xv, 294
Rede da Legalidade, 135
Rego, Gustavo Moraes, 323
Reis, Luzia (Baianinha), 419n, 424n, 436n
Reis Filho, Daniel Aaro, 193
Resistncia, 109
Resistncia Nacional Democrtica Popular
(REDE), 102, 195n, 300, 386n
Reviso, 230
Rezende, Srgio, 46n
Ribas, Antnio Guilherme Ribeiro (Ferreiro),
453n
Ribeiro, Carlos Alberto Cabral, 169
Ribeiro, Cludio de Souza, 16 t n, 384n
Ribeiro, Jair Dantas, 219n
Ribeiro, Maria ngela, to
Ribeiro, Octvio (Peno Branca), 349
Ribeiro, Sinsio Martins, 447n, 460
Ribeiro Jr., Amaury, 399n
Richardson, Elliot, 284
Ridenti, Marcelo, 193
Rita, Joo Batista, 383n
Roberto Carlos, 65, 320
Rocha, Joo Leonardo, 383n
Rockefeller, David, 234
Rockefelier, Nelson, 234, 334
Rodsia, 281
Rodrigues, Darcy, 47n
Rodrigues, Nelson, 336; e d. Helder, 293-295
Rodrigues, Paulo Mendes, 409n
Rogers, William D., 283
Rolim, Salatiel Teixeira, 171n
Rollemberg, Denise, t9ln, 393n
Romeiro, Jorge Alberto, 372n
Romeu, Ins Etienne (Alda), 348n, 378, 384
Roque, Lincoln Bicalho, 433n
Rosa, Odlio Cruz, 417, 423, 453
Rosrio, Guilherme Pereira do (Wagner), 182
Rossi, d. Agnello, 248, 251, 268, 295, 308, 320; e a Ordem 
Nacional do Mrito, 252; paladi no do silncio, 279
504 A DITADURA ESCANCARADA
Rossoni, Atilio, 164, 164n
Rountree, Wiliiam M., 329-330, 333-334
Roy, d. Maurice, 275-277
Russeil, Bertrand, 289
S, Glnio, 416n, 424, 424n, 432, 436
S, Jair Ferreira de, 193
Sab, Munir Tahan, 395n
Sagrada Congregao para a Evangelizao dos Povos, 308
Salan, Raoul (Soleil), 35, 35n
Salazar, Antnio de Oliveira, 88
Saies, d. Eugnio, 246n, 251, 256-257, 290-291, 295; e as 
denncias de torturas, 307
Salgado, Joo Lopes (Dino), 351
Salies, Elisinha Moreira, 234
Salies, Walter Moreira, 234-235
Sampaio, Cantdio, 313
Sampaio, Fernando Mesquita, 161 n
Sampaio, Rubens Paim (Teixeira), 377, 384
Santa Brbara, Lus Antnio (Professor Rober to), 353
Santa Cruz, Joo, 454, 459n
Santana, Jos Atansio, 440n
Santos, Deonila Maria dos, 357
Santos, Joel Vasconceios, 173 n
Santos, Jos Anselmo dos (Cabo Anselmo,
Jadiel, Jnatas, Kmble, Daniel), 344, 345-
348n, 383; agente duplo, 346-350,384; pri so, 345-346
Santos, Jos Francisco dos, 357n
Santos, Luiz Martins dos, 438n
Santos, Miguel Pereira dos (Cazuza), 409n,
424n
Santos, Muriilo, 95
Santos, Raimundo Nonato dos (Peixinho),
455 n
Santos, Rogerio Marcelino dos, 368n
Sardenberg, Idyno, 382, 422
Sarmento, Syseno, 85-86, 94-95, 107, 112, 114, 114n, 116, 
118-119, 172; e a sucesso de Costa e Silva, 84, 86, 116, 118
Sartre, Jean-Paui, 289; e a tortura, 19-20
Sattamini, Lina Penna, 288n
Scarry, Elaine, 39
Scartezini, Antonio Carlos, 172
Scherer, d. Vicente, 248-249, 248n, 268,295,321
Schiller, Gustavo Buarque, 56n
Schilhng, Paulo, 274n
Schmidt, Crimia, 422n
Schneider, Ren, 303, 303n
Schreier, Chael Charles (Joaquim): priso, tor tura e morte, 
162-166, 168, 172-173, 176, 271, 275, 284, 284n, 326, 367, 
378
Seleme, Ascnio, 399n
Senna, Abdon, 256
Serbin, Kenneth, 322n
Srgio Macaco. Ver Carvalho, Srgio Miran
da de
Servio Nacional de Informaes (sNI), 26,
72,113,118,123,128,130,133-134,184,234,
253, 290, 294-295, 316; acordo oral com a
CIA, 154; e os EUA, 305; e a quadrilha da PE,
370; na Comisso Bipartite, 309; no go verno Medici, 30
Shibata, Harry, 152 n
Sigaud, d. Geraldo de Proena, 294-295; Confisses no se 
conseguem com bom bons, 20
Silva, Abdias Soares e, 434n
Silva, Adalgisa Moraes da, 440n, 456n
Silva, Adilson Ferreira da (Ari), 156n, 394
Silva, Agenor Moraes da, 402n, 440n, 457n
Silva, d. Alvaro da, 245
Silva, Antnio Flix da, 456n
Silva, Antonio Freitas (Baiano), 102
Silva, Arioswaldo Tavares Gomes da, 324
Silva, Carlos Medeiros, 75n, 84n; e a redao do AI-12, 84
Silva, Claudio Torres da (Pedro), 102
Silva, Elvaristo Alves da, 91 n
Silva, Ernani Ayrosa da, 59-62, 139, 186; e La- marca, 196
Silva, Eudaido Gomes da, 383n
Silva, Evandro Lins e, 228
Silva, Francisco Gomes da, 103, 104n
Silva, Geomar Ribeiro da, 322n
Silva, Jaime Petit da, 410, 447
Silva, Joaquina Pereira da, 406n
Silva, Jos Moraes, 402n, 429n
Silva, Jos Renato da, 188n
Silva, Klber Lemos da ( Carlito) , 419, 424n
Silva, Lcio Petit da (Beto), 410,414,447,451, 456, 456n, 
437n
Silva, Luiz Ren Silveira e (Duda), 457, 457n Silva, Manoel 
Joo da, 171 n
NDICE REMISSIVO 505
Silva, Maria Lcia Petit da, 420, 424n, 447
Silva, Mariano Joaquim da, 384n
Silva, Mrio Abrahim da, 423, 453
Silva, Oscar Luiz da, 160
Silva, Pedro Moraes da, 440n
Silva, Raimundo Eduardo da, 3 18n
Silva, Vicente Roberto da, 322n
Silva,Virglio Gomes da (lonas), 88-89,93, 102, 103, 104, 
144n, 149, 156n, 165, 444, 444n; primeiro preso a sumir aps 
o AI-5, 103
Silveira, Enio Pimentel da, 349, 350n
Silveira, madre Maurina Borges da, 265-266,
268
Simeo, Joaquim Dias, 363n
Simes, Helcio: e a doena de Costa e Silva, 78-
80
Sindicato dos Metalrgicos do Rio de Janeiro,
307
Sirkis, Alfredo (Felipe, Gabriel, Vitor), 100,161, 204; 
seqestro de Bucher, 339, 342
Sistema de Segurana Interna (Sissegin), 177,
188
Skidmore, Thomas, 282n
Soares, Antonio Jos, 3610, 372
Soares, Edmundo Macedo, 236n
Soares, Manoel Raimundo, 168
Sociedade Interamericana de Imprensa, 216
Sodr, Roberto de Abreu, 98, 317, 319; defesa do Esquadro da 
Morte, 316; e a represso, 61, 64; e d. Helder, 295
Sorbonne, 318
Souto, Edson Luis de Lima, 148, 251, 261
Souto-Maior, Elba Nizia Cardoso, 89n
Souza, ngelo Lopes de, 439
Souza, Cesar Montagna de, 212
Souza, Divino Ferreira de, 409n, 432
Souza, Eduardo Custdio de, 1010
Souza, Geraldo Martins de, 460n
Souza, Heitor Lopes de, 50, 50n, 120, 121n; e a sucesso de 
Costa e Silva, 121
Souza, Herbert Jos de (Betinho), 241
Souza, Jos Carlos de (Rocha), 353
Souza, Lcia Maria de (Snia), 441-444,4410,
457n
Souza, Madalena Lopes de, 405n Souza, Milton Tavares de, 
379n; marca de fe rocidade na represso, 379
Souza, Percival de, 269, 388
Souza Neto, Aldo de S Brito, 321n
Spadini, Yara, 3 18-320
Special Air Service, 67, 99n
Spreti, Karl von, 298
Stalin, Josef, 20
Stans, Maurice, 330
Stein, Stanley, 282n
Stenzel, Clvis, 191 n, 249
Stroessner, Alfredo, 73
Sucia, 386
Sued, Ibrahim, 118
Sua, 55, 55n, 273
Supergel, 395; apoio  represso, 62
Superior Tribunal Militar (veM), 56n, 69, 73, 73n,96, 
104,123,327-328, 372-373;eojul- gamento de Caio Prado Jnior, 
231
Supremo Tribunal Federal (5TF), 219n, 228, 231, 317
Talpe, padre Jan, 258
Tapajs, Renato, 192
Tavares, Aurelio de Lyra, 20, 70, 72, 73, 74, 76, 
83,84,92,107,111,112,113,115,116,118, 
121,129,131,135,137,183; e a sucesso de Costa e Silva, 117
Tavares, Jos da Silva, 384
Tchecoslovquia, 201
Teatro Maria Della Costa, 45
Teatro Municipal, 85
Teich, Daniel Hessel, 399n
Teitgen, Paul, 44
Teixeira, Antnio Carlos Monteiro, 424n
Teixeira, Clvis Magalhes, 133n, 172
Teixeira, Dinalva Oliveira (Dma), 411,424,437, 449, 454, 454n
Teixeira, Eduardo Jos Monteiro, 400n
Teixeira, Gladstone Pernasetti, 323; invaso do bispado de 
Volta Redonda, 250; morte de soldados em Barra Mansa, 320, 
322-323
Teixeira, Jos Gomes, 350
Temps Modernes, Les, 141
Tenente Chiari, 301
Tenente Correia Lima, 171 n
Tenente Duque Estrada, 1710
Tenente Magalhes, 171n
Theodorakis, Mikis, 287
Time-Life, 215, 217
Times, The, 275
506 A DITADURA ESCANCARADA
Tiradentes, 239
Tito, frei (Tito de Alencar Lima), 278,296,306,
306n
Tocnaye, Alain de la, 34
Toledo, Mrcio Leite de (Carlo, Carlos, Professor Pardal, 
Vicente), 391-392
Torres, Benjamin de Oliveira, 384n
Torres, padre Camilo, 249, 249n
Torres, Carlos Sergio, 405n, 423n, 428n
Transamaznica, 209, 408,419,422
Tribunada Imprensa: e a censura, 219
Tribunal de Contas da Unio, 69
Tribunal de Contas do Rio Grande do Sul, 74
Trinquier, Roger, 37
Troiano, Rodolfo de Carvalho (Manoel), 455- 456, 455n
Trotsky, Leon, 343
Trujilio, Rafael Leonidas, 303
Tupamaros, 54n, 298, 330
TV Bandeirantes: incndio, 63n
TV Excelsior: incndio, 63n
TV Globo, 105, 198, 215, 217, 221; incndio, 63-64, 63n
TV Record: incndio, 63-64, 63-64n
rvTupi, 115-116
Ulpiano (jurista romano), 44
ltima Hora, 234; e a censura, 210; venda, 216,
217
Ultrags, 395; apoio  represso, 62
Unio de Bancos Brasileiros, 234
Unio Democrtica Nacional (uDN), 228, 237
Unio Estadual de Estudantes de Pernambuco,
258
Unio Nacional de Estudantes (UNE), 108, 147, 156, 387, 410; 
e a Igreja, 249
Unio Paulista dos Estudantes Secundrios, 410
Unio Sovitica, 20, 200, 394
Universidade de Argel, 34
Universidade de Berkeley, 273
Universidade de Columbia, 271, 282
Universidade de Praga, 405
Universidade de So Paulo (usp), 112, 229, 231, 258
Universidade do Montana, 282
Universidade Federal do Cear, 419
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 411n, 415n, 
432n, 439n, 444n, 447n, 459n
Universidade Federal Fluminense, 399, 454n
Universidade Patrice Lumumba, 394
Uruguai, 150, 298, 330, 335n, 384n
Ustra, Carlos Alberto Brilhante ( Tibiri), 30, 1010, 
182,299, 386n; cachorros, 349; car reira, 187
Ustra, Joseta, 355
Valado, Arildo (Ari), 444, 444n, 459n
Valado, urea Eliza (urea), 459, 459n
Vale do Ribeira, guerrilha no, 192, 196, 198,203, 289, 291, 
343, 344, 365, 392, 425
Valente, Mozart Gurgel, 280-281
Valicourt, padre Roberto de, 418n, 421, 421n, 435n
Valle, Jorge Medeiros (Bom Burgus), 49, 55; acordo com o 
Cenimar, 55n
Vandr, Geraldo, 216; no exlio, 221
Vanguarda Armada Revolucionria (vAR Palmares),51-53,55,99n, 
163,166,191-192,
192n, 195, 195n, 201, 202, 353, 378, 384,
386, 386n, 394, 397n, 413; bases rurais, 162,
192 193, 389; desarticulao, 56; e o ouro
do Adhemar, 52-56; e o seqestro de
Holleben, 202-203
Vanguarda Popular Revolucionria (vPR), 40, 42n, 45,47-48, 
48n, 50-51, 52n, 54n, 55, 57, 99n, 100, 103, 142, 148, 162, 
173n, 178-179, 179n, 187n, 193-194, 195n, 196-197,202-203, 
205, 231, 252, 263, 266, 286, 289, 316, 326, 338-339,341,343-
345,347,350,353,384,389, 389n, 392-393, 393n; arrependidos, 
289; autofagia, 392; bases rurais, 196; desarticu lao, 
48,49; e Lamarca, 46, 195; e o Cabo Anselmo, 346-348; e o 
ouro do Adhemar, 52; e o seqestro de Holleben, 203-204; e os 
dominicanos, 148, 151; em busca de re cursos, 51; 
infiltrados, 349; quadros, 161, 338; seqestro de Bucher, 
340-342
Varela, Obdulio, 207
Vargas, Getulio, 38, 153, 213, 216, 234, 251; e a censura, 
218
Veja, 141, 167-168, 219; sob censura, 168-169
Velho, Otvio Guilherme, 408
Veloso, Caetano: no exlio, 221
Veloso, Joo Paulo dos Reis, 284
Veloso, Maria Raimunda Rocha (Maria da Me tade), 401, 402n, 
415-416, 434n, 437n
NDICE REMISSIVO 507
Veloso, padre Pedro, 307
Ven, padre Michel le, 254
Venceremos, 62n, 395
Venceslau, Paulo de Tarso, 179n
Venturini, Danilo, 334n
Veronese, Vittorio, 278-279
Vianna, Helio, 365n
Vicini, padre Giulio, 3 18-320
Vidal, Germano Seidi, 314
Vidal-Naquet, Pierre, 41
Vidigal, Gasto: contribuio  Oban, 62
Vidigal, Pedro, 23 7-238
Viedma, Soledad Barret, 349
Vieira, Arlindo (Piau), 406
Vieira, Jos, 440n, 455n, 458
Vieira, Luiz, 440n, 461
Vietn, 31, 94n, 145, 271, 330, 343n, 395, 420,
427
Vietn do Norte, 343n
Viliot, d. Jean, 276
Virgulino, Adalberto, 459
Virote, Juarez Mono, 322n
Vital, d., 270
Volkswagen: apoio  represso, 62, 226n
Wagley, Charles, 282
Wainer, Samuel, 211, 216, 234
Wallach, Joe, 215n
Walters, Vernon, 329, 331
Washington Post, The, 280, 335
Wauthier, Pierre-Joseph, 252-253
Westernhagen, Edward Von, lOln, 195n
Wiptier, William, 271
Wisnesky, Joo Carlos (Paulo), 432n
Yeats, William Butier, 297
Yoshinaga, Massafumi, 289n
Young, Andrew, 282
YVeton, Fernand, 44n
Zappa, Italo, 77, 90
Zenkner, Gilberto Airton, 405n, 423n, 428n, 430n, 434, 435n, 
438
Zonas de Defesa Interna (zois), 178-179, 188
P EDIO [ 1 reimpresso
ESTA OBRA FOI COMPOSTA POR TNIA MARIA DOS SANTOS EM MINION
E FOI IMPRESSA PELA RR DONNELLEY AMRICA LATINA EM PAPEL 
PLEN SOFT
DA COMPANHIA SUZANO PARA A EDITORA SCHWARCZ EM DEZEMBRO DE 
2002
